sexta-feira, 15 de agosto de 2014

re-publicação de Torralta (fim) Mário Soares e eu ou "The King and I"


A justificação da ida do Presidente Soares à Torralta, era a de entregar o prémio da Associação Portuguesa dos Escritores (Comunistas), que se desenrolaria no auditório em Tróia. 

Devo confessar com toda a sinceridade que não só não sabia desse evento, como fui confrontado pelo Director Financeiro com a informação de que o cheque do prémio que o Presidente iria entregar, era “careca”, ou seja não teria provisão!

Passei esta informação ao meu primo General Carlos Azeredo dizendo-lhe que seria uma vergonha para o Presidente da República entregar um prémio cujo cheque não teria cobertura, e o Chefe da Casa Militar pediu-me para esperar enquanto iria consultar Mário Soares, tentando dissuadi-lo.

Entretanto, tudo se passava na frente dos sindicatos a quem eu paulatinamente explicava que a vinda do Presidente da República à Torralta era uma provocação ao Primeiro-ministro Cavaco Silva, que era quem tinha a tutela da Torralta, através do Governo. Viria com toda a imprensa escrita, rádios e televisões para entrevistar os trabalhadores e ouvir as suas queixas e angústias e na prática, nada adiantar, pelo contrário publicitando ainda mais a situação da Torralta que precisava de continuar a receber turistas e passantes, enquanto a situação não se resolvesse.

Sendo primos e tendo intimidade suficiente, não hesitei em dizer-lhe ao telefone tudo isto em voz alta para todos ouvirem. Estavam calados, sem nada dizer.

Veio de lá uma voz desolada do General Carlos Azeredo, dizendo-me que o Presidente confirmou-lhe que vinha e que quanto ao cheque sem provisão, o problema era da Administração da Torralta. Ele entregaria o prémio e quando o destinatário o fosse depositar, já não seria mais da sua responsabilidade. Foi ipsis verbis o que eu transmiti aos trabalhadores, perguntando-lhes o que fariam no dia da visita e eles nada responderam!

Mais uma vez fiquei tranquilo e pensei que tudo tinha feito para evitar o pior. Lembrei-me de um filme antigo com o Yul Brynner chamado “The King and I” e pensei que se poderia aplicar ao meu caso!

No dia aprazado, o Presidente Soares aterrou de helicóptero no campo de futebol trazendo atrás de si toda a imprensa, nomeadamente as televisões. O percurso até ao auditório ainda era longo e eu tinha providenciado para que o meu carro e motorista estivessem prontos para nos levar.

Estava uma manhã linda de sol e os trabalhadores, os tais 700 e tal, alinhavam-se de cada lado, fazendo alas.

Cumprimentei o Dr. Mários Soares que se me dirigiu afavelmente e bem disposto e me tratou: - Como está o Senhor Presidente? Ao que lhe respondi que quem era Presidente era ele. Respondeu-me então, que éramos dois Presidentes: ele da República e eu da Torralta!

Pedi-lhe para tomar lugar no meu carro e ele respondeu-me que estava um dia soberbo e que iríamos os dois a pé, à conversa. Entretanto, não deixou de reparar naquela mole humana de gente com um ar triste e silencioso.

Percorremos lentamente o caminho, passando entre os trabalhadores que se mantiveram num silêncio total e absoluto e quando chegámos à porta do auditório, disse-me de caras:

- Dou-lhe os meus parabéns, eu vinha preparado com a imprensa, rádio e televisões para ouvir as queixas dos trabalhadores contra o Governo e o Senhor Presidente, por milagre, conseguiu que estivessem calados. Como fez?

- Saiba V.Exª que lhes disse a verdade, a qual é tudo quanto acabou de dizer, acrescido de que ficariam ainda mais prejudicados se contribuíssem para mais quezílias institucionais, uma vez que V.Exª nada tem a ver com qualquer solução que se venha a encontrar para a Torralta.

Ficámos entendidos e devo dizer que Mário Soares que tem um charme indiscutível, dali para a frente fez com que tudo corresse com dignidade e sobriedade, e o dito cheque foi entregue nas condições que se lhe tinham comunicado, tendo o Presidente, em voz baixa, dito que sabia o problema que me estava a causar, mas que esperava que entretanto entrasse dinheiro. O montante, nesse momento, era relevante para a Torralta pois não tínhamos sequer, em caixa, os referidos Euros 2,000,00! Imagine-se a penúria! 

Convidei o Presidente para almoçar no terraço do restaurante do Golfe. É uma maravilha de localização, de traçado conhecido e muito apreciado, de soberbas vistas para o mar e o ambiente não podia agradar mais ao Dr. Mário Soares e à sua comitiva.

Faço aqui um pequeno aparte, aliás doloroso pois hoje em dia estamos quase na mesma situação: era tudo fiado, ou seja não se pagava aos fornecedores que tinham proporcionado o almoço, o que para mim era um horror!

A conversa entre o Presidente, jornalistas, escritores, políticos e deputados fluía com facilidade, ajudada por generoso vinho que se servia amiúde, e eu, muito mais novo e não tendo conspirado contra ninguém nem nenhum regime, nem sequer ter estado no exílio, pois nem nascido era, estava calado polidamente, como dono da casa.

A um comentário infeliz e provocador do Presidente que aqui não reproduzo, intervim finalmente e respondi respeitosamente, mas na mesma moeda!

Mudou de assunto com galhardia e resolveu contar duas divertidas histórias que tinha vivido recentemente na sua visita de Estado, ao Reino Unido.

Afirmou que desde que era Presidente, o Protocolo de Estado tinha recuperado o seu devido prestígio, com apresentações de credenciais dos Embaixadores, de fardas e condecorações, fraque e luvas cinzentas, que as recepções em Queluz eram de gala com casaca e insígnias, enfim gabava-se de ser um entendido, eis senão quando o Protocolo do Foreign Office inglês, exige, sem transigir, que levasse luvas cinzentas e chapéu alto, quando descesse do combóio em Victoria Station e fosse ao encontro da Rainha, que aí o esperava. Confessou com simplicidade que se atrapalhou, pois nunca o tinha usado, mas levava-o na mão e assim cumprimentou Sua Graciosa Majestade.

O Dr. Mário Soares, acrescentou com bonomia que continuava a não saber falar inglês, mas que a Rainha e a Família Real, eram impecáveis no domínio da língua francesa, pelo que antes de tomar a carruagem aberta em direcção a Buckingham, perguntou à monarca o que devia fazer com o chapéu alto!

A Rainha Isabel, conta o Presidente, disse-lhe: - Em primeiro lugar ponha-o na cabeça e depois quando nos aplaudirem, tire-o e acene com ele. Dei uma forte gargalhada e naquele momento, esqueci-me do que aquela vinda poderia ter causado e apreciei o Homem, pois tinha tido muita graça.

Não contente com este episódio, narrou que estando num banquete oferecido pelo Mayor de Londres, tinha de cada lado a Rainha-Mãe e a Rainha Isabel. 

Acrescentou que já tinham dito tudo uns aos outros tendo-se, por isso, criado um certo silêncio entre eles. A Rainha-Mãe era pequenina de estatura, por isso veio um criado trazer-lhe um banquinho para os pés e uma almofada para ficar ao nível de todos.

De repente a Rainha-Mãe, vira-se para o Presidente e pergunta-lhe: - O Senhor é religioso? O Dr. Mário Soares, respondeu: Eu não, minha Senhora! - Ora ainda bem, retorquiu a Rainha-Mãe, pois assim podemos conversar sobre outros temas, pois tenho ao meu lado o Arcebispo de Cantuária que só me fala de assuntos maçadores de religião!

E assim termina o meu filme “The King and I”. Acompanhei-o ao helicóptero, despedi-me e voltei a encontrar-me muito mais vezes com ele fruto da minha vida profissional guardando sempre, entre nós, uma boa recordação destas histórias tão picarescas.

Pena, que as pessoas não saibam sair a tempo!

O resto da minha experiência na Torralta, não é preciso contar pois é conhecido.

Pertence hoje em dia aos Grupos de Belmiro de Azevedo e de Américo Amorim, que estiveram mais de 8 anos para poderem começar as obras e agora, que estão acabadas, dá gosto visitar, ficar por lá e gozar o esplendoroso cenário e tudo quanto lá se desfruta.

re-publicação de Torralta (3ª parte) a solidão do poder


Mencionei atrás a solidão do poder. 

Havia um acordo entre mim e os trabalhadores: para o mercado e para os clientes tudo tinha que continuar a funcionar, desde a limpeza e qualidade do alojamento nas torres e apartamentos, manutenção impecável do golf, piscinas, restaurantes, até ao ambiente que devia pairar em Tróia e em todo o complexo da Torralta.

Eles sabiam que o parco “cash-flow” que pudesse entrar seria devido à continuação de “business as usual”!
As caldeiras avariaram-se e nas torres, sem aquecimento bem como água quente, significava o encerramento da actividade. Até ali ninguém tinha sido despedido. 

Recebeu-se uns dinheiros de receitas antigas que davam ou para pagar o arranjo das caldeiras ou um mês de salário para todos!

Nas reuniões comigo a pressão maioritária dos trabalhadores e dos sindicatos era a de pagar, pelo menos, um ordenado: havia famílias estranguladas de dívidas aos bancos, aos vizinhos, sem dinheiro para comer, um sem número de razões atendíveis.

Por outro lado sem caldeiras, os meus planos de recuperação que estava a discutir com o Governo iam “por água abaixo”! Kaput, finito não haveria investidores interessados se tudo se degradasse e deixasse de estar ocupado, mesmo com níveis baixos. Entretinha as “gentes”, dava-lhes uma razão para continuarem.

Ouvi os meus colegas da Administração, consultei alguns “sábios” que sempre me aconselharam nos momentos difíceis e por último os trabalhadores e sindicatos. 

Ninguém tinha uma opinião segura, certa e maioritária.

Decidi jantar no meu apartamento, que era uma penthouse com uma vista soberba sobre o mar. Um fim de tarde em silêncio e deixando a cabeça descansar. Desliguei-me do “mundo” e realizei como estava só, e como a decisão dependia a partir dali, exclusivamente de mim. A tal solidão do poder. Decidi interiormente da forma como tinha estado a reflectir durante o dia, pesei os prós e os contras e fui dormir. Sono reparador.

Levantei-me cedo, fui correr pela praia, tomei um banho e vesti-me e sentia-me perfeito e tranquilo.

Convoquei os trabalhadores e a imprensa que me esperava e anunciei que o dinheiro disponível iria para o arranjo das caldeiras. Com doçura e emoção lamentei o desapontamento que esta decisão iria criar nas expectativas de todos, mas um mês, de facto, nem resolvia os problemas financeiros de cada um e pelo contrário agravava qualquer solução de resgate que estivesse a negociar.

Não vos maço com o que se seguiu de protestos, greves, incompreensão….tive a satisfação de encontrar apoio nos que mais precisavam, pois uma vez explicadas as razões, sentiram a eventual justeza da minha decisão. Senti-me só, muito só e para que serve o poder quando nos sentimos cães lazarentos a lamber as feridas, sem festas? 

Estranho que passados estes anos todos, ao escrever isto ainda sinta uma sensação de incómodo e desconforto!

Um primo meu, o General Carlos Azeredo, era o Chefe da Casa Militar do Presidente Soares, que mantinha péssimas e intratáveis relações com o Prof. Cavaco Silva, Primeiro-Ministro. 

Estava, mais uma vez, numa interminável reunião com o plenário dos sindicatos, quando a secretária me trouxe o telefone dizendo-me que era uma chamada urgente de Belém.

O meu primo anunciava-me que o Presidente Mário Soares queria visitar a Torralta com a imprensa e televisões e falar com os trabalhadores com atrasos nos salários.

(continua)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

re-publicação de Torralta (2ª parte) a luta sindical e uma história singela


Descobri rapidamente que tinha famílias de trabalhadores sem receberem salários há meses e uma forte presença sindical : despachava semanalmente com cerca de 70 sindicatos, ou da UDP ou comunistas, capitaneados por um sindicalista membro do Comité Central do PC. 

Devo dizer que foi para mim um grande desafio e os trabalhadores sabiam que eu estava ali para os ajudar. 

O meu “patrão” era o Prof. Cavaco Silva, na altura Primeiro-Ministro. Falava com ele e com o Dr. Alexandre Relvas e procurava-se uma solução para um passivo gigantesco de milhões, com suspeitas de grandes trafulhices ao longo dos anos. 

O tal sindicalista “chefe”, inteligente, bom negociador, provocador e duro obrigava-me a discussões de um homem só contra 70 na sala grande de reuniões da Administração à volta de uma mesa, raivosos, impacientes e sem ordenados, sem futuro à vista e com toda a razão para estarem contra o que eu representava. As sessões demoravam horas e eu saía de lá de rastos, cansado, sem soluções rápidas como a situação exigia. Eram no entanto, humanos e respeitavam-me, mas os tempos eram de luta sindical e eu estava do outro lado.

Tinha um telefone directo e com um número confidencial a que o dito líder sindical tinha acesso. No fim das reuniões, telefonava-me a consolar, a louvar e a dar-me o seu apoio e quando eu lhe perguntava furioso, porque não tinha feito isso em público e na reunião em frente dos outros representantes sindicais, respondia-me que era assim que tinha que ser

Foram tempos de aprendizagem, de conversas políticas profundas e de discussões dialéticas mas infelizmente, sozinho, pois o Conselho de Administração entregara-me o “bébé” nos braços e não aparecia em Tróia. Só na sede e mensalmente para as reuniões do Conselho. Portaram-se todos como uns canalhas!

Obviamente que como Presidente, apesar de ter negociado com os accionistas o meu salário, estive dez meses sem o receber. O exemplo tinha que vir de cima e por isso eram solidários comigo. 

Não elaboro mais sobre esta fase, pois são recordações de tempos muito difíceis, penosos, em que tinha a cada momento que usar de bom senso e de fortaleza para não cair em situações de proporções temíveis. 

Mas é a vida, apesar de não ser para tudo aquilo que fui contratado, por isso é bem verdade, “aprender, até morrer”!

Conto-vos hoje dois episódios, um de muita graça e ingenuidade e o outro em que desejo provar que o poder gera a solidão.

Existe desde há dezenas de anos, uma Instituição de grande mérito chamada “As Irmãzinhas dos Pobres” com um trabalho altamente meritório a favor dos pobres, na sua sede em Campolide.

Fosse em que sítio fosse em que eu estivesse a trabalhar, entravam pelas empresas adentro e pelos meus gabinetes, duas Irmãs da Caridade de hábito, a pedirem-me uma contribuição anual, que eu honradamente dava. Foi-se criando da minha parte uma grande amizade e admiração pela simplicidade em como encaravam este serviço aos outros e sempre que podia ajudava-as directa e indirectamente.

Lembro-me de me contarem que uma noite a Madre Superiora constatou que não havia pão para o dia seguinte, para os 400 velhinhos, nem muito menos, dinheiro para pagar. Pelas 22h 30m, já noite escura e com toda a gente recolhida, tocaram à porta e a Irmã Porteira foi, admirada, ver quem seria. Sem temor, como ela me dizia depois, porque quem serve os outros de maneira desprendida e generosa, nada tem a temer. Abriu a porta e era uma pessoa que não se identificou e que deixou um envelope, sem mais. 

Entregou-o á Madre Superiora e verificaram que era dinheiro num montante mais do que suficiente para pagar o pão do dia seguinte. O mesmo aconteceu com o arranjo das caldeiras….uma sucessão de gente generosa que justifica que acreditemos no bem e o tentemos praticar assim, sem alarde!

Vem tudo isto a propósito de no dia em que tomei posse de Presidente da Torralta, tendo sido profusamente anunciado na imprensa e televisão, o meu telemóvel não parou de tocar NUNCA mais, com pedidos de “cunhas” para o reembolso dos títulos de investimento que “meio Portugal” tinha adquirido de boa-fé e que serviam só para “forrar paredes”! Gente graúda e muitas famílias do tempo dos meus Avós, que aplicaram grande parte das suas poupanças, na empresa dos "manos" Agostinho e José Silva.

Ora uma tarde, a minha secretária passa-me uma chamada da Madre Superiora, das Irmãzinhas dos Pobres que, com uma voz alegre e prazenteira e depois de me dar os parabéns, me diz com o sotaque espanholado:
- Senhor Presidente estou tão contente por sabê-lo nesse lugar. (entretanto, já tinham começado os problemas todos que acima refiro, pelo que não entendi a alegada satisfação).

- Finalmente vamos ter desafogo, pois uma benfeitora deixou-nos um legado de 600 títulos que devem valer uma fortuna! Disse isto com tanta candura que suavemente lhe expliquei que a empresa tinha um passivo de 27 milhões de contos e não pagava salários há meses, mas prometi-lhe estudar o assunto. Não entendeu o alcance da minha mensagem e disse que me ia mandar entregar as acções e que esperava que eu lhe enviasse um cheque, depois. Fiquei sem palavras!

Claro que não valiam nada, tanto como as outras e mandei entregar um cheque meu de 600 contos. Recebo um telefonema da Madre Superiora a agradecer-me mas dizendo-me:

- Só!? 600 contos, é muito pouco para o que contávamos.
 
Espero ter expiado parcialmente, sem ordenado e com despesas grandes na altura, alguns pecados que possa ter cometido!

(continua)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Lauren Bacall e eu, re-publicação de crónica na data da sua morte

Fui o último Presidente da Torralta antes de passar para as mãos de Belmiro de Azevedo e de Américo Amorim.

Os accionistas privados da holding maioritária, gente muito rica do Norte e donos de indústrias de nomeada, pediram-me para pôr a casa na ordem e tentar recuperar a maior empresa turística de Portugal.

Era um desafio irrecusável, excelentes condições pecuniárias prometidas, apoio irrestrito dos accionistas, a liberdade de levar uma equipe da minha confiança, um património invejável e com uma tradição grande em Portugal, pois quase todas as famílias tinham títulos de férias dos manos Agostinho e José da Silva.

Tróia encantou-me desde o primeiro momento, pois as praias, a vista, o cenário eram belíssimos e a Torralta tinha um património equivalente no Algarve. em termos de hotelaria e terrenos excelentemente localizados.

Tomei solenemente posse e nesse dia saíram notícias sobre o meu perfil profissional, o que se esperava de mim, tudo posto pelos accionistas nos jornais económicos e diários e tudo prometia ser um sonho.

Nessa noite, fui entretanto avisado, que teria que jantar já na minha qualidade de Presidente com a celebérrima actriz Lauren Bacall, convidada do Festróia, uma tradição de festival da empresa e com bastante projecção nacional e internacional.

Luís Filipe Menezes, Mário Ventura, o Director do Festival, e inúmeras personalidades de relevo e de vários quadrantes políticos, olhavam para mim com curiosidade e vim a saber depois, com apetite de me comerem vivo, pois era um penetra desconhecido que iria meter o nariz nas “malvadezas” que despudoradamente cometiam numa empresa que não lhes pertencia e ao arrepio dos interesses dos milhares de pequenos accionistas que eram directamente prejudicados.

Sentei Lauren Bacall à minha direita e a conversa fluiu com o maior interesse sobre música, filmes, american way of life, amor e tristeza pela morte do seu marido e grande amor Humphrey Bogart (tinha estudado à tarde e à pressa, o seu percurso artístico, os filmes, as paixões e romances e cada traço da personalidade) e foi com espanto e lisonja que a ouvi perguntar-me o que eu fazia nessa noite depois da festa. Brejeira e provocadora, sabendo eu que ela gostava de homens novos, considerei o convite como uma proposta para um encontro.

No dia seguinte, o meu primeiro acto foi chamar o Director Financeiro e perguntar-lhe quanto tínhamos em caixa, pois sabia que havia cerca de 700 ou mais funcionários e notícias veladas, falavam de problemas salariais.

A resposta do Director Financeiro foi a de que o saldo de caixa era de Euros 3,000,00! Julguei ter percebido mal e perguntei-lhe como iríamos fazer face ao pagamento dos salários no fim do mês e ele respondeu-me que não iríamos pagar, como aliás desde há dois meses para trás!

Pedi-lhe para preparar-me um orçamento de Tesouraria e informou-me que o montante dos salários a pagar mensalmente era de cerca de Euros 400,000,00!

Os meus accionistas, tinham traçado um cenário totalmente viciado e não me passaram as informações relevantes, pois escamoteavam-na dos bancos e dos credores e pensavam que ao me ocultarem no início do meu mandato a realidade, poderiam assim continuar a controlar a empresa.

Pedi para falar com o meu antecessor, Albino Moutinho, mas como foi corrido pelos accionistas, recusou-se terminantemente. Requisitei o Livro de Actas da Administração e disseram-me que tinha desaparecido.
Convidei um amigo íntimo, competente e de toda a confiança para o Conselho de Administração para ocupar o pelouro financeiro e um Advogado, também impecável e meu amigo de longa data, para Secretário-Geral.

Começava bem, com tudo minado! E isto era só o princípio, pois as peripécias foram de alto coturno, se o leitor tiver a paciência de me continuar a ler.

(continua)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A vida é uma coisa imensa

Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.

A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.

Miguel Torga, in "Diário (1941)"

sábado, 9 de agosto de 2014

ce qu'est le charme


Vous savez ce qu'est le charme: une manière de s'entendre répondre oui sans avoir posé aucune question claire.

A. Camus

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

constatação de que andar de metrô pode ser um esfriamento...ahaahah

Toda a gente publica no facebook fotografias esplendorosas dos sítios aonde estão a passar as férias...praias com mar azul, ilhas parasidíacas, campos bucólicos e verdejantes, por isso resolvi publicar uma fotografia do Senhor Rouvado (ou Roubado) que é o meu sítio de eleição...ahahah

Para quem não se lembra desta minha obsessão, eu expenico:

- os meus Bisavós maternos, lá para os idos do final do século XIX, casaram-se. O meu Trisavô, pai da noiva, era o presidente da Carris da altura, ou seja da Real Companhia das Carruagens de Lisboa. 

- Havia uma bonita quinta familiar no Senhor Roubado, muito aprazível com um bonito palácio e jardins frondosos, propícios ao amor...digo eu...

- foram passar lá a lua-de-mel, e o transporte foi de carruagem. Calculo que os amigos tenham atrelado às rodas da carruagem, latas de Coca-Cola e rendinhas brancas do véu...ahahaah

- levaram 2 dias, tendo pernoitado em Benfica numa estalagem, já fóra-de-portas.

Digam lá se não é um esfriamento ir-se de metrô em 20 minutos....

silly season


be yourself in all you do


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Clientes do BES confundindo um funcionário com Ricardo Salgado...


Que biolência...balha-nos Deus...ahahaha

Foi um dia esgotante. Amanhã há um outro a que se segue mais um outro.


Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo.
Sou variavelmente outro do que um que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias de repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenho, nem ele julga que eu tenho.

Álvaro de Campos

terça-feira, 5 de agosto de 2014

excursão, Gambrinus, fiordes, etc....

Voltei ao lar depois de um dia cansativo, mas cheio de sol que só há cá em Portugal, apesar de tudo.

Um dos chefes do Gambrinus, que eu não nomeio, todas as vezes que eu lá vou ( sou do género de meter conversa com todos, que me conhecem desde miúdo a graúdo através das diversas gerações da minha família que frequentavam o restaurante e a barra) diz-me sempre: Sotôr a excursão aumenta a cada dia...e ri-se cúmplicemente.

Trata-se de um cruzeiro cujo navio vai aumentando de tamanho a cada dia devido aos passageiros que ele quer meter dentro, forçadamente, para a pretexto de visitarem os fiordes, cheio de personalidades de todos os walks of life ou seja políticos, banqueiros, malanders......e por aqui me fico...ahahaahah...ir inopinadamente contra um iceberg e ir tudo ao fundo, pois não haverá baleeiras...ahaahah

tipo banco mau!

Como cliente habitual aprecio esta intimidade que existe entre quem nos trata bem e com qualidade e quem, como eu, faço jus a esse serviço e retribuo com cordialidade e naturalidade.

Noutros tempos a fidalguia, como cantava o João Ferreira Rosa, quando fazia escapadelas a bares e a restaurantes, os maiores confidentes de copos eram os barmen e quejandos. Tornavam-se família, ainda que à parte, pois as esposas, nada contentes, não sabiam destas cumplicidades...

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Comunicação do Governador do Banco de Portugal sobre o BES

Na minha opinião:

1. O Governador do Banco de Portugal disse o que podia dizer, mas nervoso e com uma insistência preocupante em evitar amanhã uma corrida ao BES;


2. Demonstra toda uma série de miscambilhas perpretadas desde há vários anos pelo GES e BES, com uma desculpa esfarrapada de falta de supervisão;


3. Vai haver despedimentos no universo BES e o GES acaba;


4. O que vai acontecer ao BESI?


5. O que vai acontecer aos compradores recentes de acções do BES?


6. O que vai acontecer aos membros da Família Espírito Santo que não tiveram culpa da delapidação feita por membros relapsos?


7. Com que garantias ficam os investidores do BES em produtos que lhes foram impingidos pelo banco?


8. Achei muito fraco o texto do Governador do Banco de Portugal.


9. Voltámos ao nível do Chipre!


10. O Primeiro-Ministro em exercício também está em férias ?


domingo, 3 de agosto de 2014

Vem buscar a tua ausência antes que passe


Vem buscar a tua ausência antes que passe.

Já não tenho paciência para algumas coisas

Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere.

Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem quer retirar-me o sorriso.

Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. 

Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. 

Na Amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. 

Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. 

E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência."

Meryl Streep


sábado, 2 de agosto de 2014

miserabilismo português e raça

Não me canso de criticar o miserabilismo português.

Hoje vem publicado nos jornais que o novo Comissário vai ganhar cerca de Euros 20,000 por mês e outras benesses. 

So what?

O que é que estavam à espera os medíocres deste país que nunca ganharam ordenados razoáveis, pois limitam-se a encostar-se à sombra da bananeira do Estado ou em empresas que à partida não têm futuro, arrastando-se sem brilho, nem criatividade, nem esforço nem mérito!

Quem é bom, trabalhador, internacional no sentido de poder laborar em qualquer país, ganha bem e de acordo com as funções que desempenha.

E não me venham com o desemprego nem com a crise, pois nada tem a ver com a qualidade e excelência de cada um.


Quando se é medíocre, aí sim, é que é chocante ter ordenados chorudos, e há muita gente que está nesse caso.


De resto, alma até Almeida e ignorar o pagode invejoso, soez e mesquinho do costume. 


Irra que é demais!

uma maravilha...trata-se de música

http://youtu.be/Snw71qD9Pao

insignificant people


I do not dirty my hands to overthrow insignificant people, after all, nothing better than to see them tripping over their own failure.

MNA ( written by me in a day of discomfort after having suffered a bad trick from an ex business partner)

Good night sleep


I know your day is well spent,
And I wish there is nothing you repent,
For the night is here and its pleasant today,
Forget everything even your mood today,
Give up to the night so calm,
The moon and its shining charm,
The night is beautiful so embrace it tonight,
As I wish you a lovely night.

boa notícia


Em noite de sossego e a ouvir boa música, apeteceu-me partilhar uma boa notícia: a constatação de que estou vivo, com saúde, com a cabeça bem arrumada e muito agradecido por tudo quanto me tem sido dado na vida, de bom e de mau.

Com tantas más notícias, um país esfrangalhado, muitas famílias em stress com a pobreza que se avizinha, as doenças, a solidão, a guerra, a morte é bom sentirmo-nos pequeninos e dar graças!


Este conflito no Médio-Oriente é uma vergonha para a Humanidade!

Estou sem sono e como sempre prefiro estar a ver as notícias do mundo nos canais internacionais, pois pelos nacionais é de uma pobreza aflitiva!

Este conflito no Médio-Oriente é uma vergonha para a Humanidade! Não é possível que os grandes e importantes países deste mundo não se mobilizem para negociar uma solução justa e duradoura!

A hipocrisia, os interesses obscuros por detrás de uma indiferença enojam-me!

Qualquer uma das partes aduz argumentos atendíveis mas tudo isto revela a faceta mais miserável do ser humano!

Uns verdadeiros selvagens que não recuam perante nada!

Sinto-me profundamente chocado pela reportagem da CNN e da Aljazeera que mostram um massacre!

Parem dos dois lados por uma vez!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

o meu conceito de férias

Este conceito do termo "férias" tem muito que se lhe diga: três condições indispensàveis, na minha maneira de ver para que o sejam verdadeiramente.

1. Devem ser partilhadas com quem nos damos bem, queremos, gostamos e nos dê uma sensação de bem-estar, de paz e de desligamento da rotina do dia-a-dia;

2. O sítio é muito importante: não o da moda ou ditado por terceiros, mas tão sòmente o que estiver dentro das nossas possibilidades materiais, o que significa que "vareia" de pessoa para pessoa. Deve ser um sítio propenso ao descanso do corpo e do espírito, sem muito barulho durante algumas horas do dia ou da noite. Pode-se fazer bom desporto, ir à praia ou estar no campo, mas numa versão pausada e temperada;

3. O acto de nos desapegarmos do stress pode levar alguns dias, mas é importantíssimo que ocorra. Para isso ajuda a leitura de um livro que nos dê gozo, boa música, passeios a pé, de bicicleta, de carro, a cavalo, mas sobretudo se nos dedicarmos a prazeres mais simples e a brincarmos, conversarmos, participarmos na vida de filhos, netos, maridos, mulheres, amantes e unionistas de facto, eu sei lá tudo quanto há para aí...

Estou a falar a sério e acredito mesmo nestas três regras.

Boas férias a quem vai começar.

domingo, 27 de julho de 2014

As festas de casamento dos tempos hodiernos ou de como sou malandreco

Os casamentos, que acabam por ser de muitas horas seguidas, tanto podem ser divertidos como uma verdadeira estopada.

Depende do sítio onde tudo se passa, da qualidade das pessoas que nos calham nas mesas, do clima (muito frio ou muito quente), da comodidade que nos é oferecida (cadeiras, sofás, chapéus de sol, tendas) do catering incluindo as bebidas para nos acompanharem durante horas infindas…

Quando quem nos convida tem o cuidado de saber fazer o placement correcto, as horas em que estamos sentados à volta de uma mesa podem-se tornar num momento alto da boda ou de vontade de nos levantarmos e ir embora…

Quando temos convivas inteligentes, cultos e com graça ou pessoas interessantes, aprendemos sempre qualquer coisa e acabamos por ocupar o tempo, sobretudo…a não falar mal dos outros, ou sobre rendas e bordados, ou sobre a crise e a nossa angústia…são lufadas de ar fresco!

Devia haver impresso no menu, uma espécie de “agenda de trabalhos” para cada mesa tendo em consideração as personalidades e características de cada pessoa.

Mesas com miúdas giras, entre outros temas para além de sexo, poder-se-ia falar discretamente sobre os carros que cada um dos homens presentes têm, sobretudo os descapotáveis, os restaurantes da moda aonde vão, as viagens de barco que fazem, as de férias, as de negócio para suscitar o interesse meramente cultural das ditas garotas…

Em mesas de gente um pouco mais idosa, comentar as residências de Terceira Idade dos ES e Mellos citando o caso de tias lindamente que se sentem felicíssimas…

Sou um malandreco impenitente….

sábado, 26 de julho de 2014

é altura de fazer silêncio sobre Ricardo Salgado e o Grupo Espírito Santo


Começa a cansar tantas notícias repetitivas sobre RS e o Grupo ES (GES). 

É altura de fazermos silêncio, tal como aliás o fazem os próprios membros desavindos, pois só ganhamos todos se o BES não soçobrar, se a família ES não envolvida nestes sarilhos, puder continuar a ser respeitada, pois tem uma tradição de grande afabilidade, amizade para quem com eles convive  e prestou assinaláveis serviços ao país e à economia portuguesa, apoiando as pequenas e médias empresas e o tecido empresarial português.

Em todo o lado há debilidades e fraquezas e por isso existe a Justiça que apurará com imparcialidade as culpas de cada um e não nos compete antecipar julgamentos nem perturbar com uma pressão constante e negativa o trabalho de Magistrados que terão muito que analisar e perscrutar, com idoneidade e seriedade. 

Tudo levará o seu tempo.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras

Há momentos e situações em que o olhar comunica mais que as palavras, isso também é intimidade. Creio que sou capaz de dizer muitas coisas sem falar, é o outro que também tem de compreender e de saber interpretar. Quando se estabelece essa relação de intimidade e de amizade, não é necessário falar. (...) Frequentemente é melhor não o fazer porque as palavras estão muito gastas.

António Lobo Antunes

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O Nietzsche escreveu a Ricardo Salgado


O Nietzsche escreveu a Ricardo Salgado a dizer-lhe bem claramente:

Look, I'm not upset that you lied to me, I'm upset that from now on I can't believe you.


the snake, the skin and the mind

The snake which cannot cast its skin has to die. As well the minds which are prevented from changing their opinions; they cease to be mind.

Friedrich Nietzsche

João amava Teresa que amava Raimundo

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Algumas recomendações de Fernando Pessoa a Ricardo Salgado


Algumas recomendações de Fernando Pessoa a Ricardo Salgado:

1.       Uma família não é um grupo de parentes; é mais do que a afinidade do sangue, deve ser também uma afinidade de temperamento. Um homem de génio muitas vezes não tem família. Tem parentes.

2.       A característica principal do homem que nasceu para mandar é que sabe mandar em si mesmo.

3.       Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho.

4.       Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas.

5.       Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.

6.       O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.

7.       O génio, o crime e a loucura, provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio.

8.       Assim como lavamos o corpo devíamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa.

9.       Os homens são fáceis de afastar. Basta não nos aproximarmos.

10.   Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.

E finalmente este conselho impagável:

Digo-vos: praticai o bem. Porquê? O que ganhais com isso? Nada, não ganhais nada. Nem dinheiro, nem amor, nem respeito, nem talvez paz de espírito. Talvez não ganheis nada disso. Então por que vos digo: Praticai o bem? Porque não ganhais nada com isso. Vale a pena praticá-lo 
por isto mesmo.

Fernando Pessoa

domingo, 20 de julho de 2014

quinta-feira, 17 de julho de 2014

You are what you do


Tão verdade...andamos distraídos com a cabeça nas nuvens, sonhamos...o que é bom, mas a queda é dolorosa. Também nem toda a gente pode fazer ou sequer ter capacidade para realizar grandes feitos.

O que soubermos fazer bem feito é na realidade o que somos, por mais modesto que seja.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O pensamento de Eça de Queiroz (1845-1900) - O que verdadeiramente nos mata


O pensamento de Eça de Queiroz (1845-1900)

 O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.


Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.

O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.

Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.

O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos.»

Eça de Queirós, in ‘Distrito de Évora’

terça-feira, 15 de julho de 2014

Imortais como os deuses do Olimpo


Nous sommes tous mortels avant le premier baiser et le deuxième verre de vin. 

E. Galeano

Deus e Bach


S'il y a quelqu'un qui doit tout à Bach, c'est bien Dieu.

E. Cioran


Viagem de um homem comum a um céu extraordinário

E como um dia há de ser com toda boa alma, hoje um homem subiu aos céus de manhãzinha e descobriu que o paraíso não é só um amontoado de anjos tomando sol num campo verde e infinito além das nuvens. Entorpecido pela surpresa, o homem se deu conta de que o céu é uma grande e abençoada cozinha.

Ali, as crianças brincam com batatas espetadas por palitos de fósforo formando rebanhos em fazendas de sonho, debaixo de uma mesa onde as avós escolhem de grão em grão o arroz e o feijão das próximas refeições. Os adultos, homens e mulheres, sem distinção, trabalham nos afazeres culinários com a seriedade e o prazer de quem leva adiante sua única causa.

 O recém-chegado se põe a um canto e observa o funcionamento perfeito das coisas. Repara na organização sublime das panelas e utensílios, na limpeza do chão, nas paredes de cada cor, na integridade do trabalho de um e outro, na beleza da vida que acontece ao sabor dos detalhes. Ele deita os olhos na espuma branca do leite que ferve e derrama a manhã sobre o mundo, respira fundo o cheiro afetuoso do pão feito em casa, do café que borbulha para acordar o dia, dos temperos sutis, dos bolos que crescem lentos no forno como os amores novos em seu saber esperar.
 E assim ele vai se deixando estar ali, entregue à observação das miúdas formalidades culinárias, ao rigor elegante das pitadas, ao movimento organizado dos anjos preparando a ceia do mundo, quando nota a seu lado a presença definitiva de uma fada, porque no céu também há fadas, organizando e inspirando a orquestra sublime em seus afazeres.

Com a beleza do riso das crianças que brincam na praia, a fada o olha nos olhos e o convida a passear pelo céu a seu lado. Uma porta se abre, ela o leva até o quintal e lhe mostra a floração das alfaces, os brotos da couve-flor, o som genuíno dos rabanetes e cenouras e mandiocas arrancados da terra sob o destino sublime de enfeitar e fortalecer as saladas de frescores e frescuras divinas.

E o espetáculo de viver e interagir se faz escandaloso aos cinco sentidos do homem na grandeza da horta, na perfeição da cozinha, na beleza da fada que tem o riso triste, os olhos de afeição, as mãos e o coração de quem cozinha para manter o mundo em equilíbrio.

O homem e a fada caminham juntos, em seus dois estados diferentes de existir. Ela conta a ele em sua dicção perfeita de fada os segredos das grandes receitas, revela o ponto exato dos cozimentos, os ingredientes insuspeitados, enquanto as panelas bafejam encanto e mistério. À hora do almoço, ela o convida a sentar-se à mesa, e ali há mais pessoas do que seus olhos podem ver. Durante a refeição, as conversas são longas e saborosas, das entradas à sobremesa e ao café.

Eles comem sorrindo, depois dormem a sesta sob um vento manso. A fada acorda o homem à tardinha e o leva para caminhar sobre as nuvens. Anoitece, os assuntos se multiplicam como as safras mais fartas e eles continuam ali, beliscando as estrelas, contemplando a noite, a lua e o susto do amor.

Ela diz “bem-vindo”. E caminha sob o olhar humano do homem até a beirada de um penhasco no céu. Lá de cima, polvilha a Terra de amor e açúcar, resgatando em hora certa os seres pequeninos aqui embaixo de seus desastres domésticos, tornando seu caminho mais sutil e suportável.

Em sua infinita graça e devoção de quem cozinha por puro afeto a seus comensais, ela sorri um riso meio triste e abre inteiro, generosamente, o apetite do mundo para o maravilhoso manjar da vida.

Hoje um homem subiu aos céus. E descobriu que o paraíso é uma grande e abençoada cozinha, e que lá existe uma fada que sorri o sol e faz a vida mais doce.