domingo, 12 de outubro de 2014

o meu combóio eléctrico

 
Tive um combóio eléctrico em pequenino e adorava construir as estações, os prados, as montanhas e os vales, os rios e os lagos, as pessoas e as casas e tudo me parecia tão real.

Acabou por estar sempre montado, mas eu arranjava maneira de mudar sempre qualquer coisa.

E lá partia eu de malas aviadas para sítios imaginários e enquanto ele rodopiava e até fazia um certo fumo e apitava, ficava a olhar perdido nos meus sonhos de menino sem grandes conhecimentos ainda do que era de facto uma viagem para o mundo real.

Lembro-me que com o comando, fazia-o parar nas estações e até deixava que uma cancela abrisse e uma carroça puxada por um burro atravessasse a linha sem perigo.

E no Natal a família dava-me presentes de novas peças: às vezes uns parentes vindos de Londres, traziam-me verdadeiras preciosidades do Hamley’s em Regent Street, que visitei mais tarde, mas sem o encanto da meninice.

E ainda hoje adoro andar de comboio!

Será que se pode escolher o meio de transporte para ir para o paraíso?

sábado, 11 de outubro de 2014

serei um cavalo de crinas ao vento

Já se perguntaram o que lhes apetece mesmo fazer com a vida? Mesmo, mesmo? Não é depois de copos e charros, ou só copos.

É:
- no emprego cinzento e rotineiro,
- na casa de família aonde se dão mal com o cônjuge, ou mesmo que se não deem já viram tudo o que tinham que ver ou fazer,
- é na rejeição de um engate ou na constância de uma aventura que perdeu a graça,
- é no dinheiro que já não têm e que se foi em bancos maus,
- ou na viagem – agora é que é, em primeira ou executiva melhorada – aonde se chega cansado ao fim, quase da mesma maneira do que em económica?


E já repararam que quando se dão aos outros e se esquecem de si próprios, pelo menos no durante, a vida tem outro sabor, um cansaço merecido e reparador, uma aproximação à paz interior tão desejada?

Lê-se por aí os excessos dos bilionários, a pobreza gritante e a morte diária de inocentes em guerras e conflitos sem outro objectivo senão o de impulsionar as máquinas de armamento de cada país conflituante, com as comissões distribuídas pelos hipócritas dos políticos que apregoam a concórdia entre as partes.

Não acham que farta, não apetece ser um manifestante de rua de Hong Kong, tranquilo, idealista, arrumado e limpo, sem luxos nem grandes exigências para além de gritarem pela liberdade?

É nestes exemplos em que me revejo e aonde me sinto farto do capitalismo feroz e selvagem. Apetece fechar a loja e deixar de existir, pelo menos nesta vida.

Consultados os astros, numa nova encarnação serei um garboso cavalo de crinas ao vento.


In “poemas imaginários” de Vicente Mais ou Menos de Souza


Os homens — estes, sim — deveriam lamber os seus cães


Para o meu cão, deixo o mundo: osso duro de roer. Para o mundo-cão, deixo um esqueleto no armário: resquícios do poeta que minguou em mim.

Para os grande cânions, deixo pequenas demonstrações de desespero: os meus latidos de inconformismo a ecoarem, a ribombarem contra as rochas e confundirem os ecos.

Para ondas e correntes, deixo as minhas braçadas rio acima.

Para o jardim de inverno, deixo os tais sonhos de uma noite verão. Vocês verão — prezados lírios — que, de tão simplórios, até poderiam ser chamados delírios, ao invés de sonhos.

Para o pó da estrada, deixo mais que as pegadas. Deixo histórias para serem contadas sem muito entusiasmo, mas também sem histeria, pois de exageros já basta ter nascido.

Para a lua cheia, deixo a denúncia vazia de que São Jorge caiu do cavalo e não virá essa noite para o jantar, a fim de matar dragões. Por outro lado, aquele faminto séquito de poetas permanecerá sentado nos banco das praças desta cidade, colocando as suas vidas em risco (a violência urbana está mesmo de matar), ansiosos por inspirações incríveis dignas de uma noite enluarada.

Para os céticos convictos — parceiros de muito pragmatismo e solidão nas confraternizações familiares — deixo amuletos em prol da assepsia de demônios. Mas que não deem a eles o menor crédito, nem mesmo a este testamento, que foi escrito sob a égide de uma profunda, lamentável condição humana.
Para as mulheres que amei, deixo tudo aí como está: gonococos, lábios que beijei, doces recordações e um ligeiro grau de indelicadeza ao dizer adeus.

Para os cães emocionados que lambem os seus donos como se não houvesse amanhã, deixo a minha admiração irrestrita. Os homens é que deveriam lambê-los.

Para os melhores amigos deixo meus piores defeitos. E vamos ver mesmo quem é que vai aguentar.

Para os meus desafetos, deixo uma distância segura que nos conservará diferentes e felizes.

Para o biógrafo decadente, deixo pistas falsificadas que o conduzirão a um ser humano probo e admirável que, certamente, não serei eu, mas um personagem fotogênico que merecerá tese, discurso, inclusive um busto na praça, e toda aquela gama de excrementos que um bando de pombos incontinentes possa evacuar.

Por sinal, deixo às pombas da paz as minhas ameaças de guerras interiores.

Para os soldados em campo, deixo as minas dos meus subterrâneos, uma explosão de sentimentos que fará aquela famosa Rosa de Hiroshima parecer uma reles erva daninha no canteiro.

Para o governo local, deixo os neurônios desgovernados que furtei de um poema.

Para os senhores da Receita, deixo os porcos, as pérolas, todas as minhas economias, inclusive os beijos e afagos que soneguei. Multem-me, arrestem os meus bens, mas — para o seu próprio bem — não repitam os meus equívocos!

Para os exorcistas, deixo as portas destrancadas. Não haverá resistência.

Para os homens de fé, deixo o crucifixo de bronze que usava para coçar as costas, e velas de sete dias para assar marshmallows.

Para doutores da alma, deixo picanhas no freezer.

Para Deus, o meu perdão.

Eberto Vêncio

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

PERESTRELLO, SALAZAR E O PADRE


PERESTRELLO, SALAZAR E O PADRE

Vejam lá se gostam desta lição de história que nos foi contada por um ilustre historiador da Marinha.

Nos tempos idos do anterior regime, o pai de António Oliveira Salazar era feitor numa grande propriedade do velhote Perestrello, situada lá para os lados de Santa Comba Dão. Perestrello teve dois filhos, um rapaz e uma rapariga. A menina ainda foi namorada de Salazar e o rapaz, mais conhecido pelo Perestrello Vasconcellos, que cursou engenharia, quando Salazar chegou ao poder colocou-o como administrador da Casa da Moeda e posteriormente, em 1939, assumiu a gestão do Arsenal do Alfeite.

Perestrello Vasconcellos morreu em 1962 e deixou seis ou sete filhos, dos quais um deles foi engenheiro naval, na Lisnave, e outro, sentiu vocação para sacerdote e veio a ser capelão da Marinha. Em 1959, o capelão Perestrello Vasconcellos fez parte da célebre conspiração "Caso da Sé", na qual participaram vários opositores ao regime, como Manuel Serra. Na eminência do capelão também ser preso, o presidente do governo, Oliveira Salazar, chamou a S. Bento o pai do capelão Perestrello Vasconcellos e aconselhou-o a mandar o filho para o Brasil, para que não tivesse o desgosto de ver um filho na prisão. Tudo em consideração ao velhote Perestrello de quem o pai de Salazar tinha sido feitor.

E foi assim que o padre Perestrello Vasconcellos debandou para o Brasil. Nos anos 70, com a primavera marcelista do primeiro-ministro Marcelo Caetano, o padre Perestrello Vasconcellos regressou a Portugal e foi exercer o sacerdócio na paróquia de Loures.

Num belo dia, o admirado e venerado padre Perestrello Vasconcellos, em plena missa dominical, deixou os paroquianos atónitos e lavados em lágrimas. Anunciou que iria deixar o sacerdócio porque se apaixonara por uma senhora da família Lorena. O padre passou à sua condição de cidadão com matrimónio e dessa união nasceu Marcos Perestrello Vasconcellos, o ex-vereador socialista da Câmara de Oeiras e secretário de Estado da Defesa do governo do Partido Socialista.

P.S. - Já agora acrescento mais uma história da família Perestrello e do Dr. Salazar (retirada da biografia escrita pelo Dr Franco Nogueira...)

Realmente (e tal como se refere no texto acima) o jovem Salazar (que pelos vistos era um mulherengo e não um misógino) gostava da jovem Perestrello e ela retribuía esse amor com paixão.

Até que a mãe se apercebeu e terminou com o namoro, não sem antes dizer de viva voz ao jovem prof. Universitário (imaginem, de Finanças Pùblicas !!!!) que tinha muita consideração pela inteligência dele, mas, sinceramente, namorar com a filha dela, uma Perestrello, era demais. Ele não se podia esquecer, que era e seria sempre o filho do caseiro.

Terminou assim o namoro.

Anos passados, já ele era 1o ministro e a senhora Perestrello telefonou-lhe para lhe pedir um favor. O telefonista passou a chamada e ela anunciou-se : "Daqui fala Perestrello" e Salazar respondeu "Daqui fala o filho da caseiro".

Isto só prova que a vingança não se serve fria, como muita gente pensa, mas gelada.

Carlos Cruz Oliveira

(enviado pelo meu Amigo Tony de Sousa Lara)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

a insustentável leveza do ser


Não sou dado a R.I.P.s secos e impessoais. Prefiro uma oração pela alma (PN - AM) ou escrever palavras e frases completas manifestando a amizade por familiares, a dor sentida, alguma observação relativa ao defunto.

Mas o Facebook faz-nos a cada dia contactar mais com a morte que sobrevém, rápida e sem piedade, ceifando gente de todas as idades e profissões.

Acaba por ser um exercício edificante, pois chama-nos a atenção para como devemos estar disponíveis para quando isso aconteça, a uns mais previsivelmente a outros inesperadamente.

Por isso é preciso estar leve para o caminho: foi sempre uma expressão que me agradou. O conceito de leveza, tão magníficamente tratado na literatura, na música, na poesia, na saúde e na filosofia é uma espécie de bálsamo.

Alguém que acabe de comer uma rica feijoada, um barrigudo, um sôfrego por comida....intui sempre a percepção de que vai ser penosa a caminhada, a pé, de carro pela sonolência, em casa deitado numa cama pela má digestão que fará...

Uma ou um bailarino, um ginasta bem musculado e treinado, um corredor habitual ou um caminhante diário....são bem mais leves para tudo quanto se lhes exija ou queiram empreender.

Uma última observação que captei com a mensagem deixada pelo actor Rodrigo de Menezes, na sua página do facebook: é bom anteciparmo-nos nas despedidas, falarmos de quem nos amou e a quem amamos, talvez evitar grandes palavras cruas e duras sobre quem nos infernizou, mas que a imagem que se deixe seja de paz e de alegria na expectativa de uma partida inevitável, quando ela acontecer.

Não importa as crenças, se católica, se cristã, se judia, se muçulmana, se budista, se nada...mas o mais relevante é sem "a mania das grandezas", deixarmos uma imagem arrumada e resolvida da nossa vida.

Se isso ainda não acontecer no presente, bem....o melhor é começarmos a tratar disso quanto antes...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Um anjo mais cedo para o Céu...



Os anjos voam para o Céu mais cedo e frases deste teor a propósito da morte do actor Rodrigo Menezes, que eu não conhecia, o que é natural, dado não ver telenovelas, fazem-me sempre reflectir sobre a prudência na utlização da palavra.

Mas somos um país pindérico, sentimentalão, expontâneo, imediatista. O Rodrigo terá tido a sua forma de vida até ao dia de ontem , com luzes e sombras, como todos nós, e pelos vistos, deixou muitos amigos, ainda bem.

Está fora de causa questionar a tristeza que uma morte sempre deixa, seja-se novo ou mais velho.

Mas ir "um anjo mais cedo para o Céu"...é obra!

Por isso é que, não sendo alemões...ahahah...somos pobretes e alegretes. O espírito frio, rigoroso, objectivo e comedido é coisa que por cá não existe em abundância.

De lágrima fácil, de coração mole, até aposto que se um qualquer destes políticos malandros que nos têm feito tão mal ( e não me refiro a ninguém especialmente, pois cada um fulanizará quem são os inimigos favoritos), viesse à televisão cantar a "buena dicha", uma desgraça, um acidente, haveria choro, baba e ranho...

Enfim é o que temos e também temos outras coisas boas...de repente obnubilou-se-me o espírito, mas de certeza que me virão à mente...

domingo, 5 de outubro de 2014

Velho do Restelo

I still get very surprised when I see very radical comments made by young people about times past, when they were not even contemporary, preventing them to have an objective view of these events.

To speak only well of the regime of Salazar and Marcelo Caetano, praising virtues and never talking about all that was harmful to freedom, to the modernization of the civil society and the international isolation that have been imposed to Portugal for decades, it's scary and disturbing.

Not recognize that times have changed and the winds of history proclaim democracy, freedom and dialogue as the ingredients for peace is to be a reactionary and a demagogue.

We must assume that the nostalgia of the good things has no use for the progress of the people and what interests us is to adapt to the times that come with the perspective of positivism, critical analysis, respecting the values and traditions of the past that are dynamic and can evoluate.

It is heartbreaking, though, to see how the right is losing the host of the younger classes by a permanent nostalgia of the past and a radicalism on their ideas.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

então querias ser escritor?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.

Charles Bukowski

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Whatever happened to the Gentlemen?


A gentleman is polite, intelligent, witty, talented, modest, well dressed, well groomed, and culturally aware.

How did guys get so afraid of these personality traits?

Personally, I think they've got so desperately caught up in trying to prove themselves, that they'll scratch themselves in public, listen to gangster rap, and get so drunk they vomit and start fights in front of girls, just so that no-one thinks they like other men.

A gentleman though?

Well, he knows himself and he's comfortable and confident with it, regardless of what anyone else says.

Taking some pride in how you present yourself to other people is simply being a gentleman.

Caim

Eva estava desolada, pois Adão tinha morrido.

Fora muito comovente ver para além dos seus filhos, Abel e Caim, todos os amigos de Adão, o Rei Leão, as panteras, as chitas, os gamos, os saguis, as girafas, os hipopótamos, os bisontes, enfim todos os animais da selva que tinham vindo de todos os lados numa grande manifestação de respeito pelo Homem.

Claro que a serpente viscosa e tentadora, tentou juntar-se ao grupo, mas o Rei dos Elefantes, dera-lhe uma trombada que a tinha mandado para longe.

Eva tentava lembrar-se daquele Homem a quem vira a sua sorte ligada no paraíso, aonde viviam, sem a noção de tempo e com a promessa da imortalidade e da infinidade e perguntava-se se teria sido porventura aquele incidente com o seu Deus que tornara Adão mortal e em consequência, tanto ela como os seus filhos.

Enquanto cuidava de Caim, pois Abel já era mais crescido e alimentava-se de mel e de frutos silvestres, de raízes de ervas e de leite de cabra, reviveu esses momentos em que vira pela primeira vez o seu Deus tão zangado…..talvez não fosse a palavra certa, inconsolavelmente desiludido com ambos.

Era numa daquelas tardes tão bonitas de luz e de tranquilidade no éden.

- Eva, temos tudo para sermos felizes – disse Adão enquanto acariciava o corpo dela que estava nua e ao seu colo, estendida entre os seus braços. Temos o nosso Deus, temos os animais por companhia que nos obedecem, respeitam e nos servem num equilíbrio perfeito. Conhecemos o prazer sem limites e não temos contrariedades.

Levantaram-se e aproximaram-se de um pomar cujo acesso lhes tinha sido interdito por Deus e aonde havia uma macieira, e Adão preparava-se para colher uma maçã que estava pendurada ali à mão.

- Este pomar foi-vos proibido pelo vosso Deus para que aqui viessem e dele desfrutassem – disse a serpente, brilhante nas suas escamas e coliante entre as ramadas, deslizando até perto deles.

- O que dizes? – perguntou Adão. É só uma maçã, está calor e é refrescante e apetece-nos comê-la.

- O vosso Deus deixa-vos andar por todo o lado e só neste pomar vos interditou a presença. Parece que quem comer destes frutos, adquire conhecimentos iguais ao do Criador.

Adão recuou e preparava-se para voltar para trás, quando Eva, enroscando-se no seu corpo, lhe sussurrou ao ouvido:

- O meu Homem, tem medo de conhecer o segredo de Deus? Ficarias igual a Ele, com tudo o que Ele sabe e nos tem proporcionado de bom, de belo, de eternidade, de poder. – disse Eva.

- Mas Eva, o nosso Deus é nosso amigo, quando contacta connosco tem orgulho em nós, por termos sido a obra da sua criação perfeita, infinita e sem limites e temos tudo quanto precisamos, queremos e desejamos neste paraíso imenso. Somos seres superiores aos animais e dominamo-los. Não há mais ninguém entre nós e o nosso Deus.

- A Eva tem razão. – disse a serpente. Já pensaste porque será que Deus vos esconde este pequeno pomar? Deve ser aqui que está a fonte do Seu poder, a explicação para a vossa existência, o controlo de todo o Universo. Vá lá, também só um pequeno acto de desobediência não vos causará dano. Ainda por cima se o fizerem escondidos, por baixo dos ramos da macieira, Ele não o saberá. Quem sabe se não está nesse fruto a fonte do conhecimento? – e a serpente enroscava-se cada vez mais ao ramo de onde pendia a maçã apetitosa e singela.

- Não vou desobedecer ao meu Deus – disse Adão. Eva, vamo-nos daqui pois a serpente está-nos a tentar desafiar uma proibição do nosso Deus! Afinal temos tudo o que nos apetece, excepto o desfrute deste pomar a que por razões que só o nosso Deus sabe, não podemos aceder.

- Adão, só uma maçã, aquela tão bonita e apetecível perto da serpente. Está escondida pela ramagem e podemos comê-la sem Deus nos ver.

Adão foi chamado por Deus que disse a ambos para cobrirem a sua nudez, pois tinham sido maculados pela desobediência e assim tornados criaturas não mais semelhantes à imagem do seu Deus e Criador.

Eva lembra-se de ouvir Deus irado perguntar a Adão porque o tinham desiludido ao quererem tornar-se iguais a Ele, quando tinha grandes planos para eles e até o de partilharem a Sua Divindade.

Pela primeira vez Eva sentiu sensações estranhas, de medo, de culpa, de sofrimento – a dor por contraposição ao prazer que até ali sempre sentira – e tinha visto Adão aniquilado pelo acto que fizera e ambos não tiveram mais notícias de Deus, durante….muito tempo. Esta foi uma noção que passaram a ter, a de seres finitos, no espaço e no tempo.

Deus só lhes apareceu muitas luas e sóis depois, e andaram pela Terra perdidos e o paraíso deixou de ser tão viçoso e vieram as estações com as chuvas, o frio, o calor e a amenidade da Primavera e do Outono.

Ao manifestar-se de novo, chamou-os aos dois e sentiram que era outra vez o Deus que os amava.

E Deus disse-lhes que os planos iniciais tinham sido alterados pela soberba, desobediência e falta de aceitação das condições acordadas e que tinha novos planos para eles. Iriam ser os autores de gerações e gerações de outros seres humanos e que um dia e ao contrário do previsto que era a eternidade sem sofrimento, dor e morte seriam remidos por um seu enviado que viria para salvar a Humanidade e voltar a estabelecer o equilíbrio, a alegria e a partilha da visão eterna da felicidade de Deus.




Adão recompusera-se e com Eva descobriram partes do corpo que até então não tinham explorado e tornaram-se complementares um do outro.

O prazer passou da inspiração única e absoluta de Deus, para um conjunto de sensações que estimulavam o desejo de estarem juntos e trocarem afeições em contraposição ao de antigamente de mera dominação dos animais e de serem servidos sem distinção do papel de cada um.

Eva, sentira que Adão lhe imputara em exclusivo aquela cedência dos dois às palavras insinuantes e perturbadoras da serpente, mas nunca mais tinham abordado o assunto entre si.

Tinha nascido primeiro Abel e depois Caim. Adão, desde logo se entregara ao acompanhamento e crescimento do primogénito e Eva, porque ficara mais com a guarda de Caim, criara com ele uns laços de dependência, a que não conseguia encontrar uma explicação. Perturbava-a, dava-lhe o amor de mãe e via-o crescer mas era como se encontrasse nele um prolongamento da imagem e personalidade de Adão.

Abel era manifestamente um filho do seu pai, afável, cordato e sabendo com Adão arbitrar as diferenças que também no mundo da selva tinham ocorrido depois do desencontro com Deus.

Havia os fortes e os fracos, os predadores, a morte como consequência da linha de dependência de sobrevivência de uns para com os outros e a tudo ambos se iam adaptando e dando sinais de serem ainda a raça superior dominante.

Deus rareava nos seus contactos e para a pequena família a noção de tempo passara a ser uma realidade.

Adão estava menos novo e tanto Abel como Caim iam crescendo a olhos vistos.

Eva sentia-se muito bem com o seu corpo e tinha a noção da harmonia das formas apesar do tempo que passava.

Caim, era de facto um perturbador do equilíbrio da natureza: juntava-se aos animais mais perigosos, aos mais traiçoeiros e aos mais ousados e metia-se em rixas, sabendo que apesar de haver sempre vencidos e vencedores, talvez por ser humano, no último minuto abandonava os primeiros aliados e deixava-os à sua sorte.

Era Abel quem dirigia a vida da família e assegurava o alimento, o abrigo e a defesa contra os animais ferozes.

Caim fora sempre desobediente: saía nas tempestades, desaparecia durante dias causando preocupações a Eva e a Abel, e voltava sempre sujo, com traços de lutas com animais a que comprovadamente vencera.

Quando recebia as críticas de Abel corroboradas pelas de Eva, estranhamente amansava com as da mãe e sentia ódio pela autoridade e a certeza da razão que emanava de Abel.

Davam-se entre os dois sem sentimentos especiais de afeição, um reconhecendo com penosidade ao outro poderes de substituição da autoridade paterna que desaparecera e o outro sentindo uma obrigação-dever de cumprir aquilo que insítamente herdara do pai, mas sem qualquer especial fervor ou dedicação.

Eva descobrira Caim, por várias vezes escondido, olhando para o seu corpo nu quando se preparava para deitar, mas não sentiu qualquer perturbação.

Deus dissera-lhes que tinham que crescer e multiplicar-se para encherem a Terra de descendentes com vista ao plano que mencionara de enviar um Salvador para a Humanidade.

Eva tinha dado à luz, de Adão, os seus dois filhos e como pais foram ambos iguais e diferentes entre si mas complementando-se.

Nunca tinha pensado como Deus quereria que nascessem novos filhos dos seus filhos pois Adão não estava mais.

Caim tinha experimentado com macacas fêmeas alguns gestos sexuais a que a sua natureza lhe impelira ao vê-las com os machos na prática do acasalamento, mas sabia que havia uma diferença entre o corpo de Eva e o delas e cada dia que passava rondava a mãe, com temor e hesitação, pois sem saber explicar, desejava praticá-los com ela.

Espiava-a quando a via nua no riacho e ao acostar-se à noite, reparara nos seios cheios e grandes, na pele macia do corpo, na boca carnuda, nos olhos brilhantes, no cabelo tão longo que quase a cobria e nas zonas roliças do fim das costas, firmes e proporcionadas.

Sentia uma especial atracção à frente pela zona mais macia entre as pernas, que já, entretanto, experimentara com as macacas copiando o que vira os machos fazer e desejava ardentemente aproximar-se de Eva e repetir o que lhe dera tanto prazer.

Abel, tal como o seu irmão Caim, desejava a mãe e decidira vigiar o irmão, pois sentia nele exactamente o mesmo e achava-se com um direito de primazia.

Uma noite, Eva ia acostar-se e sentiu gestos perto de si. Devagar parou de se mexer e ouviu um respirar ofegante mais próximo e constatou que era Caim que em silêncio a observava e cada vez mais se aproximava.

Abel regressava de mais uma expedição para trazer alimentos para casa e ao chegar mais perto sentiu gemidos e ruídos semelhantes aos que experimentara quando forçara macacas a consigo acasalarem.

Não teve dúvidas que era Caim e Eva fazendo aquilo que a ele lhe era devido e invade o espaço de rompante e avança para Caim disposto a matá-lo.

Dois rivais lutando até à morte pela sua presa. Eva estava suspensa e em silêncio sem intervir.

Caim, mais ágil nas lutas a que estava habituado com animais ferozes e matreiros, provoca Abel para uma luta de corpo a corpo que só podia ter como desfecho a morte de um dos contendores.

Eva, vivia com Caim e já tinha dado à luz numerosa descendência e tanto Adão como Abel não eram mais do que uma nebulosa memória do seu passado.

MNA

sábado, 27 de setembro de 2014

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto


Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto

É estranho como as as vidas das pessoas são tão complexas. Eu que sou uma contradição permanente, que ando a tentar encontrar-me (perdoem a imodéstia de dizer que procuro encontrar-me porque talvez não haja nada para encontrar, não sei), tenho poucas certezas relativamente a coisas que outros têm como certas, definitivas, acabadas. E dou comigo a perguntar-me quem sou, afinal, porque são tantas as contradições que existem em mim que acho que vou morrer obra inacabada, no sentido de não ter sido capaz de dizer: «Isto sou eu». Não deixa de ser confrangedor chegar aos sessenta e dois anos sem respostas definitivas para tanta coisa, com tantos pesos que se calam, com tantas coisas que ficaram por dizer...

Venho de uma família de afectos contidos e, talvez por isso, procuramos o afecto em coisas que, para os outros, são apenas quadros normais de vida familiar. Meu Pai, o homem que mais admirei e que tanto amei, tinha uma forma de sorrir que valia por vinte abraços, os tais abraços que eram contidos, cerimoniosos quase, e que se distribuíam com uma enorme parcimónia. A expressão de afecto vinha através do sorriso, das conversas, dos serões na varanda da quinta a cantar, de inúmeras coisas que poderiam parecer banais mas que eram a forma de expressar amor e ternura numa família onde não havia grandes exibições dela.

Fomos habituados a que tudo neste mundo tem um preço, que cada acto tem consequências que há que sofrer ou gozar, que o importante é quem somos, e que teremos de viver o resto da vida com essa forma de ser que talhámos para nós, que as responsabilidades se assumem, custe o que custar, e os erros se pagam, com língua de palmo, se preciso for. Estranhamente, temos muito dessa ética protestante de não haver confissão que permita fazer borrón y cuenta nueva, de termos de carregar o peso de tudo, mesmo do que só nós sabemos, aquelas pequenas traições, aqueles pequenos deslizes que ninguém viu mas que sabemos que existem.

Penso que deve ser pesado morrer, nesta família, pelo menos para os que continuam a crer que assim é, que não há saída, e que tudo nos acompanha, sempre. Pela parte que me toca, continuo a carregar fardos antigos, promessas que se não realizaram, actos que ainda hoje me perseguem, pesares que calei e calo, e até essa pesada ferramenta de sobrevivência que me permite «matar» lembranças e recordações, tirar o sofrimento e a alegria associados ao nome de alguém, ao ponto de esse alguém já nada ser para mim, ter a mesma importância que aqueles com quem me cruzo na rua, com a diferença de que ainda vou olhando para aqueles com quem me cruzo.
 
Mas que lucro com isso? Pouco ou nada, para além de uma enorme solidão que não desaparece nunca, por mais acompanhado que esteja, um mundo estranho cinzento ou negro onde se refugia a maior parte dos meus pensamentos e que de vez em quando abre uma nesga da porta e deixa sair algumas coisas que, depois de peneiradas, observadas, expurgadas, acabam aqui porque, no fundo, é-me mais fácil escrever do que falar, sempre foi. Pouco ou nada, sim, para além de um momento em que alinhavo palavras que são minhas, por contraponto às que alinhavo para viver e que são de outros e noutra língua.

Uma coisa consigo: tentar ver se, em tudo o que me vem à cabeça, surge alguma explicação para esta minha maneira de ser, para este refúgio numa corte na aldeia que apenas existe na minha cabeça, se ordenando tudo isso um dia sairá alguma coisa que se leia, a sério, algo que seja mais do que estes textos fruto de insónias ou de desalentos, desabafos de quem se habituou a falar muito e dizer pouco, a não mostrar tudo o que está para além da girândola de foguetes que dispara, com todos os seus vermelhos, azuis, dourados e prateados, belas obras de pirotecnia de fazer inveja a qualquer mestre minhoto, mas que escondem mais do que revelam e deixam a ilusão de que talvez tenha mostrado mais do que mostrou.

Consigo também reconhecer que, no fundo, é um caminho difícil de percorrer e que pouco faço para deixar ver por onde vou, já que para onde vou nem sequer eu sei.

Pensei sempre que teria muito tempo para encontrar um caminho e acabei por seguir aquele que me foi imposto, com algumas rebeldias e revoltas que manso nunca fui, mas um caminho que me trouxe aqui, a esta idade, a este «exílio de mim» como disse o Padre António Vieira, porque continuo a ter a sensação de que algures havia outra terra prometida que nunca encontrei, nem vou encontrar, uma mítica Pasárgada onde seria o rei e não um mero amigo do rei.

Neste exílio de mim, caem-me em cima os dias passados, com todo o peso que acumularam neste tropel que outrora me pareceu lento e agora vejo que é cada vez mais célere. Ontem ainda sonhava, agora apenas reflicto. E quando tento encontrar um sentido no que ficou para trás, um sentido que me ajude a compreender o que tenho pela frente, descubro que não sei quem sou, que continuo à procura de mim, neste exílio.

Artur Lopes Cardoso

O título são os dois primeiros versos de um poema belíssimo de Mário de Sá-Carneiro chamado «Dispersão».

terça-feira, 23 de setembro de 2014

o teu lânguido sorriso


Hoje precisara da tua mão, que cautelosa tocava devagarinho na minha e como que a media, afagando-a ao de leve.

Encostaste a tua cabeça no meu colo e eu desprendi-te os cabelos que tomei nas minhas mãos.

Descansaste no teu silêncio e ouvíamos ao longe o barulho da cidade. Cheiro a chuva vinha da janela entreaberta.

Passava-te com doçura e leveza os meus dedos compridos e finos entre os anéis dos teus cabelos, que beijava.

Desejávamo-nos mas era bom o sossego e a quietude, e a seu tempo te tomaria nos meus braços e te estreitaria com paixão e sentiria que te entregavas.

Mas o que mais gostava, quando cansado chegava a ti, era o teu lânguido sorriso que me tranquilizava do bulício do dia.

Contara-te que tinha inventado um beijo só para ti que registara como uma patente valiosa.

Sôfrega estendias a tua boca para a minha e aproximáva-nos com luxúria e pressa para confundirmos os nossos corpos enlaçados.

Perguntaste-me se era paixão e eu respondi-te que era loucura sem razão.

E tu estremecendo de prazer deste a razão à minha loucura.

in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Libros


Vuelvo a casa
una vez más
con siete libros.

Dirán que engullo el saber,
que todo es pose,
que nadie puede leer tanto, ni tan rápido;
que, como los otros, no disfruto
la lectura;
que esto es parte de mi furor numérico;
que para qué tanto, si no se me pone cara
de docto y circunspecto.
No sospechan, ni de lejos,
la verdad:
me gusta la chica de la librería.

Diego Valverde Villena
(retirado da página do fb do Francisco H.da Silva)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Festa da rija - Carta de férias do meu primo Luis Bernardo


Resumo: Imaginem vocês que recebi uma carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. No meu blogue está tudo explicado e as cartas anteriores trocadas foram abundantes. Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Deixei passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!

Meu Caro Manuel,

Vou de férias por umas semanas e calculo que tu também. Fiz uma ronda de visitas pela tua Família, mas acabei por encontrá-los a todos numa festa que os teus Pais deram à parentela.

Vou-ta descrever, porque sei que gostarás de saber como a vida é prazenteira por aqui.

A casa dos teus Pais, da qual já te falei algumas vezes, estava esplendorosa. O convite era para um cocktail/high-tea (um misto de lanche “rico” e jantar ligeiro volante).

Uma tarde gloriosa, o relvado em frente do terraço largo e espaçoso, muito bem tratado e com canteiros de flores garridas, com árvores seculares dando sombras aqui e ali e uma miríade de mesas e cadeiras de jardim muito cómodas.

À entrada os teus Pais aguardavam os convidados, com grandes sorrisos e muita familiaridade tratando a todos pelos nomes…foram convocados de ambos os lados até aos quartos Avós e afins, incluindo primos e respectivos filhos. Uns cerca de 200!

Um pouco atrás do teu Pai, o Mordomo sugeria-lhe de vez em quando e discretamente o nome de um parente menos íntimo, o qual não se apercebendo de tal gesto, era recebido da mesma maneira afável que os demais.

Um "smoking" branco e um lenço de bolso em seda de bolas pretas e brancas “assorties” com o laço preto, pequeno toque de elegância - quem diria que aqui, o teu Pai se tornaria um pouco mais dandy – e a tua Mãe com um vestido leve, de cores variadas – ton sur ton - fazendo ressaltar um broche, daquele conjunto que herdaste, o das máscaras venezianas de esmalte envoltas em pequenos brilhantes, rodeados de brilhantes grandes e lindos. Sempre muito admirado pela invulgaridade do desenho e qualidade das pedras.

Criados de libré com bandejas de prata, servindo à entrada “flûtes” de champagne e pequenas tapas de caviar sveluga, foie-gras, e demais aperitivos de escolha requintada. Foi a velha Cacilda, cozinheira estrelada de nem sei quantos guias Michelin caseiros, que as fez e que as sabia tão bem preparar nos vossos jantares, daí.

Entrava-se para as salas amplas e que abrem para o terraço e jardim através de grandes portas de vidro, e todos se congregavam em pequenos grupos.

Uma mesa de mármore boleado, enorme, no meio do terraço, oferecia um buffet de esmeradas iguarias, e mais criados serviam todas as bebidas por entre as mesas espalhadas pelo jardim.

Os teus avoengos de Celorico da Beira e Fornos, muito encantados pela delicadeza do teu Pai de ter mandado servir “Licor Beirão”

Very thoughtful!

A dada altura o teu Pai, proferiu um belo discurso de boas-vindas nestes termos:

“Minha querida Família,

Gostamos de os receber em nossa casa, sobretudo tantos e de tantas gerações para trás.

Umas breves reflexões sobre o nosso estatuto presente: 

O homem do tempo ou o tempo do homem. Duas coisas bem distintas.

Uma inevitável, o tempo que tivémos na Terra.

Há quem lá queira comprar tempo, dias, às vezes horas que se podem tornar em anos: se alguém tiver umas horas a mais talvez se salve do enfarte e chegue a tempo ao hospital.

Há quem queira comprar tempo ainda mais refinado: anos de beleza, anos de saúde e a maioria, anos de felicidade. “Quem quer anos, quem quer ser feliz? “ Não me consta que houvesse em Lisboa de outros tempos pregoeiros de sonhos. Seria um sucesso, estariam ricos em pouco tempo.

O homem do tempo ou o tempo do homem.

Eu sempre preferi o tempo do homem, pude administra-lo, tanto quanto possível dentro de uma certa segurança, uma espécie de período de garantia.

Porém, quando foi o homem do tempo que se aproximou, foi o prenúncio do fim do meu tempo de homem.

Mas estamos aqui todos para nos encontrarmos e celebrarmos e por isso, como anfitriões, tentaremos estar hoje com cada um o tempo que nos for possível para revivermos só o bom passado familiar comum.

Bem-hajam!”

Os teus 4 Avós, fizeram-me muitas perguntas e mandam-te muitas recomendações. 

Têm saudades tuas e eu disse-lhes que tu também e que no teu blogue escreves frequentemente sobre eles e sobre as tuas amorosas recordações de todos esses tempos da tua infância. 

Decorreu a tarde e pela noitinha, acenderam-se tochas à volta da pelouse e um jantar leve foi servido. Do jardim dos teus Pais a vista sobre o mundo é um deslumbramento, e a tua Mãe aproximando-se de mim, travou-me o braço e disse-me em sotto voce:

- Querido Luís Bernardo, às vezes ao olhar para a minha frente, vislumbro luzes na Terra e imagino-me entre os meus de quem tanto gosto e de quem tantas saudades tenho. Diz ao Manel que zelo por ele e por todos!
E por aqui me fico, por hoje. Que te sirva de consolo saberes como és amado e que tens um lugar no coração de todos os que por aqui, comigo, estão. 

Teu muito afeiçoado primo

Luis Bernardo

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

condenação pesada

- O Sr. Desembargador achou a condenação pesada?
- Olhe Silva, para esses pulhas nada é pouco para os aniquilar.
- Mas Sua Majestade ficou apreensiva quanto ao recurso. Disse-me o secretário da Câmara que ouvira este comentário ao almoço no Paço.
- Eu falei com o Conselheiro Acácio que se batia com uma perdiz de cebolada e bebia-lhe do fino com Sua Majestade nesse almoço e que teve o ensejo de sossegar o Real Senhor, dizendo-lhe sem pudor:
- Pois fique sabendo o meu Senhor que na Relação e no Supremo nós temos boa memória.
E parece que entretanto serviram um moscatel de Setúbal para acompanhar um toicinho do céu, vieram depois os charutos e acabou tudo a comentar uma toirada em Salvaterra.

morrer de amor

Encontrei o Ludgero. Achei-o estranho. Perguntei-lhe o que tinha.
- Estou apaixonado!
- Ó diabo, isso ainda te faz ir para o desemprego. Tu vê lá!
- Pois olha que só penso nela, o que estará a fazer, se me corresponde, rondo-lhe a casa à espera que saia. Até já tenho preparado o que lhe vou dizer. Mas repito, e o raio é que gaguejo e parece-me pouco natural. Pensei assim numa metáfora, o que achas?
- Eu acho uma asneira que vai provocar-lhe uma gargalhada de troça ou a indiferença.
- Então o que sugeres, Leandro? Sempre foste meu amigo.
- Eu se fosse a ti, matava-me de amor. Já não há disso e ainda vinha a notícia no Correio da Manhã. Ela leria e sentiria, seguramente, uma comoçãozinha.

o sr. visconde de Itapurati

- Então viste que do Brasil chegou hoje um janota no paquete que vem do Rio?
- Diz a gazeta, que desembarcou hoje em Lisboa o sr. visconde de Itapurati, gente do nosso melhor high-life, depois de uma ausência de seis meses em terras de Vera Cruz.
- Sua Senhoria vai frequentar o S.Carlos e o Tavares e começa o rodopio das coristas.
- Parece que não, disse-me o Mendes da retrosaria, a criada grave que lá vai muito, a Silvina, disse-lhe que tem casamento aprazado com a filha de um Conde.
- Pois junta-se a fome à vontade de comer.
- Olha vou-me chegando pois a Ludovina tem lá hoje um capão com um Collares que aviei ali na rua do Arsenal e está-me a fazer fome.
- Vai com Deus e avisa-me de novidades pois isto é tudo uma choldra.

sábado, 6 de setembro de 2014

escrever é ....uma opinião bem esgalhada, mas há outras

(...) escrever é exumar o que ficou por viver; possuir o que nos escapou; ressuscitar o que nunca existiu; dar vida ao que morreu antes de tempo; descobrir quem não chegámos a ser; inventar quem poderíamos ter sido. Sim, a fonte do que escrevemos nasce do que não fomos.

Marcello Duarte Mathias

sexto sentido de um escritor

Nenhum escritor pode criar do nada. Mesmo quando ele não sabe, utiliza experiências vividas, lidas ou ouvidas, e até mesmo pressentidas por uma espécie de sexto sentido.”

Érico Veríssimo

your smile alone can make my day


a desigualdade social no nascimento e a igualdade na morte

La naissance est le lieu de l'inégalité. L'égalité prend sa revanche avec l'approche de la mort.

Jean d'Ormesson

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Dr.Luis Barbosa e o Taj Mahal


Numa reunião esta manhã na Cruz Vermelha, encontrei o Presidente e meu querido Amigo, Dr. Luís Barbosa de quem guardo gratíssimas memórias pois em pleno PREC, sendo eu um jovem imberbe e loiro (que nunca fui, pois sou moreno) e por ter um grau de parentesco muito próximo por afinidade com o Tio Jorge de Mello, fui saneado do meu primeiro emprego, ever, na Império.

Mas quinze dias depois tinha uma nova oportunidade de trabalho, muito melhor e com um salário bastante confortável para os tempos difíceis da época, tudo devido ao eficaz e bondoso Dr. Luís Barbosa. Fiquei-lhe eternamente grato. 

Este triste momento teve episódios rocambolescos e miseráveis de pessoas iguais a nós que se venderam ao outro lado e que foram a causa do meu despedimento, mas acho que contei para trás no blogue a propósito de outras aventuras.

Ora ficando a conversar comigo na reunião, o Dr. Luis Barbosa contou-me com a sua graça habitual que tendo feito a sua 86 viagem ao estrangeiro, ou seja conhecendo praticamente o mundo inteiro, resolveu esgotar o que ainda lhe faltava e foi ao Azerbaijão, Geórgia e Cazaquistão. Isto com oitenta e picos de anos de vida!

Contou-me que numa visita a um museu de papiros locais, que fazia parte do tour, ficou para trás e de fora do grupo excursionista tendo esperado algum tempo até que os restantes companheiros regressassem ao autocarro…

A propósito de tempos de espera em filas para visitar museus, narrou-me esta divertida historieta: 

1.       Foi à Índia e foi visitar o Taj Mahal. Chegou,viu, entrou, apreciou e foi-se embora. Tudo isto sem demorar mais do que uns 15 minutos.

2.       Foi desafiado pela família para ir a Óbidos à Feira do Chocolate, e esperou em pé mais do que 45 minutos para uma réplica do Taj Mahal em chocolate…..

Nunca mais, jurou a si mesmo, voltaria à feira do chocolate…para demorar 45m a ver uma réplica pequenina de um monumento que ao vivo, chegou, viu e venceu!

os meus olhos nos teus olhos


Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte no teu campo o que eu semeei.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Romeiro, Romeiro! quem és tu? - Ninguém.

Romeiro, Romeiro! quem és tu? 

- Ninguém.


Cristalina lucidez

… como no Inferno quando se entra pela porta maldita e se deixa a dita esperança à entrada. Agosto é um bom mês para percebermos tudo.

Milhares e milhares de jovens que não lêem um livro, passam o mês em festivais no meio do lixo, do pó, da cerveja e dos charros.

Milhares e milhares de adultos vão meter o corpo na água e na areia, sem verdadeira alegria nem descanso.

Outros muitos milhares de jovens e adultos nem isto podem fazer porque não tem dinheiro.

No interior, já que não há correios, nem centros médicos, nem tribunais, proliferam as capitais, da chanfana, do caracol, do marisco, do bacalhau, dos enchidos, da açorda, as “feiras medievais” de chave na mão, as feiras de tudo e mais alguma coisa desde que não sejam muito sofisticadas. Não é uma Feira da Ciência, nem Silicon Valley.

As televisões, RTP, SIC e TVI “descentralizam-se” e fazem arraiais com umas estrelas pimba aos saltos no palco, mais umas “bailarinas”, nem sequer para um grande público. 

 Incêndios este ano há pouco, pelo que não há imagens fortes, ficamos pelo balde de água. 

Crimes violentos “aterrorizam” umas aldeias de nomes entre o ridículo e o muito antigo, que os jornalistas que apresentam telejornais com tudo isto gostam de repetir mil vezes. 

Felizmente que já começa outra vez a haver futebol, cada vez mais cedo. 

O governo, com excepção das finanças e dos cortes contra os do costume, não governa, mas isso é o habitual.

A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social. No tempo de Salazar falava-se do embrutecimento dos três f: futebol, Fátima e fado. Se houvesse Internet acrescentar-se-ia o Facebook como o quarto f. Agora não se pode falar disso porque parece elitismo. Áreas decisivas do nosso quotidiano hoje não são sujeitas à crítica, porque se convencionou que em democracia não se critica o “povo”.

Agosto é um grande revelador e um balde de água fria em cima da cabeça para aparecer na televisão ou no You Tube. 

Participar num rebanho, mesmo que por uma boa causa, podia pelo menos despertar alguma coisa. 

Nem isso, passará a moda e esquecer-se-á a doença. Pode ser que para o ano a moda seja meter a cabeça numa fossa séptica, a favor da cura do Ebola.

Assim não vamos a lado nenhum. Como muito bem sabem os que não querem que vamos a qualquer lado.
 
Abrupto – José Pacheco Pereira 

Na China e em Portugal acabam sempre no mesmo...

Um colaborador meu chinês, o Lu Yang, mas que fala português como eu, vivia cá em Portugal e, como tantos outros, por falta de oportunidades partiu para a China, nomeadamente para Shanghai aonde lhe arranjei um emprego na Cimpor.

Durante os primeiros 6 meses acabámos por não nos contactar, apesar de eu ter ido a Pequim umas três vezes ( não é bem ali ao lado...) e quando finalmente lhe telefonei a saber se estava tudo a correr bem, entre outras coisas, disse-me que se ia casar.

O Yang Lu, tem cerca de 28 anos e até ali nunca me tinha dito que estava a pontos de dar o nó.

Por isso, perante o meu espanto, disse-me: - Sabe como é, aqui na China são as famílias que arranjam os casamentos e a minha, apanhando-me aqui, achou que já estava em idade de formar família!

Mas, perguntei-lhe, já a conhecias? - Eu, não! - E gostas dela, achas que é o teu tipo, etc.. Resposta dele : - Já sabe como é, aqui na China, os homens têm que cumprir o seu dever de se casar senão parece mal, e eu nem penso no amor!

Entretanto nasceu uma filha e tenho falado com ele.

Parece que a Madame gosta de fazer compras caras nos grandes shoppings, e tanto quanto me diz, a vida corre sem sobressaltos, tipo bocejo!

Comentei-lhe que tendo ele vivido em Portugal, andado no liceu, falando bem português, tendo conhecido moças galantes locais, e convivido num ambiente moderno, livre e sem estas obrigações familiares, como se tinha submetido e não dar o grito do Ipiranga???

Resposta dele: - Sabe, por aí as pessoas acabam todas da mesma maneira como aqui na China...fazem sexo por obrigação, têm filhos, trabalham em ambientes cinzentos e de crise até que chegam a mais tarde e morrem de velhos.

E esta hein?

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A liberdade perdida - Crónicas - Giovanni o siciliano - o primeiro recluso




(foto de Giovanni (1) Giovanni no liceu (2) Don Emilio De Rosa, o Avô, e Giovanni (3) Don Emilio, a Mãe de Giovanni, Donna Emilia De Rosa e o pai, Giacomo ou Giaco Cominelli)


Giovanni tinha nascido na Sicília, de uma família remediada e fora cedo para a escola local. A casa tipicamente da região era composta de uma sala comum com um grande forno de pão e uma chaminé aonde se cozinhava e durante o inverno toda a família se sentava para se aquecer. Havia mais dois quartos de dormir, um o dos pais e o outro de Giovanni e dos irmãos. Uma casade-banho única com uma tina de chumbo e um chuveiro de água fria serviam a família.

O pai, Giacomo - o nome transforma-se em Como e dá origem ao apelido Cominelli -  era conhecido por Giaco, e era um homem austero, comerciante local, com uma taberna limpa e asseada aonde a comunidade dos homens se reunia antes da missa, a que só iam vagamente alguns, acompanhando a maioria da mulheres que compareciam com as crianças. 

A mãe, Emilia De Rosa era filha de um capo da Máfia (Cosa Nostra)

Comia-se bem e farto, pois o negócio de Giaco dava bom lucro e o Avô era generoso e ia dando dinheiro à filha para educar Giovanni, com quem tinha muita cumplicidade.

A Cosa Nostra (também conhecida apenas como Máfia) é uma sociedade criminosa secreta que se desenvolveu na primeira metade do século XIX na Sicília, em Itália. A Máfia é um tipo de crime organizado não apenas activo em vários domínios ilegais, mas também com tendências a exercer funções soberanas - normalmente pertencentes a autoridades públicas - sobre um território específico...

Muitos sicilianos não consideram esses homens como criminosos, mas como modelos ou protectores, uma vez que o Estado foi incapaz de oferecer proteção aos fracos e pobres. 

Por volta da década de 1950, a inscrição fúnebre do lendário chefe de Villalba, Calogero Vizzini dizia que "a sua máfia não foi criminosa, mas manteve o respeito à lei, à defesa de todos os direitos e à grandiosidade de caráter. Era amor." 

Aqui, "máfia" significa algo como orgulho, honra, ou até mesmo responsabilidade social: uma atitude, não uma organização. 

Em 1925, o ex-primeiro-ministro italiano Vittorio Emanuele Orlando reportou ao Senado italiano que se sentia orgulhoso de ser um mafioso, uma vez que essa palavra significava honorável, nobre, generoso.

De acordo com alguns mafiosos, o verdadeiro nome da Máfia é Cosa Nostra (literalmente, "Coisa nossa") que pode ser traduzido como: "Assunto nosso" ou "Nosso assunto". Muitos alegaram que a palavra "mafia" foi uma criação literária. Para os homens de honra pertencentes à organização, não há necessidade de um nome. Os Mafiosos apresentam membros conhecidos a outros membros conhecidos como pertencentes à "cosa nostra" (nossa coisa) ou la stessa cosa (a mesma coisa). 

Apenas as pessoas de fora da máfia precisam de um nome para descrevê-la, daí a forma em letras maiúsculas "Cosa Nostra".

O ritual de iniciação na maioria das famílias acontece quando um homem torna-se membro e depois soldado. O novato é trazido à presença de, pelo menos, três "homens de honra" da família e o membro mais velho presente adverte-o que "esta Casa" tem como função proteger o fraco do abuso do poderoso; e então, fura o dedo do iniciado e pinga umas gotas do seu sangue sobre uma imagem sagrada, geralmente de uma santa. 

A imagem é colocada na mão do iniciado e é acesa com fogo. O novato deve aguentar a dor, passando a imagem de uma mão para a outra, até a imagem ser consumida por completo, enquanto promete manter a fé aos princípios da "Cosa Nostra", jurando solenemente "que a minha carne arda como este santo se eu falhar em manter meu juramento". 

Os sicilianos também têm uma lei de silêncio, chamada omertà. Proíbe a homens e mulheres cooperar de qualquer maneira com a polícia ou com o governo, sob pena de morte.

Na sua forma inicial a Cosa Nostra siciliana, denomina cada grupo como famiglia ou Cosca. Cada "família" é organizada da seguinte forma:

No topo da hierarquia está o Capo, conhecido como Don. Por ele passam todas as decisões acerca da família, e recebe uma percentagem dos lucros de todas as operações dos seus membros.

Logo abaixo do Don, está o Sottocapo (Subchefe). Serve como substituto temporário no caso da ausência do chefe e também como intermediário entre este e os outros membros abaixo na hierarquia.
 
O Consigliere actua como conselheiro do Don, e é o único que de facto pode ponderar e aconselhar as acções a serem empreendidas pelo chefe, servindo como uma segunda opinião. Normalmente é um posto ocupado por alguém de muita experiência e perícia para intermediar conflitos e negociações.
 
Subordinados directamente ao Subchefe estão os Caporegimes, conhecidos também como Capitães. Cada um destes, comanda um regime ou uma equipe, que são compostas por soldados e associados. Uma percentagem de todo o lucro obtido por esta equipe é entregue directamente ao chefe da família como forma de tributo.
 
Os Soldati ou Soldados, são o posto básico da hierarquia. São os membros efectivos da organização. São eles os responsáveis por conduzir as operações nas ruas e executar os serviços de maior importância. O requisito básico para se tornar um membro efectivo da família é possuir ascendência italiana completa no caso da Cosa Nostra siciliana.

Os Associados são os membros externos da organização. Embora não façam oficialmente parte da família, actuam como colaboradores dos seus membros efectivos. Dependendo da sua influência e poder, o associado pode actuar inclusivé junto dos postos mais altos da hierarquia de uma família.

Ora o avô materno de Giovanni, de nome Don Emilio de Rosa, tinha sido um importante Capo na região de Palermo pelo que a sua família era intocável.

Don Emilio tinha modernizado os dez mandamentos da Cosa Nostra, resumindo-os aos seguintes princípios:

1. Ninguém se pode candidatar directamente através de algum membro. Deve sempre ser proposto por intermédio de um terceiro.
2. Nunca podem olhar/envolver-se com as mulheres dos seus companheiros.
3. Nunca podem ser vistos com a polícia.
4. Não podem ir a bares nem a discotecas.
5. Estar sempre à disposição da Cosa Nostra é um dever - mesmo quando as mulheres estiverem a dar à luz.
6. Os compromissos devem sempre ser honrados.
7. As esposas devem ser tratadas com respeito.
8. Quando for solicitada uma informação, a resposta deve ser sempre a verdade.
9. Não podem apropriar-se de dinheiro pertencente a outras famílias ou outros mafiosos.
10. Diversos tipos de pessoas que não podem fazer parte da Cosa Nostra: qualquer indivíduo que tenha um parente próximo na polícia; qualquer um que tenha um parente infiel na família; qualquer um que se comporte mal ou que não tenha valores morais.

E assim, Giovanni foi educado secretamente para se tornar, quando fosse um homem, num activo membro da Cosa Nostra para honrar o nome do avô.

(continua)