sexta-feira, 15 de agosto de 2014

re-publicação de Torralta (3ª parte) a solidão do poder


Mencionei atrás a solidão do poder. 

Havia um acordo entre mim e os trabalhadores: para o mercado e para os clientes tudo tinha que continuar a funcionar, desde a limpeza e qualidade do alojamento nas torres e apartamentos, manutenção impecável do golf, piscinas, restaurantes, até ao ambiente que devia pairar em Tróia e em todo o complexo da Torralta.

Eles sabiam que o parco “cash-flow” que pudesse entrar seria devido à continuação de “business as usual”!
As caldeiras avariaram-se e nas torres, sem aquecimento bem como água quente, significava o encerramento da actividade. Até ali ninguém tinha sido despedido. 

Recebeu-se uns dinheiros de receitas antigas que davam ou para pagar o arranjo das caldeiras ou um mês de salário para todos!

Nas reuniões comigo a pressão maioritária dos trabalhadores e dos sindicatos era a de pagar, pelo menos, um ordenado: havia famílias estranguladas de dívidas aos bancos, aos vizinhos, sem dinheiro para comer, um sem número de razões atendíveis.

Por outro lado sem caldeiras, os meus planos de recuperação que estava a discutir com o Governo iam “por água abaixo”! Kaput, finito não haveria investidores interessados se tudo se degradasse e deixasse de estar ocupado, mesmo com níveis baixos. Entretinha as “gentes”, dava-lhes uma razão para continuarem.

Ouvi os meus colegas da Administração, consultei alguns “sábios” que sempre me aconselharam nos momentos difíceis e por último os trabalhadores e sindicatos. 

Ninguém tinha uma opinião segura, certa e maioritária.

Decidi jantar no meu apartamento, que era uma penthouse com uma vista soberba sobre o mar. Um fim de tarde em silêncio e deixando a cabeça descansar. Desliguei-me do “mundo” e realizei como estava só, e como a decisão dependia a partir dali, exclusivamente de mim. A tal solidão do poder. Decidi interiormente da forma como tinha estado a reflectir durante o dia, pesei os prós e os contras e fui dormir. Sono reparador.

Levantei-me cedo, fui correr pela praia, tomei um banho e vesti-me e sentia-me perfeito e tranquilo.

Convoquei os trabalhadores e a imprensa que me esperava e anunciei que o dinheiro disponível iria para o arranjo das caldeiras. Com doçura e emoção lamentei o desapontamento que esta decisão iria criar nas expectativas de todos, mas um mês, de facto, nem resolvia os problemas financeiros de cada um e pelo contrário agravava qualquer solução de resgate que estivesse a negociar.

Não vos maço com o que se seguiu de protestos, greves, incompreensão….tive a satisfação de encontrar apoio nos que mais precisavam, pois uma vez explicadas as razões, sentiram a eventual justeza da minha decisão. Senti-me só, muito só e para que serve o poder quando nos sentimos cães lazarentos a lamber as feridas, sem festas? 

Estranho que passados estes anos todos, ao escrever isto ainda sinta uma sensação de incómodo e desconforto!

Um primo meu, o General Carlos Azeredo, era o Chefe da Casa Militar do Presidente Soares, que mantinha péssimas e intratáveis relações com o Prof. Cavaco Silva, Primeiro-Ministro. 

Estava, mais uma vez, numa interminável reunião com o plenário dos sindicatos, quando a secretária me trouxe o telefone dizendo-me que era uma chamada urgente de Belém.

O meu primo anunciava-me que o Presidente Mário Soares queria visitar a Torralta com a imprensa e televisões e falar com os trabalhadores com atrasos nos salários.

(continua)

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