quinta-feira, 14 de outubro de 2010

o silêncio de Agustina


Em 1959, Agustina foi convidada a participar num congresso em Aix-en-Provence sob o tema geral - o destino da Europa - com grandes figuras da literatura europeia. Posteriormente, publicou um livro em que descreve a viagem por Espanha, França e Itália, uma espécie de diário com reflexões preciosas sobre diversas questões, entre elas, o silêncio.

No dia em que ia ser discutido o problema da técnica, Agustina diz das suas impressões muito bem-humoradas sobre alguns participantes que vão aparecendo na sala ao mesmo tempo que distribui sorrisos já sentada numa cadeira rústica pintada de azul-claro. Escreve de como é difícil alguém conservar a dignidade intelectual sentada numa cadeira tão ingénua, mas é a que ela escolhe. Ainda uma vez fala de convívio e de silêncio.

"Entre uma multidão que se interpela, que se exprime afanosamente, que se chama à distância, que se abre em aberrantes votos de confiança, que se oferece, que se interessa, que arma pavilhões e convida amigos e desperta vizinhos, encontrar alguém que está calado e permite que façamos a respeito dele suposições erradas e fantásticas – isso é como descobrir a pedra filosofal. Para o diabo o mundo elástico das boas intenções, as campainhas no pescoço do belo senso; para o diabo os sindicatos da simpatia, o quase entendimento, a meia-verdade, o saltinho sobre o ombro da minúscula razoabilidade! Fechem as máquinas de falar, desandem os botões da verbosidade, façam má cara aos visitantes, despeçam os oradores oficiais, cancelem o contrato dos conferencistas. Silêncio, silêncio… Escondam o rosto um momento, desçam as cortinas, preguem as janelas, chorem, se quiserem, mas silêncio! Dai tempo a ouvir um anjo que passa, uma cigarra que canta, uma pedra que rola, uma flor que morre. Também isto é sério, também isto é justo, também isto é revelação, e caridade, e inteligência. Dai tempo a vós próprios, que sois vivos e que o podeis saber. E silêncio."

12ª Carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Não há própriamente uma história da filosofia cristã, tal como existe a história da filosofia grega ou da filosofia moderna, pois no pensamento cristão, o máximo valor, o interesse central, não é a filosofia, mas a religião.

Entretanto, se o cristianismo não se apresenta, de facto, como uma filosofia, uma doutrina, mas como uma religião, uma sabedoria, pressupõe que tenha uma específica concepção do mundo e da vida.

O cristianismo fornece ainda uma - imprescindível - prestação à filosofia, no que se refere à solução do problema do mal, mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz.

E, enfim, além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral, o cristianismo implica uma determinação, elucidação, sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação.

No plano cultural, a Igreja exerceu um amplo domínio, traçando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana.

Em que consistia essa fé?

Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja.

Assim, toda a investigação filosófica ou científica não poderia, de nenhuma maneira, contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica.

Segundo essa orientação, os filósofos não precisavam de se dedicar à busca da verdade, pois já havia sido revelada por Deus aos homens.

Restava-lhes, apenas, demonstrar racionalmente as verdades da fé.

Não foram poucos, porém, aqueles que dispensaram essa comprovação racional da fé. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega, sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado, a dúvida, o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja, em termos de fé).

Desde que surgiu o cristianismo, tornou-se necessário explicar os seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã, a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Tinham que ser apresentados de maneira convincente, mediante um trabalho de conquista espiritual.

A terminar deixo-te esta reflexão: qual a relação entre as palavras e as coisas?

Rosa, por exemplo, é o nome de uma flor. Quando a flor morre, a palavra rosa continua a existir. Neste caso, a palavra fala de uma coisa inexistente, de uma ideia geral.

Um abraço do teu primo

Luis Bernardo

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

I still believe in love



Eu acredito no amor.

No amor que apoia, que une nas dificuldades, que comemora nas conquistas, que sobrevive "apesar de".

Eu acredito no amor que tudo sofre, tudo crê, tudo espera , tudo suporta. No amor que perdoa e que supera, que se fortalece quando poderia morrer.

Eu acredito no amor triste, mas triste juntos, porque se tem a certeza de que dias melhores virão. E porque luta para que dias melhores venham. E que na luta, não desanima. Amor que diante de problemas, continua junto.

Eu acredito no amor que existe na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. No amor "até que a morte nos separe". E no amor que nem a morte faz esquecer.

E hoje, mais do que nunca, quero que algumas pessoas acreditem no amor. E só porque eu acredito no amor delas. E porque, "apesar de", elas também devem acreditar.

Ele existe, ele é forte e ele vai sobreviver. Apesar de.

7ª Carta minha ao meu primo Luis Bernardo - sexo e religião


Meu Caro Luis Bernardo,

A importância das religiões na vida das pessoas humanas é indiscutível. A sexualidade é também parte da vida quotidiana e é um tema abordado de maneira muito diferente pelas diversas religões.

Qualquer que seja a religião, ela exerce forte influência sobre a sexualidade e o comportamento das pessoas.

No catolicismo a sexualidade começa com a história biblíca de Adão e Eva. Viviam no Jardim do Éden e podiam desfrutar de todas as maravilhas menos de uma coisa: a Maçã da Arvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Eva deixou-se seduzir pela serpente (o diabo disfarçado), comeu a maçã e convenceu Adão a fazer o mesmo. Segundo a Bíblia, Deus condenou todas as mulheres a darem à luz sentindo a dor e também a serem sempre dominadas pelos homens.

Na teologia católica romana, Adão teria violado a sua inocência original por ter mantido relações sexuais com Eva. Este facto passou a ser conhecido como o "pecado original". O sexo tranformou-se numa vergonhosa luxúria, carregada de culpa. O sexo deveria limitar-se à procriação da espécie e não deveria ser feito apenas por prazer. Este sentimento de culpa perdura até aos nossos dias e muitas vezes dificulta que as pessoas tenham uma vida sexual saudável, feliz e aprazível.

Em 1994 foi afirmado pela Igreja (i) de que o sexo era exclusivamente para a procriação; (ii) a condenação do sexo antes do casamento; (iii) a condenação do uso de preservativos ou qualquer outro método anticoncepcional; (iv) a condenação da homossexualidade acirrando preconceitos; (v) a valorização da virgindade numa verdadeira cruzada, causando frustrações e sentimentos de culpa para as jovens que já a haviam perdido.

Não nos devemos esquecer que isto ocorreu no final do seculo passado, ou seja a pouquísimos anos de distância e não na Idade Média.

Analisando as diversas posições e orientações religiosas, é fácil perceber qual a razão do nosso planeta estar com uma superpopulação. O Homem é um ser que ao longo da História se destacou dos demais pela sua inteligência. Hoje em dia exploramos o universo galáctico, mas ainda não conseguimos fazer parar a explosão demográfica que é a maior causa de todos os problemas da Humanidade. Imaginem se cidades como Calcutá, São Paulo ou Tóquio tivessem apenas um terço da população que têm. Como tudo seria mais fácil? Não precisariamos mais de energia artificial, petróleo, bairros de lata, etc.

O nosso planeta já não suporta mais a exploração sem limites.

O que se te oferece dizer sobre isto meu Caro Luis Bernardo ?

Um amigo abraço

Manuel

Vem para aqui - diz a tentação



Eu fujo das tentações, mas devagar, para que me possam alcançar.

I believe I am a genius


Knowing that you are a genius is one of the fundamental things that allow you to think like one.

I don't know about you, but I didn't get told I was a genius when I was a child. (I was robbed of my brilliance!) You see it is now quite clear that every healthy human brain is capable of genius - that means You and me!.

If you think you are stupid, guess what? You will be stupid. You'll do dumb things. You'll act clumsily and present a clueless image to the world.

On the other hand, if you think you are smart, if you think you are a valuable intelligent person, then that is exactly what you will be.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes


Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.

Alberto Caeiro

irritado


Com a devida vénia, a seguir transcrevo a parte de um artigo de Alberto Gonçalves, publicado no DN de ontem, no que se refere ao 5 de Outubro.

A REPÚBLICA DOS BANANAS

A 5 de Outubro de 1910 um bando de rústicos hasteou uma bandeira na varanda da Câmara Municipal de Lisboa e implantou, como se implanta um dente, a República.

As baixas foram mínimas, e isso já incluindo os dois líderes revoltosos mortos horas antes por malucos (no caso do almirante Reis, tratou-se de suicídio).

A resistência do regime anterior, atarantado, caduco e fatalmente “aberto”, foi residual. O interesse do povo foi quase nulo. A bandeira em causa foi a do Partido Republicano, que contava com a simpatia de uns poucos milhares de lisboetas e o desprezo do resto do Pais. O País caiu assim, feito fruta, nas mãos dos rústicos, que se achavam iluminados por frequentar o Rossio e ter ouvido uns delírios em francês.

Mesmo por comparação com os desvarios precedentes, estava inaugurada uma época de caos económico, totalitarismo político, perseguições religiosas e ideológicas, discriminação cívica, atentados regulares e geral atraso de vida. E imensa retórica progressista.

A deposição da monarquia significou a troca do privilégio de classe pelo privilégio da falta dela, o que não sendo tão mau quanto soa não é tão bom quanto a propaganda oficial jura.

A 5 de Outubro de 2010, o regime em vigor festejou, com tiques devotos, o centenário desse encantador período. Humor negro? Quem dera.

Os senhores que hoje mandam nisto celebram a ascensão da I República porque, em larga medida, essa é a sua ascensão. O mofo jacobino e maçónico que tomou conta de Portugal há cem anos é o mofo que desde então sempre nos regeu, com uma longa interrupção para o mofo seminarista, igualmente conhecido por Estado Novo. Se entretanto Portugal mudou muito, quase nada se deveu ao esforço próprio.

Nas últimas décadas, as dádivas e o crédito alheios emprestaram-nos o verniz de “modernidade” que disfarçou, mas não impediu, a falência iminente, a corrupção genética e a aversão à autonomia dos cidadãos. Os cidadãos, diga-se, também não ajudam, visto que assistem a tudo com a indiferença de há um século. Excepto quando lhes dá ou retira o amparo, as pessoas não pensam que o Estado e o poder sejam assunto seu. No fundo, e com relativa razão habituaram se a pensar que são assunto “deles”.

E “eles” festejam: a desgraça a que, perante a apatia geral e a impunidade, nos conduziram.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poesia de Fernando Pessoa na bunda!!!!


Agora virou moda essa historia de tatuar poesias no corpo!

Eu, apaixonada por frases de ordem, poesias e escritas que nos façam refletir, disse recentemente que tatuaria a poesia "O tempo de travessia" de Fernando Pessoa nas minhas costas.

Enorme foi minha surpresa quando vi a foto de Cléo Pires peladona em comemoraçao ao aniversário da revista Playboy com esse poema grafado na poupança!!!

Que decepção!!!

Muitas pessoas tentaram me consolar.

Particularmente, fiquei chateada pela escolha do poema, pois depois que descobri esse poema, passei a me ver em muitos versos, e este, especialmente tem tudo a ver com essa nova fase que estou vivendo.

Para quem não conhece, aqui estão os lindos versos de Pessoa, que de maneira ímpar e pessoal passou a ilustrar a bunda de uma atriz global!!!

(Ah! Vale lembrar que a moçoila escreveu as belas palavras em estilo hena, e que logo, logo elas nao estarão mais lá embaixo!!!)

O Tempo de Travessia
Fernando Pessoa

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado,
para sempre,
à margem de nós mesmos."

Para quem só agora acompanha a minha correspondência com o meu primo Luis Bernardo


Imaginem vocês que recebi esta carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. Mais à frente perceberão como.

Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Vou deixar passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!

Até este momento ou era a velha e comprovada tese “de cinza, pó e nada”, pelo menos é o que pragmaticamente se encontra nos caixões após as exumações (abertura após uns determinados anos) ou em alternativa o céu, o purgatório e o inferno.

Mas demos a palavra ao Luis Bernardo.

Meu Caro Manuel,

Ficarás surpreendido por receber uma carta minha, tendo eu morrido há já um par de anos. Pois imagina que descobri a maneira de enviar notícias e aqui estou a conceder-te o privilégio de saberes, creio que em primeira-mão, como tudo acontece.

Voltemos um pouco atrás ainda aí na terra.

Lembras-te da minha doença, do sofrimento por que passei e finalmente da minha morte, que veio estava eu ainda no hospital ligado a uma máquina.

A partir de um determinado momento senti-me aliviado e foi precisamente quando o Dr. Horta disse à enfermeira dos cuidados intensivos para me desligar do ventilador pois tinha entrado em morte cerebral.

Qual não foi o meu espanto quando constatei que efectivamente o meu corpo era como se fosse um emissor receptor e senti que um aviso foi emitido para algures.

A parte física do corpo começou a esfriar e a enrijar mas as funções vitais estavam em pleno fulgor e agora já sem sofrimento.

Ouvi a família aproximar-se, chorar, excitar-se e alguns mesmo, ficarem ao meu lado. Disseram de tudo, como calcularás, conhecendo tu o que nós sabemos de cada um dos membros da nossa família.

Finalmente confirmei as suspeitas de reacções mal explicadas por parte de uns, a hipocrisia de outros, o alívio de outros tantos, e tudo isto me fez pensar como bastas vezes damos importância a coisas que de facto não a têm.

Gostei da tua reacção. Choraste sentidamente e em silêncio, e fizeste-me uma festa na mão.

Tantas tardes e noites à conversa, tantas recordações de trocas de ideias profundas com tantas certezas, discussões acaloradas e apaixonadas que às vezes acabavam mal, mas que no fim nos levava a abraçar afectuosamente saindo cada um para a sua casa.

Lembro-me bem das dores e alegrias que compartilhámos em momentos altos e baixos das nossas vidas e das da nossa família.

A “seca” dos parentes e familiares chatos, o brilho dos inteligentes e mordazes, o encanto dos abertos de espírito e o horror dos fanáticos e radicais! Bem poderia estar aqui a desfiar o que foi a nossa cumplicidade e amizade, mas tudo isso é passado.

Entretanto chegou um emissário que me disse que estava tudo em ordem e que deveria com ele partir, deixando o corpo para trás.

Era uma ideia de voz e de presença que me era agradável. Pareceu-me um funcionário administrativo, pensei eu. Deus não seria de certeza, pelo menos ainda.

Vaidosos e convencidos que éramos. Brincávamos considerando-nos uns “deuses do Olimpo disfarçados” mas no fundo seguros da nossa inteligência e superioridade. Só alguns compartilhavam este nosso segredo e connosco se identificavam. A Rita era danada para nos desafiar a revelarmos o que nos unia tal como os cavaleiros do Santo Graal, mas nunca cedemos ao seu charme infinito e sedutor, e nada soube.

Vim a perceber que estes emissários podem levar notícias, por isso aproveitei a boleia de um que ia para perto de ti, e mandei-te esta carta.

Encontrei os teus Pais. A tua Mãe, a quem informei que te ia escrever, disse-me para que não tivesses pressa em vir. O teu Pai, está estupendo, como não são precisos médicos aqui, deu-lhe para tratar do jardim que é um bosque maravilhoso. Com a sua meticulosidade e perfeccionismo mantém as flores num mimo e fala com elas.

O teu Avô mandou vir de Celorico um daqueles enormes castanheiros centenários da vossa quinta do Soito da Parda e a tua Mãe senta-se a ler debaixo dele e a olhar para a relva linda em frente da casa, que o teu Pai cuida com muito desvelo.

Estive pouco tempo com eles, e ainda não pude começar a fazer outras visitas.

No fundo foi uma grande surpresa, pois o Deus de barbas e de voz “grossa ou meiga” conforme nos descreviam não é nada disso: nós estamos em Deus e não fala nem olha, pois somos parte de Deus.

Lembras-te de quanto nos ríamos ao ver as preces que se faziam para um bom resultado num determinado campeonato de futebol ou em pedidos para acertar na lotaria.

Nada de julgamentos finais, nem purgatório, nem muito menos inferno.

O inferno é aí na terra e tudo quanto fazemos por aí se fica, é passado.

Vê lá se continuas a ser boa pessoa, pensando nos outros e partilhando os teus afectos e de resto goza a vida e não te preocupes com minudências. Sê honesto como éramos e respeita a idade e cultiva a mente frequentando gente sã e curiosa da vida terrena. Quanto aos que inventam coisas sobre o divino, não percas tempo, pois não é nada assim. Logo verão quando chegar a sua altura.

Há tanto para fazer e ainda agora comecei. Vou-te dando notícias.

Só te deixo uma informação e, por enquanto, uma preocupação:

- sabendo como tens claustrofobia, terás uma grande surpresa, pois não a sentirás no caixão.

- a preocupação é a de que com tanta gente da família que quero visitar e melhor conhecer, para além de tantos outros que povoaram a nossa imaginação e a quem vou poder perguntar coisas que sempre nos intrigaram, ainda não me desliguei do conceito terreno do tempo.

O que será a eternidade? Maçada não é de certeza, mas por ora, confunde-me a ideia.

Vou tentar saber e depois digo-te.

Teu muito afeiçoado

Luis Bernardo

11ª Carta do meu primo Luis Bernardo - As chaves do paraíso


Meu Caro Manuel,

Senti-te agitado na tua última correspondência. Queixavas-te do país, indirectamente da Europa e em última análise da crise global. Que desassossego! Isto por aqui tão calmo e sereno, sem essa noção de incerteza, de abandono e de materialidade.

Lembro-me de que no princípio da nossa correspondência, te lamentavas de nunca ninguém ter vindo dizer o que se seguia à morte. Interpretavas o sentir, quase que diria de toda a Humanidade viva, e sem hesitações perguntaste-me o porquê.

O que é mais relevante na tua questão, é sobretudo a sensação de revolta, por tal não acontecer.

Se olharmos para o que é tradicional ensinar-se, transversalmente aliás a quase todas as religiões, esta ausência de verdade, de transparência e de comunicação de um Deus para com os Homens, prejudica enormemente o caminho e a permanência na fé, intriga sobre que Deus tão distante é este que parece ter algo a esconder: se a surpresa é boa, porque não revelá-la motivando e incentivando à prática do que tais religiões consideram como o bem, ou havendo os costumeiros purgatórios, infernos e limbos…bom seria que fossem todos avisados para poderem escolher o “destino” antecipadamente, em função dos pecados praticados ou a evitar!

Como não será lógico que tantos se sintam confusos, sós e sem certezas, “adorando” um Deus acima das nuvens?

Este temor e pânico da punição eterna, prejudica a vivência do amor generoso, a partilha dos bens materiais, espirituais e do pensamento bem como o desejo de uma vida simples sem demasiadas ambições e em que a paz é o desiderato supremo. Em certa medida e com outros contornos é isto que se vive aqui.

Fui visitar o teu Avô materno, como me pediste, e encontrei-o tão entretido em estar com tantos daqueles com quem aí na terra se deu e de quem foi amigo que quando lhe propus que me narrasse a sua vida de jovem estroina de Lisboa dos anos 30 para que ta pudesse contar, pediu-me tempo pois o facto de ter que organizar as ideias sobre um mundo que já não lhe diz nada, pouco lhe interessa.

Aliás acrescentou que só o faz por ti e já que assim lhe pedes considera ser mais fácil ir ao encontro dos que com ele conviveram nesses tempos para assim melhor os reviver. Tem pois um pouco de paciência!

Histórias de boémia terrena parecem-te poder ser blasfémia por virem de alguém que já morreu? Quantas vezes te terei que dizer que a vida na terra é passado e acaba com a morte e é o percurso de cada um sem consequências de labaredas ou de lugares à direita ou à esquerda…conforme a filiação política! O que terão os centristas previsto como o seu lugar no paraíso se ao centro, segundo a doutrina, está sempre Deus?

Por isso recomendo-te que estejas tranquilo, que gozes a vida com bom senso, inteligência e liberdade (naturalmente que dentro destes conceitos está implícito o equilíbrio próprio da tua consciência e o que deves praticar no seio da comunidade humana que te rodeia).

O sofrimento terreno é arte dos homens, criam razões sem nexo para se mortificarem a troco de benesses futuras inexistentes.

A dor é dor e ninguém gosta de a sentir, mas faz parte das debilidades e vicissitudes do corpo, e por isso não deve ser encapotada nem valorizada. Deve sim, ser evitada ou minorada por todos os meios possíveis.

O prazer é bom e deve ser encorajado. O gozo dos sentidos é um dom do corpo e para isso existem. Quem abuse e se exceda, ainda que este juízo só a cada um diga respeito, responsabilizar-se-à pelos danos que possa causar à comunidade, mas nunca poderá ser motivo de “condenação eterna”!

Seria negar a justeza do criador ao criar o seu modelo. Se o dotou com tudo quanto faz parte intrínseca do seu ser, como pode negar que utilize o que possui ab initio?

Depois, não achas hipócrita não chamar as coisas pelos nomes? Quem morreu afogado, independentemente das razões, não pôde chegar a bom porto e é náufrago…quem se matou com uma overdose, por razões próprias que só a si disseram respeito, porque não lhe chamar um consumidor de drogas?

Esta falta de naturalidade em relação ao juízo das condutas humanas por medo de represálias para além da morte, é perfeitamente disparatada.

Hoje fico-me por aqui, mas quero voltar a abordar-te o tema do caminho para uma vida terrena feliz, desempoeirada e completa, pois a morte fecha um ciclo que não tem continuidade: cinza, pó e nada!

Lembras-te que os teus Avós maternos, apesar de gostarem muito um do outro, discutiam um bom bocado pois o teu Avô era autoritário, exigente e perfeccionista e a tua Avó muito mais dócil, resignada e tentando defender o equilíbrio do casal?

Pois ficas a saber que vivem como “Deus e os anjos”, se me permites este tão terreno aforismo que aqui não se aplica, mas que te será elucidativo.

Portugal daqui a uns anos não será igual a hoje ou melhor ou pior: tu ou outros que te sobrevivam não alteram o “curso das estrelas”, e se conseguires perceber como a aprovação ou não do orçamento é uma minudência comparada com o Universo, bem podes dormir sossegado e deixar a mente ocupar-se com pensamentos mais elevados.

Teu primo muito afeiçoado

Luis Bernardo

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

pouca coisa


São imagens esbatidas, meio apagadas,
como aquelas fotografias antigas e
enclausuradas em molduras de metal como
se fossem grades de uma prisão perpétua.

Ainda assim, conseguem manter a pose
permanecendo orgulhosamente silenciosas
e indiferentes ao relógio de pêndulo que
as fita num desdém insolente lá do canto
oposto da sala e cujos ponteiros há muito
que passaram a rodar no sentido contrário,
marcando as horas que já foram... são
rostos calados, com sorrisos forçados pela
urgência do momento, segurando
insistentemente um instante que as havia
de suspender no tempo, devolvendo-as à posteridade

domingo, 3 de outubro de 2010

O prazer de manusear um livro, de o abrir e fechar


Há alguns anos, li um artigo de opinião sobre o futuro da informação. Não me lembro do nome do autor, lembro-me muito bem do conteúdo, porque me impressionou bastante porque francamente ainda não tinha percebido o impacto da “revolução digital”.

Segundo o autor, o novo meio de difusão do conhecimento é mais barato, mais rápido e mais eficiente e portanto torna-se inevitável que a informação digital, em todas as suas formas, ultrapasse e suplante a informação impressa.

Era esta a tese.

O prazer de manusear um livro, de o abrir e fechar, ler devagarinho, saborear a nosso bel prazer... O conforto da leitura, que pode ser feita em todas as situações imagináveis e em todas as posições físicas possíveis... A posse dos livros, a estante cheia de tantos conhecimentos, tanto conforto, tanto prazer...

O prazer de manusear um livro, de o ler ao nosso ritmo... continuarão a existir bibliotecas e livros. Continuarão a fazer-se livros — como ainda se fazem pianos de cauda, colheres de pau e filigrana: por prazer, por arte.

Dito isto, há que acrescentar as desvantagens da informação impressa. Gasta papel, que gasta árvores, que fazem falta na natureza. O número de árvores destruídas para que as pessoas leiam todos os dias os jornais é arrasador. Milhares de milhões. O papel é impresso em máquinas que gastam toneladas de energia. Distribui-lo é lento, complicado e também gasta toneladas de energia. Guardá-lo é difícil, caro, perigoso até. Os produtos químicos usados para branquear o papel são corrosivos, maus.

O papel é uma catástrofe ecológica.

Depois, os livros são pesados e volumosos; um livro pode ser portátil, mas uma biblioteca é um pesadelo logístico. E o custo?

Podemos acrescentar, até, que são difíceis de esconder, em caso de perigo.

Não preciso de salientar como a informação digital resolve todos estes problemas de maneira mais racional e mais barata.

Isto para não falar na grande quantidade de livros e livrinhos disponíveis on-line, e portanto acessíveis em qualquer sítio, de graça, ou muito baratos. Agora, quem escreve pode ser lido em qualquer parte do mundo, e quem lê pode ir buscar o seu prazer de leitura ao outro lado do planeta.

Pois é, os livros provavelmente vão acabar. E os jornais também. Mas a escrita está mais viva do que nunca. E a crescer.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CONSELHOS DE UM APAIXONADO por Carlos Drummond de Andrade


Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um para o outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado...

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados...

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...

Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...

Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela...

Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.

Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.

Por isso, preste atenção aos sinais.

Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR !!!

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Resposta do meu primo Luis Bernardo sobre alternativas ao planeta Terra


Meu Caro Manuel,

Respondo com diligência à tua amiga sobre sugestões de outros planetas para onde ela possa mudar.

Na perspectiva de quem está na Terra, o planeta parece ser grande e sólido, com um oceano interminável de ar. Do espaço, a Terra é pequena, e tem uma fina e frágil camada de atmosfera.

Para um viajante do espaço, as características que a distinguem são as águas azuis, as manchas de terra verdes e castanhas, e o conjunto de nuvens brancas contra um fundo negro.

Muitos sonham em viajar pelo espaço e ver o universo. Na realidade, todos são viajantes espaciais. A nave espacial é o planeta Terra, que viaja a uma velocidade de 108.000 quilómetros por hora.

Diz à tua amiga que o anoitecer na Europa e África, num dia sem nuvens, é uma maravilha pois consegue-se observar como as luzes já estão acesas em Paris e em Barcelona, mas não ainda em Londres, Lisboa ou Madrid aonde o dia ainda está claro.

No meio do Oceano podem identificar-se os Açores, mais abaixo a Madeira, e mais além as Ilhas Canárias e Cabo Verde.

O mais impressionante é a visualização perfeita das Plataformas Continentais desde as Ilhas Britânicas até ao Canadá e no centro, a Islândia, e por aí a fora…

Tratem bem e cuidem do planeta Terra, para que os filhos dos vossos filhos possam ainda desfrutar destas imagens…pois,com todos os seus enganos e seduções, a sua penosidade e sonhos desfeitos, esse é ainda um mundo maravilhoso. Ela que seja prudente e que lute para ser feliz.

Teu muito afeiçoado

Luis Bernardo

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Carta de fim de Verão ao meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Luis Bernardo,

Setembro está no fim e começa a rentrée. Quase todos regressaram de férias e o sol, a praia, o campo, a ociosidade e lazer acabaram para a maioria o que lhes permite poderem debruçar-se com mais interesse sobre assuntos importantes para o espírito.

Volto, assim, hoje ao teu contacto.

Muitos dos meus leitores têm comentado o eterno tema da vida para além da morte. Creio que foste suficientemente claro quando em correspondência anterior, a este assunto te referiste.

No entanto, aqui te deixo mais algumas reflexões sobre as quais gostaria de ter a tua opinião e que retratam as questões de muita gente.

Assim, se considerarmos a existência de um mundo « post mortem » completamente desvinculado e que não interfira com o mundo em que vivemos, então a ciência também nada é capaz de dizer sobre este pretenso mundo.

A ciência trata apenas das chamadas hipóteses com as quais se possam fazer testes e experiências que as refutem ou não. A ciência restringe o seu conhecimento apenas àquelas perguntas às quais ela é capaz de responder.

A falsidade ou refutabilidade de hipóteses é um critério científico básico e de importante referência na filosofia da ciência.

Para que uma determinada premissa de que “há vida depois da morte” seja considerada refutável ou falsa, ou seja, para que ela possa ser tratada pela ciência, deve ser possível realizar uma experiência física que tente mostrar essa presunção como falsa (ou, por exclusão, verdadeira).

Se não é possível fazer uma ligação entre um potencial mundo « post mortem » com o mundo a que chamamos real, através da realização de experiências que comprovem ou refutem a hipótese inicial, então esta questão sai do âmbito científico e entra para a esfera das crenças e misticismos.

É que a ciência, não se relaciona com o verbo “acreditar”. A ciência não acredita, sómente conclui.

Muitos cientistas afirmam que não temos nenhuma razão especial para acreditar que a consciência humana continue a existir depois da morte, tanto quanto a consciência de um búfalo ou outros animais, continue a ter experiências depois de morta.

Além do mais, temos provas muito fortes de que a consciência depende do funcionamento do cérebro e, portanto, a vida mental acaba com a morte deste.

A propósito, várias observações neurológicas realizadas em seres humanos provam que, quando determinadas regiões do cérebro são afectadas por doenças, traumas ou operações cirúrgicas delicadas, a consciência da pessoa é muitas vezes alterada, o que prova uma relação directa entre a biologia e a consciência.

Estas minhas considerações reforçam a ideia de que a nossa consciência está directamente ligada à nossa biologia e que a morte de uma, implica directamente a morte da outra.

A ciência encara a morte, portanto, como o fim das funções vitais de um organismo. A neurologia mostra que a consciência é o fruto claro das nossas complexas capacidades cerebrais e que esta está directamente ligada às nossas funções biológicas vitais. Portanto, para a ciência, a consciência de um organismo cessa no exacto momento da sua morte cerebral.

Assim, como a ciência não é capaz de responder a determinadas perguntas, as pessoas tendem a procurar as respostas que desejam no âmbito do misticismo e das religiões.

Por não terem qualquer relação directa com a realidade ou necessitarem de se mostrar verdadeiros, esses movimentos místicos frequentemente conseguem cativar adeptos que não são capazes de suportar, psicologicamente, a falta de sentido através da qual a ciência observa o mundo.

Mas isto, meu Caro primo, são as minhas considerações. O que pensas sobre tudo quanto acima te refiro?

Tens visto os meus Pais e algum dos meus Avós ? Se puderes conversa com o meu Avô materno que eu tão bem conheci e que me contava histórias da vida boémia de Lisboa dos anos 30.

Tenta que ele te desvende um pouco mais como tudo se passava, pois era um pândego !

Um abraço muito afectuoso e muito preocupado com tudo o que se passa neste nosso País.

Dizia-me uma amiga se eu conhecia outro planeta para ela emigrar, dás-me alguma sugestão ?

Manuel

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Razões para a escolha de um nome



"Quando o padre perguntou o nome que iriam dar ao neófito, o padrinho respondeu, sem pestanejar, um suor incómodo aflorando as palmas das mãos:
- Jesus.
- Jesus?
- Sim, Senhor Prior.
- Assim, sem mais nada?
- Jesus Veredas Bicho, de seu nome completo.
O padre resmungou, a ensaiar o fio de voz:
- Jesus Bicho. Não! Parece heresia. Deus nos defenda.
- Mas, Senhor Prior, o pai é Bicho, o avô assim era, quem sabe se o avô do avô, não se deve negar o nome que o sangue traz.
- Pois, pois. Ainda se fosse Francisco, como o de Assis, irmão de todos os bichos… Sim, isso fazia sentido. Mas porquê Jesus?
- Saiba o Senhor Prior que, nas dores com que o pariu, a mãe outro nome não gritou. Dizem as mulheres que à roda estavam que, assim encolhidito como é, custou tanto a nascer como se encorpado menino a este mundo chegasse. A minha comadre Maria Bicho, coitadita, naquelas agonias que cabem a quem faz o maior dos trabalhos do mundo, só chamava pelo nome do Salvador.
- E daí? Interrompeu abrupto o prior. - Todas as mulheres gritam quando têm essa tarefa entre mãos. Fez um sub-riso ao emendar: - Entre pernas. E persignou-se. - Que o Senhor me perdoe a ousadia.
O padrinho sentia-se levemente agastado. Pigarreou, entrelaçou as mãos atrás das costas, à procura da firmeza que o ajudasse a cortar cerce o rol de considerações, e disse, peremptório:
- Ao padrinho cabe nomear o afilhado. E este, Senhor Prior, será de sua graça Jesus, que pela boca da mãe falou na hora de viver, Veredas como as que a família da mãe vem percorrendo e Bicho, como todos os Bichos que houve pelo lado do pai.
Foi brilhante e definitivo. Alguns dias depois, o recém-chegado ficou inscrito no rebanho com o nome do Bom Pastor."

Licínia Quitério (excerto de um conto)

Mudança do nome do meu antigo blogue PU-JIE


Em todo este blogue
fui todo,
mas, tão-somente,
no epílogo.
Recoméço com outro nome.

Pu-Jie

O novo endereço deste blogue é : http://vdeguaratiba.blogspot.com/ com o novo nome de:
Vicente Mais ou Menos de Souza

caramba, há limites! Carta de um amigo céptico


Meu velho amigo e saudoso Manel,

Rezingão e pessimista? Certamente. Mas nada que tenha a ver com a minha família chegada ou o núcleo de amigos do coração.

Sabes tenho a sensação, cada vez mais forte, de que atravessamos um período surreal em que nos encontramos todos na iminência de uma drástica mudança de paradigma económico e político com repercussões a curto prazo na vida de cada um.

As cabeças pensantes (de notoriedade pública e biografia irrepreensível) que respeito dizem-no com pristina clareza, e repetidamente, nos intervalos dos horários de prime time. Os analistas internacionais escrevem-no fundamentando.

E tudo segue com milhões de pessoas a assobiarem para o ar. Cegas, surdas e mudas, na convicção do milagre ou de que, afinal, são tudo exageros e que tudo acaba sempre por se resolver. E se não resolver vêm aí uns senhores estrangeiros que vão por tudo na ordem.

Não me tenho na conta duma luminária. Aliás nunca tive. Mas pasmo com a capacidade de auto-ilusão dos europeus em geral e dos "tugas" em particular.

E depois, em termos éticos, vivo agoniado com esta calda viscosa de hipocrisia e amoralidade boçal que nos entope os olhos e os ouvidos.

Que queres tu. Para mim é tão dolorosamente evidente!

E, no entanto, a vida corre aprazível. A carreira académica segue. A mini agricultura ocupa-me. Os amigos acorrem a esta "casota" quando precisam de paz e calor.

É a premonição da amplitude e iminência do desastre e a desatenção geral que me amarguram a escrita.

Só isso Manel. Deus sabe que não sou santo. Mas, caramba, há limites.

sábado, 25 de setembro de 2010

Tratado de Ateologia por Michel Onfray - Entrevista


O filósofo francês mais lido da actualidade diz que as três grandes religiões monoteístas vendem ilusões e devem ser desmascaradas.

Num tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos em França, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrito pelo filósofo mais popular da França na actualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque forte ao que o autor classifica como "os três grandes monoteísmos".

Segundo Onfray, por detrás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: "Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, excepto um". Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.

Para defender esta argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, numa célebre expressão, a "morte de Deus". O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao leccionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma "universidade popular" que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são um sucesso de audiência. Os fãs consideram-no um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Nos seus livros, Onfray propõe o que chama de "projecto hedonista ético", no qual defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detractores, que o acusam de repetir ideias ultrapassadas. Em dois meses o seu Tratado vendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista:


Questão (Q) - Na sua opinião, só um ateu é verdadeiramente livre?

Onfray - Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de se escolher o próprio destino e inventar a nossa própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso-me libertar. A liberdade nunca é dada. Constrói-se no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islão é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.

(Q) - A que atribui o sucesso do seu livro num momento em que há tanta discussão sobre a religiosidade?

Onfray - Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente ateia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre a recuperação da religiosidade, a polémica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano nas escolas leigas, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judaico-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher de um lado entre Obama e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islão nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano dos media. O meu livro provavelmente funciona como um antídoto a este estado de coisas, pelo menos em França. Está a ser traduzido para outras línguas.

(Q) – O seu livro defende um ateísmo "fundamentado, construído, sólido e militante". Isto quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?

Onfray - Isto quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé - e sim dar à razão o poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todos os filósofos que se dêm ao respeito.

(Q) - A destruição dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o “rei vai nu”, como na fábula de Hans-Christian Andersen?

Onfray - Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar bem claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar partindo-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por detrás das crenças.

(Q) - Cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Tora para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa das suas convicções?

Onfray - Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autónomo, das trevas contra a luz.

(Q) – No seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. Pode dar os exemplos mais marcantes desta situação?

Onfray - O famoso sexto mandamento da Tora ensina: "Não matarás". Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: "Não vim trazer a paz, e sim a espada". O mesmo evangelista afirma permanentemente que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que "quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade" (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis ("Matai-os onde quer que os encontreis", segunda sura, versículo 191), os judeus ("Que Deus os combata", nona sura, versículo 30), os ateus ("Deus amaldiçoou os descrentes", 33ª sura, versículo 64) e os politeístas ("Matai os idólatras, onde quer que os acheis", nona sura, versículo 5).

(Q) - O livro ataca com virulência particular o apóstolo S.Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?

Onfray - Basta ler os Actos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver como os sintomas da visão que originou a sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas como sendo histeria: perca de tónus muscular, queda, cegueira momentânea, etc. Ao referir-me a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de carácter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.

(Q) - Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?

Onfray - É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, ou seja o verso e o reverso da mesma medalha.

(Q) - Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.

Onfray - Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma ideia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança - imagem do que pode haver de mais natural - nascer acreditando em algum Deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.

(Q) - Como explica o facto de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?

Onfray - O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente das suas possibilidades e limites. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A ideia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.

(Q) - Como filósofo ateu, como encarou a forte emoção popular pela morte do Papa João Paulo II?

Onfray - Tamanho fervor deve ser relacionado com o facto de que João Paulo II foi de facto o primeiro "papa catódico", o primeiro Sumo Pontífice da era da comunicação de massas. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, foi o maior portador da aura que os media conferem. A maioria das pessoas tem um grande fascínio pelos ícones eleitos pelos media e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espectacular da exposição do cadáver e pela criação de uma reacção histérica amplificada pela transmissão televisiva.

(Q) - Retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam e representam?

Onfray - Não me proponho escrever uma resposta ao livro O Génio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles se dizem propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, parece-me muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.

(Q) - Críticos católicos alegam que o seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?

Onfray - Não se pode fazer muito mais, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

(Q) - Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma os não teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?

Onfray - Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massas.

(Q) - Acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?

Onfray - Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as ideias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muito.

(Q) - Quando e como se tornou ateu?

Onfray - Até quando me consigo lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita no Pai Natal ou nas lendas. As histórias contadas pelo catolicismo têm tanto valor como estas. Está ao mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogres comem criancinhas. Logo que um embrião de razão habitou a minha mente, nunca mais me importei com esse pensamento mágico - que só serve, justamente, para as crianças.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Autoridades chinesas receptivas ao debate do filho único


As autoridades chinesas estão cada vez mais receptivas a discutir o problema que a política do filho único representa para o desenvolvimento económico e social do país na medida em que aumentam os casos de infertilidade e da «síndrome do ninho vazio» (depressão que acomete pais quando os seus filhos saem de casa).

Meios de comunicação influentes como o Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista da China (PCCh), falam abertamente dos tratamentos de inseminação artificial e da adopção como «opções viáveis» para solucionar a questão da falta de filhos.

A lacuna entre o número de homens e mulheres, resultado de anos de preferência pelo filho varão - que proporciona sustento para a família -, assim como o envelhecimento da população, têm a sua origem na política do filho único.

Segundo números oficiais, a população do gigante asiático alcançou 1,32 mil milhões de habitantes em 2008, dos quais 200 milhões terão mais de 60 anos no final de 2015.

Enquanto a maioria dos casais urbanos chineses pode ter apenas um filho, com raras excepções ou com a possibilidade de um segundo mediante pagamento de «multa», a infertilidade aumenta devido a fenómenos como a poluição ambiental, a ingestão de hormonas - sobretudo entre os homens - e a idade avançada com que as mulheres se casam.

Actualmente, o número de chinesas que se casam após ter completado 35 anos aumentou, principalmente por razões profissionais e pela vontade de conquistarem uma situação financeira estável antes de ter filhos.

Segundo dados publicados num seminário sobre infertilidade na China, realizado em Agosto em Pequim, mais de 40 milhões de pessoas sofrem desse problema, quase 12% da população em idade fértil.

Deste número, 15% vive em regiões do litoral e desenvolvidas como a cidade de Qingdao, capital da província oriental de Shandong, e 18,9% no sul em Cantão.

Além disso, um estudo feito com 1.236 pacientes do Instituto de Pesquisas sobre Planeamento Familiar da cidade de Chongqing, mostrou que quase 60% das mulheres sofriam de infertilidade devido aos abortos, muitos deles feitos durante a adolescência ou em condições precárias em clínicas não autorizadas.

Um professor do Instituto de Pesquisas sobre População e Desenvolvimento da Universidade de Nankai, Yuan Xin, declarou ao Diário do Povo que um em cada oito casais chineses sofre de infertilidade, mas que a inseminação artificial é um método «caro e exaustivo».

Ao problema da infertilidade acrescenta-se o da geração de casamentos de filhos únicos, que podem provocar a «síndrome do ninho vazio» quando chega a hora de deixarem o lar.

Especialistas começam a recomendar aos pais de filhos únicos que encarem com optimismo a sua independência e a busca por novos horizontes.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

for when real sex is not an option

O papel dos Pais



Todas as pessoas precisam de sentir que alguém as ama e as admira, mesmo com todos os defeitos que possam ter... Dentro de uma família, sentir-se-ão sempre amadas e aceites, por mais disfuncional que a família seja, por mais terrível que seja o erro que tenham cometido (passado o primeiro momento de raiva e de aborrecimento que ele provoca).

A família deve sempre apoiar os filhos em tudo o que eles fazem, desde que sejam coisas razoáveis (dentro das regras familiares), e é ela quem promove o sentido de segurança dos filhos.

A família é a célula principal da sociedade; o lugar onde se desenvolvem as estruturas psíquicas, onde a criança forma a sua identidade e desenvolve o seu lado emocional. A família determina funções, papéis e a hierarquia entre os seus membros; é também o espaço social da confrontação de gerações e aonde os dois sexos (masculino e feminino) definem as suas diferenças e as relações de poder.

A família tem como função educar os filhos e prepará-los para o convívio social.

Dentro de uma família (entre pais e filhos) há dois tipos básicos de relações:

Relação entre os pais (marido e mulher):

A relação homem-mulher dá inicio a uma nova família. São duas pessoas diferentes, com as suas próprias crenças, valores, educação e cultura, que necessitam ajustar-se aos princípios de cada um para uma boa convivência. O equilíbrio conjugal, que é de suma importância, implica que o casal tenha respeito mútuo, amor, e que possa trocar ideias através de muitas conversas e diálogo para promover, desta forma, um ambiente saudável para o crescimento dos filhos. Os pais necessitam de estar sempre de comum acordo (nos temas fundamentais) para promover uma educação satisfatória.

Relação entre pais e filhos:

Cabe aos pais o papel de educar os filhos. A educação é a condição básica para o convívio social. Educar implica o uso de autoridade para estabelecer limites; dar ordens e proibir o indispensável que possibilite às crianças controlarem a sua impulsividade: todas as crianças nascem egoístas; passam a respeitar os outros através da educação, disciplina, mas, principalmente, pelo exemplo dos pais. As crianças identificam-se sempre com um dos pais, e fazem o que esse adulto faz.

Quando os filhos são pequenos, são os pais que decidem "o quê", "como" e "quando"; ou seja, têm plenos poderes sobre os seus filhos e tomam em seu nome as decisões que julgam correctas. A criança vive cómoda e agradavelmente nesta relação de dependência, com as suas necessidades básicas satisfeitas e os papéis claramente definidos. Mas, quando os filhos chegam à fase da adolescência, surge, na maioria das famílias, uma série de conflitos entre os pais e os filhos!

Os pais têm dificuldade em aceitar o crescimento dos seus filhos... Quantos pais dizem sentir saudades do tempo em que os filhos eram bebés? Admitir que o filho cresceu equivale a reconhecer que eles estão mais velhos!

Muitos pais não se conformam por terem perdido o "posto" de heróis insubstituíveis dos filhos, e não conseguem suportar o olhar crítico dos jovens filhos, pois estes começam a olhar os pais como são: pessoas com todos os defeitos e qualidades que lhes são próprios. Há pais que passam a controlar exageradamente a vida dos filhos, como se pudessem, com isso, voltar a tê-los como crianças: não respeitam sua privacidade, querem participar da vida deles de forma integral, e atemorizam-nos, para os controlar, com os perigos que aumentam nesta fase (a violência, a sida, a droga, etc...).

Muitos pais querem antecipar aos filhos o conhecimento de problemas que existem para evitar sofrimentos futuros... Mas o único método conhecido para se aprender, é vivendo a vida! Na realidade, a maioria dos problemas na relação entre os pais e os filhos baseia-se num conflito de poder! Os pais podem exercer o autoritarismo (quando o poder está nas suas mãos) para responder às suas próprias necessidades, ou fazer uso da permissividade, quando delegam o poder nas mãos dos filhos para depois fazerem o que querem...

O mais importante neste tipo de relacionamento é uma resolução conjunta; encontrar juntos soluções conciliatórias para que todos fiquem satisfeitos (aonde as minhas necessidades são tão importantes como as deles).

O papel principal dos pais consiste em apoiar, compreender e dialogar sempre com seus filhos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Setembro


Setembro floresce em sapucaias,
vórtice de abelha
em aroma roxo-lilás.
Logo a flor será cumbuca de fruto.
Bendito o tempo entre floração e semente,
doce a amêndoa
do beijo que eu consigo roubar.


F Campanella

Cremação ou fogueira?


Um corpo inteiro, obeso ou magro, velho ou jovem, com cabelos, roupas, ossos e vísceras em questão de segundos transforma-se em alguns resíduos. As cinzas dão lugar ao personagem que saiu da vida para retornar à natureza em forma de carbono: isto é, basicamente, o que acontece na cremação de um morto.

As temperaturas dos crematórios excedem os 1000ºC, o que é possível derreter até metais, que dirá o nosso frágil corpo nessa tradição milenar que é a cremação.

Embora não seja tão difundida no Ocidente, no Oriente essa prática é mais consagrada, dialogando com o sagrado onde a queima do cadáver costuma significar um acto de purificação, limpando o “profano” do corpo e tornando a alma liberta.

Na história, vemos a cremação muito utilizada nas grandes derrotas para “limpar” a chacina depois de uma grande guerra, como faziam os gregos antigos queimando as “sobras” das batalhas. Com a chegada e forte influência da religião judaico-cristã a prática passa a ser vista como uma heresia, sendo reservada apenas como castigo aos transgressores.

A justificação era a de que a alma levaria certo tempo para se desvincular do corpo. Muitos espíritas, por exemplo, não admitem que o corpo seja incinerado antes de pelo menos 72 horas. Já nas religiões protestantes, não há restrições de acordo com as respectivas directrizes, no entanto, há sempre uma certa relutância por parte dos fiéis. Talvez devido ao imaginário do inferno.

Em termos económicos a cremação é muito mais barata nos crematórios públicos.

O processo é rápido e não é doloroso – claro. Antes do morto dar entrada no forno, passa um certo tempo numa câmara de refrigeração que serve como que uma espécie de “pausa” para fins burocráticos ou de outros empecilhos familiares que possam ocorrer. Depois, o morto, dentro de um caixão, é levado a uma temperatura de 1200ºC que o transforma imediatamente do estado sólido para o gasoso. Após umas 2 horas o estado gasoso passa e solidifica-se, e os restos ainda passam por um triturador e por fim, a famosa "caixinha" com as cinzas do morto é entregue ao familiar (que tem um prazo para reclamar as cinzas).

Diz-se que uma pessoa com uma média de 75 kg fica reduzida a menos de 1kg de pó! – O meio ambiente agradece!

Particularmente, não tenho dúvidas quanto a essa preferência quando eu morrer – tenho claustrofobia – o fogo vai encarregar-se de me “matar” realmente, caso tudo não passe de um erro. Embora seja raro hoje em dia, é possível encontrar notícias de pessoas que foram dadas como mortas por engano... Já imaginou como seria acordar preso dentro de um caixão?!

sábado, 18 de setembro de 2010

É difícil educar os filhos


Os cuidados com os filhos, têm estado de uma maneira geral a cargo da mãe por uma questão histórica e cultural: foi sempre a dona de casa e o marido passava a maior parte do tempo a trabalhar, sendo ela quem se tornava responsável e recorria ao pai quando a sua autoridade como mãe não era respeitada.

Mas nos tempos actuais, em que as mulheres também trabalham fora, sem muito tempo para se dedicarem aos filhos como gostariam, seria bom que a educação dos filhos fosse dividida entre o casal, algo que geralmente não tem acontecido, pois as mães continuam a educar os seus filhos e a despender o seu pouco tempo disponível para eles.

Mas este quadro vai mudando aos poucos, com muitos pais constatando a dificuldade das suas consortes em gerirem tudo da casa, propondo-se assim a colaborar tanto nas tarefas domésticas, como na educação dos seus filhos, acompanhando os seus trabalhos de casa e dispondo de tempo para conversar e brincar com eles.

O ideal é que a educação seja feita em conjunto entre o pai e a mãe e, principalmente, que ambos concordem entre si.

Um exemplo: o pai não deixa o filho ficar ao computador até mais tarde e a mãe, com pena dele, aceita contradizer a regra imposta pelo pai. Agindo assim, ela faz com que o pai perca toda a sua autoridade e, pior do que isso, intui ao filho de que há sempre uma maneira para conseguir o que ele deseja, achando que pode tudo! O inverso também acontece, quando o pai, por se sentir culpado de não estar mais presente, acaba por satisfazer as vontades dos filhos, contrariando a mãe.

Educar é dar o exemplo! Não adianta o pai dizer uma coisa e fazer outra, pois os filhos seguem o exemplo do seu comportamento e não as palavras! Educar também é estar presente, participar com os filhos em actividades comuns, saber ouvir o que os filhos têm a dizer e não os criticar pura e simplesmente, mas deixando bem claro que não concordam com determinadas atitudes quando não agem da forma como deveriam agir, mas deixando espaço para o diálogo, para que eles expressem as suas razões por terem actuado daquela determinada forma. Os castigos só funcionam quando os pais explicam a sua razão.

A base para uma educação eficaz está no estabelecimento de um vínculo afectivo duradouro e isso só se consegue com diálogo, convívio e respeito mútuo!

O ideal para educar uma criança, para que se venha a tornar num adulto seguro de si e bom cidadão, é que o pai e mãe se relacionem bem entre si, independentemente de estarem casados ou não.

Uma coisa é ser pai, ser mãe, outra bem distinta é ser um casal: o relacionamento pode acabar um dia, mas o papel de pais será pela vida fora! E é importante que estes pais, casados ou separados tenham consciência de que os filhos são para a vida toda e que os pais são os principais responsáveis pela sua educação. Portanto, devem sempre dialogar sobre como devem conduzir a educação dos filhos e o papel que cabe a cada um.

Muitos pais separados até gostariam de manter um contacto maior com os filhos, mas o seu trabalho e o seu tempo disponível nem sempre é compatível com o tempo disponível dos filhos, ou porque a lei os obriga a vê-los a cada quinze dias, o que dificulta a construção de laços afectivos entre eles ou até pela dificuldade de fazer acordos extra-judiciais com a mãe para ver os filhos em outros momentos importantes para o estabelecimento dos referidos laços afectivos.

É vulgar ver-se pais satisfazerem todos os gostos dos seus filhos, tendo dificuldades em dizer não e mimando-os excessivamente, como se isso fosse minimizar o seu sentimento de culpa ou fazer com que os seus filhos os amem mais.

Para que um pai possa estabelecer e manter um relacionamento saudável com os seus filhos durante toda a vida, é importante que esse contacto seja de qualidade, isto é,que ele esteja presente e faça actividades com os seus filhos.

Também é importante dialogar com os filhos sobre o dia a dia deles, como se sentem na escola, verificar os seus trabalhos de casa, conhecer os amigos e, porque não, promover programas com os filhos e os seus amigos.

Gostaria de salientar que, mais importante do que o tempo despendido com os filhos, é a qualidade deste tempo com eles que mais importa.

Muitas vezes, meia hora de conversa e atenção exclusiva para cada um deles é muito mais eficaz do que passar um dia todo sem se conversar, estando apenas e só debaixo do mesmo tecto.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Amizade colorida


Amizade colorida é a que inclui “intimidades” que não temos com uma amiga normal. É uma grande invenção dos tempos modernos para saciar a vontade de quem está só, enquanto o grande amor não vem.

Depois de alguma pesquisa e conversa cheguei à conclusão que amizade colorida inclui alguma paixão, bastante quimica, e muito desejo carnal por alguém por quem sentimos atracção e cuja companhia é agradável.

As vantagens: trocar uns beijos, uns apalpões e até pode haver sexo, sem qualquer tipo de cobrança.

Compromisso: apenas o comum acordo.

No meu ponto de vista é um “quase namoro”, onde obrigações ou cobranças do tipo: Onde foste? Com quem? A que horas chegaste? e por ai fora… não existem. Onde não é preciso lembrar-nos de datas e comprar presentes, ou ligar e “bajular”.

No entanto existem algumas regras a cumprir:

1ª uma conversa aberta sobre o antes, o durante e o depois. Afinal para além do “colorida” existe a “amizade”, certo?!

2ª ter plena consciência dos actos.

3ªa tendência é só melhorar :-)

Começa a complicar-se quando uma das partes se começa a envolver, por isso é preciso ficar atento à evolução das situações, e se necessário for, por um ponto final para que ninguém se magoe.

Afinal a sinceridade é a base de todas as relações.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Gosto quando me falas de ti


Gosto quando me falas de ti…
e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens,
cenário de meus desejos tranquilos

Gosto quando me falas de ti…
e então percebo que antes mesmo de chegar,
me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios,
e se vai desfeito em carícias vãs…

Gosto quando me falas de ti…
quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra,
e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios,
apenas pintados, maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti…
e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol distendido,
e descortino o teu destino,
como um caminho certo,
cuja primeira curva foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti…
porque percebo que te desnudas como uma criança,
sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil
como um novelo que nos cai no chão…

J.G. de Araujo Jorge

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Mentes inquietas


De autoria de Ana Beatriz Barbosa Silva, médica com pós-graduação em psiquiatria pela UFRJ e especialização em Medicina do Comportamento pela Universidade de Chicago, Estados Unidos.

Por ser uma obra densa e recheada de exemplos reais, colocarei aqui algumas coisas que me chamaram especial atenção numa visão geral deste livro.

Pessoas com sintomas típicos como desatenção, desorganização e atabalhoamento, muitas vezes são vistas como não tendo jeito e muitas vezes levam uma vida soterrada por críticas e culpa.

Mente Inquieta (cérebro com funcionamento DDA), não significa um cérebro defeituoso. Seu comportamento peculiar é responsável pelas suas melhores características, bem como suas maiores angústias. O livro aborda vários traços comportamentais de pessoas com mente inquieta.

Citarei algumas:

- Desviam a atenção por qualquer estímulo;
- Dificuldade em prestar atenção na fala de outros;
- Desorganização quotidiana;
- Dificuldade com actividades obrigatórias de longa duração;
- Interromper as tarefas no meio;
- Tendência a estar sempre ocupado;
- Costume de fazer várias coisas ao mesmo tempo;
- Hipersensibilidade;
- Instabilidade de humor;
- Tendência ao desespero;
- Depressões frequentes.

Para essas pessoas, é um desafio adequarem-se ao ritmo não-elétrico dos outros. Um caso real que achei interessante foi de um Contabilista que se sentia tolhido numa escada rolante. Para ele, escada rolante significava tortura, da forma em que ele a subia normalmente. Logo que a escada se movia, ele rapidamente chegava ao topo enquanto as pessoas aguardavam calmamente o movimento da escada.

São traços que como diz a autora, podem ‘cair mal’ para quem precisa trabalhar em funções burocráticas, rotineiras ou repetitivas ao passo que é positivo para quem exercita a criatividade como compositor ou artista.

Achei curiosa a abordagem da afectividade nessas pessoas: emoção em excesso e escassez de razão. São pessoas que amam intensamente no interior de suas mentes, mas não conseguem colocar em prática o que vivem em seus pensamentos. Muitas vezes, os seus parceiros nem sequer imaginam que são objecto de tão nobres sentimentos. Felizmente toda essa emoção tende a transformar-se em poesias, obras literárias ou músicas. Semelhante a um vulcão inactivo, a pessoa pode apresentar-se calma e tranquila externamente, mas por dentro, mantém-se agitado e inquieto.

A autora cita o nome de alguns famosos que apresentavam esses traços.

Citarei alguns:

Fernando Pessoa – Em sua obra há traços de inquietação, contradição, devaneios, dificuldade em seguir regras. (Como no poema “Liberdade”: Ai que prazer/ não cumprir um dever/ ter um livro para ler/ e não o fazer...) Criou por isso vários ‘eus’, os heterónimos, indicando uma personalidade inquieta e de humor instável.

Leonardo da Vinci – Uma mente movida por inquietação. Além de pintor, foi arquitecto, botânico, urbanista, cenógrafo, cozinheiro, inventor, geógrafo, físico e até músico. Deixou uma infinidade de obras inacabadas por começar vários projectos ao mesmo tempo, característica desse tipo de funcionamento mental.

Bethoven – Inquieto, polémico e incompreendido. Era acometido de devaneios e distracções, segundo seus amigos. Produziu obras geniais sem escutá-las. Elas brotavam de sua mente inquieta, imune à sua surdez.

Pessoas com este problema tem vulnerabilidade para desenvolver outros transtornos como TOC, Fobias, Pânico, Depressão, transtornos alimentares e de humor, para citar alguns.

A autora dedica um capítulo ao maior desafio: a difícil tarefa de dormir bem e orienta como relaxar um cérebro a mil por hora.

Em suma, Mentes Inquietas é um guia para quem apresenta esse funcionamento cerebral que mescla desafios vários com muita criatividade. A autora transmite uma visão optimista sobre o problema e uma variedade de recursos para tratamento. Tirei muito proveito desta leitura e por isso a recomendo.

Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, chegam os gays...




Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca-vergonha.

Luis Fernando Veríssimo