terça-feira, 19 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (2)



3ª f, dia 19 de Julho

Ontem vi um programa de televisão, o “Prós e Contras”, que me deixou muito inquieto. No meio de tudo o que disseram eminentes catedráticos, às tantas ouvi afirmar que até final de 2012 temos que pagar 23 mil milhões de Euros e logo a seguir até 2013, mais 24 mil milhões de Euros, mas atenção só em juros! Fora tudo o resto!

Anotei isto no meu diário para memória de futuro, as they say!

Esta manhã já me tinha esquecido por causa da danada da minha maleita, mas ao reabrir a página de ontem tive um calafrio…

Este é mesmo o país em que vivo, o qual me habituei a amar e a respeitar, a pátria de tantos que me antecederam e que eu admirei pelos seus feitos, uns modestos mas grandiosos na sua simplicidade de servir um ideal em que acreditavam, outros salvadores de invasões, gloriosos exploradores de novos mundos, mas todos querendo manter viva a chama de uma ideia de Nação aonde se pudesse crescer em paz e viver com valores.

Pois bem, neste momento, tudo isso está em perigo e não sei como acabará.

Registei para estar atento e compaginar mais tarde com o que nos acontecer.

Fui à FNAC do Chiado, aonde me arruíno a cada semana em livros, música e vários outros items e temo que num futuro breve até à cultura nos seja vedado o acesso!

Haverá outras prioridades: estou a ouvir dizer que não se comem livros nem cds nem dvds, mas sim queijo e fiambre e leite!

Procurava uns livros para as férias que se avizinham na Madeira, aonde a cada ano passo religiosamente uma semana, num apartamento de um excelente hotel que comprei em time-sharing. Dá para seis almas e vou sempre com a família.

Fantástica piscina, muito bem desenhada e agradável de se estar horas estendido a ler e a ronronar com o ipod em plena audição, bons mergulhos e nadadelas, reinação com os filhos, torneios de ping-pong em que apesar de maioritárias vitórias, já vou sendo batido pela descendência em poucos…jogos, idas ao mar, etc…

Experimento a cada ano novos restaurantes ao jantar com um grupo de fiéis amigos e devo confessar que os madeirenses são muito hospitaleiros, amáveis e prestáveis, e o serviço na restauração é de primeira qualidade. Para já não falar dos preços que são apelativos e competitivos.

O ano passado fui dar umas tacadas de golf, mas de facto é o lazer o que me atrai nestas férias. Talvez este ano recomece o ténis!

Pode-se frequentar o spa do hotel que tem tudo, desde massagens orientais a duche escocês, jacuzzi, sauna etc…

O meu país pode oferecer soluções de férias portuguesas e é nisso que neste momento devemos apostar.

Os livros escolhidos na FNAC foram cinco: “On China” do Henry Kissinger (voltei agora de Beijing e Shanghai e quero comparar a visão deste grande estadista), “ In Ishmael’s House” de Martin Gilbert ( quero saber mais por dentro sobre Israel que visitei já por duas vezes há uns anos e que adorei), “That summer in Sicily” de Marlena Blasi (adoro a Itália), “ The Grand Design” do Stephen Hawking e finalmente “Turkey” de Ozlem Tur ( é um país incontornável, como se diz agora, e é preciso estar atento com o devir).

Levo sempre poesia e este ano escolhi reler a Mensagem de Fernando Pessoa.

Como nota de alguma perplexidade para mim próprio, estou a adorar o iPad e nomeadamente a possibilidade de poder ler livros de grande porte.

No avião que me trouxe da China ao Ocidente e cuja viagem levou 13 horas, li um livro de 900 páginas sem ter dores nas mãos por pegar na lombada pesada….

Preocupa-me o que vou fazer aos 2.500 livros que tenho, dos quais já li uma boa parte, senti o cheiro das folhas misturado com a humidade, apalpei carinhosamente as capas, tomei-lhe as medidas e degustei-os página a página…

Mas como me esqueço de tudo de um dia para o outro, alguém há de velar por eles, um dia, somehow, somewhere…

(continua)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Diário de um desmemoriado (1)


Na consulta de neurocirurgia, o médico foi peremptório: teria a cada dia de manhã que fazer um reset do meu dia anterior, pois uma estranha doença afectou-me a memória e o sistema cognitivo fazendo-me reter o conhecimento do passado durante as horas do dia.

O sono apagava o registo de tudo quanto tinha acontecido nas últimas horas.

Naturalmente que fui para casa destroçado e perguntei-me como seria dali para a frente a minha vida: tantos projectos e sonhos, vida social intensa, família, amigos, emoções, sentimentos, afectividades, dor e sofrimento…

Tinha-me vindo a queixar que a cada manhã e nas últimas três semanas era como se fosse um apagão: varria-se-me tudo da lembrança!

Comprei um livro de muitas folhas, daquelas antigas de papel de embrulho de merceeiro com uma lista ao lado para se registar a data e depois à frente espaço para se escrever o que se comprou ou fez ou a fazer.

Começou assim um verdadeiro diário das horas de cada dia da minha vida e é um pouco disso de que vos venho falar e contar.

2ªf, dia 18 de Julho

Levantei-me cedo e estava um dia fresco e acinzentado. Havia, no entanto, um pouco de sol a espreitar de entre as nuvens.

Gosto destes pequenos-almoços ricos em detalhes. Aliás, quando viajo adoro os buffets copiosos dos hotéis. São cafés da manhã pantagruélicos.

Hoje fui buscar um copo grande que enchi de sumo de laranja, de umas sumarentas e doces que trouxe do monte.

É importante o tamanho do copo e a sua qualidade: de vidro muito grosso tira metade do prazer de se saborear o sumo. Além disso, tem que estar bem gelado para entrar nas goelas com voluptuosidade.

Bebo chá de manhã. Bons chás ingleses, chineses, indianos ou Gorreana.

Gosto de ter xícaras de bordo fino. Há hoje em dia umas de design com cores garridas. Também tenho outras que herdei e que são de Sévres, lindas e preciosas com uma decoração floral primorosa.

O bule é importante que seja grande (tenho de prata e modernos a dar com as xícaras) para que o chá possa abrir e manter-se quente. É maçador ter que se fazer refills, quando se está no meio da leitura do jornal. Gosto de um drop of milk no chá, mas também o bebo simples, sobretudo o de jasmim e sem açúcar.

Comprei há anos em Portobello Road, uns porta-torradas em prata inglesa que têm várias divisões e aonde se podem pôr várias fatias de pão quentinho sem também ter que haver interrupções.

Queijos, fiambres ou carnes frias, bem como uns três ou quatro jams (marmelade, de framboesa ou morango, apricot, de tomate ou mesmo de figo) são um deleite que a cada manhã se podem ir variando.

Quanto a manteiga é para mim um assunto firme: da verdadeira pois detesto aquelas que se parecem a graxa para sapatos...tipo floras e quejandas!

A terminar uma meia papaia madura, faz sempre bem.

A leitura de vários jornais mantém-me actualizado até à noite…por isso respigo as notícias principais que anoto no dito livro a que daqui em diante apelidarei de “Tombo”. Esta expressão, a que por exemplo entre outos deriva da “Torre do Tombo”, significa registo, arquivamento de documentos, papéis, acervos de assuntos vários.

(continua)

domingo, 17 de julho de 2011

À meia-noite o Mondego dorme mais ou menos dois minutos


À meia-noite o rio dorme
mais ou menos dois minutos
para nós é um tempo curto
para o Mondego é um tempo enorme

Contam os banhistas ao luar do Mondego que o rio, na hora grande da meia-noite, dorme durante dois minutos. É a hora em que a vida sossega e o mundo se recolhe: as cascatas interrompem a queda, a correnteza cessa. Os ribeiros aprendem desde cedo que não se deve acordar o rio durante o seu sono.

Nos dois minutos de sono do rio, os peixes aquietam-se, as cobras perdem o veneno e a mãe de água surge para pentear os cabelos das banhistas ao luar. Os que morreram afogados saem do fundo das águas em direcção às estrelas. Este sono do rio não deve ser, de nenhuma maneira, interrompido, sob pena de enlouquecer quem despertou as águas.

Tenho pensado no que os ribeiros ensinam sobre o descanso do rio e concluo que de vez em quando é mesmo necessário adormecer no tempo e sossegar como as águas.

O ritmo da nossa sociedade - marcado pelo fascínio das máquinas, o ruído dos motores, a precisão dos relógios, a velocidade das informações simultâneas e a procura feérica da felicidade - acelera a vida e desacostuma-nos dos homens. Tem os seus benefícios (não sou, definitivamente, um saudosista) mas anda perto da desumanidade.

Por isso é preciso, de vez em quando, adormecer como o rio ao abandono das horas, olhar a lua em águas paradas e abandonar os desatinos da felicidade.

O sono do Mondego, o desapego dos peixes e o silêncio das cascatas fazem-me pensar que a ideia da felicidade, da forma como a sociedade de consumo a concebe, é das coisas mais brutais que existem. Acha-se que se tem que ser bem sucedido no amor, no trabalho e nas relações pessoais. Precisa-se de viajar pelo menos duas vezes por ano, trocar de carro de quando em vez, não se pode ficar doente e não se pode conceber a morte.

Acontece que não é assim que o rio segue o seu leito e descansa ao fim do dia.

Como ninguém é capaz de atingir esta tal felicidade de “shopping centre” que é vendida por aí, formamos um bando de depressivos e infantilizados que não conseguem lidar com o fracasso e se entopem de remédios para dormir, acordar, trabalhar... Parece paradoxal, mas é isto mesmo: a expectativa da felicidade é uma fonte poderosa de angústias e depressões.

Que as margens do Mondego, portanto, me iluminem para que eu respeite o sono do rio, o repouso dos peixes e o voo dos afogados.

Este nosso mundo, de tão virtual, anda meio aluado - e eu quero cada vez ter mais tempo para adormecer no rio, aquietar os peixes, sossegar as cascatas, louvar os meus antepassados e encantar-me com a mãe de água a envaidecer as banhistas ao luar.

O homem das duas cabeças



Quando Ricardo nasceu, naturalmente que os seus pais bem como toda a família ficaram chocados e horrorizados e foi com perplexidade que aceitaram as explicações dos médicos que lhes comunicaram que não havia nada a fazer para separar as duas cabeças mas que tudo indicava que poderia vir a ter uma vida normal e até escolher que cabeça usar conforme as circunstâncias. Iria assim ter uma dupla personalidade, com o mesmo corpo.

Foi crescendo e ia tendo os problemas que se calcula pela inusitada situação em que se encontrava mas a pouco e pouco foi deixando de ser falado e passou a gozar de uma certa tranquilidade. O pequeno mundo da sua aldeia aceitou-o e todas as vezes que algum estranho se deslocava propositadamente para o encontrar, era mal recebido.

Ricardo tinha vindo a constatar como era cómodo ter duas cabeças e descobrira o prazer da sua dupla vida.

Manifestamente criara com uma delas um carácter mais propenso à ponderação, ao estudo e ao amor à natureza. Tinha prazer em pastorear os rebanhos do seu pai, gostava de uma vida saudável e simples e ficava horas sozinho sentado no campo por debaixo de um chaparro à conversa com a outra cabeça.

Estouvada, sensual, muito mais aberta e com curiosidade em explorar o mundo para fora da aldeia, a outra cabeça lia os jornais no café, sabia de futebol, da guerra e da paz, de sexo, e sonhava sair dali.

Eram estas as disputas entre as duas cabeças que acabavam sempre com a cedência da mais progressista em esperar pelo tempo certo para dissuadir a outra em partir, nem que fosse para uma experiência temporária.

Um dia apareceu na aldeia a Júlia que tinha voltado da França com os pais, emigrantes endinheirados, que com a crise global tinham preferido com os aforros obtidos em dezenas de anos fora, regressar às origens.

Júlia era uma rapariga moderna, experimentara a vida de um país como a França, namorara, vestia-se diferentemente das outras raparigas da aldeia, pintava-se, era garrida e provocadora. Tinha alguns estudos e passava o tempo a fumar com um ar dengoso e a ouvir músicas que Ricardo nunca ouvira num ipod que lhe pendia da cintura fina com umas ancas bem feitas e um peito de rola rechonchudo e formosíssimo.

A princípio ficara estacada e sem palavras quando topou a primeira vez com Ricardo e olhava com surpresa para as duas cabeças, mas quando ouviu uma voz simpática e agradável dizer-lhe os bons dias e apresentar-se, respondeu a todas as perguntas e reparou que para além das duas cabeças, era um rapaz muito atraente com uma bela figura e com um corpo muito bem feito.

Em casa, Júlia comentou ao jantar com os pais o encontro com Ricardo e foi-lhe dito que era um caso estranho da ciência e que todos na aldeia o respeitavam mas que não sabiam lidar muito bem com a situação pois ninguém jamais tivera uma experiência semelhante, parece mesmo que a nível nacional e internacional. Aconselharam-na a ser prudente e a não criar grandes intimidades, pois não levaria a nenhum destino.

A cabeça campestre de Ricardo ouvia a sua outra cabeça falar com entusiasmo de Júlia, como a achara excitante e moderna com hábitos diversos dos da aldeia: achava mesmo que valia a pena adiar a partida para a cidade e explorar este novo conhecimento.

Júlia veio em passeio para os lados aonde estava Ricardo e a cabeça mais rural encetou conversa com ela e foi-lhe mostrando as ovelhas e os pastos e a riqueza dos campos e perguntando-lhe se na terra aonde ela viveu tinha tido a ocasião de estar assim com simplicidade em contacto com a natureza, e ela encantada com a beleza do dia e da paisagem foi conversando e durou até ao entardecer. Ricardo perguntou-lhe se a podia acompanhar até à entrada da aldeia e ela assentiu com agrado e despediram-se, combinando no dia seguinte repetirem o passeio para outros lados que ele lhe descreveu como de grande bucolismo.

À noite a conversa entre as duas cabeças foi menos pacífica pois a cabeça citadina não gostou nada dos avanços da outra e exigiu que no dia seguinte fosse ele a ir buscá-la a casa e a experimentar o ipod, ouvindo as músicas e a passear pelas ruas da aldeia e até convidá-la a ir tomar um café à pastelaria Central.

Ricardo começara, estranhamente, a sentir nas suas duas cabeças e ao mesmo tempo um sentimento estranho em relação a Júlia: uma sensação interior de qualquer coisa mais do que interesse, mas de formas diferentes consoante fosse uma cabeça ou outra.

O corpo respondia univocamente com sensualidade e com desejo em explorar o contacto com Júlia mas o que encarava como entusiasmo, talvez até como um princípio de paixão manifestava-se de forma diferente.

Júlia não era insensível ao namoro que Ricardo lhe fazia cada dia e ficava um pouco perturbada quando se apercebia que nem sempre havia uma continuidade de personalidade como se – a ideia passara-lhe pela mente – cada cabeça pensasse e agisse diferentemente, ainda que no mesmo corpo.

Tinham combinado ir no dia seguinte de manhãzinha lá para os lados do rio aonde havia um antigo moinho abandonado e Ricardo prometera-lhe que lhe explicaria como se moía o trigo ou o centeio para fazer a farinha para o pão.

O tempo acordou ameno e foi passando e Júlia ia estranhando o atraso de Ricardo e já o sol ia alto e nada de notícias. Resolveu sair de casa e foi perguntando aqui e ali se o tinham visto e recebia respostas negativas.

Inquiriu qual era o caminho para o velho moinho e para lá se dirigiu um pouco assustada por ir sozinha e ao chegar não encontrando ninguém cá fora, sentou-se desanimada. Não sabia de facto o que fazer!

Subitamente, junto aos pés começou a notar que escorria um fio de sangue fresco que vinha de dentro do moinho e com o coração apertado aproximou-se da entrada.

O acesso era esconso, mas uma vez lá dentro habituou-se à luz da sala do moleiro e foi com horror que deparou com um cenário dantesco, dando um grito agudo e sentindo-se a perder os sentidos.

A pedra redonda do moinho em vez de trigo ou de centeio, tinha, desta vez, pisado um corpo que ela de imediato reconheceu como sendo o de Ricardo, escorrendo o sangue das suas duas cabeças que jaziam, esmagadas, debaixo da mó.

MNA

quarta-feira, 13 de julho de 2011

basta o essencial



Contei os meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma taça de cerejas.

As primeiras, chupa displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer de árbitro de desafectos que discutiram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coro da orquestra.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, a minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na taça, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que saiba rir dos seus tropeços, que não se encante com triunfos, que não se considere eleita antes da hora, que não fuja da sua mortalidade,

Quero caminhar perto de coisas e de pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade

espelho embaciado


Embaciados os gestos
Que um dia me fizeram sorrir .

Escolho os meus amigos pela pupila


Escolho os meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.

Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Deles não quero resposta, quero o meu avesso.

Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.

Um amigo que não me acompanha no rir não sabe sofrer em conjunto comigo.

Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.

Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois vendo-os loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Memórias do cárcere (14) o assédio gay na cela


Zeca veio dizer-me na cantina ao pequeno-almoço, que se eu quisesse me arranjava um telemóvel, mas que custava € 2,500, sendo uma parte para o guarda e outra para ele.

Achei uma boa ideia pois dinheiro era o que não me faltava e assim sempre poderia contactar com o exterior.

- Mas não é completamente proibido? Como consigo esconder, quando há rusgas nas celas todas as semanas? – perguntei incrédulo a Zeca.

- A tua cama durante o dia fica para cima para a parede para dar mais espaço ao quarto. Ora as dobradiças, estão aparafusadas à única superfície de madeira em toda a cela. É aí que as desaparafusas, levantas as tábuas e cavas por debaixo com uma colher de aço que roubas aqui na cantina até fazeres um buraco aonde caiba o telemóvel. Escondes todos os dias nesse espaço. Dá maçada e trabalho mas é o único sítio seguro – disse Zeca com um ar sabedor.

- Não estou a perceber bem e se queres que te diga, assusta-me a ideia. E se me descobrem? – disse eu bastante assustado.

- Vou lá contigo agora antes do recreio mostrar-te o sítio, queres? – ofereceu-se Zeca.

- Bora lá – acrescentei muito curioso, pois este tipo de esperteza era totalmente desconhecida do meu espírito boémio.

Tinha ouvido dizer que Zeca era homossexual e se metia com os guardas a troco de favores. Alguns prisioneiros abusavam sexualmente dele e por isso era um tipo inseguro, mas muito prestável.

Tinha uns olhos azuis cristalinos e um cabelo loiro ralo e cortado fininho, com um corpo amaneirado e bem cuidado. No entanto era um homem firme de aspecto e com um ar agradável.

Chegados à cela, fechou a porta e disse-me que precisava que eu o ajudasse a puxar a cama para cima, o que fiz, e nesse acto as suas mãos tocaram nas minhas e pousaram alguns segundos afagando-me. Olhou-me com uma ar doce e passou-me o braço pelo pescoço atraindo-me para um beijo na boca.

Serenamente afastei-o e disse-lhe que respeitava a sua orientação sexual e que não era por isso que deixaria de continuar a falar-lhe, mas que não estava interessado em homens e portanto não valeria a pena acalentar esperanças de cedências da minha parte.

Ficou muito triste e começou a chorar baixinho, dizendo-me que desde que eu chegara logo simpatizara comigo e me achava com carácter e muito seguro. Sonhava em fazer sexo comigo e esta tentativa era porque não aguentara mais e precisava de me dizer que estava apaixonado por mim.

Tive um movimento de alguma repulsa interior, que não manifestei, e senti vontade de um enorme bocejo!

A última coisa que me apetecia era ter um apaixonado na prisão. Seria persistente, intimista e faria tudo para me conquistar e eu tinha os meus sentidos a precisar de uma grande fornicação com mulheres.

Masturbava-me vezes sem conta e sonhava com aqueles corpos africanos, redondinhos e generosos e com aquele calor interior que me levava ao êxtase!

Perguntei-lhe como é que os outros presos heterossexuais, satisfaziam as suas necessidades biológicas.

Ele respondeu-me indiferente que muitos se tornavam homo e que eram activos com outros homens.

Também acrescentou que uma vez por semana, os presos casados, eram autorizados a dormir com as mulheres em celas separadas.

Achei uma excelente sugestão e perguntei-lhe se tinham que ser mesmo casados….ele riu-se e disse-me que se eu quisesse uma puta ele arranjava! Tudo se conseguia ali, desde que houvesse massaroca!

Já estava mais contente na perspectiva de me agradar e creio, percebeu, que para além de vir a ganhar a sua comissão na angariação de uma mulher para mim, as suas esperanças quanto ao meu sucumbimento amoroso por ele, estavam definitivamente afastadas.

Agarrei-me ao pescoço dele de contentamento e dei-lhe um beijinho repenicado na bochecha da cara! Ficou pasmado pela surpresa do inesperado.

- Arranja-me a melhor puta que puderes para amanhã, logo, agora, ouviste! – e parti para o recreio como uma criança feliz.

(continua)

terça-feira, 12 de julho de 2011

O nosso país - Vamos fazer disto um bijou!


A relação dos portugueses com Portugal é um pouco assim. Desvirtuar o país, comparando-o com a suposta grandeza de outros, faz parte, desde há gerações, da cultura nacional.

Suponho que para um estrangeiro isto possa confundir-se com desamor. Grave equívoco: para um português, maldizer a pátria é uma forma superior de patriotismo.

Tudo isto está n' Os Maias: oiçamos João da Ega, cruel alter ego do autor: "Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos da alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas... Nós julgamo-nos civilizados como os negros de S. Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe."

Uma outra personagem vai mais longe: "Querem dizer agora que isto por fim não é pior que a Bulgária. Histórias! Nunca houve uma choldra assim no universo!"

E no entanto, a determinada altura, o próprio Ega reconsidera, num súbito entusiasmo nacionalista: "Clamamos por aí, em botequins e livros, 'que o país é uma choldra'. Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas ideias?... Vossa excelência não conhece este país, minha senhora. É admirável! É uma pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questão toda está em quem a trabalha. Até aqui a cera tem estado em mãos brutas, banais, toscas, reles, rotineiras... É necessário pô-la em mãos de artistas, nas nossas. Vamos fazer disto um bijou!"

How to behave like a Gentleman



The great error into which nearly all foreigners and most Americans fall, who write or speak of society, arises from confounding the political with the social system.

In most other countries, in England, France, and all those nations whose government is monarchical or aristocratic, these systems are indeed similar. Society is there intimately connected with the government, and the distinctions in one are the origin of gradations in the other.

The chief part of the society of the kingdom is assembled in the capital, and the same persons who legislate for the country legislate also for it.

But in America the two systems are totally unconnected, and altogether different in character. In remodelling the form of the administration, society remained unrepublican. There is perfect freedom of political privilege, all are the same upon the hustings, or at a political meeting; but this equality does not extend to the drawing−room or the parlour.

None are excluded from the highest councils of the nation, but it does not follow that all can enter into the highest ranks, of society. And the explanation may perhaps be found in the fact which we hate mentioned above. There being there less danger of permanent disarrangement or confusion of ranks by the occasional admission of the low−born aspirant, there does not exist the same necessity for a jealous guarding of the barriers as there does here. The distinction of classes, also, after the first or second, is actually more clearly defined, and more rigidly observed in America, than in any country of Europe. Persons unaccustomed to look searchingly at these matters, may be surprised to hear it; but we know from observation, that there are among the respectable, in any city of the United States, at least ten distinct ranks.

We cannot, of course, here point them out, because we could not do it without mentioning names.

Every man is naturally desirous of finding entrance into the best society of his country, and it becomes therefore a matter of importance to ascertain what qualifications are demanded for admittance.

A writer who is popularly unpopular, has remarked, that the test of standing in Boston, is literary eminence; in New York, wealth; and in Philadelphia, purity of blood.

To this remark, we can only oppose our opinion, that none of these are indispensable, and none of them sufficient. The society of this country, unlike that of England, does not court literary talent.

Whatever may be the accomplishments necessary to render one capable of reaching the highest platform of social eminence, and it is not easy to define clearly what they are, there is one thing, and one alone, which will enable any man to retain his station there; and that is, GOOD BREEDING.

Without it, we believe that literature, wealth, and even blood, will be unsuccessful.

Refined manners are like refined style which Cicero compares to the colour of the cheeks, which is not acquired by sudden or violent exposure to heat, but by continual walking in the sun.

Good manners can certainly only be acquired by much usage in good company. But there are a number of little forms, imperiously enacted by custom, which may be taught in this manner, and the conscious ignorance of which often prevents persons from going into company at all.

These forms may be abundantly absurd, but still they must be attended to; for one half the world does and always will observe them, and the other half is at a great disadvantage if it does not. Intercourse is constantly taking place, and an awkward man of letters, in the society of a polished man of the world, is like a strong man contending with a skilful fencer.

Some of the many errors which are liable to be committed through ignorance of usage, are pleasantly pointed out in the following story, which is related by a French writer.

The Abb, Cosson, professor in the College Mazarin, thoroughly accomplished in the art of teaching, saturated with Greek, Latin, and literature, considered himself a perfect well of science: he had no conception that a man who knew all Persius and Horace by heart could possibly commit an error above all, an error at table.

But it was not long before he discovered his mistake. One day, after dining with the Abb, de Radonvillers at Versailles, in company with several courtiers and marshals of France, he was boasting of the rare acquaintance with etiquette and custom which he had exhibited at dinner.

The Abb, Delille, who heard this eulogy upon his own conduct, interrupted his harangue, by offering to wager that he had committed at least a hundred improprieties at the table. "How is it possible!" exclaimed Cosson. "I did exactly like the rest of the company."

"What absurdity!" said the other. "You did a thousand things which no one else did. First, when you sat down at the table, what did you do with your napkin?"

"My napkin? Why just what every body else did with theirs.

I unfolded it entire]y, and fastened it to my buttonhole." "Well, my dear friend," said Delille, "you were the only one that did that, at all events. No one hangs up his napkin in that style; they are contented with placing it on their knees.

And what did you, do when you took your soup?"

"Like the others, I believe. I took my spoon in one hand, and my fork in the other"

"Your fork! Who ever eat soup with a fork?

But to proceed; after your soup, what did you eat?"

"A fresh egg."

"And what did you do with the shell?"

"Handed it to the servant who stood behind my chair."

"With out breaking it?"

"Without breaking it, of course."

"Well, my dear Abb,, nobody ever eats an egg without breaking the shell. And after your egg?"

"I asked the Abb, Radonvillers to send me a piece of the hen near him."

"Bless my soul! a piece of the hen? You never speak of hens excepting in the barn−yard. You should have asked for fowl or chicken. But you say nothing of your mode of drinking."

"Like all the rest, I asked for claret and champagne."

"Let me inform you, then, that persons always ask for claret wine and champagne wine. But, tell me, how did you eat your bread?"

"Surely I did that properly. I cut it with my knife, in the most regular manner possible."

"Bread should always be broken, not cut.

But the coffee, how did you manage it?"

"It was rather too hot, and I poured a little of it into my saucer."

"Well, you committed here the greatest fault of all. You should never pour your coffee into the
saucer, but always drink it from the cup."

The poor Abb, was confounded. He felt that though one might be master of the seven sciences, yet that there was another species of knowledge which, if less dignified, was equally important.

A Leitura como forma de regeneração dos presos


Um dia destes vi numa reportagem televisiva, que numa cadeia algures, desde há muitos anos que não há nenhuma rebelião. E uma das razões seria o resultado de um acordo entre a direcção da cadeia e uma biblioteca itinerante que, quinzenalmente, envia um funcionário para emprestar livros aos que estão confinados na cadeia. Bíblias, ficção científica, romances, poesia, contos, histórias juvenis e infantis, banda desenhada e o Código Penal (muitos presos estudam os dispositivos legais aplicáveis às suas sentenças), histórias verídicas, biografias, para todos os gostos.

E todos esses livros e revistas são devolvidos no prazo combinado e quase sempre em óptimo estado.

A reportagem mostrou exemplares deteriorados pela acção do tempo e do manuseamento, pois muitas pessoas têm por hábito molhar os dedos para virar as páginas, mas estão lá, inteiros, os livros. Livros lidos.

Não pretendo discutir o sistema prisional português, sei apenas que funciona muito mal, tem uma população exagerada confinada em espaços mínimos, tratada pior do que gado e, para muitos, é a verdadeira escola do crime.

Entretanto, a atitude da direcção desta cadeia, e também da biblioteca, vem conseguindo um resultado bastante positivo: levar ao preso um pouco de Conhecimento.

Um dos entrevistados, disse que são poucos os que saem desta prisão, que voltam a reincidir no crime.

Esta cadeia devia ser mais conhecida: avaliada. Talvez pudesse servir de exemplo para a reeducação e reintegração social dos condenados do nosso país.

Lembro-me de um filme americano (creio que se chamava - Um Sonho de Liberdade) aonde, numa prisão de segurança máxima, havia uma escassa biblioteca, e um preso empreendeu todos os esforços burocráticos para melhorá-la; depois, quando finalmente começou a receber doações das editoras, ia de cela em cela levando e recolhendo livros.

A Leitura pode mudar a vida de qualquer pessoa. Para melhor ou pior, é verdade. Mas esta é uma outra conversa. Os jornais mostram todos os dias notícias de gente que leu muito na vida e que praticou crimes que dariam condenações de séculos; mas, estão aí, livres...

O importante, penso e acredito, é que a Leitura permite ao leitor preso um acesso maior à reflexão interior, já que tempo é o que mais tem, e a obter das palavras impressas a capacidade de discernir melhor (e compreender as diferenças) entre o bem e o mal, a motivar-se pessoalmente para encarar a vida fora das “jaulas” aonde foram empilhados, como se não fossem seres humanos.

Imagino a angústia de uma pessoa saudável que, por estar a cumprir uma sentença, pouco vê o sol e, pior ainda, tendo que passar dia após dia dentro das grades, sem ter que fazer; não pensa senão em asneiras.

Não tenho a ilusão de que o livro, apenas o livro, regenere alguém. Mas sei que a Leitura é muito capaz para, em muitos casos, como o desta cadeia, ser um primeiro passo para a reeducação de pessoas.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Memórias do cárcere (13) o assassinato


Márcia lá ia todos os dias para o Hotel Polana, bem arreada com vestidos ousados, belas jóias que eu, tolo, lhe tinha comprado, e quando se despedia de manhã, piscava-me o olho! Era desesperante e eu já não sabia se era de troça, de cumplicidade ou de provocação.

Cada vez estava mais apaixonado e desejava-a quando a via sair de saias travadas salientando um rabinho bem feito e mostrando, generosa, uns alvos peitos que se viam, indecentemente e sem soutien, até aos bicos.

Não tinha coragem de a ir visitar, pois era dar parte de fraco, mostrar ter ciúmes, desconfiar! Mas ficava enraivecido em casa, a pensar que outros homens a miravam com apreço dos pés à cabeça, se aproximavam só para a cortejar e quem sabe, fazendo-lhe propostas tentadoras.

Decidi comprar-lhe um carro pequeno que não desse nas vistas: o pretexto seria não gastar mais dinheiro do muito que já tinha dispendido nos últimos tempos com roupas, jóias, perfumes, cabeleireiros, produtos de beleza, um pesadelo!

Já toda Lourenço Marques falava de a ver passar pelas ruas da cidade no Maserati a alta velocidade, de cabelos ao vento e já se murmurava que nem sempre o fazia sozinha, pois os meus amigos já a tinham visto com outros acompanhantes masculinos lá para o pé das dunas!

Falei-lhe sobre isso e ela riu com aquela boca sensual tão gostosa, pondo a cabeça para trás provocante, com o corpo na minha direcção e agarrando-me insinuante:

- O meu amor está com ciúmes! Que bom, é a prova que me adoras. Mas são Clientes estrangeiros e esporádicos do Hotel que me pedem para lhes mostrar a praia e eu vou. Tens que confiar, meu bebé – e conquistava-me de imediato e fazíamos amor como se ela só pensasse em mim.

Voltei ao meu Maserati e passava o tempo a beber em bares pela cidade. Era visto a meio da tarde a sair meio cambaleante e a voltar a casa, perigosamente aos zigue-zague, de tal maneira que a Polícia falou para o meu pai, avisando-o que se assim continuasse, iria ter sarilhos.

Os meus amigos íntimos constituíram uma embaixada e vieram visitar-me a casa dizendo que precisavam de falar comigo sobre um assunto sério. Temia que fosse sobre a Márcia, e assim foi.

Entretanto passaram-se meses e ela cada vez chegava mais tarde, rejeitava-me na cama e com sobranceria exigia-me mais dinheiro. Passei a odiá-la e a amá-la ao mesmo tempo!

A delegação vinha falar-me para que eu tomasse uma atitude, pois Márcia era vista com muitos homens e sabia-se que os frequentava, não sendo já só estrangeiros mas até alguns dos meus inimigos locais que se riam nas minhas costas. Propunham a habitual solução: que a largasse de vez e que a deixasse fazer a vida que ela quisesse.

Agradeci-lhes a franqueza e tomei uma decisão: vamos os dois sair por uns tempos de Lourenço Marques e viajar até à Europa, passando uns meses em Lisboa.

Quando Márcia regressou nessa noite já um pouco bebida, fui meiguinho e falei-lhe dos meus planos. Aceitou, estranhamente sem resistir e mostrou-se bem contente. Fomos para a cama enlaçados e voltei a sentir a Márcia de sempre.

- Olha Luis, o Ronaldo quer-me levar a dar uma volta na Europa para depois passarmos uns meses em Lisboa – disse Márcia ao seu amiguinho do coração.

- Calha-me bem, pois tenho coisas que fazer na Metrópole e assim como não nos conhecem como aqui, estaremos mais à vontade. Vê lá se te despachas na viagem à Europa, pretexta uma enxaqueca ou uma razão forte e volta depressa – disse Luis, com Márcia sentada no seu colo, meia despida, num quarto que tomara de aluguer permanente no Hotel Polana.

Voltámos de Paris para Lisboa após 2 dias insuportáveis de estadia, pois Márcia queixava-se de enjoos e tinha-me dado a entender que poderia ser por estar grávida. Fiquei entre o feliz e o desapontado por ter criado enormes expectativas nesta quase lua-de-mel que eu antevia como reparadora do passado recente em África.

Em Lisboa, vivíamos na casa dos meus avós, um palacete que ganhara o prémio Valmor, na Av. da República.

Márcia saía de manhã e só voltava à noite e não me dizia por onde tinha andado. Cada dia que passava fervilhava na minha mente um desejo de vingança por me ter atraiçoado e, achava, continuar a fazê-lo.

Demos um beijo longo, mas formal, nessa manhã antes de sair.

Depois, ela despediu-se de mim, sorrindo e piscando o olho, o que me pareceu falso mais uma vez.

Observei-a a atravessar a Av.da República e pedi a todos os santos para que um carro desrespeitasse o sinal e a atropelasse.

Mas, infelizmente, nenhum carro desrespeitou o sinal.

À noite quando voltou, estava bêbada e sonolenta e foi-se deitar.

Tinha já tudo programado: um fino lenço de seda para a estrangular, sem que antes a despisse toda e a abusasse até à exaustão.

A pistola a meu lado para me suicidar em seguida e o telefone com o número direccionado para a Polícia com uma mensagem pré-gravada, considerando-me culpado.

Aproximei-me com muito cuidado para não a acordar e de uma só vez, com um gesto seco, passei o lenço pelo pescoço e comecei a apertá-lo. Acordou espantada e olhando-me em pânico quis balbuciar umas palavras, calculo que de socorro ou de súplica. Amarrei-lhe as mãos e as pernas depois de a por quase sem fôlego para respirar e despia-a com gozo.

Apalpei-lhe o pescoço fino e macio de gata, desci para o peito que sempre me encantara, cheio, redondo e firme que tremia, fui avançando para baixo e penetrei-a muito, muito.

Estava com um lenço atado na boca, mas eu sentia o estertor do desespero.

Finalmente apertei o laço até lhe ver os olhos esbugalhados saírem das órbitas e num estremeção ficou hirta e morta.

Carreguei no botão do telefone e a mensagem partiu para a Polícia e quando apontei a pistola às têmporas, realizei com horror que não tinha balas. Procurei desesperado por todas as gavetas e apercebi-me que as tinha deixado em Moçambique.

A Polícia entrou e saí algemado e ainda deitei um último olhar frio e sem emoções para Márcia que jazia entre a cama e o chão já sem vida.

Convenhamos que ninguém gosta de um par de cornos. Eu não gosto, pelo menos!

(continua)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Memórias do cárcere (12) Márcia


Foram tempos de grande paixão.

Começámos a viver juntos e alugámos um apartamento esplendoroso no décimo segundo andar com uma vista deslumbrante sobre Lourenço Marques e perto da praia.

Deu brado a nossa ligação e passámos a vida a ser convidados para todo o lado: cocktails em casas sumptuosas, almoços, jantares com iguarias finas e também em restaurantes da moda, fins-de-semana na selva….enfim, uma vida social intensa e muito pouco virada para nós.

Fazíamos amor esporadicamente, ou melhor, eu queria uma vida mais íntima a dois e com maior frequência mas à Márcia raramente lhe apetecia pois vinha esfalfada das festas e um pouco bebida.

Comecei a reparar que quando se despedia de mim ou de alguém piscava um olho. Era um tique que me enervava. Ao princípio achei graça mas depois parecia-me uma pirulice. Delicadamente perguntei-lhe a razão e respondeu-me que desde miúda começara a fazê-lo e que tinha sempre agradado a toda a gente, e com uma gargalhada fresca partiu, sem antes deixar de me dar um beijo repenicado na cara!

Ao fim de uns dois meses extenuantes, tive uma longa conversa com ela e pedi-lhe que abrandasse o ritmo das saídas. Concordou e durante algumas semanas tornou-se meiguinha, fizemos amor loucamente como que a compensar o tempo de folia perdido e eu sentia-me verdadeiramente apaixonado e o homem mais feliz e orgulhoso de Lourenço Marques.

No descapotável e de cabelos ao vento passeávamos a alta velocidade pelas ruas e cafés e não havia descanso para os acenos e olhares com que éramos brindados.

Márcia disse-me uma manhã que tinha arranjado uma ocupação pois sentia-se fútil durante o dia sem nada para fazer. Tratava-se de ser relações públicas do Hotel Polana o que implicava, disse-me com uma voz de gatinha, ter que gastar mais dinheiro em vestidos, cabeleireiros, e até ter um carro para se movimentar.

Achei boa ideia e aceitei que pudesse usar o Maserati enquanto, com tempo, não se comprasse um carro, o que a tornou muito feliz e excitada.

Só começaria a trabalhar na semana seguinte por isso aproveitámos o tempo para estar juntos e ela quis-me compensar de tanta generosidade, entregando-se-me completamente.

Os meus pais detestavam-na: achavam-na uma oportunista que se queria aproveitar do meu dinheiro e estavam sempre a dizer-me que me arrependeria mais tarde. Eu ficava furioso e respondia indignado, defendendo-a.

É claro que a minha conta bancária teve que ser muito mais reforçada, pois as despesas com ela e os seus gastos eram como um saco sem fundo.

Nisso os meus pais nunca me limitaram, continuava a haver muito dinheiro e os bancos eram os primeiros a tentarem-me com cartões de crédito gold com plafonds ilimitados! Caí na asneira de dar um a Márcia e os saldos subiram em espiral.

Quando me queixava, ela sabiamente enroscava-se em mim e nesses dias eu atingia o êxtase com a ternura, fogosidade e sensualidade de Márcia.

Comecei a ouvir de uns amigos que ela já tinha dado cabo de várias fortunas, mas atribuí estes rumores a ciúmes e inveja.

Gastou-me um fortunão em novas roupas que foi comprar a Joanesburgo, mas deu como pretexto que era para que se soubesse como eu a tratava bem e como éramos tão unidos e felizes, sobretudo neste novo emprego aonde teria que contactar com clientes importantes, ricos e exigentes.

(continua)

sábado, 18 de junho de 2011

Só descansarei quando vir sair o sangue quente do teu corpo


Satânico é meu pensamento a teu respeito
e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão,
numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem.

A noite era quente e calma e eu estava em minha cama,
quando,sorrateiramente, te aproximaste.
Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor!

Percebendo minha aparente indiferença,
aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.

Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis
do que entre nós ocorreu durante a noite.

Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar.
Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força.
Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos.

Só descansarei quando vir sair o sangue quente do
teu corpo.

Só assim,livrar-me-ei de ti, mosquito Filho da Puta!

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Memórias do cárcere (11) o paraíso escondido do meu preceptor africano


Toda a costa do Niassa é preciosamente recortada em baías de grande beleza.

O Niassa é a zona dos grandes isolamentos e das grandes solidões, das grandes distâncias e dos grandes horizontes. Nenhuma outra paisagem nos dá, tão profundamente, a ideia da extensão e profundidade africanas — e em nenhuma outra também a África se mostra mais próxima da África do período lendário, que fez do grande Continente o mais bárbaro armazém de mistérios mundiais.

Aproximamo-nos da aldeia de Manuel Candeeiro de Deus, sede do gentio de Macuana, que, de alguma forma deu o nome às gentes que, em maior número, povoam esta face litoral: os macuas.

Mantêm-se as características solenes da paisagem e as várias faces das gentes macuas. Cajueiros, mangueiras em flor e embondeiros, abundam entre as espécies arbóreas. Os indígenas festejam a passagem do autocarro — eles alegres e vivos, rindo por todos os dentes, elas quase tímidas, muitas com as máscaras (de beleza).

Depois, a estrada, ora sobe a pequenas colinas onde o arvoredo se pega, ora desce a baixos enlameados onde o mar, sorrateiramente, se infiltra. Sucedem-se os pântanos e grandes calas vazias e salgadas. As queimadas passaram mas enegrecem mais o ambiente, tendo expulsado o verde da paisagem.

E por fim surge uma grande, imponente, baía, que vamos bordejando e nos faz esquecer as fealdades da terra.

Tudo nesta serra recatada e perdida em lonjuras do Niassa se junta para a tornar encantadora: o isolamento, a deliciosa movimentação do seu relevo, os seus silêncios profundos, uma espécie de virgindade selvagem, difícil, ainda quase inacessível — e, ao mesmo tempo, as suas paisagens frescas, os seus recantos de paraíso.

A subida é naturalmente difícil. Nada se construiu ou preparou para a facilitar. Há passagens em que temos de nos servir dos quatro membros, como os bichos. Mas todos os esforços e fadigas são constantemente suavizados pelo encanto do cenário — os vales atulhados de folhas e sombras, janelas entre ramos sobre horizontes azuis, fios de água cantando no silêncio, solenidade de penumbras, visões graciosas de antílopes, etc.

O calor é intenso, mesmo sob as ramadas que encobrem o sol por completo — mas a frescura das cores e das penumbras entra pelos olhos e suaviza os ardores da fornalha.

Chegamos ao pico às quatro horas da tarde. Marchávamos desde as seis da manhã — isto é, trepávamos, gatinhávamos.

E lá no alto — que maravilha... e que desolação!

Que maravilha a dos horizontes!

Tem-se a impressão de que se vê dali uma parte do planeta como se veria do espaço celeste, a milhares de metros da Terra. Uma grande, infinita, planície que se nos afigura lisa como uma bandeja. E, nessa bandeja os montes dispostos e situados como coisas estranhas, móveis, apenas arrumadas para se deslocarem para outros lugares.

Não há entre eles vales, nem ondas de terreno. Estão ali, puseram-nos ali, como se põem montes de areia ou cascalho numa eira.

Que desolação a presença dos homens! Uma casa sórdida, de pau a pique, quase sem cobertura — e 10 quase-palhotas igualmente sujas. Eram a única nota feia, rebarbativa, naquele cabeço de onde se contemplavam maravilhas.

Quando lhe perguntei como foram os seus pais ali parar, respondeu-me simplesmente:

— Buscaram o paraíso!

Não me atrevi a perguntar-lhe o que sabiam eles, da vida e dos costumes das estrelas.

(continua)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Memórias do cárcere (10) o Maserati Spyder descapotável


Não conseguia dormir. Vinham-me à cabeça dois pensamentos igualmente dolorosos: a minha companheira e a minha morte previsível, um dia!

Conhecia-a uma noite, numa festa do Polana. Estava no relvado à volta da piscina, rodeada de vários rapazes e conversava animadamente.

Nessa altura eu tinha acabado um namoro de 3 anos com uma péssima companhia, uma mulher linda mas perversa e inteligente. Estava cansado da relação e procurava sexo e tranquilidade.

Márcia, era pouco mais baixa do que eu, com uns cabelos longos caídos sobre os ombros e uma figura esguia e elegante. Vim a constatar que tinha olhos de cor de mel, um nariz perfeito, uma boca carnuda e um peito saliente e tentador bem como umas ancas muito bem delineadas.

Não descansei enquanto não ma apresentaram. Alguns dos que estavam no seu grupo do jardim, eram conhecidos “conquistadores” locais, endinheirados, ociosos e sem escrúpulos.

Olhou-me vagamente e quando lhe propus que fôssemos buscar uma bebida, acompanhou-me displicente.

Nessa altura, tinha um Maserati Spyder descapotável, com estofos de pele e de cor encarnada e confesso que fazia um sucesso danado! Loiro, de olhos azuis e com um corpinho bem tratado, tornei-me num Adónis barato, papando quem eu queria!

As minhas relações com os meus pais limitavam-se a conversas esporádicas sobre o reforço da minha conta bancária. Sentia tristeza no meu pai pelo afastamento a que o votava e ele refugiava-se cada vez mais em ausências prolongadas na selva.

A minha mãe, muito só, empreendera na bebida. Claro que os cocktails ajudavam e era raro não voltar a casa já com um valente grão na asa! Uma tristeza e decadência, mas cada vez havia mais dinheiro e de Lisboa vinham transferências chorudas do negócio do meu avô.

A vida transcorria assim gostosa, cheia e sem limites como só em Lourenço Marques dessa época se podia viver com dinheiro!

Tinha remorsos quando ao regressar tarde a casa, entrevia Manuel Candeeiro de Deus, que me olhava com uns olhos tristes e puros que me penetravam como se fossem punhais! Eu sabia que ele sabia que eu andava perdido e na asneira constante, sem rumo!

Fui mostrar o carro a Márcia e propus-lhe uma volta. Estava uma noite soberba, com um luar lindo e uma temperatura amena.

Ela estava com um vestido de seda curto e colado ao corpo deixando ver as formas esplendorosas. Eu tinha posto uma camisa de puro linho branco que brilhava na noite, com os botões abertos deixando entrever um peito peludo e firme e umas calças da mesma cor do carro. Cheirava bem, era de uma marca que punha as mulheres doidas!

Ouvi na igreja local baterem as 4 da manhã e mudei de agulha! Pensei que quando saísse da prisão, teria cuidado com a saúde pois não queria morrer doente e deprimido, dependente de alguém ou confinado a uma cama todo entubado.

A ideia da morte, esticadinho num caixão, pregado e envolto em chumbo sem poder sair nunca mais, fez-me vomitar….sem, aliás, ter muito para deitar fora! Foi um medo grande, um pavor e uma sensação de impotência que senti, ainda para mais enfiado nesta cela maldita, pequena e sem luz natural.

Era uma antevisão do que seria a pré-morte!

Adormeci exausto e abandonado, sem forças para lutar com a minha mente.

(continua)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Memórias do cárcere (9) a aldeia tribal


Partimos, Manuel Candeeiro de Deus e eu, numa madrugada daquelas de África aonde a terra ainda cheira à noite, de autocarro para a tão almejada visita à sua aldeia natal.

Os meus pais discordaram totalmente deste meu empreendimento até ao último minuto. Mandei Manuel dormir fora de casa na véspera para não ser confrontado com esta afronta. Viria ter comigo logo cedinho no dia seguinte. Acho que percebeu a intenção e disse-me mais tarde que ficara muito grato.

O meu pai, antes de se deitar foi ao meu quarto e deu-me alguns bons conselhos de experimentado pisteiro e ao beijar-me, desejou-me boa viagem. Não fez mais comentários. Senti que tinha compreendido no seu íntimo que esta minha amizade por Candeeiro de Deus era fruto do abandono a que me votavam e que tanto eu como o meu preceptor africano sabíamos o lugar de cada um, sem mais consequências.

Já a minha mãe tinha feito uma cena e dito que estava a tomar uma atitude impensável de alguém da nossa classe. O que diria a sociedade, os amigos e até o perigo para um branco de se aventurar no meio de uma aldeia nativa?

- Disparates ofensivos do pobre Manuel! Como se de repente se preocupassem pelo meu bem-estar! Nunca me ligaram bóia tendo sido ele o meu verdadeiro pai e mãe – disse enfadado e sem mais discussões.

No caminho, no autocarro fui fazendo perguntas sobre a vida na sua aldeia.

Disse-me que possuem uma maneira própria de organizar a vida. Entre eles tudo é dividido com o objectivo de fazer com que a aldeia funcione harmoniosamente. A divisão do trabalho, por exemplo, segue basicamente critérios de idade, sexo e acumulação de conhecimentos e de cultura.

Segundo me explicou Manuel Candeeiro de Deus as funções e divisão do trabalho na aldeia passa-se da seguinte maneira:

- Os homens adultos são responsáveis pela caça de animais selvagens. Devem garantir a protecção da aldeia e, se necessário, participarem e arbitrarem nas disputas com outras tribos. São os homens que também devem manejar as ferramentas, instrumentos de caça e pesca e a construção das casas.

- As mulheres adultas cuidam dos filhos, fornecendo-lhes alimentação e os cuidados necessários. Também cuidam da agricultura da aldeia, plantando e colhendo as culturas. As mulheres também devem fabricar objectos de cerâmica (vasos, potes, pratos) e preparar os alimentos para o consumo. Devem ainda apanhar os frutos, fabricar a farinha e tecer as redes de pesca (artesanato).

- As crianças, ou seja, os rapazes e raparigas da aldeia, também têm determinadas funções. As suas brincadeiras são orientadas para a aprendizagem prática das tarefas que deverão assumir quando adultos.

- Há o chefe político e administrativo que é experiente, devendo manter o bom funcionamento e a estrutura da aldeia.

- O curandeiro possui um grande conhecimento sobre a cultura e a religião da tribo. Conhece muito bem o poder das ervas medicinais e actua como uma espécie de “médico” da aldeia. Mantém as tradições e repassa-as oralmente aos mais novos. Os rituais religiosos também são organizados por ele.

Além de trabalharem, também se divertem. Fazem festas, danças e jogos. Porém, estas formas de divertimento possuem significados religiosos e sociais. De entre os jogos, por exemplo, destacam-se as lutas. Estas são realizadas como uma forma de treino para desenvolver a parte física.

(continua)

domingo, 12 de junho de 2011

Memórias do cárcere (8) o túnel


Numa das celas do meu corredor, vim a saber estar o Pe. Frederico, tido como pedófilo e acusado de homicídio.

A sua mãe visitava-o semanalmente e trazia-lhe dinheiro, guloseimas, boa comida e pequenas lembranças.

Um dos gangs,resolveu começar a sová-lo e a roubar-lhe sistematicamente tudo o que ele recebia e um dia, com bastante serenidade, queixou-se no pátio ao David.

Como bom bufo que era, David passou o recado ao gang rival que convocou o Pe. Frederico para um encontro discreto numa das salas da biblioteca da prisão.

- Olhe Sr. Pe. Frederico, não somos cá de pedofilias, e parece que nada foi provado mas acabou acusado da morte de um seu protegido, por ter caído de uma falésia. Nada temos com isso, o que não toleramos é roubos e violência. Fica nosso protegido. Só precisamos que nos diga quem são os reclusos que o assaltam e lhe batem – disse o chefe do gang.

- Muito agradecido pela vossa atitude, mas já aceitei que faz parte da minha pena. Não vou dizer os nomes pois tenho medo de represálias – respondeu o Pe. Frederico, em português do Brasil.

O chefe do gang franziu o sobrolho e disse zangado:

- Nós não aceitamos isso. Vai mesmo ter que nos dizer a identidade deles mas não se preocupe, porque fica fora disto. Se não o fizer, olhe que as chatices sobram para si.

O Pe. Frederico acabou por denunciar os seus agressores e voltou para a cela apavorado.

O acesso ao pátio faz-se por várias portas, mas sobretudo por uma espécie de túnel grande que permite a passagem de muitos presos em conjunto e em tropeção desejosos de ar livre.

Há uma certa escuridão no meio e nesse dia dois homens do gang que protegia o Pe. Frederico, colocaram-se de cada lado do túnel, armados com barras de ferro e quando os agressores passaram ao seu alcance, bateram-lhes com força nos queixos e nos joelhos.

Ouviram-se uns gritos de dor intensos e quando os guardas acorreram, depararam com dois reclusos contorcendo-se no chão numa poça de sangue, com os queixos desfeitos e com os joelhos partidos.

Nunca mais se ouviu falar de roubos ou pancada ao Pe. Frederico.

Tornou-se ainda mais discreto até que se soube que tinha fugido para o Brasil.

David contou-me esta história para enfatizar como era importante que eu aceitasse a protecção do gang do Ratinho.

Nessa noite, sonhei com África, com o planalto dos Macuas, com o meu preceptor Manuel Candeeiro de Deus e perguntei-me se um dia poderia também para lá fugir.

Acordei a meio da noite ensopado em suor. Estava uma temperatura tórrida e eu ali preso.

Olhei para as barras da janela e calculei que se atasse o lençol da cama às grades e me pendurasse com ele em volta do pescoço, com o meu peso, seria eficaz: um garrote perfeito para me enforcar!

(continua)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Memórias do cárcere (7) o chefe do gang


Mal nos abriram as portas das celas, avança para mim sorridente um homem dos seus 54 anos, que me estende a mão e se apresenta:

- Bom dia, sou o Ratinho.

- Eu sou o Ron – disse-lhe retribuindo o gesto.

Gostei da cara dele logo ali. Parecia um “gentleman dos bandidos”, bem entendido. Por alguma razão estaria lá!

- Vê-se que não és da chunga, o que vai sendo raro nesta prisão. Já me dirás o que fizeste, mas tenho urgência em falar contigo, primeiro porque és meu vizinho de cela e poderemos comunicar facilmente e depois porque tive uma baixa no meu grupo – acrescentou o Ratinho, cofiando uma barba surpreendentemente bem aparada e limpa.

Fomos tomar o pequeno-almoço à cantina e sentámo-nos numa mesa mais afastada dos outros reclusos. Vi uma data de olhos observarem-nos à nossa passagem, e percebi que o meu companheiro deveria, pelo menos, ser conhecido, senão respeitado. Já com o David, passei despercebido, o que viria a constatar mais tarde, ser uma grande vantagem.

- Sou o chefe de um gang aqui dentro. No meu grupo tenho condenados por crimes de todo o tipo, mas não aceito gajos da ralé, ou seja, têm que ser inteligentes e fiéis. Pagam com a morte os deslizes que cometerem e normalmente isso acontece mais com os ignorantes e os estúpidos. Tu tens cara de educado e esperto – comentou o Ratinho com uma voz decidida e sem pudor, como se estivesse a falar de tremoços!

- Sim, tenho um curso superior e tenho ética no que faço – disse-lhe sem hesitação.

- Precisas de um padrinho que te proteja e por outro lado terás que fazer algumas tarefas que eu te ordene e que sejam necessárias ao gang. Estás disposto a aceitar estas regras? – perguntou o meu vizinho de cela.

- Preciso primeiro de saber quais são as regras, quem és tu e quem são os outros membros do grupo e o que fizeram para aqui estarem, o tipo de actividades que me serão exigidas cumprir…e o que mais me ocorrer. Dá-me uns dias…aqui não há pressa! – acrescentei sem temor.

- Muito bem, tens até Sábado de manhã para te decidires. Depois de nos verem juntos serás abordado por outros gangs. Se quiseres, logo pela tardinha conversamos de novo no pátio e já te poderei responder a todas as tuas dúvidas e perguntas – e o Ratinho levantou-se e foi-se deixando-me sozinho.

De facto, David aproximou-se e sentou-se ao pé de mim.

- O Ratinho é um dos mais poderosos chefes dos gangs. Estás cheio de sorte em ele te ter contactado. Eu se fosse a ti aproveitava e aceitava o convite que ele seguramente te fez para ser teu padrinho. Ele tem lá fora uma bem sucedida rede de roubos de carros de topo de gama e mesmo estando aqui detido, ganha muito dinheiro. Compra os guardas e tem tudo o que quer – e David olhava para mim com algum respeito ao me dizer isto, creio que, por me ter visto com o meu futuro chefe!

- Posso ser-te muito útil se me quiseres aproveitar. Sou um bufo e sirvo aqui dentro vários gangs ao mesmo tempo, por isso sei sempre o que se passa em todo o lado. Só te exijo que me vás informando do que sabes e que de vez em quando me pagues o que eu te pedir. Será sempre proporcional aos serviços que te prestar. Verás que não te arrependerás – e com esta tirada se foi.

No pátio fui-me aproximando de um grupo de mais jovens que jogavam basquetebol á volta de um poste com uma rede e pus-me a olhá-los, mas no fundo fiquei apreensivo com tudo o que ouvira. Abria-se um novo mundo a que nunca estivera habituado no mundo lá fora.

Tinha que pensar muito seriamente os riscos que corria, mas não me ocorria nenhuma alternativa caso recusasse. De nervos, começaram a tremer-me as pernas e o corpo inteiro e fui escorregando até ao chão e desatei num pranto, soluçando alto.

Olharam vagamente para mim e ignoraram-me mas não conseguia controlar o meu mal-estar e aflição.

Senti um afago no ombro e alguém a pegar-me na mão fazendo festas suaves. De repente revi-me em África, em Lourenço Marques, à saída da minha escola no fim do dia, quando depois de uma luta sem tréguas com uns mais fortes que me maltrataram à séria, Manuel Candeeiro de Deus me apareceu a consolar e a levar-me de volta a casa.

- Vem, vamos para dentro. Acontece a todos nos primeiros tempos, não temas, verás que passa – e ajudando-me a levantar, abraçou-me e amparou-me até ao corredor da minha cela.

- Chamo-me José Maria, mas sou conhecido por Zeca.

(continua)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Memórias do cárcere (6) o meu preceptor africano


Manuel Candeeiro de Deus todas as manhãs me aprontava para a escola.

Era reconfortante ser acordado por uma voz quente e sobretudo por uma fiada de dentes brancos imaculados a sorrirem abertamente para mim.

A minha mãe estava sempre a dormir a essa hora. Ou porque tinha tido um cocktail ou um jantar até tarde na véspera, ou porque gostando de acordar pelo meio-dia, podia dar-se ao luxo de ter criados pretos em número suficiente para lhe tratarem da casa e nomeadamente o fiel Candeeiro de Deus para lhe olhar pelo filho.

Só quando voltava da escola pela tardinha é que encontrava a minha mãe. Às vezes nem isso pois ou era um chá social ou tinha ido às compras com as amigas.

No entanto, antes do meu jantar vinha sempre ao meu quarto dar-me um beijo, inquirir vagamente sobre os meus deveres escolares e tentar afectadamente dar-me algum carinho.

O meu pai, como já antes referi, estava muitas semanas ausentes na selva, mas quando vinha tentava compensar-me com uma presença assídua junto de mim. Abominava a vida social e fútil da minha mãe.

Mais tarde, já mais crescido, vim a constatar que tinham um acordo de vida em comum sem se hostilizarem, cada um pelo seu lado. Muito típico da boa sociedade colonial, especialmente a de Lourenço Marques.

A minha mãe tinha uns flirts com vários homens ricos e ociosos que a acompanhavam nos seus programas, jantares e festas, mas não passava disso. Nunca se ouviu falar de nada concreto nem mais ousado.

No caminho para a escola, o meu fiel preceptor falava-me de tudo. Em mais pequeno contava-me as histórias que todas as crianças gostavam de ouvir mas como estávamos em África, acabavam sempre por meter um leão chamado Shani, que no idioma macua significa « maravilhoso ».

Ora o Shani povoava os meus sonhos pois era valente, justo e bondoso para os animais indefesos que protegia contra os predadores. Claro que Candeeiro de Deus nos seus relatos valorizava o « amigo leão » ensinando-me a respeitar a natureza e os seres vivos da selva.

Um dia perguntei ao meu pai porque matava os animais, nomeadamente leões e elefantes, contando-lhe as histórias que ouvia e ele ficou furioso. Vim a saber que se zangou com o criado e o proibiu de me voltar a falar de tais assuntos.

Candeeiro de Deus, respeitador e obediente, mudou de temas e as histórias passaram a ser sobre a vida dos pretos nas aldeias da sua tribo bem como os seus hábitos e costumes.

Sentia-me tão perto dele, assimilando tão naturalmente toda a cultura e formação que me ia dando, que me pareceu natural pedir ao meu pai para ir passar umas férias na aldeia natal do meu preceptor.

Os meus pais falaram entre si e disseram-me redondamente que não, que era um disparate e que um filho de patrões brancos não acamaradava com criados pretos.

Isto passou-se quando eu já eu tinha os meus 15 anos tendo ficado indignado, revoltado e durante um mês não falei em casa, respondendo aos meus pais por grunhidos. Não se importaram muito, pois as vezes que com eles estive foram tão poucas, que acho que nem tomaram esta minha atitude como retaliação.

Uns anos mais tarde e já maior, decidi ir com Candeeiro de Deus passar um mês das minhas férias de verão à sua aldeia perto de Nampula.

Os Macuas - povo da floresta - são uma tribo de origem banta. Em tempos habitavam na zona dos Grandes Lagos (República Democrática do Congo). Depois deslocaram-se em direcção ao sul da África. Actualmente são o grupo étnico mais numeroso de Moçambique. Eles são um povo caracterizado pela sua inclinação natural para o sorriso, que se traduz muitas vezes em sonoras e prolongadas gargalhadas.

Para a tribo Macua, o sorriso é um sinal de amizade e de que se pode criar uma boa relação. Quando chega alguém que não conhecem, sorriem-lhe na mesma. Deste modo, ele saberá que não tem nada a temer. Os macuas recorrem também ao sorriso para apagar as ofensas. O ofendido, por sua vez, espera que aquele que o ofendeu lhe retribua outro sorriso para demonstrar que não queria ferir-lhe o coração. Basta um sorriso e acontecerá a reconciliação.

Tudo isto me foi dito por Manuel Candeeiro de Deus antes da minha partida.

(continua)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Memórias do cárcere (5) companheiros de cela


Falávamos baixinho, numa mesa da cantina que ficava num canto.

Estávamos só os dois.

David perguntou-me se eu tinha algum dinheiro para pagar.

- Pagar a quem? - perguntei-lhe admirado.

- Por enquanto não te digo, mas logo sentirás na pele – disse David muito cauteloso.

Falou-me dos guardas, da droga que circulava e que vinha de fora, dos castigos, dos bufos, dos gangs de diferentes origens e natureza, da vantagem em ter um protector, da partilha dos alimentos e trocas de bens, dos telemóveis escondidos, das revistas e vídeos pornográficos, da homossexualidade, dos planos de fuga, das visitas!

Nem uma só alusão a qualquer coisa de mais positivo.

Perguntei-lhe se não havia amizades feitas nos tempos de prisão, de solidariedades e fraternidades, de alguma paz, da tão falada reinserção social para o embate no regresso ao mundo lá fora no fim do cumprimento da pena…..

Nada sabia, nem tão pouco estava interessado!

Ficámos assim meios sem graça e voltei para o pátio sozinho. Ao deixar-me, comentou que eu iria ter problemas se não aderisse aos esquemas!

Quando recolhi à cela ainda era dia e pus-me em cima de um banco para olhar por de entre as grades da janela e só vi um pouco de céu azul, pois o parapeito era em rampa para cima para não permitir a visão do exterior.

Senti uma angústia terrível. A cabeça quase que rebentava e o pânico invadiu-me de novo. Suores frios, desequilíbrio, náuseas e perca de forças.

Chamei pelo guarda que apareceu no postigo e a quem disse que precisava de ir à enfermaria pois sentia-me mal.

Informou-me que ia falar com o superior e passado pouco tempo voltou, abriu a porta e acompanhou-me até ao gabinete do médico.

No percurso, reparei que havia várias salas de aulas e uma biblioteca com mesas e computadores. Pensei com algum ânimo, que era ali que tentaria passar a maior parte do tempo quando não estivesse enclausurado.

O médico dirigiu-se-me com um ar de rotina e sem transparecer qualquer emoção: dir-se-ia que tinha um enfado inato por estar sempre tão recluso quanto os prisioneiros, não tendo praticado, porém, qualquer acto que o justificasse.

Receitou-me Cipralex e umas pastilhas para dormir e mandou-me de volta.

Ao fechar-se a porta, ouvi na parede que dava para a cela contígua, como que um raspar com um objecto de metal, diria uma colher de ferro.

Julguei que eram alucinações, mas após alguns minutos o barulho continuava e pareciam sinais de morse.

Falei alto e perguntei se me ouvia. Fomos os dois para junto da porta de ferro de cada um e o meu companheiro sussurrou que queria logo de manhã falar comigo na cantina. Disse-lhe que sim e perguntei-lhe o nome.

Respondeu-me que era o Ratinho, nome por que era conhecido.

(continua)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Memórias do cárcere (4) passado


Nasci em Maio de 1972, em Lourenço Marques, hoje Maputo.

Soube pela minha mãe que uns meses depois do meu nascimento, já chilreava alegremente no fresco do entardecer num berço de teca forrado a cassa branca, na varanda ampla da casa dos meus pais, na Rua Ayres D'Ornelas.

O meu pai, Leopoldo de Aguiar era descendente dos primeiros colonos brancos de Moçambique. Orgulhava-se muito de conhecer a sua terra de lés a lés e raramente vinha à metrópole.

Aliás, a única vez em que se demoraria mais tempo foi por ocasião do seu casamento que se realizou em Melgaço, na casa senhorial da família da minha mãe.

Nem passara muito tempo em Lisboa, apenas o suficiente para mandar fazer um fraque – tinha sido a isso forçado pelo sogro, António Rodrigues Pereira, barão de Melgaço – e não lhe ficara grande vontade de deambular por uma cidade que nada lhe dizia e que tão pouco conhecia.

A minha mãe, era loira de olhos verdes, alta e esguia e de cor muito branca e nos primeiros tempos custou a adaptar-se ao sol tórrido de África.

Foram morar para uma casa colonial, com um grande jardim rodeando a ala principal, aonde residiam. Havia um grande anexo de criados na parte detrás.

O jardim era exuberante e tinha uma vegetação luxuriante com árvores seculares e flores, muitas flores com um colorido claro que contrastava com a cor avermelhada da terra.

No interior, a minha mãe tinha mobilado a casa com enorme requinte e comodidade. O meu avô materno, o dito barão, era muito rico pois os pais tenham feito grossa fortuna no Brasil. Tinham passado três gerações e uns quantos casamentos de conveniência com meninas de classes sociais mais altas, por isso fazia-lhes muita confusão aquele casamento desigual com um colono, que ainda por cima era guia de caçadores, nos trilhos africanos.

Conheceram-se, por pura casualidade.

O meu pai, quando estava na cidade ia muitas vezes jantar ao Hotel Polana, ou tomar uma bebida ao bar ou mesmo à piscina, que era frequentada por raparigas locais de famílias conhecidas ou de estrangeiras que vinham de férias da África do Sul.

Maria Alice, era o seu nome, sentia-se controlada pelos pais e propusera fazer uma viagem de barco às províncias ultramarinas. Não viram inconveniente e acharam que num bom paquete como era o “Principe Perfeito”, num camarote de luxo, poderia conhecer a bordo novas pessoas e divertir-se sem os riscos da vida meio dissipada que levava nas noites do Porto.

Havia um jovem industrial portuense, sem cheta mas muito bem parecido, que lhe arrastava a asa e temiam que se apaixonasse e com ele se quisesse casar sendo um pretendente que, tipicamente, só viria ao cheiro do seu dinheiro.

Nessa altura o meu pai tinha uma óptima figura, com a pele tisnada de nasceres e pôr de sóis no meio da savana, de travessias de selvas inóspitas com aventuras e caçadas cheias de desafios.

Sendo de uma família moçambicana conhecida e endinheirada, era muito requisitado pelas solteiras e casadas.

(continua)

Memórias do cárcere (3) a causa


Demos um beijo longo, mas formal.

Depois, ela despediu-se de mim, sorrindo e piscando o olho, o que me pareceu falso.

No princípio, eu adorava quando ela sorria e piscava o olho ao mesmo tempo, mas agora até isso me irritava.

Observei-a a atravessar a Av.da República e pedi a todos os santos para que um carro desrespeitasse o sinal e a atropelasse.

Quando estivesse a agonizar no asfalto, ensanguentada, eu pegar-lhe-ia ao colo, olharia nos seus olhos e dir-lhe-ia que fora a mulher da minha vida, e ela faria um último sorriso, e piscaria o olho, e diria que me amava.

Emocionado eu deixaria escorrer uma lágrima, uma só, que cairia sobre a sua cara e deslizaria até à nuca, e ficaria ali por uns instantes, quase a tocar no chão, quase a cair, como que um símbolo da sua vida a esvair-se, e quando a gota caísse, daria um último suspiro, bem forte, e engasgar-se-ia com o próprio sangue, contorcer-se-ia com as suas costelas partidas, soltaria um gemido de quem sabe que está a morrer, e morreria !

Uma morte poética, nos braços do marido que a amava, no meio da Av. da República, engarrafando o trânsito, com uma multidão a assistir, e talvez até a notícia fosse publicada no jornal do dia seguinte : seria uma morte bonita, e eu choraria durante dias e noites em claro a lembrar-me do nosso amor sem limites, e a minha cara incharia de tanto choro, de tanta tristeza, de tanto desgosto.

Espalharia por todo o lado que a minha vida não fazia mais sentido, que era melhor que Deus me tivesse levado !

Volveriam muitos dias até eu voltar ao trabalho, vários meses para correr de novo junto ao rio Tejo, e outros tantos para beber uns copos com os meus amigos e até a olhar para outra mulher, bonita, elegante, inteligente, que sorriria e piscaria o olho ao mesmo tempo !

Eu desejá-la-ia, seduzi-la-ia, amá-la-ia e poderia acontecer que pudesse até ser correspondido, e finalmente sentiria de novo o que por tantos anos me fora negado.

Mas, infelizmente, nenhum carro desrespeitou o sinal.

(continua)

Memórias do cárcere (2) o pátio


No primeiro dia em que fiquei confinado às quatro paredes da minha estreita cela, foi como se o céu se tivesse abatido sobre a minha cabeça.

Tive um momento de pânico e comecei a gritar sem parar, alto e desesperado. Ninguém parecia estar preocupado, pois nada aconteceu. Fiquei rouco de tanto berrar!

A pouco e pouco fui-me calando, cansado, perdido. Estranho, pensei. Pareceu-me que o pânico se fora: sentia que o dominara.

Fiquei em silêncio um bom par de horas, absorto e olhando para o vazio. Só a luz frágil de um pequeno candeeiro da mesa-de-cabeceira me sossegava do peso da escuridão.

Adormeci tarde, exausto.

Abriram a porta com estardalhaço e saí finalmente. Fui arrastando-me para o pátio e encostei-me a um canto.

Estávamos em Junho e já fazia calor e a roupa era composta por uma camisola branca de alças e por umas calças cinzentas de tecido leve. Calçava umas sapatilhas.

Devagarinho fui levantando a cabeça e olhei em volta. Era um pátio grande, com várias portas de acesso vindas das diferentes alas. Seríamos uns 400 reclusos.

A maioria dos presos era composta por jovens entre os 20 e os 30 anos. De várias nacionalidades e raças, predominando os portugueses.

Ninguém parecia estar interessado em mim. No entanto os meus 1,93m, os meus olhos azuis e cabelo loiro, o corpo atlético e bem constituído, nunca me deixaram passar despercebido.

Melhor, pensei. Com tempo averiguarei quem são os meus companheiros de infortúnio.

O pequeno-almoço tomado antes do recreio numa cantina anódina, compunha-se de café com leite e dois papos-secos com manteiga ou marmelada. Também havia chá.

Reparei, para meu grande gáudio, que se podia fazer algum desporto no período ao ar livre, pois as redes de basquetebol e de voleibol eram profusas e estavam espalhadas por todo o lado.

- Sou o David. Estou cá, já vai para uns dois anos. Calculo que sejas novato, pois nunca te vi aqui no pátio. Queres uma passa? – e estendeu-me um charro, molhado com o cuspo dele.

- Não fumo, obrigado. Chamam-me Ron e cheguei ontem – disse com uma voz indiferente.

- Precisas de saber umas coisas desde o primeiro dia. Estou disposto a pôr-te ao corrente do que deves e do que não deves fazer. Há códigos cá dentro, gangs, grupos étnicos, bons e maus costumes, e um gajo ou sobrevive ou morre – acrescentou David, com um ar sério.

O sinal para a refeição do almoço tocou e dirigimo-nos os dois para a cantina.

(continua)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Memórias do cárcere (1)



Chamo-me Ronaldo e sou o recluso nº 123456 do Estabelecimento Prisional de Vale de Mortos. Tratam-me por Ron.

Entrei há 6 meses e esperam-me ainda mais 8 anos de cadeia, cumprindo uma pena por homicídio da minha companheira.

A minha cela é pequena e mede 1,5m por 3m. Tem um catre com um colchão pouco espesso, por isso sinto os ossos contra o tabopan, e o travesseiro é de espuma, o que me faz dores no pescoço. Hei-de me habituar.

A porta da cela abre às 6h30m da manhã e fecha às 18h30m da tarde. Um horror estar tanto tempo fechado a sete trincos. Percebo agora como as monjas de clausura do século XVII ainda em espaços mais exíguos, morriam rapidamente como santas ou loucas.

Nas paredes deixam por o que quisermos. O anterior inquilino era tarado sexual e quando saiu deixou como herança posters gigantes de gajas de grandes mamas e outras de vaginas abertas. Arranquei-os com nojo e deitei-os fora, mas ficaram lá as marcas na parede, por isso vai levar tempo a esquecer-me quando para lá olhar. Não que não goste de mulherio, mas causava vómitos de inestéticas e porcas que eram as vistas.

Pus, por enquanto, uma fotografia do meu pai: está de botas, fato de caqui e com um chapéu mole na cabeça, sentado em cima de um elefante que acabara de matar. É caçador profissional em África. O olhar dele é a razão de ter escolhido este registo para comigo partilhar a solidão: de triunfo pela proeza conseguida e de infinita liberdade como só África dá a quem dela se enamora e lá vive.

Tenho ainda a intenção de colar na parede: um poster colorido com um olho gigante a observar-me, como se fosse a divindade a tomar permanentemente conta de mim e uma fotografia em sépia em que se vêem três pessoas – a minha avó materna em muito nova, o pai dela com bigodes e um chapéu colonial do princípio dos anos 30 e entre os dois, sentado no chão, um pretinho de feições correctas, de olhar brilhante e com um sorriso aconchegador de orelha a orelha.

Chama-se Manuel Candeeiro de Deus e foi com quem passei toda a minha meninice. Cresceu entretanto e já mais velho, foi como que um pai para mim.

O meu progenitor verdadeiro pouco o via pois passava o tempo pela selva adentro. Mas quando voltava, punha-me horas a ouvi-lo contar as suas aventuras, umas reais outras fantasiosas, creio que para me encantar.

Voltarei a falar muito dos dois.

(continua)