domingo, 14 de julho de 2019

O PENINHA FOI CONVIDADO PARA O COCKTAIL DA EMBAIXADA DA RURITÂNEA



O PENINHA FOI CONVIDADO PARA O COCKTAIL DA EMBAIXADA DA RURITÂNEA


O Peninha tem andado em viagem por países complicados a entrevistar líderes odiados e amados como o Presidente Trump, o Ayatola Khomeny do Irão e até o Marco Paulo.

Regressou a Portugal (trabalha agora para um jornal digital “O Notícias falsas” e encontrou no correio um convite da Embaixada da Ruritânea para o cocktail do aniversário do dia nacional.

Como era a primeira vez que ia a um pôr-do-sol (cocktail em modo possidónio) tentou saber como seria o traje e sondou no arquivo do seu jornal e encontrou vagamente uma pequena informação que era de casaco de cetim violeta, laço colorido a dar com o tom do casaco e calças de seda preta com uma lista violeta e sapatos de lacrau pretos brilhantes. Achou que era muito triste e passou tudo para dourado.

O cocktail (ou rabo de galo) passava-se numa moradia acabadinha de construir junto à praia de Algés, com varandas e arcadas. Tinha uma escadaria escondida que dava acesso à praia e cujo objectivo era permitir a fuga de pessoas clandestinas e comércio de canábis para botes que arrimavam de noite junto ao areal.

O Peninha chegou todo vestido de dourado e claro, não passou despercebido. O Embaixador de uma família de marchantes conhecida na Mealhada, deu-lhe um grande abraço e mostrou-se honrado com a sua presença.

Começava bem, pensou Peninha para consigo. Só faltava que ele o apresentasse aos diversos convidados que desde logo se apercebeu pertencerem ao meio-industrial do calçado, das carnes, dos têxteis, das bebidas e até pareceu-lhe entrever uma cronista social cujo nome ele associou a uma cantora italiana da moda, de apelido Pavone ou coisa do género.

Começou a girar entre as pessoas e apresentava-se e de volta recebia uns sorrisos meio-trocistas, calculava ele por causa do traje dourado, pois os homens estavam todos de casaco branco e laço preto. Até se confundiam com os criados que serviam as bebidas e umas tapas.

Começou a anotar os apelidos dos convidados e mandava o fotógrafo do jornal tirar umas fotografias e perguntava o nome de cada um, para não fazer gafes quando as publicasse.

Uma boazona cheia de carnes em vestido de chiffon claro, de minissaia, loira e toda pintada: - sou a Dolores de Aveiro, esposa do Antero das Salsichas. A mão dela demorou tremente na minha, mais tempo do que a decência formal o indicaria e nos meus apontamentos marquei uma seta para trás o que significava voltar a estar com ela, mas talvez os dois sozinhos num dos terraços.

Um cavalheiro de bigode e cabelo pintado de preto vivo e brilhante com a mão cheia de anéis de oiro bem grossos: Vitor Nabo dono dos Têxteis de Alterne, muito prazer. Anotei no meu caderno que pelo nome da empresa devia fornecer lençóis e outros apetrechos para casas de meninas, o que dava sempre jeito conhecer.

E fui por ali adiante cumprimentando e apresentando-me aos Neves da Carne, aos Gonçalves dos sapatos, aos Pinto de Melo da moda, a vários modelos exóticos que se passeavam no meio das gentes, quais osgas coleantes, mas tudo gente que o Peninha achou interessante e novato como era nestas coisas, considerou serem representativos do jet-set.

A Dolores do Antero das Salsichas, piscou-me o olho e com a cabeça apontou-me um canto de uma varanda mais afastada que estava sem ninguém. Deixei-a ir primeiro e ainda me apresentei ao Sezinando Martins que tinha uma rede de ervanárias. Chato para burro, começou-me a falar do Pau de cabinda que vendia nas lojas e até de umas ervas chinesas que provavam melhor do que o Viagra. A custo consegui despegar-me e avancei com naturalidade para a dita varanda aonde a Dolores me esperava. Nessa varanda havia o pau com a bandeira da Ruritânea desfraldada.

Lá chegado senti-me agarrado com frenesim pela Dolores que me deu um beijo naa boca com um bâton carmim, deixando-me todo esborratado.

- Vês aí o pau da bandeira meu galã, pois foi por isso que te chamei para aqui. O Peninha previu sarilhos com o esposo da Dolores, se bem que a sua salsicha estivesse seguramente mais tesa do que as que o Antero vendia na fábrica.

Já estavam os dois a encenar uma grande cena de marmelada de Odivelas, quando se sentem passos a aproximar-se e o Peninha ficou hirto e firme como se estivesse a admirar os pássaros que chilreavam nas árvores frondosas do jardim da Embaixada.

Era o Embaixador que que queria apresentar ao Peninha o Duque de GibralFaro (entre Gibraltar e Faro) que era o grão-mestre da Ordem do Pavão Azul.

O Peninha ficou todo inchado e curvou a cabeça em sinal de respeito. Entretanto, furiosa, a Dolores deixou-os e foi de volta para o grupo do marido que a acarinhou e que levou uma tapona : - tira as mãos de cima de mim, oubiste? E pôs umas trombas e calou-se.

O Peninha sempre fora curioso em relação à nobreza e tinha ouvido dizer o avô materno que descendiam de um caldeireiro do rei D.Diniz, que pelos serviços prestados lhes tinha dado o apelido de Caldeiras, que não tinha chegado ao Peninha.

O Duque queria impingir-lhe uma condecoração da Ordem mas pedia-lhe uma fortuna e o Peninha disse-lhe que ia pensar, mas desde logo assentou na sua cabeça que fantasias emplumadas estavam fora de questão.

Entretanto chegou a hora de se despedir pois viu toda a gente a retirar-se e ao agradecer ao Embaixador, disse-lhe com muito ênfase, que tinha gostado e que a vivenda da Embaixada era ao estilo francês, mas que estava muito bonita e prestava-se a festas destas.

Em voz baixa o Embaixador, como quem dá um abraço mais apertado, disse-lhe a um ouvido: - ó homem, não se vem vestido de dourado para um cocktail nem para sítio nenhum. Isso é de paneleiro!

O Peninha engoliu em seco e saiu e decidiu comprar o livro da Pavone de que tinha ouvido falar a Arlete, cabeleireira, que morava em frente dele, e trazia tudo, tudo como se devia fazer.

Não pode responder ao Embaixador sobre a sua orientação sexual, pois poria em causa a Dolores, mas havia de a encontrar outra vez e aí se veria como ele era um verdadeiro HOMÃO!

domingo, 30 de junho de 2019

Ainda não chegou


AINDA NÃO CHEGOU

Hoje estive à tarde numa esplanada com um meu grande amigo e falámos um pouco sobre tudo desde política nacional, internacional a negócios aqui em Portugal e no estrangeiro. Já não estava há algum tempo com ele (uns 2 meses) e gosto sempre de pôr a conversa em dia.

No fim quando vínhamos para o carro, citámos fulano, amigo dos dois, que estando velho (mais de 75 anos) se sentia muito abandonado pelos filhos. De óptima saúde e energia, mantendo a lucidez total, ainda viajando cá em Portugal e no estrangeiro, tem o epíteto de velho.

E seguimos falando da velhice em Portugal que é aonde moramos e vivemos.

Não há dúvida que os tempos mudaram mesmo e a geração mais nova tem outros hábitos em relação aos mais velhos. Têm a sua vida acelerada e não têm pachorra para vir estar com os Pais ou Avós que estão sempre desejosos de os ouvir e encontrar e expressar o seu amor e ternura.

Compete a ambas as partes tornar cada encontro um momento de “novidade” e de refrescamento para não se cair na rotina das mesmas conversas sobre doenças, queixumes, dinheiro, atitudes radicais em relação à nova geração que é quem segue e se responsabilizará pelo futuro.

A grande regra é de se saber escutar, eventualmente até nem dar muitas opiniões, sobretudo contrárias e categóricas sobre assuntos de que se não sabe porque se não viveu ou vive.

Os filhos gostam de ouvir dos Pais apoio, conforto nas vidas duras que vão tendo ( a dureza nem sempre significa sequer o dinheiro) até porque há casais novos com muitos problemas, morais, de convivência, de escolha de vida profissional, de separações e divórcios e de netos mais abandonados a viverem novas situações emocionais bem como a encontrarem uma sugestão doce e serena que se adivinha ser fruto da experiência, observação, do tal decurso da idade.

Outra vertente importante é a demonstração de afecto físico, beijos gordos e abraços fortes, que tanto sabem bem: são fruto de amor, de cumplicidade e da expressão do reconhecimento que sentem quando se encontram.

Hoje em dia são os Pais ou Avós que VISITAM os filhos e netos, com quase uma audiência pedida para verem os mais novos pois podem estar no treino de futebol, na aula de inglês ou no rugby (tudo coisas salutares) ou ainda a terem que fazer os trabalhos de casa. Entretanto, nem sempre os filhos têm os Pais em casa ou porque trabalham ou têm outras actividades. São substituídos por empregadas fiéis (normalmente estrangeiras…) e um aparecimento depois das ditas actividades ou mesmo durante pelos Avós não é benvinda. Depois vão jantar e deitarem-se e na realidade passam-se semanas sem se poder conviver nem marcar a presença dos Avós na vida dos netos.

Fenómeno que foi praticado na geração acima e que deixou numa percentagem muito alta raízes bem fortes e um prazer mútuo que se perpetuou através dos tempos. Gostava-se dos Avós pois mesmo que a maioria fosse considerada como “velhos” para além de não ser verdade era a oportunidade de encontrar pessoas da família com menos regras rígidas, facilitadores de pequenas fugas ao estatuído e de um verdadeiro amor que é diferente daquele que se tem pelos Pais.

E a conversa terminou com um grande vazio e sem certezas do que acontecerá a todos quantos se vão aproximando da dita velhice pujante e lúcida, válida.

Como convocarmos o amor e ternura dos nossos filhos que são carne da nossa carne e sangue do nosso sangue. Aqueles que suscitaram no dia do seu nascimento, orgulho, emoção e comoção, e a promessa interior de darmos a vida por aquele ser se preciso for. Este amor…palavra e sentimento que se vai abandonando progressivamente por ser piegas ou inexistente, tem tantas vezes “untold stories” que os filhos não conhecem pois fazem parte da construção da vida deles feita por nós com defeitos e às vezes sem razão, mas com AMOR, tantas vezes preocupação, medos, incertezas e tristezas mas também alegria, orgulho e satisfação pelo resultado do nosso trabalho.

Vitórias nas escolas, boas notas, adaptação aos outros, naturalidade, observar-se com atenção carinhosa o crescimento dos filhos e como fazem as mães vitelas, dando umas marradinhas de amor, quando querem sair do rebanho, doenças duras e difíceis, limitações, e tantas outras coisas que lhes não contamos mas que ficam a contabilizar no nosso coração até ao dia da nossa morte, sem cobrança de juros. Esses são pagos em presença, amor e interesse pelas sucessivas fragilidades que a idade vai trazendo.

Para aonde se ficar? Em lares aonde espetam pela boca abaixo de manhã pastilhas para se ficar aniquilado e sem dar trabalho o dia inteiro, ou instituições mais sofisticadas em que as pessoas são acompanhadas por enfermeiras/os e outros que lá estão.

Mas toda esta gente não substitui os filhos e netos e por isso se diz que há um número crescente de Pais abandonados, numa crescente situação séria e preocupante.

Ora deixo-vos esta transcrição da minha conversa com o meu amigo e talvez possamos reflectir em conjunto, pois dos Governos, sejam eles quais forem nada há a esperar.

Como dizia um autor de que me não lembro o nome “ temos que começar por tratar de nós e bem”. Não era no sentido egoísta evitando a doacção aos outros mas para não chegarmos à situação de abandono.

A velhice e a reforma têm que se preparar com tempo e inteligência.

Outro tema que é o corolário deste é o da morte. Fica para outra conversa.

sábado, 8 de junho de 2019

EQUILÍBRIO


EQUILÍBRIO

Chega-se ao Verão e apodera-se de nós um certo desequilíbrio. Uns por terem férias a mais os outros por não terem de todo em todo, ou só umas idas à praia de Algés para molhar os pés.

É o Sol a mais, são as expectativas frustradas de bom tempo pela mudança do clima, é um certo vazio de dias longos sem nada para fazer, sobretudo para quem não lê ou toma banhos de mar, é a traquinice das crianças pequenas – um cansaço – as inevitáveis discussões em casal pois uns querem facilitar ou empurrar para os outros e alguns estão fartos da família no dia a dia na modéstia dos apartamentos do Senhor Roubado, sem glamour e rotineiros.

Tantas poderiam ser as razões para que umas férias que por definição são para desfrutar e descansar se tornem infernais e se contem os dias para regressar.

Mas voltemos ao desequilíbrio que é o contrário do título: que vida a nossa em permanente contrariedade, com raríssimas excepções, sobre tudo quanto nos apetecia, se sonha, se deseja, se luta para conseguir, se consideraria como a definição de vida!

E se o destino é cinza, pó e nada ainda mais estranho nos parece este percurso terrestre. Quantas vidas cinzentas escuras sem interesse, com sofrimento, sacrifício e uma espécie de desorientação sem saber para aonde nos virarmos.

Havia na primária, nos recreios, um menino gordinho, o Sálvio, que era boa criatura mas parecia uma bolinha de futebol. Os meninos maus e trocistas, nos quais eu não me incluía, mas não tinha ainda a idade nem o sizo para saber como me opor com eficácia…talvez até alguma cobardia, punham-se à volta dele e vinha uma estaladona de um lado; quando virava a cabeça para ver quem tinha feito levava outra estaladona do outro e assim sucessivamente sem se defender até que os bullyonistas ( nessa altura eram malvados) se cansassem.

Ele chorava e um dia atreveu-se a contar à professora. Sei que o Sálvio nunca mais foi visto na escola.

Ora às vezes somos um pouco de Sálvios, pois a nossa vida não tem EQULÍBRIO com que titulei esta pequena nota.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Conversa



Agora falando a sério: estou na sala na minha cómoda cadeira de leitura. Tenho os headphones ligados pelo blootooth à Smooth inglesa. Óptima música.
Já estive a ler uma hora e agora apetece-me escrever um pouco. Sintéticamente:
1. Gosto do bom tempo da primavera e da luz e da natureza a despontar. Sinto-me melhor por dentro e por fora;
2. Tenho-me dedicado a terceiros cansativos, neste caso os meus africanos serra-leonenses, muitas vezes burrinhos e primitivos e causando-me perda de tempo para outras coisas mais interessantes;
3. Nem sempre os meus negócios internacionais são fáceis e os interlocutores sérios ou competentes. Por isso ser bem sucedido não é fácil;
4. Tenho melhorado em humildade e muito no julgamento dos outros;
5. Nem sempre consigo ser um bom chefe-de-família como refere o Código Civil dando como exemplo para o bom comportamento civil;
6. Vou tendo cada vez menos paciência para pessoas radicais e intolerantes quer na política quer na vida;
7. Vou apreciando-me mais com prazer como dizia o Bukovsky, ou seja gostando de estar comigo;
8. Não se trata de egocentrismo nem de narcisismo ou egoísmo e os outros "ismos" mas de FELICIDADE, pelo menos a bit of;
9. Gosto da beleza feminina e masculina, do bom gosto e da boa educação, de silêncio, de pensar, de amar e de me entregar. Sou muito sensual e imaginativo: daria um bom desenhador de temas eróticos, muito originais e quiçá chocantes. Para além de desenhador seria um bom actor do amor e no palco. Adorava ter representado o Bourgeois Gentilhomme do Molière;
10. Gosto de gente diferente, interessante e culta, divertida, malandra. Sou um contador de estórias de fazer córar o Casanova ou o Vilhena!!!
11. O sexo é para mim mais importante que o amor;
12. Pode-se verdadeiramente gostar de cães, cavalos, gatos, cágados e mais dificilmente de pessoas;
13. O amor tem que ser complementar ao sexo, silencioso e activo, com música de fundo depois de uns copos e de movimentos soft e de repente felinos;
14. Claro, vem a idade e depois dos 50 há que aproveitar estes arroubos sem estatísticas! Podem-se ver uns olhos lindos na praia e logo ali fazer amor sem a formalidade do Carlton de Cannes!
15. Viajar com luxo é do melhor. Qual quê de mochilas às costas, nem quando era novo. Talvez fosse giro a poeira do caminho mas não há melhor do que bons lençóis bem cheirosos em colchões fundos aonde os nossos corpos nús se afundam para dormir ou amar;
Por hoje foi uma conversa convosco, livre como eu gosto.
Quem me tira a liberdade, torna-me num talibã feroz, mesmo.
Tenham sonhos sossegados.

(Extracto de "prosas dispersas" de Vicente Mais ou Menos de Souza

terça-feira, 19 de março de 2019

ALMOÇO NO CLUBE e PASSEIO PELA MEMÓRIA DO MEU PAI



ALMOÇO NO CLUBE e PASSEIO PELA MEMÓRIA DO MEU PAI

Entres os sócios normais estavam dois sócios muito novos de um Clube corresponente em Paris, mesmo no Champs-Elysées. Peixinhos da horta, sempre excelentes e ovos esclafados com ervilhas e entrecosto, queijos e doce, café, vinhos e Porto ou Moscatel. The usual thing.

Estive a conversar com eles até às 16h e depois saí e fui pela rota do sol até ao Guincho aonde parei num local tranquilo junto à estrada a olhar para o horizonte.

Foi dia do Pai, lembrei-me do meu e também dos meus filhos que me têm como Pai. Alguns deles entre sms ternurentos diziam que gostavam muito de mim. Eu retribuí o mimo, claro com o sentido de total verdade.

Ora nem sempre pensamos quando um dia morrermos se fomos sempre bons pais, maridos e até Filhos apesar de no meu caso ter tido essa boa consciência.

E estive num silêncio prolongado esmagado pela beleza da paisagem e da luz sem nada na cabeça...estes períodos de sossego do cérebro...e quando voltei à terra senti sobre as minhas costas o cansaço do trabalho que dá exercer o melhor que se sabe e pode estas funções familiares, aliás a todos quanto sejam responsáveis, de estar de "serviço" atento just in case e em famílias numerosas como a minha quer a descendente quer a de irmãos e irmãs há sempre qualquer detalhe que sobressalta a calmaria daquela e doutras tardes do Guincho.

Tenho para mim, que só com a nossa morte, por aquilo que sabemos por ver e assistir, virá um total desligamento das responsabilidades ou seja sossego e paz.

Será no meu caso quando tiver que ser e não tenho o menor medo nem apreensão, mas fica-se a matutar se é compreensível viver os anos que cada um vive, com luzes e sombras, alegrias e sofrimentos, vida dura e mais facilitada e acabar MESMO em cinza pó e nada, que num caixão de mogno ( na empresa americana de que fui Presidente em Portugal custava a módica quantia de 1.200 contos na altura ou num vaso armoreado, claro, em jaspe ou mármore, com umas cinzas inúteis.).
Se soubesse que era assim não tinha nascido neste planeta.

Ele parece que há outros muito mais interessantes.

Deixo os disparates e declaro aqui solenemente que gostei muito do meu Pai e que foi formidável, para mim e a família. Para os outros parece que também sim, but I couldn't care less.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Entrevista excelente de ALA à TVI



Ouvi de novo a entrevista do ALA (António Lobo Antunes) à TVI e para além de gostar do seu estilo non-chalant, mas dizendo verdades, fiquei a pensar que quando ele diz que já teve tudo, se formos modestos à nossa dimensão, e eu sou francamente mais novo do que ele, é a pura das verdades.
Quero eu isto dizer que, nas alusões que ele faz à morte nesta e noutras entrevistas em consequência do seu percurso atribulado de saúde, se morrêssemos amanhã, não fazíamos cá falta nem se calhar seria pior para nós.
Eu explico: cinza, pó e nada é pelo menos o que transparece de exumações de corpos em caixões iguais para toda a gente ou mais radical ainda se se é cremado. Com este nosso corpo, parece-me, não nos encontraremos numa eventual outra vida.
Por isso, na vida tal como a conhecemos, chega o momento da partida com mais ou menos sofrimento, com maior ou menor fama-  oh vã fama que se desfaz na espuma do tempo -, e passados poucos dias, quiçá uns dez…a vida continua para os que cá ficam.
Por isso gosto deste despreendimento do ALA em relação ao seu futuro, mas solidarizo-me com pensamentos e frases da intensidade da AMIZADE que ele qualifica entre os homens muito mais tranquila e forte. Com as mulheres é amor, com os homens também pode ser, mas sabemos bem o gozo que dá um jogo seja de futebol ou de ténis ou de rugby, uns copos a discutir entre o grupo de amigos, uma viagem de pack às costas pelos desertos e frondosos templos da humanidade. Não tem comparação e como ele tão bem diz, as mulheres não percebem esta cumplicidade.
Tenho pena se isto acaba no “paraíso” pois caçar umas perdizes, mesmo vá uns gambuzinos enche-nos de enorme gozo.
Mas porque raio será que NUNCA NINGUÉM nos veio dizer de que cores são os arco-íris, para ser genérico, vá!

quinta-feira, 7 de março de 2019

O PECADO DA TIA DO PENINHA ( FINAL)


O PECADO DA TIA DO PENINHA ( FINAL)

Umbelina, olhou ao redor da sala e sem fazer barulho sentou-se num sofá forrado a chintz e muito confortável. Ouvia as vozes dos cónegos a despedirem-se do Abade e sabia que dentro de minutos ele estaria ali.

Mulher de virtude teve uma pequena tontura de hesitação e ainda pensou em sair pela porta da cozinha e assim evitar a tentação do pecado que sabia haveria de cometer. Mas tinham sido tantos anos de solidão, de contenção da carne e de profunda admiração e porque não reconhecê-lo, de vontade de ter intimidades com o senhor Abade.

Este, entretanto, entrou na sala e dirigindo-se ao sofá, sentou-se ao lado de Umbelina. Agarrou-lhe a mão de mansinho e fazendo festas, foi-lhe dizendo:

- Com que então gostas do teu Abade? Só te fica bem pois é a minha função gostar de todas as ovelhinhas, talvez mais de umas do que de outras.

- Ó sr.Abade, fico assim sem jeito em estar aqui na sua casa e o que dirão se nos encontram juntos a esta hora? – disse Umbelina, chegando-se para a ponta do sofá.

O Abade levou a mão de Umbelina à boca e começou a dar-lhe beijos suaves e pequeninos, dizendo-lhe:
- Aproxima-te de mim, não tenhas medo, pois não te faço mal. Que bonita estás e que bem amanhada. Nunca te tinha visto assim.

Umbelina foi-se chegando e o Abade passou das mãos para os braços e de surpresa puxou-a para si e apertando-a forte, deu-lhe um beijo na boca.

Umbelina ia cedendo e correspondeu com paixão, retribuindo-lhe o beijo e de seguida enroscaram-se os dois no sofá.

O Abade olhava para o peito arfando de Umbelina e lançou-lhe as mãos com frenesi e apalpou-lhe os seios enquanto Umbelina, dizia, rendida, baixinho: - ó Sr. Abade!

Entretanto, tocaram à porta e o Abade endireitando-se e arranjando a batina, exclamou furioso:


- Quem se atreve a esta hora vir incomodar-me na minha própria casa? Irra que é demais, já não chega durante o dia e barafustando disse a Umbelina:
- Vai subindo para o quarto que já lá vou ter contigo. Mas não dês nas vistas.

Umbelina assim fez e foi nervosa subindo as escadas depois de se ter descalçado.

Ouviu o Abade, destrancar o ferrolho da porta e perguntar antes de abrir:

- Quem é? – e não podia ser com uma voz mais desabrida.
- Desculpe Sr. Abade, mas a minha mãe, a Felismina, está a morrer e pediu-me se o Sr.Abade lhe podia ir dar a extrema-unção antes que se fosse. Era um grande favor. – disse uma das vizinhas da Umbelina, a sra.Tomásia.

O Abade ainda lhe perguntou se era urgente e como ela lhe disse que já estava inconsciente teve medo que a criatura morresse sem o sacramento e ainda se viesse a saber a razão da sua recusa.

- Vá andando sra.Tomásia, que vou buscar o necessário e já lá vou ter.

Entrou, fechou a porta e indo ao pé das escadas que davam para o quarto disse baixo para a Umbelina:

- Tenho que ir dar a extrema-unção à Felismina, mãe da tua vizinha Tomásia e devo voltar tarde.
Se estiveres acordada conversamos, senão amanhã de manhã.

E saiu apressado para despachar a função.

Umbelina ficou triste mas como mulher de fé, não criticou o sr.Abade, ficou só com pena de não aproveitar o balanço em que já ia…. Sentou-se a folhear umas revistas antigas e o tempo foi passando e o sr.Abade não havia meio de chegar.

Lá pelo meio da noite Umbelina que só se deixara passar pelas brasas, sentiu o andar pesado do Abade a aproximar-se da casa e a porta abriu-se e ele entrou. Devia estar cansado, a sua figura de obeso e depois de um jantar bem regado, pedia-lhe cama e por isso nem tentou saber se Umbelina estava acordada.

Despiu-se e pôs-se em camisa de noite, enfiou um barrete de borla na cabeça e ficou de barriga para cima sem conseguir adormecer. Umbelina não lhe saía da cabeça.

Umbelina sentindo-o acordado, resolveu começar a despir-se lentamente e começou por tirar a saia de seda que tombou no chão pesadamente por ser rija.

O Abade estremeceu e prestou atenção ficando alerta.

De seguida tirou as calças de linho a meia perna que de novo roçaram o chão leve do quarto, e ficou só de calcinhas.

O Abade movia-se na cama e excitado dava mostras dessa agitação.

Umbelina tirou a parte de cima e ficou nua com os seios à mostra. Mexia-se com ligeiros gemidos que sabia terem eco no andar de baixo. O som da roupa a cair no chão causava ao Abade ideias pecaminosas, que o levavam a invocar alguns santos em seu auxílio, mas sem grande convicção!

O Abade transpirava e hesitava em subir, mas o peso, o sono e as escadas íngremes impediam-no de ser ágil e de ir ao seu encontro.

Umbelina, um pouco desapontada, cobriu-se e deitou-se também toda em efervescência nos sentidos, mas não se atreveu a descer. Ainda estava tudo no princípio.

Adormeceram os dois a sonhar com os corpos de cada um.

De manhã, na alvorada, a sra. Tomásia veio avisar o Abade que a mãe tinha morrido e que se esperava que o Abade presidisse ao funeral.

Assim que ele saiu acompanhado da sra. Tomásia, Umbelina vestiu-se e enroscada no xaile quente, tapando-lhe a vestimenta desusada para aquela hora da manhã, dirigiu-se a sua casa.

Lá chegada, foi para o quarto, tomou um banho de água quente na banheira e depois de se vestir de luto para acompanhar o velório da mãe da vizinha, ao passar pelo quarto do Peninha, sentiu-os a dormir e raciocinou – fizeram toda a noite aquilo que eu queria ter feito!

Tenho tempo, pensou e lá abalou para a igreja.

Yrina e o Peninha quando se despediram da Tia Umbelina, agradeceram-lhe muito a hospitalidade e prometeram voltar.

Peninha perguntou que tal tinha sido a ida a casa do sr. Abade com os cónegos.

A Tia Umbelina, respondeu-lhe: de muita devoção e orações, bem como conversas pias e no fim do jantar o sr.Abade foi chamado pela vizinha para vir dar os sacramentos à mãe morrente e ela tinha regressado a casa.

Grandes beijos e abraços e Yrina, ao ouvido disse-lhe: - agora que já sabe o caminho é ir sem hesitações, e piscou-lhe o olho.

E voltaram para Lisboa, não sem que no caminho, parassem no pinhal de Leiria e no meio do arvoredo, com o carro escondido entre a folhagem, se tenha ouvido gritos em ucraniano….presume-se que de guerra! Peninha cumprira o seu papel de portuguesinho valente.

Nota: apresentado este conto ao Arcebispado para a obtenção do NIHIL OBSTAT para publicação foi-lhe negado, por calúnias contra um ministro da Igreja.

As edições do jornal o Roubacense publicaram em fascículos com grande sucesso!