domingo, 28 de junho de 2015

Grécia e Portugal - Dois irmãos

Tenho-me interessado pelo caso da Grécia por diversas razões que não vêm aqui ao caso. Um dia talvez explique.

As opiniões são múltiplas desde as prudentes, outras avisadas, ainda outras excessivas e histéricas, e finalmente, as piores, pois baseadas na dicotomia esquerda/direita.

Poucas falam do povo grego, do que é acusado de não pagar impostos, ser calaçeiro e fraudulento, aldrabão, etc.

Será que as calamidades que afligem os nossos tempos e são muitas e graves, impedem que serenamente, mesmo no olho do furacão, falhe a solidariedade para com seres humanos que sofrem na pele as consequências da má governação?

Será que não se vê que o dito povo, não paga impostos porque não gera rendimentos sobre os quais recaiam mais impostos, pois são os milionários, os corruptos e o aparatchik que como em todos os outros países do mundo se protege e é relapso?

Será que só um dia quando estivermos nas filas para levantar o nosso dinheiro dos bancos, é que perceberemos o que é a aflição da incerteza do futuro?

Será que a maioria dos cronistas impiedosos já visitou alguma vez a Grécia? E viu o que se produz, o que se trabalha, a riqueza que tem e que potencialmente, bem gerida, pode vir ainda a criar?

Não há prognósticos possíveis para o que irá acontecer nas cenas dos próximos capítulos.

O que eu sei e pressinto é que será difícil fugirmos destas hipóteses que me parecem lógicas:

- a Europa cede e chega a um entendimento com o Governo Grego;

- a Europa não cede e a Grécia sai do Euro e começam em cascata toda uma série de novas situações com as suas dores e aprendizagens para ambas as partes. Não se iludam, não há buracos no mapa!

- A Grécia é apoiada pela China, ou Rússia ou USA e de uma maneira ou de outra, passa a ditar as regras à Europa pois passou de dependente de um "patrão europeu" para outro domínio imperial. Creio que os dirigentes europeus deverão, se forem ainda clarividentes, pesar as consequências de tal vergonhosa atitude de abandono.

- A Grécia, pela sua posição geo-estratégica, sai dignificada desta luta, estabelece um acordo sério e consistente para pagar o que deve e consegue "respirar" como Nação e recomeçar.

De todos estes cenários, que penso serem realistas, há que tirar uma conclusão:

- Portugal, mais uma vez, foi a reboque dos seus pares europeus,sem chama, nem brilhantismo...seguiu a cartilha. O que se espera de um Governo chefiado por pessoas inteligentes não é demagogia barata nem propostas sonhadoras, mas a reflexão e ponderação de todas as posições, uma intermediação valente e cordial sem preconceitos, com vista a uma confluência de soluções.

Imaginem o que seria o nosso Governo a dar a mão ao Governo Grego, sem serem necessárias afirmações de princípios políticos de concordância. Um irmão que ajuda outro irmão, pois somos brothers in arms, quase na mesma situação.

A lição que daríamos ao mundo, o impacto que criaríamos num maior conhecimento da nossa cultura, do nosso país.

Uma diplomacia activa, com mentes jovens, dinâmicas, desdobrando-se em viagens e contactos.

O que pensaria a Grécia e a Europa? Pequeno país, mas solidário, da mesma franja europeia.

A França e a Alemanha não podem fazer isto porque são majestáticos e a Espanha já tem complicações que bastem.

Mas não, temos um Ministro dos Negócios Estrangeiros velho e que ou está calado ou sai asneira, enfim...percebem-me

quinta-feira, 25 de junho de 2015

As mulheres têm fios desligados por António Lobo Antunes

""Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."

António Lobo Antunes

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Be nice to me


My father had taught me to be nice first, because you can always be mean later, but once you've been mean to someone, they won't believe the nice anymore. So be nice, be nice, until it's time to stop being nice, then destroy them.

Laurell K. Hamilton

sábado, 20 de junho de 2015

DE NOVO A GRÉCIA



Volto de novo ao tema do momento: o que vai acontecer à Grécia a curto prazo?

Li e reli dezenas de argumentos, em escritos de comentadores políticos, económicos e jurídicos nacionais e estrangeiros bem como o que diz a imprensa internacional.

Fico com pena que neste areópago que é o FB, a maior parte das vezes os comentários são emotivos, vingativos, politiqueiros e incompletos.

Realço de novo que se conseguirmos colocar-nos na pele de uma família grega desempregada, sem condições mínimas de dignidade de vida, sem vislumbre de soluções realistas se soçobrarem, o que mais desejam, colados ao vidro de uma televisão, é que não lhes cortem o futuro.

Transportem-se para cá, para vilas e aldeias, para cidades com velhos e reformados, desempregados de meia-idade, jovens sem o primeiro-emprego, pessoas com fome, sem casa, endividados, para já não falar dos espoliados do BES e vítimas dos rombos do BPN e similares e o que desejariam que os países ricos da Europa fizessem?

Sim, claro, os sucessivos governantes gregos foram corruptos, esbanjaram dinheiro, não foram exigentes na condução de um Estado rigoroso…tudo isto é verdade! E a Alemanha e a França e os outros países europeus quando venderam submarinos caríssimos à Grécia com as inevitáveis corrupções para todos os lados, e as armas e os aviões militares, etc, etc, etc

É uma situação de caos, pois é! O que se faz nestas situações quando se detém o poder? Organiza-se, ajuda-se, endireita-se o desequilíbrio, impõe-se medidas de correcção mas não se abusa, não se violenta nem se castiga…o dinheiro que a Europa se propõe pagar com fortes medidas de austeridade locais, entra e volta a sair para reembolsar os países "caridosos" da União Europeia…o que fica na Grécia para minorar as dificuldades, incrementar a economia e baixar o desemprego? NADA.

Por isso, volto ao princípio e lembro-me sempre do episódio do filho pródigo que não vou relatar aqui pois quem o não tem bem presente nas suas vidas, que o leia e aprenda pois é muito útil nas relações familiares, profissionais e sociais.

Transcrevo aqui um pequeno texto do Luis Osório que me parece muito a propósito daqueles, que na Grécia, esperam por dias melhores:

“O desemprego não é apenas a falta de um trabalho. Não é apenas a ausência de ocupação, a lentidão dos minutos, a ditadura das memórias, o olhar complacente dos outros, a falta de dinheiro, o sentimento de humilhação, a ideia de um não sentido para as vidas. Não é apenas cada uma dessas coisas, mas a soma delas e de todas as outras que aqui não cabem. O desemprego é o fim dos dias úteis, um Domingo em tamanho XXL, um Domingo onde até o Sol parece ter derretido, um Domingo que não acaba.”

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Oxalá que nenhum de vocês falhe na vossa vida e não precise da ajuda, perdão e compaixão dos outros

 

Acho que devemos torcer pela Grécia como país e pelos Gregos como povo. Há que ter solidariedade e respeito pelo sofrimento e consequências danadas que esta situação pode causar.

Nada disto tem a ver com apoios ao Governo actual ou passados. Não se enganem, não se chega a uma situação destas sem a conivência de todos os políticos...de esquerda ou de direita.

Pouco adianta acusar os Gregos de serem relapsos, fugirem aos impostos, etc...cada povo é como é, e sem embargo de discordarmos totalmente de tais práticas, chegámos a um estado em que só deve falar a compreensão e a ajuda.

Medidas exigentes e controlo estrito, claro que sim. Deixar um povo afundar-se, claro que não.

Não me apetece hoje falar da situação em Portugal nem das consequências que poderão advir para nós, Portugueses, da derrocada Grega.

Os meus considerandos são muito mais humanitários do que interesseiros.

Em todos os países há governantes sérios, patriotas e desejando o melhor para os governados, mas também há muito patife miserável e desprezível em Portugal, que me causa uma raiva imensa de continuarem impunes.

Por isso estou de acordo com a imagem que abaixo publico: vai-te embora ó morte!

Oxalá que nenhum de vocês falhe na vossa vida e não precise da ajuda, perdão e compaixão dos outros. Eu vejo isso a toda a hora no meu trabalho de voluntariado nas prisões. Aprendi a ser mais tolerante com os outros e a saber perdoar. Mas aceito com humildade as vossas críticas. Há aquela frase que dizia: só sábios éramos 5...

domingo, 14 de junho de 2015

Fiquei sem palavras - Admirável


Paulo Varela Gomes, Maio de 2015
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”. 
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”. 
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara. 
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar. 
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo. 
Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca. 
Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer. 
Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.
Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos. 
Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.
Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer. 
As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.
Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor...” 
Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte? 
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães. 
Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde. 
E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado. 
Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta. 
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe. 
Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio. 
Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte. 
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se. 
Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era. 
Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore. 
Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé. 
Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:
“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.
S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015

El conde de Cardigan

Nobles arruinados ha habido siempre. Resultan entrañables y mejor aún cuanto más hacen por esconder sus penalidades. El conde de Cardigan ha optado en cambio por la estrategia contraria y no ha tenido reparos en contar hasta dónde llega el desastre en el que se ha convertido su vida. Los británicos conocen bien algunos detalles de su día a día que transcurre, sobre todo, en la cocina de su casa porque allí están más calientes. Cuando cae la noche, el aristócrata de 61 años y su mujer Joanne, de 49, se retiran al dormitorio y ambos duermen vestidos para evitar el frío. Las duchas se las dan en los baños públicos porque tampoco tienen agua caliente y él, mientras, busca trabajo de lo que le salga, como chófer, p.ej, aunque a su edad no es fácil. Hasta intentó sacarse el carnet de conducir vehículos pesados para hacerse camionero y cumplir así uno de sus sueño infantiles, pero eso tampoco pudo ser. Una extraña ambición para un niño que creció rodeado de todas las comodidades, hijo del marqués de Ailesbury y de Edwina Sylvia Bonn, perteneciente a una acaudalada familia. Su infancia transcurrió en esa misma mansión con más de 100 habitaciones en la que vive ahora y que se encuentra dentro de unos bosques de casi 2.000 hectáreas también pertenecientes a la familia. De vez en cuando, si el conde tiene suerte, le llaman de una agencia de empleo temporal y puede así completar el subsidio de 85 euros semanales que le paga el Estado británico. Uno de los empleos que ha desempeñado ha sido el de conducir una furgoneta para un empresa de catering que se encarga de abastecer a los aviones privados que pasan por Heathrow. Una dolorosa paradoja: al conde le tocaba llevar latas de caviar de Harrods al aeropuerto. Joanne, por su parte, no puede trabajar al ser ciudadana americana y contar con un visado de turista. Ahora, además, ha nacido su hija. Toda una sorpresa, dada la edad de la madre, que les hizo concebir a ambos un montón de esperanzas. Y si la niña venía con un pan debajo del brazo? O mejor, si la venida al mundo de la criatura conseguía ablandar el corazón de los administradores de la mansión? Porque ellos son, según el conde, los culpables de todo. Siete años de enredos. En 2006, el conde firmó un acuerdo para convertir la mansión en un hotel de lujo con spa y campo de golf. El contrato implica un alquiler por 150 años y una inversión de unos 60 millones de euros. Patrimonio autoriza el proyecto, ya que se trata de una construcción que ostenta el mayor grado de protección, y se consiguen todos los permisos, lo que permite a la familia no desprenderse de la propiedad y al mismo tiempo obtener un gran rendimiento de ella. Pero poco después estalla la crisis financiera y los inversores deciden abandonar el proyecto. Casi al mismo tiempo, también en 2006, el conde viaja con Rosamund su primera mujer, a Arizona para visitar a su hija lady Catherine que se encuentra en un centro de desintoxicación. Durante ese viaje, el matrimonio salta por los aires y el conde, muy afectado, ingresa en otro hospital especializado en salud mental y adicciones para reponerse del trauma. Allí conoce a su segunda mujer, Joanne, que se recupera de su dependencia a los analgésicos. Ambos se enamoran y el conde se queda a vivir 5 años en Estados Unidos. Durante este tiempo, dos administradores se ocupan de las gestiones de sus propiedades. Uno de ellos es un viejo amigo del aristócrata al que conoce desde hace más de 30 años. A su vuelta de Estados Unidos, en 2011, estalla la batalla legal entre el conde y los administradores que, según la versión del primero, le cierran el grifo y no le dan ni un penique, además de apropiarse de casi 600.000 euros suyos e impedirle, por ejemplo, vender algunos objetos de plata para ir tirando. Pero el cruce de acusaciones entre ambas partes no se queda ahí y los juicios se suceden. John Moore, uno de los administradores, denunció al conde por escupirle y la justicia le absolvió. Sí que reconoce el aristócrata que llamó «cerda fea» a la mujer del otro, pero solo después de que escuchara como le decía que Joanne necesitaba perder peso. La familia del conde. En mitad de todo este lío, el conde no cuenta con la ayuda de sus dos hijos mayores que hace tiempo dejaron de hablarle. El mayor, Thomas, permanece al margen, mientras que lady Catherine ha saltado a la fama como cantante con el nombre de Bo Bruce. Incluso participó en la versión inglesa de La voz. El conde cuenta, eso sí, con el apoyo de su madre. A mediados de octubre, nació Sophie, la nueva hija del aristócrata, lo que supone una boca más que alimentar pero también algunas ventajas sociales. Según enumeraba la prensa británica, sus padres podrán optar ahora a 600 euros por el nacimiento, 24 euros semanales y una ayuda extra de hasta 3.900 euros anuales si cumplen determinadas condiciones. Lo que no ha conseguido la recién nacida ha sido apiadar a los administradores. Al revés, poco después de que la criatura viniera al mundo, el conde contaba que el paso que habían dado sus enemigos era intentar vender la mansión en contra de su voluntad por 12 millones de euros. El mes que viene se celebrará un juicio que puede resultar decisivo. Mientras, nos quedamos con la frase que su mujer dijo bromeando al 'Daily Mail': Debería haberme casado con un fontanero, así por lo menos tendría agua caliente.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

a venda da TAP


Acabei agora uma reunião e estou de volta a casa. Há sempre qualquer coisa cá dentro que deixa uma sensação de incómodo. A venda da TAP nestas circunstâncias faz-me recuar uns tempos atrás, aonde todos os Portugueses tinham orgulho na sua transportadora e nem se concebia que fosse vendida nem que tivesse prejuízos e passivos deste montante.

Pensávamos na segurança, na qualidade, na certeza de sermos bem tratados e no orgulho de ouvirmos elogios internacionais gabando uma empresa portuguesa.

Não interessa apurar se foi bem vendida, se o comprador é ou não o melhor, se o PS tem razão ou não ou se o Governo agiu bem.

Faltam-me dados para ter uma rigorosa opinião sobre o assunto em todas as suas vertentes. Irrita-me logo os "asseclas" da oposição a ameaçarem que fazem reverter o negócio, com os custos para todos nós em dois tabuleiros: as indemnizações vultosas a serem pagas por frustração das expectativas e lucros cessantes bem como o que o Estado terá que aportar para assegurar a manutenção na esfera pública da companhia, passados tantos meses.

Por outro lado, os "manteigueiros" do poder e do Governo nem lhes passa pela cabeça que o Governo possa errar. É demais!

A sensação que me dá, não sei se concordam ou já sentiram alguma vez, é a do dia do enterro de alguém que nos disse muito, quando se regressa à porta do cemitério para mergulharmos de novo na vida, fica-se com a boca sêca, sem jeito e sem vontade de recomeçar. Há como que um cansaço de encarar a vida sem a presença desse familiar ou amigo querido.

Pois é o que sinto e ninguém me convence que estamos em tempos melhores...cada dia a caminhar para situações de desencanto que não se resolvem com folhas de cálculo.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Qu'ai-je donc fait ?


Qu'ai-je donc fait ? J'ai aimé l'eau, la lumière, le soleil, les matins d'été, les ports, la douceur du soir dans les collines et une foule de détails sans le moindre intérêt comme cet olivier très rond dont je me souviens encore dans la baie de Fethiye ou un escalier bleu et blanc flanqué de deux fontaines dans un village des Pouilles dont j'ai oublié le nom. Je ne regrette ni d'être venu ni de devoir repartir vers quelque chose d'inconnu dont personne, grâce à Dieu, n'a jamais pu rien savoir. J'ai trouvé la vie très belle et assez longue à mon goût. J'ai eu de la chance. Merci. J'ai commis des fautes et des erreurs. Pardon. Pensez à moi de temps en temps. Saluez le monde pour moi quand je ne serai plus là. C'est une drôle de machine à faire verser des larmes de sang et à rendre fou de bonheur. Je me retourne encore une fois sur ce temps perdu et gagné et je me dis, je me trompe peut-être, qu'il m'a donné - comme ça, pour rien, avec beaucoup de grâce et de bonne volonté - ce qu'il y a eu de meilleur de toute éternité : la vie d'un homme parmi les autres.

Jean d'Ormesson

sábado, 6 de junho de 2015