sexta-feira, 31 de maio de 2013

Estou cansado


Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos

le plaisir de lire

Il est un bonheur pur auquel mon cœur se livre,
C’est d’avoir un ami sage, instruit, parlant bien,
Qu’à mon gré je consulte en intime entretien,
Et chacun peut avoir cet ami, c’est le livre !

H. Laroche

terça-feira, 28 de maio de 2013

Preguiça

 

Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.
Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim .

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.

Álvaro Magalhães

Sonhador

Sonhador não é o que dorme. É o que acorda antes, é o que se levanta cedo. Oscar Wilde afirmou: «Um sonhador é aquele que só ao luar descobre o seu caminho e que, como punição, apercebe a aurora antes dos outros». 
 O segredo do sonhador está na antecipação!

João Teixeira.

domingo, 26 de maio de 2013

Carta da Primavera ao meu primo Luis Bernardo - alçapões



Querido Luís Bernardo,

Tenho andado por fora, e não te tenho ligado bóia!

Gostava de ter os teus comentários sobre umas quantas personagens e alguns assuntos que estão na actualidade, a saber:

- Papa Francisco ( impossível não falar dele)

- Rei de Espanha ( interessante observar com elevação e distância a debilidade humana)

- Futuro de Portugal ( o teu e o meu País)

E já não estamos mal, para saciar a curiosidade e ter leitura para tardes de sol e de calor.

Um abraço muito dedicado do teu primo e amigo

Manuel

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A arte de se ser pobre


Quase todos os dias vou tomar o pequeno-almoço a uma cafeteria não longe do meu escritório e havendo perto um Pingo-Doce de dimensão significativa, ao passar nas imediações dirige-se a mim, a mesma mulher.

Deverá ter uns 40 anos, mas parece mais 10, magra, mal enjorcada, com uns olhos azuis claros cravados numa cara cavada, sem uma boa parte dos dentes e exprimindo-se em poucas palavras.

Outra personagem da zona é uma paralítica, sentada o dia todo em frente da porta do dito Pingo-Doce numa cadeira de rodas, com uma das mãos permanentemente estendida a pedir e na outra, cigarros, que fuma, um após outro. Suja, com a imagem da inutilidade estampada no seu infortúnio. Incomoda e não apetece!

Ambas se odeiam: uma porque está imóvel e mais maneirinha para recolher óbulos directos de quem sai, mas sem “jogo de cintura” para tentar pedir a quem chega dos carros ou lhe recusou. A outra porque tem que rondar longe e é mais cansativo.

Esta última, quando se aproxima de mim, “grunhe” com uma cara entre o abandono, o frio ou o calor, a fome ou o desalento: “uma moedinha”!

Todos os dias lhe digo que tem que fazer “marketing”, ou seja no caso dela, começar por dar bom dia, depois tentar sorrir um pouco e só depois olhar, basta isso, pois sabemos ao que vem.

Coitada, pede-me logo imensas desculpas e diz que se esqueceu! Também fala mal da outra e eu replico-lhe que ninguém está interessado em saber das tricas.

Há uma arte de se ser pobre! 

Que o diga o Governo que acho, modestamente, que também precisa de saber negociar com o esmoler…

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Contraste


1. Não falta — a esta hora — quem, além da admiração pelo Papa, se aperceba de um certo contraste entre ele e muitas estruturas da Igreja.

É natural, por isso, que, neste tempo novo, surjam perguntas novas: que tem de especial o Papa Francisco?; o que levará tantos a admirá-lo tanto?

É então que sobrevirá a pergunta de sempre: o que falta na Igreja para cativar, para convencer de modo persistente e para motivar de forma duradoura?

2. O que tem faltado à Igreja é o que abunda no Papa: «vinho»! Sim, falta-nos «vinho». Aliás, não custará muito imaginar Maria, na eternidade, a continuar a dizer a Seu Filho o mesmo que disse em Caná: «Não têm vinho» (Jo 2, 3).

Parece que, como há dois mil anos, o «vinho» se esgota rapidamente. Este «vinho» não é o líquido que costumamos ingerir. Este «vinho» é, como notou Carlo Maria Martini, «a alegria do Evangelho».

3. De facto, às vezes dá a impressão de que «a Igreja se assemelha mais a um velório do que a uma festa».

Não é tanto o riso que está em défice. O que parece escassear é a vivacidade, a transparência, a substância, a autenticidade, o sabor!

4. É preciso recolocar no centro duas atitudes que tendemos a subestimar: a transparência do testemunho e a paciência na missão. Convém não esquecer que Jesus sempre verberou a hipocrisia, o jogo escondido, a intenção subterrânea e a cobardia.

5. A mudança é um processo demorado e, quase sempre, doloroso. É tecido com resistências e nem sequer está imune a recuos e atropelos. Começa por implicar algo elementar, mas inquestionavelmente difícil: reconhecer os erros e assumir as falhas.

6. Uma coisa é certa. Nunca há fraqueza na franqueza. Não pode haver desconfiança em relação ao diferente, nem receio diante do novo. Não estará o Espírito de Jesus a falar-nos, nestes tempos, como falou nos primeiros tempos?

7. No entanto, é fundamental que a franqueza seja temperada pela paciência. O embate com uma realidade granítica pode atrair a impaciência e conduzir à desistência. Não podemos viver obcecados com o imediato. As dores da mudança são dores de uma vida que nasce e não de um corpo que adoece.

8. É por isso que a paciência pode ser mais importante do que a própria inteligência.

9. A paciência ajuda a persistir mesmo perante os dados da evidência. A paciência vive de uma saudável transgressão das evidências. De resto, a experiência mostra que as evidências também se alteram.

10. A paciência põe a esperança em dia. A paciência não exclui a acção. A paciência é o melhor combustível para a acção. É o combustível que nunca se extingue. A paciência pode exasperar. Mas não é a paciência que complica. A falta de paciência é que tudo destrói!

João Teixeira

sensualidade

Que alguien te haga sentir cosas sin ponerte un dedo encima, eso es admirable.

Mario Benedetti

Cansado da inteligência

Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!

Álvaro de Campos

sábado, 11 de maio de 2013

Mon métier


J’essaie, en tout cas, solitaire ou non, de faire mon Métier.
Et si je le trouve parfois dur, c’est qu’il s’exerce principalement dans l’assez affreuse société intellectuelle où nous vivons, où l’on se fait un point d’honneur de la déloyauté, où le réflexe a remplacé la réflexion, où l’on pense à coup de slogan, et où la méchanceté essaie de se faire passer trop souvent pour l’intelligence (...).
Je vis comme je peux dans un pays malheureux riche de son peuple et de sa jeunesse, provisoirement pauvre dans ses élites.

Albert Camus

terça-feira, 7 de maio de 2013

escrever

Ecrire c'est ébranler le sens du monde, y disposer une interrogation indirecte, à laquelle l'écrivain, par un dernier suspens, s'abstient de répondre. La réponse, c'est chacun de nous qui la donne, y apportant son histoire, son langage, sa liberté.

R. Barthes

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A minha irmã Teresa


A minha irmã Teresa é a pessoa mais feliz que conheço.

Tem um número grande de incapacidades desde ter cada vez menos grau de visão, ter tido uma doença oncológica de que se curou, não ter a noção do tempo nem do espaço, mas sabe ler, escrever, conversa bem sobre um certo número de temas limitado que são o seu dia-a-dia e é sobretudo, desde que os meus Pais morreram, possuidora de uma dose de imaginação criadora inesgotável. Perigosa até, pois inventa histórias singelas familiares, convencendo-se a ela própria de que a realidade é como sonha e transmite.

Vive na enorme e antiga casa dos meus Pais em Lisboa ao pé do Rato, somente acompanhada por uma empregada ucraniana que trata dela e com ela passeia todos os dias.

Nós, os irmãos e irmãs, fizémos um plano de escalas em que um dia por semana ela vai jantar às nossas casas e nos fins-de-semana e feriados também cabe a cada um, ficar com ela.

Desde sempre a Teresa foi por nós todos protegida e amada na sua fragilidade e é como se estivesse numa citadela guardada por muros fortes e altos que somos nós, inexpugnável à maldade, à troça e ao seu sofrimento. 

Vem tudo isto a propósito de ontem ter sido mais um dos dias em que fiquei responsável por ela.

Depois de almoçar, passar algum tempo enfiada em casa, vem a pergunta sagrada: - aonde vamos hoje?

Nada de cinema, televisão ou leituras pois não vê, não se interessa nem segue os temas, por isso é preciso uma grande dose de imaginação para ocuparmos o tempo.

O meu recurso é ou uma ida ao shopping do Colombo, por ser grande e ter espaço para passear quando está frio ou chuva e ela ver gente, ou ao Chiado à Fnac, pois em ambos os sítios aproveito para olhar para as novidades, fazer, eventualmente, alguma compra. 

Acabamos sempre a tomar um chá e comer uma torrada, ou um bolo “jesuíta” que ela adora!

Ao subir na escada rolante e agarrada ao corrimão, de repente caiu e bateu com os joelhos no chão, com a cara no lado, saltando uma lente dos óculos e ferindo uma mão.

Amparei-a e ao apanhar a lente do chão, e rapidamente ver que sangrava dos joelhos mas por ter raspado com força, ouvi um choro baixinho e uma frase dita com tanta tristeza – cada vez vejo menos – : não pude deixar de a agarrar ainda com mais força e apertá-la nos meus braços, consolando-a. Fiquei eu, sem palavras, pois não há nada a fazer!

O resto passou-se bem: estas grandes superfícies têm sistemas de primeiros-socorros, têm também lojas ópticas aonde facilmente fixaram a lente, e passada a primeira aflição, voltou ao seu bom espírito, confiando em mim e concordando em irmos a outro sítio lanchar.

Não deixei de pensar nisto e à noite quando me deitei, reflecti como é a vida, para uns as limitações físicas, quando sólidamente ancoradas, acabam por ser portadoras de felicidade para os próprios e exemplo para terceiros e nós os outros com tantas capacidades, nada nos basta de exigências e de queixas.

O Peninha e o aumento da idade da reforma



O Peninha, aterrorizado dirigiu-se ao balcão da Segurança Social:

- A srª se faz favor, diz-me se o aumento da idade da reforma vai para além da morte do beneficiário?

A empregada ficou basbaque. Nunca tinha pensado em tal e respondeu:

- Eu acho que sim, mas de qualquer maneira é melhor perguntar por escrito, não vá ser aprovado o novo limite e mesmo assim não haver dinheiro para pagar. Imagine-se, eternamente – disse ela para dentro de si, em pensamentos.

É que o Peninha, ainda estava longe dos 65 e tinha planos: comprar uma mansão com piscina, ter um jardineiro que lhe tratasse do gazon, ter sobretudo gravilha na entrada para quando o Maserati chegasse, poder ouvir aquele barulho agradável dos pneus largos a pisarem a pedra moída fina…

Queria ter uma mesa grande com um tampo de mármore num terraço largo aonde teria sempre um jarro de cristal com um líquido com uma côr entre o rosado e o carmim: lembrava-se da Música no Coração - que vira uma dúzia de vezes - quando o Barão von Trapp dá à governanta um copo cheio desta bebida, que ela gulosamente engolia.

- Oh mãe que bebida é esta? Podia fazer cá em casa. E a mãe do Peninha, respondia sempre: deve ser groselha com leite, só pode, com aquela côr! 

Era só o que faltava, obrigarem o Peninha a trabalhar mais dois anos e já com 67 ainda correr o risco de nada receber. Sim, a pensão deve ir para além da morte, pois não vá precisar lá no raio do sítio para onde o mandarem.

Pegou numa caneta reles, atada a um cordel e pôs-se a escrever:

- Excelência, Senhor Ministro das Finanças…era como lhe tinham ensinado…

Teve uma fúria que lhe veio cá de dentro, sentiu um soluço de tristeza e de raiva, mais até de impotência e recomeçou:

- Ao Pulha do Ministro das Finanças…e a carta seguiu até que cansado de expender argumentos e já fora do horário da mulher da limpeza, o puseram fora da Repartição das Finanças.

- Olhe que amanhã também é dia…pode voltar e continuar a escrever – disse-lhe o segurança com solicitude e ajudando-o, meteu-lhe nas mãos uma resma de gatafunhos, aonde só se conseguia ler, pulha, pulha, ladrão, ladrão…

In crónicas do improvável de Vicente Mais ou Menos de Souza

Luis IX ou S. Luis de França e uma história exemplar a propósito do dia do trabalhador


Luis IX, Rei de França, também conhecido por S.Luis, um dia por volta de 1234 foi visitar a Catedral de Chartres que tinha sofrido um grande incêndio e que estava a ser reconstruída.

Interessou-se pelos trabalhos que estavam a ser efectuados e foi falando com cada um dos operários, inquirindo pelas suas profissões e específicas funções na recuperação da Catedral.

Falou com um carpinteiro que lhe explicou que estava a terminar a nave principal da Catedral, seguidamente com um escultor que lhe disse que estava a esculpir uma nova imagem, depois com um pintor de retábulos que estava a consertar altares entalhados e retratos de Santos, finalmente com o arquitecto-chefe que lhe prometeu a conclusão para breve.

Mesmo à saída, na porta principal, cruzou-se com um ancião que varria para fóra o lixo e os desperdícios que cada um dos outros fazia nos respectivos trabalhos.

Intrigado pelo zelo e eficiência com que desempenhava a mais humilde das tarefas apesar da idade, perguntou-lhe o que fazia ali, ao que ele respondeu:

- Majestade, estou a reconstruir uma Catedral!

É esta noção de trabalho que nos falta muitas vezes em Portugal: a de repartirmos com empenhamento e espírito de equipa o sucesso dos nossos labores e trabalhos. Todos, mesmo os mais humildes, contribuem para que a obra, o produto, o conceito, o projecto, surja.