domingo, 13 de maio de 2012

L'art de la conversation


Depuis la révolution des plus si nouvelles technologies, un art est en train de se perdre : celui de la conversation.

Si les débats pullulent à la radio et à la télévision, dans la vie civile, en revanche, il est de plus en plus rare de traiter un sujet de manière un tant  soit peu construite, un tant soit peu approfondie.

Dans les nombreux diners, une fois échangés trois banalités entendues quelque part ou quelques bons mots reçus sur Facebook, on passe à l’actualité ou à la rumeur suivante qui sera tout aussi rapidement « zappée ».

Argumenter devient un effort que plus personne n’a envie de fournir et par manque d’habitude la contradiction est souvent confondue avec de l’agression.

Converser, surtout, implique d’écouter et de s’intéresser à quelqu’un d’autre que soi, ce qui divertit de moins en moins de gens. Dans les réunions de travail, chacun regarde ses mails et ne lève le nez de son téléphone que pour les points « qui le concernent », ce qui n’aide ni à la convivialité ni à la vision globale des problèmes.

Même en famille, beaucoup ont pris l’habitude d´ « êtres seuls ensemble » et les retrouvailles se résument à voir parents, proches et enfants jouer avec leurs écrans tactiles dans la même pièce. Rares sont les longues soirées ou on se livre encore à cette activité délicieusement inutile : « refaire le monde », comme sont rares ces moments où l’on parle vraiment des choses qui nous tiennent à cœur.

Reste un mystère : pourquoi écrire sur un Smartphone à des personnes éloignées est-il plus séduisant que parler à celles qui sont présentes ?

Sur les réseaux sociaux, les questions sont simples et les réponses immédiates, rendant intolérable les délais qu’implique la « vraie vie » avec ses nuances, ses lenteurs et ses contradictions.

Les machines, enfin, nous donnent l’illusion d’être accompagnés en nous évitant les exigences et les risques de véritables relations.   

Si quelqu’un se retrouve seul, dans une soirée, vous le verrez trépigner quelques secondes et, au lieu de se présenter à quelqu’un, chercher frénétiquement son portable. Remplissant ce vide éphémère de connections virtuelles, l’esseulé d’une minute racontera aux inconnus qui lui servent d’amis, à quel point cette soirée où il se désespéré est géniale !

C’est à croire parfois que la solitude, le fait de ne pas être regardé ou écouté quelques secondes, suffirait a le désintégrer.  

Je pense que c’est tout au contraire. Regardons-nous. Écoutons-nous. Raccrochons.
 
Qui parle sème, qui écoute récolte (Proverbe persan)

Ignorância Atrevida



É a ignorância profunda que inspira o tom dogmático. Aquele que nada sabe pensa ensinar aos outros o que acaba de aprender; aquele que sabe muito mal chega a pensar que o que diz possa ser ignorado, e fala com maior indiferença. As maiores coisas só precisam de ser ditas de forma simples; elas estragam-se com a ênfase: é preciso dizer nobremente as pequenas; elas só se sustentam pela expressão, pelo tom e pela maneira.

Jean de La Bruyére, in "Os Caracteres"

sexta-feira, 11 de maio de 2012

la jouissance



" Mais qu'importe l'éternité de la damnation à qui a trouvé dans une seconde l'infini de la jouissance?"

C. Baudelaire, "Le Spleen de Paris"

My Life Back on Track



I think we’ve all had moments when we feel our life is off track! 

Maybe it’s our job, our business, our relationship, or just in our life in general. Sometimes this happens because we’ve been sitting on the fence too long. Sometimes because we feel we took a wrong turn, got off track, and cannot seem to recover and get happy.

Either way, when you feel your life is off track, only YOU have the power to declare decide when it’s time to get it back together. 

Admit, as quickly as possible, that you took a step that led you down the wrong path. Nothing will change until you personally acknowledge that you made a decision that is not working out well. The sooner, the better. Be willing to take 100% responsibility for the choices you make for your life.

Once you’ve admitted to yourself you’re on the wrong path, decide how you’re going to get back on track. In some situations it may be necessary for you to stop what you are doing immediately. Take the time you need to get very clear on what it is you do want, and get your life back on track one step at a time.   You cannot get happy by rushing through this superficially.

Beating yourself up will only damage your self-esteem. Realize that we all take wrong turns. This is often especially true of the most successful individuals, who have no fear of trying something new.

There is always a lesson to be learned, and something that will help you get happy in the future. What did taking a wrong turn teach you about yourself? Do you need to listen to your gut more and others less? Do you need to redefine what success means to you to get your life back on track?

Just get back on the horse.

The most important thing you can do is to make a commitment to yourself to embrace positive change. Is change easy? Not always! But is achievable one step at a time. What makes the difference is making a commitment and following through. And by far the consistently PROVEN WAY TO MAKE A POSITIVE CHANGE is to consistently recommit every day.  You will end up amazed at how one tiny change a day can literally transform your life.

My life is back on track.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas"




"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos":

 Fernando Pessoa

sábado, 5 de maio de 2012

Fizeram-me no Brasil esta operação aos meus pés.

Fizeram-me no Brasil esta operação aos meus pés. Achei prática, porque assim estou sempre pronto para qualquer circunstância. Quero eu dizer com isto, visitar algum político, assistir a qualquer espectáculo, atender a uma reunião de negócios e quiçá, ir até à praia. Os tempos mudaram, meus Senhores!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

água de côco ou nova crónica do Brasil

A viagem começou em S.Paulo e está a acabar em Fortaleza. Dois quadros executivos americanos da minha empresa chinesa (arquitecto sénior e engenheiro civil) e um chinês/canadiano (engenheiro de estruturas) de 28 anos, filho de um Administrador da empresa em Pequim, acompanharam-me desta vez. Nunca tinham vindo a esta parte do mundo: nunca tinham ouvido falar de caipirinhas/oskas e quejandas bebidas nem, muito mais importante, sabiam rigorosamente nada sobre o Brasil. Como bons “selvagens” em história do mundo, somente sabendo o que se passa em Boise…nome horroroso para pronunciar, nem sei bem aonde é nos USA, ficaram progressivamente fascinados com a cultura brasileira, as gentes, a comida, o ambiente! Sou hoje em dia um razoável conhecedor de S.Paulo, tenho amigos cultos e civilizados que me recomendam programas interessantes para fazer com aves desta natureza. Por isso fui um regalo como cicerone português que lhes falava da história do Brasil e obviamente de Portugal. Astor, um restaurante da moda em Vila Madalena, zona de bares e animação e de pequenos bistrots, recheados de mulheres lindas e apelativas e de tenra idade…na zona libertina dos 23 a 45 que convivem naturalmente sem imaginarem o que podem causar de efeitos efervescentes a um americano de 40 anos, bem parecido e engatatão com 5 caipiroskas no bucho! Ao nosso lado estava uma mesa de 6 borrachos e só não conseguiu os seus intentos, com “aquela” mesa nessa noite, pela simples razão de que só falavam docemente num português dolente e muito sensual. Foi o cabo dos trabalhos para o enfiar no carro, pois queria ficar por ali! Em churrascarias, excelentes restaurantes de comida mineira, baiana, e italiana o Darren não queria outra coisa do que as caipirinhas (cachaço ou vodka ou o que lhe oferecessem como modalidade). Fomos visitar o museu do futebol que é muito bem organizado e completo e foi para mim um tormento transpor para gringos que têm outro tipo de conhecimento sobre a bola, todo o manancial de um desporto ímpar no Brasil. Como terão já compreendido, foi o tempo todo a falar inglês, traduzindo e retrovertendo para português/inglês toda e qualquer conversa: desde técnica, nas inúmeras reuniões que tivemos com o Governo, instituições oficiais, empresas, lojas, o raio….a charlas sobre diversos temas desde os mais triviais até aos mais sublimes! O nosso canadense/chinês, que só é canadiano porque lá viveu em pequeno, mas tendo nascido na China, revelou-se um encanto de pessoa, inteligente, óptima companhia e absorvendo às goladas tudo quanto eu lhe apresentava. De uma enorme pureza e candura, não nos acompanhava nestes programas libidinosos e ficava no hotel a falar para a China, creio que para a namorada, o pai e amigos, talvez por esta ordem. Fala muito bem inglês e ria-se a bom rir com as minhas pitorescas conversas e comentários e quando eu, brincalhão, lhe dizia que uma miúda lhe estava a fazer olhinhos, respondia-me que já me conhecia nas minhas pirulices e no fundo apreciava a minha sem-cerimónia! Contou-me que não vê televisão, não é fã da internet e só a usa quando precisa, não vai a bares nem ao cinema nem ao teatro, não lhe perguntei o que fazia com a namorada aos fins-de-semana, e respondeu-me que nunca sabiam como matar o tempo. Muito triste esta vida na China, dura, fria, controladora, sem deixar a nova geração fazer o que lhes dá na gana, tal como noutros países aonde há liberdade. Não sei se sabem que o facebook é proibido e bloqueado, o Google, etc…um inferno de arrogância e bem, hoje nem vou mais falar dos contrastes que conheço, quando lá vivi e morei, mas também da extraordinária tenacidade, inteligência, esforço no crescimento e compreensão do mundo exterior…ainda com enormes recuos e dificuldades. Língua impenetrável e cultura difícil de absorver: um horror de cansaço para explicar o óbvio e costumeiro em países como o Brasil e Portugal, em termos técnico, de ordenamento jurídico, económico, financeiro…gasta-se dez vezes mais energia para no fim, ainda restarem dúvidas. Hélas! em Portugal as hipóteses de uma vida branda, gostosa e prazenteira vão cada vez mais rareando e tornando-se num sonho impossível. Por isso é preciso voltar a partir como os antepassados…com menos sabor a escorbuto, mais a água de côco…neste paraíso aonde ainda estou e para aonde quero vir com quem comigo me quiser acompanhar nestes negócios de horizontes largos e variados. Naturalmente é também um país com problemas, agruras, burocracias, incompreensões… Dois exemplos que acho uma maravilha: imaginem-se como eu a tomar água de côco nesta piscina deste hotel aonde me encontro a descansar depois deste dias danados: a massagista ontem sugeriu-me que a água de côco era boa para a pele! O segundo exemplo: numa reunião com uma Despachante, oiço pasmado que o nome de uma das taxas de importação a pagar de materiais da China para o Brasil é a “capatazia” ! Como traduzir isto para inglês e subsequentemente para chinês? E o que dizer do nome de cervejas como por exemplo, “Devassa” ou “Proibida” que são uma delícia! Fico-me hoje pela água de côco, não desprezando, é claro, as caipirinhas/oskas que honradamente tomei acompanhando com mais moderação o Darren. O meu peso aumentou desde que cheguei apesar de regularmente ir “malhar” na “academia” ou seja ir ao ginásio!

domingo, 15 de abril de 2012

Portugal daqui a pouco!

para uma mulher só


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in 'Poemas

Leia...leia sempre muito


"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede."

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 7 de abril de 2012

Aimberê - Meus contos brasileiros (final triste)


Aimberê terminou comigo de uma hora pra outra, estávamos tão bem três dias atrás! Eu a tratei bem e ela me tratava super bem; eu já tinha como ir mais vezes até à Aldeia da Serra.

Ela reclamou que estava dificil pois tinha que se acostumar novamente ao ritmo de viver com os pais e a mãe dela nem deixava ela sair na rua direito.

Depois daquele incidente ao almoço em casa de seus pais, ela começou a falar assim que a gente não gostava das mesmas coisas, apesar de termos feito sexo praticamente todo o dia, e realmente parecia que sentíamos desejo um pelo outro mas ela disse que queria tempo e eu fiquei muito triste.

Estávamos indo na rua e ela disse que queria terminar, mas não disse que era porque não me amava e perguntei e ela também não disse que tinha outro alguem. Fiquei sem entender. Sei que ela ainda me ama , senão ela tinha-me olhado nos olhos e dito isso. Disse apenas que estava confusa e que não sabia o que ela queria pra vida dela.

E aí, será que ela vai me procurar?

Me ajudem , estou sofrendo muito galera !

PS : parti de vez para o sertão deixando pra trás Aimberê na Aldeia da Serra e vou tentar encontrar a minha Jane ! Me sinto um Tarzan !

Aimberê - Meus contos brasileiros (continuação 5)


Eu estava meio nervoso nesse dia, mas não estava com medo. Estava só meio preocupado com o que os pais dela iriam achar de mim.

Vesti uma camisa Polo e uma calça social (esse povo velho é chato pra burro).

Como combinado, cheguei lá bem limpinho, na hora do almoço. Dei um beijo na bochecha de Aimberê para que os pais dela não desconfiassem (esse povo implica com tudo…).

A mãe dela foi muito gentil comigo, arrumou um lugar para eu me sentar. Mas o pai dela me olhou com uma cara feia, parecia que ele estava passando fome há um mês.

Apertou a minha mão forte pra burro, tive que juntar meus dedos dentro da mão dele para não quebrarem.

Eu já estava nervoso, e depois disso a coisa piorou. É que eu cheguei lá com uma vontadezinha de cagar, mas nada muito sério. Quando o pai dela apertou minha mão daquele jeito, senti tanto medo que me bateu uma caganeira brava. Me segurei na cadeira como pude.

Então, a mãe dela começou a servir o almoço. Era uma feijoada. Fiquei com medo de colocar aquilo na boca, com aquela aflição iminente. Comi só um pouco e perguntei onde era o banheiro.

- Pega o corredor à direita, segue 10 portas, depois pega o outro corredor e entra na segunda porta à esquerda.

Não entendi onde era. Pensei “ por que essa menina tinha que ter uma casa tão complicada?”. No caminho encontrei uma janela bem grande e arejada. Fiquei parado lá, tomando um ar para ver se a vontade passava.

Era até melhor, porque ficar um tempão no banheiro dos pais dela, logo no primeiro dia, não pegava bem.

De repente eu senti um aperto na barriga, uma coisa fortíssima. No susto, desceu tudo pela minha calça social branca.

Virei pra trás e vi que foi Aimberê que tinha apertado a minha barriga, querendo me fazer uma surpresa.

Ao lado, estavam os pais dela. A mãe dela trouxe uma toalha para eu me limpar. O pai dela começou a rir e a me chamar de cagão.

(continua)

Aimberê - Meus contos brasileiros (continuação 4)


Levei Manuel para conhecer meus pais e a minha família.

Fui avisando que talvez não fosse fácil o primeiro embate por ser português e lhe dei alguns conselhos. Ele sorriu e foi ouvindo.

Lhe disse que não era preciso falar como um advogado, mas dizer expressões que são apropriadas a um jogo de futebol eram “proibidas”, tais como “tipo assim”, “mano” e “tô ligado” podiam passar a imagem errada sobre ele.

Em hipótese alguma deveria fazer referência ao sexo. O meu pai não gosta de pensar nesse assunto, sobretudo não devia deixar escapar qualquer comentário sobre idas a motéis ou festinhas, pois a vida no interior é muito espartana.

Nada de me agarrar, segurar a cintura, dar beijões e, muito menos, apertões no “bumbum”.

Não era preciso falar também de que as suas actividades preferidas eram, respectivamente, trabalhar numa ONG, ouvir Bach e ler livros. Deveria ser ele mesmo, mas não passar a imagem de preguiçoso. Procurar comentar sobre coisas que, por exemplo, encheriam os meus pais de orgulho.

Quanto a jantar se o cardápio fosse algo que ele não gostasse, deveria fazer um esforço para comer pelo menos um pouco – e sem fazer cara feia. Mexer na comida, pelo menos, seria um sinal de que teria aprovado a dedicação deles pela sua alimentação.

(continua)

Aimberê - Meus contos brasileiros (continuação 3)


Chegamos à Aldeia da Serra e nos dirigimos para a praça. Aí, nos encontrámos na Igreja Matriz, património honroso da nossa terra - disse eu orgulhosa para Manuel - e um bonito jardim para descansar, e ainda, e neste, algo representativo da tradição secular agrícola: um carro de bois e uma amostra de um lagar de azeite, indústria de outros tempos.

A caminho do bairro onde se situa a casa de meus pais, ainda muito perto da Igreja Matriz, encontra-se uma fonte de mergulho, onde outrora se ia buscar a água potável para abastecimento dos lares.

No centro (largo principal), existe um pequeno café, instalado na antiga escola primária, onde descansámos um pouco para tomar uma bebida.

Estava uma tarde cálida e o sol ainda tinha brilho por mais umas horas por isso resolvi ir mostrar a ele um local sossegado, entre duas serras, de excelente ar puro e onde o silêncio se faz sentir, tornando-o belíssimo para passar uma tarde de paz, sossego e tranquilidade.

Vieram as primeiras perguntas:

Quem eu era? Como me via e me definiria se estivesse a apaixonar-me por um homem que eu só conhecesse superficialmente e a quem eu quisesse convencê-lo “que sou a única”?

Ele me pegou de surpresa e lhe pedi que me desse alguns minutos para refletir e nos sentámos olhando para o horizonte em silêncio.

Como vou conseguir lhe dizer que quando cedinho o despertador canta de galo eu não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede. Não queria ter que trabalhar. Quero ficar em casa, ouvindo música, cantarolando, até! Se tivesse cachorro, passearia com ele pelas redondezas. Aquário? Olhando os peixinhos nadarem. Espaço? Fazendo alongamento.
Leite condensado? Brigadeiro.

Tudo menos sair da cama, engatar uma primeira e colocar o cérebro pra funcionar.

Eu quero alguém que abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela. Chegue do trabalho, sente no sofá, coloque os pés pra cima e diga "meu bem, me traz uma dose de whisky, por favor?", pois eu descobri que é muito melhor servir.

Antes eu sonhava, agora nem durmo mais.

Eu sei perfeitamente que quando penso “como posso fazer que ele se interesse por mim?”… já me estou a meter no estado mental que vai afastar ele de mim e tornar a relação com ele menos provável.

Primeiro, é garantido e sei por experiência que isso NUNCA vai funcionar comigo. Assim vou tornar-me numa mulher que ele sente que é carente à volta dele.

Eu sei que quando um homem sente que uma mulher está a ser carente e chata, não importa a beleza e a generosidade dela… ele vai ter uma mudança emocional e vai deixar de sentir ATRAÇÃO por ela.

Ele capta alguns sinais ou algumas palavras erradas, a linguagem corporal errada ou demasiadas emoções intensas que ele não entende mas que sabe que tem a ver com ele… vai soar o alarme de “mulher carente”.

(continua)

Aimberê - Meus contos brasileiros (continuação 2)


Cada vez estava menos gente no ônibus e de repente comecei a cantar essa modinha para ele:

Se você não fosse gente,
o que gostaria de ser?
Diz pra mim, quero saber...

Um objeto, um bichinho?
Invisível? Queria ser?
Diz pra mim, quero saber...

Eu queria ser uma roupa...
Pode dizer que sou louca.
Acho graça e já explico...

Já pensou em ser o lençol
que todas as noites aquece
o alguém que a gente não esquece?

Já pensou em ser a roupa
que docemente acaricia
esse corpo durante o dia?

Por isso eu queria ser
uma roupa, pra viver
sempre junto de você...

Algo que ficasse assim,
eu em você, você em mim...
muito próximo, entende?

E você, se não fosse gente,
o que gostaria de ser?
Diz pra mim, quero saber...

Manuel me olhava deslumbrado pela minha voz dolente e pela ousadia dos meus versos. Um cara que saía na paragem próxima, se voltou para nós e disse todo sorridente:

- Isso promete, quem dera ser sua roupa!

Me calei e olhei em frente um pouco timorata pois não sabia qual seria a reacção do meu companheiro de viagem.

Pensei pra mim, fui longe de mais? Que pressa de expressar meu pensamento, sempre o exagero de tudo o que faço.

E a voz serena de Manuel me pergunta: você está afim de bater um papo gostoso e nos conhecermos melhor? Posso lhe fazer algumas perguntas?

Bem feita! Queria já o lençol para me aquecer essa noite e teria que me contentar com a roupa e com o cheiro do seu perfume que me seduzia.

(continua)

Aimberê - Meus contos brasileiros


Eu mudo pra caramba. Minhas roupas, meu cabelo, minhas visões sobre as coisas, meus amores, meus desgostos, minhas músicas.

Não consigo entender aquelas pessoas que não mudam. Ficam no mesmo emprego durante anos, com o mesmo corte de cabelo e se relacionando com as mesmas pessoas.

Outro dia mesmo eu estava na paragem do ônibus e encontrei um simpático português que se sentou a meu lado e eu tenho que confessar que gostei da conversa.

Já mudei 9 vezes de casa. O lado bom disso são as histórias, e bota história nisso! O papel de parede horrendo arrancado com a mão; a minha babá má, que me fazia comer espinafre todo dia e recolher todos os lápis de cor de baixo do sofá, lá na casa de meus pais; minhas fugas por cima do muro do prédio na praia; o cheiro de coisa velha do armário da casa do meu avô...

O lado ruim é que eu não fiquei tempo suficiente em nenhum desses lugares até eles ficarem com o meu cheiro. Sou muito exigente com os cheiros das coisas. E das pessoas também. Não costumo gostar de alguém que use um perfume que não me agrada. Nada pessoal, só não gosto de ficar perto. Pode ser que seja um exagero meu, mas em que eu não exagero sempre? Minha vida toda sempre foi baseada em exageros. Ou eu estou bem ou eu estou mal, sem meio termo. Exagero na hora de fazer o prato de comida, de me emocionar com um filme, de amar alguém, de não gostar de alguém, de contar histórias... Quem sabe metade desse texto não foi puro exagero? O ponto é, exagerando, mudando, eu vou vivendo, e vivendo muito mais do que qualquer realista por aí.

Ele se chamava Manuel e me disse que era típico nome de português. Fomos conversando e ele me perguntou o nome e quando lhe disse que me chamava Aimberê, se riu com um sorriso aberto e a gargalhada doce parecia a do canto do sabiá.

Fiquei um tempo calada e a paisagem passava rápida pela janela do ônibus e o cheiro dele era bom, usava um perfume de que logo gostei.

A viagem ainda era longa, por isso saboreei o tempo que teria à nossa frente para um bom papo.

Senti a voz semi-brasileira dele fazendo um esforço para usar o sotaque, e olhei com um ar divertido e guloso para ele. Que cara bacana, tentando me agradar.

Porque me chamava Aimberê, perguntou Manuel. Me disse que era um nome tão invulgar que devia vir de alguma estrela cadente e quente. Sabia a índia, a tribo, a liberdade.

Resolvi ir com ele, fosse ele para onde fosse. Me disse que ia para a Aldeia da Serra e eu lhe disse que era justamente o meu destino.

(continua)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Winston Churchill


As he approached his 90th birthday, Winston Churchill was asked the secret of longevity.

"Sport," he replied. "I never, ever got involved in sport."

Momentos


Há milhões deles. Biliões. Triliões mesmo.

Somem-se todos e serão o tempo de uma vida.

Chamamos-lhes Momentos.

Não têm nenhum tempo convencionado. Pode ser um minuto ou uma hora ou um segundo. Vão e vêm e assim se transformam em Memórias. E aí, permanecem. São nossos para sempre e ninguém nos pode tirar. Nem podemos ver-nos livres dos maus momentos que não queremos relembrar.

Após alguns anos de os coleccionarmos, constatamos que é tarde para fazer alguma coisa sobre os que já passaram. Mas podemos sempre fazer algo sobre os que estamos a viver e dos que estão para vir. E sobre os cem mais que acontecem a cada dia, e os milhares a cada semana, e por aí adiante, nomeadamente dos triliões de momentos que acontecerão antes da nossa morte.

Quanto a estes podemos fazer qualquer coisa. Enquanto reflectimos o que podemos e queremos fazer, constataremos que só uma coisa importa.

Por mais que passem, mais entesouraremos enquanto vivemos, até que um dia já teremos os suficientes. E depois morreremos. E quando isso acontecer, no momento da nossa morte, saberemos o que realmente vale a pena saber.

Saberemos nesse momento quem somos e em quem nos tornámos.

Constataremos que não houve mais nada do que devêssemos ser do que existir. Aqui. Agora.

Descobriremos que somos a única coisa que importa.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Einstein e Spinoza



Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu:

"Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas acções dos homens”.

E aqui vai o que lhe disse DEUS, ... segundo SPINOZA (1632-77)

“Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti! Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa...

A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias.

Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti! Pára de me culpar da tua vida miserável!
Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que a tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar o teu amor, o teu êxtase, a tua alegria.

Não me culpes, portanto, por tudo o que te fizeram acreditar.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não me podes ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos ...não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir.

Tu vais-me dizer como fazer o meu trabalho? Pára de ter tanto medo de mim...

Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.
Eu sou puro Amor!
Pára de me pedir perdão.
Não há nada a perdoar.
Se Eu te fiz... Eu enchi-te de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como te posso culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como te posso castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei.

Essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita o teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida, que o teu estado de alerta seja o teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.

Esta vida é a única que há aqui e agora!

E a única que precisas.
Eu fiz-te absolutamente livre.
Não há prémios nem castigos.
Não há pecados nem virtudes.
Ninguém leva um letreiro, nem uma marca.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso-te dar um conselho: Vive como se não o houvesse!

Como se esta fosse a tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir!

Assim, se não há nada, terás aproveitado a oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não te vou perguntar se foste bem comportado ou não...
Eu vou-te perguntar se tu gostaste, se te divertiste!...Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim!
Crer é supor, adivinhar, imaginar...
Eu não quero que acredites em mim.
Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas a tua amada, quando agasalhas o teu filho, quando acaricias o teu cão, quando tomas banho no mar!
Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra acreditas que Eu seja?
Maça-me que me louvem.
Cansa-me que agradeçam.
Sentes-te grato? Demonstra-o cuidando de ti, da tua saúde, das tuas relações, do mundo!
Sentes-te observado, surpreendido?

Expressa a tua alegria! Esse é a forma de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como o papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas!

Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora!
Não me acharás.
Procura-me dentro...
Aí é que estou, batendo em ti”.

(Baruch Spinoza)

Estas sábias palavras são de Baruch Espinoza - nascido em 1632 em Amsterdão, e falecido em Haia em 21 de Fevereiro de 1677. Foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.
Era de família judaica portuguesa.

Estas palavras foram escritas em pleno Século XVII!

Spinoza foi 'excomungado' ('chérem', em 1656) pela Sinagoga portuguesa de Amsterdão.

domingo, 25 de março de 2012

os meus capacetes de moto



é assim que ando na minha moto, uns dias com mais cabelo outros dias com mais arejamento!

O mapa


É preciso dedicar o tempo necessário à análise dos problemas para poder aplicar soluções ponderadas e eficazes.

Existe muitas vezes uma deficiência na abordagem da resolução dos problemas, mais primitiva e destrutiva do que as tentativas precipitadas de encontrar soluções instantâneas:

- é a esperança de que os problemas desapareçam por sua própria iniciativa.


Os nossos problemas não desaparecem. Têm que ser resolvidos, caso contrário permanecerão, sendo uma barreira à evolução e desenvolvimento de um espírito solto e livre.

Esta tendência que é humana de tentar ignorar os problemas é, mais uma vez, uma simples manifestação de relutância no adiamento temporário da alegria e da paz.

A confrontação dos problemas é dolorosa.

A opção é escolher sofrer agora na esperança de uma compensação a médio prazo, em vez de escolher a continuação de uma calma aparente do presente na esperança de que o sofrimento futuro não venha a ser necessário.

A melhor forma de gerir o sofrimento na resolução dos problemas para que as nossas vidas sejam saudáveis, é a dedicação à verdade.

Superficialmente isto parece óbvio, porque a verdade é a realidade.

Aquilo que é falso é irreal.

Tenho esta imagem bem clara de que a nossa visão da realidade é como um mapa que utilizamos para nos guiar no terreno da vida.

Se o mapa for rigoroso e verdadeiro, sabemos em geral onde estamos e, se decidirmos para onde queremos ir, sabemos em geral como lá chegar.

Se o mapa for falso e pouco preciso, em geral perdemo-nos.

O nosso caminho para a realidade não é fácil.

Primeiro, não nascemos com mapas; temos que os fazer e fazê-los exige esforço: quanto mais esforço fizermos para compreender a realidade, tanto maiores e mais precisos serão os nossos mapas.

Ás vezes os nossos mapas são pequenos e mal desenhados e a nossa visão do mundo é estreita e enganadora.

A partir de certa altura, desistimos. Temos a "certeza" de que os nossos mapas estão completos e deixamos de nos interessar por novas informações. Como se estivéssemos cansados.

Mas o maior problema da feitura dos mapas não é ter de começar do zero, mas o ter de os rever constantemente, se queremos que sejam rigorosos.

Tenho reflectido no que significa a nossa vida ser de dedicação total à verdade.

Significa, antes de mais, uma vida de auto-exame contínuo e rigoroso. Temos que, para além de examinar a realidade também de examinar, por assim dizer, o examinador.

Isto quer dizer, na minha opinião, uma vida disposta a aceitar um desafio pessoal.

A única maneira de termos a certeza de que o nosso "mapa" da realidade é válido é, assim, expô-lo à crítica e ao desafio dos outros "fabricantes" de mapas.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Não se acostume com o que não o faz feliz (Fernando Pessoa)


Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Fernando Pessoa

terça-feira, 20 de março de 2012

Era uma vez...


Era uma vez…

Nem sei bem o que me apetece dizer.

Ando tão cansado de tudo. Nunca sentiram que quase nada vale a pena! E o pouco que ainda vale é efémero, não tem chama.

O que quero dizer é que te esforças por conseguires o quase impossível; esgotas-te no caminho árduo e cheio de escolhos; ultrapassas as dificuldades e chegas ao fim mas já não te apetece o êxito, a fruição do sucesso, a prática do objectivo que alcançaste. Já está gasto!

Juntas dinheiro para comprar a casa dos teus sonhos…ou compras logo porque te saiu a sorte grande, ou porque conseguiste um empréstimo ou finalmente porque te arrastaste anos a fio a poupar!

Vem uma doença, a tua mulher é um estupor, o teu marido, namorado, amante é tarado sexual, é impotente, é preguiçoso, batem-se, toleram-se, detestam-se, odeiam-se. Lá se vai a casinha numa partilha de divórcio ou fim de vida em comum.

Quantos momentos de amor, de paz, de tranquilidade tiveram? Faz lá bem as contas e vê lá se valeu a pena tantos anos de sacrifícios para depois já estares cansado do bom que seria, do cinzento que acabou por ser...

Será que é tudo real? O amor, o prazer, o gozo da inteligência, o desfrute dos bens?

Talvez os sonhos! Imaginem. Eu acho! Pelo menos sinto-me bem a sonhar a cores. Também há uns a preto e branco fabulosos.

Por outro lado será vantajosa a bondade, o altruísmo, a generosidade, a disponibilidade?

A quem realmente aproveita? A muito poucos.

É melhor do que a maldade, a brutalidade, o egoísmo, a opressão. Sim, é verdade em teoria e na prática, mas na substância deste algum passo em frente que valha a pena como seguro para uma nova vida?

Outra vez para um tempo efémero.

A pergunta é: apetece viver?

Eu acho que no fundo há uma data de frases feitas, consolos filosóficos ou teologais que pretendem tapar a verdade, verdadinha.

Só faz sentido tudo quanto se passa nesta vida se houver outra a seguir: senão é uma chatice.

Uma hipocrisia na prática de virtudes salobras, estáticas porque não se actualizam, têm grude, estão coladas à cadeira, queres-te levantar e não consegues e se o fazes as tuas acções têm pouco impacto em poucos! Claro que um Warren Buffet ou um Bill Gates marcam a diferença, na abrangência e extensão até aonde alcançam.

Escorregaste uma esmola parca a um pobre que servirá para o alimentar num almoço frugal, só porque outros lhe deram também, senão nem isso conseguia.

A nossa acção, é a velha caridadezinha, que pretende…mas não consegue calar a consciência de fazermos porque sim: fulano disse, um livro sagrado afirma, o tribuno apregoa, a imprensa aplaude e mais uma vez desejamos acreditar e ter uma visão do que nos espera, para francamente valer a pena tanta séca!

Quantas boas obras praticaste? Quantas más acções cometeste? Se o saldo é positivo estás safo…mas safo para quê? Se o saldo é negativo és um patife!

Que consequências têm uma ou outra situação? Digam lá mesmo no que gostariam que acontecesse: um céu aonde nem se sabe bem o que será o infinito…tão bom, tão bom que dá ideia que será uma neura, criará depressões infindáveis. Um inferno tão mau, tão mau que às tantas cansa de tanta maldade, castigo, punição!

Mas é nisto em que estamos: o resto são puras invenções!

Se não são, digam-me por favor como é, pois eu estou interessado! Palavra que estou!

segunda-feira, 19 de março de 2012

VAREIA MUITO!


Não sei se vos acontece o que comigo se passa com frequência!

Ora é da PT, da MEO, da ZON, da EDP e o rosário podia continuar por aí adiante, pois não escapa uma única empresa.

Têm uma obsessiva fixação na pergunta em saber como me chamo – como ando mais quebrado e tenho um nome de código que é o de Luís Paixão que nem sei se existe - soa melhor Sr. Luís do que Sr. Manuel! Já desisti de explicar que me tratem ou por Sr. Andrade ou na maioria dos casos por Sr. Paixão!

Mas enfim, lá vou sobrevivendo com mais berro menos descasca, ameaças de reclamações para a DECO ou respectivas Administrações, de que ou sou íntimo ou um accionista de referência…ahahaahah…suspeito que empalidecem do outro lado do telefone e nem se dão ao trabalho de ir ver se valho alguma coisa!

Mas o tema que queria glosar hoje é o preocupante avanço da ingratidão – e depois tratarei da falta de maneiras.

A ingratidão é mais rápida de exemplificar: recentemente um rapaz chinês bilingue que trabalhou no passado comigo, simpático, disponível e sorridente, ficou desempregado na China! Estava eu em Shanghai com ele a servir-me de intérprete numa reunião com uma empresa chinesa, quando de mansinho e num intervalo, me anuncia tal incómoda e aflitiva situação.

Lembrei-me logo de uma importante empresa portuguesa que está presente na China com uma pujante actividade e cujo Presidente é meu amigo. Por coincidência estava de partida para Shanghai e através do meu iPad mandei-lhe o CV do rapaz, com uma forte e amiga recomendação.

Passaram-se quase 10 meses sem eu ter tido contacto com o meu “protegido” e precisando de uma pequena tradução de português para mandarim, teclámos por skype e ao perguntar-lhe naturalmente como estava, disse-me com um ar tranquilo que tinha sido admitido no dito emprego, por meu intermédio!

Interpelei-o, sobretudo espantado, por nada me ter dito e a resposta foi a de que se tinha esquecido!

Outra circunstância frequente é a atitude de não agradecer…expressamente, com palavras escritas, ou com um telefonema no dia seguinte ou posteriores, qualquer gentileza de que tenhamos sido beneficiários!

Por exemplo, se eu vou jantar a casa de amigos e sou bem tratado tendo-me sido proporcionado o máximo de hospitalidade, e pouco importa se nos conhecemos desde o berço ou de há algumas semanas, o normal é agradecer, não será?

Têm-me dado ao longo da vida presentes variados de que gosto mais ou às vezes menos: livros, gravatas, cds, convidado para programas, almoços e jantares - tudo isto sempre com o “animus” de agradar, dar prazer e obsequiar-me.

O normal será corresponder com a mesma amizade, cortesia para além de ter inato em mim o gosto de retribuir com gratidão e a mesma consideração. Fui sempre educado neste sentido desde pequeno pela minha família a quem via fazer isto mesmo.

Pois, mesmo entre gente de que se esperaria outro comportamento, VAREIA MUITO!

domingo, 18 de março de 2012

Nova carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Não tenho tido notícias tuas. Nas últimas, dizias-me que viajas para a China e Brasil com uma frequência assustadora e por isso calculo que não encontres o tempo nem a tranquilidade necessária para me escreveres assisadamente.

Vou-te assim dar novas daqui, enquanto espero as tuas.

Dois temas para que te chamo a atenção: estão aqui muito na moda, pois quem daí chega fala recorrentemente neles.

O primeiro tem a ver com a doença: morre muita gente com sofrimento e sem preparação para o fim da vida.

Para além de uma exigente e indispensável atitude de respeito pelo corpo, só se ganha em equilibrar os prazeres próprios do seu gozo e fruição com a percepção de que se não for bem cuidado e atempadamente, traz consequências nefastas.

Imagina-te doente e cheio de medicações, coarctado em poderes viajar para lugares com que sempre sonhaste, trabalhar com interesse em projectos que acarinhas, usar o simples direito de passeares na rua, entrares nas lojas, ires ao cinema ou teatro, conviveres com os amigos, leres ou conversares e por aí adiante consoante o que a cada um melhor lhe aprouver!

O sofrimento não só físico mas sobretudo o moral, o que te corrói o interior, o sentimento de impotência perante a doença, são mais mortais do que os desastres naturais pois estes acontecem esporadicamente.

Por isso, cuida-te! Sê gentil com o teu corpo e a razão é porque só vale a pena tê-lo em plena pujança se o puderes usar! Tão simples quanto isso!

Para que serve um relógio que não trabalha?

O segundo tema é sobre o que tantas vezes conversámos: o “jardim de secreto” de cada um!

Convém que não seja assim tão secreto como isso, senão tornas-te egoísta, guardas para ti “pérolas” valiosas que não exibes! Se forem muito poucos aqueles a quem dás acesso, torna-se maçador: sempre as mesmas caras, os mesmos prazeres partilhados, bref, a rotina! E a rotina mata o amor, a novidade, a frescura, a beleza de “cousa começada”.

Por isso sê promíscuo na partilha do teu lugar de refúgio! Rigoroso na escolha, não queiras lá “grafitis” de desconhecidos penetras, mas alarga o teu leque de amizades, aprofunda e aprende com novos contactos, deixa que a porta entreaberta permita o visionamento a sangue novo e a ideias refrescantes.

Não te fixes nos conceitos que sempre “te” convenceram: importante este pronome “te”, pois tantas vezes achamos que somos os únicos detentores das nossas verdades, daquelas que nos convêm, das mais cómodas e que impedem a transição da nossa “instalação” serôdia e bolorenta, já vista e revista, para novos conceitos!

Quando te olhas ao espelho a cada manhã, já reparaste que para além dos olhos ramelados e a barba crescida, tens na tua testa:

- luzes de “néon” como as das discotecas, a apagar e a acender. O brilho depende de há quanto tempo as compraste e se as limpas com frequência. Às vezes há até letras que já nem acendem!

- as palavras que lá estão escritas são três: “ NÃO TE ENGANES”!

- repara bem, não é não enganes os outros, que naturalmente sabes que não o deves fazer. É a “ti” próprio!

Quantas vezes disfarças! Claro que lês TODAS as letras, já as sabes de cór e salteado, mas por mais que as queiras arrancar, não consegues! Dizem-me que há quem tenha querido fazer cirurgias plásticas para as tirar, mas mesmo os médicos mais célebres, acabam por desistir, pois não as vêem!

Pois claro! Só cada um vê as suas!

São uma presença incómoda, que te desperta para a verdade e para o que às vezes não passa mais do que puro bom senso!

Já nem sei a que propósito vem isto tudo do “jardim secreto”. Deixa que a luz, a paz e o ar puro que se respira transvasem para o teu mundo “conhecido” e assim terás filas de candidatos a “excursões” ao teu paraíso escondido!

Um abraço amigo do teu primo muito afeiçoado

Luis Bernardo

sexta-feira, 16 de março de 2012

Origem do conto do Vigário contado por Fernando Pessoa


Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.

Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.»

«Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.

Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes.

E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.

O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.

Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.

Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.

Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.

Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.

O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.

Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

Contado por Fernando Pessoa.

quinta-feira, 15 de março de 2012

para aprender a voar


Para aprender a voar nos bastará
o começo e o fim
de uma linguagem pessoal,
em que as mãos, impacientes,
dispam a paisagem
e, apenas por um instante,
se tornem asas.

terça-feira, 13 de março de 2012

Calaram-se os pássaros


Calaram-se os pássaros.
Regressou enferma
a ave que rasgou a sombra
das árvores em pleno verão
sem encontrar o caminho para a chuva.

Graça Pires

domingo, 11 de março de 2012

Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá


"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

Gonçalves Dias

amanhecer


Hoje não encontrei horizontes. . .
não ouvi os seus acenos
não toquei nas suas brisas
não vislumbrei as suas promessas
não aspirei as suas carícias
não sorvi as suas entregas


Por que será?
pavoneiam-se com as suas cores?
já não me amam mais?
- levaram-nos ou eu perdi-os?

Alviana Tzovenos

sábado, 10 de março de 2012

Sacode-te...é a Vida!


Um dia o burro de um camponês caiu num poço.

O animal zurrou, insistentemente, durante horas, enquanto o dono tentava descobrir, esforçadamente, mas sem êxito, alguma forma de conseguir tirá-lo de lá...

Finalmente o camponês desistiu dos seus esforços infrutíferos e decidiu que, dado que o animal já estava velho, o poço estava seco e a necessitar de ser tapado, por isso, realmente não valia a pena resgatar o burro e o melhor seria mesmo soterrá-lo...

Convidou os seus vizinhos para que viessem ajudá-lo.

Todos pegaram nas suas pás e começaram a lançar terra ao poço.

O burro deu-se conta do que se estava a passar e chorou (zurrou), desconsoladamente...

Logo, para surpresa geral, o burro deixou de zurrar...Depois de mais umas quantas pazadas de terra, o camponês espreitou, finalmente, para o fundo do poço e surpreendeu-se com o que via...

Com cada pazada de terra, o burro estava a fazer algo incrível...Sacudia-se da terra e dava um passo para cima... Enquanto os vizinhos iam lançando mais e mais terra para cima do animal, ele ia-se sacudindo e lá ia subindo, pazada a pazada!

Depressa todos puderam surpreender-se como o burro chegou até à boca do poço, passou por cima do bordo e saiu a trotar, alegremente...

A vida também vai atirar-te terra, todo o tipo de terra... O truque para saíres desse poço é sacudires-te e dar um pequeno passo acima... Cada um dos nossos problemas pode levar-nos a um escalão acima!

Desfruta da vida... Sacode-te!!!

Segue o teu destino


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

quinta-feira, 8 de março de 2012

Em defesa dos animais



O escândalo de milhões de animais criados em sanduíche e em espaços tão exíguos que nem se podem voltar, merece que se proteste veementemente contra os atropelos da dignidade e da hipocrisia de associações que se dizem defensoras dos seus direitos e da sua protecção, bem como das grandes redes agro-pecuárias que ganham milhões.

Pensemos nos porcos, e nomeadamente nos leitões: mal nascem nesses infernos que os alimentam, são retirados às mães para lhes alisarem à broca ou arrancarem os dentes a fim de não ferirem as tetas ou lhes cortarem as caudas, e com sorte ficam a ser amamentados pela própria mãe.

Esta está exangue pois os cruzamentos genéticos e as injecções de hormonas, fizeram-na passar de 16 leitões por ano em 1970 para 32 nos dias de hoje. A infeliz não tendo tetas suficientes para amamentar as suas crias, repassa-as para outras porcas que tiveram nados-mortos.

Como poderiam revoltar-se contra estas “adopções” forçadas, ou simplesmente até esborracharem-nos tentando mudar de posição nestes espaços concentrados, quando as mães estão, durante todo o período do aleitamento, deitadas de lado, sem se poderem mexer?

Para evitar que os animais mais joviais e curiosos não morram de aborrecimento, de desespero ou se matem entre si, enchem-nos de antidepressivos.

Nem uma única vez na sua vida o pequeno leitão verá a luz do dia, nem respirará outra coisa que não seja a pestilência e o amoníaco de toneladas de estrume pisado sobre o qual escorrega e magoa as patas, por cima dele. Não têm sequer palha.

Nesta promiscuidade agravada por um calor insustentável para que produzam uma carne menos gorda, as doenças encontram um terreno fértil.

São empanturrados de antibióticos, os mesmos que os nossos, tornando cada dia que passa mais plausível o aparecimento de patologias que resistam a todos os nossos medicamentos.

Já tivemos as vacas loucas, a gripe aviária, a gripe suína: a próxima vez será a simples e corriqueira gripe!

O verdadeiro escândalo do sofrimento dos animais, são também os bicos e as patas de frango, mutiladas em vida, pois eles bater-se-iam entre eles para terem um mínimo de espaço vital.

O verdadeiro escândalo, são as centenas ou milhares de empregos agrícolas destruídos desde há décadas em proveito dos agronegócios e à custa da nossa saúde.

São também os milhares de visitantes das feiras agrícolas que pensam que os animais bem apresentados e “maquilhados” como se fossem manequins de produtos de cosmética, são os mesmos que acabam nos seus pratos!

Poder-se-á assim continuar a esconder o horror sem o revelar ao consumidor como é produzida a carne com que ele se intoxica.

Tenhamos a coragem para agir! Comamos menos carne para comprar somente aquela que resta com qualidade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O livro que vou escrever


Nasci em Lisboa, de uma família conhecida com dinheiro e bens e culturalmente muito virada para a França, Inglaterra e Itália. A Espanha era um destino frequente e não era considerada como estrangeiro.

A parte feminina da estirpe era fisicamente muito bonita dos dois lados, elegantes e com bom ar, composta de prendadas donas de casa, algumas tocando piano e tendo tido mestras ou andado em colégios estrangeiros. Viajavam muito, ficavam em excelentes hotéis, gastavam bastante dinheiro em roupa, sapatos e chapéus e vestiam-se cá e também em lojas da moda em Paris e Itália, e tinham imensas criadas. Também tinham costureiras em casa ou “modistas” conhecidas e passeavam-se em carros de boas marcas com chauffeurs, indo todos os dias ao Chiado, a pretexto de qualquer compra, sempre chiquíssimas, como rezam as crónicas.

Gostavam muito de ir ao teatro e ao cinema e na saison do teatro francês, não falhavam uma peça. Frequentavam também S.Carlos, quer na ópera ou nos ballets. Viram a Margot Fonteyn e o Rudolf Nureyev a dançar o “Lago dos Cisnes” e ouviram a Callas a cantar "Dove sono i bei momenti" das " Nozze di Figaro"!

Eram sérias, católicas, apostólicas, romanas e praticantes, e estavam envolvidas na Acção Católica e outras obras pias.

Com estes detalhes (que não se esgotam totalmente nestas descrições) não restam dúvidas da sua pertença à alta burguesia, convivendo e frequentando a sociedade.

Eram, no entanto, estranhamente bastante inteligentes e nada fúteis.

Clarividentes sobre aquilo que eram os comportamentos habituais do seu estatuto social, mas suficientemente independentes para gerirem a sua felicidade e liberdade, tinham personalidade e estilos próprios.

Possuíam princípios sólidos que praticavam no campo da solidariedade, amor ao próximo e generosidade para com os dependentes e respeitavam os valores tradicionais herdados de costados nobres e ilustres.

O lado masculino era diverso. Na varonia, em pelo menos 4 gerações seguidas, eram todos diplomados com cursos superiores e quadros de topo da Administração Pública e privada com provas de gratidão da Monarquia e República pelos serviços prestados.

Para trás eram Senhores! Uns com terras e palácios, outros com quintas e gado, outros industriais e outros conspiradores e servidores de Reis e de Dinastias desde os tempos coevos.

Dos que conheci, tinham todos imenso humor, perspicazes, sábios no gozo da vida e dos bastos pertences tirando grande desfrute da existência.

Uns mais fiéis do que outros, mas com respeito pela instituição a que se vincularam – o casamento – se bem que nem sempre com grande harmonia em relação às consortes. Mas sem factos dignos de monta, sobretudo nesse tempo, em que as excelsas caras metades, mesmo rabitesas, eram submissas e impecáveis.

Tinham uma vida cultural repartida em duas facetas: a formal, acompanhando com prazer o que acima descrevi como os programas das respectivas mulheres e a outra, mais típica e discreta que passava na juventude por cabarets, espanholas, copos, clubes, jogo. Havia honrosas excepções!

Eram finos desportistas e praticavam os sports da alta sociedade tal como a esgrima, ténis, voleibol, equitação, caça . Nesse tempo não era distinto jogar futebol.

Conto-vos isto tudo porquê?

Pois vou começar a escrever um livro sobre um personagem da minha família, enigmático, excêntrico, muito próprio. Vai dar trabalho e exigir pesquisa, por isso postei esta imagem lindíssima de uma biblioteca apetecível!

Não sei quando, nem em quanto tempo pois a época é mais de labuta diária para alcançar um mínimo de bem-estar que assegure a decente subsistência a uma família, do que para escrever romances.

Alguém me dizia que desde cedo se deve começar a afastar a sombra do Alzheimer, que antigamente seria a “aterosclerose”!

Tenho-vos dito que tenho planos de emigrar, que não sei ainda se serão concretizáveis, mas em espírito já lá estou e estão em boa marcha!

Aonde? Algures no mundo como alguns dos meus antepassados, em caravelas para a Índia ou como bandeirantes no Brasil!

Até lá!

MNA

domingo, 4 de março de 2012

Respeito


Daniel estava doente.

Tinha-lhe sido diagnosticado um tumor no cérebro. Não era maligno mas doía pra burro no alto da cabeça.

Padecia de estranhos sintomas que os médicos não conseguiam explicar: queixava-se que ouvia vozes internas conversarem consigo, como se o tumor fosse a sua consciência, o seu alter-ego.

Começara a tomar nota pois estava tudo muito bem organizado: cada conversa cobria uma parte da sua vida. Umas vezes eram duras críticas, outras admoestações a que fosse menos indulgente consigo próprio, finalmente dava conselhos personificando os destinatários.

Que era solteiro ou descomprometido porque tinha um feitio danado: era frio, tinha certezas absolutas sobre o que queria, não cedia um palmo, era egoísta, pensava mais no seu prazer do que facilitar o caminho até à porta do seu coração. Punha condições para a esquerda e para a direita e se não fosse assim e assado, não interessava, etc

Que cortava a direito no trabalho, que se sentia superior aos demais. Não tinha o dom da cordialidade nem paciência para aceitar os outros como eles eram. Era uma espécie de bicho-das-contas que enrolava para dentro e calava-se. Jamais exteriorizava os sentimentos e ralava-se pouco com os efeitos que isso produzia nos que o rodeavam.

Era um solitário e criativo e tinha alma de artista: pintava e captava bem as imagens e conseguia ter harmonia de sons e tons.

Talvez fosse um pouco tímido, não ousava deixar que se entrasse no seu “jardim-secreto”, ou pelo menos a toda a gente e tinha muito para dar e receber.

O crescimento do tumor tomava proporções alarmantes e crescia a olhos vistos e Daniel temia que a doença não mortal se transformasse na causa da sua morte precoce, pois ainda era novo.

A voz dizia-lhe que aproveitasse o tempo para deixar legados de afeição a uns e outros, e sobretudo que falasse enquanto pudesse, pois de um dia para o outro ficaria impedido de ver, comunicar e escrever e seria tarde demais.

Daniel pensou que isto que lhe estava a acontecer poderia ser o mesmo que ele previra para os Presidentes Lula, Chávez e Cristina Kirchener: que todos eles vão morrer apesar de não acreditarem, mas ele tem a certeza!

Acordou do sonho em que mergulhara e partiu para o trabalho não sem se prometer que faria uma TAC completa, nomeadamente à cabeça, porque iria jurar que ouvira mesmo uma voz!

quinta-feira, 1 de março de 2012

O " Laisser-Passer" de um africano meu concidadão


Acho que já o disse algumas vezes que sou, há já vários anos, Cônsul-Geral Honorário de um país africano em Portugal.

Tenho uma comunidade residente que não ultrapassa os 300 concidadãos e mantenho uma excelente relação com todos eles.

Defendo-os de patrões relapsos, visito-os nas prisões, de vez em quando ajudo-os materialmente, em suma desempenho a minha função com simplicidade e dedicação, pois sendo tudo gratuito faço-o porque sim!

É uma missão cujas razões são incompreensíveis para muitos amigos mas acho que o facto de penetrar noutra cultura, servir de pai, de irmão e amigo, de protector, de conselheiro, de único ponto de referência para quem está longe das suas terras, é justificação suficiente!

Já não é a primeira vez que sou chamado pelas Autoridades para me deslocar a bordo de um navio para identificar clandestinos.

Passou-se ontem uma história bem triste que passo a partilhar, nem sei bem porquê: talvez porque somos todos seres humanos e a nossa condição pode chegar a situações de grande degradação.

Rapaz de 24 anos, pescador na sua terra. Trabalhando no mar, mais facilmente a sua piroga pôde chegar perto do navio que o levaria a outros destinos, a um melhor futuro que ouve contar. Nem hesita, já noite alta aproximou-se do casco e lançou uma corda que lhe permitiu trepar pela amurada acima deixando para trás o seu ganha-pão, a sua terra e a sua família.

Anichou-se junto dos contentores abertos para tomarem carga na manhã seguinte e escolheu um que lhe pareceu menos abafado e talvez com mais espaço para não lhe dificultar o sítio aonde iria passar 2 semanas até o navio aportar na Europa.

Levava uma pequena sacola de pano com comida para se alimentar parcamente durante uns 10 dias, segundo ele: um pão grande já meio duro, fruta, raízes de plantas, água numa garrafa, um sabonete, peixe seco, mandioca e umas ervas que o curandeiro da aldeia lhe tinha dado para dormir, para as dores, para o desespero se chegasse…

Era de uma zona junto à costa, daí a sua profissão precária de pescador. Na aldeia havia um “príncipe” (paramount chief) que era a quem todos se dirigiam a propósito de tudo e de nada. Aconselhava sobre nascimentos, casamentos, negócios, apaziguava salomónicamente rixas e decidia quem acolher e expulsar da tribo. Assegurava o sustento de todos por quem repartia os bens, produto da exploração da terra e da pesca, bem como da venda de algum minério.

MUSTIFA SENSIE era um dos 18 filhos de SENOSIE SENSIE, o chefe da aldeia.

Tinha anunciado ao pai que desejava um futuro mais promissor fora da terra e este escutara-o em silêncio. Como era o seu filho mais novo, tinha por ele uma grande tolerância e sabendo as circunstâncias em que se realizaria a sua partida, recomendara-lhe força e que o Profeta o protegesse.

Mustifa passara pelo curandeiro que lhe vaticinou sucesso e lhe deu umas mezinhas para a viagem. Ninguém na aldeia fizera perguntas quando no dia a seguir ao da sua partida, a piroga jazia parada junto à praia.

SENOSIE SENSIE estava imperturbável e não dava ares de tristeza, sinal de que não teria havido notícia de algum desaire no mar que tivesse ceifado eventualmente a vida do seu filho predilecto.

O contentor fora cheio de caixas de pescado congelado: garoupas, camarão, lagostins e outros peixes menores a que Mustifa estava habituado.

Se por um lado se satisfizera por aquele reforço inesperado de vitualhas, logo sofreu na pele o frio do pescado congelado em muitas toneladas de caixas frigoríficos e não tendo previsto tal possibilidade só tinha sobre a pele as roupas de um pescador de um país com um calor tórrido permanente.

Vi sair do contentor um africano assustado, escanzelado, com feridas das queimaduras do frio nos braços e nas pernas e cambaleante. A imagem era perturbadora ao ponto de o ter agarrado senão cairia no tombadilho.

Em fila estavam os Agentes da Polícia Judiciária, da Polícia Marítima, o representante do armador, o comandante do navio e eu.

Pediram-lhe os documentos e ele respondeu com uma voz baixa e receosa, que não tinha. A segunda pergunta foi de onde era natural e ele disse que era cidadão do país que eu representava.

Foi-lhe dito pelo Agente da Judiciária que eu era o Cônsul-Geral e que por ser clandestino teria que ser preso e depois de transitada a necessária papelada, devolvido à origem de onde partira.

Num grito rouco atirou-se ao chão e rastejou até aos meus pés e pernas agarrando-os com força ao ponto de me magoar,começando num pranto e pedido de clemência e piedade.

Não vos posso descrever a perturbação com que fiquei, aliás acompanhado por todos os presentes.

Tão perplexo e apiedado por ele que não reagi nos primeiros minutos. Depois estendi-lhe a mão e levantei-o e ele encostou-se literalmente a mim prosseguindo no seu choro baixinho e pedindo-me que o salvasse.

Acalmei-o e disse-lhe umas palavras de serenidade e solicitei ao comandante que o mandasse tratar pelo médico de bordo e lhe desse alimentos. Em seguida e para o sossegar pedi-lhe que aguardasse pois teria uma conferência ali mesmo com as Autoridades presentes.

Sentámo-nos na camarinha do comandante e durante alguns momentos ficámos a “mastigar” em silêncio a visão daquele farrapo humano.

Sobretudo o que me comoveu e me fez decidir fazer tudo o que pudesse em seu auxílio, foi a sensação de perda, de dependência de mim, quando eu valho o que valho!

Auscultadas as Autoridades e feita uma ronda pelas soluções jurídicas de acolhimento ao abrigo do estatuto de refugiado, foram todos unânimes em que era um clandestino indocumentado e que a lei era clara: teria que ser repatriado e eu deveria emitir um “Laisser-Passer” que lhe permitisse viajar até ao seu destino com uma identificação provisória.

Pedi para estar com ele sozinho sem as restantes Autoridades e recolhi as informações que acima referi. Estava mais calmo e já alimentado, sedado e tratado, adormecendo de seguida numa cadeira de braços.

Regressei ao Consulado e fiz o referido “Laissez-Passer” que lhe permitiria, a expensas do armador do navio, viajar de avião para a sua terra, pelo menos de uma forma mais digna.

Prometi-lhe que se voltasse legalmente o ajudaria a singrar na vida e os olhos de gratidão foram a paga de todo esta inquietação que me causou o sofrimento de um africano meu concidadão!

Levou alguns euros, roupa e uma carta para o pai dizendo-lhe que tinha um filho bravo e valente que arrostou dias e semanas muito difíceis mas que soube sobreviver. Dava-lhe as minhas referências consulares para que ele como “príncipe”, pudesse melhor agilizar a vinda oficial do seu filho, se fosse caso disso!

MNA