terça-feira, 29 de abril de 2014

Mehr Licht - A luz de Goethe


Ideias genéricas e uma grande presunção estão sempre em via de causar uma terrível desgraça.

Goethe

mentirosa...


praia


poitrine


subir à cabeça e tal....


opposite beauty


Nothing really matters


domingo, 27 de abril de 2014

O que Distingue um Amigo Verdadeiro

Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.

Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c.

Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser.

Miguel Esteves Cardoso

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de Abril

É indiscutível que o 25 de Abril aconteceu porque o anterior regime estava cego e nem sequer percebeu os avisos sucessivos que iam sendo dados, quer na Metrópole quer em África.

Em cada País a História traça pinceladas de inevitáveis mudanças que só passados anos, com frieza, objectividade e informação mais precisa, se vêm a entender.

No entanto, neste momento, o povo português, creio, para além dos fanáticos de serviço, não poderá festejar com tranquilidade a MEMÓRIA do 25 de Abril, pois a situação em que estamos turva a visão limpa e clara da aquisição da liberdade em 1974.

É bizarro que os saudosistas não compreendam que o tempo NÃO volta para trás, como cantava o saudoso António Mourão, nem o Dr. Salazar ressuscitaria e se o fizesse ( fenómeno do Entroncamento/Stª Comba) tombaria de medo de imediato, e voltaria à tumba.

Cada tempo tem o seu ritmo e as suas circunstâncias, por isso bom será que nos habituemos a viver o presente e a reflectir como poderemos encarar o futuro, com boas memórias, realismo e a esperança de melhores dias.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Irrita-me...

Irrita-me a ideia de que devemos fazer o que está pré-determinado, o que os outros esperam que façamos, dizer as palavras certas, escutar reverentemente, usar os mesmos perfumes, roupas, ler os mesmos livros, canções, equações, votar nos mesmos partidos, frequentar os mesmos restaurantes, não pensar pela cabeça que apenas a nós pertence. 

Ah, e sorrir para a fotografia... 

Sorrir para que o ‘mundo’ perceba o quanto estamos de bem com a vida, irreparavelmente felizes. Quando me pedem para sorrir para o retrato, provoco-os com a mesma interrogação: sorrio para quê se não me apetece sorrir?

Luis Osório

Vence, quem pensa só o que precisa para vencer


Manda quem não sente. Vence quem pensa só o que precisa para vencer.

Fernando Pessoa

almas livres


É muito raro encontrar almas livres, mas logo se vê quando o são.

Charles Bukowski

Os grandes homens são sempre os mais solitários.


Os grandes homens são sempre os mais solitários.

Charles Bukowski

Não, eu não odeio as pessoas.


Não, eu não odeio as pessoas. Só me sinto melhor quando elas não estão por perto.

Charles Bukowski

Quanto mais o tempo passa

Quanto mais o tempo passa, menos eu significo para as pessoas e menos elas significam para mim.

Charles Bukowski

A tua vida é a tua vida

A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-a enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.

Charles Bukowski

O que você viveu ninguém rouba


O mundo está repleto de ladrões. Não apenas na politicagem do dia a dia, como nos governos pegajosos. Nas igrejas, escolas, nos hospitais, nos órgãos de segurança pública os gatunos e salafrários de plantão estão à espreita. Ninguém escapa à sua roubalheira disseminada e compulsiva. Nem aquele santo recém canonizado. A noviça que virou freira. O professor que entrou para a academia, defendeu sua dissertação no mestrado e hoje ostenta o título de doutor — mas volta e meia engana seus alunos, saindo mais cedo de sala de aula.

Desnecessário sublinhar, entram para a lista a maioria dos advogados, policiais, taxistas, corretores imobiliários, já nascidos com o carimbo da ladroagem estampado na testa. Viva as exceções, felizmente. Que são poucas, lamenta-se. Sempre há a sanha incontrolável, quase automática, de passar a perna em alguém. Um certo prazerzinho, salivando escondido da nossa frágil sensatez e pretensas regras morais.
Dar fechadas no trânsito, “esquecer” de devolver o troco a mais recebido. Pegar emprestado e nunca mais devolver o livro, o batom da mãe, o tênis incrementado do irmão mais velho, o smartphone novinho do pai, o dinheiro esquecido por alguém na mesa da cozinha.

Roubar beijo da namorada do amigo, sem que ele note. Deixar escapar um sorriso sedutor para o ginecologista, ou o santo padre, concentrado em suas prédicas. Vade retro satanás. Multiplicar o número de amantes durante o casamento, sem perder jamais a expressão de candura no rosto. Atores e atrizes nota dez.

Entretanto, nesta história toda, vale ressaltar algo fundamental: ninguém rouba o que é seu, genuinamente. Aquilo que aterrissa bem dentro dos seus pensamentos e sonhos. Os defeitos, qualidades e intenções que passeiam em sua alma.  Alguns sentimentos contraditórios, emoções intensas, a presença selvagem do instinto, aquietados pela cumplicidade do silêncio.

Sim, podem deixar você nu em pelo no meio da rua, sem carteira, roupa, os óculos francêses caríssimos, adquiridos na última viagem a Paris. Podem invadir sua praia, assolada por arrastão sem tamanho. Podem enganar o porteiro e entrar na sua casa, sequestrar móveis, eletrodomésticos, os dólares guardados no fundo da última gaveta do armário. Arrancar das raízes do seu espanto as joias da sua bisavó, objetos de valor incalculável.  Surrupiar o laptop de quinta geração, seu desejo máximo de consumo dentre as novas tecnologias. Marido, mulher, filhos e empregada também integram sem distinção o pacote do sequestro e do estupro.

Fazer o quê, se todos neste momento já foram amarrados, amordaçados e humilhados pelos bandidos? Embora seus olhos devam manter-se abertos encarando o terrível pesadelo, você ainda possui algumas válvulas de escape. Cantarolar para si mesmo melodias que adora. Recitar sem sons poemas de Neruda, Drummond e Quintana. Lembrar das recentes visitas à obra de Manoel de Barros, poesia tão simples e rasteira quanto magistral — versos que se ocupam da beleza de lagartos, árvores e pedras, habitando a paisagem pantaneira.  A chuva fina e sincopada que namora as margens do riacho.

É certo, você pode fugir para recantos só seus, lugares com trejeitos camaleônicos, mudar de rumo quando lhe aprouver, em função das ordens do seu coração, ou dos anseios da sua fantasia mais dourada.
O que você viveu ninguém rouba. Seus amores secretos, tempestades e estiagens, sonhos alagados de ideais, as vezes tão pueris e ingênuos. Seu pendor artístico, os gestos incompletos, sorrisos entregues às luzes do anoitecer, pálpebras que piscam com suavidade, mistérios da alvorada.  Todas estas riquezas lhe pertencem. Esta é a sua abastada herança, que se manterá pulsante, enquanto você, com suas vestes de carne fresca ou amadurecida, deslizar entre a terra dos homens.

Você é seu redentor e algoz. Aquele que o aprisiona e algema a perversões sinistras, práticas escusas em quartos sujos e escuros. Mãos criminosas ou beatíficas que o conduzem ao voo de águias celestes e libertárias. Este universo é só seu e ninguém consegue extirpá-lo das suas entranhas.
Esteja você doente, há meses sobre uma cama. Talvez tenha perdido as pernas em um acidente de carro. Quem sabe se encontre injustamente atrás das grades. A família inteira disse adeus a você, em um acidente aéreo. Ou nada disso tenha acontecido.

A realidade e suas tragédias podem ter escapado às suas tentativas de controle e manejo. Mas é inútil dar às costas quando o destino tão avesso a comandos se aproxima, exibindo seu livre arbítrio. Afinal, tudo o que você amealhou intimamente, as histórias cúmplices dos seus desejos, a generosidade plantada a esmo e sempre em silêncio, todos estes valores são seus.

Ainda que você envelheça e já no limiar da morte, perceba fugirem suas memórias ou a consciência delas. Mesmo que submetido ao cansaço dos anos, se curve na presença de lembranças anêmicas, os seus pertences, desbotadas fotos, ainda estarão lá. Guardados na caixa de preciosidades que compõem toda a sua vida.

Ainda que você queira enterrar ou incinerar experiências, elas permanecerão flutuando. Ligeiras e leves como um pássaro pequeno. Enquanto a vida soprar em suas veias, em algum canto do seu coração, o seu álbum de histórias permanecerá intacto.

Mesmo que você tente se sabotar de diversas formas, sonegar da consciência pendores e raros talentos, eles ainda continuarão existindo. Talvez assustados, tímidos e encolhidos na antessala do seu espírito. Porque verdade seja dita: nem mesmo você, por mais que se esforce, consegue roubar a si próprio.

domingo, 20 de abril de 2014

Saudades do Mário (Quartin Graça)

Para a Bi

Saudades do Mário


Escrever sobre a morte é sempre meio assustador e um risco, pois trata-se de algo que desconhecemos, realmente.

Quando o queremos fazer para honrar a memória de alguém a quem admirámos em vida, respeitámos ou até discordámos, podemos cair em banalidades ou exagerarmos nas qualidades e virtudes, que é o costumeiro, pois só sendo-se um malvado se vai elencar os defeitos.

Hoje quero falar sobre o Mário Quartin Graça: homem inteligente, culto, atento e engraçado, com um humor fino e por vezes mordaz.

Mas apetece-me ressaltar esta qualidade previamente mencionada: ser atento. Ao que o rodeava, ao que tinha na mente para descobrir e conhecer, em ouvir quem lhe suscitava interesse para aprender, e talvez uma faceta menos conhecida desta "atenciosidade" - uma enorme humanidade em relação ao sofrimento do outro, um desvelo tímido em proporcionar ajuda, consolo e ir ao encontro.

Muita gente lhe estará grata por tantas coisas e isso é bom. Nunca se deve fazer uma contabilidade "oficial" do amor e da amizade dada com generosidade, mas pode e deve- se fazer batota quando o destinatário da informação não é o Ministério das Finanças, mas sim Nosso Senhor.

O Mário vai dar imenso jeito no Céu: organizar bibliotecas, actualizar a compra de livros que anda desleixada, divertir meio mundo mas sobretudo contamos com ele, para junto de Deus Nosso Senhor interceder por nós e pelas nossas fraquezas.

Saudades tuas, mas vemo-nos quando o Altíssimo entender. Até lá e obrigado por te teres cruzado na minha vida.

sábado, 19 de abril de 2014

The King is dead, long live the King!


Dia a dia os minutos vão passando. De facto nada tem muita importância.
Morre gente que conhecemos ou não a cada momento, sem estarem à espera ou até com morte anunciada.
Tudo acaba e por mais que haja quem queira o contrário, em pouco tempo não passaremos de memória que se vai atenuando cada vez mais no tempo.
Tantas bulhas, zangas, disputas por motivos muitas vezes fúteis ou por coisas mesquinhas, para acabarmos em cinza, pó e nada!
Mesmo em coisas mais sérias, o que ganhamos em arrecadar ódios ou rancores?
Olha-se para a cor cinzenta do morto e logo concluimos tudo...gone!

The King is dead, long live the King!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O bébé de Barry e de Wilma


Barry era um jovem americano, natural do Wisconsin que sempre vivera com a família num rancho, habituado a uma vida sã mas sem grande novidade.

Nunca viajara para fora do Estado e os seus conhecimentos eram um pouco limitados em relação ao mundo exterior ao da América. Via televisão, gostava de sair com os amigos e ir até ao bar do costume aonde bebia umas cervejas, conversava sobre “gajas”, “basketball” de que era fã, não antevendo grandes horizontes profissionais para além de uma hipótese de continuar a explorar o rancho com o pai ou trabalhar num comércio ali próximo.

Frequentava esporadicamente os bailes da escola, sabia usar o laço com perícia nos “rodeos”, namorara várias raparigas da cidade aonde estudara e acabou finalmente por dar o nó com Wilma, uma loira engraçada e roliça, também ela natural da região.

O casamento decorria sem sobressaltos e ambos aceitavam a vida pacata do interior de uma pequena cidade americana, com um quotidiano rotineiro e equilibrado.

Barry empregara-se como vendedor de um supermercado com bastante movimento, era cumpridor dos horários e das tarefas que lhe incumbiam e quando chegava a casa pelas cinco da tarde, metia-se no “jeep” e ia até ao rancho do pai aonde ainda lhe dava uma mão ou no corte da lenha ou na rega do pomar ou no podar das árvores, conforme a época do ano. Trocava uns dedos de conversa com a família e regressava depois a casa. Muitas vezes preparava o jantar, pois Wilma chegava sempre mais tarde.

Quando casaram e começaram a fazer planos de vida para o futuro, Wilma dissera-lhe que gostava de ter filhos e que para tal teriam que trabalhar os dois.

Tinha arranjado um emprego como bibliotecária da Universidade local e por isso o seu horário era até tarde pois tinha que estar disponível para as consultas que os alunos quisessem fazer a publicações ou livros, ou até mesmo ficarem a estudar em recato no silêncio de uma biblioteca, só podendo, portanto, sair depois de todos.

Quando chegava a casa, encontrava quase tudo já organizado por Barry e após jantarem ficavam no sofá a conversar ou a ver televisão e muitas vezes deixavam-se dormitar depois de um dia fatigante para ambos, acabando por se deitarem pelas 11h da noite.

A vida de uma pequena cidade na América é sem grandes programas por isso os habitantes deitam-se e levantam-se cedo e Barry e Wilma não fugiam à regra.

Fora ao médico sem dizer nada a Barry pois começara a sentir uns enjoos frequentes que a faziam ter mais sono, menos concentração no trabalho e notara que apesar de ter cuidado no que comia para se manter “fit”, o seu corpo começara a tomar umas formas mais pronunciadas.

O médico mandara-a fazer um teste de gravidez e o resultado foi peremptório: estava grávida de 3 meses.

Barry ficou radiante e anunciaram aos amigos e família o futuro nascimento e a gravidez foi-se passando com normalidade e sem problemas.

Perto já do fim, compraram o enxoval para um bebé do sexo masculino, pois o médico na ecografia que lhe fizera uns meses antes anunciara-lhes que seria um rapaz e por isso aguardavam com expectativa e tranquilidade o feliz acontecimento.

Wilma já se mexia com dificuldade e Barry acompanhou-a à consulta do último exame de rotina, até porque queria rever as instruções com o médico antes de assistir ao parto.

Barry seguia com atenção num pequeno écran o explorar da barriga de Wilma com o scanner e tanto ele como o médico repararam que a posição do bebé tinha já dado a volta e estava de frente para ambos. No entanto, observaram uma mancha nítida, como se fosse um símbolo no peito da criança, o que surpreendeu muito o clínico e deixou os pais algo preocupados. Parecia que eram umas letras gravadas.

Quando saíram do hospital e após terem sido tranquilizados pelo médico, não voltaram a pensar mais no assunto até porque lhes tinha sido dito que às vezes com as voltas dentro do útero e aparentando o rapaz ser de bom porte, ficavam agarrados aos bébés vestígios de impurezas do corpo da mãe pela exiguidade do espaço. Uma vez cá fora saía tudo!

Barry estava muito compenetrado no seu traje asséptico de marido assistente com uma máscara na boca para não conspurcar a higiene da sala de partos e dava a mão a Wilma que já tinha começado com contracções e já levava algum tempo de trabalho de parto.

O médico dissera-lhes que como o bebé estava bem posicionado poderia nascer de parto natural sem ser preciso nenhum recurso a anestesias epidurais.

Todos animavam a parturiente e Wilma respirava com força e empurrava para fora a cabeça do bebé que a partir de certa altura começou, como de costume, a sair com mais desenvoltura puxado pelas mãos do clínico que ajudava à expulsão.

Os olhos de Barry não descolavam desta tão espinhosa mas ao mesmo tempo única experiência e quando num esforço final Wilma dá um grito maior e respira mais fundo, o bébé, é expelido e retirado pelo médico para fora do corpo da mãe.

Depois de cortado o cordão umbilical e de aspirado das impurezas, ouvido o primeiro choro em consequência da respiração extra-uterina, a enfermeira pôs o bebé nú em cima do corpo de Wilma de cabeça para baixo para que ela o sentisse e o anichasse entre os seus braços cansados.

Na sala de parto, olhavam todos com desvelo para esse momento habitual do rito dos nascimentos – o encontro do filho com a mãe – e após alguns momentos a azáfama própria de desembaraçar Wilma do após parto começou a ser efectuada pelo pessoal de enfermagem de serviço.

O médico pegou então no bébé e ao aproximar-se de Barry para o mostrar de perto, virou-o para a frente e de súbito e com a maior surpresa dos circunstantes, notaram que tinha um símbolo marcado no peito: o tal da ecografia de meses antes a que não tinham prestado mais importância!

Era só e mais nada que o Super- Homem!

MNA

terça-feira, 15 de abril de 2014

banco da Avenida da Liberdade


banco da avenida da liberdade. vou a uma reunião dentro de meia-hora. giro, ver passar gente, quase todos da estranja. com o sol e o bom tempo saíram todas as lambisgoias à rua. pecados dos sentidos. neste caso olhos e mente. semana santa. comprar vendas santas nos chineses para pôr nos olhos. será que no paraíso desfilam suecas e norueguesas, espanholas e portuguesas, africanas e asiáticas por uma avenida de nuvens? essa é a grande questão: o que fazer quando nos reformarmos “là-bas”? enfim, ao lado do Partido Comunista no edifício Vitória, está a loja do Gucci! está tudo doido! vou mas é para a reunião!

reunião quase a começar. não me apetece enfiar-me numa sala. bom escritório. vendedores de sonhos. anda meio-mundo a enganar o outro. cada vez vou sendo mais pragmático. o que é preciso é fazer acontecer e ao invés, todos ou quase todos, se preocupam com comissões, luvas e ganhos pessoais e corporativos, em vez de terem o prazer intelectual e profissional de "realizarem". mundo cão. passou aqui um, bem feio, lazarento e com aspecto de ter feito sempre besteira, por acaso! se for verdade a reincarnação talvez pudesse ser o Oliveira e Costa do BPN a expiar o buraco que NOS causou a todos nos bolsos nacionais. estupor, não o cão, mas se tivesse a certeza que era ele levava um pontapé no saco....ahahah....ala que já é tarde e os Consultores chatos esperam-me!

sala de reuniões apainelada. imensos relatórios com gráficos densos e ínvios de resultados que os accionistas, normalmente não sentem entrar nos bolsos a cada ano. as despesas de representação e os custos do funcionamento, santo Deus, dá cada latada nos lucros! o que não dariam os portugueses agora nas férias da Páscoa para poderem sair, viajar (mesmo os que tonta e cegamente o fazem para destinos para os quais se endividam) deixando para trás a sensação que a rectaguarda estava segura, que apetece voltar e continuar a trabalhar para o país e ter um futuro? assim é uma espécie de entontecimento e atordoamento: beber, comer, bronzear sem poderem no fundo desligar e descansar!

- boa tarde dr. noronha andrade, posso servir-lhe uma água ou um café?
quem me dera poder responder, traga-me um bom e apetecível sonho!

já sinto passos...tchau

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mais fotografias da Família da Ìndia










São por ordem de aparecimento:

1. Um Tio-Bisavô, irmão da minha Bisavó Maria do Carmo
2. Outra do mesmo
3. Os Tios-Bisavós (irmão e irmã) a dançar numa representação, em casa de primos 
4. Algumas das casas deste Tio-Bisavô em Pangim (Nova Goa)
5. Outro Tio-Bisavô e irmão da minha Bisavó Maria do Carmo
6. Os Tios-Bisavós no Congo Belga (ela era Belga)
7. Visita dos Bisavós ao irmão e cunhada a Bruxelas, acompanhados pelos meus Avós e um Tio-Avô.

Deve chamar-se tristeza, isto que não sei que seja

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.

Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.

Fernando Pessoa

Tu tens um medo: Acabar


Tu tens um medo:
Acabar.

Não vês que acabas todos os dias.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todos os dias.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

sábado, 12 de abril de 2014

Bisavós, Avós e Tios-Avós na mata do Palácio de Guddém (Índia Portuguesa)


Mãe e Bisavó Materna


Primeira viagem a Angola - Encontro com Savimbi - Parte II



Quando saí de Genève e no regresso a Lisboa, cogitei sobre a responsabilidade de tal compromisso. Passou depressa o temor, pois nestas idades a ambição e uma certa temeridade rapidamente insuflam o espírito de aventura e desafio que há em nós.

Dividi o trabalho em três partes: a vertente angolana, a portuguesa, e a americana.

Reflecti sobre quem poderia contactar para me introduzir junto do Presidente José Eduardo dos Santos e ocorreu-me de imediato o meu sócio principal do escritório de Advogados, o António. Tínhamos uma rede europeia em parceria com a Stanbrook & Partners de Bruxelas, e o António desde há muito era consultado como jurista pela nomenclatura angolana. Tinha por isso excelentes contactos.
 
Fez-se uns telefonemas, mandaram-se uns faxes confidenciais e após um pedido para eu enviar um memorando sobre o que se pretendia, veio a luz verde, dizendo o Presidente dos Santos que aguardava a nossa visita, quando o trabalho estivesse pronto. Foram diligências imprescindíveis e só foram coroadas de êxito devido ao respeito e consideração que nutriam pelo valor, competência e rigor do António.

Esta notícia alegrou muito os USA, o Príncipe, bem como o Avi e a sua gente. 

Comecei a trabalhar na segunda vertente, ou seja, conhecer quem seria o Embaixador americano que nos acompanharia a Luanda, quais as propostas que a sua agência de lobbying tinha negociado no Capitólio como metas, prioridades, programa a apresentar e quais as instruções que o Presidente Bush tinha dado ao referido Embaixador, como seu representante qualificado, para negociar uma mudança do apoio americano às eleições em Angola, com vista a uma alternância do suporte até ali prestado ao Presidente Savimbi. 

O prazo para a data das eleições corria apressado, por isso teríamos que nos sentar todos em conjunto uns meses antes, estudar previamente os relatórios elaborados por cada parte, comentá-los e adaptá-los à realidade local, sem fantasias nem ingenuidades, tão típicas tantas vezes da política externa americana.

Fiz uma primeira viagem a Luanda e fiquei hospedado na Embaixada de Portugal, a convite do meu amigo João, que nessa altura era o diplomata acreditado junto do Governo de Angola. Recebeu-me com uma amizade e amabilidade inexcedíveis e senti-me completamente protegido numa Luanda a ferro e fogo.

Havia outro, porém, o Embaixador António Monteiro, que era o Chefe da Missão Temporária de Portugal junto das Estruturas do Processo de Paz em Angola e representante junto da Comissão Conjunta Político-Militar, em Luanda.

De ambos tive preciosa ajuda pelas análises coerentes, fundamentadas e fidedignas que possuiam e que sem rebuço puseram à minha disposição.

Encontrei-me também com o meu amigo, Manuel Lamas de Mendonça que estava como Administrador da Fábrica da Tabaqueira em Angola, mas que tinha excelentes ligações locais que me apresentou e que me foram muito úteis.

Sem alarido e com a maior discrição, tive uma reunião com o Presidente Savimbi, a pretexto de apresentar-lhe um grupo de empresários americanos que queriam investir no imobiliário no centro de Luanda, em valores para cima de US$ 150 milhões. A justificação para a visita era a de sondar como encarava Savimbi a presença de americanos em Angola, e como estava de “humores” e expectativas em relação ao resultado das eleições.

Recebeu-me com arrogância tendo sido, inclusive, desagradável ao dizer-me em frente dos clientes americanos:

- Mas o Senhor julga que isto (Angola) ainda é vosso? 

Eu respondi-lhe friamente, mostrando-lhe o meu passaporte e dizendo-lhe que ao ter um visto de entrada, demonstrava bem o meu estatuto de estrangeiro.

Depois perguntou-me se eu já tinha ido à rua das “doleiras” (uma das avenidas no bairro de Miramar, aonde estavam sentadas num passeio de pernas abertas, mulheres angolanas tendo numa mão cuanzas e noutra dólares americanos que transacionavam no mercado paralelo, numa perfeita uniformidade de taxa de câmbio que variava por igual em todas e em simultâneo).

 Respondi a Savimbi que sim e ele sem hesitação disse-me que “os americanos vão-me dar 50 a 60 milhões de dólares para me apoiarem nas eleições, por isso veja só quantos cuanzas vai dar para comprar muitos votos”!

Nessa manhã tinha precisado de trocar US$100 e o João emprestou-me o carro da Embaixada com o chauffeur que me levou às ditas “doleiras”, tendo obtido uma generosa taxa de conversão. Confirmei por isso o que Savimbi me quis transmitir.

Não fiz comentários e passados uns minutos, troquei mais umas impressões sobre a segurança em Luanda e em Angola em geral (com assaltos, mortes e escaramuças diárias e sérias entre as duas forças e não só) mas Savimbi garantiu-me que tinha tudo sobre controlo!

Confirmei o que já tinha ouvido em Portugal, que era muito racista em relação aos Portugueses e um fanfarrão. Tendo sido formado na China terá porventura bebido do fino!

Voltei assim, com um acervo de informação muito importante e interessante que comecei a burilar e a desbravar pois competia-me passar estas informações para Washington e também iniciei a preparação de recomendações estratégicas quanto à abordagem a fazer ao Presidente dos Santos, pois o Embaixador C., contava com a minha sensibilidade lusófona para evitar erros de “casting!

(continua)

O amor é bué da nice



A lonjura é um bem, quando a alma dói.
A dor, porém, não pode ser eterna.
Causa um desequilíbrio no universo
Olhos tristes, falta de sorriso
Sombra no caminho, cerrar dos braços
Beijos omissos.
Que remédio então?
Tão fácil fazer perguntas.
Talvez…o ditado pelo coração.
Um calor que sobe de dentro.
Soltam-se os espinhos que o tolhem
Bate então, livremente.
Depois, começa por uma mão
Dedos que se tocam levemente
Se entrelaçam e se unem.
Silêncio. Pôr-do-sol ou luar
Tudo recomeça
É bom. O amor é bué da nice.

in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza

terça-feira, 8 de abril de 2014

Se às vezes digo que as flores sorriem

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos

domingo, 6 de abril de 2014

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço. 


(trecho de Álvaro de Campos)

Era uma vez um menino com a luz do sol nos olhos


Era uma vez um menino com a luz do sol nos olhos e um grande e rasgado sorriso.
Nem sempre, porém, acordava bem-disposto. Havia mesmo dias que eram bem cinzentos.
Apetecia-lhe pôr a cabeça debaixo de uma almofada, cobarde, sem querer olhar a realidade e enfrentar a crueza da vida.
Fazer o que tinha como deveres, cumprir as regras estipuladas era o pior dos sacrifícios. Os homens das cavernas que ele vira desenhados numas grutas, eram de certeza mais felizes.
Dormiam, comiam e procriavam ah… e puxavam pelos cabelos das mulheres. Não sabia se era um gesto de amor ou de posse ou uma pose familiar para o desenhador das cavernas.
Pensava, que maçada deve ser não ter vontade para nada fazer  e passar as horas de olhar vago no horizonte, com a boca a saber a papel de música.
Sempre se perguntara qual é a beleza de um deserto, quente, tempestades de areia, silêncio…os profetas comiam gafanhotos e rezavam…como conseguiam? Sim, como apetece? A solidão ao extremo enlouquece e faz perder a noção da realidade…talvez tivessem alucinações…
O menino, aterrorizado com estes pensamentos, voltava a desejar por a cabeça debaixo, agora de um almofadão, macio e de penas de pato.
Vale a pena ter a luz do sol nos olhos e um bonito sorriso neste mundo tão enfadonho e pesado?
Um dia o menino passou a ter escuridão no olhar e um esgar de dor pois o sol foi-se da sua vida.
Foi, como não podia deixar de ser, o momento da sua morte.
Triste crónica de um D. Sebastião, tão igual a tantos de nós. 

In prosas bárbaras de Vicente Mais ou Menos de Souza