quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conto da dona Lili (II) o Tio brasileiro


O Celso Pereira, viera de Portugal para o Brasil, mais precisamente de Alhandra aonde tinha nascido e aonde se tinha iniciado na panificação.

O pai, o senhor Ilídio, padeiro, nunca tinha vingado na profissão e morrera cedo com tuberculose. Fazia-lhe mal o quente do forno do pão e como fumava muito, o ar começou a faltar-lhe, caiu doente e morreu sufocado. Um horror!

A mãe, dona Cacilda, modesta costureira mas com muita clientela fiel em Alhandra e na Póvoa de Santo Adrião, lá foi sobrevivendo e educou dois filhos: o Celso e uma irmã, de nome Gracinda, que havia de casar com uma gente da Amadora.

Celso tomara o lugar do pai na padaria e não se saía mal. Belo mocetão, bem parecido e melhor falante, aguentava as noitadas com vigor e foi começando a fazer o seu pé de meia.

O patrão tinha uns amigos padeiros que tinham ido para o Brasil e ouvia dizer que tinham enriquecido e eram já donos de vários estabelecimentos.

Celso sonhava com a emigração para terras de Vera Cruz.

Uma noite em que estava a sós com o patrão, num momento de pausa, disse-lhe:

- Vossemecê é que me podia fazer um jeito. Se falar com os seus amigos do Brasil peça-lhes que me arrumem um emprego lá nas padarias deles. É o meu sonho!

O patrão que reconhecia em Celso, bastas qualidades de trabalho, empenho e seriedade, respondeu-lhe que assim faria.

E uma tarde, chegou a tão almejada carta de chamada para Celso. Era de um Crispim que estava a começar no sertão brasileiro e queria gente moça para lá.

Celso casou no Brasil com uma sertaneja de nome Cíntia Melão, porque tinha dois “papos” que lembravam melões suculentos.

Tiveram dois filhos: Maria Alberta Pereira, a mais velha, de que adiante falaremos e um rapaz de sua graça, Borba Gato Pereira, em homenagem ao bandeirante do mesmo nome.

Borba Gato era um típico local, rebarbativo, desconfiado e rebelde. Também teve muitas aventuras, como abaixo se verá.

Só quem nasceu e viveu no sertão conhece a secreta, cálida simpatia que o sertanejo tem pela vida aventureira e nómada. Por isso ele vê sempre com um misto de desconfiança e desprezo a autoridade policial. Pode, inclusive, aparentar respeito perante um delegado ou um comandante de destacamento. Mas, no fundo, o seu coração está com o rebelde, o perseguido, o fora da lei.

É um sentimento antigo, enraizado, que se lhe perdura no sangue. Sangue tantas vezes derramado pelos esbirros do rei e pelos jagunços republicanos: aos brutais predadores de índios sucederam as milícias coloniais e imperiais; aos capitães-mor, os sargentos, tenentes, capitães e majores comandantes, montados na violência e na arbitrariedade, na maior parte das vezes implacáveis com o sertanejo, a quem sempre olharam e trataram como um bicho do mato, traiçoeiro e perverso.

Nos primeiros tempos, a lei, a lei de punir, sem receio das fraquezas dos juízes e das patifarias dos jurados, sempre escolhidos a dedo, era o bacamarte, o cacete e a faca. Funcionavam, de facto. Porque o exemplo vinha de cima, dos poderosos, do major, do capitão, do coronel, violentos e valentes – “bons, burros e bravos”.

Herança antiga, era a violência, quando os poderosos da Coroa, para justificarem os seus actos infames – assassinatos culposos e homicídios perversos – eram acobertados pelo governo que, inexplicavelmente, lhes perdoava! Daí veio a máxima: “Mata que el-rei perdoa!”.

Borba Gato tal como os seus conterrâneos sertanejos nordestinos, nutriam verdadeira aversão pelas forças policiais. A essa aversão misturava-se temor, ódio e indiferença; ao contrário do que tinham para com os perseguidos, por quem tinham igualmente temor, mas também um certo respeito e até admiração, pois igualavam-se, por vezes, como vítimas da mesma sociedade desigual, das mesmas perseguições, expostos aos mesmos sofrimentos e às mesmas agruras.

O destino ás vezes prega as suas partidas.

Celso foi prosperando, tornando-se num excelente gestor de várias padarias depois de anos de trabalho a fio, duro mas promissor como só no Brasil se pode encontrar. Foi conquistando o seu lugar de imigrante endinheirado e poderoso e resolveu fixar-se numa xácara já de grandes proporções, rica e confortável numa cidade pacata chamada Currais Novos.

Borba Gato, seu filho, não lhe seguiu as pegadas e gozava das benfeitorias que o dinheiro do pai lhe granjeava. Era um inútil, femeeiro e brigão. Parece que tinha tombado em menino numa pipa de cachaça, de tanta bebedeira que apanhava.

Em toda a sua história, Currais Novos sempre se notabilizou por ser uma cidade pacata e de gente alheia aos processos de violência urbana e rural, que se notabilizaram em outros municípios desse Estado.

Mas toda essa tranquilidade não evitou que ocorressem três assassinatos, tendo como vítimas fatais dois delegados e um cabo de polícia, mortos no exercício das suas funções, em diligências de rotina.

O primeiro, que é o que nos interessa, de que foi vítima o delegado em exercício de funções, foi morto à facada por Borba Gato, nas imediações dos fundos da Padaria Primor.

Era delegado o siô Manuel Lopes, conhecido como Manuel Lopes o “Barbudo”.

Para Borba Gato a “pistolagem” que já era “modo de vida” tornou-se “meio de vida”.

No julgamento de Borba Gato, um sargento, acabando de ouvir a sentença condenatória de longos meses de prisão, atentamente ponderou: “Está muito bom, ‘seu’ doutor. Mas só tem uma coisa: se vossa senhoria fizer isso, aqui talvez não fique nem quem diga missa, quanto mais quem a ouça!!!”.

No dizer de Cascudo, era a polícia “mantendo a ordem e garantindo a desordem”.

Todos os filhos de gente abastada, influente e poderosa, tornavam-se violentos pelas circunstâncias do meio, e respeitados a ponto de vir toda a gente submissa e assustada, pedir-lhes a bênção e tomarem-lhes o conselho.

Tal como todos os brigões, Borba Gato, tinha um medo que lhe invadia os sonhos e lhe tirava o sono, que era o de ser apanhado ainda com vida no fim de uma disputa com uma brigada da polícia.

Ao contrário do que se pudesse imaginar, tremiam quando pensavam ou mesmo sonhavam o fim que lhes esperava: um agente da policia sanguinário e com sede de vingança e de dinheiro, a separar-lhe a cabeça do corpo com um único e definitivo golpe de facalhão.

Estes pensamentos, misturados com presságios, invadiam o sono de Borba Gato e transformavam-se em horríveis pesadelos.

Borba Gato foi um dos que morreu, sob a mira da pistola de um Capitão.

Os pensamentos, os sonhos e pesadelos, tornaram-se realidade. A realidade do sertão.

É verdade que Borba Gato, ao ser fuzilado, já apresentava sinais de debilidade na sua saúde. Há muito que já vinha a ser acompanhado por médicos e tomava medicamentos, apenas pela intuição do médico e na desconfiança do “paciente”.

Havia até quem afirmasse que a cirrose precoce (pois só tinha 40 anos), já lhe atacava as “ideias”.

Celso, morreu, entretanto de desgosto, de gota e de fartura. A esposa, a dos “melões” tornara-se uma respeitada burguesa, vivendo na opulência.

Diziam as más-línguas, que mesmo antes de se tornar viúva, andava metida com um “Coroné” poderoso! Intrigas.

Falemos agora um pouco da filha de Celso: a Maria Alberta.

(continua)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Conto da dona Lili (I)



- Sou a dona Lili, sabem? Toda a gente me chama assim, e eu gosto! – disse para os presentes uma velhinha simpática.

Eu estava na clínica, na Amadora, à espera da consulta.

A dona Lili devia lá morar por perto.

- Só cá volto daqui a duas semanas, por isso desejo às meninas – duas recepcionistas fardadas – as maiores felicidades, que corra tudo bem. Vendia felicidade, distribuindo bons votos numa harmoniosa voz meia cantada.

No regresso a casa, pensava eu, sentiria um calorzinho devoto de ter sido muito afável nesse dia, cumprimentando todos à passagem.

A dona Lili, afinal era uma peste, cínica e acabara por viver sozinha, pois ninguém a aturava. Vim a saber toda a história pela enfermeira que me fazia fisioterapia.

O senhor Arnaldo, com quem tinha vivido uns 30 anos, já há muito que a deixara.

Nunca se casaram. Ao princípio ainda havia atracção física, mas mesmo na cama era chata, formal e recusava qualquer ousadia mais atrevida.

Nem sequer era pela religião. Filha de republicanos ateus, nunca tinha ido à catequese, frequentado sacramentos ou sequer baptizada.

Fora inscrita numa escola pública da Amadora, e não consta que tivesse feito amigos ou amigas.

Cumprira o básico e sabia ler, escrever e fazer mal as contas.

Sempre adorara ler romances, de preferência de cordel, e interiorizava os personagens dos livros que lia, dai os seus ares adamados no modo de conviver.

A dona Yvete, era a única vizinha que a visitava. Casada com o senhor Amílcar, motorista de táxi, tinha servido como criada em casa de uns patrões endinheirados, antigos emigrantes no Brasil que voltaram ricos e moravam numa vivenda rococó cheia de cacaria, alguma da qual dona Yvete exibia em armarinhos pirosos por toda a casa.

Tinha alguma paciência para a dona Lili, pois sendo iletrada, ouvia deliciada as histórias que ela lhe lia, descrevendo mundos que a faziam sonhar e que de certa maneira ela testemunhara quando estivera a servir.

Andava a ler o “John, chauffeur russo” da Magali, da colecção azul e sempre que podia, implicava com a dona Yvette:

- Isto sim, o John é que é um chauffeur distinto. Lá o seu marido, sempre num táxi, não priva com gente fina. Pois este sempre com um primor de farda, boné e sabendo encantar.

A dona Yvette dizia umas coisas ao marido que furioso lhe respondia de maus modos:

- Essa megera é igualzinha a ti e a mim e tem manias de que é fina lá porque lê esses livros. De resto, se não fosses tu, nem teria quem lhe escutasse essas idiotices. Deixa-me em paz!

A dona Lili nesse dia voltara da clínica muito consumida. O médico dissera-lhe que, seca de carnes como era, o cancro roía-lhe as entranhas e que muito em breve teria que ser hospitalizada.

Perguntara-lhe se não tinha nenhum familiar com quem ele pudesse falar para combinar o internamento.

Exausta, deixou-se cair na cadeira aonde se sentava normalmente para ler, junto à janela. Tinha ainda uns bons 30 minutos a sós, antes que a dona Yvette lhe aparecesse.

Burra que tinha sido! Vida miserável de solidão que tinha tido. Deixado partir o Arnaldo que até era boa pessoa e parecia ao princípio gostar dela. Não resistia a interpelá-lo por tudo e por nada. Tinha opinião sobre todos os assuntos e ele amofinava-se. Para o fim só o silêncio respondia aos seus guinchos e às lamúrias e queixas constantes que lhe fazia.

Fora fria e pouco expansiva para com os pais e a única avó que conhecera, lembrando-se até que já nessa altura gostava de ser recta pronúncia, contrariando-os e levando-os ao desespero.

Na escola azedara. Não se lembra de grandes emoções nem amizades. Era tolerada mas mais nada.

E agora só, doente, remediada – o pai deixara-lhe o rés-do-chão da casa modesta aonde morava com o respectivo recheio, uma pensão de reforma suficiente e alguns depósitos na Caixa – a quem iria deixar o seu mundo, os seus livros e os seus bens?

Tocaram no vidro da janela e uma voz que não era a de dona Yvette, perguntou se era ali que morava a dona Libertária Gomes.

- Quem é? – perguntou com uma voz entre o espanto e algum receio. Não esperava ninguém.

- Maria Alberta Pereira, a sua prima.

Não tinha primas, pelo menos nunca conhecera nenhum parente. Estranho, pensou.

- O que deseja? Não me lembro de ter primas – disse com um ar seguro e convicto.

- Se me deixar entrar explico-lhe tudo. Sou prima do lado da sua mãe. Tinha um irmão que foi para o Brasil e lá casou e teve uma filha. Eu sou neta desse irmão.

(continua)

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Amor é só poesia...


Aos que não casaram, aos que vão casar, aos que acabaram de casar, aos que pensam em se separar, aos que acabaram de se separar, aos que pensam em voltar...

Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja.

O AMOR É ÚNICO,

como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue,

A SEDUÇÃO

tem que ser ininterrupta...

Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança, acabamos por sepultar uma relação que poderia SER ETERNA

Casaram. Te amo pra lá, te amo pra cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas.

Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo tecto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes, nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, RESPEITO.

Agressões zero.

Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência... Amor só, não basta.

Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura, para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver BOM HUMOR para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.

Tem que saber levar.

Amar só é pouco.

Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas para pagar.

Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar.

Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem , visando à longevidade do matrimónio, tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.

Tem que haver confiança. Certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão.

E que amar "solamente", não basta.

Entre homens e mulheres que acham que

O AMOR É SÓ POESIA,

tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.

O amor é grande, mas não são dois.

Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor.

O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom Amor aos que já têm!

Um bom encontro aos que procuram!

E felicidades a todos nós!

Artur de Távola

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A música é capaz de reproduzir a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria


A música é capaz de reproduzir na sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que a inebria. – Beethoven.

É impossível precisar quando surgiu a música, mas sabe-se que acompanha a história dos homens desde que os nossos antepassados perceberam que alguns objectos ao serem tocados emitiam sons, e dessa casualidade – e não apenas os sons da Natureza -, foi possível criar sons que podiam ser agradáveis ou não.

É um facto que desde que o homem passou a viver em sociedade, não houve nenhuma cultura onde não houvesse música. Nem mesmo os ascetas resistiram, pois veja-se a religiosidade de Bach, Vivaldi, Händel, entre tantos outros que pareciam criar o sonho celestial através da música.

Nietzsche e Schopenhauer, dois dos “espíritos” mais inquietantes da Filosofia, reconheciam na música um verdadeiro arrebatamento do Ser, e só a música era capaz de fazer corpo e “mente”, unidos, dançarem em perfeita sintonia.

Mas a música também pode representar tudo o que há de mais terrível e corruptível do Ser. Assim se expressou Nietzsche sobre o músico alemão Richard Wagner, após a rotura de uma amizade que pareceu nascer em belos jardins. Nietzsche rompeu com Wagner por entender que ele deixou de fazer música por prazer e passou a fazer ofertas de peças para ganhar popularidade, entre outros motivos, como a exaltação do nacionalismo alemão e a incorporação de elementos cristãos. Wagner passou a ser para Nietzsche um traidor da Arte representativa do existir: a arte trágica grega que afirmava a Vida.

Nesse contexto, evitando incorrer na ingénua pretensão de discutir géneros musicais, penso que seja possível captar de qualquer música uma linguagem universal.

A música que foi capaz de abraçar Nietzsche nos seus momentos de maior solidão e dor, a que fez até “quebrar” o pessimismo de Schopenhauer : é essa a música capaz de revigorar o Ser que diz Sim à Vida antes de qualquer exigência, tornando os obstáculos em meios para a criação e desenvolvimento.

Triste é ver que com a modernidade, como nunca antes, a música tem perdido o seu carácter trágico-grego. Quase que não existem grandes génios que buscam compreender a sua singularidade pela arte da música e que nos presenteiem com uma linguagem capaz de tocar as profundezas do Ser – os impulsos mais fortes e prazenteiros.

Pelo contrário, vejo a multiplicação de vozes e ruídos em histeria que, como hinos, entoam a negação da vida, ganhando aplausos entre a sádica alegria da embriaguez.

Em conjunto esses barulhos atordoam a singularidade existencial e glorificam uma moral de moda, de estética, de comportamento, de popularidade, de pensamento.

É no meio dessa histeria musical que se reproduz num ritmo impetuoso, que convido o meu leitor, mesmo quem nunca tenha “parado” para ouvir a “música arte”, a alimentar o seu Ser – corpo e intelecto juntos – com o banquete que Rachmaninov nos pode oferecer na Rapsódia sobre um tema de Paganini.

Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia


Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem se torna escravo da rotina, repetindo todos os dias o mesmo trajecto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir-se com uma cor nova, não fala com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu companheiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou um bilhete de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço numa vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pontos nos “is” a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que causam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não muda quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça a si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio. Pode até ser uma depressão, que é uma doença séria e que requer ajuda profissional. Então morre a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não indagando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante.

Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

domingo, 17 de abril de 2011

o teu destino és tu


Sobre o Caminho a seguir

Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"

segunda-feira, 11 de abril de 2011

S. Paulo, no Domingo : Você é padeiro?



S.Paulo, no Domingo de manhã antes do almoço sofisticado em casa de uns primos brasileiros.

Precisei de tirar umas fotocópias para entregar e entrei na primeira tabacaria de bairro aberta, vulgo “copiadora” aonde estava um rapaz, “moço” de seus 19 anos, encarregue destes serviços.

A minha filha Mariana que entretanto ficara no carro, veio dizer-me aonde estava estacionado.

Nas minhas estadias no Brasil, falo com um apreciável sotaque brasileiro.

Ao nos ouvir falar entre os dois com o sotaque de Portugal, e depois de ela ter regressado ao carro, passado um bocado oiço atónito esta pergunta do “moço”:

- Você é padeiro?

Respondi de mau humor, que não. Ele topou a minha cara e disse que os portugueses eram todos padeiros ricos.

Perdi algum tempo, meio indignado a explicar-lhe que embora a profissão de padeiro fosse respeitável e honrada, o que era inaceitável era o desconhecimento dele sobre Portugal e as suas gentes desde a época da emigração para o Brasil dos anos 30.

É o que valemos….somos padeiros, ao menos ricos, mas só no Brasil!

Ora esta!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Perguntam-me o que fazer depois do anúncio de novas medidas do PEC.


Perguntam-me o que fazer depois do anúncio de novas medidas do PEC.

Eu fui sempre privado, a não ser quando fiz a tropa já depois do 25 de Abril.

Tirei como vantagem da minha passagem pela função pública ter descontado e continuar a descontar... Euros 11,34 por ano para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças, para…hélas…ter o meu enterro TODO pago!

Voltando ao sério:

1. Foi hoje anunciado um novo PEC com ainda mais restrições;

2. A dívida de Portugal, pública e privada, é gigantesca;

3. Durante os próximos decénios a vida vai ser um “inferno” em Portugal;

4. Refiro-me também à parte intangível da nossa personalidade, ou seja o acesso à cultura, às artes, à frequência de espectáculos, à compra de livros e de música, o gosto pela culinária através da ida a restaurantes, as viagens ao exterior…tudo isto e muito mais vai ser limitado, porque pura e simplesmente no “balanço” quer do lado do “activo” quer do “passivo” não vai haver fundos! Ou seja não vai haver dinheiro suficiente para “luxos”…santo Deus!

5. Para não falar já de familiares e amigos e jovens no desemprego…TOTAL ou seja passam-se meses e anos sem encontrar emprego para as habilitações profissionais e também para biscates;

6. a opção é simples: ficar ou partir.

7. ficar significa perder o sentido de rasgar horizontes e de realizar sonhos de vidas preenchidas, com altos e baixos pois não não há paraísos, mas chegar a uma velhice futura com hipóteses de sobrevivência digna em todos os sentidos, físico, material e espiritual…a chamada plenitude.

8. partir, (com reflexão e precauções) não trocando o parco certo pelo incerto, mas quand-même PARTIR, ter a coragem de decidir OUSAR começar é ver a vida acontecer.

9. Há vários destinos para todos os gostos que eu conheço bem, “atesto e certifico pela minha honra” valer a pena : a China, a Índia, o Japão, o Brasil, os EUA, Canadá, Suécia, Dinamarca, Holanda, talvez Angola ou Moçambique, entre outros, aonde

SÓ COM:

- vontade de trabalhar muito, mesmo à séria, mas com compensações de retorno de todo o tipo

- parceiros locais sérios e profissionais

- naturalmente, com competência naquilo que sabemos fazer

- espírito aventureiro e de risco como o dos nossos antepassados

- humildade e abertura de espírito a outras culturas e com a certeza de que nos deveremos considerar “hóspedes” de quem nos acolhe, sem arrogâncias

PODEREMOS VENCER.

Finalmente, a alternativa de ficar e lutar seja nos empregos actuais ( na Função Pública ou na iniciativa privada) seja na política…a resposta pura, dura e fria esteja no poder quem estiver, é a INCONTORNÀVEL falta de meios que afligirá Portugal durante as próximas décadas. No way!

A Função Pública no meio disto tudo é um conjunto de cidadãos portugueses como os da iniciativa privada aonde há excelentes técnicos, honestos, competentes e merecedores de toda a nossa admiração e respeito mas também aonde há calaças, corruptos, conversadores de meia-tigela sobre telenovelas, destreinados, tal como em todos os países e em todos os segmentos da sociedade.

Por isso as minhas palavras só podem ser de aconselhamento “along the lines above”.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Foi ao quinto telefonema


Certa noite não consegui pregar olho. No entanto, a minha insónia não me deixava cair na inutilidade do nada-fazer, e por isso tomei as minhas precauções. Armado com um copo de leite e uma fatia de bolo de chocolate, peguei num lápis, num bloco de papel e no telefone.

Escolhi 9 dígitos ao acaso e liguei para um número. Atenderam-me com uma voz ensonada. Era uma mulher. Eu expliquei que estava "com insónias, e por isso liguei para conversar até me dar o sono, se não se importasse". Ela praguejou em bom português, ameaçou chamar a polícia no caso de eu persistir e desligou o telefone de forma rude e abrupta. Não percebo que mal lhe fiz. No entanto escrevia todos os números no papel. Para mais tarde recordar, caso necessitasse uma vez mais de combater a insónia.

A segunda "vítima" foi um homem. Este atendeu e ouvi música de fundo. Ele informou-me que aquele número era de um bar. "Que tipo de bar?", ao que obtive uma resposta "O tipo de bar que a esta hora está às moscas". Perguntei-lhe se estava muito ocupado, pelo que me deu uma resposta engraçada. "Depende", disse, "Ganhei algum concurso?". Eu respondi negativamente, mas expliquei-lhe a minha situação. Ele retorquiu educadamente, dizendo que lhe acontecia frequentemente e que sim, é verdade, era algo muito chato para acontecer a alguém. Ele perguntou-me se eu já tinha contado carneiros, pelo que respondi que sim e que, aliás, já os tinha mandado saltar a cerca novamente e desta vez abati-os. Ele proferiu um "hmm, pois" em aprovação. Perguntou-me se eu já tinha ido ver qualquer coisa desinteressante na televisão, mas eu já tinha tentado isso noutra ocasião, mas sem efeito. Perguntou-me também se eu já tinha tomado comprimidos para me ajudar, mas eu também não queria essas coisas. Ele deu-me bastantes sugestões: marijuana, chás, bater fortemente com a cabeça na parede até perder os sentidos, apanhar uma grande bebedeira à moda antiga, ir acordar e seduzir uma vizinha qualquer, entre muitas outras coisas. Nenhuma me convenceu. Perguntei-lhe "o que é que costuma fazer quando tem insónias?". A resposta dele foi inesperada: "Vou ao Multibanco, levanto uns euros e depois vou às meninas". Resultava sempre, dizia ele. No entanto, eu não conhecia nenhuma casa de alterne por perto e, mesmo que conhecesse, já não estava para ir vestir-me para sair, ainda para mais levantar dinheiro àquelas horas da noite. Não obstante, agradeci-lhe o tempo e a ajuda, despedindo-me cordialmente e pousando o auscultador.

Ao terceiro telefonema, surpreendi uma mulher. Ela pensou por instantes que eu era o marido que finalmente descobrira que ela de facto tinha um amante, que era o melhor amigo (cujo número eu acabara de marcar). Ela suspirou de alívio, e eu resumi, uma vez mais, o meu problema. Ela e o amante (o melhor amigo do marido) tiveram a ideia de ter sexo enquanto eu ouvia, desde que eu não me importasse de pagar vários minutos de chamada até me fartar. Eu lembro-me de pensar, na altura, que quanto muito ainda acabava era mais desperto e meio excitado. Não obstante, acedi, pois estava disposto a tudo, mas não tive muita sorte. Eles não fizeram barulho nenhum, só ouvi o que parecia ser a cama a ranger e uns gemidos ocasionais. Ainda por cima demoraram menos de cinco minutos, pelo que ela veio ao telefone e inquiriu "está lá?". "Sim, minha senhora, ainda estou aqui...já acabaram?". "Já sim", diz-me ela, "então não adormeceu?". "Não, acho que este seu plano não foi o melhor". Desejei-lhe boa sorte para a sua relação adúltera (pois se uma alma tão simpática traía o marido era porque ele é que era o canalha, certamente) e desliguei.

Foi no quarto telefonema que, sem querer, liguei para um atendedor de chamadas. "Ligou para casa do Fernando e da Maria. De momento não podemos atender, pelo que agradecemos se deixar a sua mensagem após o beep." (BEEP!) Acontece que desde há uns minutos que eu me lembrara de ir reler um livro qualquer, pelo que disquei novamente o número deste casal e comecei a ler o primeiro capítulo de "Guerra e Paz". No entanto, não adormeci. Desliguei a meio do segundo capítulo, pois não estava a ter sucesso nenhum. Aquele casal, contudo, ficou com uma bela dose de boa literatura para escutar no dia seguinte.

Quando me preparava para escolher aleatoriamente outro número, eis que surge em meu redor uma melga. Aquele barulho do seu motor biológico irritava-me e ainda perdi uns dez minutos até a matar. Aparecia e desaparecia na semi-escuridão do quarto como o próprio Diabo. A minha fúria e desprezo pelo insecto apenas serviram para que ficasse mais desperto. Raios partam as melgas, rogar-lhes-ei pragas até morrer.

Foi o quinto telefonema que me fez dormir. Liguei um número que já não estava atribuído, pelo que adormeci a ouvir a voz da mulher da gravação. Foi fantástico, e fiquei bastante feliz por ver, na manhã seguinte, que tinha habilmente registado o número desta nova pessoa que já não existia no meu mundo, mas que me deixara um presente de valor incalculável para as minhas noites de insónia.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

todos temos um preço!




Muitos discordam quando se diz que “todos os seres humanos têm o seu preço”... Eu defendo a teoria de que, claro, todos temos um preço!

Definir premissas que servirão como base para as escolhas que teremos que fazer é o nosso preço, é o nosso valor pessoal, é o que estaremos dispostos a ceder em cada situação.

Nem sempre concordarão com as nossas escolhas e decisões, mas isso não significa que estejamos certos ou errados, significa simplesmente que temos um preço diferente dos outros, que somos capazes de fazer maiores ou menores concessões dependendo dos nossos interesses e valores.

Mais importante do que nos atermos à expressão “preço”, é saber a profundidade deste conceito.

Um exemplo que considero muito claro é a oferta de um emprego. Ao recebermos uma oferta para um novo emprego, temos várias questões para analisar: salários, benefícios, cargo, responsabilidades... Mas será que estas questões são realmente as mais importantes para uma tomada de decisão?

E se eu dissesse que não são?

Que é muito mais importante, por exemplo, saber se os valores da empresa ofertante coincidem com os meus valores pessoais, se a actividade que será por mim desenvolvida irá de encontro à minha ética pessoal ou se a minha qualidade de vida será prejudicada ao aceitar este novo desafio...

Questões como estas determinam o meu preço, pois quando partimos para uma negociação de um novo emprego, devemos ter plena consciência de tudo aquilo de que abriremos mão por um salário maior. Devemos pensar muito antes de deixar a ambição tomar conta das nossas decisões, respeitando o nosso preço, o que significa defender os nossos valores, coisa que é muito mais importante do que um aumento salarial.

Não sei se já repararam, mas quanto mais infelizes somos no nosso trabalho (seja por que motivo for), mais temos a certeza de que o nosso salário é baixo. E sabem por quê?

Porque ser feliz custa muito caro...

A “lei da oferta e da procura”, diz que quanto mais procurados somos, mais super valorizados nos sentimos e consequentemente, mais procurados continuaremos a ser. Por quê?

Porque defenderemos a ideia de que valemos muito e isso chamará a atenção das outras pessoas.

Sabem aonde está o erro? Na situação inversa.

Se não estivermos a ser procurados, não nos devemos desvalorizar, devemos antes investir no nosso preço, devemos fazer-nos mais valorizados, notados e principalmente, procurados.

Não importa, na realidade, quantas vezes somos procurados, mas sim o que sabemos que valemos.

Desta forma, todos estarão dispostos a pagar o nosso preço... Sempre!

E então? Qual é o teu preço?

“Na nossa vida, não importa quanto tempo é possível mantermo-nos vivos, mas sim o quanto tempo conseguimos permanecer humanos”

George Orwell

domingo, 16 de janeiro de 2011

vou calar-me durante uns tempos


Já me fiz a pergunta várias vezes: porque escrevo num blogue?

E acho que já sei o porquê...

Para escrever sobre banalidades, graçolas quando não tenho alguém com quem conversar; para deitar para fora o stress de cada dia; para reunir coisitas interessantes (pelo menos para mim) que encontro por aí; para compartilhar ideias, opiniões, dicas, livros, filmes... Para esvaziar a cabeça quando ela fervilha... Enfim, um blogue serve para muita coisa...

Aprendi a sorrir às pessoas que não gostam de mim, para mostrar-lhes que sou diferente do que elas pensam.

Fazer de conta que tudo está bem quando isso não é verdade, e para que eu possa acreditar que tudo vai mudar e a não temer o futuro.

E como o tempo passa...com cerca de 400 leitores diários, já faz um ano de blogue!!!

Por isso vou calar-me durante uns tempos para ouvir, aprender que afinal posso ser sempre melhor e também para vosso sossego.

Obrigado pela vossa constante paciência e estímulo.

Até lá!

Vicente Mais ou Menos de Souza/Pu-Jie

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Nunca diga te amo se não te interessa


Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.

Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.

A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.

Mário Quintana

As sem-razões do amor




Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

An elderly Chinese woman had two large pots


An elderly Chinese woman had two large pots, each hung on the ends of a pole which she carried across her neck.

One of the pots had a crack in it while the other pot was perfect and always delivered a full portion of water.

At the end of the long walks from the stream to the house, the cracked pot arrived only half full.

For a full two years this went on daily, with the woman bringing home only one and a half pots of water.

Of course, the perfect pot was proud of its accomplishments.

But the poor cracked pot was ashamed of its own imperfection, and miserable that it could only do half of what it had been made to do.

After two years of what it perceived to be bitter failure, it spoke to the woman one day by the stream.

'I am ashamed of myself, because this crack in my side causes water to leak out all the way back to your house.'

The old woman smiled, 'Did you notice that there are flowers on your side of the path, but not on the other pot's side?'

That's because I have always known about your flaw, so I planted flower seeds on your side of the path, and every day while we walk back, you water them.'

For two years I have been able to pick these beautiful flowers to decorate the table.

Without you being just the way you are, there would not be this beauty to grace the house.'

Each of us has our own unique flaw. But it's the cracks and flaws we each have that make our lives together so very interesting and rewarding.

MARIDO RICO


Saiu numa edição do Financial Times

Uma jovem mulher enviou um e-mail para o jornal a pedir dicas sobre "como arranjar um marido rico". Contudo, mais inacreditável que o "pedido" da rapariga, foi a resposta do editor do jornal que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada.

E-mail da rapariga:

"Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Quero casar-me com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano. Há algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas? Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não me vão permitir morar em Central Park West. Conheço uma mulher (do meu grupo de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente. Então, o que é que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correcta? Como chego ao nível dela?"

(Raphaella S.)

____________________

Resposta do editor do jornal:


"Li a sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou a tomar o seu tempo à toa...

Posto isto, considero os factos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que procura), o que oferece é simplesmente um péssimo negócio.

Eis o porquê: deixando o convencionalismo de lado, o que sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas: Você entra com a beleza física e eu entro com o dinheiro.

Mas há um problema.

Com toda a certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará a aumentar.

Assim, em termos económicos, você é um activo que sofre depreciação e eu sou um activo que rende dividendos. Você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre a aumentar!

Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando se comparar com uma fotografia de hoje, verá que se transformou num caco.

Isto é, hoje você está em 'alta', na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.

Usando a terminologia de Wall Street, quem a tiver hoje deve mantê-la como 'trading position' (posição para comercializar) e não como 'buy and hold' (comprar e manter), que é para o que você se oferece...

Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um 'buy and hold') consigo não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim!

Assim, em termos sociais, um negócio razoável a ponderar é, namorar.

Sem ponderar... Mas, já a ponderar e, para me certificar do quão 'articulada, com classe e maravilhosamente linda' você é, eu, na condição de provável futuro locatário dessa "máquina", quero tão-somente o que é de praxe: fazer um 'test drive' antes de fechar o negócio... podemos marcar?"

(Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA)

sábado, 8 de janeiro de 2011

quem quase vive já morreu!!!


Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez, é a desilusão de um "quase". É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que se escaparam pelos dedos, nas oportunidades que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no Outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.

Sobra cobardia e falta coragem até para se ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Para os erros há perdão; para os fracassos, oportunidades; para os amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixes que a saudade te sufoque, que a rotina te acomode, que o medo te impeça de tentar.

Desconfia do destino e acredita em ti. Gasta mais horas fazendo do que sonhando, vivendo do que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu!!!

Sara Batista

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Falas de civilização...


Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro

Às vezes, podes sentir-te deprimido com a tua vida


Meu Caro Vicente,

Às vezes, podes sentir-te deprimido com a tua vida. As coisas podem correr mal e não serem como o esperado.

Embora possa haver outras causas para este tipo de situação, penso que um dos principais motivos disso acontecer são expectativas não-realistas.

Podem surgir de ti mesmo ou de outras pessoas, e as expectativas não-realistas fazem com que o teu subconsciente suba e desça, como numa montanha russa. Quando tens sucesso, ficas muito feliz e entusiasmado. Mas quando não o tens, podes sentir-te muito desanimado.

Precisas de evitar este estado de alma. Aqui te deixo algumas dicas sobre como fazê-lo de modo a que possas reduzir o stress e seres mais feliz na tua vida:

1. Deves concentrar-te nas acções e não nos resultados

Se te concentrares só em resultados é uma maneira de experimentares altos e baixos emocionais. Pior ainda, não há muito que possas fazer, já que não os podes controlar. Por isso centra-te em algo que possas controlar e isso são certamente as tuas acções.

2. Diverte-te! Não leves as coisas muito a sério

Às vezes levas as coisas muito a sério a ponto de ficares obcecado. Não faças isso, antes faz tudo o que achares divertido. Divertindo-te, vais certamente ter menos stress, e o teu dia-a-dia vai ser mais agradável. Uma maneira de fazer isto é procurares prazeres escondidos em tudo o que fizeres.

3. Não te compares com as outras pessoas

Deves olhar para o que os outros fazem, apenas para receberes comentários de como podes fazer as coisas melhor. Além disso, comparares-te com os outros, vai provocar duas coisas:

1. Sentires-te diminuído, se fores pior do que eles.
2. Impulsionar o teu ego, se fores melhor do que eles. Mas isto só fará com que o próximo fracasso seja mais doloroso.

Assim, aprende alguma coisa com os outros, define as metas, e refina as tuas acções.

4. Concentra-te em ser como és, em vez de tentares que todos te apreciem

Uma razão pela qual te podes sentir em baixo é estares muito preocupado sobre o que os outros dizem sobre ti. Podes perder demasiado tempo tentando satisfazer as expectativas de toda a gente. Cultiva as tuas paixões e faz aquilo que realmente é importante para ti.

5. Torna-te amigo do insucesso

O insucesso é normal na vida de uma pessoa bem sucedida.

Quanto mais falhas, é bem provável que venhas a ser mais bem sucedido. Faz do teu fracasso um “amigo”.

6. Olha de vez em quando para trás, e não sempre em frente

Veres como estás distante dos teus objectivos pode deixar-te em baixo, em especial, se estás sempre a pensar neles. Portanto, é necessário que também olhes para trás e vejas quanto já progrediste. Que realizações alcançaste. Quais as tuas histórias de sucesso. Relembrar tudo isto vai fazer com que te sintas bem com a tua posição actual na vida.

7. Cultiva o teu entusiasmo

O entusiasmo deixa-te animado com a vida e dá-te energia para fazeres sempre o teu melhor.

Na verdade, a capacidade de manter o entusiasmo apesar das falhas e dificuldades é um traço essencial das pessoas de sucesso.

O sucesso é a capacidade de passar de uma falha para outra sem perca de entusiasmo.

Com um abraço amigo

Manuel

domingo, 2 de janeiro de 2011

Saber sair a tempo



Saber sair a tempo

Uma das coisas que aprendi com pessoas de grande sabedoria é saber sair de cena, deixar o palco, mudar de assunto.

Saber o momento exacto em fazer com que os holofotes fiquem sobre os outros e não sobre nós.

No mundo competitivo em que vivemos a nossa presença “marcante” pode marcar demasiado. A nossa ideia “brilhante” pode brilhar demais. A forma “inovadora” de pensar pode inovar demais. E nem sempre as pessoas estão dispostas a deixar-nos brilhar impunemente. É preciso sair de cena. Nem que seja por algum tempo.

É preciso fazer os outros pensarem que desistimos. É preciso criar a impressão de que não queremos estar mais tempo no palco. Mas saber sair de cena é uma arte tão importante como a de saber entrar em cena. Todos os actores o sabem.

Por isso é preciso sair de cena com classe. É preciso sair de cena com a discrição de um “lord” inglês.

Quando as pessoas se sentem ameaçadas por nós e começam a ter respostas agressivas desproporcionadas, talvez seja o momento de sair de cena. Quando nós, sem termos desejado ou planeado, começarmos a aparecer muito na nossa área de actuação ou no nosso sector profissional, talvez seja o momento de sair de cena por algum tempo.

Saber sair de cena é também saber mudar de assunto.

Os astutos sabem que nada ganhamos ao falarmos de nós próprios. Nem bem, nem mal. Devemos mudar de assunto. Sair de cena.

Não devemos cair nessa armadilha. Quando o embate for com poderosos e conhecermos antecipadamente o poder destrutivo desses poderosos, devemos pensar bem antes de entrar em combate. Talvez ganhemos mais saindo de cena.

Devemos deixar a luta entre mastins para grandes cães. Saibamos sair de cena. Teremos outras oportunidades. Ganharemos outras batalhas com menos desgaste, com menos esforços.

É preciso fazer um grande esforço de sabedoria para saber quando sair de cena.

É preciso ter uma grande capacidade intelectual para saber como sair de cena.

Será que temos tido a sabedoria e a arte de sair de cena, deixar o palco, mudar de assunto, no momento certo?

Pense nisto: o momento de falarmos vem sempre depois do momento de ouvirmos.

sábado, 1 de janeiro de 2011

lista de desejos para o Novo Ano



Faz uma lista de grandes amigos, dos que não vês há mais de dez anos, daqueles que encontras quase todos os dias e os que já não encontras mais…

Faz uma lista dos sonhos que tinhas e dos que desististe de sonhar!
Quantos amores juraste para sempre e quantos conseguiste manter…

Em que te reconheces ainda, numa fotografia antiga ou no espelho de agora?
És o que achastes que serias? Quantos amigos perdeste?

Dos mistérios que sondavas, quantos conseguiste perceber?
Dos segredos que guardaste, quantos são hoje inúteis e ninguém quer saber?

Quantas mentiras criticaste? Quantas cometeste?
Quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em ti?

Quantas foram as canções que não cantaste e que hoje assobias para sobreviver?
Quantas foram as pessoas de quem gostavas e que hoje ainda acreditas que te amam?

Bom ano de 2011

Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Drummond eternizado em Copacabana


E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
……………………………….

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efémero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fracção de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
força o resgata

é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
passageiras as obras.

Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
mar profundo.

Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
afundamos.

É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.

O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

MINI Countryman TV Commercial: Flow

Há Momentos


Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.

Clarice Lispector

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O mais espantoso nos velhos


O MAIS ESPANTOSO NOS VELHOS É A SUA FALTA DE PRESSA, COMO SE ELES DISPUSESSEM DE TODO O TEMPO QUE TERIAM OS NOVOS SE NÃO TIVESSEM TANTA PRESSA.

Mário Quintana

explicação da eternidade


devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

domingo, 19 de dezembro de 2010

NATAL


Natal significa nascimento. Não de uma pessoa comum. Todos sabemos. O Natal foi criado para se comemorar o nascimento de Jesus.

E daí? Ora, Jesus significa para os cristãos, salvação. Salvação? Salvar de quê? Por que razão? Para quê? Qual é o sentido deste nascimento? Será que Natal é isto que vivemos todos os anos? Será que é suficiente entrar num clima natalício para sermos todos “abençoados”?

Reconheço a insegurança e a transitoriedade desta vida. Neste período recebemos muitas mensagens de paz, de amor, de prosperidade, muitos “fluidos” positivos. Há uma atmosfera fraterna e religiosa no ar.

As pessoas enlevam-se com músicas familiares de Natal; músicas que nos embalam desde crianças, luzes a piscar, as ruas agitadas com gente em busca de um presente ou presentes para pessoas amadas, os preparativos da ceia de Natal; um lauto jantar – claro, para aqueles que podem! – tudo isto mostra-nos uma participativa confraternização.

O que importa é a atmosfera de festa, de alegria, pois é Natal. Quem quer parar para reflectir sobre o verdadeiro sentido do Natal? O que importa é o que sentimos, não o sentido real!

E desta forma o verdadeiro sentido do Natal esvai-se, e restam-nos apenas ilusões de uma sociedade de consumo misturada com o sentimentalismo das boas ideologias humanistas – “faça o seu Natal com os pobres”.

Isto sem falar de alguns (des)orientadores religiosos, os quais se auto-apascentam ao contrário de apascentarem as “ovelhas de Cristo”.

Não é à toa que a figura do Pai Natal e todo o clima comercial natalício a muitos encanta! As luzes deste Natal são uma felicidade artificial provocada por um alucinogénio mentiroso, cujo clima é uma nuvem espessa de ignorância.

Deus não deve estar nada interessado numa humanidade sentimentalista, cheia de “ boas intenções” em períodos natalícios, quando essa mesma humanidade passa o ano inteiro “a puxar o tapete” ao próximo, mentindo, enganando, esbanjando ridículas vaidades, cometendo injustiças e torpezas, inchada de arrogância, discriminando, constrangendo moralmente, envolvida em intrigas e calúnias, disputas desonestas, traindo, ameaçando, sendo revanchista, impiedosa e hipócrita.

E ao aproximar-se a atmosfera natalícia, beijamo-nos, abraçamo-nos e confraternizamos fingindo amizade e amor.

Os meus votos, para si caro leitor paciente e amigo do meu blogue, é que possa dar sentido às palavras tão rotineiras, como: PAZ, UNIÃO, AMOR E PROSPERIDADE.

Um ouriço a dilatar-se


O livro de António Lobo Antunes é um diário. Reportado ao ano de 2007. Parei no dia 25 de Março. É dia em que faço anos. Não me lembro onde estava nesse dia ou com quem. Nem se festejei ou festejaram o dia dos meus anos. Fiz contas para ter a certeza de quantos anos eram e estou incerto quanto a ter-me enganado na subtracção.

Compreendo-a, por isso, hoje, a essa escrita, implosão de um ser de que escorrem, viscosos como uma dor nojenta, as vísceras pelas paredes do presente, literárias mas tripas sempre e seus conteúdos sulfídricos, dejectos de memória como uma compota escorrente mais o coração a latejar e um mundo feio quando cerebral vazio de pensamento, e uma ânsia furiosa de beleza e formas boleadas, femininas e reconfortantes quando desinquietam, e sempre o eternizável momento de um fundo olhar vindo do desejo, «aulas tão compridas, dias tão compridos, noites eternas» e a madrugada da desolação solitária.

Leio-o agora em 2010, e 2010 acaba breve, e ele escreveu tudo isso ainda este ano, e editaram-no, rápidos porque há pouco tempo, o tempo foge e ele luta contra o desaparecimento seu e nosso e lêem-no menos, eu próprio leio-o agora por piedade para com os meus remorsos de o ter desprezado, mas não há outra escrita possível porque não há outra vida, fragmentária, «a pele das mulheres tão suave e o consentimento, a avidez».

É domingo. Vou levar tempo a ler-te António Lobo Antunes e a este teu livro e escreverás outro, sempre o último até um dia em que acertarás para fortuna de todos os críticos e os memorialistas e os que purgam os maus instintos e as azias do desprezo para com todos os outros comemorando, olha outra dia foi o Carlos Pinto Coelho e o Herman José a dizer que teve uma morte digna porque foi de repente e ninguém riu.

António Rebelo da Silva

sábado, 18 de dezembro de 2010

tau-tau



O caos e a desordem, a organização e o método, a sedução e a repelência, a vontade de deitar a mão e as ganas de fugir a sete pés, o mundo diverso mesmo quando perverso e o seu reverso! Fanfarras e fanfarrões, figurinhas e mulherões.

Os chineses têm um provérbio interessante que diz «nunca feches uma porta pela qual gostarias de entrar e nunca deixes aberta uma porta pela qual não gostarias que alguém entrasse». Mais do que sabedoria é a vida numa frase.

Uma pessoa chega à janela e vê que está a chover. Olha para o termómetro da rua e reza nove graus. Anoiteceu. Só resta fechar os olhos com força e forçar-se a imaginar. Aquecer-se por dentro e atirar-se de cabeça!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A dor do desemprego


Emprego e desemprego não são só estados sociais.

É verdade que o emprego (em especial alguns empregos) dá estatuto social, mas também permite o desenvolvimento pessoal e a realização profissional.

O indivíduo sente-se integrado num processo de desenvolvimento social para o qual contribui com o seu trabalho.

O trabalho é remunerado e, por conseguinte, ter emprego é ter a possibilidade de adquirir meios para a sobrevivência, diversão, cultura e outras manifestações tão importantes ao equilíbrio do ser humano.

Se o emprego proporciona tudo isto, o desemprego rouba-o, muitas vezes de forma cruel.

Na hora de reduzir aos “custos com o pessoal”, a notícia: “- Lamentamos, gostamos muito de si, foi sempre um funcionário exemplar, mas a empresa necessita de reduzir custos...”, dói, dilacera.

O ter sido dispensado de uma actividade, não contarem com os seus préstimos, provoca em cada indivíduo uma sensação dolorosa e a maior parte das vezes associada a um sentimento de injustiça.

Para quê tanto esforço?! Horas extraordinárias sem remuneração?! Apenas e só o sentido do dever a ditar horas de permanência para além do horário!

A família que, a bem do trabalho, conformada com a ausência, aceitando que as férias sejam reduzidas a duas semanas, poderá não compreender o despedimento!

Angústias sentidas que, a certeza de tudo ter feito para ser um empregado exemplar não acalmam, pelo contrário, são dores difíceis de conter. Não dói a consciência mas dói a alma.

E aos poucos, a dor cede o lugar ao desalento. Instala-se a dúvida e põem-se em causa capacidades.

Triste com o presente e assustado com o futuro, o indivíduo inicia processos de autodestruição podendo acabar, em alguns casos, no suicídio.

O assalto e roubo do meu relógio e a paciência de Job


Job é o exemplo de como se pode passar dos 80 aos 8. De como é fácil, num sopro, perdermos tudo, perdermo-nos, ser-nos tirado o que nos foi dado.

Job personifica a dificuldade que temos em lidar com o que de mau nos aparece. De como nos é fácil dizer que quando alcançamos o bem, o alcançamos sozinhos, e de como quando o perdemos, pensamos que o perdemos por causa de outros.

A paciência, por outro lado, é o saber esperar pelo que de bom há-de vir. O saber que o mal não é eterno, mas parte do processo.

Job passou dos 80 aos 8 e aos 80 novamente. É por isso que dizemos que é preciso «ter paciência de Job». Porque, mais tarde ou mais cedo, algo de bom acontece. Porque não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Porque «a vida não passa de um sopro».

Job tomou a palavra, dizendo:

«Não vive o homem sobre a terra como um soldado?
Não são os seus dias como os de um mercenário?
Como o escravo que suspira pela sombra
e o trabalhador que espera pelo seu salário,
assim eu recebi em herança meses de desilusão
e couberam-me em sorte noites de amargura.
Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’
Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’
e agito-me angustiado até ao crepúsculo.
Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear
e desvanecem-se sem esperança.
Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro
e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade».

Se apanho o ladrão do meu Frank Muller, não há cá paciência de Job!

O caraças é o que é!

domingo, 28 de novembro de 2010

Metade


Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Oswaldo Montenegro

sábado, 27 de novembro de 2010

Eu, em dia cinzento...não me apetece nada!


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Da mãe de todas as greves e dos brandos costumes mais graves


A cabeça perdida virá leve, levemente, como quem chama por nós, mas orgânica e institucional não será certamente, e as revoltas não estalam assim.

Virá por uma coisa adjacente, talvez fútil. Dois marmanjos que perdem a cabeça numa fila. Uma alínea camuflada de um Decreto que pinga no copo cheio e acende o rastilho para um buzinão no Norte, outro no All Garb, dois tiros no Sabugal com uma criança ferida, uma barragem de tractores no Ribatejo.

A Res púbica, alguns da Res púbica, foram acumulando equipamento e preparando uns pretorianos, dois blindados aqui, um corpo de intervenção acolá, e não resistirão á lógica de apagar os focos logo à nascença.

Ao contrário dos intelectuais não subestimo a mão pesada da camorra, nem das reencarnações da carbonária, sempre, sempre a proteger o povo em nome da ética publicana

Uma parte dos média, que estão mortinhos por abandonar o cadáver e passarem-se - com microfones e câmaras – do emergente eixo do mal, para qualquer amanhã que possa cantar e refazer virgindades, farão o seu trabalho incendiário e irresponsável. São como os "meninos do Huambo", precisam de saber o que custa uma bandeira.

A Res púbica , como é tradicional, não poderá contar com os pretorianos, e o equipamento não serve para Marias da Fonte.

Tudo isto existe, e nem sequer é triste num futuro inevitável.

Resta saber qual é o ponto de ebulição, o benchmark estatístico do desespero além da qual salta a faísca neste ambiente combustível ao qual todos os dias se acrescentam zilhões de comburentes.

Dom Carlos de Bragança sabia, e disse-o, que era um País de bananas governado por sacanas. Não estava inteiramente certo e morreu por isso.

Estes sacanas já sabem que todos os dias perdem bananas. Mas prosseguem imperturbavelmente a pilhagem e a fuga em frente, confiados no guarda chuva da grande coligação internacional dos Smith & Wesson. Mas o guarda chuva não chegará para todos, em todos os lugares, ao mesmo tempo. Será o cada um por si. Como já é, mas a outro nível.

Não sei nada dos gastos em hemoglobina e dos iracundos furibundos a caçarem à mão os neo-fascistas bandoleiros escondidos debaixo de camas ou em trânsito para as Venezuelangolas (O Brasil já foi). Normalmente somos poupados no que respeita a esses líquidos orgânicos.

Podíamos bem ter sido nós os inventores dessa arte marcial que é o : - Agarrem-me senão mato-o!

MLM

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Portugal


Indignar-se só não basta!

Já pouco ou quase nada que no peito cala
nesta onda que arrasta, imobiliza e abala
os pilares da "falsa" moral que fala
de mente descarada, perante a nação

tanta gente privada mete a mão na coisa pública
saqueiam os bens de quem quase nada tem
destroem os valores do povo que emprego suplica
mantêm a política imoral e humilhante

cestas, bolsas, telhas, migalhas e outros favores
como se bestas fossem seres humanos aos milhares
apenas lembrados em sazonais períodos eleitorais,
roubalheira nos meandros de poder nacionais

e, ainda têm a cara de pau de dizer convencidos
que o poder emana do povo
e que em seu nome será exercido,
mas, sugam as tetas com tentáculos de polvo

Ó gente, de vielas, cidades e aldeias
- Que mais penas, ó nação Portugal ainda temos que pagar?
- Quanto tempo ainda haverá para se libertar?

De tanta gente impune que nos explora, saqueia.
Pratica há séculos a especulação, sangria.
Empurram o povo para uma vida de pobreza

Das iniqüidades acaso és Mãe gentil?

Corrupção histórica a corroer o frágil tecido social,
engendram tácita e imposta aceitação de métodos,
amparam colarinhos brancos e com projecção social,
Condenam à morte em lenta agonia os excluídos,

Aqueles que só representam números (ou votos)
nas estatísticas, nas camas dos hospitais,
nas filas dos desempregados, sem tectos,
excluídos do PIB, mas números, pois são eleitores.

Num modelo de uma “farsa”, falsa democracia,
de um desgoverno, de promessa em promessa,
vazia de uma minoria que fala em nome de uma massa,
na premissa de passiva, indolente, amorfa.
(afinal tudo se repete, mudam os actores, mas a peça é a mesma no arena da política)

Vagando qual zumbi nos comboios lotados da vida,
na imoralidade da informalidade forçada,
na carência absoluta de meios de sobrevivência
e ainda assim de uma gente que luta e que anseia.

Por mudanças, em quotidiana luta aguerrida,
com o seu suor mantém este país, essa sim brava gente portuguesa.

António Araújo

domingo, 21 de novembro de 2010

Tudo aquilo que é realmente nosso nunca se vai para sempre


Os ventos que às vezes tiram algo que amamos,
São os mesmos que nos trazem algo que aprendemos a amar ...

Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado
e sim, aprender a amar o que nos foi dado ...

Tudo aquilo que é realmente nosso nunca se vai para sempre !

O outro EU


Para Nietzsche, tudo é máscara, tudo é representação e, assim sendo, até mesmo aquilo que alguns definem como sendo “essência” nada mais é do que uma máscara, como qualquer outra.

Isto é fácil de verificar, na medida em que o tempo passa e aquilo que defino como “real” em mim mesmo, muda. O Manel de 1980 não é o mesmo Manel de 2010, em quase nenhum sentido, nem mesmo fisicamente falando. Estes dois Manel só são os mesmos na medida em que eu confirmo ter sido aquele de 1980.

Alguns argumentam que há uma “qualidade essencial” que permanece. Particularmente, já acreditei nisso, mas estou inclinado a duvidar. Quando pergunto que qualidade é essa que permanece, os sustentadores da ideia da essência não sabem definir ou usam termos de significado amplo, tais como “espírito”, “alma”, etc. Pois bem, se a essência é indizível, então ela não-é, na medida em que tudo o que é humano é interpretável.

Desde que me considero gente, irritam-me os despertadores. Se porventura acordo com o barulho de um despertador, fico logo mal disposto. Entretanto, percebi que quanto mais chato era para mim o som de um determinado despertador, maior era a minha tendência para acordar espontaneamente cerca de dois minutos antes de ele soar. Ao que parece, uma parte de mim resolve poupar-me ao incómodo de ouvir aquele som desagradável, acordando-me antes do barulho se produzir.

Durante muito tempo, diverti-me imenso com este fenómeno sem encontrar uma explicação plausível para ele.

Chamava-me a atenção o facto de que, apesar de existir um EU que precisa de dormir e que usa um instrumento para o acordar numa hora certa, um EU que precisa de um relógio para saber a passagem do tempo, havia também um OUTRO EU que aparentemente nunca dormia, e mais do que isso um OUTRO EU capaz de contar os segundos e os minutos, para realizar um trabalho: acordar-me cerca de dois minutos antes do despertador soar.

Este OUTRO EU que nunca dorme assustava-me pela exactidão com que actuava e pelos poderes que demonstrava.

Pode-se assim achar que o EU não relaxa e dorme superficialmente, angustiado com a expectativa do toque do despertador.

Mas não é o que efectivamente se passa. O sono daquilo que defino como sendo o EU, é profundo e reparador, e quanto mais profundo for o sono [ou distracção] deste EU, maiores as hipóteses do OUTRO EU actuar com impecável exactidão.

Obviamente, esta é uma experiência pessoal. Não estou aqui a dizer que o inconsciente de toda gente elimine a necessidade de despertadores. Contudo, o inconsciente é não apenas existente, mas, sob diversos aspectos, muito mais “consciente” do que aquilo a que chamo de EU.

No entanto o inconsciente não é a parte mais profunda do EU. O inconsciente é o OUTRO EU. E mais: ele não pode ser “mais profundo”, pois está sempre à superfície. Este OUTRO EU manifesta-se em palavras que nos escapam, em actos falhados.

O inconsciente está sempre à superfície.