quinta-feira, 18 de abril de 2013

A dor calada por Luis Osório

 
A dor calada ensurdece os ouvidos. Mais do que as lágrimas ruidosas ou os gritos de raiva, mais do que qualquer revolta que possa nascer com palavras, ela fere de morte os que a sofrem. Ninguém à volta a ouve, é como se não existisse, uma dor muda que fala para dentro, entorpece, esmaga com um alfabeto de letras impossíveis de serem entendidas. São as que ficam. Ao contrário das outras, que se resolvem com a paz dos problemas, não terminam quando tudo parece estar bem. São amigas fiéis. Dores mudas… para os outros.

Luís Osório

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Carta ao meu primo Luis Bernardo - ideias primaveris - o casamento



Meu Caro Luís Bernardo,

Hoje está um dia lindo e apesar dos problemas que nos afligem e de que não sabemos como nos iremos safar, apeteceu-me falar-te do tema do casamento.

Quando nos preparamos para a ideia de casar, para além de um vínculo jurídico seja ele canónico ou civil que se venha a contrair e mais recentemente com as uniões de facto que são as antigas palavras de futuro trocadas no auge de um arrebatamento, traduzido depois numa convivência continuada sem algum “papel”, há uma “affectio” (afeição) inicial que justifica a selecção do parceiro ou parceira.

Trata-se das primícias das mais puras emoções , daquelas que inspiraram poetas, escritores, pintores, escultores, trata-se de algo muito etéreo, sonhador, leve e ao mesmo tempo intenso, porque é a antecâmara da paixão, que por definição é febril, violenta, desregulada, cega e consoladora.

E quando ao pensar no ser amado/a o coração é invadido por uma doce sensação de bem-estar, de melancolia, de sonho de uma vida a dois em que tudo parece sorrir, fundam-se consistentes esperanças de se ser eternamente feliz. 

Estas são considerações românticas, mas no fundo de cada um de nós nesses momentos estes são ou foram os pensamentos que ocorreram, consoante a sensibilidade e poder descritivo de cada um. 

Ninguém pensa que bom que vai ser repartir boas sessões de iPad com a Sandrinha, ou ver “Kung-fus” com o Hélder, enterrados num sofá em casa durante horas….ou antecipar grandes “empazinadelas” na tasca da esquina com “jolas”….isto tudo vem depois, quando, parece-me, se instala a rotina, o perder da novidade, um futuro que de alguma etérea ilusão, faz cair os casais, na realidade pura e dura da vida difícil para o amor no dia-a-dia.

Na constância do matrimónio (como se diz em direito canónico  - fui Juiz do tribunal da Rota de Lisboa durante alguns anos – anulações de casamentos católicos), importa mais vigiar em como se protege o amor.

Muitas vezes deixamo-nos invadir pelo egoísmo, pela embirração e pouca paciência para os defeitos do outro, e tantas outras coisas que sabemos destroem a relação, moem por dentro, fazem ranger os dentes, entrombam de modo a que cada um se vire na cama para o outro lado e adormeça em silêncio sem dar as boas-noites – e talvez, se de tempos a tempos, viessem à memória, estimulada por pequenos truques, os sentimentos e emoções de bem-estar e de esperança que presidiram à decisão de “juntar os trapinhos” seja ou fosse até de que maneira o tenha sido, como tudo poderia, quiçá, ser melhor! 

Inspirei-me hoje, na candura desta tela que reproduzo acima, quase que adivinhando que na tranquilidade e gesto da noiva ao pegar na pena leve para assinar o seu compromisso, estaria igualmente dentro de si um desejo de “assegurar” num contrato, uns anos de felicidade.

Fantasias de uma tarde gloriosa de sol e de luz!

Um abraço amigo do teu primo muito afeiçoado

Manuel

Desemprego

O desemprego não é apenas a falta de um trabalho. Não é apenas a ausência de ocupação, a lentidão dos minutos, a ditadura das memórias, o olhar complacente dos outros, a falta de dinheiro, o sentimento de humilhação, a ideia de um não sentido para as vidas. Não é apenas cada uma dessas coisas, mas a soma delas e de todas as outras que aqui não cabem. O desemprego é o fim dos dias úteis, um Domingo em tamanho XXL, um Domingo onde até o Sol parece ter derretido, um Domingo que não acaba.
Luis Osório

sábado, 13 de abril de 2013

caminhante

Cami­nante son tus huel­los el camino, nada más. Cami­nante no hay camino se hace camino al andar. Al andar se hace camino y a vol­ver la vista atrás se ve la senda que nunca haz de vol­ver a pisar. Cami­nante no hay camino, sino estre­llas en la mar.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Continuação da viagem a Israel com o Príncipe de Sabóia - a Mossad



Já tinha ouvido muita coisa sobre os agentes secretos israelitas, porém a coisa que mais sabia era que, na verdade, não sabia quase nada.

Isto compreende-se quando estamos a falar de um dos serviços secretos mais “famosos” do mundo – entre aspas, já que esta fama se deve justamente ao facto de pouco se saber. Ouve-se dizer muita coisa sobre a CIA, a Interpol ou o MI-6, mas quase nada sobre a Mossad – Instituto para a Inteligência e Operações Especiais.

O Príncipe e eu fomos numa viatura oficial do Hotel Excelsior para o edifício do Museu da Mossad, nesse dia inaugurado.

Esperavam-nos uma série de individualidades, entre elas generais do Exército e da Força Aérea fardados e com o peito constelado de condecorações, alguns políticos e jornalistas, entre eles um muito conhecido de nome URI DAN, de quem fiquei muito amigo e com quem me escrevi até ter morrido. Visitou-me em Portugal com a mulher e ofereceu-me o seu livro sobre a Mossad, autografado.  Era um reconhecido repórter, que colaborou com o New York Post, o Jerusalem Post e com o Ma’ariv. Escreveu vários livros, nomeadamente, “Ariel Sharon : entretiens intimes avec Uri Dan”, “Blood libel: The inside story of General Ariel Sharon's history-making suit against Time magazine”, “Crimes d'état : L'assassinat de Rabin, les attentats”, “Sharon's Bridgehead”, “To the Promised Land”,”Eichmann syndrome” e o referido livro que acima refiro.

Tínhamos chegado a Tel Aviv poucos dias depois dos jornais de todo o mundo noticiarem que os homens da Mossad teriam sido identificados durante uma operação, que deveria ter sido secreta, em Dubai e de que resultou a morte de um dos líderes do Hamas, Mahmoud al-Mabhouh. Como era possível que a tão famosa “agência de inteligência” israelita tivesse cometido uma série de equívocos, deixando pistas sobre a sua acção e colocando em cheque a sua capacidade.

Ficou provado que os agentes secretos usaram passaportes falsos para entrar no Dubai, bem como se deixaram ser filmados ao porem seus disfarces nos lavabos do hotel. Mahmoud al-Mabhouh, principal fornecedor de armas do Hamas, foi morto por envenenamento no seu próprio quarto.

Fomos acompanhados pelo Director do Museu que nos mostrou, naturalmente, aquilo que nos quiseram fazer ver, mas muitas das alas estavam com as legendas em hebreu e apesar da amabilidade do nosso anfitrião em nos traduzir para mau inglês, tornou-se enfadonha a descrição de cada missão e passámos rapidamente para uma sala ampla aonde se servia um cocktail.

Aí apresentaram ao Príncipe e a mim alguns dos mais famosos agentes secretos que sem cerimónia, bebiam sem parar, aliás acompanhados por nós, e como havia uns vagos croquetes e pastéis, o nível do álcool produzia gradativamente os seus efeitos e reinava grande camaradagem e alguma excitação por falarem com o Príncipe. Contavam grandes histórias e proezas do passado e eu ia registando quem era cada um para mais tarde relembrar.

O Príncipe estava bem-disposto e chamando-me à parte, pediu-me para convidar em nome dele os principais notáveis para jantar num restaurante de peixe nas docas, aonde tínhamos estado na véspera e que era para além de muito apetitoso, de grande qualidade e muito reputado. Percebemos que nunca lá tinham ido e muito se regozijaram, pois era caríssimo!

Ficaram honradíssimos e nós encantados pela aceitação, pois achávamos que não seria permitido. No carro comentámos entre os dois, que íamos tentar saber a veracidade de vários episódios que estavam envoltos em mistério. 

A bebida faria milagres, pensei eu, pois já no museu tinha operado grandes revelações!

Durante o jantar o vinho correu a rodos, como nas bodas da Caná, e como o restaurante era de enorme categoria, tinha uma garrafeira excelente cujas marcas de grande renome, o Príncipe generosamente ia oferecendo aos seus convidados e igualmente fazendo jus!

Eu ia guardando as distâncias e mantinha-me o mais sóbrio que conseguia. Se quiséssemos ter montado alguma operação secreta ali à mesa, seguro que os espiões do inimigo, bastariam ter-se sentado na mesa do lado. 

O barulho, as gargalhadas, as palmadas pouco protocolares nas costas régias, aliás muito bem recebidas e aceites, as promessas de grande amizade, renovavam-se a cada “shot”!

Aproveitei então para fazer algumas perguntas. Lembro-me que inquiri sobre o fracasso da missão no Dubai, e o nosso agente “sénior”, sorriu e perguntou num tom irónico:

- “Mas a que fracasso se refere?”

Percebi exactamente o seu ponto de vista. Realmente, a missão foi cumprida e o alvo foi eliminado.

A Mossad, durante toda a sua história, esteve envolvida em inúmeras operações que envolveram raptos, assassinatos, conspirações e todo tipo de BlackOps (operações secretas negadas pelo próprio Governo).

Ao chegarmos ao hotel depois de um jantar bem regado, senti-me como num filme de James Bond. Aguardávamos pelo nosso convidado no bar do hotel (um dos mais reputados directores da Mossad que se tinha mantido reservado ao jantar), quando o empregado se aproximou e me entregou um bilhete e um cartão-chave do hotel.

O bilhete, em inglês, dizia:  “Venham ao meu quarto à meia-noite.”

Era o tipo de coisas que para ambos era inédito.

O encontro foi realmente excepcional. Estivémos a noite inteira a conversar sobre factos históricos de Israel. Explicou-nos a diferença entre a Mossad e o Shin Bet, a agência de espionagem que actua internamente em Israel. Disse-nos que a Mossad foi fundada em 1949 e está sempre ligada directamente ao Primeiro-Ministro. Revelou que, em geral, os agentes secretos infiltrados de Israel não são israelitas. Segundo ele, era muito difícil infiltrar alguém estranho, nas células do terrorismo, o que nos pareceu fazer todo o sentido.

Mostrou-nos desde aparelhos de escutas super sofisticados a alguns disfarçados, desde relógios a cintos com câmaras escondidas. E acrescentou que isso não era nada!

Quando perguntámos sobre o treino dos agentes secretos, sentimos que nosso convidado mudou de tom. Ele olhou-nos e perguntou-nos se nos exércitos dos nossos países havia algum curso de operações especiais. Respondemos que supúnhamos que sim. E ele então sorriu e disse: “Então perguntem e saberão, como é”!

Uma das acções que renderam à Mossad toda a sua fama foi a operação “Cólera de Deus”, que tinha como objectivo eliminar os responsáveis pelo massacre nos Jogos Olímpicos de Munique. Confessou-nos que existiam muitas informações contraditórias sobre esta operação que durou mais de vinte anos. A operação marcou também o início de uma série de atentados do grupo terrorista palestino Setembro Negro, como represália às acções da Mossad.

Quanto a mim, deixei Israel com a impressão de que nem tudo o que parece é, e que muitas vezes acreditamos naquilo que o nosso interlocutor nos quer fazer crer.

Um afectuoso abraço do teu primo

Manuel


domingo, 7 de abril de 2013

Quem quer ver a barca bela que se vai deitar ao mar?


Quem quer ver a barca bela que se vai deitar ao mar?

Lembrei-me deste poema que recitei no primeiro ano da primária na festa do Colégio do fim do ano lectivo.

Eu, eu…não gritei nessa altura, mas agora tê-lo-ia feito.

Anjos, S. Vicente e Nossa Senhora como continua o poema, em que bela companhia estaria eu.

Iria visitar Dom Afonso Henriques e perguntar-lhe que bagunça é esta? Que povo é este que se deixa emaranhar em sarilhos, em dor, em pobreza, com tal facilidade que nem sequer deixa passar alguns anos de intervalo entre altos e baixos.

Ó Rei, nessa altura ainda não era de Majestade o tratamento, manda o Ega Moniz falar com a troika…já nessa altura, que diabo, se bem que por outros motivos lá foi de baraço ao pescoço a Castela…isto é que é sina!

Será que não podemos ter uns anitos de sossego? De paz, de prosperidade, de trabalho, de crescimento, de criação de valor e riqueza, de gerações felizes?

O que será preciso fazer?

Quem quer ver a barca bela?
Que se vai deitar ao mar

Que linda bandeira leva
É A BANDEIRA DE PORTUGAL!

sábado, 6 de abril de 2013

Para o Gui que está em Windhoek, na Namíbia


Comunicámos por iPhone. Era noite cá e lá e tinha acabado de chegar. Gostei que se tenha lembrado de me dar notícias logo ali, apesar de cansado por horas de viagem.

Ousei lembrar-lhe que as estrelas de África são bem diferentes das de cá.

Pedi-lhe que considerasse ser engenheiro e poeta.

Pressupõe que quando puder, se estenda cá fora do seu quarto na relva de mãos e pernas bem abertas em cruz, e em silêncio perscrute o céu.

Olhe fixo e deixe-se esmagar um pouco pelo peso do universo africano e sentirá que o invade, que o toma por completo e mexe consigo.

Deverá poder descansar o pensamento e abandonado virem-lhe à lembrança tantas coisas que têm ficado para trás, por falta de tempo e rotina.

Terá que ter cuidado com as promessas de mudança que terá a tentação de fazer a si próprio. Comece por poucas, ainda que das essenciais, pois essas têm mais valor. São mais difíceis e desculpam-se mais quando não se cumprem. Mas escolha algumas simples que dão prazer em constatar os benefícios, em sendo bem-sucedido.

Deixo-lhe a título de sugestão esta ideia que sendo aparentemente presunçosa não deixa de ser verdadeira, sobretudo se os frutos forem por si guardados ciosamente e só partilhados com quem achar que pode entender.

El pasado? Qué importa, ya que conmigo todo empieza y todo acabará. Vai em castelhano a benefício da sua amada.

Um beijo

Pai

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles