terça-feira, 14 de junho de 2011

Memórias do cárcere (9) a aldeia tribal


Partimos, Manuel Candeeiro de Deus e eu, numa madrugada daquelas de África aonde a terra ainda cheira à noite, de autocarro para a tão almejada visita à sua aldeia natal.

Os meus pais discordaram totalmente deste meu empreendimento até ao último minuto. Mandei Manuel dormir fora de casa na véspera para não ser confrontado com esta afronta. Viria ter comigo logo cedinho no dia seguinte. Acho que percebeu a intenção e disse-me mais tarde que ficara muito grato.

O meu pai, antes de se deitar foi ao meu quarto e deu-me alguns bons conselhos de experimentado pisteiro e ao beijar-me, desejou-me boa viagem. Não fez mais comentários. Senti que tinha compreendido no seu íntimo que esta minha amizade por Candeeiro de Deus era fruto do abandono a que me votavam e que tanto eu como o meu preceptor africano sabíamos o lugar de cada um, sem mais consequências.

Já a minha mãe tinha feito uma cena e dito que estava a tomar uma atitude impensável de alguém da nossa classe. O que diria a sociedade, os amigos e até o perigo para um branco de se aventurar no meio de uma aldeia nativa?

- Disparates ofensivos do pobre Manuel! Como se de repente se preocupassem pelo meu bem-estar! Nunca me ligaram bóia tendo sido ele o meu verdadeiro pai e mãe – disse enfadado e sem mais discussões.

No caminho, no autocarro fui fazendo perguntas sobre a vida na sua aldeia.

Disse-me que possuem uma maneira própria de organizar a vida. Entre eles tudo é dividido com o objectivo de fazer com que a aldeia funcione harmoniosamente. A divisão do trabalho, por exemplo, segue basicamente critérios de idade, sexo e acumulação de conhecimentos e de cultura.

Segundo me explicou Manuel Candeeiro de Deus as funções e divisão do trabalho na aldeia passa-se da seguinte maneira:

- Os homens adultos são responsáveis pela caça de animais selvagens. Devem garantir a protecção da aldeia e, se necessário, participarem e arbitrarem nas disputas com outras tribos. São os homens que também devem manejar as ferramentas, instrumentos de caça e pesca e a construção das casas.

- As mulheres adultas cuidam dos filhos, fornecendo-lhes alimentação e os cuidados necessários. Também cuidam da agricultura da aldeia, plantando e colhendo as culturas. As mulheres também devem fabricar objectos de cerâmica (vasos, potes, pratos) e preparar os alimentos para o consumo. Devem ainda apanhar os frutos, fabricar a farinha e tecer as redes de pesca (artesanato).

- As crianças, ou seja, os rapazes e raparigas da aldeia, também têm determinadas funções. As suas brincadeiras são orientadas para a aprendizagem prática das tarefas que deverão assumir quando adultos.

- Há o chefe político e administrativo que é experiente, devendo manter o bom funcionamento e a estrutura da aldeia.

- O curandeiro possui um grande conhecimento sobre a cultura e a religião da tribo. Conhece muito bem o poder das ervas medicinais e actua como uma espécie de “médico” da aldeia. Mantém as tradições e repassa-as oralmente aos mais novos. Os rituais religiosos também são organizados por ele.

Além de trabalharem, também se divertem. Fazem festas, danças e jogos. Porém, estas formas de divertimento possuem significados religiosos e sociais. De entre os jogos, por exemplo, destacam-se as lutas. Estas são realizadas como uma forma de treino para desenvolver a parte física.

(continua)

domingo, 12 de junho de 2011

Memórias do cárcere (8) o túnel


Numa das celas do meu corredor, vim a saber estar o Pe. Frederico, tido como pedófilo e acusado de homicídio.

A sua mãe visitava-o semanalmente e trazia-lhe dinheiro, guloseimas, boa comida e pequenas lembranças.

Um dos gangs,resolveu começar a sová-lo e a roubar-lhe sistematicamente tudo o que ele recebia e um dia, com bastante serenidade, queixou-se no pátio ao David.

Como bom bufo que era, David passou o recado ao gang rival que convocou o Pe. Frederico para um encontro discreto numa das salas da biblioteca da prisão.

- Olhe Sr. Pe. Frederico, não somos cá de pedofilias, e parece que nada foi provado mas acabou acusado da morte de um seu protegido, por ter caído de uma falésia. Nada temos com isso, o que não toleramos é roubos e violência. Fica nosso protegido. Só precisamos que nos diga quem são os reclusos que o assaltam e lhe batem – disse o chefe do gang.

- Muito agradecido pela vossa atitude, mas já aceitei que faz parte da minha pena. Não vou dizer os nomes pois tenho medo de represálias – respondeu o Pe. Frederico, em português do Brasil.

O chefe do gang franziu o sobrolho e disse zangado:

- Nós não aceitamos isso. Vai mesmo ter que nos dizer a identidade deles mas não se preocupe, porque fica fora disto. Se não o fizer, olhe que as chatices sobram para si.

O Pe. Frederico acabou por denunciar os seus agressores e voltou para a cela apavorado.

O acesso ao pátio faz-se por várias portas, mas sobretudo por uma espécie de túnel grande que permite a passagem de muitos presos em conjunto e em tropeção desejosos de ar livre.

Há uma certa escuridão no meio e nesse dia dois homens do gang que protegia o Pe. Frederico, colocaram-se de cada lado do túnel, armados com barras de ferro e quando os agressores passaram ao seu alcance, bateram-lhes com força nos queixos e nos joelhos.

Ouviram-se uns gritos de dor intensos e quando os guardas acorreram, depararam com dois reclusos contorcendo-se no chão numa poça de sangue, com os queixos desfeitos e com os joelhos partidos.

Nunca mais se ouviu falar de roubos ou pancada ao Pe. Frederico.

Tornou-se ainda mais discreto até que se soube que tinha fugido para o Brasil.

David contou-me esta história para enfatizar como era importante que eu aceitasse a protecção do gang do Ratinho.

Nessa noite, sonhei com África, com o planalto dos Macuas, com o meu preceptor Manuel Candeeiro de Deus e perguntei-me se um dia poderia também para lá fugir.

Acordei a meio da noite ensopado em suor. Estava uma temperatura tórrida e eu ali preso.

Olhei para as barras da janela e calculei que se atasse o lençol da cama às grades e me pendurasse com ele em volta do pescoço, com o meu peso, seria eficaz: um garrote perfeito para me enforcar!

(continua)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Memórias do cárcere (7) o chefe do gang


Mal nos abriram as portas das celas, avança para mim sorridente um homem dos seus 54 anos, que me estende a mão e se apresenta:

- Bom dia, sou o Ratinho.

- Eu sou o Ron – disse-lhe retribuindo o gesto.

Gostei da cara dele logo ali. Parecia um “gentleman dos bandidos”, bem entendido. Por alguma razão estaria lá!

- Vê-se que não és da chunga, o que vai sendo raro nesta prisão. Já me dirás o que fizeste, mas tenho urgência em falar contigo, primeiro porque és meu vizinho de cela e poderemos comunicar facilmente e depois porque tive uma baixa no meu grupo – acrescentou o Ratinho, cofiando uma barba surpreendentemente bem aparada e limpa.

Fomos tomar o pequeno-almoço à cantina e sentámo-nos numa mesa mais afastada dos outros reclusos. Vi uma data de olhos observarem-nos à nossa passagem, e percebi que o meu companheiro deveria, pelo menos, ser conhecido, senão respeitado. Já com o David, passei despercebido, o que viria a constatar mais tarde, ser uma grande vantagem.

- Sou o chefe de um gang aqui dentro. No meu grupo tenho condenados por crimes de todo o tipo, mas não aceito gajos da ralé, ou seja, têm que ser inteligentes e fiéis. Pagam com a morte os deslizes que cometerem e normalmente isso acontece mais com os ignorantes e os estúpidos. Tu tens cara de educado e esperto – comentou o Ratinho com uma voz decidida e sem pudor, como se estivesse a falar de tremoços!

- Sim, tenho um curso superior e tenho ética no que faço – disse-lhe sem hesitação.

- Precisas de um padrinho que te proteja e por outro lado terás que fazer algumas tarefas que eu te ordene e que sejam necessárias ao gang. Estás disposto a aceitar estas regras? – perguntou o meu vizinho de cela.

- Preciso primeiro de saber quais são as regras, quem és tu e quem são os outros membros do grupo e o que fizeram para aqui estarem, o tipo de actividades que me serão exigidas cumprir…e o que mais me ocorrer. Dá-me uns dias…aqui não há pressa! – acrescentei sem temor.

- Muito bem, tens até Sábado de manhã para te decidires. Depois de nos verem juntos serás abordado por outros gangs. Se quiseres, logo pela tardinha conversamos de novo no pátio e já te poderei responder a todas as tuas dúvidas e perguntas – e o Ratinho levantou-se e foi-se deixando-me sozinho.

De facto, David aproximou-se e sentou-se ao pé de mim.

- O Ratinho é um dos mais poderosos chefes dos gangs. Estás cheio de sorte em ele te ter contactado. Eu se fosse a ti aproveitava e aceitava o convite que ele seguramente te fez para ser teu padrinho. Ele tem lá fora uma bem sucedida rede de roubos de carros de topo de gama e mesmo estando aqui detido, ganha muito dinheiro. Compra os guardas e tem tudo o que quer – e David olhava para mim com algum respeito ao me dizer isto, creio que, por me ter visto com o meu futuro chefe!

- Posso ser-te muito útil se me quiseres aproveitar. Sou um bufo e sirvo aqui dentro vários gangs ao mesmo tempo, por isso sei sempre o que se passa em todo o lado. Só te exijo que me vás informando do que sabes e que de vez em quando me pagues o que eu te pedir. Será sempre proporcional aos serviços que te prestar. Verás que não te arrependerás – e com esta tirada se foi.

No pátio fui-me aproximando de um grupo de mais jovens que jogavam basquetebol á volta de um poste com uma rede e pus-me a olhá-los, mas no fundo fiquei apreensivo com tudo o que ouvira. Abria-se um novo mundo a que nunca estivera habituado no mundo lá fora.

Tinha que pensar muito seriamente os riscos que corria, mas não me ocorria nenhuma alternativa caso recusasse. De nervos, começaram a tremer-me as pernas e o corpo inteiro e fui escorregando até ao chão e desatei num pranto, soluçando alto.

Olharam vagamente para mim e ignoraram-me mas não conseguia controlar o meu mal-estar e aflição.

Senti um afago no ombro e alguém a pegar-me na mão fazendo festas suaves. De repente revi-me em África, em Lourenço Marques, à saída da minha escola no fim do dia, quando depois de uma luta sem tréguas com uns mais fortes que me maltrataram à séria, Manuel Candeeiro de Deus me apareceu a consolar e a levar-me de volta a casa.

- Vem, vamos para dentro. Acontece a todos nos primeiros tempos, não temas, verás que passa – e ajudando-me a levantar, abraçou-me e amparou-me até ao corredor da minha cela.

- Chamo-me José Maria, mas sou conhecido por Zeca.

(continua)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Memórias do cárcere (6) o meu preceptor africano


Manuel Candeeiro de Deus todas as manhãs me aprontava para a escola.

Era reconfortante ser acordado por uma voz quente e sobretudo por uma fiada de dentes brancos imaculados a sorrirem abertamente para mim.

A minha mãe estava sempre a dormir a essa hora. Ou porque tinha tido um cocktail ou um jantar até tarde na véspera, ou porque gostando de acordar pelo meio-dia, podia dar-se ao luxo de ter criados pretos em número suficiente para lhe tratarem da casa e nomeadamente o fiel Candeeiro de Deus para lhe olhar pelo filho.

Só quando voltava da escola pela tardinha é que encontrava a minha mãe. Às vezes nem isso pois ou era um chá social ou tinha ido às compras com as amigas.

No entanto, antes do meu jantar vinha sempre ao meu quarto dar-me um beijo, inquirir vagamente sobre os meus deveres escolares e tentar afectadamente dar-me algum carinho.

O meu pai, como já antes referi, estava muitas semanas ausentes na selva, mas quando vinha tentava compensar-me com uma presença assídua junto de mim. Abominava a vida social e fútil da minha mãe.

Mais tarde, já mais crescido, vim a constatar que tinham um acordo de vida em comum sem se hostilizarem, cada um pelo seu lado. Muito típico da boa sociedade colonial, especialmente a de Lourenço Marques.

A minha mãe tinha uns flirts com vários homens ricos e ociosos que a acompanhavam nos seus programas, jantares e festas, mas não passava disso. Nunca se ouviu falar de nada concreto nem mais ousado.

No caminho para a escola, o meu fiel preceptor falava-me de tudo. Em mais pequeno contava-me as histórias que todas as crianças gostavam de ouvir mas como estávamos em África, acabavam sempre por meter um leão chamado Shani, que no idioma macua significa « maravilhoso ».

Ora o Shani povoava os meus sonhos pois era valente, justo e bondoso para os animais indefesos que protegia contra os predadores. Claro que Candeeiro de Deus nos seus relatos valorizava o « amigo leão » ensinando-me a respeitar a natureza e os seres vivos da selva.

Um dia perguntei ao meu pai porque matava os animais, nomeadamente leões e elefantes, contando-lhe as histórias que ouvia e ele ficou furioso. Vim a saber que se zangou com o criado e o proibiu de me voltar a falar de tais assuntos.

Candeeiro de Deus, respeitador e obediente, mudou de temas e as histórias passaram a ser sobre a vida dos pretos nas aldeias da sua tribo bem como os seus hábitos e costumes.

Sentia-me tão perto dele, assimilando tão naturalmente toda a cultura e formação que me ia dando, que me pareceu natural pedir ao meu pai para ir passar umas férias na aldeia natal do meu preceptor.

Os meus pais falaram entre si e disseram-me redondamente que não, que era um disparate e que um filho de patrões brancos não acamaradava com criados pretos.

Isto passou-se quando eu já eu tinha os meus 15 anos tendo ficado indignado, revoltado e durante um mês não falei em casa, respondendo aos meus pais por grunhidos. Não se importaram muito, pois as vezes que com eles estive foram tão poucas, que acho que nem tomaram esta minha atitude como retaliação.

Uns anos mais tarde e já maior, decidi ir com Candeeiro de Deus passar um mês das minhas férias de verão à sua aldeia perto de Nampula.

Os Macuas - povo da floresta - são uma tribo de origem banta. Em tempos habitavam na zona dos Grandes Lagos (República Democrática do Congo). Depois deslocaram-se em direcção ao sul da África. Actualmente são o grupo étnico mais numeroso de Moçambique. Eles são um povo caracterizado pela sua inclinação natural para o sorriso, que se traduz muitas vezes em sonoras e prolongadas gargalhadas.

Para a tribo Macua, o sorriso é um sinal de amizade e de que se pode criar uma boa relação. Quando chega alguém que não conhecem, sorriem-lhe na mesma. Deste modo, ele saberá que não tem nada a temer. Os macuas recorrem também ao sorriso para apagar as ofensas. O ofendido, por sua vez, espera que aquele que o ofendeu lhe retribua outro sorriso para demonstrar que não queria ferir-lhe o coração. Basta um sorriso e acontecerá a reconciliação.

Tudo isto me foi dito por Manuel Candeeiro de Deus antes da minha partida.

(continua)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Memórias do cárcere (5) companheiros de cela


Falávamos baixinho, numa mesa da cantina que ficava num canto.

Estávamos só os dois.

David perguntou-me se eu tinha algum dinheiro para pagar.

- Pagar a quem? - perguntei-lhe admirado.

- Por enquanto não te digo, mas logo sentirás na pele – disse David muito cauteloso.

Falou-me dos guardas, da droga que circulava e que vinha de fora, dos castigos, dos bufos, dos gangs de diferentes origens e natureza, da vantagem em ter um protector, da partilha dos alimentos e trocas de bens, dos telemóveis escondidos, das revistas e vídeos pornográficos, da homossexualidade, dos planos de fuga, das visitas!

Nem uma só alusão a qualquer coisa de mais positivo.

Perguntei-lhe se não havia amizades feitas nos tempos de prisão, de solidariedades e fraternidades, de alguma paz, da tão falada reinserção social para o embate no regresso ao mundo lá fora no fim do cumprimento da pena…..

Nada sabia, nem tão pouco estava interessado!

Ficámos assim meios sem graça e voltei para o pátio sozinho. Ao deixar-me, comentou que eu iria ter problemas se não aderisse aos esquemas!

Quando recolhi à cela ainda era dia e pus-me em cima de um banco para olhar por de entre as grades da janela e só vi um pouco de céu azul, pois o parapeito era em rampa para cima para não permitir a visão do exterior.

Senti uma angústia terrível. A cabeça quase que rebentava e o pânico invadiu-me de novo. Suores frios, desequilíbrio, náuseas e perca de forças.

Chamei pelo guarda que apareceu no postigo e a quem disse que precisava de ir à enfermaria pois sentia-me mal.

Informou-me que ia falar com o superior e passado pouco tempo voltou, abriu a porta e acompanhou-me até ao gabinete do médico.

No percurso, reparei que havia várias salas de aulas e uma biblioteca com mesas e computadores. Pensei com algum ânimo, que era ali que tentaria passar a maior parte do tempo quando não estivesse enclausurado.

O médico dirigiu-se-me com um ar de rotina e sem transparecer qualquer emoção: dir-se-ia que tinha um enfado inato por estar sempre tão recluso quanto os prisioneiros, não tendo praticado, porém, qualquer acto que o justificasse.

Receitou-me Cipralex e umas pastilhas para dormir e mandou-me de volta.

Ao fechar-se a porta, ouvi na parede que dava para a cela contígua, como que um raspar com um objecto de metal, diria uma colher de ferro.

Julguei que eram alucinações, mas após alguns minutos o barulho continuava e pareciam sinais de morse.

Falei alto e perguntei se me ouvia. Fomos os dois para junto da porta de ferro de cada um e o meu companheiro sussurrou que queria logo de manhã falar comigo na cantina. Disse-lhe que sim e perguntei-lhe o nome.

Respondeu-me que era o Ratinho, nome por que era conhecido.

(continua)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Memórias do cárcere (4) passado


Nasci em Maio de 1972, em Lourenço Marques, hoje Maputo.

Soube pela minha mãe que uns meses depois do meu nascimento, já chilreava alegremente no fresco do entardecer num berço de teca forrado a cassa branca, na varanda ampla da casa dos meus pais, na Rua Ayres D'Ornelas.

O meu pai, Leopoldo de Aguiar era descendente dos primeiros colonos brancos de Moçambique. Orgulhava-se muito de conhecer a sua terra de lés a lés e raramente vinha à metrópole.

Aliás, a única vez em que se demoraria mais tempo foi por ocasião do seu casamento que se realizou em Melgaço, na casa senhorial da família da minha mãe.

Nem passara muito tempo em Lisboa, apenas o suficiente para mandar fazer um fraque – tinha sido a isso forçado pelo sogro, António Rodrigues Pereira, barão de Melgaço – e não lhe ficara grande vontade de deambular por uma cidade que nada lhe dizia e que tão pouco conhecia.

A minha mãe, era loira de olhos verdes, alta e esguia e de cor muito branca e nos primeiros tempos custou a adaptar-se ao sol tórrido de África.

Foram morar para uma casa colonial, com um grande jardim rodeando a ala principal, aonde residiam. Havia um grande anexo de criados na parte detrás.

O jardim era exuberante e tinha uma vegetação luxuriante com árvores seculares e flores, muitas flores com um colorido claro que contrastava com a cor avermelhada da terra.

No interior, a minha mãe tinha mobilado a casa com enorme requinte e comodidade. O meu avô materno, o dito barão, era muito rico pois os pais tenham feito grossa fortuna no Brasil. Tinham passado três gerações e uns quantos casamentos de conveniência com meninas de classes sociais mais altas, por isso fazia-lhes muita confusão aquele casamento desigual com um colono, que ainda por cima era guia de caçadores, nos trilhos africanos.

Conheceram-se, por pura casualidade.

O meu pai, quando estava na cidade ia muitas vezes jantar ao Hotel Polana, ou tomar uma bebida ao bar ou mesmo à piscina, que era frequentada por raparigas locais de famílias conhecidas ou de estrangeiras que vinham de férias da África do Sul.

Maria Alice, era o seu nome, sentia-se controlada pelos pais e propusera fazer uma viagem de barco às províncias ultramarinas. Não viram inconveniente e acharam que num bom paquete como era o “Principe Perfeito”, num camarote de luxo, poderia conhecer a bordo novas pessoas e divertir-se sem os riscos da vida meio dissipada que levava nas noites do Porto.

Havia um jovem industrial portuense, sem cheta mas muito bem parecido, que lhe arrastava a asa e temiam que se apaixonasse e com ele se quisesse casar sendo um pretendente que, tipicamente, só viria ao cheiro do seu dinheiro.

Nessa altura o meu pai tinha uma óptima figura, com a pele tisnada de nasceres e pôr de sóis no meio da savana, de travessias de selvas inóspitas com aventuras e caçadas cheias de desafios.

Sendo de uma família moçambicana conhecida e endinheirada, era muito requisitado pelas solteiras e casadas.

(continua)

Memórias do cárcere (3) a causa


Demos um beijo longo, mas formal.

Depois, ela despediu-se de mim, sorrindo e piscando o olho, o que me pareceu falso.

No princípio, eu adorava quando ela sorria e piscava o olho ao mesmo tempo, mas agora até isso me irritava.

Observei-a a atravessar a Av.da República e pedi a todos os santos para que um carro desrespeitasse o sinal e a atropelasse.

Quando estivesse a agonizar no asfalto, ensanguentada, eu pegar-lhe-ia ao colo, olharia nos seus olhos e dir-lhe-ia que fora a mulher da minha vida, e ela faria um último sorriso, e piscaria o olho, e diria que me amava.

Emocionado eu deixaria escorrer uma lágrima, uma só, que cairia sobre a sua cara e deslizaria até à nuca, e ficaria ali por uns instantes, quase a tocar no chão, quase a cair, como que um símbolo da sua vida a esvair-se, e quando a gota caísse, daria um último suspiro, bem forte, e engasgar-se-ia com o próprio sangue, contorcer-se-ia com as suas costelas partidas, soltaria um gemido de quem sabe que está a morrer, e morreria !

Uma morte poética, nos braços do marido que a amava, no meio da Av. da República, engarrafando o trânsito, com uma multidão a assistir, e talvez até a notícia fosse publicada no jornal do dia seguinte : seria uma morte bonita, e eu choraria durante dias e noites em claro a lembrar-me do nosso amor sem limites, e a minha cara incharia de tanto choro, de tanta tristeza, de tanto desgosto.

Espalharia por todo o lado que a minha vida não fazia mais sentido, que era melhor que Deus me tivesse levado !

Volveriam muitos dias até eu voltar ao trabalho, vários meses para correr de novo junto ao rio Tejo, e outros tantos para beber uns copos com os meus amigos e até a olhar para outra mulher, bonita, elegante, inteligente, que sorriria e piscaria o olho ao mesmo tempo !

Eu desejá-la-ia, seduzi-la-ia, amá-la-ia e poderia acontecer que pudesse até ser correspondido, e finalmente sentiria de novo o que por tantos anos me fora negado.

Mas, infelizmente, nenhum carro desrespeitou o sinal.

(continua)

Memórias do cárcere (2) o pátio


No primeiro dia em que fiquei confinado às quatro paredes da minha estreita cela, foi como se o céu se tivesse abatido sobre a minha cabeça.

Tive um momento de pânico e comecei a gritar sem parar, alto e desesperado. Ninguém parecia estar preocupado, pois nada aconteceu. Fiquei rouco de tanto berrar!

A pouco e pouco fui-me calando, cansado, perdido. Estranho, pensei. Pareceu-me que o pânico se fora: sentia que o dominara.

Fiquei em silêncio um bom par de horas, absorto e olhando para o vazio. Só a luz frágil de um pequeno candeeiro da mesa-de-cabeceira me sossegava do peso da escuridão.

Adormeci tarde, exausto.

Abriram a porta com estardalhaço e saí finalmente. Fui arrastando-me para o pátio e encostei-me a um canto.

Estávamos em Junho e já fazia calor e a roupa era composta por uma camisola branca de alças e por umas calças cinzentas de tecido leve. Calçava umas sapatilhas.

Devagarinho fui levantando a cabeça e olhei em volta. Era um pátio grande, com várias portas de acesso vindas das diferentes alas. Seríamos uns 400 reclusos.

A maioria dos presos era composta por jovens entre os 20 e os 30 anos. De várias nacionalidades e raças, predominando os portugueses.

Ninguém parecia estar interessado em mim. No entanto os meus 1,93m, os meus olhos azuis e cabelo loiro, o corpo atlético e bem constituído, nunca me deixaram passar despercebido.

Melhor, pensei. Com tempo averiguarei quem são os meus companheiros de infortúnio.

O pequeno-almoço tomado antes do recreio numa cantina anódina, compunha-se de café com leite e dois papos-secos com manteiga ou marmelada. Também havia chá.

Reparei, para meu grande gáudio, que se podia fazer algum desporto no período ao ar livre, pois as redes de basquetebol e de voleibol eram profusas e estavam espalhadas por todo o lado.

- Sou o David. Estou cá, já vai para uns dois anos. Calculo que sejas novato, pois nunca te vi aqui no pátio. Queres uma passa? – e estendeu-me um charro, molhado com o cuspo dele.

- Não fumo, obrigado. Chamam-me Ron e cheguei ontem – disse com uma voz indiferente.

- Precisas de saber umas coisas desde o primeiro dia. Estou disposto a pôr-te ao corrente do que deves e do que não deves fazer. Há códigos cá dentro, gangs, grupos étnicos, bons e maus costumes, e um gajo ou sobrevive ou morre – acrescentou David, com um ar sério.

O sinal para a refeição do almoço tocou e dirigimo-nos os dois para a cantina.

(continua)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Memórias do cárcere (1)



Chamo-me Ronaldo e sou o recluso nº 123456 do Estabelecimento Prisional de Vale de Mortos. Tratam-me por Ron.

Entrei há 6 meses e esperam-me ainda mais 8 anos de cadeia, cumprindo uma pena por homicídio da minha companheira.

A minha cela é pequena e mede 1,5m por 3m. Tem um catre com um colchão pouco espesso, por isso sinto os ossos contra o tabopan, e o travesseiro é de espuma, o que me faz dores no pescoço. Hei-de me habituar.

A porta da cela abre às 6h30m da manhã e fecha às 18h30m da tarde. Um horror estar tanto tempo fechado a sete trincos. Percebo agora como as monjas de clausura do século XVII ainda em espaços mais exíguos, morriam rapidamente como santas ou loucas.

Nas paredes deixam por o que quisermos. O anterior inquilino era tarado sexual e quando saiu deixou como herança posters gigantes de gajas de grandes mamas e outras de vaginas abertas. Arranquei-os com nojo e deitei-os fora, mas ficaram lá as marcas na parede, por isso vai levar tempo a esquecer-me quando para lá olhar. Não que não goste de mulherio, mas causava vómitos de inestéticas e porcas que eram as vistas.

Pus, por enquanto, uma fotografia do meu pai: está de botas, fato de caqui e com um chapéu mole na cabeça, sentado em cima de um elefante que acabara de matar. É caçador profissional em África. O olhar dele é a razão de ter escolhido este registo para comigo partilhar a solidão: de triunfo pela proeza conseguida e de infinita liberdade como só África dá a quem dela se enamora e lá vive.

Tenho ainda a intenção de colar na parede: um poster colorido com um olho gigante a observar-me, como se fosse a divindade a tomar permanentemente conta de mim e uma fotografia em sépia em que se vêem três pessoas – a minha avó materna em muito nova, o pai dela com bigodes e um chapéu colonial do princípio dos anos 30 e entre os dois, sentado no chão, um pretinho de feições correctas, de olhar brilhante e com um sorriso aconchegador de orelha a orelha.

Chama-se Manuel Candeeiro de Deus e foi com quem passei toda a minha meninice. Cresceu entretanto e já mais velho, foi como que um pai para mim.

O meu progenitor verdadeiro pouco o via pois passava o tempo pela selva adentro. Mas quando voltava, punha-me horas a ouvi-lo contar as suas aventuras, umas reais outras fantasiosas, creio que para me encantar.

Voltarei a falar muito dos dois.

(continua)

domingo, 29 de maio de 2011

Conto da dona Lili (9) final - a liga preta...


A agonia de dona Lili fora muito serena: foi-se apagando aos poucos.

Todos os dias conversava com Maria Alberta sobre coisas do passado: era como se já não estivesse lá.

Uma tarde, pediu-lhe para trazer uma caixa de cartão que guardara numa gaveta da sua cómoda.

Maria Alberta pegou na caixa e trouxe-a para o seu regaço. Devagarzinho, começou a desatar uns laços de seda que a fechavam e as mãos descarnadas, um pouco trementes, entreabriram a tampa.

Parou por momentos e ficou em silêncio olhando para a frente, para o vazio.

A sua cara não traduzia nem alegria nem tristeza: somente apatia.

Depois, como que acordando da modorra em que mergulhara, disse:

- Vou-te desvendar algumas coisas do meu passado que guardei até hoje à espera de que alguém as merecesse conhecer. Creio que tu, és essa pessoa. Tens-me tratado carinhosamente, narraste-me toda a tua vida entrando em detalhes que revelaram teres confiança em mim. Pois eu vou retribuir-te na mesma moeda.

E levantada a tampa da caixa, apareceram fotografias de uma mulher em "dessous" a exibir-se enroscada numa coluna fazendo strip-tease, umas poucas cartas e pasme quem não acredite, uma liga fina de cetim preto, daquelas que as coristas usavam nos espectáculos.

- Era a minha vida dupla! - Adorava dançar num cabaret de alterne e os cavalheiros, conforme o seu agrado, punham-me notas por entre a liga.

Maria Alberta não cabia em si de espanto e não se conteve e começou a rir às gargalhadas.

- Então a prima era puta? – disse num sufoco.

- E de luxo, fica tu sabendo. Tive muitos senhores que me queriam pôr casa, mas nunca quis. Fiz bem, tive o meu tempo e envelheci mal, agreste e solitária. Desapareci e nunca mais ninguém me pôs a vista em cima.

- E a prima, ao menos, foi feliz? – perguntou Maria Alberta numa voz comprometida.

- Olha tanto quanto alguma boa companhia pode ser o portador dessa felicidade: não vês tu que a vida é feita de momentos, de preferência de bons momentos? Esses eu tive-os – acrescentou dona Lili.

- Pois fique sabendo a prima que eu no Brasil quando fugi do meu marido não tive outro remédio senão ir vender o meu corpo para as casas de meninas de luxo do Rio de Janeiro.

- Ó Maria Alberta, tu queres ver que é de família! – e abraçaram-se muito as duas, com muita comoção.

A morte de dona Lili sobreveio poucos meses depois e Maria Alberta, com surpresa, tornou-se herdeira de algum património que a prima lhe deixara em testamento.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Conto da dona Lili (8) Abandonada


Maria Alberta tinha-se tornado no anjo bom de dona Lili. Mudara-se de armas e bagagens para a sua casa e era-lhe muito dedicada.

Dona Lili piorava dia a dia: o cancro carcomia-a e debilitava-a. Maria Alberta cuidava dela, tratava-a com carinho e solicitude e o tempo ia passando, aproximando-se o fim.

Desde que dona Lili ouvira as narrações de Maria Alberta ficara muito impressionada. Por um lado descobrira uma parenta, o que no fundo era um motivo de alguma vaidade pois apresentara-a na vizinhança como a prima do Brasil – nem toda a gente tem primos no Brasil e ainda por cima tão maneirinha e bem apessoada como ela – e depois porque começando a sentir que a morte sobrevinha, deixava assegurado o futuro da herança.

Mandara vir um notário, num dia em que Maria Alberta se ausentara para fora de Lisboa, ditara o seu testamento a favor dela, e a partir desse momento o seu coração amansou, tornou-se menos áspera e gozava as delícias de ter alguém que desinteressadamente dela tratava.

Maria Alberta contara-lhe que quando fora posta na rua pelo dr. Daniel, o seu maior temor tinha sido o de retornar a casa sem que pudesse dizer ao seu marido das razões de tão súbito desemprego.

A amargura e a angústia aguçam o engenho e Maria Alberta lembrou-se de que poderia justificar o seu despedimento como tendo sido pelo facto do dr. Daniel, aproximando-se da reforma, estar a programar volver à xácara e aí viver em definitivo.

A razão foi entendida, não sem resmungos, e ficou decidido que Maria Alberta voltasse a procurar emprego a partir do dia seguinte.

Nessa noite, estando menos embriagado, teve vontade dela, de a possuir com bruteza, fazendo-a gozar mostrando quem mandava. Sentiu-a fresca, nova, com carnes tenras e roliças e esboçou os primeiros gestos para a abraçar e despir.

Maria Alberta levantou-se de sopetão da cama e disse-lhe que estava doente, que talvez fosse imprudente qualquer contágio pois o dr. Daniel mandara-a observar no hospital e a conclusão foi a de que teria que manter a abstinência, pelo menos durante os 6 meses seguintes.

Ficou furioso mas timorato – nessa altura morriam como tordos de infecções venéreas – e encolhendo os ombros pensou que teria outras mulheres quando lhe aprouvesse e adormeceu.

Maria Alberta decidiu nesse momento que urgia partir e para sempre. Gizou mentalmente um plano de fuga e adormeceu mais tranquila pensando que talvez pudesse zarpar com Dani que lhe prometera o céu na terra!

(continua)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ausência de publicação no blogue....em jeito de desculpa


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Conto da dona Lili (7) Flagrante


O dr. Daniel sentiu-se mal na xácara e pediu aos filhos Luiz e Gabriel que o levassem de volta a casa. Comera na véspera um vátápá delicioso mas que combinado com muita caipirinha o tinha prostrado, quase sem forças, num cocktail de consequências bombásticas para a barriga.

Chegados a casa, Luiz e Gabriel ampararam o pai a subir os degraus íngremes para o andar dos quartos e no patamar ouviram barulhos estranhos de vozes e risos femininos que vinham de aonde Dani dormia.

Dirigiram-se para a porta e quando a empurraram quedaram-se estupefactos: a empregada, nua, rebolava-se por cima do filho do patrão.

A colcha da cama enrodilhada, a roupa desalinhada e o quarto cheirando a uma mistura de perfume, sexo e comida. Ao lado, no chão, um tabuleiro com restos de uma empada de lebre com duas flutes de champagne e uma garrafa meia cheia de Pommery & Grenot.

Surpreendido em flagrante, Dani olhou para o pai e ouviu uma voz seca dirigir-se a Maria Alberta e dizer-lhe sem contemplações:

- Componha-se e arranje as suas coisas para depois fazermos contas e abandonar de imediato esta casa que não está habituada a estas devassas!

Dani caíra para cima da cama e desolado pusera a cara entre as mãos.

Lembrava-se daquele corpinho roliço entre os seus braços, quando lhe desatara os laços do corpete e tocara, mordiscara e apertara com vigor aqueles peitos saborosos nas suas mãos, os beijos carnais que ela lhe dera, os jogos de amor que com ele fizera, primeiro com as mãos, depois com as pernas e com o resto do corpo num êxtase de entrega como nunca havia conhecido com nenhuma outra mulher, mais parecendo que era um amor reprimido que de repente se vertia sem limites.

O céu na terra!

Os gemidos de prazer que ouvira quando a possuíra bem fundo num orgasmo irreprimível, as torpezas que lhe consentira e que aos dois teria merecido a inquisição, tudo lhe falava da sensualidade e da loucura que nele despontara por Maria Alberta.

Não podia desistir dela, jamais!

O dr. Daniel mandara-a embora e ela no sufoco da partida metera-lhe entre as mãos um papel rabiscado com a morada aonde coabitava com o marido.

(continua)

sábado, 7 de maio de 2011

Carpe Diem


Dans le tourbillon de la modernité, on vit plus souvent au passé sur le divan d’un psy ou au futur de ses obligations professionnelles, qu’au modeste présent. Et si l’on profitait maintenant de ce qui est, au lieu d’embellir ce qui a été ou de fantasmer sur ce qui sera ? Maeve Haran, une ancienne productrice de télévision irlandaise devenue romancière, nous y aide en rappelant dans un ouvrage d’une apaisante simplicité « les petits plaisirs ». Quelques exemples de ces enchantements minuscules :

❤ Se glisser dans des draps fraîchement lavés et repassés.
❤ Acheter du pain à la boulangerie et se rendre compte qu’il est chaud.
❤ Se débarrasser de la paperasse que l’on repoussait depuis des semaines.
❤ Courir derrière le bus et… l’attraper. Le trajet s’en trouve intégralement éclairé.
❤ Feuilleter des catalogues de meubles, de fleurs, d’objets d’art ou de vêtements, il suffit de les regarder pour avoir le sentiment d’avoir tout acheté.
❤ Mettre un chapeau ou des lunettes de soleil qui vous parent d’un soupçon de mystère, et se sentir en un clin d’oeil plus en beauté.
❤ Sortir du bain en s’enveloppant d’une serviette chaude.
❤ À l’ère de l’e-mail, recevoir par la poste une lettre manuscrite.
❤ Vider ses placards.
❤ Prendre un verre avec une amie.
❤ Dénicher enfin une pêche bien mûre.
❤ Tenter une dernière fois d’allumer l’ordinateur en panne et se rendre compte qu’il a la bonté de redémarrer.
❤ Danser tout seul chez soi en se prenant pour Justin Timberlake ou Madonna.
❤ Aller le dimanche matin au marché.
❤ Découper une pastèque en savourant le bruit mat que fait ce fruit en se rendant à votre gourmandise.
❤ Sortir sur le balcon après le dîner et s’imprégner des premières nuits d’été.
❤ Trouver le mot juste pour remettre d’aplomb une phrase qui s’obstinait à claudiquer.
❤ Réparer un objet au lieu de le jeter.
❤ Allumer des bougies pour donner à la maison un air de fête.
❤ Être réveillée par les oiseaux avant même que la sonnerie ne se soit déclenchée.
❤ Monter sur la balance et découvrir que l’on n’a pas pris un gramme.
❤ Regarder le soleil se lever ou se coucher.
❤ Voir ses bagages arriver parmi les premiers à l’aéroport.
❤ Trouver un billet de vingt euros oublié dans une poche.
❤ Sentir la menthe, le basilic et la lavande, qui embaument quand vous les effleurez.
❤ Prendre son petit déjeuner au lit.
❤ Chanter.
❤ Redécouvrir un T-shirt ravissant qui hibernait au fond d’un tiroir.
❤ Réunir une chaussette orpheline avec son alter ego.
❤ Trouver une citation comme celle-ci : «La sagesse suprême est d’avoir des rêves assez grands pour ne pas les perdre de vue pendant qu’on les poursuit.» Francis Scott Fitzgerald.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Conto da dona Lili (6) Atrevimentos


- Maria Alberta, eu conheço o teu passado e quero-te ver feliz. Eu posso ajudar-te a conseguir voltares a ter uma vida gostosa. Queres? – e Dani, pegava nas mãos e fazia-lhe festas mansas e doces.

Tinha dito a Pais da Silva que o patrão precisava dela e o marido não se opusera a que não ficasse em casa nesse dia de folga. Era-lhe completamente indiferente, pois tinha um jogo de batota aprazado na taberna. Só não queria perdê-la: era o seu talismã, agora a sua fonte de rendimento e como bom machão não gostava de ser abandonado.

Maria Alberta tinha-se aperalquitado nessa manhã de Domingo, e quando saíra de casa levava posta uma camisa de cambraia branca aberta e com folhos, deixando ver, generosamente, os seus alvos peitos que cobrira com um xaile enrolado à volta dos ombros, no percurso até à casa do doutor Daniel. Escolhera uma saia curta e leve de tons azuis claros que moldava as formas do corpo e calçara umas sabrinas de coiro fino, deixando entrever o peito rosado do pé, maneirinho e formoso. Tinha finalmente borrifado um pouco de perfume de alfazema, fresco e bem cheiroso.

Cismara toda a noite sobre o verdadeiro sentido daquele convite: Dani, sem os irmãos e o pai, sozinho a dois. Para que precisaria ele dela?

Ao chegar à porta, viu luz na sala e quando entrou, Dani apareceu-lhe a dar os bons dias.

Vestia uma camisa de fino linho, aberta, com os respectivos botões desapertados até meio do tronco, deixando perceber um peito firme com um abdómen bem musculado e tinha posto umas calças apertadas que lhe chegavam até aos joelhos.

Um sorriso aberto e acolhedor. Fora atrás dela até à cozinha, aonde lhe perguntara se queria que lhe servisse o café da manhã.

Ficara muito embaraçada quando ele lhe pegara nas mãos, mas apesar de ter recuado, não as retirou.

Eram umas mãos finas, longas e macias e o perpassar dos dedos na sua pela fê-la arrepiar-se e a precaver-se.

- O sr. doutor diga-me em que lhe posso ser útil, pois para isso vim – respondeu afogueada.

- Nada temas de mim, Maria Alberta. Preciso que me arrumes uma roupa nova que comprei e que também me dês a tua opinião. Tenho-a lá em cima no quarto – disse Dani.

(continua)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Conto da dona Lili (5) O reencontro das primas


- E assim vê a prima como acabei deserdada, acreditando no amor! – disse Maria Alberta, sentada numa cadeira desconfortável da salinha de estar, no rés-do-chão da casa de dona Lili na Amadora.

- E porque veio a prima até Lisboa e logo me encontrou? Ninguém conhece aonde eu moro! Como soube a Maria Alberta da minha existência? – perguntou dona Lili, a quem o conhecimento súbito de que tinha uma prima brasileira cujos pais enriqueceram e gozaram de grandes mordomias, acabando, porém, deserdada, excitava como se pudesse rever-se num dos seus romances de cordel.

- Sirva-se de um pouco de hidromel, é ainda do tempo do meu defunto Arnaldo. Temo que esteja passado. A dona Yvete, a minha vizinha, deixou-me acabar os biscoitos. Não tenho mais nada com que acompanhar, desculpe sim – e dona Lili recostava-se para ouvir as explicações da prima.

- Pois olhe, a sua morada soube-a pelos correios, e a minha tia Gracinda, irmã do meu pai, que acabou os dias em nossa casa lá no Brasil, deixou uns papéis aonde se referia a uma sobrinha de nome Libertária que morava na Amadora – respondeu Maria Alberta.

Quando soube que estava deserdada, Maria Alberta que muito gostava do pai, chorou amargamente e arrependeu-se do gesto tresloucado da sua fuga. Mas era tarde, pois Pais da Silva, o companheiro e depois marido, começou a tratá-la mal.

O dote e a futura herança tinham sido os engodos a que tinha ido quando com Maria Alberta se começara a encontrar e a planear a fuga e o casamento.

Casa modesta num bairro esconso da cidade, sem grande luz e móveis desconfortáveis, comida de pobre e pouco farta, bebedeiras de Pais da Silva com chegadas a desoras cada vez mais frequentes, tornaram o seu dia-a-dia num verdadeiro pesadelo.

Só pensava em fugir, mas Manuel vigiava-lhe os passos. Resolveu então usar de um estratagema: iria trabalhar. Assim sempre ganhava uns cobres, tinha liberdade de movimentos e podia começar a planear o seu regresso à casa paterna.

Pais da Silva achou bem. Sempre era mais dinheiro que entrava para gastar na taberna e podia assim deixar de vadiar pela cidade como pedinte.

Maria Alberta empregou-se a dias em casa de um doutor Daniel, cirurgião no hospital central, viúvo e com 3 filhos homens: Luiz, Gabriel e Dani, o caçoila.

Era uma família acolhedora e Maria Alberta foi bem recebida. Almoçava por lá, arrumava os quartos, limpava as salas e servia à mesa. Tinha uma boa experiência destas tarefas, pois o que agora fazia, tinha observado criadas o fazerem, no passado, em casa dos seus pais.

Ia nos seus 29 anos, com uns belos olhos, uma cara sorridente e um corpo esguio e bem feito, uns seios salientes e atractivos, não fosse ela filha de Cíntia Melão, que tomara este apelido pela mesma razão.

Dani era um rapaz de 28 anos, bem apessoado, com uma tez clara e um nariz bem lançado sobre uma boca bem feita que deixava entrever um sorriso encantador. Trabalhava com o pai como médico internista e era tido como um bom conversador.

Quando foi admitida, o doutor Daniel pediu-lhe referências e ela não pôde deixar de lhe contar o seu passado, pedindo-lhe sigilo.

Fora muito compreensivo e até lhe dissera que se quisesse, podia mudar-se lá para casa para um dos quartos nos arrumos. Maria Alberta, ficara-lhe agradecida mas declinara, dizendo que temia retaliações de Pais da Silva.

Quando servia à mesa, aprumada e em silêncio, ouvia as conversas da família e notara o fino humor de Dani. Sempre que com ele entrecruzava os olhares - por pura casualidade - era como se estivesse a ser observada com um interesse, que ela achava ser mais do que o usual entre patrão e empregada. Notava um discreto sorriso e um brilhozinho nos olhos que à medida que os dias passavam, começou a constatar, aumentava de intensidade.

O doutor Daniel tinha, obviamente, contado aos filhos com quem não tinha segredos, quem Maria Alberta era e desde o início havia como que um respeito e admiração de todos por ela, por se encontrar nesta situação devido aos infortúnios da vida.

- A Maria Alberta, no domingo está livre da parte da tarde? – perguntou Dani, quando regressava do trabalho um fim de dia e se estirava, cansado, num sofá da sala.

- É o meu dia de folga, mas tenho muito que fazer em casa, pois preciso de deixar a lida da semana toda feita para o meu marido – respondeu Maria Alberta, intrigada e num meio sobressalto.

- Ora, ora o seu marido que se arranje! Precisava de si para esse dia. Umas coisas cá em casa, só minhas. O meu pai e os meus irmãos estão para a xácara e eu fico para trás de propósito. Então fica combinado? – disse Dani, numa voz sem margem para discussão.

- Terei então logo, que avisar o meu marido – respondeu a moça, sem o olhar nos olhos, mas muito açodada.

(continua)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Conto da dona Lili (4) a fuga de Maria Alberta


Para os membros da família de Celso Pereira os negócios corriam bem. Usufruíam da fortuna amealhada pelo progenitor, composta por vastas propriedades, currais de gado e fazendas e sítios arrendados a inúmeros cultivadores, para além do negócio das padarias que se tinha vindo a multiplicar pela abertura de várias unidades por toda a região sertaneja.

Celso estava frequentemente fora, tratando do alargamento do seu negócio. Os restantes membros da sua família eram a sua esposa, Cíntia Melão, e os seus dois filhos, Maria Alberta e Borba Gato.

Tinham muitos dependentes, criados e trabalhadores de panificação da empresa principal, que habitavam nos baixos da casa grande da xácara.

Preocupava à família o casamento da jovem herdeira Maria Alberta e certamente tinham planos minuciosos para esse casamento, uma vez que estava em jogo a fortuna duramente adquirida; de preferência era necessário mantê-la ou ampliá-la para além de estreitar laços com famílias importantes da região.

Esteve prometida a um doutor Abelardo Couto, mas havendo uma diferença de idades significativa, cedo se desinteressou dele e começou a recusar todos os putativos noivos que o seu pai, subsequentemente, lhe arranjava.

Mais do que satisfazer os desejos do seu afecto e coração, casar era garantir a preservação do património da casa e as alianças de poder comercial com outras famílias de nível social superior.

Em meados de Janeiro daquele ano, Maria Alberta fugiu com Manuel Pais da Silva.

O casal levou duas criadas e algumas jóias e foi-se refugiar na casa do Coroné Álvaro Falcão, inimigo de Celso por razões de política local, que os protegeu na fuga para a cidade.

Uma vez lá, apoiados por outros concorrentes do pai, casaram-se 10 dias depois.

No dia da fuga, Celso Pereira estava fora mas regressou de urgência para assumir o controlo da situação.

Exigiram que as autoridades locais tomassem providências, argumentando que se tratava de uma fuga não consensual, mas antes de um rapto perpretado por um indivíduo de má reputação e de muito baixas origens.

Os inimigos de Celso goraram os seus planos, e assim um assunto de ordem doméstica tornou-se num escândalo público, pois envolvia a partilha de uma das maiores fortunas da região, da qual Maria Alberta era a presuntiva herdeira, visto que o seu pai, deserdara o irmão Borba Gato por ser um desordeiro, bêbado e dissipador dos bens da família.

Acabaria mal, como já sabemos.

Para além dos aspectos económicos (os negócios e o património), também estavam em jogo os códigos morais de uma sociedade sob o manto do catolicismo, que não aceitava uma união conjugal sem os sagrados laços do matrimónio e a aprovação da família.

Quando fugiu, Maria Alberta era ainda menor de 25 anos e estava destinada a um casamento sob o controle do pai, sem possibilidade de escolha; casar era um dever para com as gerações futuras da família, para manter a fortuna e o prestígio ou, como dito por Celso “que tinha que casar segundo a sua qualidade”.

Assim, a sua fuga com um indivíduo de poucas posses pôs em cheque o património famíliar.

Sabida a notícia, Celso tentou por todas as formas impedir ou anular o casamento, para evitar que Pais da Silva tivesse acesso aos bens de Maria Alberta e, por fim, sem o ter conseguido, resolveu também deserdar a filha.

(continua)

domingo, 1 de maio de 2011

Conto da dona Lili (3) Maria Alberta



Os salões da mansão do rico industrial e bem sucedido imigrante português Celso Pereira estavam cheios, como poucas vezes acontecia, naquela noite memorável. Alguns políticos locais, Coronéis, e variados homens de negócios enchiam as salas da casa grande da xácara.

O encanto da reunião estava, entretanto, na revoada de moças e senhoras que rodopiavam pelas salas, e entre as quais se destacava, pela beleza, pela juventude, pela inocência do olhar e dos modos, Maria Alberta, noiva do Dr. Abelardo Couto e filha do dono da casa.

Na sala ao lado, dançava-se. E, entre os pares, o Dr. Abelardo e a noiva, põem-se os dois a conversar:

— Que mãos tens tu, Maria Alberta! — elogia o noivo, maravilhado, apertando os dedos miúdos, quase infantis, da sua prometida.

— Acha-as pequenas? — pergunta a moça.

— Microscópicas!

— Como?

— Microscópicas! — insiste o Dr.Abelardo.

Intrigada com a palavra, que ouvia pela primeira vez, Maria Alberta pede licença por um instante, entra no salão de chá e, com a sua ingenuidade, pergunta ao amigo do pai, um médico local com fama de muito letrado o Dr. Maraz:

— Doutor, o que significa “microscópico”?

— É uma palavra derivada de “microscópio”, Menina! — explica o ilustre fisiologista.

— E o que é “microscópio”? — insiste Maria Alberta, franzindo a testa morena, que os olhos iluminam.

O Dr. Maraz pensa um momento, e, para não perder tempo, explica:

— É um aparelho que faz as coisas crescerem. Compreende?

A menina sorri, agradecida.

De repente, porém, pisca os olhos, franze mais a testa, e corando diz:

— Ahn!...

Morde o dedinho, meio brejeira, meio envergonhada:

— Desavergonhado! Agora é que percebo porque é que ele diz que eu tenho a mão microscópica ...

E saiu correndo, córada, para beijar o noivo.

(continua)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conto da dona Lili (II) o Tio brasileiro


O Celso Pereira, viera de Portugal para o Brasil, mais precisamente de Alhandra aonde tinha nascido e aonde se tinha iniciado na panificação.

O pai, o senhor Ilídio, padeiro, nunca tinha vingado na profissão e morrera cedo com tuberculose. Fazia-lhe mal o quente do forno do pão e como fumava muito, o ar começou a faltar-lhe, caiu doente e morreu sufocado. Um horror!

A mãe, dona Cacilda, modesta costureira mas com muita clientela fiel em Alhandra e na Póvoa de Santo Adrião, lá foi sobrevivendo e educou dois filhos: o Celso e uma irmã, de nome Gracinda, que havia de casar com uma gente da Amadora.

Celso tomara o lugar do pai na padaria e não se saía mal. Belo mocetão, bem parecido e melhor falante, aguentava as noitadas com vigor e foi começando a fazer o seu pé de meia.

O patrão tinha uns amigos padeiros que tinham ido para o Brasil e ouvia dizer que tinham enriquecido e eram já donos de vários estabelecimentos.

Celso sonhava com a emigração para terras de Vera Cruz.

Uma noite em que estava a sós com o patrão, num momento de pausa, disse-lhe:

- Vossemecê é que me podia fazer um jeito. Se falar com os seus amigos do Brasil peça-lhes que me arrumem um emprego lá nas padarias deles. É o meu sonho!

O patrão que reconhecia em Celso, bastas qualidades de trabalho, empenho e seriedade, respondeu-lhe que assim faria.

E uma tarde, chegou a tão almejada carta de chamada para Celso. Era de um Crispim que estava a começar no sertão brasileiro e queria gente moça para lá.

Celso casou no Brasil com uma sertaneja de nome Cíntia Melão, porque tinha dois “papos” que lembravam melões suculentos.

Tiveram dois filhos: Maria Alberta Pereira, a mais velha, de que adiante falaremos e um rapaz de sua graça, Borba Gato Pereira, em homenagem ao bandeirante do mesmo nome.

Borba Gato era um típico local, rebarbativo, desconfiado e rebelde. Também teve muitas aventuras, como abaixo se verá.

Só quem nasceu e viveu no sertão conhece a secreta, cálida simpatia que o sertanejo tem pela vida aventureira e nómada. Por isso ele vê sempre com um misto de desconfiança e desprezo a autoridade policial. Pode, inclusive, aparentar respeito perante um delegado ou um comandante de destacamento. Mas, no fundo, o seu coração está com o rebelde, o perseguido, o fora da lei.

É um sentimento antigo, enraizado, que se lhe perdura no sangue. Sangue tantas vezes derramado pelos esbirros do rei e pelos jagunços republicanos: aos brutais predadores de índios sucederam as milícias coloniais e imperiais; aos capitães-mor, os sargentos, tenentes, capitães e majores comandantes, montados na violência e na arbitrariedade, na maior parte das vezes implacáveis com o sertanejo, a quem sempre olharam e trataram como um bicho do mato, traiçoeiro e perverso.

Nos primeiros tempos, a lei, a lei de punir, sem receio das fraquezas dos juízes e das patifarias dos jurados, sempre escolhidos a dedo, era o bacamarte, o cacete e a faca. Funcionavam, de facto. Porque o exemplo vinha de cima, dos poderosos, do major, do capitão, do coronel, violentos e valentes – “bons, burros e bravos”.

Herança antiga, era a violência, quando os poderosos da Coroa, para justificarem os seus actos infames – assassinatos culposos e homicídios perversos – eram acobertados pelo governo que, inexplicavelmente, lhes perdoava! Daí veio a máxima: “Mata que el-rei perdoa!”.

Borba Gato tal como os seus conterrâneos sertanejos nordestinos, nutriam verdadeira aversão pelas forças policiais. A essa aversão misturava-se temor, ódio e indiferença; ao contrário do que tinham para com os perseguidos, por quem tinham igualmente temor, mas também um certo respeito e até admiração, pois igualavam-se, por vezes, como vítimas da mesma sociedade desigual, das mesmas perseguições, expostos aos mesmos sofrimentos e às mesmas agruras.

O destino ás vezes prega as suas partidas.

Celso foi prosperando, tornando-se num excelente gestor de várias padarias depois de anos de trabalho a fio, duro mas promissor como só no Brasil se pode encontrar. Foi conquistando o seu lugar de imigrante endinheirado e poderoso e resolveu fixar-se numa xácara já de grandes proporções, rica e confortável numa cidade pacata chamada Currais Novos.

Borba Gato, seu filho, não lhe seguiu as pegadas e gozava das benfeitorias que o dinheiro do pai lhe granjeava. Era um inútil, femeeiro e brigão. Parece que tinha tombado em menino numa pipa de cachaça, de tanta bebedeira que apanhava.

Em toda a sua história, Currais Novos sempre se notabilizou por ser uma cidade pacata e de gente alheia aos processos de violência urbana e rural, que se notabilizaram em outros municípios desse Estado.

Mas toda essa tranquilidade não evitou que ocorressem três assassinatos, tendo como vítimas fatais dois delegados e um cabo de polícia, mortos no exercício das suas funções, em diligências de rotina.

O primeiro, que é o que nos interessa, de que foi vítima o delegado em exercício de funções, foi morto à facada por Borba Gato, nas imediações dos fundos da Padaria Primor.

Era delegado o siô Manuel Lopes, conhecido como Manuel Lopes o “Barbudo”.

Para Borba Gato a “pistolagem” que já era “modo de vida” tornou-se “meio de vida”.

No julgamento de Borba Gato, um sargento, acabando de ouvir a sentença condenatória de longos meses de prisão, atentamente ponderou: “Está muito bom, ‘seu’ doutor. Mas só tem uma coisa: se vossa senhoria fizer isso, aqui talvez não fique nem quem diga missa, quanto mais quem a ouça!!!”.

No dizer de Cascudo, era a polícia “mantendo a ordem e garantindo a desordem”.

Todos os filhos de gente abastada, influente e poderosa, tornavam-se violentos pelas circunstâncias do meio, e respeitados a ponto de vir toda a gente submissa e assustada, pedir-lhes a bênção e tomarem-lhes o conselho.

Tal como todos os brigões, Borba Gato, tinha um medo que lhe invadia os sonhos e lhe tirava o sono, que era o de ser apanhado ainda com vida no fim de uma disputa com uma brigada da polícia.

Ao contrário do que se pudesse imaginar, tremiam quando pensavam ou mesmo sonhavam o fim que lhes esperava: um agente da policia sanguinário e com sede de vingança e de dinheiro, a separar-lhe a cabeça do corpo com um único e definitivo golpe de facalhão.

Estes pensamentos, misturados com presságios, invadiam o sono de Borba Gato e transformavam-se em horríveis pesadelos.

Borba Gato foi um dos que morreu, sob a mira da pistola de um Capitão.

Os pensamentos, os sonhos e pesadelos, tornaram-se realidade. A realidade do sertão.

É verdade que Borba Gato, ao ser fuzilado, já apresentava sinais de debilidade na sua saúde. Há muito que já vinha a ser acompanhado por médicos e tomava medicamentos, apenas pela intuição do médico e na desconfiança do “paciente”.

Havia até quem afirmasse que a cirrose precoce (pois só tinha 40 anos), já lhe atacava as “ideias”.

Celso, morreu, entretanto de desgosto, de gota e de fartura. A esposa, a dos “melões” tornara-se uma respeitada burguesa, vivendo na opulência.

Diziam as más-línguas, que mesmo antes de se tornar viúva, andava metida com um “Coroné” poderoso! Intrigas.

Falemos agora um pouco da filha de Celso: a Maria Alberta.

(continua)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Conto da dona Lili (I)



- Sou a dona Lili, sabem? Toda a gente me chama assim, e eu gosto! – disse para os presentes uma velhinha simpática.

Eu estava na clínica, na Amadora, à espera da consulta.

A dona Lili devia lá morar por perto.

- Só cá volto daqui a duas semanas, por isso desejo às meninas – duas recepcionistas fardadas – as maiores felicidades, que corra tudo bem. Vendia felicidade, distribuindo bons votos numa harmoniosa voz meia cantada.

No regresso a casa, pensava eu, sentiria um calorzinho devoto de ter sido muito afável nesse dia, cumprimentando todos à passagem.

A dona Lili, afinal era uma peste, cínica e acabara por viver sozinha, pois ninguém a aturava. Vim a saber toda a história pela enfermeira que me fazia fisioterapia.

O senhor Arnaldo, com quem tinha vivido uns 30 anos, já há muito que a deixara.

Nunca se casaram. Ao princípio ainda havia atracção física, mas mesmo na cama era chata, formal e recusava qualquer ousadia mais atrevida.

Nem sequer era pela religião. Filha de republicanos ateus, nunca tinha ido à catequese, frequentado sacramentos ou sequer baptizada.

Fora inscrita numa escola pública da Amadora, e não consta que tivesse feito amigos ou amigas.

Cumprira o básico e sabia ler, escrever e fazer mal as contas.

Sempre adorara ler romances, de preferência de cordel, e interiorizava os personagens dos livros que lia, dai os seus ares adamados no modo de conviver.

A dona Yvete, era a única vizinha que a visitava. Casada com o senhor Amílcar, motorista de táxi, tinha servido como criada em casa de uns patrões endinheirados, antigos emigrantes no Brasil que voltaram ricos e moravam numa vivenda rococó cheia de cacaria, alguma da qual dona Yvete exibia em armarinhos pirosos por toda a casa.

Tinha alguma paciência para a dona Lili, pois sendo iletrada, ouvia deliciada as histórias que ela lhe lia, descrevendo mundos que a faziam sonhar e que de certa maneira ela testemunhara quando estivera a servir.

Andava a ler o “John, chauffeur russo” da Magali, da colecção azul e sempre que podia, implicava com a dona Yvette:

- Isto sim, o John é que é um chauffeur distinto. Lá o seu marido, sempre num táxi, não priva com gente fina. Pois este sempre com um primor de farda, boné e sabendo encantar.

A dona Yvette dizia umas coisas ao marido que furioso lhe respondia de maus modos:

- Essa megera é igualzinha a ti e a mim e tem manias de que é fina lá porque lê esses livros. De resto, se não fosses tu, nem teria quem lhe escutasse essas idiotices. Deixa-me em paz!

A dona Lili nesse dia voltara da clínica muito consumida. O médico dissera-lhe que, seca de carnes como era, o cancro roía-lhe as entranhas e que muito em breve teria que ser hospitalizada.

Perguntara-lhe se não tinha nenhum familiar com quem ele pudesse falar para combinar o internamento.

Exausta, deixou-se cair na cadeira aonde se sentava normalmente para ler, junto à janela. Tinha ainda uns bons 30 minutos a sós, antes que a dona Yvette lhe aparecesse.

Burra que tinha sido! Vida miserável de solidão que tinha tido. Deixado partir o Arnaldo que até era boa pessoa e parecia ao princípio gostar dela. Não resistia a interpelá-lo por tudo e por nada. Tinha opinião sobre todos os assuntos e ele amofinava-se. Para o fim só o silêncio respondia aos seus guinchos e às lamúrias e queixas constantes que lhe fazia.

Fora fria e pouco expansiva para com os pais e a única avó que conhecera, lembrando-se até que já nessa altura gostava de ser recta pronúncia, contrariando-os e levando-os ao desespero.

Na escola azedara. Não se lembra de grandes emoções nem amizades. Era tolerada mas mais nada.

E agora só, doente, remediada – o pai deixara-lhe o rés-do-chão da casa modesta aonde morava com o respectivo recheio, uma pensão de reforma suficiente e alguns depósitos na Caixa – a quem iria deixar o seu mundo, os seus livros e os seus bens?

Tocaram no vidro da janela e uma voz que não era a de dona Yvette, perguntou se era ali que morava a dona Libertária Gomes.

- Quem é? – perguntou com uma voz entre o espanto e algum receio. Não esperava ninguém.

- Maria Alberta Pereira, a sua prima.

Não tinha primas, pelo menos nunca conhecera nenhum parente. Estranho, pensou.

- O que deseja? Não me lembro de ter primas – disse com um ar seguro e convicto.

- Se me deixar entrar explico-lhe tudo. Sou prima do lado da sua mãe. Tinha um irmão que foi para o Brasil e lá casou e teve uma filha. Eu sou neta desse irmão.

(continua)

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Amor é só poesia...


Aos que não casaram, aos que vão casar, aos que acabaram de casar, aos que pensam em se separar, aos que acabaram de se separar, aos que pensam em voltar...

Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja.

O AMOR É ÚNICO,

como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue,

A SEDUÇÃO

tem que ser ininterrupta...

Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança, acabamos por sepultar uma relação que poderia SER ETERNA

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas.

Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo tecto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes, nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, RESPEITO.

Agressões zero.

Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência... Amor só, não basta.

Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura, para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver BOM HUMOR para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.

Tem que saber levar.

Amar só é pouco.

Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas para pagar.

Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar.

Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem , visando à longevidade do matrimónio, tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.

Tem que haver confiança. Certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão.

E que amar "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que

O AMOR É SÓ POESIA,

tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.

O amor é grande, mas não são dois.

Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor.

O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom Amor aos que já têm!

Um bom encontro aos que procuram!

E felicidades a todos nós!

Artur de Távola

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A música é capaz de reproduzir a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria


A música é capaz de reproduzir na sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que a inebria. – Beethoven.

É impossível precisar quando surgiu a música, mas sabe-se que acompanha a história dos homens desde que os nossos antepassados perceberam que alguns objectos ao serem tocados emitiam sons, e dessa casualidade – e não apenas os sons da Natureza -, foi possível criar sons que podiam ser agradáveis ou não.

É um facto que desde que o homem passou a viver em sociedade, não houve nenhuma cultura onde não houvesse música. Nem mesmo os ascetas resistiram, pois veja-se a religiosidade de Bach, Vivaldi, Händel, entre tantos outros que pareciam criar o sonho celestial através da música.

Nietzsche e Schopenhauer, dois dos “espíritos” mais inquietantes da Filosofia, reconheciam na música um verdadeiro arrebatamento do Ser, e só a música era capaz de fazer corpo e “mente”, unidos, dançarem em perfeita sintonia.

Mas a música também pode representar tudo o que há de mais terrível e corruptível do Ser. Assim se expressou Nietzsche sobre o músico alemão Richard Wagner, após a rotura de uma amizade que pareceu nascer em belos jardins. Nietzsche rompeu com Wagner por entender que ele deixou de fazer música por prazer e passou a fazer ofertas de peças para ganhar popularidade, entre outros motivos, como a exaltação do nacionalismo alemão e a incorporação de elementos cristãos. Wagner passou a ser para Nietzsche um traidor da Arte representativa do existir: a arte trágica grega que afirmava a Vida.

Nesse contexto, evitando incorrer na ingénua pretensão de discutir géneros musicais, penso que seja possível captar de qualquer música uma linguagem universal.

A música que foi capaz de abraçar Nietzsche nos seus momentos de maior solidão e dor, a que fez até “quebrar” o pessimismo de Schopenhauer : é essa a música capaz de revigorar o Ser que diz Sim à Vida antes de qualquer exigência, tornando os obstáculos em meios para a criação e desenvolvimento.

Triste é ver que com a modernidade, como nunca antes, a música tem perdido o seu carácter trágico-grego. Quase que não existem grandes génios que buscam compreender a sua singularidade pela arte da música e que nos presenteiem com uma linguagem capaz de tocar as profundezas do Ser – os impulsos mais fortes e prazenteiros.

Pelo contrário, vejo a multiplicação de vozes e ruídos em histeria que, como hinos, entoam a negação da vida, ganhando aplausos entre a sádica alegria da embriaguez.

Em conjunto esses barulhos atordoam a singularidade existencial e glorificam uma moral de moda, de estética, de comportamento, de popularidade, de pensamento.

É no meio dessa histeria musical que se reproduz num ritmo impetuoso, que convido o meu leitor, mesmo quem nunca tenha “parado” para ouvir a “música arte”, a alimentar o seu Ser – corpo e intelecto juntos – com o banquete que Rachmaninov nos pode oferecer na Rapsódia sobre um tema de Paganini.

Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia


Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem se torna escravo da rotina, repetindo todos os dias o mesmo trajecto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir-se com uma cor nova, não fala com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu companheiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou um bilhete de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço numa vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pontos nos “is” a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que causam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não muda quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça a si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio. Pode até ser uma depressão, que é uma doença séria e que requer ajuda profissional. Então morre a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não indagando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante.

Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

domingo, 17 de abril de 2011

o teu destino és tu


Sobre o Caminho a seguir

Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"

segunda-feira, 11 de abril de 2011

S. Paulo, no Domingo : Você é padeiro?



S.Paulo, no Domingo de manhã antes do almoço sofisticado em casa de uns primos brasileiros.

Precisei de tirar umas fotocópias para entregar e entrei na primeira tabacaria de bairro aberta, vulgo “copiadora” aonde estava um rapaz, “moço” de seus 19 anos, encarregue destes serviços.

A minha filha Mariana que entretanto ficara no carro, veio dizer-me aonde estava estacionado.

Nas minhas estadias no Brasil, falo com um apreciável sotaque brasileiro.

Ao nos ouvir falar entre os dois com o sotaque de Portugal, e depois de ela ter regressado ao carro, passado um bocado oiço atónito esta pergunta do “moço”:

- Você é padeiro?

Respondi de mau humor, que não. Ele topou a minha cara e disse que os portugueses eram todos padeiros ricos.

Perdi algum tempo, meio indignado a explicar-lhe que embora a profissão de padeiro fosse respeitável e honrada, o que era inaceitável era o desconhecimento dele sobre Portugal e as suas gentes desde a época da emigração para o Brasil dos anos 30.

É o que valemos….somos padeiros, ao menos ricos, mas só no Brasil!

Ora esta!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Perguntam-me o que fazer depois do anúncio de novas medidas do PEC.


Perguntam-me o que fazer depois do anúncio de novas medidas do PEC.

Eu fui sempre privado, a não ser quando fiz a tropa já depois do 25 de Abril.

Tirei como vantagem da minha passagem pela função pública ter descontado e continuar a descontar... Euros 11,34 por ano para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças, para…hélas…ter o meu enterro TODO pago!

Voltando ao sério:

1. Foi hoje anunciado um novo PEC com ainda mais restrições;

2. A dívida de Portugal, pública e privada, é gigantesca;

3. Durante os próximos decénios a vida vai ser um “inferno” em Portugal;

4. Refiro-me também à parte intangível da nossa personalidade, ou seja o acesso à cultura, às artes, à frequência de espectáculos, à compra de livros e de música, o gosto pela culinária através da ida a restaurantes, as viagens ao exterior…tudo isto e muito mais vai ser limitado, porque pura e simplesmente no “balanço” quer do lado do “activo” quer do “passivo” não vai haver fundos! Ou seja não vai haver dinheiro suficiente para “luxos”…santo Deus!

5. Para não falar já de familiares e amigos e jovens no desemprego…TOTAL ou seja passam-se meses e anos sem encontrar emprego para as habilitações profissionais e também para biscates;

6. a opção é simples: ficar ou partir.

7. ficar significa perder o sentido de rasgar horizontes e de realizar sonhos de vidas preenchidas, com altos e baixos pois não não há paraísos, mas chegar a uma velhice futura com hipóteses de sobrevivência digna em todos os sentidos, físico, material e espiritual…a chamada plenitude.

8. partir, (com reflexão e precauções) não trocando o parco certo pelo incerto, mas quand-même PARTIR, ter a coragem de decidir OUSAR começar é ver a vida acontecer.

9. Há vários destinos para todos os gostos que eu conheço bem, “atesto e certifico pela minha honra” valer a pena : a China, a Índia, o Japão, o Brasil, os EUA, Canadá, Suécia, Dinamarca, Holanda, talvez Angola ou Moçambique, entre outros, aonde

SÓ COM:

- vontade de trabalhar muito, mesmo à séria, mas com compensações de retorno de todo o tipo

- parceiros locais sérios e profissionais

- naturalmente, com competência naquilo que sabemos fazer

- espírito aventureiro e de risco como o dos nossos antepassados

- humildade e abertura de espírito a outras culturas e com a certeza de que nos deveremos considerar “hóspedes” de quem nos acolhe, sem arrogâncias

PODEREMOS VENCER.

Finalmente, a alternativa de ficar e lutar seja nos empregos actuais ( na Função Pública ou na iniciativa privada) seja na política…a resposta pura, dura e fria esteja no poder quem estiver, é a INCONTORNÀVEL falta de meios que afligirá Portugal durante as próximas décadas. No way!

A Função Pública no meio disto tudo é um conjunto de cidadãos portugueses como os da iniciativa privada aonde há excelentes técnicos, honestos, competentes e merecedores de toda a nossa admiração e respeito mas também aonde há calaças, corruptos, conversadores de meia-tigela sobre telenovelas, destreinados, tal como em todos os países e em todos os segmentos da sociedade.

Por isso as minhas palavras só podem ser de aconselhamento “along the lines above”.