segunda-feira, 19 de julho de 2010

6ª Carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Hoje vou desvendar-te um pouco mais de como tudo se passa por aqui.

Há uma grande variedade de sítios aonde se pode estar, privilegiando a harmonia e o equilíbrio, a calma e a liberdade de se poder escolher.

A descoberta dos outros é feita de um modo completamente diferente da terrena. É como se todos tivessem sido sempre conhecidos, e só nos revelamos desde que queiramos, ou seja se nos buscam ou se procuramos.

Daí haver uma incessante “actividade” que de certa forma corresponde ao que aí na terra se chama trabalho ou ocupação só que com a grande diferença de não haver a noção do tempo, como já te referi, bem como o cansaço resultante do labor, uma vez que não temos mais o corpo.

As relações do passado, servem só para recordar as memórias da vida de cada um, mesmo com luzes e sombras, e são como que um arquivo na tal grande biblioteca de que te falei em termos figurativos. Não se atribui nenhum juízo de valor ao percurso de cada um pois foi na terra que assuntos terrenos foram analisados, julgados, condenados ou louvados e sempre porque havia um corpo que era o suporte da inteligência, boa ou má, e o agente propulsor das acções individuais e colectivas.

Aqui privilegia-se a unidade e não o conjunto, pois somos todos iguais. E ao contrário da terra em que a diversidade provocava tanto a disputa como a coesão, aqui deixou de haver necessidade de “condottieri”, líderes ou seguidores, pois somos parte dum todo. Um dia perceberás.

Não precisamos de fazer perguntas sobre o “presente” na noção terrena, porque o conhecemos.

Por hoje termino deixando-te para reflexão aquilo que tantas vezes pusemos em dúvida quanto ao seu sentido: “dos Homens terem sido criados à imagem e semelhança de um Deus, na forma em que cada um o conceber ou tiver concebido”.

Talvez o criador e a criatura, possam ter um vínculo mais forte do que o da mera submissão e um ser parte integrante do outro.

Um abraço amigo

Luis Bernardo

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