segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Drummond eternizado em Copacabana


E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
……………………………….

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efémero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fracção de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
força o resgata

é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
passageiras as obras.

Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
mar profundo.

Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
afundamos.

É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.

O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

MINI Countryman TV Commercial: Flow

Há Momentos


Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

Clarice Lispector

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O mais espantoso nos velhos


O MAIS ESPANTOSO NOS VELHOS É A SUA FALTA DE PRESSA, COMO SE ELES DISPUSESSEM DE TODO O TEMPO QUE TERIAM OS NOVOS SE NÃO TIVESSEM TANTA PRESSA.

Mário Quintana

explicação da eternidade


devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

domingo, 19 de dezembro de 2010

NATAL


Natal significa nascimento. Não de uma pessoa comum. Todos sabemos. O Natal foi criado para se comemorar o nascimento de Jesus.

E daí? Ora, Jesus significa para os cristãos, salvação. Salvação? Salvar de quê? Por que razão? Para quê? Qual é o sentido deste nascimento? Será que Natal é isto que vivemos todos os anos? Será que é suficiente entrar num clima natalício para sermos todos “abençoados”?

Reconheço a insegurança e a transitoriedade desta vida. Neste período recebemos muitas mensagens de paz, de amor, de prosperidade, muitos “fluidos” positivos. Há uma atmosfera fraterna e religiosa no ar.

As pessoas enlevam-se com músicas familiares de Natal; músicas que nos embalam desde crianças, luzes a piscar, as ruas agitadas com gente em busca de um presente ou presentes para pessoas amadas, os preparativos da ceia de Natal; um lauto jantar – claro, para aqueles que podem! – tudo isto mostra-nos uma participativa confraternização.

O que importa é a atmosfera de festa, de alegria, pois é Natal. Quem quer parar para reflectir sobre o verdadeiro sentido do Natal? O que importa é o que sentimos, não o sentido real!

E desta forma o verdadeiro sentido do Natal esvai-se, e restam-nos apenas ilusões de uma sociedade de consumo misturada com o sentimentalismo das boas ideologias humanistas – “faça o seu Natal com os pobres”.

Isto sem falar de alguns (des)orientadores religiosos, os quais se auto-apascentam ao contrário de apascentarem as “ovelhas de Cristo”.

Não é à toa que a figura do Pai Natal e todo o clima comercial natalício a muitos encanta! As luzes deste Natal são uma felicidade artificial provocada por um alucinogénio mentiroso, cujo clima é uma nuvem espessa de ignorância.

Deus não deve estar nada interessado numa humanidade sentimentalista, cheia de “ boas intenções” em períodos natalícios, quando essa mesma humanidade passa o ano inteiro “a puxar o tapete” ao próximo, mentindo, enganando, esbanjando ridículas vaidades, cometendo injustiças e torpezas, inchada de arrogância, discriminando, constrangendo moralmente, envolvida em intrigas e calúnias, disputas desonestas, traindo, ameaçando, sendo revanchista, impiedosa e hipócrita.

E ao aproximar-se a atmosfera natalícia, beijamo-nos, abraçamo-nos e confraternizamos fingindo amizade e amor.

Os meus votos, para si caro leitor paciente e amigo do meu blogue, é que possa dar sentido às palavras tão rotineiras, como: PAZ, UNIÃO, AMOR E PROSPERIDADE.

Um ouriço a dilatar-se


O livro de António Lobo Antunes é um diário. Reportado ao ano de 2007. Parei no dia 25 de Março. É dia em que faço anos. Não me lembro onde estava nesse dia ou com quem. Nem se festejei ou festejaram o dia dos meus anos. Fiz contas para ter a certeza de quantos anos eram e estou incerto quanto a ter-me enganado na subtracção.

Compreendo-a, por isso, hoje, a essa escrita, implosão de um ser de que escorrem, viscosos como uma dor nojenta, as vísceras pelas paredes do presente, literárias mas tripas sempre e seus conteúdos sulfídricos, dejectos de memória como uma compota escorrente mais o coração a latejar e um mundo feio quando cerebral vazio de pensamento, e uma ânsia furiosa de beleza e formas boleadas, femininas e reconfortantes quando desinquietam, e sempre o eternizável momento de um fundo olhar vindo do desejo, «aulas tão compridas, dias tão compridos, noites eternas» e a madrugada da desolação solitária.

Leio-o agora em 2010, e 2010 acaba breve, e ele escreveu tudo isso ainda este ano, e editaram-no, rápidos porque há pouco tempo, o tempo foge e ele luta contra o desaparecimento seu e nosso e lêem-no menos, eu próprio leio-o agora por piedade para com os meus remorsos de o ter desprezado, mas não há outra escrita possível porque não há outra vida, fragmentária, «a pele das mulheres tão suave e o consentimento, a avidez».

É domingo. Vou levar tempo a ler-te António Lobo Antunes e a este teu livro e escreverás outro, sempre o último até um dia em que acertarás para fortuna de todos os críticos e os memorialistas e os que purgam os maus instintos e as azias do desprezo para com todos os outros comemorando, olha outra dia foi o Carlos Pinto Coelho e o Herman José a dizer que teve uma morte digna porque foi de repente e ninguém riu.

António Rebelo da Silva

sábado, 18 de dezembro de 2010

tau-tau



O caos e a desordem, a organização e o método, a sedução e a repelência, a vontade de deitar a mão e as ganas de fugir a sete pés, o mundo diverso mesmo quando perverso e o seu reverso! Fanfarras e fanfarrões, figurinhas e mulherões.

Os chineses têm um provérbio interessante que diz «nunca feches uma porta pela qual gostarias de entrar e nunca deixes aberta uma porta pela qual não gostarias que alguém entrasse». Mais do que sabedoria é a vida numa frase.

Uma pessoa chega à janela e vê que está a chover. Olha para o termómetro da rua e reza nove graus. Anoiteceu. Só resta fechar os olhos com força e forçar-se a imaginar. Aquecer-se por dentro e atirar-se de cabeça!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A dor do desemprego


Emprego e desemprego não são só estados sociais.

É verdade que o emprego (em especial alguns empregos) dá estatuto social, mas também permite o desenvolvimento pessoal e a realização profissional.

O indivíduo sente-se integrado num processo de desenvolvimento social para o qual contribui com o seu trabalho.

O trabalho é remunerado e, por conseguinte, ter emprego é ter a possibilidade de adquirir meios para a sobrevivência, diversão, cultura e outras manifestações tão importantes ao equilíbrio do ser humano.

Se o emprego proporciona tudo isto, o desemprego rouba-o, muitas vezes de forma cruel.

Na hora de reduzir aos “custos com o pessoal”, a notícia: “- Lamentamos, gostamos muito de si, foi sempre um funcionário exemplar, mas a empresa necessita de reduzir custos...”, dói, dilacera.

O ter sido dispensado de uma actividade, não contarem com os seus préstimos, provoca em cada indivíduo uma sensação dolorosa e a maior parte das vezes associada a um sentimento de injustiça.

Para quê tanto esforço?! Horas extraordinárias sem remuneração?! Apenas e só o sentido do dever a ditar horas de permanência para além do horário!

A família que, a bem do trabalho, conformada com a ausência, aceitando que as férias sejam reduzidas a duas semanas, poderá não compreender o despedimento!

Angústias sentidas que, a certeza de tudo ter feito para ser um empregado exemplar não acalmam, pelo contrário, são dores difíceis de conter. Não dói a consciência mas dói a alma.

E aos poucos, a dor cede o lugar ao desalento. Instala-se a dúvida e põem-se em causa capacidades.

Triste com o presente e assustado com o futuro, o indivíduo inicia processos de autodestruição podendo acabar, em alguns casos, no suicídio.

O assalto e roubo do meu relógio e a paciência de Job


Job é o exemplo de como se pode passar dos 80 aos 8. De como é fácil, num sopro, perdermos tudo, perdermo-nos, ser-nos tirado o que nos foi dado.

Job personifica a dificuldade que temos em lidar com o que de mau nos aparece. De como nos é fácil dizer que quando alcançamos o bem, o alcançamos sozinhos, e de como quando o perdemos, pensamos que o perdemos por causa de outros.

A paciência, por outro lado, é o saber esperar pelo que de bom há-de vir. O saber que o mal não é eterno, mas parte do processo.

Job passou dos 80 aos 8 e aos 80 novamente. É por isso que dizemos que é preciso «ter paciência de Job». Porque, mais tarde ou mais cedo, algo de bom acontece. Porque não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Porque «a vida não passa de um sopro».

Job tomou a palavra, dizendo:

«Não vive o homem sobre a terra como um soldado?
Não são os seus dias como os de um mercenário?
Como o escravo que suspira pela sombra
e o trabalhador que espera pelo seu salário,
assim eu recebi em herança meses de desilusão
e couberam-me em sorte noites de amargura.
Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’
Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’
e agito-me angustiado até ao crepúsculo.
Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear
e desvanecem-se sem esperança.
Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro
e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade».

Se apanho o ladrão do meu Frank Muller, não há cá paciência de Job!

O caraças é o que é!

domingo, 28 de novembro de 2010

Metade


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

sábado, 27 de novembro de 2010

Eu, em dia cinzento...não me apetece nada!


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Da mãe de todas as greves e dos brandos costumes mais graves


A cabeça perdida virá leve, levemente, como quem chama por nós, mas orgânica e institucional não será certamente, e as revoltas não estalam assim.

Virá por uma coisa adjacente, talvez fútil. Dois marmanjos que perdem a cabeça numa fila. Uma alínea camuflada de um Decreto que pinga no copo cheio e acende o rastilho para um buzinão no Norte, outro no All Garb, dois tiros no Sabugal com uma criança ferida, uma barragem de tractores no Ribatejo.

A Res púbica, alguns da Res púbica, foram acumulando equipamento e preparando uns pretorianos, dois blindados aqui, um corpo de intervenção acolá, e não resistirão á lógica de apagar os focos logo à nascença.

Ao contrário dos intelectuais não subestimo a mão pesada da camorra, nem das reencarnações da carbonária, sempre, sempre a proteger o povo em nome da ética publicana

Uma parte dos média, que estão mortinhos por abandonar o cadáver e passarem-se - com microfones e câmaras – do emergente eixo do mal, para qualquer amanhã que possa cantar e refazer virgindades, farão o seu trabalho incendiário e irresponsável. São como os "meninos do Huambo", precisam de saber o que custa uma bandeira.

A Res púbica , como é tradicional, não poderá contar com os pretorianos, e o equipamento não serve para Marias da Fonte.

Tudo isto existe, e nem sequer é triste num futuro inevitável.

Resta saber qual é o ponto de ebulição, o benchmark estatístico do desespero além da qual salta a faísca neste ambiente combustível ao qual todos os dias se acrescentam zilhões de comburentes.

Dom Carlos de Bragança sabia, e disse-o, que era um País de bananas governado por sacanas. Não estava inteiramente certo e morreu por isso.

Estes sacanas já sabem que todos os dias perdem bananas. Mas prosseguem imperturbavelmente a pilhagem e a fuga em frente, confiados no guarda chuva da grande coligação internacional dos Smith & Wesson. Mas o guarda chuva não chegará para todos, em todos os lugares, ao mesmo tempo. Será o cada um por si. Como já é, mas a outro nível.

Não sei nada dos gastos em hemoglobina e dos iracundos furibundos a caçarem à mão os neo-fascistas bandoleiros escondidos debaixo de camas ou em trânsito para as Venezuelangolas (O Brasil já foi). Normalmente somos poupados no que respeita a esses líquidos orgânicos.

Podíamos bem ter sido nós os inventores dessa arte marcial que é o : - Agarrem-me senão mato-o!

MLM

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Portugal


Indignar-se só não basta!

Já pouco ou quase nada que no peito cala
nesta onda que arrasta, imobiliza e abala
os pilares da "falsa" moral que fala
de mente descarada, perante a nação

tanta gente privada mete a mão na coisa pública
saqueiam os bens de quem quase nada tem
destroem os valores do povo que emprego suplica
mantêm a política imoral e humilhante

cestas, bolsas, telhas, migalhas e outros favores
como se bestas fossem seres humanos aos milhares
apenas lembrados em sazonais períodos eleitorais,
roubalheira nos meandros de poder nacionais

e, ainda têm a cara de pau de dizer convencidos
que o poder emana do povo
e que em seu nome será exercido,
mas, sugam as tetas com tentáculos de polvo

Ó gente, de vielas, cidades e aldeias
- Que mais penas, ó nação Portugal ainda temos que pagar?
- Quanto tempo ainda haverá para se libertar?

De tanta gente impune que nos explora, saqueia.
Pratica há séculos a especulação, sangria.
Empurram o povo para uma vida de pobreza

Das iniqüidades acaso és Mãe gentil?

Corrupção histórica a corroer o frágil tecido social,
engendram tácita e imposta aceitação de métodos,
amparam colarinhos brancos e com projecção social,
Condenam à morte em lenta agonia os excluídos,

Aqueles que só representam números (ou votos)
nas estatísticas, nas camas dos hospitais,
nas filas dos desempregados, sem tectos,
excluídos do PIB, mas números, pois são eleitores.

Num modelo de uma “farsa”, falsa democracia,
de um desgoverno, de promessa em promessa,
vazia de uma minoria que fala em nome de uma massa,
na premissa de passiva, indolente, amorfa.
(afinal tudo se repete, mudam os actores, mas a peça é a mesma no arena da política)

Vagando qual zumbi nos comboios lotados da vida,
na imoralidade da informalidade forçada,
na carência absoluta de meios de sobrevivência
e ainda assim de uma gente que luta e que anseia.

Por mudanças, em quotidiana luta aguerrida,
com o seu suor mantém este país, essa sim brava gente portuguesa.

António Araújo

domingo, 21 de novembro de 2010

Tudo aquilo que é realmente nosso nunca se vai para sempre


Os ventos que às vezes tiram algo que amamos,
São os mesmos que nos trazem algo que aprendemos a amar ...

Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado
e sim, aprender a amar o que nos foi dado ...

Tudo aquilo que é realmente nosso nunca se vai para sempre !

O outro EU


Para Nietzsche, tudo é máscara, tudo é representação e, assim sendo, até mesmo aquilo que alguns definem como sendo “essência” nada mais é do que uma máscara, como qualquer outra.

Isto é fácil de verificar, na medida em que o tempo passa e aquilo que defino como “real” em mim mesmo, muda. O Manel de 1980 não é o mesmo Manel de 2010, em quase nenhum sentido, nem mesmo fisicamente falando. Estes dois Manel só são os mesmos na medida em que eu confirmo ter sido aquele de 1980.

Alguns argumentam que há uma “qualidade essencial” que permanece. Particularmente, já acreditei nisso, mas estou inclinado a duvidar. Quando pergunto que qualidade é essa que permanece, os sustentadores da ideia da essência não sabem definir ou usam termos de significado amplo, tais como “espírito”, “alma”, etc. Pois bem, se a essência é indizível, então ela não-é, na medida em que tudo o que é humano é interpretável.

Desde que me considero gente, irritam-me os despertadores. Se porventura acordo com o barulho de um despertador, fico logo mal disposto. Entretanto, percebi que quanto mais chato era para mim o som de um determinado despertador, maior era a minha tendência para acordar espontaneamente cerca de dois minutos antes de ele soar. Ao que parece, uma parte de mim resolve poupar-me ao incómodo de ouvir aquele som desagradável, acordando-me antes do barulho se produzir.

Durante muito tempo, diverti-me imenso com este fenómeno sem encontrar uma explicação plausível para ele.

Chamava-me a atenção o facto de que, apesar de existir um EU que precisa de dormir e que usa um instrumento para o acordar numa hora certa, um EU que precisa de um relógio para saber a passagem do tempo, havia também um OUTRO EU que aparentemente nunca dormia, e mais do que isso um OUTRO EU capaz de contar os segundos e os minutos, para realizar um trabalho: acordar-me cerca de dois minutos antes do despertador soar.

Este OUTRO EU que nunca dorme assustava-me pela exactidão com que actuava e pelos poderes que demonstrava.

Pode-se assim achar que o EU não relaxa e dorme superficialmente, angustiado com a expectativa do toque do despertador.

Mas não é o que efectivamente se passa. O sono daquilo que defino como sendo o EU, é profundo e reparador, e quanto mais profundo for o sono [ou distracção] deste EU, maiores as hipóteses do OUTRO EU actuar com impecável exactidão.

Obviamente, esta é uma experiência pessoal. Não estou aqui a dizer que o inconsciente de toda gente elimine a necessidade de despertadores. Contudo, o inconsciente é não apenas existente, mas, sob diversos aspectos, muito mais “consciente” do que aquilo a que chamo de EU.

No entanto o inconsciente não é a parte mais profunda do EU. O inconsciente é o OUTRO EU. E mais: ele não pode ser “mais profundo”, pois está sempre à superfície. Este OUTRO EU manifesta-se em palavras que nos escapam, em actos falhados.

O inconsciente está sempre à superfície.

Judas



Não morremos quando nos matam.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Preocupa-te mais com a tua consciência do que com a tua reputação


Preocupa-te mais com a tua consciência do que com a tua reputação. Porque a tua consciência é o que tu és e a tua reputação é o que os outros pensam de ti.

E o que os outros pensam de ti é o problemas deles.

Bob Marley

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O acto de fazer anos por Álvaro de Campos


"Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada."

Não se agradece nada aos Amigos, retribui-se! Fá-lo-ei em dobro!

Álvaro de Campos

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Romualdo, marido de D. Eufêmia



O Romualdo, marido de D. Eufêmia, era um rapaz sério, lá isso era, e tão incapaz de cometer a mais leve infidelidade conjugal como de roubar o sino de São Francisco de Paula; mas - vejam como o diabo as arma!

Um dia D. Eufêmia foi chamada, a toda a pressa, a Juiz de Fora, para ver o pai que estava gravemente enfermo, e como o Romualdo não podia naquela ocasião deixar a casa comercial de que era guarda-livros (estavam a dar balanço), resignou-se a ver partir a senhora acompanhada pelos três meninos, o Zeca, o Cazuza, o Bibi, e a ama-seca deste último, que era ainda de colo.

Foi a primeira vez que o Romualdo se separou da família. Custou-lhe muito, coitado, e mais lhe custou quando, ao cabo de uma semana, D. Eufêmia lhe escreveu, dizendo que o velho estava livre de perigo, mas a convalescença seria longa, e o seu dever de filha era ficar junto dele um mês pelo menos.

O Romualdo resignou-se. Que remédio!... Durante os primeiros tempos saía do escritório e metia-se em casa, mas no fim de alguns dias entendeu que devia dar alguns passeios pelos arrabaldes, hoje este, amanhã aquele. Era um meio, como outro qualquer, de iludir a saudade.

Uma noite coube a vez ao Andaraí Grande. O Romualdo tomou o bonde do Leopoldo, e teve a fortuna ou a desgraça de se sentar ao lado da mulatinha mais dengosa e bonita que ainda tentou um marido, cuja mulher estivesse em Juiz de Fora. Nessa noite fatal a virtude do Romualdo deu em pantanas: tencionando ele ir até o fim da linha, como fazia todas as noites, apeou-se na Rua Mariz e Barros, ali pelas alturas da Travessa de São Salvador. A mulata havia se apeado algumas braças antes.

E ele viu, à luz de um lampião, o vulto dela saltitante e esquivo, e apressou o passo para apanhá-la, o que conseguiu facilmente, porque, pelos modos, ela já contava com isso. - Boa noite!

- Boa noite.

- Como se chama?

- Antonieta.

- Pode dar-me uma palavra?

- Por que não falou no bonde?

- Era impossível... estava tanta gente... e estes elétricos são tão iluminados.

- Mas o sinhô bolinou que não foi graça! vamos, diga: que deseja?

- Desejo saber onde mora.

- Não tenho casa minha; tou empregada numa familia ali mais adiante, por sinal que não estou satisfeita, e ando procurando outra arrumação.

- Onde poderemos falar em particular?

- Não sei.

- Você sai amanhã à noite?

- Amanhã não, porque saí hoje, e não quero abusar.

- Então, depois de amanhã?

- Pois sim.

- Onde a espero?

- Onde o sinhô quiser.

- Na Praça Tiradentes, no ponto dos bondes. As oito horas.

- Na porta do armazém do Derby?

- Isso!

- Tá dito! Inté depois d'amanhã às oito hora.

- Não falte!

- Não falto não!

No dia seguinte, o Romualdo contou a sua aventura a um companheiro de escritório que era useiro e vezeiro nessas cavalarias... baixas, e o camarada levou a condescendência ao ponto de confiar-lhe a chave de um ninho que tinha preparado para os contrabandos do amor.

Antonieta foi pontual; à hora marcada lá estava à porta do Derby, com ares de quem esperava o bonde.

O Romualdo aproximou-se, fez um sinal, afastou-se e ela seguiu-o...

Dez dias depois, estava ele arrependidíssimo da sua conquista fácil, e com remorsos de haver enganado D. Eufêmia, aquela santa! Procurava agora meios e modos de se ver livre da mulata, cuja prosódia era capaz de lançar água na fervura da mais violenta paixão.

Vendo que não podia evitá-la, tomou o Romualdo a deliberação de fugir-lhe, e uma noite deixou-a à porta do ninho, esperando debalde por ele. Lembrou-se, mas era tarde, que havia prometido dar-lhe um anel, justamente nessa noite.

- Diabo! pensou ele, Antonieta vai supor que lhe fugi por causa do anel!

Voltou, afinal, D. Eufêmia de Juiz de Fora. Veio no trem da manhã, inesperadamente, e já não encontrou o marido em casa.

Estava furiosa, porque a ama-seca de Bibi deixara-se ficar na estação da Barra. Podia ser que não fosse de propósito. O mais certo, porém, era o ter sido desencaminhada por um sujeito que vinha no trem a namorá-la desde Paraíbuna.

Quando D. Eufêmia contou isso ao marido, acrescentou indignada:

- Que homens sem-vergonha!... Não podem ver uma mulata!...

O Romualdo perturbou-se, mas disfarçou, perguntando:

- E agora? E preciso anunciar! Não podemos ficar sem ama-seca!

- Já mandei o Zeca pôr um anúncio no Jornal do Brasil.

No dia seguinte, o Romualdo saiu muito cedo; ao voltar para casa, a primeira coisa que perguntou à senhora foi:

- Então? Já temos ama-seca?. .

- Já; é uma mulatinha bem jeitosa, mas tem cara de sapeca. Chama-se Antonieta.

- Hem? Antonieta?

- Que tens, homem?

- Nada; não tenho nada... E jeitosa?... Tem cara de sapeca?... Manda-a embora! Não serve! Nem quero vê-la!...

- Ora essa! Por quê? Olha, ela aí vem.

Antonieta chegou, efetivamente, com o Bibi ao colo; mas o Romualdo tinha fechado os olhos, dizendo consigo:

- Que escândalo!... rebenta a bomba!... este diabo vai reclamar o anel!.

Mas como nada ouvisse, o mísero abriu os olhos e - oh! milagre! - era outra Antonieta!.

Ele pensou, os leitores também pensaram que fosse a mesma; não era.

Decididamente, há um Deus para os maridos que enganam as suas mulheres.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

o que fazer quando um homem é chato?


Dedico este posting à minha cunhada Ana, à Manucha e a tantas leitoras que ficaram sinceramente zangadas com o meu anterior posting " a mulher chata":-)


o que fazer quando um homem é chato?

WAW!

Homem já é um material escasso no mercado, mas quando você arruma um e o sujeito é chato.

Ah, não!!! Ninguém merece isso.

Homens não podem ser chatos. Homem tem que ser coisa boa. Eles não podem dar trabalho.

Eles precisam servir para alguma coisa, nem que seja para dar massagem na gente.

Homens chatos precisam ser exorcizados, retirados do convívio humano, queimados em praça pública.

Já não basta as mulheres chatas, ainda teremos que aguentar homens também. Isso não!!!

Homem que é homem tem que ter atitude. Não gosto de quem fica esperando por mim. Se é homem, então tome iniciativa. Homem tem que ter mais coragem do que eu. Não precisa ser o Super-homem, mas que saiba me proteger do escuro ou quando uma rã cruzar o meu caminho.

Que seja divertido, que me faça rir muito, o suficiente para eu ficar sem ar e que me deixe com as bochechas rosadas de tanto achar graça. Que tenha bom humor, não precisa ser tão ácido quanto o meu, mas que seja bom, muito bom. Que seja inteligente e saiba conversar sobre qualquer coisa. Que seja mais ágil do que eu e chame o garçom antes de mim.

De preferência que eu não tenha que pedir certas coisas pra ele, porque ele sabe como e quando fazer. É bom que ele me deixe sem graça uma vez ou outra, porque quando eu sou muito segura de mim, eu sou insuportável.

Homem que é homem precisa dirigir pra mim, enquanto eu olho a paisagem pela janela. E pode se quiser dizer que eu não sei estacionar, é verdade, eu não nego. Isso é coisa para homem, eu não sirvo pra isso.
Quem quiser que queime o seu sutiã, mas eu prefiro que homens e mulheres sejam SEMPRE diferentes.

Prefiro que mulheres sejam mais chatas sim e que homens sejam mais surpreendentes.

Prefiro homens calados, deixa que falar eu falo.

Prefiro que homem veja futebol, eu faço companhia.

Prefiro que os homens sejam calmos e mantenham o controle nos momentos certos.

Deixa que confusão faço eu.

Homem tem que me dar é segunça e me fazer bem.

E se for chato, não me serve. Pronto, falei!!!

A qualquer momento podemos ser notícia


A qualquer momento podemos ser notícia!

Se a minha empresa criar um produto ou serviço, um livro, uma ideia ou qualquer outra coisa que atraia um número determinado de pessoas, ou que seja inovador, é bem provável que passe a ser notícia na grande imprensa.

Se não se estiver bem preparado é péssimo para a imagem e negócios da empresa, uma vez que uma imagem que não se controla, será reproduzida por alguém, normalmente, da forma menos favorável para os envolvidos.

Acontece que, como as pessoas e as organizações muitas vezes não se manifestam sobre assuntos do seu interesse, o que mais se noticia são os aspectos negativos da situação.

Reconheço que nem sempre os órgãos de comunicação dão o mesmo espaço para acusadores e acusados, porém muitas organizações nem se pronunciam, defendendo-se, piorando a situação e a imagem desgasta-se cada vez mais, por conta disso.

A inabilidade para conviver com a opinião púbica é um traço característico de muitos empresários. Já se imaginou os efeitos de um boato de que a empresa está a beira da falência?

Pois é, muitas vezes as empresas preferem calar-se, em vez de esclarecer os factos. Admitir deficiências e problemas não se trata de incompetência, mas de tratar com clareza o público alvo e os mercados aos quais a empresa deve explicações: clientes, funcionários, fornecedores, accionistas e sociedade.

Informar, em vez de calar, é a melhor estratégia para monitorizar a própria imagem, desenvolver boas relações corporativas e criar novos mercados. Quando a nossa empresa, nada diz quando é solicitada a falar, esclarecer, corre-se o risco de deixar por conta do acaso algo que se levou muito tempo a construir: a boa imagem.

Quem não cuida da sua própria imagem, deixando-a a cargo de acasos e ao sabor do vento, pode ter surpresas bem desagradáveis quando se vê envolvido em situações inesperadas.

Pense nisso! Talvez nos encontremos na próxima manchete jornalística ou televisiva?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Prometo que fica para a próxima


São muito poucos aqueles que ganharam mais do que um Prémio Nobel. Sem contar com as instituições, houve Marie Curie a única mulher a ganhar dois Nobel e a única pessoa a conseguir o feito em duas disciplinas científicas distintas. Linus Pauling ganhou também dois prémios, o da Química e o da Paz. Houve ainda Sanger, que ganhou dois Prémios Nobel na Química e finalmente John Bardeen, que antes de Sanger foi o primeiro laureado a receber mais de um prémio na mesma área científica, a Física.

Aquando da recepção do primeiro, em 1956, pela invenção do transístor, John Bardeen levou consigo a Estocolmo apenas um dos seus três filhos. Os restantes dois estavam a estudar em Harvard e Bardeen não quis perturbar os seus estudos. O Rei Gustav IV, no entanto, repreendeu o cientista por este não ter trazido à cerimónia o resto da família, ao que Bardeen terá respondido, que traria todos os filhos da próxima vez. Em 1972, quando homenageado pela teoria da supercondutividade, cumpriu a sua promessa e levou os três filhos à entrega do prémio.

os dias cinzentos voltam sempre


Há dias em que tudo é cinzento.

Não só o céu e o ar, mas a alma também.

São dias em que pensamos na vida e, por mais que estejamos felizes com ela, não nos sentimos satisfeitos.

Dá para pressentir esses dias à distância, e é engraçado porque parece que os dias cinzentos são colectivos.

Dá cá uma tristeza... uma tristeza que não é egoísta, pois também se apoia nas coisas do mundo: uma criança na rua sem abrigo, um amigo que perdeu uma pessoa querida, um desconhecido chorando no metro.

Dá vontade de abraçar todas as tristezas do mundo, e dizer que tudo vai ficar bem.

São dias em que tudo parece sem sentido, porque mesmo que tudo esteja a correr bem na nossa vida parece que ainda falta alguma coisa que não sabemos identificar o que é.

Mas a verdade é que por mais tristes que esses dias sejam, são eles que nos apelam ao nosso melhor.

Ao pensarmos no que nos falta, descobrimos outras (maravilhosas) coisas que não conhecíamos de nós próprios.

E por mais que nos completemos, por mais que fiquemos felizes, os dias cinzentos voltam sempre, porque, afinal, precisamos muito deles.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mal nos conhecemos


Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.

É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

domingo, 7 de novembro de 2010

2012 e Carreira Medina


Olá a todos!

2012 é um assunto muito discutido actualmente, principalmente para aqueles a quem eu chamo de "recém-acordados", por assim dizer.

Não os chamo assim por desrespeito, nada disso, é uma forma de dizer, pois são pessoas que estão a "acordar" agora, despertando aos poucos da ilusão em que vivemos na nossa actual sociedade.

Algumas rápidas observações:

-Se pensam que alguém vai "descer" à Terra para os salvar, como Jesus por exemplo, podem ir tirando o cavalo da chuva, pois isso não vai acontecer. Se estão na lama, são VOCÊS que têm que sair dela.

Se pensam que o mundo vai acabar em 2012, podem esquecer, pois isso é uma mentira completa. A Terra ainda vai passar por muitos e muitos ciclos.

Se pensam que o mundo em que vivemos actualmente, de corrupção e de guerras ao chegar a 2013 será todo florido com paz e amor, também podem ir tirando o cavalo da chuva!

É tão simples quanto isto : ou trabalham e se mexem, ou são « retirados » da Terra e levados para outros sítios no espaço, com deficits elevados do género Portugal ou Grécia !

Vai existir uma "compatibilidade" energética, onde se encaixarão.

Eles vão vigiá-los todos os dias, a todas as horas, a todos os momentos, e têm um registo completo da vossa existência desde a origem espiritual até ao presente.

Eles observam atentamente, e se virem que não estão a trabalhar e a nada fazer, irão "sofrer as consequências".

E se por acaso acreditam um pouco no que vos estou a avisar, fiquem atentos, pois o vosso tempo está contado!

Não sou Deus, nem sou Jesus nem o Prof. Karamba e não tenho especial autoridade para lhes dizer isto tudo, mas sei como o universo trabalha. E isso já é o suficiente.

Reflictam sobre isto tudo!

Carreira Medina

A tenda de "tintins"


Espantam-se? Mas que geração é esta que está hoje no poder e no mando no sector público, mesmo onde eram dispensáveis, e no sector privado onde conseguiram tornar-se úteis porque necessários?

Aquela que gerámos, cobaias na instrução do propedêutico e do serviço cívico e do unificado, fruto na educação dos nossos complexos de progenitores liberais e permissivos. A que aprendeu a arregimentar-se nos partidos como forma de fazer carreira, os partidos a que demos existência, entregando-lhes primeiro o Estado, depois o País. Os consumistas, egoístas, aqueles que não passam os apontamentos das aulas aos colegas para que eles não lhes passem à frente na classificação. Os que se colam aos pais e deles vivem, incapazes de deitar a mão ao esforço do sustento próprio. O fruto da desagregação dos nossos lares. Aqueles para quem o último mestrado corresponde o primeiro desemprego.

Somos, enquanto País, a mistura complexa de cinquenta anos de ditadura de Estado que caiu de podre e de vinte e cinco de socialismo de Estado que se desmoronou. À lógica do funcionalismo somámos a do clientelismo.

Falido e desacreditado esse Estado, damos connosco a boiar no charco liberal da desregulação, no pântano do mercado e suas monstruosas criaturas: a economia sufocada pelas finanças, a produção ao serviço da dívida.

A República Popular da China compra a dívida externa de Portugal, porque a Nação dos Portugueses se tornou numa tenda de tintins. O Fundo Monetário Internacional pode tomar conta disto, porque tal como os que vão aos Casinos de Macau, na roleta do mercado de capitais, estamos nas mãos das casas de penhores. As seitas encarregam-se do resto.

José António Barreiros

sábado, 6 de novembro de 2010

pessoa mais ou menos


A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos.

A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.

A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos...

TUDO BEM!

O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum...
é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos.

Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.

Chico Xavier

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Tirem-me daqui


Tirem-me daqui
Expluda uma bomba
Rebente uma revolução
Mas tirem-me daqui
Rápido

Que venha um furacão
Antes da minha próxima respiração
Tirem-me daqui

Chamem os bombeiros
Deixem-me
Deixem-me sair a correr porta fora
Gritar os meus rancores
Sentir as minhas raivas
Deixem-me
Deixem-me chorar de tristeza
Num lugar qualquer

Mas tirem-me
Tirem-me daqui que não aguento mais
Não suporto
Preciso elevar a minha alma
Dar um pontapé na minha personalidade
Por isso necessito sair depressa daqui.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Superar os grandes traumas inventando uma nova vida



Na vida humana, nem o bem-estar nem a felicidade duram muito. Quando eram felizes, os antigos temiam a inveja dos deuses. Mas não é preciso invocar os deuses; a inveja dos homens basta.

É fácil passar do aplauso ao pelourinho, da glória ao insulto. Sócrates foi condenado à morte, Cipião ao exílio, Galileu foi preso, Lavoisier, o criador da química, foi guilhotinado rodeado dos insultos do povo.

No entanto, a maior parte das vezes não é por causa da inveja que a nossa prosperidade e a nossa felicidade têm fim, mas por acidente, por causa de uma doença grave ou de um desastre económico.

Seja como for, o trauma é sempre repentino, inesperado, e nós reagimos com incredulidade. Parece um pesadelo e parece que em breve vamos acordar. Esforçamo-nos por continuar a nossa vida normal, só que aos poucos percebemos que a ansiedade não é um sonho, mas a realidade.

Para superarmos o trauma, para continuarmos a viver, para encontrarmos paz de espírito, só há um caminho: aceitar a nova situação, compreendê-la, adaptar-se a ela. É como sermos abandonados num novo mundo, desconhecido; não podemos manter os hábitos do passado e deixar-nos paralisar pela nostalgia.

Temos de aprender rapidamente a viver no novo ambiente, a estudá-lo, a perceber as oportunidades que nos oferece, a construir algo de novo nele.

Esta atitude serve, por exemplo, para enfrentar uma doença que nos obriga a tratamentos prolongados que nos deixam debilitados e nos força a mudar completamente de hábitos. Contudo, também se aplica quando ficamos sem um emprego e temos de aceitar outro mais humilde.

Lembro-me de alguns amigos intelectuais húngaros que emigraram depois da revolução: alguns conseguiram continuar a trabalhar em universidades, outros tiveram de passar para actividades comerciais.

Os judeus educados dos países de Leste foram obrigados a fugir da pobreza, das perseguições, dos massacres. Quando chegaram ao Novo Mundo tornaram-se comerciantes, banqueiros, joalheiros, escritores, músicos, cineastas, criaram Hollywood.

Tudo isto se aplica de uma forma muito particular hoje, com a globalização, a concorrência da China, o rápido desenvolvimento tecnológico. Em pouco tempo, a sociedade transformou--se e os velhos ofícios, os velhos negócios desapareceram. A escola continua a preparar os estudantes para profissões que já não existem. Neste território desconhecido, que devemos fazer?

Observar as pessoas, ver o que lhes faz falta, de que precisam: há oportunidades, necessidade de novas profissões. Não devemos ir para onde vão todos os outros, mas sim para onde vão apenas alguns e onde a procura é maior.

Francesco Alberoni
Jornalista e sociólogo

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

domingo, 31 de outubro de 2010

estou cansado de gente


“Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto.

Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.”

Álvaro de Campos

sábado, 30 de outubro de 2010

que fantástica lucidez



Sobre o signatário:

Licenciado em história pela Universidade Clássica de Lisboa (1978), mestre em história da arte pela Universidade Nova de Lisboa 1988), doutorado em história da arquitectura pela Universidade de Coimbra (1999). Docente do DARQ desde 1991, professor convidado do Dep. Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho desde 2001, docente convidado de outras universidades portuguesas e estrangeiras. A principal área de investigação e publicação tem sido a história da arquitectura e da cultura arquitectónica portuguesa dos séculos XVII e XVIII.

DECLARAÇÃO

As medidas que o Estado português se prepara para tomar não servem para nada. Passaremos anos a trabalhar para pagar a dívida, é só. Acresce que a dívida é o menor dos nossos problemas. Portugal, a Grécia, a Irlanda são apenas o elo mais fraco da cadeia, aquele que parte mais depressa. É a Europa inteira que vai entrar em crise.

O capitalismo global localiza parte da sua produção no antigo Terceiro Mundo e este exporta para Europa mercadorias e serviços, criados lá pelos capitalistas de lá ou pelos capitalistas de cá, que são muito mais baratos do que os europeus, porque a mão-de-obra longínqua não custa nada. À medida que países como a China refinarem os seus recursos produtivos, menos viável será este modelo e ainda menos competitiva a Europa. Os capitalistas e os seus lacaios de luxo (os governos) sabem isso muito bem. O seu objectivo principal não é salvar a Europa, mas os seus investimentos e o seu alvo principal são os trabalhadores europeus com os quais querem despender o mínimo possível para poderem ganhar mais na batalha global. É por isso que o “modelo social europeu” está ameaçado, não essencialmente por causa das pirâmides etárias e outras desculpas de mau pagador. Posto isto, tenho a seguinte declaração a fazer:

Sou professor há mais de 30 anos, 15 dos quais na universidade.

Sou dos melhores da minha profissão e um investigador de topo na minha área. Emigraria amanhã, se não fosse velho de mais, ou reformar-me-ia imediatamente, se o Estado não me tivesse já defraudado desse direito duas vezes, rompendo contratos que tinha comigo, bem como com todos os funcionários públicos.

Não tenho muito mais rendimentos para além do meu salário. Depois de contas rigorosamente feitas, percebi que vou ficar desprovido de 25% do meu rendimento mensal e vou provavelmente perder o único luxo que tenho, a casa que construí e onde pensei viver o resto da minha vida.

Nunca fiz férias se não na Europa próxima ou na Índia (quando trabalhava lá), e sempre por pouco tempo. Há muito que não tenho outros luxos. Por exemplo: há muito que deixei de comprar livros.

Deste modo, declaro:

1) o Estado deixou de poder contar comigo para trabalhar para além dos mínimos indispensáveis. Estou doravante em greve de zelo e em greve a todos os trabalhos extraordinários;

2) estou disponível para ajudar a construir e para integrar as redes e programas de auxílio mútuo que possam surgir no meu concelho;

3) enquanto parte de movimentos organizados colectivamente, estou pronto para deixar de pagar as dívidas à banca, fazer não um, mas vários dias de greve (desde que acompanhados pela ocupação das instalações de trabalho), ajudar a bloquear estradas, pontes, linhas de caminho-de-ferro, refinarias, cercar os edifícios representativos do Estado e as residências pessoais dos governantes, e resistir pacificamente (mas resistir) à violência do Estado.

Gostaria de ver dezenas de milhares de compatriotas meus a fazer declarações semelhantes.

Paulo Varela Gomes

EU


Identifico-me com o Rilke quando diz que:

a) viajar dentro de nós sem nos cruzarmos com ninguém deveria ser a nossa principal aspiração.

b) não pertenceu a nenhuma escola, não defendeu nenhuma teoria, nem propôs nenhum sistema. Foi, enfim, um criador.

Aos 30 de Outubro de 2010

EU

A mulher chata


Aposto que já viram a cena.

Um casal sentado à mesa de um restaurante. O homem calado e a mulher com cara de poucos amigos. Parece um poço de mau humor.

Tudo é possível na combinação de um casal composto por uma mulher amarga e um homem calado.

Basta o homem não ter iniciativas para fazer da própria mulher um monstro de abusos. Habituada a dar ordens, a fazer tudo, acha-se no direito de intervir também nas questões pessoais do marido e, o que deveria ser uma troca voluntária de delicadezas, atenção e respeito, torna-se num eterno intercâmbio de farpas e ressentimentos.

Causa-me espanto a falta de humor de certas mulheres. Considero a falta de bom humor um defeito grave, aliás, em ambos os sexos. Sem humor, perde-se a oportunidade de dar um novo rumo a uma conversa tensa ou até imprimir um clima melhor numa crítica necessária.

Vamos então a uma lista, simples, das manias no “universo feminino” que as tornam realmente chatas:

- Considerarem o futebol, como uma rival mais ameaçadora do que a Angelina Jolie nua batendo à porta de casa!

- Telefonarem de quarto em quarto de hora para falar sobre…nada de específico.

- Falarem mal do marido/namorado/companheiro/com terceiros, em frente dele.

- Falarem demais.

- Olhá-los de alto a baixo quando eles se arranjam para sair com elas.

- Discutirem a relação.

Como se livrar então de uma mulher chata?

Nem sempre se pode usar técnicas tão eficazes como empurrá-las pela escada abaixo, mas felizmente que a tecnologia existe para nos ajudar nestes momentos.

Na verdade é MUITO simples e pode ser feito em dois passos, só temos que nos valer do amor que as mulheres têm por hábitos e rotinas.

Primeiro, dá-se de presente este curioso e único secador de cabelos:



Depois de instalado, deve deixar-se que ela o use durante algumas semanas, até ter o hábito de o ligar para secar o cabelo.

Quando se tiver a certeza de que se acostumou ao secador, é só preciso cometer um terrível engano, e deixar uma Magnum 357 no mesmo sítio aonde costumava estar o secador, o qual foi para “arranjar”.



Esta técnica é infalível.

Só não digo que é tiro e queda porque odeio trocadilhos.

Portugal....um poço


Fundo
Mudo
Tudo
Água
Luz
Deduz que será salvo...
Mas é mais um alvo
do fundo do poço sem fim...
E o seu sangue escorrido parece carmim
Segura
Dura
Parede
Pedra
Lodo
Lama
acabou-se aí a sua fama:Afogou-se.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pai valente





Pai valente tem o coração forte
e quente! Mas também carrega
a ternura no peito e o carinho nas mãos!

Caminha com passos certeiros
sempre ajudando com coragem para
assistir de pé à vitória de um filho.

Pai valente é lutador! Sábio! Guerreiro!
Mestre! Senhor das situações! Não
vacila e está presente em todos os
momentos! Sempre com acções firmes e
certeiras!

Pai valente sabe quando deve agir para
ajudar um filho a crescer. Não desanima
e é o incentivador maior da vida!

Pai valente acorda cedo. Vai trabalhar.
E trabalha com afinco. Vontade. Raça. Garra.
Depois do dever cumprido, volta para
casa e faz questão de jantar com os filhos no
meio de conversas e de muita harmonia.

Pai valente também fica na cabeceira da
cama quando os filhos se encontram doentes,
torcendo pelas melhoras.

Pai valente ri! Leva o optimismo para a frente e
não deixa os filhos esmorecerem!

Pai valente é gigante!
Brinca com os filhos pulando, correndo
e enrolando-se pelo chão!

Pai valente é tudo de bom na vida da gente!


de Antonio Marcos Pires

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A minha Mãe


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,
é eternidade.

Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vanitas (Diálogos de Platão) FILEBO


Sócrates - Então tenta ver, Protarco, em que consiste a tese de Filebo, cuja defesa vais fazer, e também a nossa, que terás de contestar, no caso de não a aprovares. Queres que recapitulemos as duas?

Protarco - Perfeitamente.

Sócrates - Ora bem: o que Filebo afirma é que, para todos os seres animados, o bem consiste no prazer e no deleite, e tudo o mais que seja do mesmo género.

Da nossa parte, defendemos o princípio de que talvez não seja bem assim, mas que o saber, a inteligência, a memória e tudo o que lhes for relacionado, como a opinião certa e o raciocínio verdadeiro, são melhores e de mais valor do que o prazer.

Para quantos forem capazes deles usufruir, essa fruição é o que há de mais valioso para os seres universais, presentes e futuros. Não foram estes os pontos, Filebo, que cada um de nós, mais ou menos, defendeu?

Filebo- Isso mesmo, Sócrates; sem tirar nem pôr.

Sócrates - E agora, Protarco, aceitas defender a tese que te confiamos?

Protarco - Sou obrigado a aceitar, uma vez que Filebo já desistiu de por eles se bater.

Sócrates - Haveremos, por todos os meios, de conseguir atingir a verdade neste domínio.

Protarco - Sem dúvida.

Sócrates - Muito bem; acrescentemos ao que ficou dito mais o seguinte.

Protarco - O quê?

Sócrates - Que a partir deste momento, cada um de nós se esforçará por demonstrar qual é o estado e a disposição da alma capaz de proporcionar vida feliz aos homens. Não é isto?

Protarco - Exacto

Sócrates - Então, compete a vós ambos demonstrar o que é o prazer; e a mim, a sabedoria.

Protarco - Perfeitamente

Sócrates - E se descobrirmos outro estado, superior a estes? Será que a vida do prazer levará a melhor, em relação à da sabedoria?

Protarco- Isso mesmo

Sócrates - E se tiver maior afinidade com a sabedoria, será esta que vencerá o prazer, o qual acabará derrotado. Admites também este ponto ou não?

Protarco - Eu, pelo menos, admito.

(trecho dos "Diálogos de Platão" - FILEBO)

sábado, 23 de outubro de 2010

A insatisfação


A insatisfação norteia as nossas vidas.

Há pessoas que precisam do tédio para sobreviver. Uma rotina, por assim dizer. Um quotidiano previsível que nos faz sentir que controlamos os acontecimentos do dia a dia. Tudo provável. Nada de surpresas. Nem más, nem boas.

Mas a maioria das pessoas cria subterfúgios para fintar o tédio. O que as diferencia são as ferramentas que utilizam como válvulas de escape. Há uns que recorrem às drogas. Em pouco tempo a droga escolhida transforma-se em tédio. Então recorrem a outra. E assim por diante.

Há quem prefira mudar de namorada cada mês ou por trimestre ou ao ano. Outros mudam de cidade como ciganos. E há os que recorrem à criatividade. Inventam eventos.

Reinventam-se ou através do trabalho, ou por meio de fantasias. Pintam um quadro, escrevem um livro, fazem um filme. Procuram obras que expressem as suas variações de humor, que enfrentem o quotidiano sem surpresas. Procuram músicas que os transportem para outro universo.

Viajam, correm, fazem um trabalho voluntário.

Estamos sempre a tentar sair da “caverna do Platão”, aquele território mais do que conhecido e explorado, ao qual sempre acabamos por voltar depois de cada aventura.

O que vale é a eterna busca para fugir à insatisfação.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Lisboa de outros tempos - 14ª Carta do meu primo Luis Bernardo




Meu Caro Manuel,

Fui visitar os teus Avós maternos como me tinhas pedido. Estão excelentes e o teu Avô tinha recolhido uma série de fotografias que me deu e que te mando bem como organizado as ideias para te poder falar um pouco sobre a sua juventude, que obviamente não conheceste.

Transcrevo-te o que ele me disse dirigindo-se directamente a ti:

O meu Pai, como tu sabes, tirou o Curso Superior do Comércio, equivalente nessa altura a uma licenciatura em gestão financeira e foi Presidente da Junta de Crédito Público, tendo ocupado também outras altas funções no Estado, sempre dentro deste âmbito profissional. Foi colega do Alfredo da Silva com quem travou forte amizade.

Com cerca de 18 anos e depois de terminados os estudos secundários no Colégio de Campolide, o meu Pai falou com o Alfredo da Silva para me arranjar um emprego e fui estagiar para a Casa Bancária José Henriques Totta, aonde percorri todas os sectores da banca, criando uma sólida formação comercial e contabilística.

Quando casei com a tua Avó, ainda bem novo, fui desafiado pelo meu sogro e teu Bisavô para o ir ajudar na gestão da Editora Romano Torres, já na sua família há muitas gerações. Eu adorava livros, trazia conhecimentos actualizados e úteis, e por isso nem hesitei. Mais tarde com o meu irmão mais velho, desempenhei funções de Administrador não executivo em variadíssimas empresas aonde ele era Presidente e a nossa família, proprietária ou grande accionista.

Não sei se teria tido uma actividade profissional mais interessante se tivesse seguido a carreira bancária, mas não me arrependo da que escolhi pois não há melhor do que se trabalhar no que é nosso e fomos realmente muito bem sucedidos, com uma elevada qualidade de vida, como te lembrarás e de que todos beneficiaram e ainda bem.

Na minha vida de solteiro, e é dessa de que te vou falar porque me pediste, não posso deixar de te referir que a maioria dos rapazes com meios e de boa sociedade, tinham hábitos de grande pândega, sobretudo nocturna.

Era uma vida com dois tipos de comportamento :

o primeiro, o oficial e familiar com um enorme respeito pelos nossos Pais e Avós e pela severidade formal de que se revestiam as relações :

- a vida doméstica tinha horários estritos e presença obrigatória nas demoradas refeições em grandes casas servidas por criados e criadas e nas quais devíamos estar sempre bem vestidos e impecavelmente apresentados ;

- não podíamos, em princípio, eximir-nos ao cumprimento de todos os hábitos religiosos que o nosso estatuto social nos impunha ;

- as Mães e Avós eram muito devotas (dependendo o exagero de caso para caso, e no meu, apesar de muito rígida era terna e gostando muito dos filhos) e os Pais um pouco distantes, mas zelando pelo equilíbrio social e pelas tradições familiares, sem que pudéssemos causar escândalo.

o segundo, aliás transversal a Avós, Pais e Filhos (quando aplicável), era o de uma vida secreta, confidencial e zelosamente guardada cúmplicemente entre todos e só partilhada entre cada nível geracional.

Sabia-se que os « Cavalheiros » e disso se conversava detalhadamente com peripécias e gozo nos seus Clubes, faziam grandes vidas de lazer, com prazeres ocultos e práticas sensuais, mas normalmente sempre a horas que não prejudicassem, aos casados, o cumprimento dos seus deveres conjugais….Imagina que se jantava pelas seis horas da tarde ! Dava tempo de sobra para voltar depois da refeição ao escritório para fazer horas extraordinárias tardias, ou ao consultório a atender pacientes urgentes e por aí a fora…

As Senhoras casadas, sobretudo as mais desprezadas e por isso mais directamente infelizes ou as noivas desvalidas desconfiavam de toda essa vida brejeira e desregrada e como em tudo, não só acabavam por ser « apanhados » noivos, namorados, maridos e até « castas esposas » em flagrante delito, situações estas que redundavam sempre em separações, abandono das casas familiares ou rompimento de noivados.

O « sport » era uma ocupação dos « dandy » e da juventude bem educada desses tempos, e no meu caso e dos meus 2 irmãos, escolhemos a esgrima aonde fomos sempre muito bem conceituados : os teus Tios-Avós foram várias vezes campeões de Portugal e brilharam no estrangeiro, bem como vencendo inúmeros torneios que se disputavam entre os Clubes privados do país.

Nós atirávamos na Sala d’Armas do Professor Carlos Gonçalves, uma das melhores e mais bem frequentadas de Lisboa, sendo ele um insigne mestre com fama internacional. Foi com ele que teve lugar um dos últimos duelos à espada em Portugal.

Tínhamos como Amigos e parceiros de esgrima o Conde de Lavradio, o Henrique MacBride, e os membros de uma equipe que mais tarde ganhou uma medalha de bronze nas Olimpíadas de Amsterdão em 1928 formada pelo Mário de Noronha, filho do escritor Eduardo de Noronha, Paulo d’Eça Leal, Jorge de Paiva, João Sassetti, Henrique da Silveira e dávamo-nos também com o Ruy Mayer, o António Mascarenhas e Menezes, o António Pinto Leite e tantos outros que tornavam esta prática num verdadeiro prazer entre amigos.

Para te descrever o que eram as nossas noitadas preciso de recuar um pouco no tempo e contar-te o que era a noite de Lisboa desde o fim da Monarquia até à República e aos meus anos de viçosa mocidade.

Com efeito, na minha juventude era nítida a convivência que alguns aristocratas desenvolviam tanto com as « cocotes finas » como com as prostitutas do fado baixo. Nas esperas de touros, ao som do fadinho chorado, lá víamos as « cocotes chiques » ao lado da Severa, da Júlia Gorda ou da Joaquina dos Cordões.

As esperas de touros constituíam também motivo de franca confraternização entre os boémios das várias castas, desde o faia do Bairro Alto até ao mais requintado aristocrata. A integração era quase perfeita e as distinções culturais apareciam socialmente minimizadas.

Ou seja, a Lisboa boémia era, do ponto de vista cultural, distinta da outra Lisboa : a gíria fadista do Bairro Alto, Alfama e Mouraria era ilustrativa da faceta rija e brigona de tais bairros. As próprias prostitutas adoptavam frequentemente nomes de guerra no sentido de uma certa auto personalização.

Mas, se, ao nível cultural, as fronteiras que separavam a Lisboa boémia da Lisboa de «ar mais sério» não eram muito permeáveis, por inevitáveis exigências de mercado, surgiu uma maior concorrência entre as prostitutas, cuja consciência de profissionalização cresceu progressivamente. Acresce que, ao mesmo tempo que o fado se aristocratiza, o « chulo » era, para além de fadista, uma personagem dupla — «marido complacente» e «guarda-costas para ocasiões críticas» —, e passa a ganhar uma tôsca, mas frutuosa, consciência empresarial, metendo por dia ao bolso uma razoável quantia.

Quanto às zonas de prostituição, os aventais de madeira (bordéis da clássica meia porta) mais antigos passaram a dar lugar aos bares, ao mesmo tempo que, com o aumento do tráfego e das vias de comunicação, as nómadas tornam-se as passageiras certas e pontuais dos camionistas.

O fado pode ser considerado como filho da prostituição e das baiucas. Daí que no bordel estivesse sempre presente uma guitarra. O fadinho era a canção, a dança especial e predilecta de meretrizes, vadios, estróinas e boémios e, enquanto o fado tanto podia significar «prostituição na mulher» como «vadiagem no homem», fadista era a mulher que se entregava à prostituição ou o homem brigão, vadio, desordeiro.

O fadista, como a Lisboa do meu tempo o entendia — galanteador arrogante e valdevino — era temível até pelo nome: o Facada, o Trinca, o Naifa.

Aqui e além surgiam tentativas de regeneração da prosápia do fadista e avançavam-se com vagos «sentimentos de honra». Um conhecido fadista e poeta boémio afirmava:

Os fadistas que se prezam tocam guitarra, mas não usam navalha! Cantam o fado, mas não são rufiões.

O certo é que a vivência boémia não dispensava as corridas...apitos...balbúrdia... galegos a correr com macas para o Hospital de S. José...cirurgiões a coserem as barrigas furadas pelas simpáticas navalhas de ponta e mola.

Muitos fados da época retratavam fielmente o quotidiano habitual do fadista pimpão:

Na tasca da putaria
Houve ontem grande bulha,
Veio de lá a patrulha,
Pra o Carmo levar me queria.
Um soldado olha para mim,
E me diz: «Marche prà frente,
Barulho não se consente,
Aqui não se quer chinfrim.»
Mas não me faz espantar,
Que tinha vinho nas tripas;
Preguei-lhe quatro chulipas
E depois toca a safar.

Na verdade, rara era a noite em que não ocorriam sérios confrontos entre as forças da ordem e a fadistagem. Ciúmes e disputas de mulher estariam, talvez, na origem destas intrigas. Com efeito, os famigerados guardas também tinham os seus arranjinhos e as suas protegidas. O certo é que as forças da ordem detestavam os fadistas, abominando as suas melenas e a boca de sino das calças.

Na esquadra do Atalaia, o chefe Silva parece que exagerava: quando algum desgraçado que assim trajava lhe ia parar às mãos, com uma tesoura, cortava-lhes as mechas de cabelo e, quanto às calças, não tinham a menor sorte: a desalmada tesoura ia-se às bocas de sino como faca à manteiga. As vinganças eram depois implacáveis. Neste caso concreto, quando o chefe Silva se reformou, a fadistagem fez-lhe uma espera, de noite, e foi tal a carga de pancada que lhe aplicaram que o desventurado, dela morreu um mês depois!

Aristocratas ou de condição mediana, oficiais do Exército e até burgueses pacatórios quiseram abraçar o fado. O luxo era fazer uma digressão « guerreira » à Mouraria, Bairro Alto e Alfama.

Fidalgos roçando por costureiras; um ministro a par e passo de um gatuno; um poeta ao lado de um barbeiro; uma virgem passando ao lado de uma prostituta.

As tabernas, ponto de encontro de todos estes boémios, tinham, naturalmente, uma frequência socialmente diversificada. Todos lá iam depenar a perna. Desde moços de fretes, até à mais fina-flor da aristocracia. Esta, ou amava em São Carlos ou no bordel. Os mais ousados preferiam o bordel ou a taberna, independentemente das indignações e de certos preconceitos de família.

As dolências de uma guitarra à boca de uma taberna tinham, pois, uma plateia variada. Até altas horas havia descantes, fado batido, gritaria infernal.

Taberna tranquila, sem murros, sem gritos, sem facadas, era «fraca taberna». A taberna pedia desordem e o povo pede taberna. E com o povo andava a aristocracia boémia.

Nas esperas de touros, certos círculos aristocráticos mantinham uma convivência aberta com as prostitutas do fado baixo. Estas, por sua vez, mantinham uma relativa convivência com as « cocotes finas ».

A diferença entre elas reflectia-se apenas, na utilização ou não do «leito de ferro» ou da «cama de embutidos».

Os «doidos marialvas», integrados em grupos de desordeiros e beberrões, fadistas e vagabundos, por todas as locandas, desde o Arco do Cego até Loures, eram acompanhados pelas amantes e outras mulheres de vida fácil. Alojavam-se, nomeadamente, nas locandas vizinhas do Campo Pequeno até altas horas da madrugada, à espera da largada de touros.

Os próprios fidalgos trajavam à fadista. A integração era perfeita e as distinções sociais minimizadas. Aqui, um fadista de calça à boca-de-sino, cinta, jaqueta e chapéu desabado, tocando fados ou corridinho; ali, um filho pródigo que andava dissipando a herança paterna; acolá, um fidalgo pândego, amador da paródia das esperas, trajando igual ao fadista.

Poder-se-á, enfim, especular se as «mulheres do fado» não tinham amantes predilectos. Parece que sim, mas todos eles, fossem marinheiros, ou marialvas, tinham uma particularidade comum: eram amantes do fado. Dentro dos limites do possível, elas sabiam respeitá-los, não os atraiçoando com outro qualquer. Separavam «o seu comércio dos seus amores». Não sustentavam relações amorosas duplas, até porque eram perigosas.

Ao mesmo tempo que o fado se aristocratiza, a vida boémia da capital transforma-se. Para além do fadista, figuras típicas da boémia, como a «proxeneta», o «chulo» e a prostituta, ganham novos hábitos, desenvolvem novas práticas.

Mas voltemos ao meu tempo, aonde surgem as « engatadeiras » a tempo integral, passando a actuar como verdadeiros agentes de tráfico conhecedores dos mais ardilosos segredos de marketing. Nas chegadas dos comboios à capital ou na província, para melhor poderem actuar, até se apresentavam, sofisticadamente, trajadas de irmãs da caridade ou com uniformes de enfermeira. Às pequenas que andavam na venda de peixe e de fruta eram feitas propostas com mobilizadores atractivos pecuniários. E até a qualidade do produto não era descurada: eram quase sempre escolhidas as que tinham seios redondos, nádegas amplas, boas cores, alvos dentes e tutti quanti era essencial para agradar ao mais exigente.

Quanto aos circuitos de divulgação do produto, passavam a ser também dos mais sofisticados: nas ruas da Baixa enviavam-se «bilhetes de convite» oferecendo a «prática de bons serviços», como quem divulgava um memorando ou reclame dum estabelecimento que vulgarmente anunciava um produto.

Fazíamos ceias no Tavares Rico, íamos ao teatro e trazíamos as coristas.

Não me arrependo desta vida de estroina, bem vivida, divertida e criando grandes laços de solidariedade entre os companheiros e amigos de fortuna. Guardámos sempre grande cumplicidade entre todos, e mesmo já depois de casados e cada um com as suas famílias, quando nos encontrávamos, os abraços eram apertados, os sorrisos largos e bem dispostos e vinham sempre à memória e nas nossas conversas esses belos tempos passados em conjunto.

Aqui tens o que, sendo talvez um pouco libertino, não prejudicou no futuro para a maioria de nós o respeito pela honra, as boas maneiras e a sã e alegre convivência, malgrado porém para alguns ter acarretado graves consequências de doenças da época, a ruína e precariedade de fundos bem como ter contribuído para a existência de famílias complicadas e infelizes.

Nós, nesses momentos sentíamo-nos felizes, descomplexados e gozando os prazeres da boa vida.

A terminar, devo dizer-te que éramos todos uns janotas e cuidávamos das nossas aparências: tudo era acessível a pessoas da nossa condição – barbeiros, manicuras…quantas não se tornaram verdadeiras « companheiras », alfaiates com tecidos e cortes da moda, sapatos mandados vir de Inglaterra, chapéus de feltro elegantes, camisas de popelina fina e gravatas de seda, lenços de cores variegadas : tudo contribuía para uma aparente, mas real felicidade.

Meu querido Manuel, muito engraçado este teu Avô e com uma enorme boa disposição.

Um abraço do teu primo muito afeiçoado

Luis Bernardo

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

o silêncio de Agustina


Em 1959, Agustina foi convidada a participar num congresso em Aix-en-Provence sob o tema geral - o destino da Europa - com grandes figuras da literatura europeia. Posteriormente, publicou um livro em que descreve a viagem por Espanha, França e Itália, uma espécie de diário com reflexões preciosas sobre diversas questões, entre elas, o silêncio.

No dia em que ia ser discutido o problema da técnica, Agustina diz das suas impressões muito bem-humoradas sobre alguns participantes que vão aparecendo na sala ao mesmo tempo que distribui sorrisos já sentada numa cadeira rústica pintada de azul-claro. Escreve de como é difícil alguém conservar a dignidade intelectual sentada numa cadeira tão ingénua, mas é a que ela escolhe. Ainda uma vez fala de convívio e de silêncio.

"Entre uma multidão que se interpela, que se exprime afanosamente, que se chama à distância, que se abre em aberrantes votos de confiança, que se oferece, que se interessa, que arma pavilhões e convida amigos e desperta vizinhos, encontrar alguém que está calado e permite que façamos a respeito dele suposições erradas e fantásticas – isso é como descobrir a pedra filosofal. Para o diabo o mundo elástico das boas intenções, as campainhas no pescoço do belo senso; para o diabo os sindicatos da simpatia, o quase entendimento, a meia-verdade, o saltinho sobre o ombro da minúscula razoabilidade! Fechem as máquinas de falar, desandem os botões da verbosidade, façam má cara aos visitantes, despeçam os oradores oficiais, cancelem o contrato dos conferencistas. Silêncio, silêncio… Escondam o rosto um momento, desçam as cortinas, preguem as janelas, chorem, se quiserem, mas silêncio! Dai tempo a ouvir um anjo que passa, uma cigarra que canta, uma pedra que rola, uma flor que morre. Também isto é sério, também isto é justo, também isto é revelação, e caridade, e inteligência. Dai tempo a vós próprios, que sois vivos e que o podeis saber. E silêncio."