quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Hoje foi um dia daqueles em que nem sei bem descrever o que me apetecia fazer


Hoje foi um dia daqueles em que nem sei bem descrever o que me apetecia fazer como reacção a chatices.

Não é fantástico estar no meu quarto de hotel e através do iPad ouvir o noticiário da TSF das 2h da manhã ( não que sejam boas notícias as que ouvi de Portugal, mas já não sabia nada de nada há uns 5 dias). Não é totalmente assim, pois fiz o download do Expresso, mas confesso que o que li foi sem atenção nem interesse.

Mas tive saudades de ouvir música de Portugal, ou melhor a rádio marginal e mais uma vez foi o iPad a minha companhia.

Mas voltando ao cinzentismo, será que é assim tão difícil as coisas deste mundo correrem bem, mas mesmo bem! Não conta haver résteas de chatice!

I mean well, porra!

Fazemos o que pensamos ser o mais correcto, o melhor para toda a gente, o mais transparente, límpido, crystal clear e zumba…vem uma pedra, um pedregulho ou uma montanha rochosa que impede que eu veja vales com bambis a pastar…será que os bambis pastam? Estou cansado para caramba e por isso não me lembro se é a expressão correcta! Que se lixe!

Fui comer uma sopa, apeteceu-me sopa esta noite. Longe da "terrinha", de vez em quando pareço um parolo, mas tive falta de sopa, de uma mão, de um abraço, de umas palavras de encorajamento.

Ando a sentir-me muito sozinho e isso não é bom, como diz a bíblia, "e Deus criou a Mulher". Mas não é bem isso a que me refiro.

Nunca sentiram que sabe bem que aqueles de quem gostamos, atenção ao que eu digo, não são os de fora (os parceiros de negócios, os novos contactos, os potenciais trazedores de dinheiro) nos digam "from time to time" algumas coisas doces, carinhosas, se disponham a acolher no regaço a cabeça cansada?

Eu gosto, eu preciso, eu acho que andam todos distraídos e a pensar só nas vidas de cada um e marimbam-se para dar, mesmo avaramente, um pouco de calor.

Mas não se pode por anúncios nos jornais, ou pode-se? No facebook? Os anúncios são caros para burro e confusos. Andei à disputa com o "FB anúncios" e a única coisa que pedi foi ás tantas, um rosto “HUMANO” não links, uma voz ou um e-mail que me respondesse.

Sabem como finalmente apareceu uma criatura terráquea a responder, depois de ter gasto Euros 200,00 que prometiam continuar a exaurir-me indefenidamente para dar uma mão a um familiar?

Pois simplesmente porque cortei o raio de uma conta PayPal, também enganosa e longínqua.

E sabem o que disse a "valquíria" do facebook? Que pediam desculpa de eu estar a ter problemas com o anúncio por ter sido descontinuado….e que deveria investigar a razão pela qual a conta não continuava a ser debitada.

Acham isto normal? Eu não.

Mas já nem sei a que propósito vem isto de eu precisar de miminhos, de afagamento do ego, de numa palavra…que se lembrem que existo!

Termino como comecei: que o raio parta e rache quem me provoca chatices profissionais na minha terra!

Entretanto, são horas de ir dormir pois o dia de amanhã avizinha-se trabalhoso.

Espero acordar de manhã com boas notícias. Espero mesmo e não é brincadeira.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

it happens to everybody Ma'am



" Oh, Norman" said the Queen , " the Prime Minister doesn't seem to have read Thomas Hardy. Perhaps you could find him one of our old paperbacks on his way out"

do livro a todos os títulos recomendável de leitura (muito pequeno e maneirinho) "The Uncommon Reader" por Alan Bennett.

NOTA: já está à venda em português

Excerto na badana:

" Had the dogs not taken exception to the strange van parked in the royal grounds, the Queen might never have learnt of the Westminster travelling library's weekly visits to the palace. But finding herself at its steps, she goes up to apologise for all the yapping and ends up taking out a novel by Ivy Compton-Burnett, last borrowed in 1989. Duff read though it proves to be, upbringing demands she finish it and, so as not to appear rude, she withdraws another. This second, more fortunate choice of book awakens in Her Majesty a passion for reading so great that her public duties begin to suffer. And, so as she devours work by everyone from Hardy to Brookner to Proust to Samuel Beckett, her equerries conspire to bring the Queen's literary odyssey to a close."

Subversive and hugely enjoyable!

sábado, 27 de agosto de 2011

era o menino da sua mãe



Hélio era um rapaz inseguro de 15 anos e tinha uma mãe muito absorvente e possessiva que lhe indicava o caminho a seguir, controlando tudo e todos com quem se dava, uma estrita tabela de valores morais pautados pela religião católica e a conformidade do seu pensamento com uma rigidez de comportamentos indiscutíveis, implicando uma escassa liberdade de acção.

Começara a sentir os primeiros sinais da puberdade há já alguns anos e encontrava-se confuso pelas reacções instintivas que pensava serem aquelas a que lhe apetecia dar resposta e por outro lado, um código apertado de rejeições, a que a mãe chamava de pecado.

Achava uma estopada acompanhar a mãe com frequência nas suas idas à igreja do padre Francisco, que era pouco cuidado e cheirava mal, e com palmadinhas nas costas, o apertava junto à batina e lhe dizia em sussurro:

- Estás a tornar-te um belo rapaz, Hélio! Fazes bem em vires com a tua mãe à igreja, havemos de te ouvir em confissão para saber como cuidas da alma – e sentia um hálito de boca não lavada para cima dele, um misto de cebolada com vinho sacro.

Nas confissões, vinha sempre como primeira pergunta, se andava a portar-se bem, que sim Sr. padre Francisco, e se sentia o seu corpo a dar sinais e a pedir pensamentos impuros, pecados mortais que Deus não queria, que não Sr. padre Francisco e muito no fim vinha a lista dos veniais, dos quais, esses sim, se deveria arrepender, pois roubara fruta na mercearia a caminho da escola ao Bento zarolho, não fizera os deveres pois tinha ficado a olhar para uns livros do Berto, que era um calaça, com desenhos a preto e branco de jogadores de futebol.

A mãe tivera azar, ouvira dizer que o pai fugira de casa com a Alzira da farmácia, mulher de olhos azuis e carnes nutridas, e sempre lhe repetia que o pai tinha pecado gravemente em a deixar e que tinha que o esquecer.

Era seca, vestida de cores escuras, de cara rija e a pele com estrias do ar frio da aldeia, e diziam-lhe que a Srª Engrácia era mulher às direitas, e que ele devia estar muito orgulhoso de ser filho dela.

Hélio gostava muito da mãe, sentia-se dependente dela quando o tratava com miminhos, lhe fazia petiscos, o sentava ao pé dela no banco da cozinha e o apertava nos braços e a ouvia dizer: “ o meu filho é o meu tesouro, e ninguém o levará para o mal, pois tem aqui quem o defenda e proteja, com a vida, se necessário for! “

Era uma sensação confortável e dizia para si mesmo, que nunca a iria decepcionar e sempre faria o que ela lhe dissesse.

O Berto, era filho do feitor da Casa Grande, e o Hélio gostava de ir passear no pátio largo, correr e jogar com uma bola, copiando os desenhos que vira no livro de futebol.

Levava uma sacola de pano limpo com um pão de centeio com marmelada saborosa feita pela mãe, de uns marmelos que tinham no quintal. A casa da Srª Engrácia era modesta e rasteira junto à rua, e tinha um pequeno terreiro atrás aonde cresciam batatas, couves, e umas quantas árvores de fruto.

O Berto gostava de ir lanchar com ele para o pé do poço grande, de onde tirava com a corda e o balde de madeira, a água fresca que vinha do fundo e bebiam os dois até se fartarem.

Ficavam à conversa e um dia o Hélio disse:

- Ouve lá ó Berto, sabes de quem eu gosto mais na vida, mesmo?

- Eu não.

- Pois olha que é da minha mãe e ela de mim.

- Pois eu é da filha do Bento zarolho, que quando lá vou por algum recado da minha mãe, me faz cá uns olhinhos – disse o Berto, com uma entoação sabida.

- E tu o que sentes Berto, por esses olhares dela? – perguntou Hélio, um pouco surpreendido e curioso.

- O que havia de sentir? Sobem-me cá uns calores, e fico a pensar nela o resto do dia.

- Mas isso deve ser o que o padre Francisco chama do corpo a dar sinais e a pedir pensamentos impuros, pecados mortais que Deus não quer – conclui Hélio.

- Tolice, estremeço todo por dentro!

A caminho de casa, Hélio disse para si mesmo que havia de falar com a mãe sobre a conversa com o Berto.

Todos os dias depois do jantar, no verão cá fora na portada da casa e no inverno junto ao fogão, a Srª Engrácia rezava o rosário, com Hélio a responder aos mistérios e a ver quando passavam as inumeráveis contas do terço multiplicado por três.

O seu espírito esvoaçava até à escola, aos amigos e nessa noite ficou a cismar porque seria que o pai fugira com a Alzira da farmácia, bem mais nova do que ele e o largara e à mãe, de quem tanto gostava, sozinhos, no mundo.

No fim, contou à mãe da conversa com o Berto e da dúvida que o assaltava se o pecado de que o Sr. Padre Francisco lhe falava sempre nas confissões eram os calores que o Berto sentia quando olhava para a filha do Bento zarolho.

- Disparate de conversa! – ralhou a mãe. Tens é que sentir como a tua mãezinha gosta de ti, anda cá Hélio, meu filho, agarra-te a mim e deixa-me abraçar-te bem.

E Hélio sentia-se bem, era o menino da sua mãe.

MNA

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Branca de Neve


Era uma vez uma menina chamada Branca de Neve que vivia nos subúrbios de Lisboa.

O pai, Adolfo, desde há muito estava desempregado e dedicava-se a roubar automóveis, nomeadamente à noite e em ruas mais desertas identificava as viaturas alvo dos seus furtos e desmontava tudo quanto fossem rádios, leitores de cds e outros apetrechos de valor. Chegava sempre tarde a casa, pousava o fruto dos seus roubos em cima da mesa da cozinha, comia qualquer coisa e deitava-se.

No dia seguinte acordava pela hora do almoço, ia até à tasca aonde jogava manilha ou à bisca lambida com os compinchas do bairro, chegava até a gabar-se das aventuras da véspera e normalmente voltava a casa à tardinha já bêbado. Dormia uma sesta antes de sair novamente para a noite e uma vez por semana, contactava os diversos receptadores a quem vendia os produtos roubados e recebia o dinheiro.

No meio disto tudo, existia a mãe da Branca de Neve, de nome Serenela, que era prostituta e que tinha um horário semelhante ao do Adolfo, coincidindo na cama com ele às horas da sesta aonde umas vezes levava umas sovas de morte quando ele vinha mais entornado ou praticavam cenas de sexo tórridas, que nas palavras de Serenela, se lhe entregava pois apesar de tudo o Adolfo era o seu homem e com os clientes não tinha prazer.

Cada um contribuía com dinheiro dos seus ganhos para a educação de Branca de Neve, a quem ambos queriam que fosse, um dia, uma princesa.

Desde sempre a puseram em escolas longe do bairro para que a sua morada não pudesse ser identificada, compravam-lhe roupas caras, pagavam-lhe explicações e até lhe deram uma scooter vistosa para que pudesse cirandar pela cidade.

Como o nome indicava, Branca de Neve, tinha umas cores claras, muito bem feita de formas, atractiva, com uns bonitos olhos e nada diria no seu aspecto exterior ser filha dos seus progenitores que eram, de facto, do mais vulgar e rasca que havia.

Começara a dar-se com os rapazes do liceu que a achavam bonita, tinha conversa, aparentava dinheiro e como se vestia e calçava à moda, atraiu as atenções de Pedro, um colega de turma, filho de um engenheiro da Galp, segundo ele lhe dissera.

Um dia vira que o pai de Pedro o trouxera ao liceu num grande BMW e achou-o simpático e com bom aspecto, com um fato impecável e de gravata e pensou consigo mesma – gente da alta!

A relação ia-se estreitando cada vez mais e era já quase em exclusividade que passavam os dois os tempos livres juntos e o namoro assumiu-se perante a escola e os amigos de ambos.

Pedro dissera em casa que tinha uma namorada gira e ao descrevê-la todos acharam que deveria ser divertido conhecê-la, sobretudo porque o nome de Branca de Neve suscitara a maior curiosidade. Foi assim sugerido a Pedro que a convidasse um dia a ir lá a casa almoçar ou jantar.

Branca de Neve estremeceu quando Pedro lhe transmitiu o convite mas não deixou transparecer a sua reacção e disse-lhe com um ar natural que talvez sim, mas que seria melhor deixar passar ainda algum tempo, pois ela era envergonhada e ainda não tinha muito à vontade e o namoro ainda ia no princípio.

Pedro aceitou o argumento e disse-lhe que só o fariam quando a ela lhe apetecesse, mas não resistiu a contar-lhe os comentários e perguntas da família sobre o porquê do seu nome tão invulgar de Branca de Neve, confessando-lhe aliás que desde que a conhecera e das poucas vezes que tinha abordado o tema, ela sempre fugira à questão.

Nessa noite, Branca de Neve, convocou os pais para uma conversa tendo eles adiado o horário das suas saídas habituais e abordou pela primeira vez o namoro com Pedro, o convite para ir a casa da família dele, a curiosidade quanto ao nome, etc..

Serenela, demonstrando algum pânico, disse-lhe que tinha que acabar de imediato com o namoro dando uma desculpa qualquer e mudar de liceu pois tornava-se impossível que alguma vez viessem a descobrir quem os pais eram, o que faziam e aonde moravam.

Com a maior perplexidade, Branca de Neve, pediu explicações e disse que gostava do Pedro e que compreendia que tivesse que ser discreta, mas que não ia desistir da sua vida por causa dos pais.

Adolfo, que estava estranhamente calado, disse-lhe que tinham que conversar com tempo e com calma os dois e que a mãe fosse para o quarto ou que fosse à vida dela.

Contou-lhe que o nome lhe fora dado por uma visitadora da maternidade que ao vê-la recém-nascida a achara tão pura e tão clara que se oferecera como madrinha e propusera que se chamasse Branca de Neve.

Na altura deixara algum dinheiro que os ajudou nos primeiros tempos mas que desaparecera, tendo eles vindo a saber pelo hospital, que morrera num desastre de automóvel.

Quanto ao Pedro aconselhou-a a que antes de se envolver com ele e a sua família, procurasse no bairro outros rapazes que eram mais da sua criação, pois pelo que ela lhe contara, a diferença social era inconciliável e ela seria sempre infeliz.

Dias mais tarde, num apartamento de um amigo do Pedro que lhes emprestara para uma primeira experiência sexual completa entre ambos, Branca de Neve sentiu como ele se lhe entregara sem limites e sem perguntas, não lhe passando pela cabeça que ela não tivesse tomado todas a precauções.

Branca de Neve sentia-se feliz com Pedro e não tornara a abordar o tema com os pais e até lhes fora dizendo que a relação esfriara e que não havia necessidade de mudar de escola. Quanto a namorados, a seu tempo, veria ali no bairro com quem começaria a sair.

Umas semanas depois do encontro estavam uma tarde no parque, na relva, de mãos dadas, gozando a luz soberba e soalheira da Primavera e de repente Branca de Neve teve um desmaio momentâneo, quando Pedro aproximava a boca para lhe dar um beijo.

Ao recobrar os sentidos, abre os olhos e diz docemente:

- O meu príncipe acordou-me dando um beijo à Branca de Neve!

Sete meses depois, nascia o Ruben na mesma maternidade em que Branca de Neve tinha nascido, nos subúrbios da cidade de Lisboa.

No registo de nascimento (que agora já se pode fazer nos hospitais civis), constava que era filho de Branca de Neve e de pai incógnito.

MNA

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

insónia




Dizem-me que alguém morreu depois de intenso e prolongado sofrimento, que outro está a dieta líquida durante semanas e poderia estar aqui a desafiar inúmeras situações de perca da independência, da liberdade e da autonomia de se ser gente!

Isto causa-me insónias!

A morte não tem, cada vez mais, idades!

Dá para pensar, para já não falar no desconhecido do depois, como poderá ser difícil, angustiante e de sofrimento a pré-morte!

Isto causa-me insónias!

Vou tomar uma pastilha para dormir!

Deve ser bom, quando chegar a hora, não voltar a acordar depois de uma insónia pastilhada!

Tens razão, pintainho! Grita por socorro e não abras os olhos !

Um cão perfeito


UMA PERFEIÇÃO DE CÃO

Conheci um cão
Que falava
Que escutava
Que cantava
Que brincava
Que ladrava
Que fazia o pino
E que era um grande dançarino.

Que jogava à bola
Que perdia
Que ganhava.
Que estudava
E que andava
Comigo na escola.

E que tal?
Era ou não
Uma perfeição de cão?

Não acreditam?
Fazem mal.
Era um cão
De imaginação...

Maria Cândida Mendonça, O Livro do Faz-de-Conta

Femme noir


Femme nue, femme noire
Vêtue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté !
J'ai grandi à ton ombre ; la douceur de tes mains bandait
mes yeux.
Et voilà qu'au coeur de l'Eté et de Midi, je te découvre,
Terre promise, du haut d'un haut col calciné
Et ta beauté me foudroie en plein coeur, comme l'éclair
d'un aigle.

Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir,
bouche qui fais lyrique ma bouche
Savane aux horizons purs, savane qui frémis aux caresses
ferventes du Vent d'Est
Tamtam sculpté, tamtam tendu qui grondes sous les doigts
du vainqueur
Ta voix grave de contralto est le chant spirituel de l'Aimée.

Femme nue, femme obscure
Huile que ne ride nul souffle, huile calme aux flancs de
l'athlète, aux flancs des princes du Mali
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur
la nuit de ta peau
Délices des jeux de l'esprit, les reflets de l'or rouge sur ta
peau qui se moire
A l'ombre de ta chevelure, s'éclaire mon angoisse aux
soleils prochains de tes yeux.

Femme nue, femme noire
Je chante ta beauté qui passe, forme que je fixe dans l'Eternel
Avant que le Destin jaloux ne te réduise en cendres pour
nourrir les racines de la vie


Léopold Sédar SENGHOR, Chants d'ombre

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O homem do tempo


O homem do tempo ou o tempo do homem.

Duas coisas bem distintas

Uma inevitável, o tempo que temos

Outra como um aguadeiro de antigamente ou um pregoeiro de figos de capa rôta das ruas de Lisboa: “Quem quer figos quem quer almoçar?”

Há quem queira comprar tempo, dias, às vezes horas que se podem tornar em anos: por exemplo, se tiver umas horas a mais talvez me salve do enfarte e chegue a tempo ao hospital.

Há quem queira comprar tempo ainda mais refinado: anos de beleza, anos de saúde e a maioria, anos de felicidade. “Quem quer anos quem quer ser feliz? “ não me consta que houvesse em Lisboa de outros tempos pregoeiros de sonhos. Seria um sucesso, estariam ricos em pouco tempo.

O homem do tempo ou o tempo do homem.

Eu prefiro o tempo do homem, posso-o administrar, tanto quanto possível dentro de uma certa segurança, uma espécie de período de garantia.

Porém, quando for o homem do tempo que se aproxima,
já será o prenúncio do fim do meu tempo de homem.


MNA

domingo, 21 de agosto de 2011

Diário de um desmemoriado (9)



Domingo, 21 de Agosto

Hoje, desmemoriado que sou, esqueci-me do passado presente e reflecti sobre a felicidade.

Apreciar a alegria e a dor constitui a base da felicidade.

A felicidade é uma forma de viver, é uma conduta, uma maneira de estar agradecido ao sol, à lua, a quem nos estende a mão e também a quem nos abandona, pois certamente nesse abandono está a possibilidade de descobrirmos a força que existe dentro de nós.

A diferença entre o sábio e o ignorante é que o primeiro sabe aproveitar as suas dificuldades para evoluir, enquanto o segundo sente-se vítima dos seus problemas.

Se passarmos a vida a evitar o sofrimento, acabaremos por evitar o prazer que a vida oferece. Há milhares de tesouros guardados em sítios aonde precisamos de ir para os descobrir. Há tesouros guardados numa praia deserta, numa noite com estrelas, numa viagem inesperada... O importante é irmos ao seu encontro, ainda que isso exija uma boa dose de coragem e desprendimento.

As mudanças nunca ocorrem amanhã, mas sempre hoje, no presente.

Todos carregamos dentro de nós uma boa dose de loucura, que passamos a vida inteira a procurar esconder. Porém, um dia explodirá como um vulcão.

Viver sempre certinho, é como sentar-nos sobre um vulcão, que permanece inactivo por muito tempo, mas que, de repente, pode entrar em erupção. Negar as próprias aspirações é um desperdício de energia que faz falta para as nossas realizações.

Que não seja só mascarados no Carnaval ou num estádio de futebol que nos “soltamos”.

Devemos permitir-nos fazer loucuras todos os dias, até que façam parte do nosso dia-a-dia.

A infelicidade é uma forma de olharmos o mundo pelo lado contrário. Em vez de aproveitarmos o momento actual, lamentamo-nos do que poderia ter acontecido.

Infelicidade também é viver para impressionar os outros. Nascemos com um potencial infinito de realização. À medida que vamos sendo educados, durante a infância e a adolescência, perdemos a “rota original” da nossa própria existência. Deixamos de fazer aquilo que nos realiza e passamos a agir em função dos outros: pais, professores, e depois, toda a sociedade.

Nós somos mais importantes do que qualquer julgamento de terceiros.

No fundo, para se ser feliz, devemos viver para nos surpreender a nós próprios, e não aos outros. A maioria das pessoas passa pelas oportunidades sem lhes dar atenção.

Precisamos compreender que as oportunidades são poucas e que não podemos desperdiçá-las, por isso, não podemos perder muito tempo com as nossas escolhas.

Muitas vezes, a questão resume-se em pegar ou largar, e para isso devemos estar preparados.

A velocidade para descobrir a importância das coisas pelas quais devemos lutar é fundamental. Há quem sacrifique a vida para conseguir “status” e poder. No desejo de conquistar títulos e riquezas, sufocam-se os sonhos do coração. É uma grande ilusão.

Outros habituam-se a coleccionar virtudes para conquistar as simpatias alheias. Em vez de serem eles próprios, passam a ser como Jesus Cristo, Moisés ou Buda, sem perceberem que nenhum recomendou que fossemos iguais a eles, mas que simplesmente fossemos inteiramente nós próprios.

A felicidade é feita de pequenas “pérolas” que cultivamos a cada dia, a cada hora.

Devemos aprender a estar com nós próprios. Isso significa tratarmos das nossas emoções, dos nossos sonhos. Estarmos sempre atentos ao que se passa dentro de nós. Criarmos o hábito de nos observar. Não sermos como os cães que correm atrás da bola que o dono atira.

Aprendermos a ser afáveis, generosos, tratar das feridas, dos sonhos, sermos compreensivos com os erros, com as fraquezas, com os tropeções.

O medo pode tornar-se no nosso companheiro diário até aprendermos a olhá-lo com objectividade e descobrir que não passa da criação das nossas fantasias. É o que os orientais chamam de “tigre de papel”: quando se olha na escuridão parece um monstro, mas, à luz do dia, percebe-se que é feito de papel, sem nenhum poder de destruição.

É importante tirarmos o medo das nossas vidas. Muitos adultos infelizes foram crianças castigadas sem explicações, o que as tornou extremamente confusas.

Devemos assumir que o sucesso sem luta é impossível. O sucesso é a consequência de esforço, dedicação, planeamento. As magias são simplesmente ilusões.

Não existe magia na caminhada para o sucesso.

Também é importante temos um carinho especial pela criança que existe dentro de cada um de nós.

Costumamos esquecer-nos dessa criança durante os anos em que vivemos a lutar para conquistar os nossos objectivos. Mas, para estarmos em paz, é importante fazer as “pazes” com essa criança e cultivá-la todos os dias, para que ela se sinta amada, protegida e bem tratada.

O futuro é uma ilusão que será sempre diferente do que imaginamos.

O melhor momento para ser feliz é agora!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Diário de um desmemoriado (8)



5ºf, 18 de Agosto

“Cuando nadie me ve” de Alejandre Sanz é a música que escolhi à sorte do meu ipod.

"Quando ninguém me vê", neste sentido de perscrutar,não adivinhar o que me vai na alma. E mesmo que quisessem, “as veces es vento”!

Estou nessa, não me apetece pensar na crise, nas chatices, nem tampouco nas hipotéticas alegrias ou belos futuros.

Devia haver umas baixas médicas para se ficar em casa sem nada fazer. Não mexer-nos. Não falarmos. Não pensarmos.

A maçada do barulho de vizinhos, das contas que vêm no correio para pagar, das notícias de que alguém morreu, ou adoeceu gravemente ou ficou desempregado ou teve filhos, netos…eu sei cá!

Esta vida será assim tão boa como alguns a têm apregoado? Em prosa ou em poesia são todos uns grandes aldrabões!

Mesmo com muito dinheiro, são os problemas das bolsas que sobem e descem, o arrais do yacht que rouba, bebe, fornica na ausência do patrão na cabine principal, a mulher fútil que só pensa em vestidos, festas, em gastar dinheiro.

Já pensaram que ter dinheiro, muito dinheiro pode ser uma grande maçada, bocejo! O poder de ter tudo ao alcance do olhar, da mão que assina, da voz que ordena que pague, de no fundo ter tudo e não ter nada!

“As veces es vento” o que temos na cabeça! O que é bom pois refresca, passa, vai e vem, traz odores de pradaria, de mar, de flores, de céu azul e de tempestade, de chuva…..eventualmente NÃO traz notícias dos Homens, o que por vezes é descansativo.

Como será o caminho para o infinito…? o vento deve ajudar a chegar depressa!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta do meu primo Luis Bernardo....finalmente chegou!


Resumo: Imaginem vocês que recebi uma carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. No meu blogue está tudo explicado e as cartas trocadas foram abundantes, até há uns meses largos, tendo parado entretanto.

Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Deixei passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!

Hoje tive nova missiva:

Meu Caro Manuel,

Interrompi esta nossa correspondência pois tenho andado, como te tinha anunciado, a visitar familiares e amigos.

Voltei ontem a estar com os teus Pais com quem tive uma conversa prolongada. O teu Pai continua a tratar do jardim em frente da casa, que está um primor: um relvado a perder de vista, rodeado de canteiros com as mais bonitas flores que possas imaginar. Um colorido que contrasta com o verde do gazon.

O terraço à frente, grande e espaçoso com guarda-sóis protegendo do sol, com mesas e cadeiras de jardim muito confortáveis, convidam à conversa.

Disse-me a tua Mãe, ao servir-me um refresco apetecível resultando, seguramente, da mistura entre groselhas e amoras, que lhe tinhas sempre perguntado que bebida seria a que no filme da “Música no Coração” estava num jarro de cristal em cima de uma mesa quando o Barão von Trapp conversou com a preceptora dos filhos!

Lembras-te?

Achei-os muito tranquilos e gozando da paz que aqui se vive. Estão sempre muito ocupados: ou visitam os teus Avós de ambos os lados e parentela ou, imagina tu, frequentam um curso de línguas que teriam sido as praticadas na Torre de Babel, pois querem ter acesso ao espólio colossal da biblioteca de Alexandria que foi a depositária de livros em miríades de idiomas antigos.

Falámos de ti e eu disse-lhe que te iria escrever a dar-te notícias.

A conversa versou sobre as várias peripécias que eles passaram como Pais e de que tu, a maior parte das vezes nem tomaste conhecimento, foste também protagonista pois os filhos são sempre os principais agentes, como em todas as famílias.

Amor – bem às vezes os filhos estão cheios de si e da sua nova importância e esquecem-se de pequenos detalhes de respeito, de consideração, de cumplicidade.

Têm menos sensibilidade e até gratidão, essa palavra que só quando sentimos a picada, nos lembramos de como é importante e que eventualmente também a não praticámos tanto quanto seria justo e desejável.

Mas dizia a tua Mãe: o grande remédio é escancarar as portas do coração e não fazer contabilidade!

Saber ser-se grande e não se queixar.

Não julgar – os teus Pais com tantas noras e genros, pensaram quando o ciclo de novas aquisições começou, que era preciso fazer uma de duas coisas: ou passar o tempo a embirrar, discordar e impor, com sucesso ou não, pouco importa…ou aceitar e não julgar demasiado, pela exclusiva razão de darem um forte contributo para a felicidade dos descendentes e seus cônjuges…sim, porque isto de se ser honesto até ao fim no gostar, não é para puxar só as brasas à sua sardinha.

É, como em tudo na vida, ser-se íntegro e integral, completo.

Netos – que grande fonte de alegria foram os 28 netos e uns quantos bisnetos enquanto foram vivos.

Dizem-me eles que também aqui é preciso, como no Direito, ser-se supletivo.

Estar ….este é diferente do .

É importante poder contar-se com, mas para os filhos e in laws, os Avós devem ser para além de SOS, uma fonte de estabilidade para todos.

Job – não sei porque se lembraram do Job, mas creio que até aqui já lhes chegaram os ecos da troika, imagina tu!

Tempos difíceis, sem dúvida! Cara alegre e aproveitar a crise para crescer em disciplina corporal, controle emocional e investir no amor pela família e ao calcorrear-se os passeios da “Avenida da Liberdade”, seja ela em que sítio do mundo for, respirar fundo até ao âmago.

Mentira esta do Job que os teus Pais e eu confirmámos aqui, quando chegámos , mas dá um jeitão para aí:

“Tu o deste, tu me tiraste! Bendito sejas! “.

Difícil hein? E injusto, tantas vezes!

E, por hoje já vai longa a missiva, mas vi na despedida, nos olhos dos teus Pais aquela ternura e amor que sempre sentiste neles por ti e que eles tão generosamente e sem limites te e vos deram.

Um abraço do teu primo muito dedicado.

Luis Bernardo

domingo, 14 de agosto de 2011

to be or not to be


Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta
Se é mentira, escreve leve
Se é verdade, não tem tinta.

(atribuída a FP)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (7)



6ªf, dia 29 de Julho

Hoje o tema é o de “Ousar lutar, Ousar vencer” como dizia o MRPP na minha faculdade, a Clássica de Direito de Lisboa, no tempo do Sr. Presidente da Comissão Europeia, que andava de sapatilhas à associativo e com mau aspecto….pode-se sempre mudar, bem sei!

Porque me lembrei deste mote hoje?

Levantei-me por volta das 7h da manhã, fiz as minhas abluções matinais completas e dirigi-me para o meu escritório privado, aonde, por carta da EPAL, me tinha sido solicitado que estivesse das 8h às 10h, para a substituição do contador da água.

Assim fiz, e honradamente estava sentado na minha mesa de trabalho às 8h, tendo telefonado expressamente na véspera pedindo que fossem pontuais e que o meu serviço fosse o primeiro.

Fiquei logo com a impressão de que se estavam nas tintas e que nem sequer tinham tomado nota desta minha particular solicitação. O costume!

O tempo começou a passar e pelas 9h 55m, contendo uma fúria que me acomete quando sou ignorado como um verme enquanto pagador atempado das contas da água, telefonei para o atendimento aos Clientes. Foi-me dito que não tinham acesso aos empregados que andavam de giro e que portanto eu esperasse…sic!

Eram umas 10h 15m, tocam à porta e era o funcionário da EPAL!

Perguntei-lhe se tinha dormido bem e se acabara de se levantar da cama para vir para o meu escritório! Cínico e escorpião de truz que eu sou!

Perante o seu ar estupefacto, pedi-lhe a identificação de que tomei nota e comuniquei-lhe que iria participar dele….poupo aos meus leitores os argumentos que dei, que estão acima amplamente referidos.

Confessou-me que de facto tinha vindo directo de casa e que pedia desculpa…que é o que eu mais detesto que me façam! Não preciso que mas peçam, mas que FAÇAM parbleu! o que têm que fazer.

De monco caído lá foi para a cozinha, aliás moderna e com tudo nos seus lugares, e dirigiu-se ao contador. A operação era rápida e fácil: fechar a água com cuidado e deixar que a que estava depositada não causasse uma inundação, retirar o contador que lá estava e substituí-lo pelo novo que trazia.

Tudo feito atabalhoadamente, e quando os canos ficaram sem o contador, vazaram uma basta quantidade de água para cima do aparador da cozinha, que estava com máquinas, etc…

Juro que vou trabalhar para este tipo de serviços…tenho um jeito natural para lavar escadas e lá fui buscar a esfregona e pus-me, qual fadinha do lar, a limpar tudo.

Não vos conto a fúria com que bombardeava o pobre do “pássaro desvalido” que já não sabia aonde meter-se!

Acabou a tarefa e quando me entregou um papel para eu assinar (por deformação profissional estou habituado a ler tudo antes de apor a minha assinatura), constato com a maior surpresa que o contador já começava no leitor de consumo, com 106m3 !!!!

Não me soube responder porquê, claro, e partiu!

Creio que o Henriques não lerá este meu diário de hoje, mas se o fizesse, ficaria contente em saber que não participei dele! Acho que aprendeu a lição com o medo das represálias, e para mim isso basta!

Telefonei para o atendimento a Clientes e perguntei da justificação daquele tão insólito e inverdadeiro consumo e a explicação foi a de que os contadores são reciclados e vêm de outros Clientes, já com o consumo anterior!

Eu acho que o meu antecessor não devia tomar banho com regularidade…pois 106m3 indiciam pouco consumo de água! Mas sabe-se lá desde quando?

Este país é que está reciclado e mesmo assim sem emenda!

Por isso, eu digo…OUSAR LUTAR pelo menos, se vencemos ou não depende de muitos factores, mas sobretudo não desistirmos em pugnar pelos nossos direitos!

(continua)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (6)



5ªf, dia 28 de Julho

Hoje vou começar por vos fazer uma revelação muito importante: pertenço ao melhor signo de todos.

Estou naturalmente a falar-vos do Escorpião.

Já estou a sentir nas orelhas o calor da maledicência, da desilusão, da fúria! Logo vi que tinhas que ser, dirão uns! Outros preparar-se-ão para refazer a estratégia de combate, just in case!

Pois eu acho isto dos signos muito divertido!

Quanto ao acreditar que me vai sair o Euromilhões se consultar os astros, é que nem estou aí!

Agora que o carácter, a personalidade e o comportamento são influenciados por toda uma série de combinações astrológicas, não tenho a menor dúvida!

Aconteceu-me na prática uma experiência muito divertida que vos vou narrar.

Lá para os meus 18 anos, tendo ido a Luanda namorar a minha mulher (o meu sogro era na altura presidente local de uma petrolífera multinacional), foi a primeira vez que estive em África.

O meu Avô materno incumbiu-me de uma gratíssima missão que foi a de trazer uns chorudíssimos dividendos da Mabor Angolana (a Mabor Portugal foi fundada entre outras numerosas empresas de saudosa memória, pela minha Família) e já que eu precisava de “sobreviver” em Angola durante um mês, poderia gastar desse dinheiro!

Foi a minha “sorte grande” pois cativei a minha namorada com um carro “racing” que aluguei, almoços e jantares de grande qualidade no Clube Naval que era o melhor na altura, presentes, enfim uma miríade de “novo-riquismos”, que me souberam lindamente para armar aos cucos!

Estou tranquilo quanto aos “novo-riquismos” pois o dinheiro não era meu mas simplesmente autorizado a gastar e não era só dessa altura que tínhamos dinheiro e nunca precisámos de impressionar!

Houve uma festa de Natal da referida petrolífera e eu, qual bom namorado, acompanhei a família e estive também presente.

Achei a maior das maçadas como se deve calcular, mas a pretexto de dar notícias aos meus Pais, escrevi-lhes uma carta anódina e relatando sem qualquer brilho a referida festa.

Bem, porquê isto tudo que vos estou a contar?

“Revenons sur nos moutons” ou seja para quem não é versado em francês, voltemos ao tema inicial!

Quando voltei a Lisboa, por sugestão “estratégica” da “belle-famille”, conheci a Tia Pilé Pombal que era uma grafologista de renome, licenciada numa grande escola em Paris, um encanto de pessoa e uma mulher “avant la lettre”, pois já quase com 80 anos tinha sido uma pioneira em Portugal!

Tivémos umas quantas sessões de 1 hora, de grandes e fascinantes trocas de impressões sobre a minha vida, a da minha Família, os meus planos de futuro, pessoais, os grandes temas…enfim, uma conversa de vida…pouca até àquela data, pois tinha singelos 18 aninhos!

Aqui aparece a dita carta aos meus Pais, narrando a festa de Natal em Luanda, pois a Tia Pilé precisava de um escrito meu à mão, para fazer um relatório grafológico!

Passadas umas 3 semanas produziu um documento de 3 páginas que ainda hoje religiosamente guardo, em que me descrevia ao milímetro e até revelando algumas minhas facetas do “inner me” que eu nunca tinha conseguido definir e salientar.

Serviu-me durante anos para empregos…imaginem, conquistados por este vil Escorpião e pela bondade dos “olhos” da alma da querida Tia Pilé!

(continua)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (5)



4ªf, dia 27 de Julho

Estou sem sono e são umas duas horas da manhã.

No meu ipod oiço Phil Collins…”That’s just the way it is” e penso que tenho que dar muitas graças a Deus pelo que tenho, pelo que consegui na vida até agora e pela Família aonde nasci, da que formei e da que vejo crescer.

…”That’s just the way it is”!

Tudo quanto me deu prazer fazer fui conseguindo, embora muitas vezes com esforço, persistência e sem desistir! E esta expressão “dar prazer fazer” encerra a mera circunstância do prazer puro e simples, carnal, físico, ao encontro dos sentidos como de oportunidades de novas carreiras, projectos, sonhos!

O prazer da leitura, para mim é dos mais importantes.

Infelizmente, na história da Humanidade, houve livros que já foram queimados e homens perseguidos.

O mundo passou por transformações. Houve Homens que fizeram história, como o rei Salomão, respeitado pela sua grande sabedoria e pensadores como Platão, Sócrates e muitos outros que permanecem vivos até aos dias de hoje.

Génios como Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo que abrilhantaram o Renascentismo com as suas presenças, e Einstein, o cientista mais importante do século passado, descobriram a Teoria da Relatividade. O muro de Berlim caiu, a China transformou-se no gigante Asiático que é hoje em dia e o sonho de Martin Luther King realizou-se através de Barack Obama, o primeiro Presidente negro da história dos Estados Unidos.

Todos estes acontecimentos marcaram a história e mantêm-se vivos através dos livros que, geração após geração, exercem o papel de mensageiros e multiplicadores do conhecimento. Acontecimentos que, se dependessem apenas da memória humana, certamente teriam caído no esquecimento e ficado algures perdidos na linha do tempo.

Hoje os tempos são outros e o mundo vive outro tipo de conflitos e revoluções. Com o aparecimento da tecnologia o homem moderno questiona-se se é possível sobreviver sem ela.

E, este mesmo homem, totalmente informatizado, também se pergunta quanto tempo mais os livros, aqueles que um dia foram queimados e que registaram os mais importantes avanços da Humanidade, resistirão às tentações da modernidade.

Nada supera a sensação de folhear as páginas de um livro. Os livros impressos não precisam de energia ou sinal, são companheiros e, não importa aonde estejam no mundo, eles estarão sempre perto de nós.

Steven Spielberg defende que a leitura de um grande livro é muito mais rica que assistir a um grande filme. Bill Gates, o criador da Microsoft, encerra o assunto afirmando que os seus filhos terão computadores mas, antes, terão livros.

Terão também a liberdade, já que o livro nos conduz à mais fantástica viagem permitida ao homem - a viagem ao mundo do conhecimento.

Serão livres também todos aqueles que entenderem que o livro nos liberta da ignorância e nos leva a lugares e experiências inimagináveis.

Livre o homem que conhece a sua história.

E o livro estará sempre por cá para contá-la.

(continua)

terça-feira, 26 de julho de 2011

O SABIÁ vaidoso


A notícia espalhara-se rapidamente por toda a "Floresta Encantada".

Já todos sabiam da mágica especial que tinha a “Árvore do Tronco Encarnado”.

Todos os dias aumentava o número de visitantes que queriam ouvir o maravilhoso e afinado canto que dali vinha.

A bicharada só falava nisto.

Que linda música!

Que bela melodia!

Os bichos ficavam todos encantados.

Mas, sobre o autor daquele trinado, ninguém gostava de falar...

Era um Sabiá de porte elegante, inteligente, mas muito vaidoso e orgulhoso. Mal falava com os animais, e achava que ninguém era digno do seu convívio!

Passava os dias escondido por entre as folhagens da sua árvore e como sabia que o seu canto era o mais belo da floresta, cantava e cantava só para se sentir admirado e elogiado por todos, pois tinha a certeza de que ninguém nas redondezas cantava tão bem ou melhor do que ele.

Todos os anos havia na floresta um grande concurso de música chamado “O Som da Natureza”.

O vencedor ganhava três prémios: um diploma assinado pelo Dr. Coruja, uma viola feita pelo habilidoso esquilo Din, e é claro, o respeito e a admiração de toda a floresta.

No ano anterior o Sabiá tinha sido o vencedor. Tornara-se ainda mais orgulhoso e vaidoso.

Aproximava-se o dia do concurso do novo ano, e o seu convencimento era tanto que nem ensaiava as músicas oficiais exigidas pelo regulamento: cantava só o que queria, principalmente quando se apercebia que tinha uma grande audiência, ansiosa pelo seu canto.

Por fim, chegou o grande dia! O dia do concurso “O Som da Natureza”.

Toda a floresta rejubilava.

Os bichos chegavam elegantes nos seus trajes de festa, e aguardavam pelo grande momento.

Os juízes já a postos, estavam com os ouvidos preparados para a avaliação e atribuição da respectiva nota.

Os dois concorrentes tomaram os seus lugares nos galhos: o Sabiá e um jovem Rouxinol.

O Rouxinol adorava cantar, era a sua maior alegria!

Todos os dias se dedicava a muitas horas de estudo da música. Ouvia atentamente os conselhos dos mais velhos, pois o que não lhe faltava era empenhamento, treino e, principalmente, humildade para aprender sempre cada vez mais.

O macaco Guru começou as apresentações.

O primeiro a ser apresentado foi o vencedor do ano anterior, o Sr. Sabiá. O seu belo canto soou muito bem aos ouvidos da bicharada, como era esperado.

Todos antecipavam a sua nova vitória.

De seguida o jovem Rouxinol ocupou o seu lugar e iniciou o seu canto.

Nesse momento algo de inesperado aconteceu, e toda a floresta parou!

Não era só a perfeição e os cuidados nos detalhes com as notas que o jovem Rouxinol demonstrava, mas o sentimento que punha na melodia, o amor que demonstrava a cada gesto.

Os aplausos não pararam mesmo depois de terminada a sua apresentação.

Os juízes não tiveram dúvidas – o jovem Rouxinol obtivera o melhor resultado, era o grande vencedor do concurso anual.

Começaram as comemorações e o jovem Rouxinol contagiava a todos com a sua alegria e simpatia.

Mas alguém não acreditava ainda no que se tinha passado.

Como poderia existir alguém melhor do que ele? – perguntava-se o Sabiá.

E o que teria de tão especial o Rouxinol, que contagiava e enlevava toda a floresta?

Era para ele uma desonra! Foi-se embora de mansinho, sem que ninguém se apercebesse.

Nenhum bicho deu pela sua falta, pois o Sabiá, orgulhoso como era, não se preocupara em fazer amigos!

Passaram-se vários dias e o jovem Rouxinol foi o primeiro a preocupar-se com o Sabiá vaidoso. Desde o dia do concurso que não saía da sua árvore e muito menos se ouvia o seu canto.

O jovem Rouxinol marcou então uma reunião com a bicharada:

- Gostaria de vos falar sobre o Sabiá – iniciou assim a reunião, o Rouxinol.

- Aquele pássaro arrogante que não é amigo de ninguém! - exclamou a D. Arara.

- Esse mesmo! Orgulhoso como é, nem nos faz falta a sua companhia, tanto mais que agora, temos o teu belo canto para nos alegrar! – exclamou, bajulador, o macaco Guru.

- Oiçam lá: - Se ele não tem amigos é porque não descobriu ainda o que é a amizade, e como é bom ter amigos. Se ele é orgulhoso é porque não sabe o que se ganha sendo mais humilde, transformando a nossa vida em maior simplicidade e muito mais feliz – disse o jovem Rouxinol cheio de amor e compaixão.

Gerou-se uma grande confusão na reunião. Todos queriam falar ao mesmo tempo, cada um com uma opinião diferente. Mas o certo é que não tinham vontade nenhuma de ajudar o Sabiá.

Até que o Dr. Coruja falou aos berros, quase a gritar, para se fazer ouvir:

- Se fosse com um de vocês em vez do Sabiá, não gostariam de ser ajudados?

A bicharada foi-se calando pensativa.

E continuou a falar o sábio Dr. Coruja:

- O nosso amigo Rouxinol tem razão: devemos fazer o bem sem olhar a quem.

Aquelas palavras penetraram nos corações dos bichos da floresta tornando-os mais dóceis.

Decidiram que o melhor era alguém ir fazer uma visita ao Sabiá. É claro que o escolhido foi o Rouxinol, que se prontificou a fazê-lo com alegria.

Foram todos até à “Árvore do Tronco Encarnado” e ficaram à espera do Rouxinol.

Passaram-se duas horas, e nada do Rouxinol.

De repente, com grande surpresa e quando menos esperavam o jovem Rouxinol saiu abraçado ao Sabiá, que estava abatido e magro, mas apesar do olhar cabisbaixo, percebia-se um brilho diferente nos seus olhos.

O Rouxinol disse a todos:

- O nosso amigo Sabiá estava um pouco doente, por isso podem ir agora para as vossas tocas e ninhos, pois ele irá fazer-lhes uma visita depois.

A bicharada já começava a dispersar, quando o Sabiá, esforçando a voz, disse-lhes:

- Esperem! Em primeiro lugar quero pedir desculpa a todos. Eu pensava que o meu canto era a coisa mais importante do mundo, e só o usava em meu próprio benefício. Agora sei que devo usar a minha voz para o bem e alegria de todos. E além do mais não valorizava os amigos que tinha.

Em segundo lugar quero agradecer a todos e em especial ao Rouxinol, que me ensinou tanto, não só com as palavras mas principalmente com o seu exemplo de humildade.

A emoção apoderou-se da bicharada.

Aquele dia tornou-se inesquecível para os animais da "Floresta Encantada" e sempre que se reuniam em torno da “Árvore do Tronco Encarnado” para ouvir a dupla inseparável, o Sabiá e o Rouxinol, era com grande emoção que os escutavam, agora com um canto ainda mais harmonioso.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O que é um escritor?


Porque escrevem os escritores?

Porque não está (subentende-se que não está escrito em nenhum sítio).

Alguém me dizia que para definir o que é um escritor é tão simples como perguntar o que faz com que um electricista o seja? Nesta linha de pensamento, um electricista é quem instala cabos e outro material eléctrico.

Um escritor é alguém que escreve.

Se esta definição é verdadeira, então não se é um escritor se…

1) se tem um curso de jornalista, mas não se usa essa ferramenta;

2) só se escreve se houver uma razão para o fazer, ou seja se é pedido por um director de um jornal para escrever um artigo;

3) se sonha em escrever um dia, mas não a partir de hoje.

Não estou seguro de que seja uma definição absolutamente perfeita de um escritor, mas a afirmação de que os escritores escrevem é falsa em relação a pessoas que têm os dotes para o fazer mas raramente o fazem.

Em todo o lado há pessoas que se sentam a escrever histórias, constroem frases, usam uns quantos particípios passados ou futuros e alguns até acabam o que vêm escrevendo durante meses.

Estas pessoas tenazes e persistentes sentam-se cada dia a escrever. Podem nunca ter publicado nada ainda, mas já se revestiram da dignidade/qualidade de “escritores” só e porque experimentaram a arte da escrita.

"Get it down. Take chances. It may be bad, but it's the only way you can do anything really good." - aconselhava o grande escritor William Faulkner.

Eu acho que é possível fazer-se uma carreira de escritor, mas primeiro temos que nos interrogar se, de facto, somos escritores.

Eu não quero rebuscar o tema, mas se se tem o talento para escrever e se se recusa fazê-lo, seguramente que não se é um escritor.

Se se tira um curso de engenharia com a especialidade de electricidade e se se recusa trabalhar no sector eléctrico, há como que uma negação da vocação.

Estou bem ciente de que a noção de definir um escritor é ampla e muitas vezes, vaga. É também uma discussão que pode ser levada ao infinito, mas o objectivo deste meu posting é o de encorajar todos aqueles que se dedicam, como eu, e a cada dia, ao ofício de escrever.

Cada dia aprendemos mais sobre nós próprios e como observamos e definimos o mundo à nossa volta. Com cada “escrevinhadela” da caneta ou do computador criam-se novas palavras ou explicam-se velhas e respondemos a dúvidas ou suscitamos outras para serem estudadas e analisadas.

Se simplesmente se escreve hoje, como se fez ontem, na semana passada ou no ano anterior – então é-se, de facto, um escritor.

Diário de um desmemoriado (4)



2ªf, dia 25 de Julho

Parece que o Verão começou em força. Parou o vento e vai-se pôr um dia de calor.

O céu está azul e tudo se propicia para que me sinta bem, mas não sinto.

Tenho saudades daqueles tempos despreocupados de menino e moço em que a rotina da praia de manhã com os meus amigos e amigas, depois de umas horas de ténis bem puxadas, seguidas de um excelente almoço em casa e respectiva sesta, para de novo pelas 5 da tarde voltarmos ao Clube para novas partidas até à noitinha, tornavam os 3 meses de férias um tempo de descanso activo em que retemperava as forças para mais um ano de estudo.

Conversávamos, dançávamos, namorávamos e saíamos à noite para casa uns dos outros e umas vezes ao “Van Gogo”, já mais crescidos.

Talvez porque alguém por detrás tornava a vida das famílias dos portugueses das classes altas, cómoda, segura, de grande qualidade e com prosperidade.

Mas era assim e foi bem bom!

Claro que comecei a crescer, a saber na Faculdade que se chumbasse acabava com os ossos na guerra aonde poderia morrer com uma bala perdida como já tinha acontecido a tantos, depois comecei a viajar e a abrir os olhos e os Verões a serem menos pacíficos pois as responsabilidades de adulto já começavam a pesar e eu sabia que este tempo estava a passar.

E agora, com tanta coisa que entretanto já passou, revolução, liberdades adquiridas que não têm preço, maior justiça e equidade conseguidas, pergunto-me se estou melhor?

A resposta é NÃO!

Deixa pra lá a democracia e tudo o resto que nem discuto, mas ao nível do bem-estar e tranquilidade quanto ao futuro, o dos meus filhos, o dos portugueses, o dos europeus, em suma o de toda a gente….NÃO, estamos TODOS de facto bem piores!

Quando me dizem para tentar “voar alto”, espiritualizar-me e pensar nos valores perenes da fé seja ela qual for, mesmo assim não melhoro mesmo!

Há alguma voz que me diz lá do alto, do meio ou do baixo que tenha paciência que irei para uma vida melhor? NÃO!

Os profundos pensamentos de Buda, Confúcio, Maomé e quejandos trazem mudança à minha alma ou o que se lhe queira chamar? NÃO!

Mudança mesmo, quero eu dizer, tranquilidade verdadeira a que corresponda uma situação de paz interior….talvez momentânea, enquanto as leio e medito, depois passa e a angústia volta, serena, inevitável, irresistível a não ser que sejamos inconscientes.

Se eu pensar na doença, na velhice, no desemprego e na miséria, na falta de união entre os homens, nas calamidades, no terrorismo – tudo realidades à nossa porta – como posso ser optimista?

Não sou de depressões nem de astenias mas sinto uma tristeza grande por já não saber iludir-me como antigamente quando era menino e moço, por ter alguém que pensava por mim!

Sabem que às vezes é bem bom: arranjarem-nos um emprego em que tudo corra bem, me sinta realizado, um país consistente aonde se possa merecer a alegria de cada dia com futuro, para só já falar no entorno que permite todo o resto.

Voltei a reler tudo o que escrevi e falta-me aqui referir o que pode minorar um pouco este azedume, pessimismo, nihilismo:

- a família e o investimento que devo fazer a cada dia em cada um, apesar das sécas, dos hábitos arreigados que me irritam, maçam e que me fazem apetecer isolar-me.

- o amor, no verdadeiro sentido da palavra, o amor espiritual (para além do carnal) aquele que é entrega sem regras pré-concebidas, mais puro e desinteressado, o sentir-me bem enquanto dou e recebo.

- last but not the least, ouvir uma boa música inspiradora que me desligue da terra e me aproxime das nuvens etéreas.

Adoro música e é uma excelente terapia para as minhas maleitas.

Felizmente que sou desmemoriado, senão o que seria todos os dias acumular memórias destas!

No meu ipod estou a ouvir aquilo que vos sugiro que oiçam (podem ir ao you tube tirar estas músicas) e que se chama “Claire de Lune” de Debussy e depois no álbum “Solace” de Michael Hoppe, uma música chamada “Lachrymosa”.

Tem uma enorme força!

(continua)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (3)


5ªf, dia 21 de Julho

Acordei decidido a reservar uma parte do dia a desacelerar e reflectir com calma sobre tudo quanto se está a passar aqui em Portugal e aquilo que virá previsivelmente a acontecer, com reflexos óbvios na minha vida.

A primeira conclusão que tiro é a de que pouco podemos fazer, ou seja, há uma sensação de impotência generalizada quanto à nossa eficaz intervenção para mudar o curso das estrelas…

Trata-se de uma pesada herança e não a do Dr. Salazar, que só é para aqui chamado, para que não haja confusões com o sentido da minha frase.

Aí somos todos culpados pois fomos tolerando através dos anos e desde o 25 de Abril, que o destino de Portugal fosse mais ou menos acompanhado pelos eleitores, enquanto nos perdíamos na embriaguez do consumo desenfreado.

Quando era preciso votar maciçamente ou ficávamos em casa, nanja eu, ou disfarçávamos e deixávamos correr o marfim…era aproveitado por muitos de todos os quadrantes, ainda que alguns especialmente tenham tido uma sabedoria infinda e mais requintada. Todos sabemos a quem me refiro!

Mas isto é o passado e chega a ser intolerável como se pode perder tempo a discutir o que se deveria ter feito…é como no futebol, depois dos frangos na baliza, exprimem-se opiniões sobre as formas de poderem ter sido evitados!

Que cansaço de gente!

Porlotanto, como diriam os nuestros hermanitos, só prevejo uma de três soluções:

a primeira é resignarmo-nos e nada fazer e quando, como nas histórias do Astérix, o Obélix afirma que o único medo que ele tem mesmo é que “le ciel me tombe sur la tête”, o pesadelo desabar sobre as nossas cabeças, desesperarmos!

a segunda é lutar e procurar aqui em Portugal, novas soluções que passam por oportunidades de emprego – difícil, mas possível quand-même quando se é competente – ou com criatividade e engenho começarem-se novos negócios, bem entendido, que se adaptem à crise.

Há ainda instituições que apoiam pequenas e médias empresas viradas para a exportação e os inefáveis bancos, pelo menos até agora, têm linhas de crédito para este efeito.

Uma vez mais a audácia a fortuna ajuda, como diria o Capitão Hadoque nos saudosos livros do Tintin!

a terceira é partir. Emigrar para países aonde se possa ter horizontes, futuro e começar de novo com esperança e desafios: Brasil, Austrália, Angola e mesmo para outros países europeus mais ricos do que o nosso tal como a Alemanha, França, Inglaterra, os nórdicos…haverá buraquinhos para vivermos melhor, lutarmos e sobrevivermos!

Naturalmente que o mais perto ainda é a Espanha que é formidável! Se quisermos investir aqui ao lado com inteligência, the sky is the limit!

Estes são os diferentes planos B.

Depois de ter interiorizado tudo isto, fiquei mais contente pois realizei que sou um lutador e não vou deixar cair os braços e fui almoçar com uns amigos uma boa pescada com mayonnaise e um vinho branco, que os há muito bons também, sim! Esta snobeira de só se gostar de tintol é ridícula e não ajuda os produtos nacionais!


(continua)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Carta a um amigo



Meu Caro,

As pessoas costumam ter amigos imaginários na infância, e eu não me lembro de ter tido algum. Conversava com árvores, mas não sei se é a mesma coisa. Senti que talvez fosse tempo de experimentar esta sensação, apesar da minha infância estar distante hoje.

Os amigos conhecem-se bem, por isso não preciso de contar-te a minha história.

É uma história que vai morrer comigo um dia, como acontece com quase todo o mundo real, já que as histórias escritas são quase todas inventadas.

O que eu queria compartilhar contigo hoje é sobre como me sinto, e saber a tua opinião. Eu sei que a tua opinião será, na verdade, a minha própria opinião. Mas ouvindo-a de outra pessoa, mesmo que imaginária, pode ser mais fácil de aceitar.

Estou de novo num daqueles períodos de estagnação. Não em todos os aspectos, algumas coisas correram tão bem que fico até surpreendido com os resultados.

Sou feliz, estou sempre a dizer, mas não há felicidade plena, e quando concretizo uma coisa, preciso de outra para me ocupar.

Só que aconteceram alguns imprevistos, e sem saber bem porquê, dei alguns passos para trás.

Sem me dar conta, mudei de rumo de alguma forma. Estou a andar em círculos. Estou confuso.

Para aonde é que eu estou a ir? Qual é o caminho? Alguém tem um mapa?

Não, amigo... Ninguém tem um mapa. É assim o caminho: quando andamos em grupo, podemos seguir a direcção que outra pessoa indicou, porque a maioria concordou que aquela seria a direcção ideal, e a maioria venceu. Maldita maioria. Apetecia-me ser um ditador mau às vezes. Mas este é um pensamento egoísta. A maioria, o altruísmo, a solidariedade, a bondade, o bem colectivo... para o raio que os parta!

E o que normalmente acontece é : sentamo-nos num tronco de uma árvore numa estrada, à sombra e à espera de ajuda que alguém foi buscar, somewhere! Enquanto se espera tudo parece tão perdido!

Chego a pensar que se eu desistisse de algumas coisas seria muito mais fácil, pois andaria mais depressa. Em direcção a quê? A um novo objectivo, só meu, fora do colectivo?

Mas tantas coisas ainda me prendem aos velhos planos. E teria que começar do nada, e o nada é tão assustador.

Não me venhas com essas histórias de ‘abandonar os medos’. É muito fácil dizer, eu passo a vida a dizê-lo a toda a gente. Deixa os meus medos em paz! Eles fazem parte de mim, e nunca se sabe qual é a fortaleza de uma pessoa. Essa fortaleza pode ser o medo, e se ele for destruído a pessoa vai atrás e sucumbe!

Amigo, para onde devo ir?

Um abraço

Manel

terça-feira, 19 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (2)



3ª f, dia 19 de Julho

Ontem vi um programa de televisão, o “Prós e Contras”, que me deixou muito inquieto. No meio de tudo o que disseram eminentes catedráticos, às tantas ouvi afirmar que até final de 2012 temos que pagar 23 mil milhões de Euros e logo a seguir até 2013, mais 24 mil milhões de Euros, mas atenção só em juros! Fora tudo o resto!

Anotei isto no meu diário para memória de futuro, as they say!

Esta manhã já me tinha esquecido por causa da danada da minha maleita, mas ao reabrir a página de ontem tive um calafrio…

Este é mesmo o país em que vivo, o qual me habituei a amar e a respeitar, a pátria de tantos que me antecederam e que eu admirei pelos seus feitos, uns modestos mas grandiosos na sua simplicidade de servir um ideal em que acreditavam, outros salvadores de invasões, gloriosos exploradores de novos mundos, mas todos querendo manter viva a chama de uma ideia de Nação aonde se pudesse crescer em paz e viver com valores.

Pois bem, neste momento, tudo isso está em perigo e não sei como acabará.

Registei para estar atento e compaginar mais tarde com o que nos acontecer.

Fui à FNAC do Chiado, aonde me arruíno a cada semana em livros, música e vários outros items e temo que num futuro breve até à cultura nos seja vedado o acesso!

Haverá outras prioridades: estou a ouvir dizer que não se comem livros nem cds nem dvds, mas sim queijo e fiambre e leite!

Procurava uns livros para as férias que se avizinham na Madeira, aonde a cada ano passo religiosamente uma semana, num apartamento de um excelente hotel que comprei em time-sharing. Dá para seis almas e vou sempre com a família.

Fantástica piscina, muito bem desenhada e agradável de se estar horas estendido a ler e a ronronar com o ipod em plena audição, bons mergulhos e nadadelas, reinação com os filhos, torneios de ping-pong em que apesar de maioritárias vitórias, já vou sendo batido pela descendência em poucos…jogos, idas ao mar, etc…

Experimento a cada ano novos restaurantes ao jantar com um grupo de fiéis amigos e devo confessar que os madeirenses são muito hospitaleiros, amáveis e prestáveis, e o serviço na restauração é de primeira qualidade. Para já não falar dos preços que são apelativos e competitivos.

O ano passado fui dar umas tacadas de golf, mas de facto é o lazer o que me atrai nestas férias. Talvez este ano recomece o ténis!

Pode-se frequentar o spa do hotel que tem tudo, desde massagens orientais a duche escocês, jacuzzi, sauna etc…

O meu país pode oferecer soluções de férias portuguesas e é nisso que neste momento devemos apostar.

Os livros escolhidos na FNAC foram cinco: “On China” do Henry Kissinger (voltei agora de Beijing e Shanghai e quero comparar a visão deste grande estadista), “ In Ishmael’s House” de Martin Gilbert ( quero saber mais por dentro sobre Israel que visitei já por duas vezes há uns anos e que adorei), “That summer in Sicily” de Marlena Blasi (adoro a Itália), “ The Grand Design” do Stephen Hawking e finalmente “Turkey” de Ozlem Tur ( é um país incontornável, como se diz agora, e é preciso estar atento com o devir).

Levo sempre poesia e este ano escolhi reler a Mensagem de Fernando Pessoa.

Como nota de alguma perplexidade para mim próprio, estou a adorar o iPad e nomeadamente a possibilidade de poder ler livros de grande porte.

No avião que me trouxe da China ao Ocidente e cuja viagem levou 13 horas, li um livro de 900 páginas sem ter dores nas mãos por pegar na lombada pesada….

Preocupa-me o que vou fazer aos 2.500 livros que tenho, dos quais já li uma boa parte, senti o cheiro das folhas misturado com a humidade, apalpei carinhosamente as capas, tomei-lhe as medidas e degustei-os página a página…

Mas como me esqueço de tudo de um dia para o outro, alguém há de velar por eles, um dia, somehow, somewhere…

(continua)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (1)


Na consulta de neurocirurgia, o médico foi peremptório: teria a cada dia de manhã que fazer um reset do meu dia anterior, pois uma estranha doença afectou-me a memória e o sistema cognitivo fazendo-me reter o conhecimento do passado durante as horas do dia.

O sono apagava o registo de tudo quanto tinha acontecido nas últimas horas.

Naturalmente que fui para casa destroçado e perguntei-me como seria dali para a frente a minha vida: tantos projectos e sonhos, vida social intensa, família, amigos, emoções, sentimentos, afectividades, dor e sofrimento…

Tinha-me vindo a queixar que a cada manhã e nas últimas três semanas era como se fosse um apagão: varria-se-me tudo da lembrança!

Comprei um livro de muitas folhas, daquelas antigas de papel de embrulho de merceeiro com uma lista ao lado para se registar a data e depois à frente espaço para se escrever o que se comprou ou fez ou a fazer.

Começou assim um verdadeiro diário das horas de cada dia da minha vida e é um pouco disso de que vos venho falar e contar.

2ªf, dia 18 de Julho

Levantei-me cedo e estava um dia fresco e acinzentado. Havia, no entanto, um pouco de sol a espreitar de entre as nuvens.

Gosto destes pequenos-almoços ricos em detalhes. Aliás, quando viajo adoro os buffets copiosos dos hotéis. São cafés da manhã pantagruélicos.

Hoje fui buscar um copo grande que enchi de sumo de laranja, de umas sumarentas e doces que trouxe do monte.

É importante o tamanho do copo e a sua qualidade: de vidro muito grosso tira metade do prazer de se saborear o sumo. Além disso, tem que estar bem gelado para entrar nas goelas com voluptuosidade.

Bebo chá de manhã. Bons chás ingleses, chineses, indianos ou Gorreana.

Gosto de ter xícaras de bordo fino. Há hoje em dia umas de design com cores garridas. Também tenho outras que herdei e que são de Sévres, lindas e preciosas com uma decoração floral primorosa.

O bule é importante que seja grande (tenho de prata e modernos a dar com as xícaras) para que o chá possa abrir e manter-se quente. É maçador ter que se fazer refills, quando se está no meio da leitura do jornal. Gosto de um drop of milk no chá, mas também o bebo simples, sobretudo o de jasmim e sem açúcar.

Comprei há anos em Portobello Road, uns porta-torradas em prata inglesa que têm várias divisões e aonde se podem pôr várias fatias de pão quentinho sem também ter que haver interrupções.

Queijos, fiambres ou carnes frias, bem como uns três ou quatro jams (marmelade, de framboesa ou morango, apricot, de tomate ou mesmo de figo) são um deleite que a cada manhã se podem ir variando.

Quanto a manteiga é para mim um assunto firme: da verdadeira pois detesto aquelas que se parecem a graxa para sapatos...tipo floras e quejandas!

A terminar uma meia papaia madura, faz sempre bem.

A leitura de vários jornais mantém-me actualizado até à noite…por isso respigo as notícias principais que anoto no dito livro a que daqui em diante apelidarei de “Tombo”. Esta expressão, a que por exemplo entre outos deriva da “Torre do Tombo”, significa registo, arquivamento de documentos, papéis, acervos de assuntos vários.

(continua)

domingo, 17 de julho de 2011

À meia-noite o Mondego dorme mais ou menos dois minutos


À meia-noite o rio dorme
mais ou menos dois minutos
para nós é um tempo curto
para o Mondego é um tempo enorme

Contam os banhistas ao luar do Mondego que o rio, na hora grande da meia-noite, dorme durante dois minutos. É a hora em que a vida sossega e o mundo se recolhe: as cascatas interrompem a queda, a correnteza cessa. Os ribeiros aprendem desde cedo que não se deve acordar o rio durante o seu sono.

Nos dois minutos de sono do rio, os peixes aquietam-se, as cobras perdem o veneno e a mãe de água surge para pentear os cabelos das banhistas ao luar. Os que morreram afogados saem do fundo das águas em direcção às estrelas. Este sono do rio não deve ser, de nenhuma maneira, interrompido, sob pena de enlouquecer quem despertou as águas.

Tenho pensado no que os ribeiros ensinam sobre o descanso do rio e concluo que de vez em quando é mesmo necessário adormecer no tempo e sossegar como as águas.

O ritmo da nossa sociedade - marcado pelo fascínio das máquinas, o ruído dos motores, a precisão dos relógios, a velocidade das informações simultâneas e a procura feérica da felicidade - acelera a vida e desacostuma-nos dos homens. Tem os seus benefícios (não sou, definitivamente, um saudosista) mas anda perto da desumanidade.

Por isso é preciso, de vez em quando, adormecer como o rio ao abandono das horas, olhar a lua em águas paradas e abandonar os desatinos da felicidade.

O sono do Mondego, o desapego dos peixes e o silêncio das cascatas fazem-me pensar que a ideia da felicidade, da forma como a sociedade de consumo a concebe, é das coisas mais brutais que existem. Acha-se que se tem que ser bem sucedido no amor, no trabalho e nas relações pessoais. Precisa-se de viajar pelo menos duas vezes por ano, trocar de carro de quando em vez, não se pode ficar doente e não se pode conceber a morte.

Acontece que não é assim que o rio segue o seu leito e descansa ao fim do dia.

Como ninguém é capaz de atingir esta tal felicidade de “shopping centre” que é vendida por aí, formamos um bando de depressivos e infantilizados que não conseguem lidar com o fracasso e se entopem de remédios para dormir, acordar, trabalhar... Parece paradoxal, mas é isto mesmo: a expectativa da felicidade é uma fonte poderosa de angústias e depressões.

Que as margens do Mondego, portanto, me iluminem para que eu respeite o sono do rio, o repouso dos peixes e o voo dos afogados.

Este nosso mundo, de tão virtual, anda meio aluado - e eu quero cada vez ter mais tempo para adormecer no rio, aquietar os peixes, sossegar as cascatas, louvar os meus antepassados e encantar-me com a mãe de água a envaidecer as banhistas ao luar.

O homem das duas cabeças



Quando Ricardo nasceu, naturalmente que os seus pais bem como toda a família ficaram chocados e horrorizados e foi com perplexidade que aceitaram as explicações dos médicos que lhes comunicaram que não havia nada a fazer para separar as duas cabeças mas que tudo indicava que poderia vir a ter uma vida normal e até escolher que cabeça usar conforme as circunstâncias. Iria assim ter uma dupla personalidade, com o mesmo corpo.

Foi crescendo e ia tendo os problemas que se calcula pela inusitada situação em que se encontrava mas a pouco e pouco foi deixando de ser falado e passou a gozar de uma certa tranquilidade. O pequeno mundo da sua aldeia aceitou-o e todas as vezes que algum estranho se deslocava propositadamente para o encontrar, era mal recebido.

Ricardo tinha vindo a constatar como era cómodo ter duas cabeças e descobrira o prazer da sua dupla vida.

Manifestamente criara com uma delas um carácter mais propenso à ponderação, ao estudo e ao amor à natureza. Tinha prazer em pastorear os rebanhos do seu pai, gostava de uma vida saudável e simples e ficava horas sozinho sentado no campo por debaixo de um chaparro à conversa com a outra cabeça.

Estouvada, sensual, muito mais aberta e com curiosidade em explorar o mundo para fora da aldeia, a outra cabeça lia os jornais no café, sabia de futebol, da guerra e da paz, de sexo, e sonhava sair dali.

Eram estas as disputas entre as duas cabeças que acabavam sempre com a cedência da mais progressista em esperar pelo tempo certo para dissuadir a outra em partir, nem que fosse para uma experiência temporária.

Um dia apareceu na aldeia a Júlia que tinha voltado da França com os pais, emigrantes endinheirados, que com a crise global tinham preferido com os aforros obtidos em dezenas de anos fora, regressar às origens.

Júlia era uma rapariga moderna, experimentara a vida de um país como a França, namorara, vestia-se diferentemente das outras raparigas da aldeia, pintava-se, era garrida e provocadora. Tinha alguns estudos e passava o tempo a fumar com um ar dengoso e a ouvir músicas que Ricardo nunca ouvira num ipod que lhe pendia da cintura fina com umas ancas bem feitas e um peito de rola rechonchudo e formosíssimo.

A princípio ficara estacada e sem palavras quando topou a primeira vez com Ricardo e olhava com surpresa para as duas cabeças, mas quando ouviu uma voz simpática e agradável dizer-lhe os bons dias e apresentar-se, respondeu a todas as perguntas e reparou que para além das duas cabeças, era um rapaz muito atraente com uma bela figura e com um corpo muito bem feito.

Em casa, Júlia comentou ao jantar com os pais o encontro com Ricardo e foi-lhe dito que era um caso estranho da ciência e que todos na aldeia o respeitavam mas que não sabiam lidar muito bem com a situação pois ninguém jamais tivera uma experiência semelhante, parece mesmo que a nível nacional e internacional. Aconselharam-na a ser prudente e a não criar grandes intimidades, pois não levaria a nenhum destino.

A cabeça campestre de Ricardo ouvia a sua outra cabeça falar com entusiasmo de Júlia, como a achara excitante e moderna com hábitos diversos dos da aldeia: achava mesmo que valia a pena adiar a partida para a cidade e explorar este novo conhecimento.

Júlia veio em passeio para os lados aonde estava Ricardo e a cabeça mais rural encetou conversa com ela e foi-lhe mostrando as ovelhas e os pastos e a riqueza dos campos e perguntando-lhe se na terra aonde ela viveu tinha tido a ocasião de estar assim com simplicidade em contacto com a natureza, e ela encantada com a beleza do dia e da paisagem foi conversando e durou até ao entardecer. Ricardo perguntou-lhe se a podia acompanhar até à entrada da aldeia e ela assentiu com agrado e despediram-se, combinando no dia seguinte repetirem o passeio para outros lados que ele lhe descreveu como de grande bucolismo.

À noite a conversa entre as duas cabeças foi menos pacífica pois a cabeça citadina não gostou nada dos avanços da outra e exigiu que no dia seguinte fosse ele a ir buscá-la a casa e a experimentar o ipod, ouvindo as músicas e a passear pelas ruas da aldeia e até convidá-la a ir tomar um café à pastelaria Central.

Ricardo começara, estranhamente, a sentir nas suas duas cabeças e ao mesmo tempo um sentimento estranho em relação a Júlia: uma sensação interior de qualquer coisa mais do que interesse, mas de formas diferentes consoante fosse uma cabeça ou outra.

O corpo respondia univocamente com sensualidade e com desejo em explorar o contacto com Júlia mas o que encarava como entusiasmo, talvez até como um princípio de paixão manifestava-se de forma diferente.

Júlia não era insensível ao namoro que Ricardo lhe fazia cada dia e ficava um pouco perturbada quando se apercebia que nem sempre havia uma continuidade de personalidade como se – a ideia passara-lhe pela mente – cada cabeça pensasse e agisse diferentemente, ainda que no mesmo corpo.

Tinham combinado ir no dia seguinte de manhãzinha lá para os lados do rio aonde havia um antigo moinho abandonado e Ricardo prometera-lhe que lhe explicaria como se moía o trigo ou o centeio para fazer a farinha para o pão.

O tempo acordou ameno e foi passando e Júlia ia estranhando o atraso de Ricardo e já o sol ia alto e nada de notícias. Resolveu sair de casa e foi perguntando aqui e ali se o tinham visto e recebia respostas negativas.

Inquiriu qual era o caminho para o velho moinho e para lá se dirigiu um pouco assustada por ir sozinha e ao chegar não encontrando ninguém cá fora, sentou-se desanimada. Não sabia de facto o que fazer!

Subitamente, junto aos pés começou a notar que escorria um fio de sangue fresco que vinha de dentro do moinho e com o coração apertado aproximou-se da entrada.

O acesso era esconso, mas uma vez lá dentro habituou-se à luz da sala do moleiro e foi com horror que deparou com um cenário dantesco, dando um grito agudo e sentindo-se a perder os sentidos.

A pedra redonda do moinho em vez de trigo ou de centeio, tinha, desta vez, pisado um corpo que ela de imediato reconheceu como sendo o de Ricardo, escorrendo o sangue das suas duas cabeças que jaziam, esmagadas, debaixo da mó.

MNA