sexta-feira, 14 de novembro de 2014

o segredo da Quinta da Esteva - Contos breves



Desde que a Mãe morrera, Luís vivia sozinho na Quinta da Esteva, perto de Anadia. A entrada era através de um portão senhorial, com um arco de pedra sustentado em duas colunas com as armas dos Canedos.

Estes Canedos, provinham de uma antiga família de Castela que tinha servido os diversos monarcas e viera para Portugal numa das múltiplas incursões ao longo dos séculos.

Na sala principal, com tectos de caixotão e uma lareira antiga com uma bordadura de pedra aonde Luís expusera uma série de fotografias da sua Mãe, estava por cima  pendurado um retrato pintado de Don Pablo de Orilla y Valdesqués, antepassado da família nos princípios do século XIX, solteiro, muito bem-parecido, de olhos azúis e tez clara e de cabelos aloirados.

Luís sempre se perguntara sobre a história deste parente, e tanto do Pai como da Mãe só conseguiu arrancar que era considerado na família como um excêntrico.

Sentia uma enorme atracção pela figura do retratado e quando de noite, com insónias, vinha para a sala, olhava-o na penumbra e tentava adivinhar o seu passado.

Quando terminou os seus estudos em Coimbra – uma licenciatura em História – regressou a Anadia e trouxe a memória de poucos amigos da vida académica. Sempre se dera com os filhos dos caseiros, e a amizade que tinha pelo Leandro, era a de um verdadeiro irmão, como se de sangue se tratasse.

A família Serro, já servia como feitores dos Canedo desde há cinco gerações e eram tratados com toda a confiança e consideração, sempre tendo sido muito respeitados. 

Tinha, aliás, havido no passado, um episódio que estreitou ainda mais os laços de mútua admiração, pois um Serro tinha salvado um Canedo de ser morto durante as invasões francesas e evitado que a Casa fosse pilhada.

Luís passava os dias consultando o arquivo da família, no secreto desejo de encontrar algum traço sobre a vida e existência de Don Pablo de Orilla.

Leandro era um rapaz bem encorpado, com olhos azuis e cabelo aloirado e parecia tudo menos um moço do campo. Tinha um garbo e uma presença que era muito falada por toda a gente.

Os seus pais, tinham nele muito orgulho e destinavam-lhe um futuro distinto do de ser filho de caseiros. O Pai de Luís tinha-o mandado educar no liceu de Anadia pelo que ele tinha umas letras e uma sólida formação. Era desportista e jogava à malha como ninguém nas cercanias, corria, caçava, pescava e atirava ao arco.

Pelo seu lado, Luís era também alto e delgado de corpo, olhos castanhos pestanudos, mãos de pele muito branca e dedos fininhos, pouco mexido, apesar de fazer algum exercício diariamente pois gostava de passear, embrenhando-se pelas matas da Quinta, durante boa parte do dia. O seu passeio preferido era ir até à “fonte dos amores”, aonde se dizia ter o poço, uma água que enfeitiçava quem a bebesse. Passava horas melancólicas, em silêncio total e em contacto com a Natureza. 

Um dia, Leandro andando à caça por aquelas paragens, encontrou Luís junto à fonte. Abraçaram-se e começaram a conversar. Já não se viam há uns meses, pois este último tinha ido fazer uma viagem pela Espanha e tinha estado em Castela. Descreveu-lhe como tinha gostado, e a conversa fluiu sobre outras frivolidades.

Às tantas, Luís falou-lhe no quadro grande por cima do fogão da sala e do intrigado que andava em tentar saber mais sobre o seu antepassado, e olhando para Leandro que o escutava de perfil com um raio de sol iluminando o seu rosto, estremeceu, pois achou parecenças entre os dois. A cor dos cabelos e dos olhos, o porte: mas disfarçou a emoção pois concluiu que se tornara numa obsessão.

Regressando a casa, pôs-se de novo a pesquisar os documentos da época e encontrou um testamento de um antepassado, que deixava os seus bens e a quinta ao seu descendente Don Pablo e a uma filha, tida fora do casamento, um legado em dinheiro e um anel de ouro com uma safira, em homenagem à cor azul dos seus olhos. E mais não dizia, nem indicava o nome da legatária.

Luís ficou a cismar e decidiu que havia de conversar com Leandro sobre o anel e o legado, pois achava uma descoberta fascinante e um progresso nas suas pesquisas.

Continuando a folhear papéis, encontrou um envelope fechado e lacrado com as armas dos Canedo e com uma inscrição: Abrir só em caso de necessidade.

Datava do princípio do século XIX e a tinta e letra mantinham-se em bom estado de conservação.

Luís, excitado, partiu o lacre e desdobrou o documento que continha um texto que o surpreendeu, pois acabara de encontrar a resposta às suas dúvidas.

Mandou recado a Leandro para se encontrarem a seguir ao jantar na Casa da Quinta e esperou ansioso que as horas passassem.

Assim que Leandro entrou na sala, de camisa branca impecável aberta no peito, com umas calças justas de algodão e o cabelo loiro descaído sobre a testa, de repente parecia que o retratado tinha saído do quadro e que Don Pablo de Orilla estava vivo e ali presente.

Abraçaram-se e Luís disse-lhe de chofre: 

- Já viste que és igual ao do quadro? 

Leandro, olhou devagar e ficou calado uns momentos. 

- Talvez, mas como seria possível tal coisa? – concluiu.

Luís falou-lhe da carta lacrada, e começou a contar-lhe sobre o que descobrira:

- o meu Trisavô, deixou escrito no testamento que entregassem dinheiro e um anel de ouro com uma safira a uma filha bastarda, cujos olhos azúis, eram assim lembrados na pedra preciosa.

Leandro, com uma enorme estupefacção, confirmou a Luís haver em sua casa um anel que correspondia a esta descrição.

E Luís continuou: a carta descrevia que o seu filho segundo, de nome Pablo, não gostava de mulheres, pondo em risco a sucessão no vínculo o que muito o entristecia. Narrava ainda que andava perdido de amores por um dos filhos dos caseiros, o que o fazia ter que guardar este segredo, pois a filha fóra do matrimónio que tivera, era da mulher do feitor e por isso mãe, do dito amante do seu filho.

Ficaram ambos em silêncio, e após uns bons minutos, caíram nos braços um dos outro, tratando-se por primos e Luís mandou abrir uma garrafa de xerez para comemorarem a nova descoberta.

Dizem as crónicas que os pássaros que poisavam na árvore em frente do quarto de Luís viram, através da janela entreaberta, os dois primos, pelo nascer do sol, muito abraçados na cama e com os lençóis em desalinho. 

In "Contos breves" de Vicente Mais ou Menos de Souza

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A propósito da morte do Fernando Mascarenhas, Marquês de Fronteira


Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nesta passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até à última sílaba do registo dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais do que iluminar aos tolos o caminho que os leva às cinzas da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa.

Macbeth, Ato 5, Cena 5, linhas 22-31

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Ode à chuva

A chuva a cair lá fora parece ter alguma graciosidade, mas quando não se tem aonde abrigar transforma-se num pesadelo.

Triste é a noite em que a um canto se recolhe com frio, fome e em solidão quem nada tem e na manhã seguinte, vê as horas passar para chegar desesperadamente a um novo ciclo de noite e de dia.

Sombrio é o sono acordado de quem não tem esperança, futuro e nem já consegue sonhar.

Injusta é a sorte de quem nasceu pobre ou que nos tempos que correm, se torna indigente.

Nefasta é a pátria que aos seus filhos não consegue assegurar o porvir em segurança, prosperidade e bem estar.

Desgraçada é a sociedade que não provê ao pleno emprego e que esconde evergonhadamente a miséria dos seus cidadãos.

Miserável é o povo que não luta para sobreviver como Nação, independente e livre.

Fracos são os Homens que não vêem na morte a redenção para a sua fragilidade.

MNA

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Por muito alto que fales

Por muito alto que fales,
e por muito forte que na mesa soe o teu murro,
também tu, um dia, claro,
serás aquele que já não é, de facto, aquele, mas aquilo,
e que com respeito ou indiferença, como simples peso,
é transportado.
Serás reduzido pois (ou promovido?) a uma simples entidade física;
serás apenas a posição de um certo peso
no espaço quadriculado do mundo.


Gonçalo M. Tavares

Volenti nihil difficile


Luís Bernardo, que já morrera, mantinha uma correspondência assídua com Manuel.

Eram da mesma Família e tinham-se conhecido com uma grande diferença de idades: ele sentenciado no processo dos Távoras, tendo sido simultaneamente traído pela Marquesa que andava de amores com o Rei.

Manuel, mais prosaicamente arrastava os seus dias neste penoso mundo, indagando com frequência do seu parente o que o esperava depois da morte. 

O correio chegava através de portadores que iam e vinham e depositavam as missivas na caixa de correio da casa de Manuel e quando este respondia a Luís Bernardo, era na Capelinha da Senhora do Monte que deixava as suas cartas, debaixo de uma laje que por lá havia e que se movia com facilidade deixando um buraco protegido da chuva e das intempéries.

Perguntado porque naquele sítio, Luís Bernardo respondera que a vista que dali se espraiava sobre a cidade deixava sempre os portadores maravilhados e que antes de empreenderem a viagem de regresso, dali miravam a beleza de Lisboa.

Manuel ainda foi ao miradouro várias vezes e nos dias aprazados para a entrega da correspondência. Tinha a expectativa de se poder encontrar presencialmente com os emissários de Luís Bernardo, mas esperou em vão, pois nunca ninguém apareceu, e quando antes de partir ia verificar se a carta tinha sido levada, ficava pasmado pois o buraco estava vazio e a carta desaparecera.

Um dia porém, resolveu deixar um envelope fechado com mais uma missiva e por cima pôs um pequeno papel com os seguintes dizeres em latim:— Volenti nihil difficile. (A quem quer, nada é difícil.)-

E passados uns dias encontrou uma resposta escrita no mesmo papel: —  Ave ataque vale  (Saudações e adeus.).

domingo, 9 de novembro de 2014

o melhor lugar do mundo


Qual é, afinal, o melhor lugar do mundo? O meu palpite: dentro de um abraço.

Dói e canta cá dentro


O amor é um poema. Dói e canta cá dentro. Tem a filosofia das árvores, a lição do mar, os ensinamentos que as aves recolhem quando migram para lá dos desertos, de onde hão-de regressar mais sábias e seguras.

O amor é uma causa. Uma luta excessiva com a divindade dos dias e a sua fogueira obscura. Mas também contra o mistério de si mesmo, uma paz que nos dá o cansaço e a loucura infeliz da felicidade, esse primitivo terror dos sinos que tocam como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar. 
 
O amor é uma casa. Erguida com os beijos, com os versos da noite e o gemido das estrelas. Casa cujas paredes vestem o nosso júbilo, a nossa intuição, a nossa vontade, sobretudo o nosso instinto e a nossa sabedoria. Onde se acende e brilha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes. 


O amor é um gigantesco pequeno mistério, uma estranha generosidade que faz com que, quanto mais damos, com mais ficamos para dar. 

Só o amor é o elixir da juventude. Não esse que sempre se procurou nas indecifráveis fórmulas dos antigos livros de magia e de alquimia, mas aquele que está tão perto de nós que, por vezes, o pisamos sem reparar.


Joaquim Pessoa, em “Guardar o Fogo”

A Visita do Príncipe


Não sei nunca o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender. Hoje ao levantar da névoa trouxeram-me a casa sobre o rio, o terraço escassamente iluminado por um lampeão que balançava ao vento, o pequeno sapo que todas as noites, rente ao muro, se ia aproximando, depositário de tudo o que nesse tempo em mim se confundia com a ternura.

Pequeno príncipe da vadiagem, por ali se quedava sem outro ofício que não fosse o de receber alguma carícia, só depois regressando por entre a humidade das pedras aos pântanos da sombra, a noite inteira nos olhos desmedidos.

Eugénio de Andrade

INTERSTELLAR o filme que se deve ir ver


Fui ver o filme Interstellar com Christopher Nolan. Gostei bastante e fica-se com a sensação de impotência perante tantos flagelos que começam a ser frequentes no nosso mundo, para não falar do respeito e medo com o gigantismo do Universo, seja ele como está retratado no filme ou de outra qualquer forma.

Tudo isto nos deve causar cada vez mais perplexidade e menos certezas sobre as visões simplistas de tudo quanto tem a ver com a Humanidade e vem tratado em manuais.

Nem está sequer implícita  nas minhas palavras uma crítica em relação à religião, embora as versões que nos chegam do passado sejam brincadeiras de criança face à realidade e por isso há uma de duas opções: ou aceitar pura e simplesmente o que nos diz a doutrina da Igreja Católica, do Budismo, do Islamismo, do Judaísmo ou pôr as barbas de molho e deixar ver o que se passa depois da nossa morte...agora até já começam a surgir antecipações do descontrolo sobre a Natureza: epidemias, destabilização climática, ameaças de novas guerras...

Este é um mundo muito complicado e apesar de ser mais um filme com mais um qualquer argumento, não se pode ficar indiferente.

Aconselho vivamente a ida ao cinema e a seguir tomar um generoso copo com várias doses de chá da Escócia...pois se adormece melhor e sem veleidades de grandes considerações...ahaahah

sábado, 8 de novembro de 2014

How do you call a person that speaks two languages?


How do you call a person that speaks two languages? Answer: bilingual.

And a person that only speaks one language?Answer: english!!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

would you believe it?



I'm leaving for a destination I still don't know, somewhere nobody must have duties or obligations.

If you like this, come with me.

aimez-moi


O Mozart com cinco anos tocou para a Maria Antonieta e acabou o concerto com toda a gente a aplaudir. 

Ele correu, sentou-se ao colo dela e disse: aimez-moi.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

As boas maneiras à mesa e a arte de poder fechar negócios


Telegraficamente duas histórias que me aconteceram: 

primeira – com o arquitecto das Amoreiras, à data ainda nos primórdios do conhecimento da etiqueta. Jantar no antigo Banana Power, a Alcântara, convidado por ele - peço espargos, uma pescada cozida e uvas. Começo a comer os espargos à mão: - ´Manel, isso é muito ordinário, diz ele que batalhava com o garfo e faca para os comer inteiros. Digo eu – pois sempre os comi assim. Peço o galheteiro ao criado para o peixe cozido: - trazer para mesa o galheteiro? Nunca sai da cozinha! – Digo eu: - ele há de prata, de Companhia das Índias e lindos. Como se tempera então com azeite o peixe? – Resposta dele: Porra, não percebo nada de protocóis! Não vieram as uvas! 

Segunda: em Hong Kong aonde trabalhei durante uns 7 anos numa grande empresa chinesa. Acabadinho de chegar com os meus 27 anos. Patrão chinês diz-me que vou jantar sozinho com o homem mais rico do mundo, à época, o dono dos tankers, Sir Yak Pao, para lhe arrancar um contrato difícil. Perguntei ao meu patrão, com tristeza, se era um gesto de despedida, tendo eu acabado de aportar e sendo um tenro cordeiro sacrificial. Disse-me que não. Fiquei com muitas dúvidas. 

Podia ser meu Pai, o interlocutor, e miroscava-me com curiosidade. Escolha do menu. Olho para as entradas e vejo caviar – três espécies – tinha vagamente comido em Portugal uma ou duas vezes, mas não sabia sequer os nomes. Escolho o do meio, beluga e oiço o bilionário dizer: - muito bem, esse é o melhor. Game, pensei eu. 1-0. 

Achei graça e resolvi entrar na jogada. 

Digo eu: mas sabe, este não é o melhor sítio para o comer. – Ai não, diz ele espantado mas com curiosidade. Estávamos no roof do melhor e mais caro hotel de HK. Eu tinha ido com um tio Ministro de uma futura cunhada casada com um meu irmão, do tempo da outra Senhora, teria uns 18 anos, ao Maxime, que tinha adorado e catado todos os pormenores. Digo-lhe eu: é no Maxime, em Paris. Olha encantado e diz que sim, com certeza. Score: 2-0. 

Com atrevimento, acrescento: - mas não é em qualquer mesa! Aí ele olha-me pasmado. – como assim? Digo eu: na mesa do canto, para ver quem entra. Era aonde eu tinha ficado e vi chegar, os e as conhecidas deste mundo. 

No dia seguinte, pergunta-me muito admirado, o meu patrão chinês: - Como conseguiste o contrato? 

Minha resposta: se te contasse e dissesse que foi à conta do beluga, do Maxime e da mesa do canto, you wouldn’t believe!

domingo, 2 de novembro de 2014

Definição de "Poesia" por Mário Quintana


Impossível qualquer explicação: ou a gente aceita à primeira vista, ou não aceitará nunca: a poesia é o mistério evidente. Ela é óbvia, mas não é chata como um axioma. E, embora evidente, traz sempre um imprevisível, uma surpresa, um descobrimento.

Mário Quintana

A Morte Absoluta



Morrer.
Morrer de corpo e de alma. Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. 

 
Morrer sem deixar porventura uma alma errante...A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer o teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração,
em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira

Onde não puderes amar não te demores


Sai, corre logo. Afasta-te das ventanias cruéis que ameaçam revirar-te a vida e os sonhos pelo avesso. Aqueles pedaços de histórias rotas e cerzidas, atiradas no cesto de roupas de sorrir — e que já usaste tantas vezes em festas enxovalhadas. Foge das tempestades. Das estradas sem rumo. Das folhas ressequidas, espalhadas em terrenos áridos e desconexos.

Rejeita os lábios que não beijam mais e dos quais escorre apenas amargura, fel e impropérios. Sim. Tranca a porta, os ouvidos, a sensatez e vira as costas sem remorsos para tudo o que te causa mal e tristezas. Teus dias pinta-os com aquarelas leves e doces, mescladas a tons pastel.

As horas não devem ser transformadas inexoravelmente em cinzas, quem te disse? Embora saibamos que se trata de horas mortas, inertes em relógios de parede enferrujados pelo cansaço. Relógios, cujos ponteiros foram derretidos pelos vastos incêndios que se apossaram silentes da tua alma atônita.

Sai! Despede-te rapidamente das águas turvas, habitadas apenas por sinuosas enguias. Não enxergas peixes dourados, nem vermelhos? O lodo não te serve, então. Tampouco a escuridão de um dia sem sóis nem estrelas. As árvores morreram alguns tocos ainda repousam no jardim abandonado. Raízes secas gemem por água. Mas o jardineiro se foi, levando junto com as despedidas os antigos cuidados dispensados ao verde que aí vicejava.

Há esconderijos disponíveis para cultivar a paz. Um sentimento que parece ter escorrido pelas vielas de tempos imorredouros. Olha e te surpreende. Pois há linhas de seda para tricotar novas promessas de amores leves, já nascidos com asas. Amores azuis que flertam com a presença suprema da liberdade.
Se porventura entrares num bar escuro e sujo e perceberes que os frequentadores flertam somente com o álcool mantendo o rosto duro, impassível e macilento. Os olhos de pedra fosca cravados no fundo do copo, no qual mágoas flutuam sobre escassas pedras de gelo, não te aproximes. Abandona o recinto. Pois aí não há amor. Somente amarguras e nostalgias graves e empoeiradas.

Foge também de quem tiver o aperto de mão indiferente e áspero, os sorrisos ausentes no rosto exausto de mentiras, o nariz empinado de arrogâncias vãs.

Despreza indivíduos sem ouvidos, concentrados em lamber unicamente a própria fala. Àqueles aficionados em solilóquios, em discursos sem eco, voltados regiamente para o próprio espelho das vaidades, adornado pelo gigantismo do ego.

Alheia-te também de quem perdeu os braços de abraçar. Esqueceu-se de abrir as janelas para as visitas das alvoradas e lacrou os sentidos para os cantos felizes dos pássaros matutinos.

Os que não regam plantas. Pais que esquecem crianças trancadas no carro, enquanto se deleitam em levianas compras nos shoppings. Não entres jamais em casas onde não se escuta música, aonde o fogão chore de desusos, sem o cheiro vivo do feijão fumegando delícias.

Não te acomodes nunca em mesas sem toalhas, copos, nem talheres, antes destinados a servir convidados sempre ausentes. Ninguém aparecerá para o almoço inexistente. Pois faltam amor e acolhimentos.

Não te esqueças de cerrar em seguida as cortinas do coração para os que desprezam a luz, as cirandas e as crianças. Os que chutam por tédio pequeninos animais órfãos, perdidos a esmo nas ruas. Refuta com veemência as trepadas mornas e maquínicas exigidas pelo marido ou namorado, cujas ardorosas amantes tu intuis, certamente.

O bom sexo demanda uivos gloriosos, saudáveis e selvagens desatinos. Assim, aguarda paciente pela entrega plena e desarmada. Ela virá sem avisos prévios e te surpreenderá com danças e valsas. Recusa de imediato o namoro insípido, porque não há sal que dê jeito em afetos falidos.

Outro alerta: desanda a correr da inveja, do escárnio, do ódio fantasiado de gentilezas em oferta. Todas elas por R$9,99. Este pacote de desmazelos se acumula no enfado e no desamor de lojas vazias. A maldade ronda a vizinhança, se intromete em eclipses, passeia com os pés descalços em imensos desertos brancos.
Mas lá tu não irás, temos certeza, pois falta amor — teu coração já anunciou. Além disso, felizmente também contas com os afáveis sussurros da natureza, que entremeiam tuas histórias e caminhos, sempre rodeados de ideais e de esperanças.

 Graça Taguti

Detesto os Domingos


Detesto os domingos: tanta gente que enche as ruas, sob o pretexto de descansarem.

sábado, 1 de novembro de 2014