quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Não. Não tenho limites.

Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.

Miguel Torga

A morte é uma vida vivida


A morte é uma vida vivida. A vida é uma morte que vem.

Jorge Luis Borges.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O psiquiatra - Um breve conto (continuação)



Luís acordou estremunhado e olhou para o relógio, preocupado pelo decorrer das horas.

Tinha consultas no Hospital, pois já era psiquiatra de facto há vários anos e tudo isto não passou de um sonho que teria que interpretar quando tivesse tempo.

A sua vida era muito bem preenchida com tudo aquilo que gostava de fazer e por isso um certo travo amargo ficara-lhe na boca…porque raio havia de lhe ter ocorrido todo este enredo?

Saiu apressado para apanhar o carro e quando entrou, verificou que tinha um pequeno bilhete dobrado no para-brisas.

- Que maçada, uma multa! E pegou no papel e verificou que era branco e que dentro teria alguma coisa escrita.

- Leio mais tarde, pois estou cheio de pressa! E meteu o papel no bolso.

No intervalo das consultas e enquanto o paciente seguinte não entrava, foi buscar o papel ao casaco e ao abri-lo teve a maior das surpresas.

Tinha escrito, em letra firme de tinta preta uma pequena mensagem que dizia assim:

“ Espero-te logo para jantar. Liga para o 919445673 que é o número do porteiro do prédio para te abrir a porta. S.”

Seria o Seixas, seu amigo e colega de Hospital que andava com uns problemas e que lhe tinha dito que gostava de desabafar? 

Seria possível que fosse a Sandra do sonho?

Mais tarde ligaria, pois a enfermeira acabava de lhe abrir a porta para dar entrada no seu gabinete a um novo paciente.

Os braços eram somente feitos de nuvens


Um dia compreendeu como os seus braços eram somente feitos de nuvens.
Impossível com nuvens abraçar até ao fundo um corpo, uma sorte.
A sorte é redonda e conta lentamente as estrelas do estio.
Fazem falta uns braços seguros como o vento,
E como o mar um beijo.
Mas ele com os seus lábios, com os seus lábios não sabe dizer senão palavras, palavras até ao tecto, palavras até ao solo.
E os seus braços são nuvens que transformam
a vida em ar navegável.

Luis Cernuda

the way you look at things


If you change the way you look at things, the things you look, change ...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

morreu de quê?

Há amigos que podiam ser da Familia e Familia que não é amiga!

Provérbio da vida

Sou cool


I am not perfect, but parts of me are excellent...ahaahah

Pensamentos

Did you know the people that are the strongest are usually the most sensitive?
Did you know the people who exhibit the most kindness are the first to get mistreated? Did you know the one who takes care of others all the time are usually the ones who need it the most?
Did you know the 3 hardest things to say are I love you, I'm sorry, and Help me.
Sometimes just because a person looks happy, you have to look past their smile and see how much pain they may be in.


From life

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O psiquiatra - Um breve conto (continuação)



Sandra reparara em Luís quando lhe anunciaram que ia ser ele, o seu interlocutor.

Achara-o giro e sensual e de imediato decidira que o havia de encantar e deslumbrar, e para isso preparava cuidadosamente a sua “história”, ou seja o papel que incarnava e o perfil de “paciente” virtual.

O seu objectivo era claro: queria-o na cama e depressa nem que para isso tivesse que usar de todo o seu charme e persuasão.

Escolhera com critério a roupa que ia usar: uma tee-shirt de fina popelina branca entreaberta deixando ver duas “maçãs” roliças e com bicos pontiagudos, pois iria sem soutien, o que normalmente atraía a atenção de toda a gente.

Levaria por cima um pullover em v, de cachemira beije, de toque impressionantemente macio e umas calças apertadas e justas ao corpo, de pelica castanha, moldando um traseiro bem torneado. Calçaria uns sapatos de salto alto deixando ver um pé bem feito e harmonioso.

Se pudesse, em algum momento, apetecia-lhe beijá-lo loucamente com a sua boca fogosa e enlaçá-lo atraindo-o para os seus braços, inebriando-o com o seu perfume fresco e irresistível.

Tentaria revelar-se uma vadia e insaciável “valquíria” pois o “papel” de esposa insatisfeita assim o sugeria.

Tinha, porém, algum receio de que Luís pudesse achá-la uma desavergonhada e atrevida, mas começaria por anunciar em voz alta que tudo quanto ali fizesse ou dissesse, não correspondia ao seu verdadeiro eu.

No fundo, por prudência, preferia salvaguardar-se e até desempenhar a função de uma excelente “actriz” representando o seu papel, de acordo com o “guião”.

Luís, por seu lado, cogitava em como poderia aprofundar mais a verdadeira personalidade da “paciente” e gostaria que depois do seu “espectáculo” pudesse guardar alguma cumplicidade com a “modelo” da sua experiência.

Luís era muito atreito às tentações e resistia-lhes pouco e quando provocado com sensualidade e subtileza, gozava muito mais do que com vulgaridades.

Sucumbia à sedução mais pela mente combinada com o físico, do que só pelo instinto sexual. Era importante para ele ter alguém que fosse capaz de lhe fazer despertar os sentidos e aí, sim, mergulhava irresistivelmente no desfrute completo do prazer e tornava-se o parceiro ideal.

(continua)


Vem por aqui

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio, Cântico Negro

domingo, 19 de janeiro de 2014

o Motel

Mirtes não se agüentou e contou para a Lurdes:

- Viram teu marido entrando num motel.

A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos..

Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio.

Depois pediu detalhes.

- Quando? Onde? Com quem?

- Ontem. No Discretíssimu's.

- Com quem? Com quem?

- Isso eu não sei.

- Mas como? Era alta? Magra? Loira?

Puxava de uma perna?

- Não sei, Lu.

- Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.

Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo e contou por quê.

- Mas que história é essa, Lurdes?

Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel.

Era você!

- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir.

Discretíssimu's! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.

- Pois então?

- Pois então, que eu tenho que deixar você. Não vê?

É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.

- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!

- Mas elas não sabem disso!

- Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?

- Vou!

Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou.

Estava sombrio: Acabo de receber um telefonema - disse.. Era o Dico.

- O que ele queria?

- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.

- O quê?

- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu's ontem, com um homem.

- Mas o homem era você!

- Eu sei, mas eu não fui identificado.

- Você não disse que era você?

- O quê? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?

- E então?

- Desculpe, Lurdes, mas...

- Mas o quê?

- Vou ter que te dar uma surra...
Luiz Fernando Veríssimo

MORAL DA HISTÓRIA:

DEVEMOS CUIDAR APENAS DA NOSSA SAÚDE, POIS DA NOSSA VIDA, TODO MUNDO CUIDA...

sábado, 18 de janeiro de 2014

O psiquiatra - Um breve conto (continuação)





Ruby Kamara, um africano da Costa do Marfim, fora colega de Luís na Universidade e também se licenciara em medicina, nomeadamente em psiquiatria. 

Chegara sem conhecer ninguém e Luís vendo-o um pouco perdido, deu-lhe apoio e tornaram-se os melhores amigos. Passado algum tempo aprendeu com esperteza a falar português e começou a dar-se com todos os colegas.

Era um tipo catita, bem-parecido e foi-se adaptando com facilidade ao meio universitário português.

Estudavam juntos e no sótão da casa de Luís, ouviam música, falavam de arte e de história durante horas, e à medida que crescia a amizade entre eles, Ruby foi-se abrindo e dizendo a Luís que gostava que um dia ele experimentasse umas ervas típicas da sua terra que faziam sonhar e davam mais pica para o estudo.

Luís perguntou-lhe de caras se ele achava que era ingénuo e não sabia do que se tratava. Com grande espanto seu, Ruby respondeu-lhe que se utilizavam nas sessões de espiritismo africano na terra dele e que eram ervas que os feiticeiros davam aos presentes para falarem com os ausentes.

Nada convencido Luís foi disfarçando até que um dia, tendo pela frente milhares de páginas para estudarem pela noite fora, Ruby propôs-lhe que tomassem uma porção de “khat” para estimular a concentração.

Assim fizeram e no dia seguinte apesar de a prova ter corrido às mil maravilhas aos dois, estavam como se lhes tivesse passado por cima uma retroescavadora.

Ruby contou-lhe que quando morria alguém na sua aldeia natal, se reuniam numa clareira no meio da floresta, num local secreto com o corpo do morto jazendo num toro de árvore liso e muito bem polido, envolto num pano branco tecido com raízes de plantas que formavam como um lençol fino.

Começavam as danças e o feiticeiro distribuía porções de “khat” pelos presentes e passadas algumas horas o corpo levitava e voltava à vida ou se tinha que morrer definitivamente eram chamados os espíritos para o virem buscar.

Luís achava a descrição curiosa mas dizia-lhe que tudo quanto Ruby contava que via (a levitação e a ressurreição) eram fruto dos efeitos do “khat”. O africano negava e jurava que era tudo verdade.

Foram progredindo no curso e Luís cada vez mais se habituara a tomar “khat” a pretexto de tudo e de nada.

O “khat”, como Luís bem sabia, contém o alcalóide chamado catinona, um estimulante similar à anfetamina, que causa excitação e euforia e que produz uma dependência psicológica.

Luís nas aulas estava algumas vezes de ressaca de “khat” e reparara que os efeitos se prolongavam durante parte do dia, nomeadamente no momento em que tinha que falar em público, distorcendo-lhe os sentidos e confundindo o cérebro e afectando os pensamentos e a comunicação.

Luís estudara que as drogas alucinogénias, no plano das interpretações psicológicas ou psicanalíticas se situam entre os fenómenos de modificação das emoções e personalidade, superficialmente descritas como uma relação entre o ego e o mundo exterior/interior, análogo às interpretações que se dá aos efeitos do transe das religiões de “possessão” africanas.

Começou a ter medo desta habituação e via que Ruby era muito mais moderado e que até já o tinha avisado dos prejuízos que lhe poderia causar tal dependência.

Luís, no entanto, decidiu que na pretensa “consulta” com Sandra, uma vez que era perante todos os seus colegas e que desejava obter uma boa nota e impressionar o professor com a sua argúcia, tomaria uma dose de “khat” de manhã antes de ir para a Faculdade.

(continua)


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Promoção no Sporting para comprar novos jogadores...carpélio verde!

Por necessidade de fundos, o Sporting está a promover este magnífico carpélio verde! E não é que é jeitoso...

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...

Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 11 de janeiro de 2014

o vinho é bom companheiro


O vinho melhora com o tempo e eu melhoro com o vinho...

A Coroação de Napoleão, por David...o logro


Estou aqui no meu escritório sozinho, a trabalhar. 

Estamos no princípio da tarde do último dia do ano de 2013. Estou a ouvir música, que vai desde os “Band of Horses”, “The XX”, “LCD Soundsystem”, “The Cure”, “Radiohead”, “Kings of Convenience”, “Fascinação” de Ellis Regina, Caetano Veloso, Tom Jobim, “Sevillanas de Oro”, Amalia, Pavarotti, duas das minhas divas – a Callas e a Kiri Te Kanawa – e a Rádio Marginal e um bom calorífero aceso.

Fiz um rápido périplo pelo ano que passou e a conclusão não foi positiva. Não vale a pena enganar-nos: mais impostos, menos oportunidades, país pior, mais gente burlona vivendo à nossa custa, para apagar da memória.

Também o que entra não me aparece risonho, mas estou farto de cenários e comentadores e previsões. 

Na caixa do supermercado o que conta é o dinheiro na mão! É aí que tenho que apostar: trazer no final de cada mês o suficiente para uma vida digna e tão equilibrada quanto possível.

Os negócios fóra de Portugal, o trabalho árduo e difícil ainda a realizar é o sonho bom, no que vale a pena apostar e o que dá o conforto para acreditar que enquanto tivermos capacidade para nos reinventar e labutarmos, a vida tem sentido.

Sinto uma espécie de vazio – não sei se me consigo exprimir – a neura do inexistente que me invade e que decerto deve estar bem presente em tantas e tantos que logo celebrarão enganosamente e com atordoamento a chegada do novo ano.

Por isso, portuguesas e portugueses…ridícula forma com que os nossos políticos nos brindam nos seus discursos, apanhem uma grande bebedeira, esqueçam que existem problemas por uns momentos e atinjam o nirvana mesmo à meia-noite, pois a ressaca será danada e não é só na manhã do dia seguinte.

Join me in the clouds…há lá lugares ainda livres no hospício para loucos. Encontrar-me-ão fazendo de Ícaro com asas de cêra, caindo de nuvem em nuvem ou como Napoleão, comandando tropas.

Confesso que há na personagem de Bonaparte alguns pormenores que me fazem ter a percepção de como homens geniais perdem essa característica quando se sentem cheios do sucesso: no célebre quadro da coroação, por David, há um balcão imperial em que aparece destacada “Madame Mére” ou seja Letícia Ramolino Bonaparte, em trajes de gala e sabem que não esteve lá nem presenciou a cerimónia? 

Por onde andará o Dias Loureiro? Ou o Miguel Relvas? Li, que no renovado Copacabana Palace no Rio, a US$ 600 por noite. Estive lá a tomar no bar, um sumo de tomate recentemente, custou-me uns quaisquer reais.

Bandidos!

Mau ano para eles todos e que ou devolvam o dinheiro que roubaram e o que nos roubam ou acabem com os ossos na enxovia.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O psiquiatra - Um breve conto (continuação)



Luís, preparara-se para o debate na aula e tinha feito algumas reflexões sobre como abordar as premissas genéricas que lhe tinham sido fornecidas.

Quanto à insatisfação sexual pela não eventual fogosidade do companheiro, e uma vez que o dito não estaria presente, as perguntas seriam mais no sentido de apurar o que a paciente considerava como patamares aceitáveis de desempenho. Escarafunchar ao detalhe, fazendo-a confessar prazeres ocultos e desejos lúbricos. 

Muitas vezes há falta de diálogo neste campo, e a parte negligenciada nem sonha como agradar verdadeiramente, porque ou há um certo pudor da outra em desvendar o seu interior profundo, ou porque pura e simplesmente se cumpre um ritual sem mais e se dá como dado adquirido que se fez a escolha errada e sem esperança de conserto. Outras razões haverá, mas que Luís não considerava aplicáveis à primeira vista, neste caso.

Normalmente este tipo de rotina conduz à infidelidade, ou seja tomar-se garboso cavaleiro que monte a garupa sem freio!

De acordo com as notas providenciadas, existia aparentemente uma ansiedade e sensação de desconforto pelas traições. Luís considerava que as causas teriam que ser investigadas para apurar-se se seriam reais. 

Tudo dependeria das respostas a um escrutínio mais alargado sobre os seus princípios morais, sobre a formulação e definição de culpa, de uma maior ou menor aceitação de liberalidade nos padrões de conduta sexual. 

Haveria que escrutinar o passado familiar, a vivência antes da relação, alguns pormenores ou historietas mais salientes que neste campo se tivessem passado. No fundo caberia analisar qual o grau de desconformidade que a paciente demonstrava em relação ao que considerasse o padrão base de referência moral para si própria.

Luís tinha alguma curiosidade em “fazer falar” a pretensa paciente, não só por ser uma prova pública dos seus méritos profissionais pelo convencimento da sua argumentação o que lhe valeria uma boa classificação, mas também porque sinceramente lhe interessava o estudo dos “outros”

Havia quem fosse “bird watcher” ou encantador de serpentes, outros ou outras cuscos e gostando de falar sobre a vida fútil de terceiros, ainda uns quantos misóginos ou exuberantes.

Mas para Luís, cada vez se consolidava mais na sua mente, o desejo de escolher a especialidade de psiquiatria.

Para além da sua personalidade que revelava uma certa dose de bondade e altruísmo, possuía o dom de uma intuição rara, que pretendia apurar e desenvolver. 

O contacto com os outros era uma fonte inesgotável de prazer para si, e o facto de poder mergulhar no âmago das suas naturezas e perscrutar os comportamentos, as emoções, o rationale de atitudes tantas vezes inesperadas e imprevistas, em suma a verdadeira “condição humana” na acepção de Voltaire, tornava-se um deleite inultrapassável em termos profissionais.

Por isso, sendo alegre e divertido e fazendo muito sucesso nos ambientes em que se movimentava, era um constante observador das atitudes que presenciava de mil e uma pessoas com diversos comportamentos. 

E este acumular de experiências ia constituindo um valioso capital que presumia, o tornaria num psiquiatra de sucesso e confiável.

Tinha um ponto fraco, porém, que temia lhe pudesse estragar a estabilidade emocional que lhe era requerida.

(continua)