sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Collette II


Collette tinha finalmente encontrado o Monsieur por que tanto ansiara e procurara.

Vivia agora num hotel particulier da Av. Foche, com todas as mordomias e comodidades: um buttler que lhe abria todas as manhãs as cortinas de seda espessa e deixava entrar uma luz diáfana no quarto que dava para a Torre Eiffel, um chauffeur que a levava numa magnífica limusina aonde bem quisesse e um maître que lhe propunha os mais sofisticados menus. Tinha uma conta bancária confortável, roupa e demais adereços de marca sem limites, e já tinha estado em todos os restaurantes da moda.

Yann era presidente em França de uma grande multinacional o que o levava a viajar muitas vezes durante o mês.

Era um homem muito bem parecido de 47 anos, alto e de olhos cinzentos, mãos fortes e esguias, um tronco bem desenvolvido e musculoso fruto da prática de ténis, equitação e caça bem como de ginásio todas as manhãs em casa com um personal trainer, quando não viajava, mas mesmo fora fazia work out nos hotéis.

Tinha um sorriso franco e era considerado um excelente profissional com êxitos averbados na sua fulgurante carreira. Uma das suas características era a de ser frio e insusceptível de ser influenciado por factores que não fossem os do rigor, da competência, da seriedade e por isso tinha conseguido amealhar uma notável fortuna por ter correspondido a quem nele confiara.

Era casado e tinha 3 filhos mas estava, porém, separado e vivia numa prestigiada moradia numa das melhores zonas de Paris.

Collette via Yann menos do que desejava, pois era impensável acompanhá-lo nas viagens de negócios da empresa. No fundo não deixava de ser uma puta sensual, muito carinhosa e vistosa, mas não apresentável nos círculos sociais de Yann.

Nos dias em que Yann voltava cedo, jantavam romanticamente à luz de velas, e ele fazia-lhe mil juras de amor eterno com champagne, sussurrava-lhe palavras doces e Collette sentia que naqueles momentos pertencia-lhe. Yann ia, nessas noites, dormir no quarto dela e no colchão que era uma maravilha de macio enterravam-se os dois nas reviravoltas de amor que davam.

(to be continued)

MNA

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desculpe, disse Portugal?



Talvez seja por isto que há que começar com sangue novo, com gente de outras gerações, com provas provadas de competência, rigor, honestidade e desejo de servir!

Há que os formar, incentivar, interessar e trazê-los para a coisa pública, pagando-lhes progressivamente bem à medida que vão merecendo e compensando-os do "quentinho" do sector privado!

É bom servir Portugal! Portugal pode ser um grande país se os portugueses o quiserem.

Neste momento é a merda possível, tolerada mas o momento é propício para se fazer o que se diz do Brasil:

- AME-O ou DEIXE-O!

É isso aí!

Campanha de inverno do Holmes Place dá frutos



Senhora hiper desportiva beneficia da campanha de promoção do fim de ano desta conhecida cadeia de ginásios.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Como sei que estou em Portugal?


Gosto da ideia de Portugal.

Tenho um passado familiar importante em Portugal mas que alcanço só através da História. Não me chegou assim de uma forma directa..tipo caiu-me em cima da cabeça o peso da tradição (lembro-me do meu Avô Vasco da Gama, de toda uma plêiade de Noronhas que fizeram Portugal) mas tive que recomeçar o meu lugar em Portugal, por mais modesto que ele seja ou esteja a ser ou venha a ser.

Mas sim, gosto do meu País e irrita-me quando tenho razões para dizer mal e tenho várias e não são as habituais. Nem me apetece aqui louvar as costumeiras qualidades dos Portugueses nem de Portugal: outros já o disseram e basta.

Portugal é um país foleiro...do tipo da pessoa que quando em recato, ao nos aproximarmos de mansinho vislumbramos-lhe de perfil um sorriso alvar e de bonomia silenciosa, em permanência.

Porquê, co os raios? Está-se infeliz, tem-se uma vida de rafeiro, caminhamos para o abismo porque carga de água é que temos este riso alvar?

Canga, digo eu! Somos um país de canga, como dizia o meu Avô!

Dos espanhóis, dos estrangeiros, do vizinho, sempre a querer agradar sem que, e quando venha a propósito, mostremos que estamos carrancudos, soltemos um berro de indignação, corramos com o carrasco que nos oprime, sejamos brutos, duros e frios e chamemos as coisas pelos nomes.

Ladrão é ladrão e deve ir para a cadeia, corrupto é corrupto e deve para além de devolver do que se apropriou ilegítimamente, ir passar uns tempos ao xelindró, pobreza é pobreza e merece apoio directo, claro, sem vergonha disfarçada; desemprego é desemprego e traz aflição e perturbação à alma, ao espírito, ao estômago e causa infelicidade material, familiar, de harmonia entre as pessoas...

"Tout m'est bonheur"...qual quê! Como tudo pode ser bem-vindo e ser felicidade às colheres?

E é isto que me irrita neste povo a que pertenço e de que me orgulho temperadamente: não totalmente como toda a gente faz, sem fazer ressalvas.

Sim, nalgumas coisas tenho orgulho e até ao fim, noutras não: critico, digo mal, não concordo e pouco me importa se é Portugal!

Se nas nossas vidas devemos ser assim, como não no sítio que nos deu o berço?

Por isso, quando penso em partir, vou em busca do Eldorado, mesmo! Quero sossego, horizontes largos, dinheiro, cultura, um fim de vida merecido. Vou trabalhar no duro mas com a certeza de ser compensado. Cá, neste momento...impensável!

Quero poder comprar Cds, livros, viajar, experimentar novas culturas e gentes sem contar os tostões e isso por cá nos próximos dez anos não dá mesmo, e depois veremos se acontece!

Bem, voltando à pergunta inicial, infelizmente de momento pelas más razões.

Mas espero que um dia quando regressar sentimentalmente (porque fisicamente é um até já e não um adeus) me sinta tranquilo debaixo da sombra de um choupo e consiga encontrar a paz, a luz e o encanto de uma bonita tarde de Outono.

Mas tal como os filhos, não é obrigatório que os Pais biológicos sejam os melhores...quantas vezes não o são.

Em todo o caso, gosto da ideia de um Portugal desconhecido à procura do qual irei, pois o conhecido é um pesadelo.

sábado, 24 de setembro de 2011

a sanguínea do Trisavô Brasileiro


Um dos inúmeros quadros que guardo nas paredes da livraria, vulgo biblioteca, do meu monte em Estremoz, é uma sanguínea de um Trisavô.

Habituei-me, como mais velho, a recolher todo o acervo cultural da minha Família ao longo das gerações ( pinturas, retratos a óleo, carvão e a papel, diários, cartas, objectos - objets de vertu -), pois como conheci os meus 4 Avós e muito bem, mais uns 6 Bisavós e outros tantos Tios-Bisavós, tudo me fala e está vivo pelos testemunhos que deles colhi sobre cada uma das peças.

Hoje apetece-me revisitar este meu Trisavô brasileiro, cujos avoengos do Minho da baixa Nobreza foram para o Brasil no princípio do séc.XIX e voltaram de lá feitos Barões e Viscondes e com muito dinheiro. Tratou-se de serviços prestados ao Imperador, ou seja fundos próprios doados à Nação, os quais fruto de um legítimo e vasto património criado com trabalho, dedicação e sabedoria, levaram ao prémio supremo da nobilitação.

Regressado à Metrópole, eis o meu antepassado, rico e já naquela 3ª ou 4ª geração em que a labuta é substituída pelo consumo. Chiquíssimo, vestindo em Paris, com palácios em Lisboa e quintas no Minho, qual Jacinto do Eça, frequenta a alta sociedade, os teatros, as ceias no Tavares, os literatos, as actrizes, as coristas.

Casa-se com uma filha de um Conde conhecido e com gerações para trás de nobreza esclarecida e antiga.

Num dos tais diários herdados, com capa de pele linda e bem rematada, estão várias letras em ouro incrustadas, muito à forma da época. Na zona do meio aparece elegantemente desenhada uma pergunta em espanhol : "Llegaré?" seguido de uma data, e mais abaixo uma afirmação “ Llegué” também com uma data, vários anos depois.

Fiquei intrigadíssimo quando manuseei o referido diário pela primeira vez, e fui-me deleitando ao abri-lo, com o relato dos amores clandestinos, fervorosos e românticos deste meu Trisavô brasileiro com uma minha Trisavó espanhola!

Resistência inicial, cedência progressiva e branda face às investidas fogosas, permanentes e insistentes do nosso “marialva”, uma correspondência imensa de leituras sugeridas, feitas e comentadas de autores cúmplices, um namoro culto, rico, em que o sexo é tratado com doçura e pudor, mas presente e sem mácula de desencanto, e que chega ao fim com um “billet doux” irresistível, reciprocado com a expressão “llegué”!

Quando olho para a sanguínea, ficam-me as saudades desse convívio tão rico e ao mesmo tempo íntimo e perturbador das conversas tidas e transmitidas, as quais só ouso desvendar parcialmente, como se o Trisavô me olhasse entre irado mas com um ternurento desvelo.

MNA

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Madame Poulain


O casal Poulain adora fazer window shopping pelas montras das lojas de Paris!

Monsieur Poulain observa a menina nua na magnífica moldura rócócó..... enquanto que Madame Poulain não resiste a olhar com devoção para uma tela pueril representando a última ceia.

As nossas qualidades


Todas as nossas qualidades são incertas e duvidosas, tanto no bem como no mal, e são quase todas fruto das ocasiões.

La Rochefoucauld

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.


Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.
Começar morto, para despachar logo o assunto.
Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num “spa” de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois – “Voilà!” – desapareço num orgasmo.

Wooddy Allen

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Come chocolates, pequena, come chocolates!




Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.


Extracto de "TABACARIA" de Álvaro de Campos

pára de olhares para mim



Depois de uma noite mal dormida, toda a gente não gosta de nós.

O sono ido levou consigo qualquer coisa que nos tornava humanos. Há uma irritação latente connosco, parece, no mesmo ar inorgânico que nos cerca. Somos nós, afinal, que nos desapoiámos, e é entre nós e nós que se fere a diplomacia da batalha surda.

Tenho hoje arrastado pela rua os pés e o grande cansaço.

Tenho a alma reduzida a uma meada atada, e o que sou e fui, que sou eu, esqueceu-se de seu nome. Se tenho amanhã, não sei senão que não dormi, e a confusão de vários intervalos põe grandes silêncios na minha fala interna.

(...) Sim, não dormi, mas estou mais certo assim, quando nunca dormi nem durmo. Sou eu verdadeiramente nesta eternidade casual e simbólica do estado de meia-alma em que me iludo.

Uma ou outra pessoa olha-me como se me conhecesse e me estranhasse. Sinto que os olho também com órbitas sentidas sob pálpebras que as roçam, e não quero saber de haver mundo.

Tenho sono, muito sono, todo o sono!


Bernardo Soares, Livro do Desassossego

terça-feira, 20 de setembro de 2011

perspectivas...



amanhã prometo um artigo sério...mas de facto os anúncios podem conter perspectivas diferentes da visão do que é necessário chamar a atenção para...neste caso uma marca de sapatos...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

pássaro sem patas


«Ouvi dizer que há um pássaro sem patas. Não pode parar, tem de voar constantemente. Só pode pousar uma vez. É quando morre.»

(Do filme 'Dias Selvagens', de Wong Kar-Wai)

A King may make a nobleman, but not a gentleman



If you buy one pair of shoes and one suit per year, you’ll have a nice collection soon enough. It’s an investment. Also, know your measurements and sizes, because you might find a woman who wants to hook you up and get a suit made

Find a good tailor.

T-shirts should fall just below your waist, and the seam of the shoulder should be right on your shoulder.

Wear a belt. It’s called underwear for a reason.

Try to travel to a place where your cell phone won’t work. That’s when you know you’ve actually gone somewhere. If you can’t afford to put your passport on pivot, try reading a book or travel guide about the place you’d like to visit.

If reading books the size of War & Peace seems daunting, peruse different types of magazines-ones covering art, architecture, design or photography.

Try not to go straight to the sports section of the newspaper.

Being open-minded and aware of the world around you shows class and sophistication, but avoid seeming pretentious by being modest instead of showing off what you know.

There will come a time when you outgrow the dudes you grew up with. Have a beer with them once in a while, but it’s OK to move on and be friendly with new people.

Go easy on the slang, especially among those who are already judging you based on race and age.

Don’t just talk the talk.

Look people in the eyes when you greet them and shake their hand.

Be on time to meetings-early if you can.

Don’t think because someone has money, he’s a good businessman; there are people with no money who are better.

You don’t want to do anything and everything just for a buck. I’ve walked away from deals a number of times that I think were good deals, but I didn’t think they were good people.

Unless your Fight Club membership is in danger of being revoked, walk away from altercations.

Treat older women as if they were your own mother

Sometimes the best movies are in the independent market. Documentaries are great educational sources, too.

Brush your teeth, gargle or have a breath mint before getting up close and personal.

Never forget to introduce your woman as your girlfriend, spouse or otherwise to people when you’re out at functions together.

domingo, 18 de setembro de 2011

Conto Veneziano




Chovera torrencialmente em Veneza, e a caminho da praça de S. Marcos e nas ruas adjacentes cheias de lojas tinham posto na véspera, uns estrados com pés mais altos do que o pavimento para que as pessoas pudessem passar sem ficarem completamente encharcadas. Bernardo andara nessa zona à procura de um blazer, calças beijes e de uns sapatos apropriados para o jantar inesperado para que tinha sido convidado pelas filhas dos príncipes de Tiepolo, pois estando de férias e de visita à bienal, não esperava ter compromissos formais e tinha vindo desprevenido.

Anna e Francesca eram gémeas e tinham 29 anos e aproveitando a passagem por Veneza do Príncipe deste nome e herdeiro da coroa, resolveram organizar no palácio dos pais um jantar no terraço dando para o Gran Canale. Não estava frio e sendo todos bastante informais, não teria sido necessário Bernardo fazer tais compras, não fora a presença do jovem Príncipe.

Tinham igualmente convidado vários amigos comuns, a princesa Livia Caraffa e o seu namorado Domenico dei Marchese di Castelvetere, um brilhante advogado, Laura e Giulia filhas dos príncipes de Scilla, os príncipes di Roccella, os irmãos Antonella e Vicenzo, herdeiros de grandes caves de vinhos famosos italianos, Fabrizio e Isabella filhos dos duques di Corigliano, ela uma modelo recente e muito bonita, e uma tia mais nova das donas da casa de um segundo casamento do avô, Allegra Caracciolo, que era herdeira de uma fortuna significativa, solteira, espampanante e muito divertida.

Bernardo não conhecia uma boa parte destes convidados, sendo no entanto bastante próximo do Príncipe de Veneza.

O palácio dos príncipes de Tiepolo era um deslumbramento e estava sobretudo muito bem situado, tendo um recheio sumptuoso e sendo os proprietários muito ligados às principais famílias patrícias de Veneza, descendendo de vários doges, possuía uma colecção de móveis e pintura notáveis.

Bernardo, que já conhecia bem Anna e Francesca, encarara o convite como um gesto muito simpático, sendo de facto uma excelente oportunidade para estabelecer novos contactos.

Anna era alta, olhos verdes, pele clara e com uma cara esguia e queixo bem moldado, com um corpo muito bem proporcionado e elegante e um sorriso encantador e possuidora de enorme charme.

Francesca, ao contrário, não era tão alta, mais roliça, com um busto muito sensual e saliente, olhos de cor de mel, atrevida, com um sorriso mais reservado, mas muito acolhedor.

Viviam uma vida de grande qualidade, em termos materiais e culturais, fazendo inúmeras viagens ao estrangeiro e desempenhando cada uma delas a sua profissão.

Anna era curadora de arte e tinha claramente, sentido o apelo para essa vocação profissional pelo enorme património familiar que um dia herdaria e que sendo tão variado e numeroso, bem merecia um interesse e o cuidado de alguém directamente a ele ligado. Tinha feito grandes escolas em Veneza, Florença e França.

Francesca era arquitecta e tinha feito um curso regular numa escola italiana de prestígio.

Eram ambas muito conhecidas pelas festas que davam, pelos inúmeros namorados que tinham e pelo bom partido que representavam.

O Príncipe de Veneza era casado e Bernardo também. Alguns dos convidados eram namorados vivendo juntos e com uma atitude descomplexada em relação às suas relações sentimentais.

Bernardo sabia que ia ser um jantar de enorme requinte e qualidade pois os pais de Anna e Francesca, eram sobejamente conhecidos como tendo uma das “boas mesas” de Veneza, mas estava um pouco apreensivo pois não sendo íntimo da maioria e o seu italiano não estando ainda totalmente aperfeiçoado teria que gerir muito bem a sua presença e sobretudo a respectiva conversa.

Ao convidar Bernardo, Anna tinha traçado o perfil de cada um dos seus convidados e com a intimidade que tinham contara-lhe que o Príncipe andava afastado do redil familiar e tinha-lhe pedido um jantar diferente e com gente divertida. Anna, desde sempre sentira uma enorme atracção por ele e estava decidida a cativá-lo durante a sua estadia em Veneza, até porque tendo ficado hospedado em sua casa, convidado pelos pais, esta proximidade era prenúncio de uma grande excitação para ela.

Francesca, por outro lado, nas confidências que fizera a Bernardo, confessara-lhe que tinha uma paixão não correspondida por alguém que viria ao jantar, mas não identificara quem era, tendo-lhe feito um desafio para que descobrisse.

Um criado de libré com botões prateados com as armas dos Tiepolo, anunciou a chegada de Bernardo e quando foi introduzido numa das salas aonde já estavam vários convidados, Anna e Francesca vieram ao seu encontro com uma enorme afabilidade.

Presentes os irmãos Fabrizio e Isabella e a tia Allegra Caracciolo, filha dos príncipes do mesmo nome.

Foram feitas as apresentações com naturalidade e retomou-se a conversa.

Bernardo ficou sentado num canapé confortável de dois lugares ao pé de Allegra e observaram-se com discrição mas com interesse. Mãos bonitas, sensuais, bem feitas e compridas com uns olhos expressivos e vivos, corpo de trintona muito cuidado e perfeito, impecável no seu vestido fresco e decotado, bem cheirosa e desempoeirada, pois meteu logo conversa indagando sobre a vida nocturna de Lisboa, aonde já estivera várias vezes, expressando a opinião de que os homens portugueses eram bem parecidos e românticos, pois fora a uma casa de fados e ouvira um fadista com uma voz muito bonita mas triste e com muito sentimento, cantar uma palavra que não conhecia em nenhuma outra língua e que se chamava “saudade”!

Bernardo, aproveitou a deixa e dizendo-se representante dos românticos portugueses, disse-lhe que no fim do jantar e depois de a conhecer melhor, quando voltasse a Portugal, teria “saudades” dela!

Foi muito aplaudido este exemplo, serviu-se um óptimo champagne e as línguas tornaram-se mais soltas e Bernardo sentiu-se mais confortável no seu italiano.

Entretanto chegou o Príncipe de Veneza. Estivera numa reunião de uma empresa representante de uma marca de roupa de homem com o seu nome que tinha acabado de lançar, perguntando a Bernardo se não estaria interessado em a difundir em Portugal.

- Vou pensar se sou a pessoa adequada, mas se tivesse sabido dessa marca não teria comprado esta tarde estes meus trajes venezianos para vir cá jantar.

- Ficam-te muito bem, disse o Príncipe, mas vou-te mandar um catálogo.

- O Bernardo é um nosso querido amigo de quem gostamos muito e é o único estrangeiro que conheço e com quem ao dançar posso segredar malandrices, pois somos os dois da mesma altura, disse Anna.

- Olha que a Francesca é muito boa dançarina e é danada para as sevilhanas e sabe trocar olhares como uma verdadeira andaluza e dar aquelas voltas sensuais. Não acham que depois daqueles olhares todos e meneios de corpos, só se pode ficar apaixonado – perguntou Bernardo.

Havia alguns que nunca tinham visto bailar sevilhanas e Francesca dirigindo-se a Laura pegou-lhe na mão e começou a dançar.

- A Laura e eu tivemos lições juntas, e ela tem imenso jeito - disse Francesca enquanto Laura a contragosto cedia àquela demonstração inopinada dos seus dotes, mas entrando pouco a pouco na dança, fê-lo com maior convicção.

Entretanto já tinham chegado todos os convidados e passou-se para o terraço aonde estava posta uma mesa com candelabros e velas acesas e estavam em pé, impecáveis, quatro criados de luvas brancas e libré, aguardando que nos sentássemos para começarem a servir o jantar. A vista do terraço dava directamente para o Gran Canale. Um deslumbramento. Ouvia-se passar em baixo a navegação menos buliçosa das noites tranquilas de Veneza.

- A Anna está excepcionalmente bonita esta noite e eu não posso estar melhor sentado do que ao lado dela – disse o Príncipe. Anna estava estupenda, com o seu cabelo loiro apanhado para trás, deixando sobressair os olhos verdes com uma maquilhagem perfeita e com o seu sorriso único, não podia estar mais atraente e irresistível.

Fabrizio bebia as palavras do Príncipe pois estava sentado em frente e não disfarçava a fixação nele do seu olhar.

- O Fabrizio devia ser modelo da minha nova marca de roupa, acho que ia vender muito mais, não queres?

- Eu quero, mas não sei se tenho jeito ou se tenho o perfil.

- Tens, tens, disse Allegra, pois és lindo de morrer. Se eu fosse mais nova eras o meu modelo de homem.

(to be continued)

MNA

sábado, 17 de setembro de 2011

novos espectadores nos estádios



Com os raros golos de bom futebol que, regra geral, se vão marcando nos dias de hoje por golpes de sorte , os novos espectadores vão dizendo cada vez mais: QUE GANDA MELÂO, MEU!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A Grécia está como está, mas não é de admirar..



Se os soldados gregos (esta é a farda oficial) andam a brincar aos pais e às mães com saiotes e vasculhando baús, como é que a Grécia não há-de estar como está!

o falso sorriso



Custava-lhe a levantar-se todas as manhãs.

Lida da casa na véspera até tarde – o Nelson sempre foi machista e acabado o jantar ia ao café beber a bica com os amigos voltando com um bafo a amarguinha – e quando Filomena se sentava sozinha no sofá a ver a telenovela, adormecia de cansada.

Nos dias de "festa", Nelson punha-se nela sem amor e despachava o que tinha a fazer, virava-se para o outro lado e ressonava que nem um bácoro.

Filomena tinha engordado bastante, levava para o emprego umas dietas que comia a correr na copa do escritório: ficava sempre a saber-lhe a pouco - e quando chegava a casa, disparatadamente e antes do jantar, petiscava aqui e ali uns restos que deixara em cima da mesa da cozinha ou ia mesmo ao frigorífico buscar queijo ou fiambre para fazer umas tostas.

Vanda, a filha, morava com o namorado e por isso desde há anos que se sentia muito sozinha, pois excepto o marido, não se dava com ninguém ali no bairro passando o dia todo fora no emprego e aos fins de semana iam para Alhandra visitar os sogros. O Nelson nascera por lá e tinha um grupo de amigos com quem jogava snooker e confraternizava e ela ficava em casa dos pais dele, ou a dormir ou a ver a televisão.

Tirara um curso de secretariado, fora uma boa aluna, era apreciada no trabalho, mas o seu chefe era uma peste e odiado por todos o que fazia com que ela, por tabela, pagasse um preço alto em termos de amizades que só por interesse se lhe manifestavam e dela se aproximavam.

Assim que, a sua vida era mesmo um tormento, desinteressante, rotineira e sentia-se deprimida e muito infeliz.

Estava um neto a caminho, mas Vanda morava longe do bairro e perto dos sogros por isso previa que raramente pudesse vir a estar com a criança.

Nelson era um mau marido e ela suspeitava que para além de a tratar com indiferença tivesse as suas aventuras com outras, pois já lhe ouvira, de noite e a sonhar alto, falar noutros nomes de mulheres com tanta doçura que não lhe deixava margem para dúvidas.

Filomena começara a ler uns livros de auto-ajuda e sentia-se decidida a mudar de vida. Não a do emprego, pois não sendo muito bem paga tinha no entanto um bom salário que em tempos de crise era impensável pôr em risco.

Resolveu tratar dos seus problemas em três fases: a primeira, começar a perder peso e a sentir-se bem com ela e com o mundo; a segunda pôr os pontos nos iis ao Nelson e ou ele largava as outras ou punha-o fora de casa; a terceira, ganhar simpatia no emprego e passar a ser considerada e apreciada por todos.

Passaram-se três meses, estava muito mais magra, pintava-se e arranjou um novo corte de cabelo, comprou roupa mais actual e quer em casa quer no emprego, tinha suscitado comentários positivos. O Nelson andava intrigado e perguntara-lhe se tinha sido no trabalho que lhe tinham exigido uma mudança e ela dissera-lhe que sim. Tinha adiado a segunda fase da resolução dos seus problemas, pois o Nelson estava mais caseiro, sempre trazia para casa dinheiro e a seu tempo logo veria o que decidir.

Ficara indignada quando numa reestruturação da empresa o seu chefe, a quem sempre prestara uma dedicação sem limites de horas e com prejuízo tantas vezes do seu descanso, a tivesse ignorado na defesa da sua futura integração no novo organigrama da sociedade.

Isto foi sabido pelas colegas e pelos demais trabalhadores e se ao princípio e como se esperava foi unânime um certo gáudio de vingança pelo passado, a pouco e pouco começou a sentir-se acompanhada e acarinhada.

Agora ia com prazer trabalhar, tinha criado relações cordiais com as colegas e até almoçava de vez em quando com companheiros de trabalho, mantinha a linha e o Nelson respeitava-a mais.

Com o patrão e sem embargo de o tratar respeitosamente, passara, porém, a ter um falso sorriso.

MNA

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Mãe e os seus filhos



Só ao fim de 2 anos da data da sua morte, as minhas irmãs, os meus irmãos e eu fomos "mexer" nas coisas pessoais da Mãe.

Tanto da nossa vida e da vida dela passou assim pelas nossas mãos, pelos nossos olhos e de repente, senti umas saudades tão grandes e uma emoção tão profunda que me apeteceu partilhar aqui o que escrevi há dois anos, nesse momento tão triste da sua morte, para que quem ainda tem Mãe a agarre bem agora, hoje e lhe dê muitos beijos!

Escolhi de propósito esta fotografia de uma Mãe Chinesa com o ventre aberto e os seus filhos ao lado, porque uma Mãe sofre sempre para dar à luz e merece ser amada, respeitada, carinhosamente tratada e acompanhada até à morte por tudo quanto faz pelos seus filhos.

Para além da sensação de perca e do enorme desgosto que senti nesse dia, a morte da Mãe fez-me lembrar que muitas vezes não aproveitamos para exprimir e manifestar sem vergonha e com intensidade e enquanto podemos, os nossos sentimentos a quem amamos.

Se eu soubesse que seria a última vez que a veria adormecer, tê-la-ia abraçado ainda mais forte e o beijo que lhe dei seria de despedida.

Se eu soubesse que seria a última vez que a veria ir-se embora de minha casa, tê-la-ia apertado ainda mais nos meus braços e pedido que entrasse mais um minuto, antes de sair.

Se eu soubesse que seria a última vez que a tinha ouvido conversar sobre tantas coisas, teria gravado cada gesto e cada palavra, para poder guardá-las e repeti-las sempre que quisesse.

Se eu soubesse que seria a última vez que a veria, ter-lhe-ia dito com ternura como gostava tanto dela, em vez de achar que ela o sabia e não precisava que eu o dissesse mais uma vez.

O Amanhã não está assegurado para ninguém, novos ou mais velhos, e o Hoje pode ser a nossa última oportunidade de termos bem apertados nos nossos braços, aqueles a quem amamos.

Por isso se estamos à espera de Amanhã, por que não fazê-lo Hoje? Pois se o Amanhã não chegar, arrepender-nos-emos do dia em que não perdemos uns minutos para mais um sorriso ou um abraço.

Assim, não percamos tempo em sussurrar ao ouvido de quem amamos, como tanto gostamos deles, ou que pedimos desculpa, ou que agradecemos, e se o Amanhã não chegar, não teremos remorsos do hoje.


MNA

Qualquer dia o sector empresarial privado e público acaba assim...



WE PAY CASH FOR NEW CUSTOMERS ou seja em bom português pagamos para ter novos clientes...

o repouso do guerreiro


Há quem seja pró-activo e quem seja uma pessoa passiva ou completamente inactiva. Conheço bem do que falo.

Tenho sido uma espécie de “birdwatcher” desde que me conheço, só que no meu caso trata-se de gente, às vezes uns grandes passarões, é bem certo!

Faço, aliás, testes um pouco desonestos intelectualmente para apurar do grau de atenção à vida, naquilo que considero o básico para comigo poderem interagir sem sobressaltos ou se quiserem, sem maçadas…

Convido a virem passear no meu carro, e passados alguns generosos minutos de conversa, observação das ruas, avenidas, passeios e gentes, pergunto:

- Viste a miúda com o lenço encarnado ao pescoço?

Na rádio, uma meia-hora depois, pede-se a quem tenha visto uma terrorista das “Brigadas Vermelhas” que avise a polícia. É isto!

Quem não vê, e estava lá, passa à categoria de não admitido na polícia, if you know what I mean!

Conversas fúteis, julgando os outros com frequência, radicalismo, ignorância, distracções de coisas relevantes da vida, tudo me afasta!

Ao revelar este pequeno e insignificante teste, reconheço que torno o lugar ao lado do condutor do meu carro bem vazio, ou talvez cheio de pouca, mas gente “valerosa”!

Vou dando cada vez mais, a maior das importâncias a não ter que perder tempo com coisas mesquinhas, minudências.

Acham que é arrogância intelectual. Seja.

Mas não me sinto na obrigação de ser sempre sorridente para toda a gente.

Pelo contrário, apetece-me chamar as coisas pelos nomes e dizer que não gosto de alguém quando tenha motivos para o sentir, ou pelo que me fizeram ou causaram indirectamente, ou falaram mal nas costas criticando com ou sem razão, enfim no fundo não aprecio quem goste de ser um mole, manteigueiro, querendo estar sempre de bem com “gregos e troianos”!

O contrário também é verdadeiro, ou seja, acho que se deve manifestar expressamente o amor, a amizade, a gratidão sem meias palavras, dando aos outros que o merecem, provas inteiras de alguma doçura reconhecida deste rigor invernoso do meu carácter duro e, às vezes, impiedoso.

Vem isto a propósito de algumas “lutas” recentes que estou a travar e que se anunciam vencedoras, esperemos! Não sou nada supersticioso e ainda não se tendo concretizado, se por acaso perder ou não ganhar totalmente como planeei, não mudo uma vírgula ao que vou dizer.

No início referi os vários tipos de atitude perante a vida.

Só quem luta a cada dia, sem desfalecimentos teóricos porque na prática e sobretudo na “carne/psíquico” os há e dolorosos, causando nervoso miudinho, é que pode tentar influenciar o “curso das estrelas”, o futuro, o desejo de encontrar paz ou um amor, ou um emprego, ou um andar, ou um negócio, ou um remédio para engordar ou emagrecer, uma coisa perdida que faz falta nesse momento e não se sabe mais aonde se “desarrumou”!

É esta permanência na “actividade” que a mim me preenche, é um tentar mais uma vez, é antecipar o que poderá ir na cabeça de alguém de quem precisamos, é não desistir de um projecto, de dizer ou fazer o que tem de ser feito o melhor que soubermos, é estar sempre a magicar como o tempo vai passando ou poderá decorrer de uma forma cheia.

O quê?

Ficar o dia todo no terraço de um penthouse soberbo, bem sentado, parado, a olhar fixo o horizonte, como parece que faz o Arqt.Pei, em Nova York? Bem sei que tem cerca de 85 anos e dizem-me os filhos, com quem falei, que medita!

Livra, prefiro a minha cave sem vista, na zona do Senhor Roubado, de onde vos escrevo!

Sei que sabem que é mentira que não moro lá, pois morreria de claustrofobia!

Subjectivo, sim senhor! Mas eu sou o sujeito titular da minha vida e por isso a minha visão é a que vale, afinal para mim.

Devo ouvir outras opiniões, sim. Consultar quem saiba mais, sim. Mas estar sempre a propor a nossa visão para formar a opinião de quem nos aconselha.

E sabem porquê?

Porque, “at the end of the day” quem decide somos nós e se querem que lhes diga a minha experiência pessoal, se não for eu a tratar da minha vida, ninguém trata dela bem – podem tentar fazê-lo, normalmente mal, mas porque entregar a outros o que tem a ver com o meu “inner Manuel” que verdadeiramente só eu conheço de ginjeira…mesmo até ao fim!

E depois, se eu me render molemente a terceiros (incluindo cônjuge, amante, amiga(o), padre, advogado, conselheiro, passante na rua, imprensa…) sou o tal passivo ou inactivo, e não gosto!

Acho que no fundo ninguém, verdadeiramente gosta!

Talvez haja quem se habitue ou que não consiga ultrapassar!

Mas se nas vidas de cada um NUNCA houve um grito de Ipiranga, um desejo de se ser o próprio a tomar as coisas nas mãos, então o meu julgamento é que se é um traque…por definição, vento malcheiroso!

Ninguém gosta de sofrer e a luta quanto mais aquece, mais suores frios causa, medo, cagufa, tef-tef, miaúfa ou cagaço…é sabido! Mas é no auge da luta, com cabeça, estratégia, trabalho e argúcia que se definem vencedores e vencidos, sempre com honra! Perder assim é ganhar também!

Claro, isto implica trabalho, muito trabalho. Atenção a cada pormenor, à vida nos seus contornos gerais e particulares, medir as consequências de um ou outro cenário, desfecho…uma canseira, por isso chega o momento em que se, estatisticamente, o score pessoal é manifestamente positivo, se perde a última batalha: a da morte.

Irrita, pois apetecia continuar, mas é o repouso do guerreiro.

Ave, Caesar, morituri te salutant"

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Peng Zhu


Peng Zhu sentia-se sem forças e meio abandonado pois apesar de no seu bairro todos o respeitarem, era como se tivessem medo da velhice que a cada dia mais se revelava no seu físico débil.

Gostava de ficar horas meio acocorado meio sentado – habituara-se a esta posição durante os anos de trabalho duro nas plantações de arroz – e sentia-se cómodo.

O chá quente ou mesmo só água a ferver eram a sua companhia diária, em pequenos sorvos, aquecendo o corpo.

Nesse dia, Peng Zhu apeteceu-lhe mergulhar no seu passado e revisitar as memórias da sua família e constatou que ninguém mais estava a seu lado.

Nem fora a morte que o separara – da sua mulher Jieng Jsie e dos seus dois filhos – mas uma impossibilidade de vida em comum, irreprimível.

Peng Zhu tinha a consciência de que trocara o seu intelecto, a sua vasta cultura e a sua intransigência em relação à mediocridade da vida familiar rotineira, cinzenta, pobre e sem futuro por uma experiência de abandono, que presumira, lhe traria, maior felicidade.

Fora primeiro o Partido e a vida de entrega activa e quase sem horas para si mesmo até à exaustão sem perceber que a burocracia esmagava, abafava a louvável iniciativa que o levara a trocar a vida na aldeia com a da cidade.

Depois foi a desilusão do companheirismo formatado, sem possibilidade de fuga que o cansou de acreditar em ídolos com pés de barro.

Tornou-se um tradutor do Instituto Diplomático do Estado pensando que talvez pudesse, ao aprender línguas estrangeiras, ter acesso a uma cultura ocidental que desde logo desprezava, porque achava menor e sem o culto de valores milenares que lhe fora imposto e a que sempre fora habituado a não discutir, mas que lhe permitiria viajar e a conhecer novos mundos.

As viagens eram destinadas aos quadros zelosos que se entregavam amorfamente aos seus superiores e ele, pelo menos daqueles a quem serviu e que tinham da vida uma imagem estática, não conseguiu arrancar qualquer gesto de simpatia, adesão ou sequer vontade de o promoverem.

Fez uma pausa nesta viagem sem chama e voltou ao pensamento sobre a família a quem muito irregularmente visitava pois era longe, incómoda a viagem, cara e no fundo quando chegava apetecia-lhe logo regressar, pois nada se passara de diferente desde a última vez.

Jieng Jsie, deitava-se a seu lado, e deixava-se secamente penetrar sem um gesto, sem um som e no final, era como que um ritual cumprido sem prazer nem emoções.

Os seus filhos iam crescendo de cada vez que regressava à aldeia e vinham falar-lhe como se fala ao pai ausente que chega, sem interesse nem curiosidade e as perguntas polidas que lhe faziam eram as da tradição filial chinesa – sobre a saúde, sobre o emprego, sobre a cidade – e por aí se ficavam.

Peng Zhu, amofinado com a aridez da vida da aldeia resolveu ir espaçando as visitas, de tal maneira que tudo quanto faz parte da vida de uma família, lhe passou ao lado: as doenças e a escola dos filhos, e o bem estar e o prover das necessidades básicas eram exclusivamente asseguradas pela parca transferência mensal que fazia, que bem sabia que praticamente para nada dava. Era na aldeia que a sua família encontrava o complemento de que precisava para ir sobrevivendo.

E quando um dia soube que Jieng Jsie morrera de febre tifóide, a sua reacção foi de indiferença. Não houve um soluço, sequer, nada!

Uma tarde anunciaram-lhe no trabalho que Peng Jsie, o seu filho mais velho, estava na sala das visitas da empresa. Intrigado pensou o que o traria até si quando desde há anos nada sabia dele.

Anunciava-lhe que ele e o irmão tinham decidido, de acordo com os pensamentos de Mao, renunciar a serem seus filhos e a adoptarem a paternidade de um vizinho da aldeia que sempre o substituíra. E dissera-lhe isto como se fosse uma notícia sobre colheitas ou como se de novidades de política local estivesse a falar.

Nunca mais os vira nem deles tivera mais notícia.

E fora uma vida de solidão que desde então percorrera até esse dia, amarga.

Pensou que deveria pôr fim à sua vida pois não sentia apelo em a manter e gizara um plano progressivo de falta de nutrição, do mínimo dos mínimos para sobreviver e sentia que o seu tempo estava a chegar.

- Há tanta gente como eu sem esperança e com vidas falhadas, sabe-se lá porquê! Não me apeteceu acreditar em mim mesmo, desisti, fiz o contrário do que devia e depois - cogitava mansamente - se tivesse sido diferente de que me tinha valido?

E veio o fim da tarde e a noite para Peng Zhu.

MNA

domingo, 11 de setembro de 2011

resposta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Os comportamentos, interesses e as paixões terrenas são aqui substituídos por algo indescritível que só se imagina quando se experimenta.

Lembras-te quando conversávamos sobre a morte, a vida para além dela, o que nos esperaria e como seria? Pois bem, nada do que se sabe e diz, corresponde à realidade.

Não porque se seja mal intencionado (alguns...são) e refiro-me aos diversos credos e religiões. Há um desejo, quase existencial, da procura de certezas e de visionar dentro dos limites das nossas capacidades humanas o que se vai passar depois. È natural. Mas perguntar-me-ás, para quê? Adianta alguma coisa? Se nem sequer está nas nossas mãos mudar o curso das estrelas, como queremos ou podemos modificar o futuro depois da morte?

Por isso te repito, tenta saber dividir entre o presente que vives na terra e o futuro depois da morte.

Nesse presente que também é a continuação do teu passado, deves praticar um determinado número de acções que por si próprias se justificam ou não. Nada têm a ver com castigos, punições e sofrimento no futuro ou prémios e lugares VIP!

Como é possível que pensássemos no inferno como o castigo de actos passados?

Quando se mata ou rouba ou se bate nos mais frágeis, tudo desconformidades com aquilo a que chamamos o Bem, as consequências funestas são imediatas: a morte, o vazio e a dor, que não podem ser como que “suspensas” para serem muito mais tarde reparadas num hipotético inferno. Nem em termos humanos faz sentido.

Vejo com preocupação que te afliges com facilidade sobre assuntos do presente, temendo o futuro: a pobreza, o desemprego, a escassez de bens e recursos naturais tantas vezes malbaratados, a corrupção e a ganância, a guerra e a insegurança.

Se conseguires pensar que o teu futuro e o de toda a gente é finito na terra, os teus temores diminuirão pois a noção do tempo nada é comparável com o depois da morte.

Vou tendo a noção do espaço mais do que do tempo por isso te falo de proximidade mas em termos que não te saberia explicar. Um dia perceberás.

Vai por isso libertando-te de lastro, como num balão que sobe, tenta pairar por cima das nuvens e olhar para baixo e distingue só o que é importante: o verde dos campos, as árvores, os lagos, as montanhas e os oceanos. Parece-te que vês vida e movimento mas não consegues vislumbrar ao detalhe.

É esta a distância que deves guardar dos problemas, das dores e do sofrimento.

Que grande treta essa a de que o sofrimento é bom! Para quem? Mais uma vez a benefício de uma contabilidade desconhecida no futuro? Isso faz algum sentido?

Invisto agora 5 doses de dor, amargura, abandono e sofrimento e vou ter um desconto no cômputo final de penas e castigos pelo que fiz desde que nasci até morrer!

E como defines se foi bem ou mal feito? Quem julga? Para uns é conforme à lei ou aos costumes e para outros é a personificação do Mal. Os Homens são isentos? Nunca o foram.

O Bem é o bom, o agradável, o que dá prazer, o não-sofrimento, e o Mal é todo o oposto.

É aqui que entra a noção da liberdade, ou seja a minha acaba quando começa a tua. Mas refiro-me ao BEM, não ao MAL. Liberdade dentro do Bem que praticamos entre nós.

Há formas de fruir do BEM através do bom, do agradável e do não-sofrimento com os outros e a isso se chama a Humanidade e relações inter-pessoais.

Que fique claro, tudo isto interessa somente enquanto se está vivo. Uma vez que se morre, tudo é passado e FINITO. Não transita nem cobra nada de ninguém, que disparate!

Vai pensando nisto que te digo e talvez encontres mais serenidade e menos ansiedade na tua vida.

Ao contrário do que eu pensava, mesmo que ATÉ á morte haja sofrimento, em maior ou menor escala e deves fazer todo o possível para o evitar e não capitalizar como acima te referi, a ideia do depois é a que te deve sossegar e por ela ansiar.

Gostaria a terminar de falar-te em mais detalhe de uma componente enriquecedora do sexo e que é o AMOR.

Quando existe doação e entrega mútuas e que se podem definir, em termos humanos, como AMOR, os actos mecânicos transformam-se e aproximam-se do que se encontra na vida futura.

É talvez o único traço de união, o justificativo para haver futuro para quem morre na terra.

Pensa na pequenez da terra, que já hoje pode ser entendida e verificada com os progressos enormes que os seres humanos têm feito quanto ao conhecimento e observação da astronomia e poderás ter uma reduzidíssima ideia do que é o Universo e aonde te situas.

Um afectuoso abraço do teu primo

Luis Bernardo

sábado, 10 de setembro de 2011

perguntas ao meu primo Luis Bernardo



Resumo: Imaginem vocês que recebi uma carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. No meu blogue está tudo explicado e as cartas trocadas foram abundantes.

Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Deixei passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!



Meu Caro Luis Bernardo,

Não tenho respondido às tuas missivas, e esta noite um pouco engripado e com tosse o que me debilita para sair, resolvi questionar-te sobre cá umas coisas que me andam a fazer espécie desde há muito. Eu tenho umas ideias, mas nada melhor que escutar-te.

Ouve lá:

- o que é a felicidade, ou seja , com outra perspectiva define-me o conceito.

- mas também a sua fruição, isto é, quando a podemos sentir, pensar, alcançar.

- quando estamos tristes, ou desanimados ou descrentes o que sugeres que façamos?

- o que é para ti aproveitar esta vida?

- quais os limites? morais, e de que moral?

- fala-me sobre o amor, mas aquele que não é atraiçoado, o que apetece viver, partilhar.

- e a finalizar, desculpar-me-ás a vulgaridade, o que são chatices? As grandes e as pequenas.

Ansioso por te ler, despeço-me com o afecto habitual do teu primo

Manuel

o dandy


O dandy é o cavalheiro perfeito, é um homem que escolhe viver a vida de maneira leviana e superficial.

Como uma máscara, ou um símbolo, é uma sub-espécie de intelectual que não despreza o esteticismo e a beleza dos pormenores. É um pensador, contudo diletante, ocupando o seu tempo com lazer, actividades lúdicas e ociosas.

Tem uma obsessão pela classe e é um dissidente do vulgar.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Air hostess


Passenger asks: - What is your name?

Air Hostess answers: -Benz, Sir!

Passenger says: -Lovely name. Any relation with Mercedes Benz?

Air hostess:- "Same price, Sir"

A ASAE e o Didi...



O Didi tinha vivido muitos anos sozinho com a mamã - o pai morrera cedo - e como filho único era o ai Jesus da casa.

A mamã espremia-lhe os pontos pretos do nariz, cortava-lha as unhas e o cabelo, punha-lhe cremes para as borbulhas e o Didi habituara-se a gostar.

Era uma espécie de osga, sem pelos, nem espinha tesa e no fundo sofria, pois era boa pessoa e convivia bem com toda a gente.

Comprou esta tee-shirt e a vida mudou quando a punha: peludo, viril, machão, toscava as miúdas e até se atrevia a dizer-lhes:

- Se te apetecer, hás-de ir a minha casa, conhecer a mamã.

O grande problema de Didi eram os detergentes, sim, pois no dia em que se esvaísse a cor da tee-shirt, o mundo de Didi desaparecia.

E passou a não lavar a tee-shirt e o cheiro de tolerável tornou-se imundo e pestilento.

Didi não se importava de já não sair, queria era por a tee-shirt todos os dias e o peito enfunava e até falava de alto para a mamã.

Um dia a tee-shirt desapareceu e Didi definhou progressivamente, até que morreu.

No dia do enterro, acompanhado pela vizinhança, dizia-se em voz baixa, quente, rebolando as palavras, que sim, que fora a ASAE!

Vá-se lá saber porquê!

MNA

Tiens! Un ipod...ou Vanessa e o Ministério Público



Vanessa trabalhava no Ministério Público e era muito apreciada pela sua beleza, nanja que pela sua argúcia ou inteligência.

Era enviada para missões de quarta ordem e nessa manhã calhou-lhe investigar um crime numa loja de rua.

Chegada ao local estranha o que encontra e exclama:

- Olha um ipod nano!

aeroporto de Beja



Os milhões gastos no renovado aeroporto de Beja, ainda não conseguiram atrair o interesse das companhias aéreas de "low cost". Falho de significativa utilização, serve para que os nossos aviões de guerra, enquanto não invadem a Espanha, divirtam os honrados trabalhadores da terra alentejana, fazendo manobras perigosas.

Está mal! Deviam deixá-los trabalhar...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A vida é para nós o que concebemos dela


A vida é para nós o que concebemos dela.

Para o rústico, cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império.

Para César, cujo império lhe é ainda pouco, esse império é um campo.

O pobre possui um império, o grande possui um campo.

Na realidade não possuímos mais do que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

20 sugestões a um "chef" de cozinha






20 sugestões a um chef de cozinha, abreviadamente conhecido como “chef”:

1. gostar de arte
2. ser culto em outras artes que não sejam só as da culinária
3. ter visão estética, do belo e do feio, do quente e do frio, das cores, dos sabores e olfactos, do tacto e do olhar
4. saber escutar os outros e trabalhar em silêncio
5. saber sonhar
6. saber criar dentro de si e transpor para a realidade
7. saber ter tempo para descansar para se dedicar ao trabalho árduo
8. saber amar os outros, as coisas e as loisas mas dando a cada coisa o seu lugar e o devido tempo
9. saber ser simples e modesto
10. saber ser grande e senhor das suas capacidades e qualidades
11. saber partilhar
12. saber apreciar a noite e o dia, a claridade e as trevas
13. saber chorar, de alegria e de tristeza, sem vergonhas ou pudores e quando for caso disso
14. saber sentir o medo e ultrapassá-lo com coragem e valentia
15. saber respeitar todos os outros
16. saber admirar os melhores e imitar a excelência
17. saber seleccionar e escolher as companhias quer no trabalho quer no lazer da vida privada
18. manter a calma na tormenta e não fazer dos problemas um drama
19. saber estar contente com os seus êxitos
20. saber cozinhar e sentir-se o melhor entre os melhores!

MNA

domingo, 4 de setembro de 2011

Amai, damas e cavalheiros! Pavilhão de praia do Rei Afonso XIII de Espanha em San Sebastian




Belos recantos langorosos, champagne a rodos, tapas castelhanas, conversa solta, castanholas, espanholas...perdão, Senhoras da nobreza e alta sociedade quando a Rainha estava presente mas voltando às espanholas, bonitas e salerosas quando não estava, o que acontecia a maioria das vezes.

É e foi sempre assim a vida: sevilhanas e flamenco bem dansados, copos, ruído e sensualidade estiveram normalmente ligados aos tronos ibéricos e nem por isso foram os monarcas menos amados pelo povo que lhes reconhecia com gozo e satisfação, o aproveitamento do melhor que tinham para lhes dar: as suas belas mulheres.

A praia apetecível de San Sebastian para os banhos estivais era o vão pretexto para os grandes flirts de Verão e dali se partia com novas e luminosas cortesãs que duravam o tempo efémero que o amor dura: muito pouco até a boa estrela empalidecer e ser substituída por novo astro resplandecente!

Nem sempre as Rainhas mereciam esta sorte pois sem embargo de casamentos políticos contratados, havia quem se apaixonasse genuinamente pelos seus Reais Esposos!

Mas estes amores e desamores são de todos dias e transversais a todas as classes!

Por isso amai, damas e cavalheiros!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Hoje foi um dia daqueles em que nem sei bem descrever o que me apetecia fazer


Hoje foi um dia daqueles em que nem sei bem descrever o que me apetecia fazer como reacção a chatices.

Não é fantástico estar no meu quarto de hotel e através do iPad ouvir o noticiário da TSF das 2h da manhã ( não que sejam boas notícias as que ouvi de Portugal, mas já não sabia nada de nada há uns 5 dias). Não é totalmente assim, pois fiz o download do Expresso, mas confesso que o que li foi sem atenção nem interesse.

Mas tive saudades de ouvir música de Portugal, ou melhor a rádio marginal e mais uma vez foi o iPad a minha companhia.

Mas voltando ao cinzentismo, será que é assim tão difícil as coisas deste mundo correrem bem, mas mesmo bem! Não conta haver résteas de chatice!

I mean well, porra!

Fazemos o que pensamos ser o mais correcto, o melhor para toda a gente, o mais transparente, límpido, crystal clear e zumba…vem uma pedra, um pedregulho ou uma montanha rochosa que impede que eu veja vales com bambis a pastar…será que os bambis pastam? Estou cansado para caramba e por isso não me lembro se é a expressão correcta! Que se lixe!

Fui comer uma sopa, apeteceu-me sopa esta noite. Longe da "terrinha", de vez em quando pareço um parolo, mas tive falta de sopa, de uma mão, de um abraço, de umas palavras de encorajamento.

Ando a sentir-me muito sozinho e isso não é bom, como diz a bíblia, "e Deus criou a Mulher". Mas não é bem isso a que me refiro.

Nunca sentiram que sabe bem que aqueles de quem gostamos, atenção ao que eu digo, não são os de fora (os parceiros de negócios, os novos contactos, os potenciais trazedores de dinheiro) nos digam "from time to time" algumas coisas doces, carinhosas, se disponham a acolher no regaço a cabeça cansada?

Eu gosto, eu preciso, eu acho que andam todos distraídos e a pensar só nas vidas de cada um e marimbam-se para dar, mesmo avaramente, um pouco de calor.

Mas não se pode por anúncios nos jornais, ou pode-se? No facebook? Os anúncios são caros para burro e confusos. Andei à disputa com o "FB anúncios" e a única coisa que pedi foi ás tantas, um rosto “HUMANO” não links, uma voz ou um e-mail que me respondesse.

Sabem como finalmente apareceu uma criatura terráquea a responder, depois de ter gasto Euros 200,00 que prometiam continuar a exaurir-me indefenidamente para dar uma mão a um familiar?

Pois simplesmente porque cortei o raio de uma conta PayPal, também enganosa e longínqua.

E sabem o que disse a "valquíria" do facebook? Que pediam desculpa de eu estar a ter problemas com o anúncio por ter sido descontinuado….e que deveria investigar a razão pela qual a conta não continuava a ser debitada.

Acham isto normal? Eu não.

Mas já nem sei a que propósito vem isto de eu precisar de miminhos, de afagamento do ego, de numa palavra…que se lembrem que existo!

Termino como comecei: que o raio parta e rache quem me provoca chatices profissionais na minha terra!

Entretanto, são horas de ir dormir pois o dia de amanhã avizinha-se trabalhoso.

Espero acordar de manhã com boas notícias. Espero mesmo e não é brincadeira.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

it happens to everybody Ma'am



" Oh, Norman" said the Queen , " the Prime Minister doesn't seem to have read Thomas Hardy. Perhaps you could find him one of our old paperbacks on his way out"

do livro a todos os títulos recomendável de leitura (muito pequeno e maneirinho) "The Uncommon Reader" por Alan Bennett.

NOTA: já está à venda em português

Excerto na badana:

" Had the dogs not taken exception to the strange van parked in the royal grounds, the Queen might never have learnt of the Westminster travelling library's weekly visits to the palace. But finding herself at its steps, she goes up to apologise for all the yapping and ends up taking out a novel by Ivy Compton-Burnett, last borrowed in 1989. Duff read though it proves to be, upbringing demands she finish it and, so as not to appear rude, she withdraws another. This second, more fortunate choice of book awakens in Her Majesty a passion for reading so great that her public duties begin to suffer. And, so as she devours work by everyone from Hardy to Brookner to Proust to Samuel Beckett, her equerries conspire to bring the Queen's literary odyssey to a close."

Subversive and hugely enjoyable!

sábado, 27 de agosto de 2011

era o menino da sua mãe



Hélio era um rapaz inseguro de 15 anos e tinha uma mãe muito absorvente e possessiva que lhe indicava o caminho a seguir, controlando tudo e todos com quem se dava, uma estrita tabela de valores morais pautados pela religião católica e a conformidade do seu pensamento com uma rigidez de comportamentos indiscutíveis, implicando uma escassa liberdade de acção.

Começara a sentir os primeiros sinais da puberdade há já alguns anos e encontrava-se confuso pelas reacções instintivas que pensava serem aquelas a que lhe apetecia dar resposta e por outro lado, um código apertado de rejeições, a que a mãe chamava de pecado.

Achava uma estopada acompanhar a mãe com frequência nas suas idas à igreja do padre Francisco, que era pouco cuidado e cheirava mal, e com palmadinhas nas costas, o apertava junto à batina e lhe dizia em sussurro:

- Estás a tornar-te um belo rapaz, Hélio! Fazes bem em vires com a tua mãe à igreja, havemos de te ouvir em confissão para saber como cuidas da alma – e sentia um hálito de boca não lavada para cima dele, um misto de cebolada com vinho sacro.

Nas confissões, vinha sempre como primeira pergunta, se andava a portar-se bem, que sim Sr. padre Francisco, e se sentia o seu corpo a dar sinais e a pedir pensamentos impuros, pecados mortais que Deus não queria, que não Sr. padre Francisco e muito no fim vinha a lista dos veniais, dos quais, esses sim, se deveria arrepender, pois roubara fruta na mercearia a caminho da escola ao Bento zarolho, não fizera os deveres pois tinha ficado a olhar para uns livros do Berto, que era um calaça, com desenhos a preto e branco de jogadores de futebol.

A mãe tivera azar, ouvira dizer que o pai fugira de casa com a Alzira da farmácia, mulher de olhos azuis e carnes nutridas, e sempre lhe repetia que o pai tinha pecado gravemente em a deixar e que tinha que o esquecer.

Era seca, vestida de cores escuras, de cara rija e a pele com estrias do ar frio da aldeia, e diziam-lhe que a Srª Engrácia era mulher às direitas, e que ele devia estar muito orgulhoso de ser filho dela.

Hélio gostava muito da mãe, sentia-se dependente dela quando o tratava com miminhos, lhe fazia petiscos, o sentava ao pé dela no banco da cozinha e o apertava nos braços e a ouvia dizer: “ o meu filho é o meu tesouro, e ninguém o levará para o mal, pois tem aqui quem o defenda e proteja, com a vida, se necessário for! “

Era uma sensação confortável e dizia para si mesmo, que nunca a iria decepcionar e sempre faria o que ela lhe dissesse.

O Berto, era filho do feitor da Casa Grande, e o Hélio gostava de ir passear no pátio largo, correr e jogar com uma bola, copiando os desenhos que vira no livro de futebol.

Levava uma sacola de pano limpo com um pão de centeio com marmelada saborosa feita pela mãe, de uns marmelos que tinham no quintal. A casa da Srª Engrácia era modesta e rasteira junto à rua, e tinha um pequeno terreiro atrás aonde cresciam batatas, couves, e umas quantas árvores de fruto.

O Berto gostava de ir lanchar com ele para o pé do poço grande, de onde tirava com a corda e o balde de madeira, a água fresca que vinha do fundo e bebiam os dois até se fartarem.

Ficavam à conversa e um dia o Hélio disse:

- Ouve lá ó Berto, sabes de quem eu gosto mais na vida, mesmo?

- Eu não.

- Pois olha que é da minha mãe e ela de mim.

- Pois eu é da filha do Bento zarolho, que quando lá vou por algum recado da minha mãe, me faz cá uns olhinhos – disse o Berto, com uma entoação sabida.

- E tu o que sentes Berto, por esses olhares dela? – perguntou Hélio, um pouco surpreendido e curioso.

- O que havia de sentir? Sobem-me cá uns calores, e fico a pensar nela o resto do dia.

- Mas isso deve ser o que o padre Francisco chama do corpo a dar sinais e a pedir pensamentos impuros, pecados mortais que Deus não quer – conclui Hélio.

- Tolice, estremeço todo por dentro!

A caminho de casa, Hélio disse para si mesmo que havia de falar com a mãe sobre a conversa com o Berto.

Todos os dias depois do jantar, no verão cá fora na portada da casa e no inverno junto ao fogão, a Srª Engrácia rezava o rosário, com Hélio a responder aos mistérios e a ver quando passavam as inumeráveis contas do terço multiplicado por três.

O seu espírito esvoaçava até à escola, aos amigos e nessa noite ficou a cismar porque seria que o pai fugira com a Alzira da farmácia, bem mais nova do que ele e o largara e à mãe, de quem tanto gostava, sozinhos, no mundo.

No fim, contou à mãe da conversa com o Berto e da dúvida que o assaltava se o pecado de que o Sr. Padre Francisco lhe falava sempre nas confissões eram os calores que o Berto sentia quando olhava para a filha do Bento zarolho.

- Disparate de conversa! – ralhou a mãe. Tens é que sentir como a tua mãezinha gosta de ti, anda cá Hélio, meu filho, agarra-te a mim e deixa-me abraçar-te bem.

E Hélio sentia-se bem, era o menino da sua mãe.

MNA

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Branca de Neve


Era uma vez uma menina chamada Branca de Neve que vivia nos subúrbios de Lisboa.

O pai, Adolfo, desde há muito estava desempregado e dedicava-se a roubar automóveis, nomeadamente à noite e em ruas mais desertas identificava as viaturas alvo dos seus furtos e desmontava tudo quanto fossem rádios, leitores de cds e outros apetrechos de valor. Chegava sempre tarde a casa, pousava o fruto dos seus roubos em cima da mesa da cozinha, comia qualquer coisa e deitava-se.

No dia seguinte acordava pela hora do almoço, ia até à tasca aonde jogava manilha ou à bisca lambida com os compinchas do bairro, chegava até a gabar-se das aventuras da véspera e normalmente voltava a casa à tardinha já bêbado. Dormia uma sesta antes de sair novamente para a noite e uma vez por semana, contactava os diversos receptadores a quem vendia os produtos roubados e recebia o dinheiro.

No meio disto tudo, existia a mãe da Branca de Neve, de nome Serenela, que era prostituta e que tinha um horário semelhante ao do Adolfo, coincidindo na cama com ele às horas da sesta aonde umas vezes levava umas sovas de morte quando ele vinha mais entornado ou praticavam cenas de sexo tórridas, que nas palavras de Serenela, se lhe entregava pois apesar de tudo o Adolfo era o seu homem e com os clientes não tinha prazer.

Cada um contribuía com dinheiro dos seus ganhos para a educação de Branca de Neve, a quem ambos queriam que fosse, um dia, uma princesa.

Desde sempre a puseram em escolas longe do bairro para que a sua morada não pudesse ser identificada, compravam-lhe roupas caras, pagavam-lhe explicações e até lhe deram uma scooter vistosa para que pudesse cirandar pela cidade.

Como o nome indicava, Branca de Neve, tinha umas cores claras, muito bem feita de formas, atractiva, com uns bonitos olhos e nada diria no seu aspecto exterior ser filha dos seus progenitores que eram, de facto, do mais vulgar e rasca que havia.

Começara a dar-se com os rapazes do liceu que a achavam bonita, tinha conversa, aparentava dinheiro e como se vestia e calçava à moda, atraiu as atenções de Pedro, um colega de turma, filho de um engenheiro da Galp, segundo ele lhe dissera.

Um dia vira que o pai de Pedro o trouxera ao liceu num grande BMW e achou-o simpático e com bom aspecto, com um fato impecável e de gravata e pensou consigo mesma – gente da alta!

A relação ia-se estreitando cada vez mais e era já quase em exclusividade que passavam os dois os tempos livres juntos e o namoro assumiu-se perante a escola e os amigos de ambos.

Pedro dissera em casa que tinha uma namorada gira e ao descrevê-la todos acharam que deveria ser divertido conhecê-la, sobretudo porque o nome de Branca de Neve suscitara a maior curiosidade. Foi assim sugerido a Pedro que a convidasse um dia a ir lá a casa almoçar ou jantar.

Branca de Neve estremeceu quando Pedro lhe transmitiu o convite mas não deixou transparecer a sua reacção e disse-lhe com um ar natural que talvez sim, mas que seria melhor deixar passar ainda algum tempo, pois ela era envergonhada e ainda não tinha muito à vontade e o namoro ainda ia no princípio.

Pedro aceitou o argumento e disse-lhe que só o fariam quando a ela lhe apetecesse, mas não resistiu a contar-lhe os comentários e perguntas da família sobre o porquê do seu nome tão invulgar de Branca de Neve, confessando-lhe aliás que desde que a conhecera e das poucas vezes que tinha abordado o tema, ela sempre fugira à questão.

Nessa noite, Branca de Neve, convocou os pais para uma conversa tendo eles adiado o horário das suas saídas habituais e abordou pela primeira vez o namoro com Pedro, o convite para ir a casa da família dele, a curiosidade quanto ao nome, etc..

Serenela, demonstrando algum pânico, disse-lhe que tinha que acabar de imediato com o namoro dando uma desculpa qualquer e mudar de liceu pois tornava-se impossível que alguma vez viessem a descobrir quem os pais eram, o que faziam e aonde moravam.

Com a maior perplexidade, Branca de Neve, pediu explicações e disse que gostava do Pedro e que compreendia que tivesse que ser discreta, mas que não ia desistir da sua vida por causa dos pais.

Adolfo, que estava estranhamente calado, disse-lhe que tinham que conversar com tempo e com calma os dois e que a mãe fosse para o quarto ou que fosse à vida dela.

Contou-lhe que o nome lhe fora dado por uma visitadora da maternidade que ao vê-la recém-nascida a achara tão pura e tão clara que se oferecera como madrinha e propusera que se chamasse Branca de Neve.

Na altura deixara algum dinheiro que os ajudou nos primeiros tempos mas que desaparecera, tendo eles vindo a saber pelo hospital, que morrera num desastre de automóvel.

Quanto ao Pedro aconselhou-a a que antes de se envolver com ele e a sua família, procurasse no bairro outros rapazes que eram mais da sua criação, pois pelo que ela lhe contara, a diferença social era inconciliável e ela seria sempre infeliz.

Dias mais tarde, num apartamento de um amigo do Pedro que lhes emprestara para uma primeira experiência sexual completa entre ambos, Branca de Neve sentiu como ele se lhe entregara sem limites e sem perguntas, não lhe passando pela cabeça que ela não tivesse tomado todas a precauções.

Branca de Neve sentia-se feliz com Pedro e não tornara a abordar o tema com os pais e até lhes fora dizendo que a relação esfriara e que não havia necessidade de mudar de escola. Quanto a namorados, a seu tempo, veria ali no bairro com quem começaria a sair.

Umas semanas depois do encontro estavam uma tarde no parque, na relva, de mãos dadas, gozando a luz soberba e soalheira da Primavera e de repente Branca de Neve teve um desmaio momentâneo, quando Pedro aproximava a boca para lhe dar um beijo.

Ao recobrar os sentidos, abre os olhos e diz docemente:

- O meu príncipe acordou-me dando um beijo à Branca de Neve!

Sete meses depois, nascia o Ruben na mesma maternidade em que Branca de Neve tinha nascido, nos subúrbios da cidade de Lisboa.

No registo de nascimento (que agora já se pode fazer nos hospitais civis), constava que era filho de Branca de Neve e de pai incógnito.

MNA