sábado, 25 de setembro de 2010

Tratado de Ateologia por Michel Onfray - Entrevista


O filósofo francês mais lido da actualidade diz que as três grandes religiões monoteístas vendem ilusões e devem ser desmascaradas.

Num tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos em França, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrito pelo filósofo mais popular da França na actualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque forte ao que o autor classifica como "os três grandes monoteísmos".

Segundo Onfray, por detrás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: "Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, excepto um". Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.

Para defender esta argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, numa célebre expressão, a "morte de Deus". O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao leccionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma "universidade popular" que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são um sucesso de audiência. Os fãs consideram-no um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Nos seus livros, Onfray propõe o que chama de "projecto hedonista ético", no qual defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detractores, que o acusam de repetir ideias ultrapassadas. Em dois meses o seu Tratado vendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista:


Questão (Q) - Na sua opinião, só um ateu é verdadeiramente livre?

Onfray - Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de se escolher o próprio destino e inventar a nossa própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso-me libertar. A liberdade nunca é dada. Constrói-se no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islão é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.

(Q) - A que atribui o sucesso do seu livro num momento em que há tanta discussão sobre a religiosidade?

Onfray - Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente ateia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre a recuperação da religiosidade, a polémica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano nas escolas leigas, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judaico-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher de um lado entre Obama e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islão nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano dos media. O meu livro provavelmente funciona como um antídoto a este estado de coisas, pelo menos em França. Está a ser traduzido para outras línguas.

(Q) – O seu livro defende um ateísmo "fundamentado, construído, sólido e militante". Isto quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?

Onfray - Isto quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé - e sim dar à razão o poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todos os filósofos que se dêm ao respeito.

(Q) - A destruição dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o “rei vai nu”, como na fábula de Hans-Christian Andersen?

Onfray - Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar bem claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar partindo-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por detrás das crenças.

(Q) - Cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Tora para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa das suas convicções?

Onfray - Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autónomo, das trevas contra a luz.

(Q) – No seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. Pode dar os exemplos mais marcantes desta situação?

Onfray - O famoso sexto mandamento da Tora ensina: "Não matarás". Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: "Não vim trazer a paz, e sim a espada". O mesmo evangelista afirma permanentemente que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que "quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade" (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis ("Matai-os onde quer que os encontreis", segunda sura, versículo 191), os judeus ("Que Deus os combata", nona sura, versículo 30), os ateus ("Deus amaldiçoou os descrentes", 33ª sura, versículo 64) e os politeístas ("Matai os idólatras, onde quer que os acheis", nona sura, versículo 5).

(Q) - O livro ataca com virulência particular o apóstolo S.Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?

Onfray - Basta ler os Actos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver como os sintomas da visão que originou a sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas como sendo histeria: perca de tónus muscular, queda, cegueira momentânea, etc. Ao referir-me a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de carácter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.

(Q) - Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?

Onfray - É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, ou seja o verso e o reverso da mesma medalha.

(Q) - Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.

Onfray - Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma ideia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança - imagem do que pode haver de mais natural - nascer acreditando em algum Deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.

(Q) - Como explica o facto de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?

Onfray - O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente das suas possibilidades e limites. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A ideia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.

(Q) - Como filósofo ateu, como encarou a forte emoção popular pela morte do Papa João Paulo II?

Onfray - Tamanho fervor deve ser relacionado com o facto de que João Paulo II foi de facto o primeiro "papa catódico", o primeiro Sumo Pontífice da era da comunicação de massas. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, foi o maior portador da aura que os media conferem. A maioria das pessoas tem um grande fascínio pelos ícones eleitos pelos media e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espectacular da exposição do cadáver e pela criação de uma reacção histérica amplificada pela transmissão televisiva.

(Q) - Retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam e representam?

Onfray - Não me proponho escrever uma resposta ao livro O Génio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles se dizem propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, parece-me muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.

(Q) - Críticos católicos alegam que o seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?

Onfray - Não se pode fazer muito mais, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

(Q) - Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma os não teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?

Onfray - Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massas.

(Q) - Acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?

Onfray - Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as ideias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muito.

(Q) - Quando e como se tornou ateu?

Onfray - Até quando me consigo lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita no Pai Natal ou nas lendas. As histórias contadas pelo catolicismo têm tanto valor como estas. Está ao mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogres comem criancinhas. Logo que um embrião de razão habitou a minha mente, nunca mais me importei com esse pensamento mágico - que só serve, justamente, para as crianças.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Autoridades chinesas receptivas ao debate do filho único


As autoridades chinesas estão cada vez mais receptivas a discutir o problema que a política do filho único representa para o desenvolvimento económico e social do país na medida em que aumentam os casos de infertilidade e da «síndrome do ninho vazio» (depressão que acomete pais quando os seus filhos saem de casa).

Meios de comunicação influentes como o Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista da China (PCCh), falam abertamente dos tratamentos de inseminação artificial e da adopção como «opções viáveis» para solucionar a questão da falta de filhos.

A lacuna entre o número de homens e mulheres, resultado de anos de preferência pelo filho varão - que proporciona sustento para a família -, assim como o envelhecimento da população, têm a sua origem na política do filho único.

Segundo números oficiais, a população do gigante asiático alcançou 1,32 mil milhões de habitantes em 2008, dos quais 200 milhões terão mais de 60 anos no final de 2015.

Enquanto a maioria dos casais urbanos chineses pode ter apenas um filho, com raras excepções ou com a possibilidade de um segundo mediante pagamento de «multa», a infertilidade aumenta devido a fenómenos como a poluição ambiental, a ingestão de hormonas - sobretudo entre os homens - e a idade avançada com que as mulheres se casam.

Actualmente, o número de chinesas que se casam após ter completado 35 anos aumentou, principalmente por razões profissionais e pela vontade de conquistarem uma situação financeira estável antes de ter filhos.

Segundo dados publicados num seminário sobre infertilidade na China, realizado em Agosto em Pequim, mais de 40 milhões de pessoas sofrem desse problema, quase 12% da população em idade fértil.

Deste número, 15% vive em regiões do litoral e desenvolvidas como a cidade de Qingdao, capital da província oriental de Shandong, e 18,9% no sul em Cantão.

Além disso, um estudo feito com 1.236 pacientes do Instituto de Pesquisas sobre Planeamento Familiar da cidade de Chongqing, mostrou que quase 60% das mulheres sofriam de infertilidade devido aos abortos, muitos deles feitos durante a adolescência ou em condições precárias em clínicas não autorizadas.

Um professor do Instituto de Pesquisas sobre População e Desenvolvimento da Universidade de Nankai, Yuan Xin, declarou ao Diário do Povo que um em cada oito casais chineses sofre de infertilidade, mas que a inseminação artificial é um método «caro e exaustivo».

Ao problema da infertilidade acrescenta-se o da geração de casamentos de filhos únicos, que podem provocar a «síndrome do ninho vazio» quando chega a hora de deixarem o lar.

Especialistas começam a recomendar aos pais de filhos únicos que encarem com optimismo a sua independência e a busca por novos horizontes.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

for when real sex is not an option

O papel dos Pais



Todas as pessoas precisam de sentir que alguém as ama e as admira, mesmo com todos os defeitos que possam ter... Dentro de uma família, sentir-se-ão sempre amadas e aceites, por mais disfuncional que a família seja, por mais terrível que seja o erro que tenham cometido (passado o primeiro momento de raiva e de aborrecimento que ele provoca).

A família deve sempre apoiar os filhos em tudo o que eles fazem, desde que sejam coisas razoáveis (dentro das regras familiares), e é ela quem promove o sentido de segurança dos filhos.

A família é a célula principal da sociedade; o lugar onde se desenvolvem as estruturas psíquicas, onde a criança forma a sua identidade e desenvolve o seu lado emocional. A família determina funções, papéis e a hierarquia entre os seus membros; é também o espaço social da confrontação de gerações e aonde os dois sexos (masculino e feminino) definem as suas diferenças e as relações de poder.

A família tem como função educar os filhos e prepará-los para o convívio social.

Dentro de uma família (entre pais e filhos) há dois tipos básicos de relações:

Relação entre os pais (marido e mulher):

A relação homem-mulher dá inicio a uma nova família. São duas pessoas diferentes, com as suas próprias crenças, valores, educação e cultura, que necessitam ajustar-se aos princípios de cada um para uma boa convivência. O equilíbrio conjugal, que é de suma importância, implica que o casal tenha respeito mútuo, amor, e que possa trocar ideias através de muitas conversas e diálogo para promover, desta forma, um ambiente saudável para o crescimento dos filhos. Os pais necessitam de estar sempre de comum acordo (nos temas fundamentais) para promover uma educação satisfatória.

Relação entre pais e filhos:

Cabe aos pais o papel de educar os filhos. A educação é a condição básica para o convívio social. Educar implica o uso de autoridade para estabelecer limites; dar ordens e proibir o indispensável que possibilite às crianças controlarem a sua impulsividade: todas as crianças nascem egoístas; passam a respeitar os outros através da educação, disciplina, mas, principalmente, pelo exemplo dos pais. As crianças identificam-se sempre com um dos pais, e fazem o que esse adulto faz.

Quando os filhos são pequenos, são os pais que decidem "o quê", "como" e "quando"; ou seja, têm plenos poderes sobre os seus filhos e tomam em seu nome as decisões que julgam correctas. A criança vive cómoda e agradavelmente nesta relação de dependência, com as suas necessidades básicas satisfeitas e os papéis claramente definidos. Mas, quando os filhos chegam à fase da adolescência, surge, na maioria das famílias, uma série de conflitos entre os pais e os filhos!

Os pais têm dificuldade em aceitar o crescimento dos seus filhos... Quantos pais dizem sentir saudades do tempo em que os filhos eram bebés? Admitir que o filho cresceu equivale a reconhecer que eles estão mais velhos!

Muitos pais não se conformam por terem perdido o "posto" de heróis insubstituíveis dos filhos, e não conseguem suportar o olhar crítico dos jovens filhos, pois estes começam a olhar os pais como são: pessoas com todos os defeitos e qualidades que lhes são próprios. Há pais que passam a controlar exageradamente a vida dos filhos, como se pudessem, com isso, voltar a tê-los como crianças: não respeitam sua privacidade, querem participar da vida deles de forma integral, e atemorizam-nos, para os controlar, com os perigos que aumentam nesta fase (a violência, a sida, a droga, etc...).

Muitos pais querem antecipar aos filhos o conhecimento de problemas que existem para evitar sofrimentos futuros... Mas o único método conhecido para se aprender, é vivendo a vida! Na realidade, a maioria dos problemas na relação entre os pais e os filhos baseia-se num conflito de poder! Os pais podem exercer o autoritarismo (quando o poder está nas suas mãos) para responder às suas próprias necessidades, ou fazer uso da permissividade, quando delegam o poder nas mãos dos filhos para depois fazerem o que querem...

O mais importante neste tipo de relacionamento é uma resolução conjunta; encontrar juntos soluções conciliatórias para que todos fiquem satisfeitos (aonde as minhas necessidades são tão importantes como as deles).

O papel principal dos pais consiste em apoiar, compreender e dialogar sempre com seus filhos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Setembro


Setembro floresce em sapucaias,
vórtice de abelha
em aroma roxo-lilás.
Logo a flor será cumbuca de fruto.
Bendito o tempo entre floração e semente,
doce a amêndoa
do beijo que eu consigo roubar.


F Campanella

Cremação ou fogueira?


Um corpo inteiro, obeso ou magro, velho ou jovem, com cabelos, roupas, ossos e vísceras em questão de segundos transforma-se em alguns resíduos. As cinzas dão lugar ao personagem que saiu da vida para retornar à natureza em forma de carbono: isto é, basicamente, o que acontece na cremação de um morto.

As temperaturas dos crematórios excedem os 1000ºC, o que é possível derreter até metais, que dirá o nosso frágil corpo nessa tradição milenar que é a cremação.

Embora não seja tão difundida no Ocidente, no Oriente essa prática é mais consagrada, dialogando com o sagrado onde a queima do cadáver costuma significar um acto de purificação, limpando o “profano” do corpo e tornando a alma liberta.

Na história, vemos a cremação muito utilizada nas grandes derrotas para “limpar” a chacina depois de uma grande guerra, como faziam os gregos antigos queimando as “sobras” das batalhas. Com a chegada e forte influência da religião judaico-cristã a prática passa a ser vista como uma heresia, sendo reservada apenas como castigo aos transgressores.

A justificação era a de que a alma levaria certo tempo para se desvincular do corpo. Muitos espíritas, por exemplo, não admitem que o corpo seja incinerado antes de pelo menos 72 horas. Já nas religiões protestantes, não há restrições de acordo com as respectivas directrizes, no entanto, há sempre uma certa relutância por parte dos fiéis. Talvez devido ao imaginário do inferno.

Em termos económicos a cremação é muito mais barata nos crematórios públicos.

O processo é rápido e não é doloroso – claro. Antes do morto dar entrada no forno, passa um certo tempo numa câmara de refrigeração que serve como que uma espécie de “pausa” para fins burocráticos ou de outros empecilhos familiares que possam ocorrer. Depois, o morto, dentro de um caixão, é levado a uma temperatura de 1200ºC que o transforma imediatamente do estado sólido para o gasoso. Após umas 2 horas o estado gasoso passa e solidifica-se, e os restos ainda passam por um triturador e por fim, a famosa "caixinha" com as cinzas do morto é entregue ao familiar (que tem um prazo para reclamar as cinzas).

Diz-se que uma pessoa com uma média de 75 kg fica reduzida a menos de 1kg de pó! – O meio ambiente agradece!

Particularmente, não tenho dúvidas quanto a essa preferência quando eu morrer – tenho claustrofobia – o fogo vai encarregar-se de me “matar” realmente, caso tudo não passe de um erro. Embora seja raro hoje em dia, é possível encontrar notícias de pessoas que foram dadas como mortas por engano... Já imaginou como seria acordar preso dentro de um caixão?!

sábado, 18 de setembro de 2010

É difícil educar os filhos


Os cuidados com os filhos, têm estado de uma maneira geral a cargo da mãe por uma questão histórica e cultural: foi sempre a dona de casa e o marido passava a maior parte do tempo a trabalhar, sendo ela quem se tornava responsável e recorria ao pai quando a sua autoridade como mãe não era respeitada.

Mas nos tempos actuais, em que as mulheres também trabalham fora, sem muito tempo para se dedicarem aos filhos como gostariam, seria bom que a educação dos filhos fosse dividida entre o casal, algo que geralmente não tem acontecido, pois as mães continuam a educar os seus filhos e a despender o seu pouco tempo disponível para eles.

Mas este quadro vai mudando aos poucos, com muitos pais constatando a dificuldade das suas consortes em gerirem tudo da casa, propondo-se assim a colaborar tanto nas tarefas domésticas, como na educação dos seus filhos, acompanhando os seus trabalhos de casa e dispondo de tempo para conversar e brincar com eles.

O ideal é que a educação seja feita em conjunto entre o pai e a mãe e, principalmente, que ambos concordem entre si.

Um exemplo: o pai não deixa o filho ficar ao computador até mais tarde e a mãe, com pena dele, aceita contradizer a regra imposta pelo pai. Agindo assim, ela faz com que o pai perca toda a sua autoridade e, pior do que isso, intui ao filho de que há sempre uma maneira para conseguir o que ele deseja, achando que pode tudo! O inverso também acontece, quando o pai, por se sentir culpado de não estar mais presente, acaba por satisfazer as vontades dos filhos, contrariando a mãe.

Educar é dar o exemplo! Não adianta o pai dizer uma coisa e fazer outra, pois os filhos seguem o exemplo do seu comportamento e não as palavras! Educar também é estar presente, participar com os filhos em actividades comuns, saber ouvir o que os filhos têm a dizer e não os criticar pura e simplesmente, mas deixando bem claro que não concordam com determinadas atitudes quando não agem da forma como deveriam agir, mas deixando espaço para o diálogo, para que eles expressem as suas razões por terem actuado daquela determinada forma. Os castigos só funcionam quando os pais explicam a sua razão.

A base para uma educação eficaz está no estabelecimento de um vínculo afectivo duradouro e isso só se consegue com diálogo, convívio e respeito mútuo!

O ideal para educar uma criança, para que se venha a tornar num adulto seguro de si e bom cidadão, é que o pai e mãe se relacionem bem entre si, independentemente de estarem casados ou não.

Uma coisa é ser pai, ser mãe, outra bem distinta é ser um casal: o relacionamento pode acabar um dia, mas o papel de pais será pela vida fora! E é importante que estes pais, casados ou separados tenham consciência de que os filhos são para a vida toda e que os pais são os principais responsáveis pela sua educação. Portanto, devem sempre dialogar sobre como devem conduzir a educação dos filhos e o papel que cabe a cada um.

Muitos pais separados até gostariam de manter um contacto maior com os filhos, mas o seu trabalho e o seu tempo disponível nem sempre é compatível com o tempo disponível dos filhos, ou porque a lei os obriga a vê-los a cada quinze dias, o que dificulta a construção de laços afectivos entre eles ou até pela dificuldade de fazer acordos extra-judiciais com a mãe para ver os filhos em outros momentos importantes para o estabelecimento dos referidos laços afectivos.

É vulgar ver-se pais satisfazerem todos os gostos dos seus filhos, tendo dificuldades em dizer não e mimando-os excessivamente, como se isso fosse minimizar o seu sentimento de culpa ou fazer com que os seus filhos os amem mais.

Para que um pai possa estabelecer e manter um relacionamento saudável com os seus filhos durante toda a vida, é importante que esse contacto seja de qualidade, isto é,que ele esteja presente e faça actividades com os seus filhos.

Também é importante dialogar com os filhos sobre o dia a dia deles, como se sentem na escola, verificar os seus trabalhos de casa, conhecer os amigos e, porque não, promover programas com os filhos e os seus amigos.

Gostaria de salientar que, mais importante do que o tempo despendido com os filhos, é a qualidade deste tempo com eles que mais importa.

Muitas vezes, meia hora de conversa e atenção exclusiva para cada um deles é muito mais eficaz do que passar um dia todo sem se conversar, estando apenas e só debaixo do mesmo tecto.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Amizade colorida


Amizade colorida é a que inclui “intimidades” que não temos com uma amiga normal. É uma grande invenção dos tempos modernos para saciar a vontade de quem está só, enquanto o grande amor não vem.

Depois de alguma pesquisa e conversa cheguei à conclusão que amizade colorida inclui alguma paixão, bastante quimica, e muito desejo carnal por alguém por quem sentimos atracção e cuja companhia é agradável.

As vantagens: trocar uns beijos, uns apalpões e até pode haver sexo, sem qualquer tipo de cobrança.

Compromisso: apenas o comum acordo.

No meu ponto de vista é um “quase namoro”, onde obrigações ou cobranças do tipo: Onde foste? Com quem? A que horas chegaste? e por ai fora… não existem. Onde não é preciso lembrar-nos de datas e comprar presentes, ou ligar e “bajular”.

No entanto existem algumas regras a cumprir:

1ª uma conversa aberta sobre o antes, o durante e o depois. Afinal para além do “colorida” existe a “amizade”, certo?!

2ª ter plena consciência dos actos.

3ªa tendência é só melhorar :-)

Começa a complicar-se quando uma das partes se começa a envolver, por isso é preciso ficar atento à evolução das situações, e se necessário for, por um ponto final para que ninguém se magoe.

Afinal a sinceridade é a base de todas as relações.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Gosto quando me falas de ti


Gosto quando me falas de ti…
e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens,
cenário de meus desejos tranquilos

Gosto quando me falas de ti…
e então percebo que antes mesmo de chegar,
me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios,
e se vai desfeito em carícias vãs…

Gosto quando me falas de ti…
quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra,
e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios,
apenas pintados, maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti…
e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol distendido,
e descortino o teu destino,
como um caminho certo,
cuja primeira curva foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti…
porque percebo que te desnudas como uma criança,
sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil
como um novelo que nos cai no chão…

J.G. de Araujo Jorge

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Mentes inquietas


De autoria de Ana Beatriz Barbosa Silva, médica com pós-graduação em psiquiatria pela UFRJ e especialização em Medicina do Comportamento pela Universidade de Chicago, Estados Unidos.

Por ser uma obra densa e recheada de exemplos reais, colocarei aqui algumas coisas que me chamaram especial atenção numa visão geral deste livro.

Pessoas com sintomas típicos como desatenção, desorganização e atabalhoamento, muitas vezes são vistas como não tendo jeito e muitas vezes levam uma vida soterrada por críticas e culpa.

Mente Inquieta (cérebro com funcionamento DDA), não significa um cérebro defeituoso. Seu comportamento peculiar é responsável pelas suas melhores características, bem como suas maiores angústias. O livro aborda vários traços comportamentais de pessoas com mente inquieta.

Citarei algumas:

- Desviam a atenção por qualquer estímulo;
- Dificuldade em prestar atenção na fala de outros;
- Desorganização quotidiana;
- Dificuldade com actividades obrigatórias de longa duração;
- Interromper as tarefas no meio;
- Tendência a estar sempre ocupado;
- Costume de fazer várias coisas ao mesmo tempo;
- Hipersensibilidade;
- Instabilidade de humor;
- Tendência ao desespero;
- Depressões frequentes.

Para essas pessoas, é um desafio adequarem-se ao ritmo não-elétrico dos outros. Um caso real que achei interessante foi de um Contabilista que se sentia tolhido numa escada rolante. Para ele, escada rolante significava tortura, da forma em que ele a subia normalmente. Logo que a escada se movia, ele rapidamente chegava ao topo enquanto as pessoas aguardavam calmamente o movimento da escada.

São traços que como diz a autora, podem ‘cair mal’ para quem precisa trabalhar em funções burocráticas, rotineiras ou repetitivas ao passo que é positivo para quem exercita a criatividade como compositor ou artista.

Achei curiosa a abordagem da afectividade nessas pessoas: emoção em excesso e escassez de razão. São pessoas que amam intensamente no interior de suas mentes, mas não conseguem colocar em prática o que vivem em seus pensamentos. Muitas vezes, os seus parceiros nem sequer imaginam que são objecto de tão nobres sentimentos. Felizmente toda essa emoção tende a transformar-se em poesias, obras literárias ou músicas. Semelhante a um vulcão inactivo, a pessoa pode apresentar-se calma e tranquila externamente, mas por dentro, mantém-se agitado e inquieto.

A autora cita o nome de alguns famosos que apresentavam esses traços.

Citarei alguns:

Fernando Pessoa – Em sua obra há traços de inquietação, contradição, devaneios, dificuldade em seguir regras. (Como no poema “Liberdade”: Ai que prazer/ não cumprir um dever/ ter um livro para ler/ e não o fazer...) Criou por isso vários ‘eus’, os heterónimos, indicando uma personalidade inquieta e de humor instável.

Leonardo da Vinci – Uma mente movida por inquietação. Além de pintor, foi arquitecto, botânico, urbanista, cenógrafo, cozinheiro, inventor, geógrafo, físico e até músico. Deixou uma infinidade de obras inacabadas por começar vários projectos ao mesmo tempo, característica desse tipo de funcionamento mental.

Bethoven – Inquieto, polémico e incompreendido. Era acometido de devaneios e distracções, segundo seus amigos. Produziu obras geniais sem escutá-las. Elas brotavam de sua mente inquieta, imune à sua surdez.

Pessoas com este problema tem vulnerabilidade para desenvolver outros transtornos como TOC, Fobias, Pânico, Depressão, transtornos alimentares e de humor, para citar alguns.

A autora dedica um capítulo ao maior desafio: a difícil tarefa de dormir bem e orienta como relaxar um cérebro a mil por hora.

Em suma, Mentes Inquietas é um guia para quem apresenta esse funcionamento cerebral que mescla desafios vários com muita criatividade. A autora transmite uma visão optimista sobre o problema e uma variedade de recursos para tratamento. Tirei muito proveito desta leitura e por isso a recomendo.

Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, chegam os gays...




Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca-vergonha.

Luis Fernando Veríssimo

Nunca mais



Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...

Nunca mais... Nunca mais...

Saúl Dias

os minutos mordem-me os calcanhares


Não é que eu tenha nascido noutro sítio.
Muito menos, que me preocupe o tempo
na sua beleza de abstracta redondez lunática.
É que os minutos mordem-me os calcanhares
formigas enfurecidas urgindo-me a fazer
a não me deter em função dos finais.

É muito certo
a pressa é um agulheiro na calma da insónia
uma muralha na planície dos sonhos
um bebedouro de ilusões que amiúde falham.

Não é que me avassale o medo do atraso
porém esvai-se-me a magia
perdi as fórmulas, os hieróglifos, as poções
a chave dos segredos que guardava
as coisas que o sábio confiou aos meus ossos.

Confesso
Cada vez sou menos eu
E mais o que vivi.
Por isso é que me apuro
para não chegar tarde
ao que realmente fui
quando tudo acabar.

Consuelo Tomás Fitzgerald

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

irmãs gémeas




Naquele nascer tímido do sol ouvia-se o sino da Igreja Matriz repicar ao fundo. Tão ao fundo que, na verdade, estamos falando da Matriz da cidade vizinha. Assim começou o dia num pequeno vilarejo encravado no meio do quase nada, mas que o Prefeito insiste em chamar de cidade quando faz seus discursos emocionados no seu palanque de madeira ilegal.

De fato aquela cidade era pequena. Um ovo, se você quiser uma comparação. Tanto é que todos os habitantes - do capelão ao cafeteiro – possuíam apenas 2 sobrenomes legítimos. Uma família casava-se com a outra e inventava um sobrenome, só para impressionar aqueles que ousavam pedir a lista telefónica. Ousar é a palavra certa.

Todo mundo lá se conhece por nome, sobrenome, apelido, ficha criminal, maternidade, emprego…. Todo mundo sabe quem traiu quem, quem tá devendo na venda ou quem ganhou um aumento no trampo só porque puxou o saco do patrão. Não adianta esconder seu segredo naquele porquinho rosado da estante da sala… todo mundo sabe.

Os parágrafos que você pacientemente leu dão uma ideia geral de como é o cenário da nossa historinha. O que eu quero contar é como Azaléia foi obrigada a sumir do mapa por causa de algo que ela não fez, com o dinheiro que ela não tinha, num local que ela nunca visitou. Vejamos como foi:

Azália era ruiva. Azaléia também. Azália tinha olhos verdes. Azaléia também. Azália gostava de pintar suas unhas com Amarelo Pastel, 219 da marca Hits, exatamente a mesma cor de Azaléia. Nessa altura da frase você já deve ter sacado que Azaléia e Azália eram irmãs gêmeas e gostavam de mostrar essa qualidade para toda a população da nossa cidadezinha de merda.

Azaléia era a gêmea boa, pura, casta. Praticamente uma Paulina Martins. Já Azália, por sua vez, era a encarnação de Paola Bracho. Usurpadora Feelings. Mas como já dissemos exaustivamente nesse texto, a cidade era pequena, todos se conheciam… Azália não poderia colocar em prática tudo o que planejava. Teve que se contentar com um mero plano para comer bem. E quase de graça.

O plano deveria contar com a participação involuntária da irmã, ao menos no primeiro teste. E foi assim que aconteceu:

Azália entrou em sua cafeteria favorita para tomar seu brunch favorito. Sentou-se numa mesa afastada e pediu completo, com direito a croissants, cappuccinos, tortas de limão, pães recheados, doces, cafés… Não sairia por menos de 30 reais. Azaléia (a irmã boa) entrou pouco tempo depois. Pediu coisas leves, saudáveis. Não gastaria mais do que 7 reais para pagar tudo o que iria consumir.

Ambas satisfeitas após a refeição, pediram a conta. O pulo do gato deveria ser dado no momento da entrega da conta. Azália levantou-se, foi até a mesa da irmã, abraçou-a e beijou-lhe as faces. Enquanto a falsidade reinava em cima, em baixo suas hábeis mãos trocavam as contas. Azália saiu primeiro e pagou os 7 reais. Azaléia, coitada, argumentou com a moça do caixa que não tinha consumido tudo aquilo e que havia ocorrido um engano. Usou exatamente esses termos: “Sua garçonete deve ter trocado as contas“. Saiu pagando os 7 reais também.

Vitória de Azália! Em uma semana repetiria o golpe, dessa vez com uma estranha. E num restaurante maior, claramente o mais chique da cidade. O que não quer dizer muita coisa, claro.

Repetiu-se tudo como no teste. Escolheu uma vítima que estivesse comendo pouco, trocou as contas e saiu pagando menos da metade do que deveria. O pobre cidadão reivindicou seus direitos de bancar somente o que consumiu e conseguiu o consentimento da gerência. Só que dessa vez dona Flora, velhinha ranzinza e com o grau das lentes dos óculos muito baixo para corrigir seu problema de visão, presenciou tudo, atribuiu o golpe a Azaléia e como uma autêntica fofoqueira, espalhou para a cidade inteira.

Azaléia era oficialmente uma gatuna mau caráter, que se aproveitava da boa fé dos comerciantes para aplicar sórdidos golpes. Seus feitos foram inflacionados, de modo que se contava que até estátua sumida de Santo Agostinho era sua culpa. A casa foi pixada com palavras de ordem e protesto. O capelão fez o sermão daquele Domingo falando sobre o ocorrido e meteu o santo pau na pobre garota. As lojas não lhe vendiam nada parcelado. Entradas no cinema lhe eram negadas. Nenhum garotão boa pinta lhe convidava pra sair. A vida de Azaléia tinha virado um inferno.

Sendo assim, nada mais restava para Azaléia. Era hora de abandonar aquela cidadezinha de merda. Para sua irmã Azália, um mundo de possibilidades abriu-se. Hoje ela ainda percorre cidades do interior aplicando seus pequenos golpes, sempre fazendo questão de apresentar-se como Azaléia.

Pobres gêmeas…

10ª Carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Ao invés do que te tinha prometido acabei por não conversar com o Philip Morrison, o inventor da bomba atómica mas encontrei-me com um padre jesuíta alemão, Klaus Luhmer, que sobreviveu à de Hiroshima em 1945 e a quem fiz algumas perguntas sobre tão horrível acontecimento para a Humanidade.

Disse-me que estava a 4km do local aonde a bomba foi lançada. A essa hora com uma temperatura de 30º centígrados, e não muito depois das 8h da manhã, estava a rezar no jardim da residência de jesuítas noviços nos arredores de Hiroshima.

Recorda ter visto algo que não conseguiu compreender, mais brilhante que o sol, uma espécie de hemisfério. Teve a intuição de que seria uma bomba altamente explosiva que tinha rebentado atrás de uma montanha próxima.

Teve ainda tempo suficiente para correr para a cave e abrigar-se. Viu um clarão, e uma onda quente veio na sua direcção. Sentiu o embate dessa onda e a casa abanou e tremeu, três quartos das telhas do telhado caíram como se estivesse a chover, e todas as vidraças das janelas estilhaçaram-se.

Um bombardeiro americano B-29 tinha largado uma bomba atómica pela primeira vez na história. Apelidada de « Little Boy », a bomba atómica destruiu 2/3 dos edifícios de Hiroshima, matando um número estimado de 140,000 pessoas, cerca de 1/3 da população da cidade – acrescentou-me o padre Klaus.

Ele quis no entanto investigar o que tinha acontecido, e por isso subiu a um monte atrás da referida residência para olhar para a cidade. Viu Hiroshima em chamas.

O céu estava claro, mas súbitamente apareceram nuvens negras e começou a chover. Era uma uma chuva preta. Estava empapada de cinzas, que caíam com a chuva como sedimentos – contou-me Klaus.

Regressou à residência dos jesuítas, aonde tinham começado a chegar os primeiros feridos da cidade. Luhmer viu imensas pessoas com a pele em farrapos pendente dos ossos, o tecido das suas roupas parcialmente colado à pele por causa do calor.

Os Jesuítas transformaram a mesa de jantar em mesa de tratamentos e começaram a cuidar daqueles a quem ainda podiam socorrer.

Klaus e um grupo pequeno de outros padres partiram para a cidade, encontrando pelo caminho multidões de feridos caminhando em todas as direcções.

O centro de Hiroshima oferecia um espectáculo aterrorizador. Fogos por todo o lado, casas e lojas desmantelando-se, com os mortos e feridos no meio das ruínas.

Luhmer recorda-se de ter visto umas dezenas de soldados fardados, pedindo por água para aliviar os seus corpos semi-queimados. Conseguiram ajudá-los, pois havia um poço muito perto – acrescentou-me.

Luhmer e os seus colegas fizeram o que podiam, trabalhando árduamente no meio das ruínas durante dois dias. Depois, os militares japoneses, selaram a cidade, enviando soldados para se ocuparem do vasto número de mortos.

Disse-me que os militares tinham como missão, retirarem os cadáveres dos escombros e atirá-los para uma enorme pira, regá-la com petróleo e pegarem-lhe fogo. Isto foi o que fizeram aos milhares de cadáveres : foram tidos como desaparecidos !

A residência dos jesuítas estava suficientemente longe do sítio aonde a bomba atómica detonou o que lhes permitiu sobreviver.

Os padres regressaram à sua casa para continuarem a missão de ajudar os feridos. Uma rapariga muito jovem a quem ele ensinava piano, veio dizer-lhe que o pai tinha morrido.

Luhmer quis poupar a viúva a uma tarefa terrível e por isso pegou em madeira e paus e fez uma pira funerária, queimando o corpo do homem. Disse-me que nunca mais esquecera o cheiro nauseabundo que pairou no ar.

Recordou-me que no dia seguinte, os Estados Unidos da América, lançaram uma segunda bomba atómica sobre Nagasaki, matando cerca de 150.000 pessoas dos 240.000 habitantes da cidade.

O Japão sem mais delongas, assinou a sua rendição e a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim.

Terminou a nossa conversa contando-me que visitou um idoso japonês que se encontrava gravemente doente na cama e que sofria de terríveis dores. Desejou consolá-lo. Cheio das melhores intenções, disse-lhe: "Deus testa com sofrimento a quem ama!" Ao que o velho homem retorquiu, cheio de dores: "Sim, mas agora, neste instante, eu desejaria que Deus amasse outra pessoa!"

Muitas vezes usamos frases feitas ou procuramos explicações para o sofrimento de um justo mas não chegamos ao fundo da questão.

Um abraço do teu muito afeiçoado

Luis Bernardo

O amor dá fome

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Lealdade. seria de facto impressionante, vale a pena tentar (para provar que é rotundamente falso)


Para saberes quem te ama de verdade, faz o seguinte teste:

1 - Tranca o teu cão e a tua mulher na bagageira do carro.
2 - Aguarda exactamente uma hora...
3 - Abre a bagageira...
4 - Vê quem está feliz por te ver novamente.

É impressionante!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

9ª Carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Vi o teu comentário sobre o livro do “Caim” do Saramago: o Deus das coisas violentas desde o dilúvio e a Arca de Noé, de Sodoma e Gomorra, ao do sacrifício de Isaac - castigador e distante que se comporta como um ser maléfico.

Fantasias e recalcamentos do Saramago, mas de facto quem escreveu a Bíblia, mesmo utilizando uma linguagem apropriada à época e destinada a disciplinar povos bárbaros sem lei nem ordem, não se preocupou em antecipar os perigos da falta de rigor e de sentido mutável que iriam perturbar os futuros leitores, muitos séculos depois.

Por isso não é doutrinalmente grave o que Saramago diz - não passam de invenções tanto dele como da Bíblia pois esse Deus assim descrito, não existe nem existiu.

Deixa-me perguntar-te: se estivesses para morrer amanhã, sentir-te-ias feliz pelo que fizeste hoje?

Pega no telefone hoje e diz qualquer coisa de especial a quem é para ti também especial. Dá uma volta por todos a quem tu amas e com quem tens afinidades, abraça-os e beija-os e dá-lhes um sinal do teu afecto por eles.

Escreve uma pequena nota a todos quantos estão distantes de ti mas continuam bons amigos e diz-lhes o que significou tê-los tido na tua vida.

Depois senta-te e escreve uma carta à tua mulher e aos teus filhos e partilha com eles tudo quanto aprendeste sobre a vida, tudo quanto queres que eles saibam como ultrapassar, como fazer as coisas acontecerem, como encontrar alegria e como podem levar um pouco de felicidade a outros, apesar de todos os desafios que lhes estão destinados.

E quando tiveres terminado tudo isto, escreve-te uma carta a ti próprio, descrevendo o que fizeste de bem, mesmo com tudo o que tiveste que passar por.

E finalmente escreve uma carta a Deus, seja ele da forma como o entenderes e conta-lhe a tua vida pelas tuas palavras. As “cartas” para aqui, são fáceis pois tu fazes parte desse Deus e por isso é importante para ti, enquanto estás na terra e não morreste, teres uma visão desapaixonada de como encaraste a vivência da tua vida.

Só tem mesmo importância para ti e para os que te rodeiam, mas é sempre bom deixar a casa arrumada antes de grandes viagens, não é?

Mas se não morreres amanhã, se ainda estiveres vivo no fim da semana, decide como tencionas passar o tempo que ainda te resta com esse teu corpo na vida aí na terra.

Toma novas decisões sobre o sentido e o propósito da tua vida. Tenta elevá-la acima do nível da mera sobrevivência. Reflecte para veres o que escolherias como a razão para viveres.

Vive o tempo que ainda tiveres o melhor que souberes e puderes. Segue a agenda da tua “alma”. A tua vida , com a longevidade que possas vir a ter ou não, já não será mais a mesma. Terá um sentido, uma direcção, finalmente.

E isso tornará cada momento num momento especial

Dá-me notícias depois do fim das tuas férias.

Tenho uma conversa marcada com o cientista que fabricou a bomba atómica, pois morreu recentemente. Depois te contarei. Disse-me que nunca recuperou com remorsos pela gente a quem causou mortes horríveis.

Um abraço do teu primo muito afeiçoado

Luis Bernardo

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Perguntei a um sábio a diferença que havia entre amor e amizade


Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Desencanto





Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E neste versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Revolta das Jumentas


Quem primeiro inventou greve
Aqui em cima do chão
Foi um lote de jumentas
Até com certa razão
É que Deus tava criando
Seus animais e soltando
Uns com urro, outros com berro
E por muito ter trabalhado
Sentiu-se um pouco cansado
Porque ninguém é de ferro.

Deus estava terminando
De inventar o jumento
Mas resolveu descansar
Determinado momento
Chamou um anjo importante
Que era seu ajudante

E amigo particular
E lhe disse com capricho
Termine aqui esse bicho
Que eu vou ali descansar.

E quando Deus retornou
Do seu descanso sagrado
Deu de cara com o jumento
Que já tava terminado
Mas notou logo um defeito
E disse assim desse jeito: "Rapaz num tem jeito não,
só dá tempo eu me ausentar,
pro negócio desandar
no setor da criação."

É que o seu ajudante
Concluindo o animal
Deixou aquele negócio
Meio desproporcional
Metro e "mei" de comprimento
Maior do que o jumento
Chega passava da venta
Deus disse: "Num presta não,
que não vai ter posição
dele subir na jumenta."

O anjo disse: "Eu ajeito,
Comigo não tem fracasso,
É só pegar uma faca
E tirar aqui um pedaço."
As jumentas escutando,
Foram logo se juntando
E num desejo comum,
Disseram logo em seguida:
"Vê se arruma outra saída,
cortar? De jeito nenhum."

E fizeram uma assembléia
Colocaram em votação
Ganhou por unanimidade
A frase do "corta não"
Com a confusão criada Deus viu que da enrascada
O anjo não sairia,
Aí entrou em ação
Pra mostrar a dimensão
Da sua sabedoria.

A marreta de dois quilos
Pediu para alguém trazer
E disse: "Segura o jegue,
que a gente vai rebater."
Aí baixou a pancada
Dava cada marretada
Chega esquentava a marreta
E o jegue até hoje em dia
Possui a mercadoria,
Da forma de uma corneta.

domingo, 22 de agosto de 2010

From Brasil with love - Nós Não Nuncamos


Eu não nunco
tu não nuncas
mas eles nuncam
(os que nos limitam)
Brasileiro não desiste
(os que não se irritam)
se cansa
ainda existe
se quebra
insiste
Não chora
economiza
(a lágrima)
Avisa
verde
azul
amarelo
branco
negro
que não vai calar
Não é mudo
Não muda
Não pára
Não nunca!

O tempo e o modo



Aprendi a arranjar coisas.

Quase todas as minhas tentativas de fazer pequenas reparações, montagens de móveis com instruções, aparelhos de electrónica, televisões e hi-fi, terminavam em confusão, insucesso e frustração.

Havia sempre alguém ou de casa ou de fora que vinha "compor o ramalhete", e fazer funcionar.

Sempre estive convencido que por maldição da Natureza, me faltava a qualidade responsável pela aptidão pela mecânica!

Um dia destes, ao subir as escadas do meu escritório deparo com um vizinho novo que ainda não conhecia e que estava de portas abertas atarefado a montar a casa, com criancinhas pequenas aos pulos, mas com uma calma olímpica progredia nas diversas tarefas que normalmente são feitas em outsourcing. Comentei-lhe: " Sabe, tenho grande admiração por si. Nunca consegui arranjar esse tipo de coisas nem fazer nada do género"!

O meu vizinho, sem nenhuma hesitação, respondeu-me: " Isso é porque não lhe dedica tempo".

Na verdade, é sabido que nem tenho conhecimentos – nem sequer tempo para os adquirir – que me permitam resolver a maior parte das avarias "mecânicas" ou instruções a seguir para a montagem de aparelhos, dado que escolhi concentrar o meu tempo na minha vida profissional em assuntos não mecânicos. Portanto, continuo a ir a correr à oficina mais próxima ou recrutar especialistas.

Mas agora sei que é uma escolha feita por mim, que não fui "amaldiçoado", nem sou de outra forma incapaz ou impotente. E sei que eu ou qualquer outra pessoa, que não seja deficiente mental, podemos resolver qualquer problema se nos dispusermos a dedicar-lhe tempo.

A questão é importante, principalmente porque às vezes não nos dispomos simplesmente a gastar o tempo necessário para resolver muitos dos problemas intelectuais, sociais ou espirituais da nossa vida, tal como eu não o gastava até há bem pouco tempo em resolver problemas "mecânicos"!

Antes das minhas "iluminações" recentes em uma série de montagens e instalações, deitaria as mãos à cabeça e diria:

" Não sou capaz".

E eu acho que esta é a forma como muitos de nós abordamos outros dilemas da vida do nosso dia-a-dia.

A questão é muitas vezes de tempo.

Assim que nos apercebemos de um problema, sentimo-nos perturbados e exigimos uma solução imediata e não estamos dispostos a tolerar, o desconforto sentido, o tempo suficiente para analisarmos o problema.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

piropos brejeiros e quejandos




Se fai un'avance a una donna non sei un gentiluomo.
Se non la fai non sei un uomo.

Tradução carnal:

se fazes um piropo brejeiro a uma mulher não és um cavalheiro.
se não o fazes, não és um homem!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Dear old Winston


Winston Churchill often dined with friends, dignitaries and celebrities at Chartwell, his beautiful country home in Kent.

He was a generous host, providing unlimited Champagne, cigars and brandy for the enjoyment of his guests.

One evening a friend of Churchill's, South African Prime Minister Jan Christian Smuts, brought him a bottle of South African brandy.

Churchill sampled the offering before looking appreciatively at Smuts. "My dear Smuts, it is excellent," he declared, "but it is not brandy."

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Caim ( de Saramago)



Li, nestes primeiros dias de férias, o livro "Caim" de Saramago.

Achei-o divertido, fantasioso como não pode deixar de ser, com uma escrita corrida e sem dificuldades de leitura.

Não vejo que qualquer crente possa ficar ofendido, chocado, indignado ou considerar uma blasfémia pois trata-se de uma ficção.

O único reparo que posso fazer é o de Saramago ter escolhido episódios bíblicos, que não me merecem a mais pequena credibilidade, mas com o intuito claro de demonstrar que Deus é mau, castigador e vingativo.

A visão delicodoce de uma voz tonitruante por detrás de nuvens espessas, com barbas longas e uma facies pouco nítida também não é melhor.

Na minha opinião, uma patetice pegada toda a campanha de defesa das versões bíblicas em contraposição ao ateísmo sabido e mais do que conhecido de Saramago!

Que grande gargalhada deve ele estar a dar pela importância que deram a este romancezeco e que feliz deve estar Pilar pelas receitas arrecadadas com a sua venda empolada.

Os tugas nunca percebem quando é para se levar a sério ou estão a reinar connosco!

A sério é para levar a desonestidade de Pilar e José Saramago que vieram com ímpetos de portugalidade desejar que os impostos sobre a sua fortuna colossal sejam taxados em Portugal quando sempre viveram em Espanha e lá foram amealhando bom dinheiro.

A Espanha tem toda a razão legal e moral e vamos ver se Portugal não vai ainda tentar adoçar a futura reforma de uma Pilar espanhola de quatro costados, que agora quer ser portuguesa.

Comunas de merda!

Nota: estes meus comentários nada têm que ver com a minha apreciação sobre o escritor. Foi aquilo a que chamei, noutro posting, as minudências de Saramago & Família, que não me interessam, não estou de acordo e detesto.

sábado, 7 de agosto de 2010

Summer holidays


The greatest time of the year
Summer holidays
Much freedom and a pint of beer
Summer holidays
Just do what you want
There’s no need to pant

Just have some fun with your friends
Summer holidays
You got even time to watch the ants
Summer holidays
Don’t ever dare to think of school
Summer holidays have no rules

Meet friends, have fun or just chill out
Buy milk, go swim or eat an ice upon a roundabout
You understand what they are like?
Summer holidays are the time of your life!

Kevin Deckert

sexta-feira, 30 de julho de 2010

The importance of being a good person


A person, actually is something more than a biological condition.

It is something born of the deep mystery of the spirit, that always needs to be nourished with ethical and moral values. And must never be forgotten, abandoned to its luck, or become monotonous.

To be a person, is also to live in a world of persons, no matter the conditions.

The essential aspects are always born in the inner world, and this is the reason that the person must be spiritual which is cooperative, understanding, with a feeling of solidarity, worthy, responsible, profound, educated, noble, kind, obliging, affective, humble, dedicated and many other things.

This is not a coincidence, it needs sustenance and constant information. To be a person is loving Love and also loving everything that surrounds us.

MNA

quinta-feira, 29 de julho de 2010

The death of common sense


Today we mourn the passing of an old friend, by the name of Common Sense.

Common Sense lived a long life but died from heart failure earlier this year. No one really knows how old he was since his birth records were long ago lost in bureaucratic red tape.

He selflessly devoted his life to service in schools, hospitals, homes, factories and offices, helping folks get jobs done without fanfare and foolishness. For decades, petty rules, silly laws and frivolous lawsuits held no power over Common Sense.

He was credited with cultivating such valued lessons as to know when to come in out of the rain, the early bird gets the worm, and life isn't always fair.

Common Sense lived by simple, sound financial policies

(don't spend more than you earn),

reliable parenting strategies

(the adults are in charge, not the kids),

and it's okay to come in second

(or even last, as long as your best efforts were given).

A veteran of the Industrial Revolution, the Great Depression, and the Technological Revolution, Common Sense survived cultural and educational trends including body piercing, whole language and "new math." But his health declined when he became infected with the "if-it-only-helps-one-person-it's-worth-it! virus.

In recent decades his waning strength proved no match for the ravages of overbearing regulations.

He watched in pain as good people became ruled by self-seeking lawyers.

His health rapidly deteriorated when schools endlessly implemented zero tolerance policies, reports of six year old boys charged with sexual harassment for kissing a classmate, a teen suspended for taking a swig of mouthwash after lunch, and a teacher fired for reprimanding an unruly student.

It declined even further when schools had to get parental consent to administer aspirin to a student but cannot inform the parent when the female student is pregnant or wants an abortion.

Common Sense lost his will to live as the Ten Commandments became contraband, churches became businesses, criminals received better treatment than victims, and federal judges stuck their noses in everything from Boy Scouts to professional sports.

Finally, a woman who was stupid enough not to realize that coffee is hot, and was awarded a huge payout for her stupidity, caused Common Sense to finally throw in the towel.

Common Sense was preceded in death by his
parents Truth and Trust;
his wife, Discretion;
his daughter, Responsibility;
and his son, Reason.

Not many attended his funeral because so few had realized that he was gone.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Na volta do correio do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Respondo-te na volta do correio.

Tira umas férias que te farão bem!

Olha cada coisa com a importância que tem na tua vida e na daqueles a quem queres, aí.

Não fazes mais do que o teu dever, aguenta valentemente os embates e cria fortaleza contra as súbitas mudanças e imprevistos da sorte.

Sabes, o amor é paciente e bondoso.

A paciência é uma arte que se tem que praticar mais. Deixar o tempo correr, excepto se forem coisas que exijam uma intervenção urgente e são raras.

Depois o termo bondoso significa saber olhar nas entrelinhas, perceber os sinais que podem não estar tão expressos ou como se deseja ou precisa.

A bondade consiste na resignação ao que se tem, por não se poder ter mais.

Sabes, o amor não é orgulhoso, nem arrogante.

No fundo há sempre pouco desprendimento, no sentido de que sabe bem ser-se reconhecido pelos esforços ou ajudas prestadas.

É a simplicidade necessária a cada situação que vai indicar o grau de maior ou menor arrogância em se querer “programar” os outros.

Sabes, o amor não busca os próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.

Se se quer mesmo ser verdadeiro consigo próprio, em muitos casos - e não me refiro à culinária - tem-se a tendência para se guardar um bocado, ou seja não se é totalmente desinteressado.

O difícil é dar com prazer e saber-se que um desejo de posse, se foi, pura e simplesmente, com a entrega dada.

O apagar da memória, para além de revelar generosidade, é saudável.

É preciso fazer uma limpeza frequente do “internet cache” senão o computador torna-se pesado…

Quanto à não irritação, às vezes é difícil! O sentido é o de “não taquinar” nem ser “taquinado”, que é uma expressão muito prática, pois quer dizer também não exasperar.

Guardar rancor, é linguagem que não tem a ver com amor. Talvez com guerras, negócios, insucessos causados por malandros, patifes quando haja boa-fé não reciprocada. Parece-me desnecessário ter-se rancor, pois o mal está feito!

Sabes, o amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Uma gaita é o que é!

Tudo desculpa…sim, deve-se desculpar. Porquê não desculpar? O que se ganha com isso?

Ao acreditar-se em tudo quanto sejam provas de amor, a única condição que se deve impor é a de não simularem a afeição, nem serem cínicos sobre o amor.

Que melhor há do que esperar-se tudo de bom dos outros? Ou seja, mesmo que não se sinta ou se veja ou que seja de forma diferente daquela que se espera, se se souber que é feito com amor, porque não aceitar?

Claro que se deve lutar pelos “sonhos imaginados” para que as coisas aconteçam na vida como se deseja, não desistir de convencer, persuadir mas chega a um certo ponto e há limites…reais de eficácia, capacidade dos outros de realizarem da maneira que se quer, sonha ou propõe!

So what?

Aqui vem a faceta do amor que tudo suporta. Com condições, claro. De reciprocidade: do ut dare (dou para receber), mas se mesmo assim for humanamente aceitável, não violentar as consciências e tratar-se só de “mau-feitio”, quem no fundo leva a taça é quem continua a amar.

Um abraço amigo de descanso e pausa

Teu primo muito afeiçoado

Luis Bernardo

Recados ao meu primo Luis Bernardo



Meu Caro Luis Bernardo,

Hoje acordei cedo e tinha-me deitado ontem tarde.

Se estiveres com os meus Pais, diz-lhes que me fazem uma falta danada. Tenho imensas saudades de voltar a ser filho sem complicações, sem grandes responsabilidades.

Isto por cá está uma barra pesada de levar, comparado com o que me descreveste ser isso por aí.

Não é muito justo irem-se embora assim, sem mais nem menos, aqueles de quem gostamos, deixando-nos sem regaço aonde pousar a cabeça cansada de preocupações, sem mãos para entrelaçar nas nossas e afagar em silêncio.

É que isto de ficarmos sozinhos a ter que gerir a nossa vida, sem um bom conselho de vez em quando, sem um porto aonde nos abrigarmos quando há tormenta, é mesmo muito difícil.

Repito-te, isto por cá anda difícil, nem tu imaginas.

Cada um com os seus problemas, sem tempo para olhar para os dos outros. E eu quando te escrevo, sinto-me bem, pois sei que o que te digo vai ao teu encontro num ambiente em que já nada faz sofrer e permite-te observar, reflectir e aconselhar com calma e tranquilidade.

É tremendo quando se acorda de noite e se constata que é a nós agora a quem compete transmitir tudo isto que te estou a dizer, para os que nos seguem na linha da vida.

Bem, por hoje é tudo.

Um abraço amigo do

Manuel

segunda-feira, 26 de julho de 2010

8ª Carta do meu primo Luis Bernardo ( notícias sobre Osama bin-Laden)


Meu Caro Manuel,

Tive hoje um encontro muito inusitado e deveras curioso.

Morto recentemente, o número três da Al-Qaeda e líder no Afeganistão, Mustafa Abu al-Yazid, conversou comigo sobre uma série de factos que penso serem desconhecidos sobre a vida pessoal do seu líder, Osama bin Laden.

Disse-me que era seu cunhado e que no atentado que o matou, juntamente com ele, morreram a mulher e as suas três filhas, além de outros elementos da família.

Revelou-me alguns detalhes da vida doméstica da família de Bin Laden, que morou na Arábia Saudita entre 1974 e 1991, passou 5 anos no Sudão e em 1996 mudou-se para o Afeganistão.

São revelações surpreendentes, que mostram um Osama contraditório e cheio de manias.

Osama casou-se com Najwa em 1974. Ela tinha 15 anos e ficou logo grávida. Teve um filho, depois outro e mais outro - nos 3 primeiros anos de casamento - foram 3 filhos homens.

Ela queria a todo o custo ser mãe de uma rapariga. E, quando teve o quarto filho, que se chamou Omar, não resistiu mais - começou a deixar crescer-lhe o cabelo e a vesti-lo como uma rapariga.

Em 1981 Osama passava longas temporadas longe de casa, combatendo a invasão soviética no Afeganistão.

Um dia, ao voltar a casa na Arábia Saudita, deparou-se com uma cena bizarra que o fez ficar perplexo! Tinha tido uma filha: agachava-se e fazia festas no seu cabelo e no seu vestido, relata al-Yazid.

Realizando que era Omar, explicou-lhe que o vestido que ele tinha e o corte de cabelo eram para meninas e que ele era um rapaz.

Osama mandou a mulher parar com a brincadeira, e ela obedeceu.

Mas voltou a vesti-lo de rapariga nas ausências do marido.

Um dia Osama chegou de surpresa. Segundo al-Yazid, não disse nada. Ficou parado a olhar para a mulher com uma expressão que tornava bem claro que ela não deveria desafiar o destino.

Najwa cortou os cabelos do filho, queimou os vestidos e nunca mais fê-lo passar por menina até ter a primeira filha, 6 anos depois.

Osama bin Laden abomina os EUA, confirmou-me al-Yazid. Mas já esteve lá. No final dos anos 70, o casal passou duas semanas na América pois ele foi encontrar-se com um homem chamado Abdullah Azzam.

Abdullah era um teólogo sunita, que pregava a guerra santa e viria a tornar-se o mentor de Bin Laden.

Osama foi passar 7 dias em Los Angeles. Não se sabe por que quis ir a Hollywood, símbolo máximo da cultura americana. Mas a viagem foi tranquila. O único contratempo foi no regresso. No aeroporto, um homem espantou-se com a roupa de Najwa, uma burca que tapava todo o corpo, e começou a olhá-la descaradamente. Osama não se ofendeu, e até achou graça à situação.

Segundo al-Yazid , Osama é considerado um génio em matemática: tem capacidade para fazer contas enormes, de cabeça.

al-Yazid narrou-me que havia homens que o visitavam na sua casa e o desafiavam a competir com uma máquina de calcular. Bin Laden conseguia sempre terminar as equações em primeiro lugar. A sua memória é também acima da média: é capaz de recitar o Corão inteiro de cabeça, o qual tem mais de 350 páginas.

Mas, segundo al-Yazid, a grande paixão de Osama é uma ciência específica - a genética. Quando morou no Sudão, entre 1991 e 1996, quis produzir os maiores girassóis do mundo. Cruzou várias sementes da planta até criar girassóis que chegaram a ter o tamanho de uma cabeça.

al-Yazid contou-me que no mundo muçulmano, o cão não é o melhor amigo do homem - os muçulmanos evitam ter cães como animais de estimação, pois consideram-nos sujos.

Osama criava pastores-alemães, e não seguia à risca a determinação do Islão: brincava com eles e fazia-lhes festas. Mas os cachorros não tinham a mesma sorte, pois um dia, Omar estava a brincar com a sua cadela e alguns guerrilheiros vieram pedir-lhe emprestados alguns dos cachorros recém-nascidos.

Ele pensou que queriam os cachorros para reprodução, contou-me al-Yazid. Algum tempo depois, Omar descobriu qual o destino dado aos cachorros: estavam a ser sacrificados pelo jihad. Os soldados usavam-nos para testar armas químicas.

al-Yazid diz que Osama não mostrou nenhuns remorsos quando isto foi descoberto pelo seu filho Omar.

Bin Laden tem gostos culinários curiosos e variados. O pequeno-almoço é bem frugal, pois come um bocado de pão com azeite. Já nas refeições, prefere coisas mais elaboradas - o seu prato preferido é beringelas recheadas com carne. Adora fruta e espera o Verão com ansiedade para comer mangas, a sua fruta preferida.

Bin Laden bebe bastante mel com água quente – uma mistura que, segundo ele, tem propriedades medicinais. Mas a sua bebida preferida é sumo de passas, que aprendeu a fazer quando morava no Sudão.

Osama punha as passas num recipiente grande, enchia com água e deixava assim durante toda a noite.

As passas misturavam-se com a água, formando um sumo que ele bebia durante o dia seguinte.

Desde muito novo, Osama gostava de fazer longas caminhadas nos desertos da Arábia Saudita e subir até às montanhas. Algumas vezes, guiava jeeps durante horas até encontrar o lugar perfeito para descansar. Mais tarde, segundo me disse al-Yazid, criou inclusivamente o hábito de levar os filhos nesses passeios - mesmo quando ainda eram muito pequenos.

Não podiam beber água até voltarem do passeio, nem sequer pensar em água, conta al-Yazid. Bin Laden queria ensinar os filhos a suportar o calor. Alertava-os para que deviam estar preparados para fazer longas estadias no deserto todas as vezes que o Ocidente atacasse o mundo islâmico.

Durante a estadia dos Bin Laden no Sudão, Osama decidiu que até as mulheres e os bebés deviam experimentar este tipo de treino. al-Yazid contou-me que organizou para toda a família uma noite no deserto: todos tiveram que dormir em buracos cavados no chão, tapando-se com folhas e terra. E ninguém refilou!

Ao todo, Osama teve 6 mulheres e 20 filhos. Três mulheres ainda vivem com ele. al-Yazid confirma que Najwa e 4 filhos, entre eles Omar, fugiram do Afeganistão mesmo antes dos ataques americanos em 2001.

Najwa voltou para a casa dos pais, na Síria e Omar foi para a Arábia Saudita aonde entrou para os negócios da família Bin Laden - que é a dona da maior construtora do mundo islâmico.

al-Yazid disse-me que Osama queria viver com a maior simplicidade possível, segundo os ensinamentos do profeta Maomé. Por isso, a família não podia ligar o ar-condicionado em casa, ou sequer usar o frigorífico. As únicas regalias permitidas eram o fogão a gás e as lâmpadas eléctricas.

As campanhas de Osama contra o luxo fizeram com que proibisse que alguns dos filhos, que tinham asma, usassem medicamentos, diz al-Yazid.

A sua técnica era a de os mandar respirar através de um favo de mel, o que não adiantava muito. Assim, segundo al-Yazid, todos sofriam com crises asmáticas e frequentemente iam parar ao hospital.

As crianças também não podiam brincar com brinquedos - Osama dava cabras aos filhos com que eles pudessem brincar.

Enquanto a família sofria com estas restrições, Osama esbanjava dinheiro comprando carros de desporto. Esta sua paixão começou quando ele tinha 9 anos e pediu um automóvel de presente ao pai (o empresário Muhammed Awad bin Laden), contou-me al-Yazid.

Por incrível que pareça, foi-lhe dado e conduziu-o com a perícia de um adulto até se tornar maior de idade. Mas foi o suficiente para transformá-lo num apaixonado por carros, que trocava todas as vezes que saía um modelo novo.

Quando Omar nasceu, diz al-Yazid , Osama tinha um Mercedes pintado de dourado. Era como se fosse uma carruagem de ouro, lembra al-Yazid.

Perguntei-lhe a finalizar como tudo começou, e ele confessou-me que os Estados Unidos apoiaram os Talibãs.

Os EUA têm interesses no Afeganistão, não só pelo negócio do ópio ( 80% do ópio a nível mundial provem do Afeganistão) mas também porque querem construir oleodutos e gasodutos.

O Paquistão e o Afeganistão suportam cerca de 60% da droga que é enviada para os Estados Unidos.

A União Soviética invadiu o Afeganistão em meados de 1979. Os Estados Unidos, através da CIA, financiaram e treinaram cerca de 100.000 radicais islâmicos que se uniram para expulsar os russos. Conseguiram expulsá-los com apoio dos EUA.

Diz-me, porém, que a verdade é um pouco diferente, pois foram os Estados Unidos que provocaram a União Soviética para que invadisse o Afeganistão. Cinco meses antes da invasão Soviética o presidente Jimmy Carter assinou uma lei dando o apoio político e económico aos afegãos contra os soviéticos. Uma operação secreta da CIA "empurrou" os russos para a armadilha dos Talibãs.

Os talibãs conheciam bem o terreno do Afeganistão, eram por isso os homens indicados.

Bin Laden foi para o Afeganistão em 1980, sendo um especialista em recrutar e treinar mujaidins, tendo ele sido também treinado pela CIA, acrescenta.

Meu caro Manuel, como vês a vida terrena tem destes equívocos. Aqui já nada disto tem importância.

Um afectuoso abraço do teu primo

Luis Bernardo