quarta-feira, 21 de julho de 2010

O jantar no Brasil no século XIX


O JANTAR NO BRASIL

DEBRET, Jean-Baptiste. O jantar

Subordinada às exigências da vida, a hora do jantar variava, no Rio de Janeiro, de acordo com a profissão do dono da casa. O empregado jantava às duas horas, depois da saída do escritório; o negociante inglês deixava a sua loja na cidade ali pelas cinco horas da tarde, para não mais voltar; montava a cavalo e, chegando à sua residência num dos arrabaldes mais arejados da cidade, jantava às seis horas da tarde. O brasileiro de outrora sempre jantou ao meio-dia e o negociante hoje a uma hora.

Era muito importante, principalmente para o estrangeiro que desejasse comprar alguma coisa numa loja, evitar de perturbar o jantar do negociante pois este, à mesa, sempre mandava responder que não tinha o que o cliente queria. Em geral não era costume apresentar-se numa casa brasileira na hora do jantar, mesmo porque não se era recebido durante o jantar dos donos. Muitas razões se opunham: em primeiro lugar o hábito de ficar tranquilamente à vontade sob uma temperatura que leva, naturalmente, ao abandono de toda etiqueta; em seguida a negligência do traje, tolerada durante a refeição; e, finalmente, uma disposição para o sossego que para alguns precede e para todos segue imediatamente o jantar. Esse repouso necessário ao brasileiro, termina por um sono prolongado, de duas ou três horas, a que se dá o nome de sesta.

DEBRET, Jean-Baptiste. A sesta

No Rio, como em todas as outras cidades do Brasil, é costume, durante o tête-à-tête de um jantar conjugal, que o marido se ocupe silenciosamente com seus negócios e a mulher se distraia com os negrinhos que substituem os doguezinhos, hoje quase completamente desaparecidos na Europa. Esses molecotes mimados até a idade de cinco ou seis anos, são em seguida entregues à tirania dos outros escravos que os domam a chicotadas e os habituam assim a compartilhar com eles das fadigas e dissabores do trabalho. Essas pobres crianças revoltadas por não mais receberem das mãos carinhosas de suas donas manjares suculentos e doces, procuram compensar a falta roubando as frutas do jardim ou disputando aos animais domésticos os restos de comida que sua gulodice, repentinamente contrariada, leva a saborear com verdadeira sofreguidão.

Quanto ao jantar em si, compõe-se, para um homem abastado, de uma sopa de pão e caldo gordo, chamado caldo de substância, porque é feita com um enorme pedaço de carne de vaca, salsichas, tomates, toucinho, couves, imensos rabanetes brancos com suas folhas, chamados impropriamente nabos etc., tudo bem cozido. No momento de pôr a sopa à mesa, acrescentam-se algumas folhas de hortelã e mais comumente outras de uma erva cujo cheiro muito forte dá-lhe um gosto marcado bastante desagradável para quem não está acostumado. Serve-se ao mesmo tempo o cozido, ou melhor, um monte de diversas espécies de carnes e legumes de gostos muito variados embora cozidos juntos; ao lado coloca-se sempre o indispensável escaldado (flor de farinha de mandioca) que se mistura com caldo de carne ou de tomates ou ainda com camarões; uma colher dessa substância farinhosa semi-líquida, colocada no prato cada vez que se come um novo alimento, substitui o pão, que nessa época não era usado ao jantar. Ao lado do escaldado, e no centro da mesa, vê-se a insossa galinha com arroz, escoltada porém por um prato de verduras cozidas extremamente apimentado. Perto dela brilha uma resplendente pirâmide de laranjas perfumadas, logo cortadas em quartos e distribuídas a todos os convivas para acalmar a irritação da boca já cauterizada pela pimenta. Felizmente esse suco balsâmico, acrescido a cada novo alimento, refresca a mucosa, provoca a salivação e permite apreciar-se em seu devido valor a natural suculência do assado. Os paladares estragados, para os quais um quarto de laranja não passa de um luxo habitual, acrescentam sem escrúpulo ao assado o molho, preparação feita a frio com a malagueta esmagada simplesmente no vinagre, prato permanente e de rigor para o brasileiro de todas as classes. Finalmente, o jantar se completa com uma salada inteiramente recoberta de enormes fatias de cebola crua e de azeitonas escuras e rançosas (tão apreciadas em Portugal, de onde vêm, assim como o azeite de tempero que tem o mesmo gosto detestável). A esses pratos, sucedem, como sobremesa, o doce-de-arroz frio, excessivamente salpicado de canela, o queijo de Minas, e mais recentemente, diversas espécies de queijos holandeses e ingleses; as laranjas tornam a aparecer com as outras frutas do país: ananases, maracujás, pitangas, melancias, jambos, jabuticabas, mangas, cajás, frutas do conde, etc.

Os vinhos de Madeira e do Porto são servidos em cálices, com os quais se saúdam cada vez que bebem: além disso, um enorme copo, que os criados têm o cuidado de manter sempre cheios de água pura e fresca, serve a todos os convivas para beberem à vontade. A refeição termina com o café.

Passando-se ao humilde jantar do pequeno negociante e sua família, vê-se, com espanto, que se compõe apenas de um miserável pedaço de carne seca, de três a quatro polegadas quadradas e somente meio dedo de espessura; cozinham-no à grande água com um punhado de feijões pretos, cuja farinha cinzenta, muito substancial, tem a vantagem de não fermentar no estômago. Cheio o prato com esse caldo, joga-se nele uma grande pitada de farinha de mandioca, a qual misturada com os feijões esmagados, forma uma pasta consistente que se come com a ponta de uma faca arredondada, de lâmina larga. Essa refeição simples, repetida invariavelmente todos os dias e cuidadosamente escondida dos transeuntes, é feita nos fundos da loja, numa sala que serve igualmente de quarto de dormir. O dono da casa come com os cotovelos fincados na mesa; a mulher com o prato sobre os joelhos, sentada à moda asiática na sua marquesa, e as crianças deitadas ou de cócoras nas esteiras, se enlambuzam à vontade com a pasta comida nas mãos. Mais abastado, o negociante acrescenta à refeição um lombo de porco assado ou o peixe cozido na água com um raminho de salsa, um quarto de cebola e três ou quatro tomates. Mas, para torná-lo mais apetitoso, mergulha cada bocado no molho picante acima descrito; completam a refeição bananas e laranjas. Bebe-se água unicamente. As mulheres e crianças não usam colheres nem garfos; comem todos com os dedos.

Os mais indigentes e os escravos nas fazendas alimentam-se com dois punhados de farinha seca, umedecidos na boca pelo suco de algumas bananas ou laranjas. Finalmente, o mendigo quase nu e repugnante de sujeira, sentado do meio-dia às três à porta de um convento, engorda sossegadamente, alimentado pelos restos que a caridade lhe prodigaliza. Tal é a série de jantares da cidade, após os quais toda a população repousa.

Depois de ter afligido a alma de nossos leitores com a descrição da frugalidade do triste jantar do escravo no Brasil, não me parece sem interesse conduzi-los, por oposição, ao início de luxo moderno desta mesma mesa brasileira.

Lembrarei pois que, em 1817, a cidade do Rio de Janeiro já oferecia aos gastrônomos, recursos bem satisfatórios, provenientes da afluência prevista dos estrangeiros por ocasião da elevação ao trono de dom João VI. Essa nova população trouxe efetivamente com ela a necessidade de satisfazer os hábitos do luxo europeu. O primeiro e mais imperioso desses hábitos era o prazer da mesa, sustentado também pelos ingleses e alemães, comerciantes ou viajantes vindos inicialmente em maior número. Esse prazer, fonte de excessos, mas sempre baseado na necessidade de comer, dá ensejo, por isso mesmo, a uma especulação certa, monopólio de que se garantiram os italianos, cozinheiros por instinto e primeiros sorveteiros do mundo civilizado. Rio de Janeiro teve, por conseguinte, nessa época, seus Néos, seus Tortonis, em verdade reunidos em uma só pessoa, mas de talento e de atividade, que se encarregava com êxito de todas as refeições magníficas e cujo estabelecimento florescente oferecia aos oficiais portugueses, encantados de encontrar no Brasil uma parcela dos prazeres que haviam gozado em Lisboa, banquetes e serviços particulares delicadamente executados.

Encorajados com o êxito do restaurador, outros italianos abriram sucessivamente um certo número de casas de comestíveis, bem abastecidas de massas delicadas, azeites superfinos, frios bem conservados e frutas secas de primeira qualidade, e o desejo muito louvável de se sustentarem pela cooperação mútua levou-os a se instalarem numa rua já reputada pela presença de um dos três únicos padeiros da cidade nessa época. A reputação merecida desse empório (aliás bastante caro) cresceu de tal maneira, que hoje todo o verdadeiro conhecedor sente subir-lhe a água na boca ao ouvir o nome da rua do Rosário, bem construída e memorável para todo o gastrônomo que tenha visitado a capital do Brasil; vantajosamente situada no centro comercial da cidade, comunica-se por uma das extremidades com a rua Direita (rua Saint-Honoré, de Paris, no Rio de Janeiro).

Por outro lado, um francês se encarregou do abastecimento de farinha e a padaria progrediu rapidamente graças ao acréscimo de consumo provocado pela prodigiosa afluência de seus compatriotas comedores de pão. Outras padarias se instalaram posteriormente, de alemães e italianos, dignas rivais das francesas que existem agora.

É a um desses padeiros franceses, (Maçon) também proprietário de uma chácara perto da cidade, que se deve em parte a melhoria progressiva da cultura de legumes, cujas primeiras experiências foram suas, bem como o comércio de sementes desse gênero vindas da Europa que se faz na sua padaria. Entretanto, é de observar que o legume francês, produzido com sementes brasileiras degenera de maneira incrível já no primeiro ano de cultura. O nabo por exemplo, perde o açúcar e torna-se ardido e fibroso como um rabanete. O mesmo ocorre com diversas saladas.

É o conjunto dessas importações européias, naturalizadas há dezesseis anos no Rio de Janeiro, que alimenta hoje o luxo da mesa brasileira.

terça-feira, 20 de julho de 2010

7ª Carta do meu primo Luis Bernardo (Michael Jackson)


Meu Caro Manuel,

Fui à procura de uma outra figura mais moderna: o Michael Jackson (MJ). Deixaremos para mais tarde Salazar e Álvaro Cunhal. Foram figuras de peso, sim, mas bafientas no final da vida, não pela idade com que morreram, mas pela permanência longa em que usurparam a condução de gentes e de ideais, cada um nos antípodas. Logo trataremos das suas muitas luzes e sombras, que as tiveram e com aspectos menos conhecidos.

Resolvi apurar sobre MJ não tanto o que todos sabem, foi escrito, registado ou testemunhado mas a sua perspectiva de uma vida turbulenta, aparentemente infeliz e de um tremendo e inegável sucesso.

A sua qualidade, mesmo para os cépticos deste tipo de música, tornou-o um ícone dos tempos modernos e achei que tinha interesse ouvir narrar “de dentro” a explicação de tantas atitudes e comportamentos discutíveis, que só o próprio pode esclarecer.

Começou assim por me falar da sua infância: sentia-se muito só no meio dos irmãos, com um pai autoritário e distante e uma mãe pendente da gestão de uma casa em que a desorganização, falta de dinheiro e uma vida agitada, o tornaram como um indesejado.

Esta sensação de exclusão, causou nele um desejo de se afirmar e aproveitando os talentos musicais da família, cedo se começou a destacar. Sentiu o ciúme, a raiva e a hipocrisia de se aproveitarem dele para melhorar o nível de vida e a fama.

Foram momentos em que os seus sentimentos de jovem adolescente se rebelaram contra a solidão e começou a fechar-se e a criar um alter-ego. Admirava-se a si próprio, às suas qualidades e dotes e fazia companhia a si mesmo.

A sua vida sexual de rapaz teve uma evolução complexada e como não se dava com amigos para além da carreira que tinha encetado, sentia-se bem num retorno à infância. Revia situações de carinhos maternos, poucos houve, mas inventava um instinto de protecção e de facto, diz-me, que não começou a crescer em maturidade emocional.

Mais tarde a sua inspiração foi a música que o preenchia e aonde se reencontrava, voando alto e transferindo o seu desejo de exibição e exteriorização para os cenários e roupas fantasmagóricos que criava, as melodias que dançava e as letras que cantava. Transfigurava-se e fortalecia-se.

Nunca teve jeito para os negócios e entregava-se a pessoas que o exploraram mas em que ele confiava cegamente até constatar que já não tinha meios para continuar a “sonhar”.

A droga, o álcool e o desequilíbrio emocional por viver tão isolado levaram-no, uma vez mais, a um excessivo egocentrismo. O afastamento da família e as relações frias que mantinha com alguns familiares, criaram uma repulsa interna sobre a sua origem étnica. Odiava a negritude e tudo fez para se tornar mais claro. Custou-lhe uma fortuna e teve acidentes de saúde que o tornaram num obcecado pela pureza dos ambientes em que vivia.

A sua destruição, começou, segundo me disse, quando nesse regresso à infância de que tanto gostava se passou a rodear de crianças com quem brincava, transportando-se ao seu mundo da fantasia.

A princípio era um desejo sincero e puro de os fazer felizes e as acusações de pedofilia muito o fizeram sofrer.

A sua versão é a de que o continuado tratamento carinhoso que dedicava, a proximidade física e convivência foram-se transformando em paixão desequilibrada e pela sua carência afectiva, tentou encontrar nessas crianças alguma compensação.

A decadência física e os anos a passarem desprovido de tudo o que deveria ser uma vida saudável que lhe permitisse poder explorar o seu enormíssimo talento, tornaram-no dependente de barbitúricos.

A terminar, confessou-me que a morte foi para ele um grande alívio pois tinha a consciência que deixava uma obra inigualável mas já não tinha forças para enfrentar a falta de saúde, a ruína, o descrédito e a perca da fama.

Este concerto que tinha programado já era, segundo ele, um esforço titânico que estava a fazer e sabia que seria problemático pois a imagem que tinha construido, iria ficar prejudicada.

Arrependeu-se de ter começado a sua preparação e disse-me que a sua morte veio no momento certo pois tinha que ser polémica e chamativa, como tinha passado a ser a sua vida desde muito cedo.

Os génios têm que acabar em glória, acrescentou, e a memória que deixou foi ainda a de alguém que mereceu os tributos que de todo o lado lhe prestaram.

Aqui tens o exemplo acabado de um ser humano que seguiu o curso da sua vida, em total liberdade sem que se lhe tenham sido postos “obstáculos divinos”!

Perguntarás se de acordo com os dogmas terrenos, se “salvou” ou “condenou”?

Cinza, pó e nada? Interessa alguma coisa?

Interessa sim, em termos humanos, a excelência da sua música, a genialidade da sua dança e os momentos de qualidade, felicidade e prazer que soube dar a tantos outros seres humanos.

Pagou bem caro na terra, tudo quanto fez de menos elevado!

Está por aqui, no inferno? Talvez a entreter os diabos, dançando no meio das chamas! Continuaria a ser seguramente, um grande ARTISTA!

Teu primo muito amigo

Luis Bernardo

5ª resposta ao meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Luis Bernardo,

As tuas quinta e sexta cartas tão curiosas que foram tratando de personagens de outros tempos. Quando for oportuno gostaria que me falasses de duas outras figuras terrenas mais recentes que tanto deixaram marcas entre nós, para uns a imagem de grande qualidade pela obra feita e para outros de luta e oposição. Refiro-me a Salazar e a Álvaro Cunhal.

A tua sétima carta mereceu uma grande reflexão da minha parte e nas férias que vou começar dentro de 10 dias, tentarei comentar o seu conteúdo.

Ando cansado e deprimido pelo que se vai passando neste nosso país, e notarás que o escrevo com letra pequena, pois é a sensação que me dá: de derrota, de desânimo em relação ao futuro, da menoridade dos nossos dirigentes e do desaparecimento, espero que temporário, de tudo quanto com esforço construímos durante séculos.

Bem sei que muitos erros já vêm do passado, talvez até menos dos responsáveis, fossem eles monarcas ou políticos, e muito mais das pessoas, como um povo com características “desorganizadas”: umas vezes gloriosos e com uma vocação universal, outras pequeninos na ambição, no esforço de superar as crises e sem visão de grandeza.

Claro que estás longe de tudo isto, mas deixou-me melancólico esta tua descrição de paz e tranquilidade aliada a uma acção que ocupa o tempo, o tal que não é igual ao da contagem terrena.

Um abraço amigo e exausto, mas preparado para não desistir.

Manuel

segunda-feira, 19 de julho de 2010

6ª Carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Hoje vou desvendar-te um pouco mais de como tudo se passa por aqui.

Há uma grande variedade de sítios aonde se pode estar, privilegiando a harmonia e o equilíbrio, a calma e a liberdade de se poder escolher.

A descoberta dos outros é feita de um modo completamente diferente da terrena. É como se todos tivessem sido sempre conhecidos, e só nos revelamos desde que queiramos, ou seja se nos buscam ou se procuramos.

Daí haver uma incessante “actividade” que de certa forma corresponde ao que aí na terra se chama trabalho ou ocupação só que com a grande diferença de não haver a noção do tempo, como já te referi, bem como o cansaço resultante do labor, uma vez que não temos mais o corpo.

As relações do passado, servem só para recordar as memórias da vida de cada um, mesmo com luzes e sombras, e são como que um arquivo na tal grande biblioteca de que te falei em termos figurativos. Não se atribui nenhum juízo de valor ao percurso de cada um pois foi na terra que assuntos terrenos foram analisados, julgados, condenados ou louvados e sempre porque havia um corpo que era o suporte da inteligência, boa ou má, e o agente propulsor das acções individuais e colectivas.

Aqui privilegia-se a unidade e não o conjunto, pois somos todos iguais. E ao contrário da terra em que a diversidade provocava tanto a disputa como a coesão, aqui deixou de haver necessidade de “condottieri”, líderes ou seguidores, pois somos parte dum todo. Um dia perceberás.

Não precisamos de fazer perguntas sobre o “presente” na noção terrena, porque o conhecemos.

Por hoje termino deixando-te para reflexão aquilo que tantas vezes pusemos em dúvida quanto ao seu sentido: “dos Homens terem sido criados à imagem e semelhança de um Deus, na forma em que cada um o conceber ou tiver concebido”.

Talvez o criador e a criatura, possam ter um vínculo mais forte do que o da mera submissão e um ser parte integrante do outro.

Um abraço amigo

Luis Bernardo

5ª Carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Imagina tu que encontrei não ainda Vasco da Gama, mas Álvaro Velho que o acompanhou na sua viagem entre 1497 e 1499.

Contou-me que era marinheiro e soldado. Embarcou em Lisboa a bordo da nau “S. Rafael”, capitaneada por Paulo da Gama, transitando posteriormente para a “S. Gabriel”.

Ficarás decepcionado pela descrição que Álvaro Velho faz de Vasco da Gama, mas pedi-lhe que falasse sobretudo do seu carácter, como me referiste.

Eis o que Álvaro Velho me contou do seu conhecimento e trato com Vasco da Gama.

Segundo Álvaro Velho, Vasco da Gama andava na casa dos 30 anos e era um homem de pernas muito curtas, barba preta, nariz longo e beiços apertados.

Era mesmo uma pessoa cruel como a história da sua viagem irá mostrar, acrescenta Velho.

Apesar de tudo, reconhece-lhe valentia para cumprir a missão.

A expedição de Vasco da Gama dispunha das mais avançadas cartas de navegação e levava pilotos experientes. Os navios eram leves e rápidos. Faltavam-lhe, é claro, conhecimentos mínimos de higiene e medicina. O convés das caravelas, não muito grande, estava coalhado de doentes e mortos passadas poucas semanas de viagem. As tripulações eram dizimadas pelo escorbuto.

Dos mais de 150 homens que deixaram Lisboa, só voltaram 55. Por falta de marinheiros, Vasco da Gama foi forçado a abandonar a “São Rafael” e queimá-la na costa da África. A frota levava também um capelão, dois intérpretes (um que falava árabe e outro que conhecia dialectos africanos) e cinco degredados para serem abandonados à própria sorte num sítio qualquer.

Os portugueses abriram o caminho das Índias apoiados na força do canhão, segundo Álvaro Velho me confirmou.

Velho deixa claro que nos planos do navegador não constava estabelecer relações amigáveis com os povos visitados. Ao contrário, nunca hesitou em canhonear os portos de que se aproximava ao menor motivo. A abordagem dos portugueses era realmente agressiva pois muitos tripulantes tinham lutado nas Cruzadas e julgavam-se no direito de impor sua vontade a tiro sobre os hereges.

Umas das vezes, quatro naus estavam atracadas no porto, com peças de ouro e prata a bordo. Os poderosos do lugar, diz Velho, vestiam roupas coloridas de algodão e linho, com turbantes de seda. Vasco da Gama bombardeou o porto até obrigar o sultão a fornecer-lhe água potável e dois pilotos para guiá-los pela costa. Não satisfeito, saqueou dois navios cheios de mercadorias.

A próxima parada foi a ilha de Zanzibar. O piloto confundiu o lugar com o continente e Vasco da Gama mandou chicoteá-lo. Em Melinde, o navegador trocou um refém nobre por um piloto árabe, que conduziria a frota em segurança a Calecute – finalmente, as Índias.

Velho diz que os portugueses imaginavam que a Índia fosse povoada por cristãos de rito oriental.

Numa visita aos templos hindus de Calecute, Gama surpreendeu-se com as imagens dos deuses de vários braços.

Acompanhado de onze fidalgos e de um intérprete, Vasco da Gama entregou ao rei de Calecute uma carta do rei Dom Manuel.

Recostado num divã de veludo, o rei ouviu o relato de que a coroa portuguesa era a "mais poderosa" da Europa e uma das mais ricas em ouro. Tudo ia muito bem até que a comitiva portuguesa resolveu mostrar os presentes que havia trazido. O rei ficou chocado com a pobreza da oferenda: uma dúzia de casacos, seis chapéus, seis bacias, um pacote de açúcar e dois barris de manteiga, rançosa depois de tanto tempo no mar.

O rei, cheio de espanto teria perguntado, se tinha vindo de um reino tão rico, por que não trouxera nada?

O navegador ficou inactivo, mas por pouco tempo - bem cedo percebeu que poderia saquear as embarcações que cruzavam o Índico e abastecer-se das mercadorias necessárias para comerciar na região.

Vasco da Gama tratou os seus prisioneiros com uma crueldade enorme, enviando cestos com suas cabeças decepadas às famílias desses homens, nas cidades costeiras. Num episódio marcado por um acto de barbárie, Vasco da Gama queimou um navio cheio de peregrinos muçulmanos no Oceano Índico. Morreram 240 homens, além de mulheres e crianças.

Álvaro Velho a terminar diz que mais tarde voltou à Índia com uma esquadra de vinte navios, estabeleceu feitorias e enriqueceu pilhando mercadores árabes e indianos que encontrou pelo caminho.

Meu Caro Manuel, o que desculpa o nosso antepassado é que era a prática da época pois após a descoberta do Brasil, a frota de Álvares Cabral Cabral bombardeou a cidade, matando mais de 400 dos seus habitantes!

Mas a vida é o que é, e Álvaro Velho narrou-me o que toda a gente no seu tempo sabia.

Um afectuoso abraço do teu primo

Luis Bernardo

domingo, 18 de julho de 2010

4ª Carta do meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Manuel,

Hoje tive um encontro fascinante com Antónia Rodrigues.

O seu pai dedicava-se à vida marítima e, ao que parece, fez algumas viagens à Terra Nova, quando da barra de Aveiro saía anualmente para aquelas paragens um grande número de embarcações para a pesca do bacalhau.

Segundo me disse, a mãe tratava dos trabalhos domésticos, sempre pesados e sempre complicados, porque era grande a sua prole.

Os trabalhos marítimos, as doenças e não poucas contrariedades acabrunharam demasiadamente o seu pai Simão Rodrigues que, rodeado de filhos e de miséria, se viu obrigado a mandar esta filha para Lisboa, onde haveria de viver com uma irmã que lá estava casada e em melhores circunstâncias.

Confessou-me que pouco depois de haver chegado a Lisboa, repugnavam-lhe os trabalhos domésticos e recusava-se a executá-los.

Em virtude da sua índole insubmissa, tanto a sua irmã como o cunhado, repreendiam-na, chegando mesmo a ameaçá-la e espancá-la, mas Antónia Rodrigues fugia de casa com muita frequência.

Decidiu então, em 1593, disfarçar-se de homem, adoptando o nome de António Rodrigues e conseguiu emprego na tripulação de um navio carregado de trigo, que zarpou para a possessão portuguesa de Mazagão, em Marrocos.

Narrou-me que ela própria cortou os seus cabelos e, vestida com as roupas que havia comprado, apresentou-se ao capitão da caravela, pedindo-lhe que admitisse António Rodrigues, como simples grumete e sem remuneração, além do frugal sustento, que durante a viagem poderia receber como qualquer dos seus companheiros.

Sem incidente notável, entrou a caravela em Mazagão. Tratou de despedir-se do serviço marítimo, tendo-se dirigido ao governador militar da praça e alistou-se, como simples soldado.

Mazagão era uma praça do império de Marrocos e pertenceu, desde 1502, aos portugueses, e em 1562, fizeram ali os mouros diversas tentativas, para se apossarem da praça, mas num encontro foram repelidos.

António Rodrigues, agora como soldado, mostrava-se sempre intrépido nos combates e hábil no manejo das armas, pelo que chegou a ser incumbido do comando de algumas tropas em diversos recontros.

Um dia soube que os mouros pretendiam fazer uma sortida de noite aos campos mais próximos e destruir as searas, que então estavam muito abundantes e quase maduras. Animou-se pelo ensejo de alcançar maior glória e pediu ao governador da praça que lhe entregasse um troço de tropas, para, sob o seu comando, fazer uma derrota completa nas hostes mauritanas. O governador acedeu ao pedido, e quando os mouros menos os esperavam, aparece o jovem militar com a sua tropa e com tanta valentia se houveram os portugueses, e tão bem comandados foram, que os invasores tiveram de fugir feridos e envergonhados.

António Rodrigues entrou em Mazagão, ouvindo as aclamações de vitória e recebendo os maiores elogios. Por este e já por outros feitos foi elevado a oficial, sendo então integrado à cavalaria da praça.

Não poucas damas se apaixonaram por António Rodrigues e ele facilmente deixava alimentar essas paixões, para assim poder mais facilmente encobrir a verdade do seu sexo. Entre aquelas damas, conta-se principalmente D. Beatriz de Meneses, filha de D. Diogo de Mendonça, um dos principais fidalgos, dos que então viviam em Mazagão. E tanto se apaixonou que adoeceu gravemente, chegando o pai, que muito a estimava, a recear que ela sucumbisse.

D. Diogo entendeu-se com o governador da praça, insinuando-lhe que obrigasse António Rodrigues a desposar D. Beatriz. Chamado o jovem oficial à presença do governador e tendo ouvido a proposta do casamento, corou, tremeu e perdeu completamente a coragem.

Depois de muita insistência por parte do governador, Antónia Rodrigues pediu para que não a castigassem; e, entre soluços, declarou que não era homem. Contou então toda a sua história e pediu perdão, por haver vivido com tal disfarce.

O governador fez logo espalhar por toda a praça aquela notícia. Antónia Rodrigues vestiu os trajes do seu verdadeiro sexo e foi levada pelas ruas de Mazagão, ouvindo as aclamações do povo.

Logo que se soube o verdadeiro sexo de Antónia Rodrigues, como era formosa e inteligente, não faltaram pretendentes que a desejassem para esposa. Entre eles escolheu Antónia um brioso oficial, e o seu casamento foi celebrado com grandes festejos.

Quando Antónia Rodrigues tinha trinta e cinco anos, voltou para Portugal, em companhia de seu marido e de um filho, que ainda era criança. Pouco depois ficou viúva.

Recebe um abraço do teu primo muito afeiçoado

Luis Bernardo

4ª resposta ao meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Luis Bernardo,

A tua quarta carta é muito relaxante e deixou-me com uma visão mais simples de todo um emaranhado de teorias que, na prática, nos tornam a vida na terra menos aberta a tudo quanto podemos usufruir enquanto estamos vivos.

Hoje numa resposta curta, lembrava-te que descendendo os dois de um antepassado comum, Vasco da Gama, se o encontrares por aí, poderias dar-nos uma visão diferente daquela que a história nos conta.

Refiro-me mais as aspectos da sua personalidade do que aos factos históricos. Pelos feitos que realizou suscitou invejas nos grandes da Corte mas teve a justa recompensa do seu Rei.

Um abraço do teu primo

Manuel

sexta-feira, 16 de julho de 2010

3ª Carta do meu primo Luis Bernardo




Meu Caro Manuel,

Encontrei hoje a Brites de Almeida conhecida aí na terra como a “padeira de Aljubarrota”. Disse-me que era feia, grande, com os cabelos crespos e muito, muito forte e que tinha um comportamento masculino.

Contou-me que nasceu de uma família pobre e humilde e que em criança preferia mais vagabundear e andar à pancada que ajudar os pais na taberna de donde estes tiravam o sustento diário.

Aos vinte anos ficou órfã, vendeu os poucos bens que herdou e meteu-se ao caminho, aprendendo a manejar a espada e o pau.

Narrou-me que houve um soldado que, encantado com as suas proezas, a procurou e lhe propôs casamento, mas ela, que não estava interessada em perder a sua independência, impôs-lhe a condição de lutarem antes do casamento.

Como resultado, o dito soldado ficou ferido de morte e Brites fugiu de barco para Castela com medo da justiça, mas o barco foi capturado por piratas mouros e foi vendida como escrava.

Conseguiu fugir para Portugal com outros cativos numa embarcação e referiu-me que procurada ainda pela justiça, cortou os cabelos, disfarçou-se de homem e tornou-se almocreve, mas um dia, cansada daquela vida, aceitou o trabalho de padeira em Aljubarrota e casou-se com um honesto lavrador...tão forte quanto ela, segundo me afirmou.

A 14 de Agosto de 1385 com os clamores da batalha de Aljubarrota, não conseguiu resistir ao apelo da sua natureza. Pegou na primeira arma que achou e juntou-se ao exército português que nesse dia venceu os castelhanos.

No fim da batalha, chegou a casa cansada e ouviu um estranho ruído: dentro do seu gigantesco forno estavam sete castelhanos escondidos.

Pegou na sua pá de padeira e matou-os logo ali.

Confessou-me que acabou os seus dias em paz junto do seu lavrador.

Passei pelos teus Pais e falei-lhes desta nossa correspondência.

Disseram-me que desde pequeno foste um contestatário e que as conversas e discussões sobre temas importantes, acabavam sempre da mesma maneira: o teu Pai indo deitar-se pois tinha que operar na manhã seguinte e a tua Mãe e tu ficavam até desoras num desassossego de trocas de impressões como se se tivessem zangado para a vida….acabando num grande beijo de boa-noite e num enorme prazer de realizarem que as divergências podem ser saudáveis, quando verdadeiramente se ama.

Acharam a maior graça ao meu encontro com a padeira de Aljubarrota.

Prometi-lhes ir dando notícias tuas e combinámos procurar tantos outros que ainda não encontrei e de quem eles já me falaram.

Ninguém se interessa aqui pelo que se passa no presente aí na terra, imagina tu! Só pelo passado, o que faz sentido pois já não estamos aí e o que sabemos da terra foi o que vivemos.

Curioso, no entanto, que o passado terreno é visto a uma luz por assim dizer do que foi a realidade positiva: já não interessa apurar, investigar e escalpelizar o negativo das situações com as características terrenas da intriga, do ciúme, da perícia e do interrogatório.

Há um parque maravilhoso das boas memórias do passado e foi aí que eu encontrei a Brites.

No fundo é como se fosses a uma biblioteca terrena e escolhesses um livro sobre um tema, só que aqui é diferente e usei esta expressão para te tornar mais clara a compreensão desta sensação de tranquilidade e bem-estar, outra vez em termos terrenos, de que aqui desfrutamos.

Quanto às tuas perguntas, mais uma vez simples de responder.

O sentimento de perca é compreensível, desejável e significa amor. Mas, ao contrário do que vulgarmente se diz, deve somente limitar-se ao horizonte terreno, ou seja a falta que alguém te faz é porque não podes mais estar com, falar sobre, repartir a vida, os bons momentos e os prazeres.

Essa bela palavra saudade, significa um desejo de proximidade em termos terrenos e o sofrimento sentido é por tudo quanto a qualquer pessoa causa a ausência do outro.

No entanto, mais uma vez há panaceias terrenas para todas as dúvidas.

Deseja-se inventar, confabular e fazer acreditar, impondo, que se está melhor no céu, ou no purgatório e pior no inferno, que até tem labaredas, imagine-se!

E a boa-fé das pessoas absorve ou engole o sofrimento acreditando nestes cenários virtuais que são deixados propositadamente em nevoeiro vago, sem qualquer plausibilidade, a título de transcrições ou interpretações doutrinárias de livros sagrados, sejam eles a Bíblia, o Corão ou de outras religiões.

Já reflectiste bem quem os escreveu? Humanos.

Humanos que em determinados momentos quiseram ou precisaram de motivos fortes para conduzir povos para determinadas terras prometidas ou nirvanas, mas sempre com motivações humanas, das quais se salientam as políticas, de opressão tantas vezes, de guerras injustas…enfim o carrear de tudo quanto de mal tem demonstrado a Humanidade.

E no fundo, se atentares bem, só tens mesmo até hoje a ao momento em que te estou a escrever dois tipos de opções, pois NUNCA ninguém falou a ninguém sobre o que se passa para além da morte.

Se assim tivesse sido o mundo era outro, não achas?

Mas voltando por momentos às duas opções:

- ou a morte traz “cinza, pó e nada” e pouco importa se tens ou não credo, religião ou se és ateu ou agnóstico ou indiferente. É pura e simplesmente o pragmatismo duro, ou quiçá não, da realidade;

- ou seja o que for, não pode ser aferido, antecipado e conhecido, o que significa também que nada podes fazer para modificar o teu curso pessoal para além da morte.

Este raciocínio, faz-me entrar, no tema da fé, ainda que eu tenha já acima aflorado muitos argumentos para a comentar.

A fé em Deus, em Maomé, Javé, Buda, Allah e outros ícones que são adorados, venerados, respeitados não trazem nenhum prejuízo, pelo contrário, ajudam o Homem a encontrar algumas referências, nota bem no que te digo a seguir, ENQUANTO ESTÀ VIVO.

A beleza da fé ou da sua falta reside neste doce, suave, inigualável e irrenunciável princípio terreno do direito à liberdade de escolha.

Os desvios que existem são muitos como saberás e no passado tantas vezes discutimos: o mais abjecto e reprovável é condicionar a vontade das pessoas através da imposição de princípios pretensamente de amor e de virtude, quando no fundo cerceiam o desejo espontâneo de serem livres e decidirem como querem viver a sua vida.

Naturalmente, esta liberdade tem os limites impostos pelas comunidades HUMANAS, , e como referi na carta anterior, cada sociedade tem o que merece, o que escolhe, o que deixa que lhe impinjam nomeadamente os condicionantes morais, de fixação de normas de intolerância irracionais, injustas, contra a natureza humana e afastadas da realidade.

Tens exemplos transversais a todas as religiões desde a Igreja Católica, ao Islão, Budismo, Judaísmo e a tantas desta novas pretensas seitas religiosas que não são mais do que máquinas de fazer dinheiro explorando a boa-fé dos mais ignorantes.

São espartilhos, coletes de força que impedem o respirar de ar puro e até a visão de uma maior profundidade e leveza na análise da Natureza e das suas regras equilibradas e justas, sem interferência humana.

Falámos em aparições tantas vezes. Há-as para todos os gostos e variados destinos turísticos!

Com máquinas comerciais bem montadas, oleadas, dando emprego a muita gente.

Os orçamentos anuais resultantes dos óbolos, esmolas, doações, legados pios e heranças dariam para minorar as dificuldades de muita gente.

Mas a falta de seriedade nem está aqui: trata-se de defraudar todo o tipo de gente que a troco de promessas, nota mais uma vez fixadas por critérios humanos – o carneiro do holocausto e os pombos do Templo de Salomão, as velas de santuários, santinhos, medalhinhas e “águas bentas” de fontes santas ligadas às companhias abastecedoras locais que rejubilam por quem venda mais garrafões, de pivetes nos templos budistas, etc, contribuem para este grande embuste de pagar a prestações um lugar desconhecido no futuro.

Mas já alguém veio explicar como é o mapa da sala, para a escolha poder ser de plateia, 1º balcão ou camarotes, 2º balcão, geral e galeria?

E os preços quais são?

Tolos que estão a pagar caro sem saber o preço e acabam de pé na galeria!

Reflecte bem, as mensagens de todas as aparições, manuais, livros sagrados FALAM da TERRA com precisão e os seus líderes que através dos tempos as vão dirigindo, estatuem o que QUEREM que se faça, tantas vezes para interesses ocultos ou materiais e, sempre sem deixar respirar!

Impossível seres de um clube desportivo e não gostar da cor da camisola! É a expulsão.

E a liberdade de decidir pela vossa cabeça e não porque vos impõem?

Repito, nenhuma destas religiões fala sobre o futuro com certezas, porque pura e simplesmente NÃO SABEM!

Nada mesmo, e inventam de acordo com os seus interesses, numa espécie de campanha de sócios para verem quem tem mais para dominarem o mundo!

A terminar dou-te dois exemplos: um da religião católica e outro do islão.

Uma das aparições de Fátima falava da conversão da Rússia? Como?

Mas o que tem a ver com o futuro para além da morte? E que tal talvez ter-se aproveitado para contar a verdade ao detalhe, se existe a dita vida do depois, naturalmente, para aqueles que acreditam nessas aparições!

Porque será que Allah impõe no Corão que, entre muitos outros princípios castradores da liberdade, irracionais e desadaptados aos tempos que sempre foram evoluindo, as mulheres sempre tiveram que usar burkas para evitar que os homens caiam em tentação?

Tudo isto é um disparate que termina com a morte! Essa é que é a realidade!

Já me fui alongando, mas era imperativo que te refrescasse a memória do que tantas vezes, até um pouco desorganizadamente, íamos conversando.

Um abraço apertado

Luis Bernardo

3ª resposta ao meu primo Luis Bernardo



Meu Prezado Luis Bernardo,

A tua terceira carta foi sucinta, clara e “cirúrgica” : straight to the point!

Hoje gostava de te falar sobre dois temas muito distintos entre si: a Fé em sentido lato e ou a sua falta e por outro lado sobre o sentimento de perca a que a morte, normalmente, conduz.

Começo pela segunda pois é-me mais fácil transmitir-te a minha ideia. Saudades, palavra bem portuguesa, mas com equivalências de “miss you”, “tu me manques”, “te hecho de menos”, e por aí adiante em quase todos os idiomas.

Sim, tenho saudades de fazer festas, ter agarradas e apertadas nas minhas, as mãos bonitas e bem feitas de pele macia, com dedos finos e compridos, da minha Mãe.

Sim, tenho saudades do meu Pai por toda uma vida de serenidade e estabilidade que nos deu e no fim, quando já doente e sem voz por uma traqueotomia, ficava aflito por acordar, o filho de turno de cada noite que o vigiava, sabendo que íamos trabalhar no dia seguinte. Eram uns olhos inesquecíveis de pedido e de agradecimento a que só sabíamos responder, engolindo para dentro a nossa emoção: “ ó Pai, pelo amor de Deus, era só o que mais faltava que não fizéssemos”!

E podia ir por aí fora falando-te de todos a quem amámos, por particularidades engraçadas, únicas e especiais, excêntricas algumas, banais outras mas fazendo parte de um acervo de memórias que constituem um núcleo de sentimentos generosamente partilhados entre pessoas a que chamamos de Família.

Conversaremos um dia sobre como filhos e descendentes de famílias infelizes podem não sentir isto que te transmito e que me faz, no meu caso e ao contrário, valorizar o tal sentimento de perca, como acima te referia.

A , definida de uma forma simplista como a “tábua última de salvação” quando tudo falha, conceito este aceite pacificamente por quase todas as religiões e crenças.

E a falta de fé sentida por ateus, agnósticos e indiferentes, fenómenos estes que se têm vindo a tornar num tema cada vez mais actual, até pela desorientação, crise e desgoverno do mundo em que vivemos.

Aliada a uma crescente confusão/contestação doutrinal de cada credo, à falta de esperança num futuro melhor, às desgraças e calamidades que afligem a Humanidade, ouvem-se grandes cépticos clamar que não têm fé mas que gostariam de sentir algo por alguém, algures e assim não chegarem a um vazio intelectual.

Também é verdade que nunca houve tanta gente bem intencionada e sem fé à procura da sua “raison d’être”!

Tantas vezes nos ríamos das histórias que recordávamos dos nossos familiares e que nos foram passadas oralmente ou por escrito de geração em geração.

Estes, meu Caro Luis Bernardo, são momentos bons, felizes e merecedores de serem ou terem sido vividos com os nossos “mortos” na terra.

Por isso a minha perplexidade por este silêncio e mistério do anúncio de um futuro para além da morte que se presume pelo menos diferente, deixando à mercê dos mais inteligentes ou calculistas doutrinas de antevisão e certezas de coisas que não sabem MESMO!

Aqui te mando “saudades grandes” dos tempos em que convivemos, agora um pouco mais mitigadas por este reencontro epistolar tão rico e intenso.

Um abraço amigo do teu primo

Manuel

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O que é o capitalismo?


O que é o capitalismo?

O capitalismo é o que as pessoas fazem quando as deixam em paz.

Kenneth Minogue

quarta-feira, 14 de julho de 2010

2ª Carta do meu primo Luis Bernardo



Meu Caro Manuel,

Aproveito um portador e respondo às tuas perguntas.

Quanto ao Saramago é simplesmente mais um: contam-se em largas dezenas os prémios NOBEL que já morreram. Juntam-se a todos nós sem mais.

Quanto ao resto das tuas questões são de resposta terrena:

Os Santos foram homens e mulheres que se salientaram na terra de entre os demais fiéis da Igreja Católica por atitudes, feitos, exemplos e testemunhos e como tal a organização a que pertenciam resolveu, nos seus próprios critérios, "premiá-los" com a elevação a um estatuto especial, aliás como tantos outros homens e mulheres de outras religiões ou credos ou mesmo sem nenhuma vinculação a ideologias ou crenças, agnósticos, ateus e indiferentes que se destacaram pelas suas acções. Isto dito de uma forma simplista, como é óbvio.

Não há VIPS, somos todos iguais porque os critérios aqui são outros mais uma vez, e não há preferidos nem preteridos por qualidades, raças e diferenças terrenas.

A noção de pecado, que pode revestir diferentes nomes em diversas religiões e credos, mas que é normalmente associada à Igreja Católica, não tem reflexo aqui. É um conceito humano e que tem a vigência temporal da vida terrena. Não se projecta para a vida futura. Como te disse, não há “cadernetas” de prémios acumulados ou de "multas" por pagar.

Cada um e a sociedade em que se insere na terra, escolhe por várias formas, a maneira como quer, pode ou se deixa ser regulado e ao incorrer em incumprimento sofre as respectivas sanções.

É a velha dicotomia entre a norma moral e norma jurídica: a primeira tem uma coacção moral para o cumprimento e quando prevaricado a sanção é como se fosse uma “dor” interior enquanto que a outra tem a coercibilidade do sistema jurídico e uma vez desrespeitada, implica penas.

Finalmente o tema a que tanto relevo deste: o sexo.

Como é por demais evidente, depende do corpo e uma vez o corpo destruído pela morte, não há mais sexo.

Já nem falo da mente e de tudo quanto significa para a importância do sexo. Só os animais o fazem por instinto, o que não quer dizer que não haja seres humanos que se comportam tantas vezes como bestas, muito pior do que os animais.

As formas como o sexo é praticado, entre quem e em que circunstâncias derivam deste princípio humano tão relevante que é o da liberdade de agir com responsabilidade. Se ela existe ou não, mais uma vez é dependente de juízos humanos, com todas as consequências que isto implica.

Gostaria a terminar de falar-te em mais detalhe de uma componente enriquecedora do sexo e que é o AMOR.

Quando existe doação e entrega mútuas e que se podem definir, em termos humanos, como AMOR, os actos mecânicos transformam-se e aproximam-se do que se encontra na vida futura.

É talvez o único traço de união, o justificativo para haver futuro para quem morre na terra.

Pensa na pequenez da terra, que já hoje pode ser entendida e verificada com os progressos enormes que os seres humanos têm feito quanto ao conhecimento e observação da astronomia e poderás ter uma reduzidíssima ideia do que é o Universo e aonde te situas.

Tenho que entregar ao mensageiro a mensagem.

Recebe um afectuoso abraço do

Luis Bernardo

2ª resposta ao meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Luis Bernardo,

Ao enviar-te a maliciosa pergunta sobre a Mariazinha, antecipei de imediato a tua admoestação. Tens razão e perdoa-me pela minha insensatez. Vou por isso pôr-te, hoje, algumas questões que aliás foram fruto de tantas conversas entre nós.

Não resisto a começar por te perguntar se avistaste o Saramago por aí? Transcrevi no meu blogue um poema conhecido do Alberto Caeiro no dia da sua morte e recebi uma saraivada de críticas. Para tua curiosidade junto-te em separado cópia da minha resposta. Nada que tu não soubesses como eu reagiria: com intolerância e indiferença à mesquinhez e sobretudo à ignorância!

Mas passemos a um tema bem mais interessante: o que é o pecado tal como definido pela Igreja Católica. Boa pergunta, não achas? É que pode ser redutor e regulador de toda a nossa conduta e por isso nada melhor do que voltarmos a conversar sobre como o defines a uma nova luz.

Mais duas perguntas: a primeira em relação aos Santos que são venerados nos altares. Tem havido uma inflação galopante de canonizações recentes, e refiro-me às dos dois últimos Papas. Têm tratamento VIP?

Finalmente, a pergunta mais desejada de todas: qual o papel que o sexo deve desempenhar numa vida, dita a caminho da salvação eterna. Como deve ser encarado em todas as sua vertentes?

Teu muito afeiçoado

Manuel

terça-feira, 13 de julho de 2010

Carta resposta ao meu primo Luis Bernardo


Meu Caro Luis Bernardo,

Deves calcular a surpresa que tive ao receber a tua carta.

Com que então estás bem? Que alegria me dás com todas as boas notícias que me narras.

Circulei-as por vários amigos e sobretudo através de um blogue que tenho e as reacções têm sido estupendas: de alegria, de consolo e de esperança.

Naturalmente que me fizeram muitas perguntas para te apresentar, mas tu logo me dirás se podes ou não responder.

Aonde queres que deixe esta carta? Haverá proximamente quem a possa recolher?

No fundo é bom para mim pois tenho portador, mas alguém irá morrer. Olha, pelo que me contas deve ser bem melhor.

Hoje deixo-te uma única pergunta pois ainda não estou refeito da surpresa.

Encontraste a Mariazinha por aí? Aquela a quem tu “protegias” e de quem tu tanto gostavas? Como convive ela com a tua mulher? Conhecem-se?

Um afectuoso abraço do teu primo que te reencontrou

Manuel

Carta de além-túmulo do meu primo Luis Bernardo


Imaginem vocês que recebi esta carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. Mais à frente perceberão como.

Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Vou deixar passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!

Até este momento ou era a velha e comprovada tese “de cinza, pó e nada”, pelo menos é o que pragmaticamente se encontra nos caixões após as exumações (abertura após uns determinados anos) ou em alternativa o céu, o purgatório e o inferno.

Mas demos a palavra ao Luis Bernardo.

Meu Caro Manuel,

Ficarás surpreendido por receber uma carta minha, tendo eu morrido há já um par de anos. Pois imagina que descobri a maneira de enviar notícias e aqui estou a conceder-te o privilégio de saberes, creio que em primeira-mão, como tudo acontece.

Voltemos um pouco atrás ainda aí na terra.

Lembras-te da minha doença, do sofrimento por que passei e finalmente da minha morte, que veio estava eu ainda no hospital ligado a uma máquina.

A partir de um determinado momento senti-me aliviado e foi precisamente quando o Dr. Horta disse à enfermeira dos cuidados intensivos para me desligar do ventilador pois tinha entrado em morte cerebral.

Qual não foi o meu espanto quando constatei que efectivamente o meu corpo era como se fosse um emissor receptor e senti que um aviso foi emitido para algures.

A parte física do corpo começou a esfriar e a enrijar mas as funções vitais estavam em pleno fulgor e agora já sem sofrimento.

Ouvi a família aproximar-se, chorar, excitar-se e alguns mesmo, ficarem ao meu lado. Disseram de tudo, como calcularás, conhecendo tu o que nós sabemos de cada um dos membros da nossa família.

Finalmente confirmei as suspeitas de reacções mal explicadas por parte de uns, a hipocrisia de outros, o alívio de outros tantos, e tudo isto me fez pensar como bastas vezes damos importância a coisas que de facto não a têm.

Gostei da tua reacção. Choraste sentidamente e em silêncio, e fizeste-me uma festa na mão.

Tantas tardes e noites à conversa, tantas recordações de trocas de ideias profundas com tantas certezas, discussões acaloradas e apaixonadas que às vezes acabavam mal, mas que no fim nos levava a abraçar afectuosamente saindo cada um para a sua casa.

Lembro-me bem das dores e alegrias que compartilhámos em momentos altos e baixos das nossas vidas e das da nossa família.

A “seca” dos parentes e familiares chatos, o brilho dos inteligentes e mordazes, o encanto dos abertos de espírito e o horror dos fanáticos e radicais! Bem poderia estar aqui a desfiar o que foi a nossa cumplicidade e amizade, mas tudo isso é passado.

Entretanto chegou um emissário que me disse que estava tudo em ordem e que deveria com ele partir, deixando o corpo para trás.

Era uma ideia de voz e de presença que me era agradável. Pareceu-me um funcionário administrativo, pensei eu. Deus não seria de certeza, pelo menos ainda.

Vaidosos e convencidos que éramos. Brincávamos considerando-nos uns “deuses do Olimpo disfarçados” mas no fundo seguros da nossa inteligência e superioridade. Só alguns compartilhavam este nosso segredo e connosco se identificavam. A Rita era danada para nos desafiar a revelarmos o que nos unia tal como os cavaleiros do Santo Graal, mas nunca cedemos ao seu charme infinito e sedutor, e nada soube.

Vim a perceber que estes emissários podem levar notícias, por isso aproveitei a boleia de um que ia para perto de ti, e mandei-te esta carta.

Encontrei os teus Pais. A tua Mãe, a quem informei que te ia escrever, disse-me para que não tivesses pressa em vir. O teu Pai, está estupendo, como não são precisos médicos aqui, deu-lhe para tratar do jardim que é um bosque maravilhoso. Com a sua meticulosidade e perfeccionismo mantém as flores num mimo e fala com elas.

O teu Avô mandou vir de Celorico um daqueles enormes castanheiros centenários da vossa quinta do Soito da Parda e a tua Mãe senta-se a ler debaixo dele e a olhar para a relva linda em frente da casa, que o teu Pai cuida com muito desvelo.

Estive pouco tempo com eles, e ainda não pude começar a fazer outras visitas.

No fundo foi uma grande surpresa, pois o Deus de barbas e de voz “grossa ou meiga” conforme nos descreviam não é nada disso: nós estamos em Deus e não fala nem olha, pois somos parte de Deus.

Lembras-te de quanto nos ríamos ao ver as preces que se faziam para um bom resultado num determinado campeonato de futebol ou em pedidos para acertar na lotaria.

Nada de julgamentos finais, nem purgatório, nem muito menos inferno.

O inferno é aí na terra e tudo quanto fazemos por aí se fica, é passado.

Vê lá se continuas a ser boa pessoa, pensando nos outros e partilhando os teus afectos e de resto goza a vida e não te preocupes com minudências. Sê honesto como éramos e respeita a idade e cultiva a mente frequentando gente sã e curiosa da vida terrena. Quanto aos que inventam coisas sobre o divino, não percas tempo, pois não é nada assim. Logo verão quando chegar a sua altura.

Há tanto para fazer e ainda agora comecei. Vou-te dando notícias.

Só te deixo uma informação e, por enquanto, uma preocupação:

- sabendo como tens claustrofobia, terás uma grande surpresa, pois não a sentirás no caixão.

- a preocupação é a de que com tanta gente da família que quero visitar e melhor conhecer, para além de tantos outros que povoaram a nossa imaginação e a quem vou poder perguntar coisas que sempre nos intrigaram, ainda não me desliguei do conceito terreno do tempo.

O que será a eternidade? Maçada não é de certeza, mas por ora, confunde-me a ideia.

Vou tentar saber e depois digo-te.

Teu muito afeiçoado

Luis Bernardo

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O vómito côr-de-rosa


No Portugal do governo Sócrates os embaraços são como as cerejas. Pega-se numa coisinha sem importância e vêm uma data de trapalhadas agarradas.

Peguemos, por exemplo, nos aviõezinhos, recapitulando.

Durante anos, os municípios de Porto e Gaia proporcionaram um espectáculo de acrobacias sobre o Douro, a chamada Red Bull Air Race. Pagaram o menos possível, entregaram o risco a um promotor privado, e anualmente cerca de 1 milhão de pessoas gozou 3 dias de emoções junto ao rio.

Chegaram então os socialistas. António Costa, presidente da Câmara de Lisboa - a mesma onde os prédios caem, os edifícios públicos não são recuperados em violação da lei, onde a Emel explora um espaço público e consegue ter prejuízo, a mesma Lisboa suja, com problemas por resolver de asseio, estacionamento e trânsito - lançou um olhar invejoso sobre a Race e decidiu trazê-la para Lisboa. Fê-lo como os socialistas sempre fazem: oferecendo muito dinheiro (nosso, claro) e envolvendo amigos, ou seja, o Turismo de Portugal.

Resultado: esta semana, a Red Bull cancelou a Air Race por atrasos das autoridades camarárias e do Turismo de Portugal. Este Turismo de Portugal, de Luís Patrão, bom amigo de Armando Vara, é o mesmo que exigiu como depósito da recentemente falida agência de viagens Marsans, não os 5% do seu negócio como manda a lei, mas apenas 1/10, tendo como resultado que os cidadãos lesados não têm meio de se ressarcir. Mas no Portugal socialista é assim, a gente deve tudo ao Estado e o Estado deve-nos o grau zero de competência. Este Turismo de Portugal é ainda o mesmo que decidiu agora concentrar os seus investimentos publicitários (dinheiro nosso, outra vez) na Controlinvest de Joaquim Oliveira, que foi fiel a Sócrates na PT, e cujos orgãos de informação (DN e TSF) são fãs incondicionais dos socialistas.

Resta saber que grau de podridão precisa de ter este caldo para que, finalmente, os portugueses o vomitem.

José Mendonça da Cruz

quinta-feira, 8 de julho de 2010

I wish for you


I wish for you
Comfort on difficult days,
Smiles when sadness intrudes,
Rainbows to follow the clouds,
Laughter to kiss your lips,
Sunsets to warm your heart,
Gentle hugs when spirits sag,
Friendships to brighten your being,
Beauty for your eyes to see,
Confidence for when you doubt,
Faith so that you can believe,
Courage to know yourself,
Patience to accept the truth,
And love to complete your life.

o velho carro


Henrique tinha já pedido a reforma havia muitos anos.

Eram um casal feliz, uns 50 anos de casados, bem vividos e sem filhos: porém, tinham encontrado a sua fecundidade nos sobrinhos e em muitos amigos com quem conviviam.

Aos 74 anos, Margarida era a companheira ideal: sempre tivera sensibilidade e esperteza, coibindo-se de opinar ou de intervir quando se apercebia de que a sua acção era extemporânea e Henrique retribuíra-lhe com amor, respeito e ouvia-a bastas vezes.

Tinham um carro, que se tornara velho pelos muitos anos de uso, mas que guardavam com carinho pois fora nele que tinham passado bons momentos de cumplicidade, admirado nasceres e pores-do-sol memoráveis, viajado para terras e lugares aonde se maravilharam com o que viram, partilhando horas de conversa ou ouvindo música em silêncio e assim construindo a sua vida a dois.

Chegara o dia em que por prudência e por lei já não podiam ou deviam conduzir mais o seu velho carro que foi ficando indolentemente parado, estranhamente sem manutenção, debaixo das ramagens das árvores do jardim.

Henrique ainda ponderara vendê-lo ou mandá-lo abater, mas de comum acordo, resolveram que acabasse os dias como eles, envelhecendo tranquilamente.

MNA

terça-feira, 6 de julho de 2010

Churchill and an ugly women


Winston Churchill exchanged heated remarks with a female MP at a dinner party one evening. "Mr. Churchill," the lady finally snapped, "you are drunk." "And you, madam, are ugly," Churchill replied. "But I shall be sober tomorrow."

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A resposta às reaccões ao texto no meu blogue sobre Saramago


Tenho uma página no facebook.

Passando os olhos rapidamente pelas notícias on-line do Público e nas entradas de alguns amigos que são transcritas no meu perfil, apercebi-me que Saramago tinha morrido.

É sabido que não sou comunista.

É sabido que há uns anos fiz política activa autárquica, trabalhando no duro e em equipa, saindo para o terreno, dando a cara, expondo-me nos media, escrevendo artigos em jornais e respondendo a entrevistas polémicas na tv, nem sempre justas ou agradáveis, mas decentes e sempre defendendo claramente os meus pontos de vista.

Fui premiado por este meu labor desinteressado por um convite para integrar a Comissão Política do Partido bem como de Presidente das Relações Internacionais.

O saldo foi muito positivo e percebi o que é servir de outra forma o meu país e a comunidade; mas reconheço que nem todos têm esta vocação.

Voltando ao facebook, comecei a ler com indignação uma série de comentários sobre Saramago que roçavam a boçalidade, a ignorância e a intolerância, em suma, o reaccionarismo mais primário.

Li quase todas as obras de Saramago. De umas gostei, de outras nem tanto mas nunca por razões de conteúdo, e ainda me faltam ler algumas. Acabei de comprar “Caim”.

Não gostei, por achar de mau gosto, que Saramago tivesse chamado “filho da puta" a Deus, na sua obra Caim. Era sobretudo desnecessário pois sendo ateu, Deus para ele não era importante e por isso não teve mérito nem coragem, ao contrário do que ele julgou de início. O que seria se o fizéssemos a Maomé, a Buda, a Jeová, etc.

No entanto na entrevista na televisão com o teólogo Padre Carreira das Neves e face à tolerância por este último demonstrada, ao ser-lhe referido este aspecto reconheceu que tinha exagerado e que se tinha excedido.

Tudo isto, para mim, são as minudências da personalidade de Saramago, que não me interessam nem admiro.

Apetece-me citar Voltaire "I may not agree with what you say, but I will fight to the death for your right to say it".

Mimos como estes abaixo, apareceram publicados em resposta aos meus comentários:

“ Não li e não gostei”!

“Afinal há comunistas porreiros: os que estão mortos.”

“Não será que ele sabendo o estado em que estava, sabia que nem Deus o salvava”

“Morreu um homem mau, aliás morrem todos os dias.”

“O facto do mundo o reconhecer como um grande escritor, não me impede que eu também tenha de o reconhecer, e sobretudo ele foi uma pessoa odiosa. Os ataques ao nosso País, à Igreja Católica, definem claramente o seu carácter. Não celebro nunca a morte de um ser humano, e muito menos a de um Português (não sei bem se ele ainda era Português ) e só peço a Deus que ele na hora da Morte se tenha arrependido das muitas blasfémias que disse, e que Deus na sua infinita Misericórdia o receba na sua Santa Graça.”

As minhas respostas foram sendo serenas e sobretudo referindo-me sempre ao escritor e à sua obra. Debalde!

Alguns passaram ao insulto depois de eu ter intuído que “quase” e sublinhei a expressão, todos os que me respondiam nunca teriam porventura lido a obra de Saramago!

Com grande espanto meu, confessavam com arrogância que não perdiam tempo a ler comunistas ou prémios Nobel comprados…Dislates de tal tamanho que me provocaram a deixar bem expressa a minha indignação.

Pequeno aparte, a origem, extracto social e apelidos dos comentadores talvez tenham, num passado muito longínquo, servido Portugal…

Publiquei no meu blogue depois, uma entrada a que chamei “Homenagem a Saramago”, com um belo poema de Alberto Caeiro, que transcrevo:

“Se, depois de eu morrer...

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vivi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.”


Fui recebendo por e-mail, novas reacções, sempre temperadas pelo desacordo em relação ao homem e não à obra.

Lembro-me de que quando, em mais novo, li Nietzsche, guardei para sempre estas palavras que guiaram o meu futuro e em que ele diz que os nossos verdadeiros educadores, que são também formadores, revelam-nos o que é o sentido primitivo e a essência elementar do nosso ser, qualquer coisa que não se deixa nem educar nem formar, em todo caso, alguma coisa que é de acesso difícil, que está subjugada e paralisada; os nossos educadores não seriam capazes de ser para nós senão libertadores.

Hoje, procuro pensar por conta própria, só assimilando dos mestres o que julgo de bom; procuro ser eu mesmo, com os meus instintos, os meus defeitos, os meus ódios, as minhas verdades, os meus erros...

Sou um apaixonado, um homem de ideias, um espírito combativo, um energético, podendo dizer sem exagero que sou um rebelde inato. A minha infância foi um permanente exercício de reflexão: no seio de uma família tradicional e conservadora, esbracejando contra os preconceitos e a prática, tantas vezes, de uma moral despótica e hipócrita.

Sou um eterno descontente, um insaciável, um espírito ávido de sensações novas, cheio de uma curiosidade inquieta e de aspirações infinitas; sou como uma sarça de fogo, que tudo procura devorar. Sou um atormentado pelo ideal nunca satisfeito, mas cheio sempre de entusiasmos e de alegrias pelas obras que sonho realizar, um atormentado por essa vontade, essa necessidade de renovação, que leva a serpente a mudar constantemente de pele.

A serpente morre quando não pode mudar de pele: do mesmo modo os espíritos a quem se impede de mudar de opiniões deixam de ser espíritos.

“Viver é mudar, mudar continuamente de ritmo, renovar-se perpetuamente: renovar-se ou morrer”, dizia Leonardo Da Vinci.

A arte de escrever, pelo menos a verdadeira arte, nada tem de convencional, nem se confina a um círculo estreito, de produtos de simples amadores.

Já vai longe o tempo em que se procurava encerrá-la em fórmulas estreitas, classificá-la em escolas de pensamento, como se rotulam produtos de uma fábrica.

O artista que se sente forte e capaz, consciente do seu valor e da sua missão na terra, não necessita desses entraves morais, que na verdade, são os sistemas e as doutrinas.

Triunfa sempre: não admite espartilhos, é indiferente às preocupações de academias e escapa às categorias: despreza as etiquetas e os rótulos.

O génio revela-se exuberante com todos os sinais do seu tempo, fora de todos os dogmas e de todas as escolas de pensamento.

É esta a verdade, que seria preciso repetir sem cessar: não devemos procurar partidos nem escolas, nem aceitar os dogmas que nos impõem propagandistas extenuados de culto, cansativos e áridos.

Devemos tentar ser legítimos, porque assim nos aproximamos da verdade e, sobretudo, da vida.

O que não se pode mais negar é que o estado social invade o nosso meio e, a tal ponto, que ocupa incontestavelmente um lugar preponderante na vida actual pesando sobre tudo e todos.

Este vergonhoso antagonismo em que repousa o regime burguês constatando as causas que causam a dor universal, e que não repousa somente no sofrimento, na miséria física, mas sim na ausência de liberdade, tem que ser abertamente discutido.

Assim, o mal-estar e o desespero, a fome e a miséria, fruto da opulência dos parasitas e da ignorância das massas, o espectáculo deprimente da dor e da injustiça humanas, devem despertar em todas as pessoas bem formadas o desejo de ver estabelecidos entre os homens os princípios de equidade e da justiça.

Estes desideratos levaram alguns dos nossos escritores a pôr os seus dotes intelectuais ao serviço deste movimento de legítima revolta que, desde há muito tempo, vem minando as bases do velho mundo.

A arte é um apostolado social, e é um apostolado social porque é um sacerdócio do bom e do belo, sendo a sua principal missão a de restituir à humanidade a sua beleza, desembaraçando o homem de todos os preconceitos morais e religiosos.

Termino com estas magníficas reflexões de Mário de Andrade, que modestamente faço minhas na íntegra:

Contei os meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma taça de cerejas.As primeiras, chupa displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer de árbitro de desafectos que discutiram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coro da orquestra.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, a minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na taça, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que saiba rir dos seus tropeços, que não se encante com triunfos, que não se considere eleita antes da hora, que não fuja da sua mortalidade.

Quero caminhar perto de coisas e de pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!


"If only closed minds came with closed mouths"

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Primeiro levaram os negros


Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei.

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Carta de um Amigo notável sobre o que se vai passando


Meu velho amigo e bom Manuel,

Talvez te surpreenda o conceito trivial, a imagem cada vez mais banal, inútil e limitada que tenho da minha passagem pela Pátria-acordeão do tempo imaginado, que nos restará.

O Sancho Pança que me habita registou, mediu e pesou todos os micro-mini-moinhos assaltados pelo engenhoso Alonzo Quijana que se esconde por debaixo das minhas, cada vez menos frequentes, indignações.

De verdadeiramente raro só terei talvez essa coisa verdadeiramente incomum que é o ser quase feliz a maior parte do meu tempo.

E a clarividência de me sentir superficial, efémero e pequenino. Teria para dar o quê?

Não tenho o talento necessário para distribuir a serenidade e o amor como gostaria. Na minha escala limitada são coisas intimas que se experimentam e vivem, mas tão difíceis de passar de mão em mão.

Ah, já me esquecia, os próximos, os que me conhecem, os que me frequentam, têm regressado sempre. E fazem estremecer estas paredes que a paisagem aceitou como se há muito aqui estivesse, com grandes gargalhadas.

Desejar ser consensual, e equitativamente respeitado por Rubens, Márcias e Tias, escutado e acatado pelos melhores do que eu… seria voltar-me do avesso, ser outro. E ter uma vontade de protagonismo e uma ilusão de ser capaz de tecer pequenas diferenças que fui deixando silenciosamente pelo caminho.

Sou como o meu país, tenho uma enorme , uma insustentável dívida publica. Recebi muitíssimo mais do que aquilo que fui capaz de dar.

Essa consciência faz de mim um homem mais atento, mas não necessariamente um homem melhor, ou sequer à altura daquilo que deveria ser capaz de redistribuir quem recebeu tanto e que não deseja quase nada.

Um abraço

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Encontro com Pedro Russo a 4 de Setembro




Pedro Russo (Figueira de Castelo Rodrigo) é um astrofísico português, coordenador global do Ano Internacional da Astronomia 2009.

Licenciou-se em Astronomia e tem um Mestrado em Geofísica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Porto. Foi no Centro Multimeios de Espinho que descobriu o gosto pela comunição e divulgação de ciência.

Em 2008, coordenava globalmente o Ano Internacional da Astronomia 2009, uma iniciativa da União Astronómica Internacional e da UNESCO e apoiada ao mais alto nível pelas Nações Unidas. Vive em Munique e está integrado no grupo de trabalho da Agência Espacial Europeia/telescópio espacial Hubble na Organização Europeia para a Investigação em Astronomia no Hemisfério Sul (ESO). Nunca tendo deixado a investigação científica, iniciou o doutoramento sobre a atmosfera do planeta Vénus no Instituto Max Planck. A nível internacional colabora activamente com diferentes organizações, como a União Astronómica Internacional, a Comissão 55-Comunicação de Astronomia com o Público, a Rede Europeia de Ciências Planetárias (Europlanet), a União Geofísica Internacional e a Federação Astronáutica Internacional. É o editor da revista científica Communicating Astronomy com o Public Journal.


Caro Manuel,

Obrigado pelo contacto.

Vou a Lisboa em Setembro, podemos combinar o nosso encontro para o dia 4 de Setembro.

Abraço amigo,

Pedro

Portugal tem que ser qualquer coisa de asseado...


clicar em : http://www.youtube.com/watch?v=6sBueXRnEZ4

de Almada Negreiros e dito por Mário Viegas

quarta-feira, 23 de junho de 2010

momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis


"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,mas na intensidade com que acontecem.

Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis".

Fernando Pessoa

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Benvindo ao meu blogue



Não há regras nem estatuto!

Óbviamente as da civilidade e do respeito. De resto os vossos comentários são livres, desde que me agradem, claro!

A vossa participação com comentários é muito desejada e para isso em relação a como fazê-los é simples: clique em baixo de cada um dos meus artigos aonde diz comentários, escreva o que lhe apetecer e depois volta a cliquar para publicar.

Pode fazê-lo como anónimo...se forem coisas excepcionais as que me diz convém identificar-se, mas pode não fazê-lo. Pode usar um nome fictício que cria específicamente para comigo dialogar neste blogue.

Se estiverem interessados em estar a par das minhas actualizações, deverão cliquar aonde diz "subscrever por e-mail".

Obrigado

O "pai" , as flores e os chocolates



Uma figura conhecida da nossa sociedade, rapaz solteiro, tomou-se de amores por uma mulher de outra classe social, educação e de hábitos sexuais prolíferos.

A paixão inebriava-o e o seu entusiasmo era do conhecimento de um grupo de amigos íntimos que o acompanhavam em mais uma das suas aventuras.

A notícia veio brutal: a mulher estava de esperanças (grávida)!

No dia previsto para ter a criança no hospital do Barreiro, os amigos sugeriram-lhe que, ao menos, a fosse visitar.

Não havendo ainda a ponte sobre o Tejo, tomou o barco, comprou um ramo de flores e uma caixa de bonbons.

Teve que esperar umas duas horas, no meio de uma multidão ululante à porta da maternidade à procura de notícias sobre os seus familiares e quando chegou a sua vez entrou na enfermaria, avistando a amiga com um garboso bébé negro na cama, deitado ao seu lado.

Deitou as flores no lixo, comeu os chocolates e voltou de barco para Lisboa!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tarzan et la machine a laver...


A cause de « l'innocence » de Tarzan qui a vécu seul pendant si longtemps, Jane dut lui donner des cours pour lui expliquer la sexualité :
- Regarde, tarzan, ce que tu as là entre tes jambes, c'est comme ton linge sale et ce que j'ai entre mes jambes c'est comme une machine à laver ....Et donc tu dois mettre ton linge sale dans ma machine à laver et bien essorer avant de le retirer.
Les 5 nuits suivantes, Tarzan lava son linge sans s'arrêter, et lorsque Jane enfin put respirer, elle lui dit :
- Ecoute, Tarzan, tu ne peux pas faire autant de lessives à la suite, ça n'est pas bon pour le linge ni pour la machine; tu devras attendre 2 ou 3 jours pour recommencer à laver ton linge. En entendant cela, Tarzan fut très déçu, et après un mois sans «lessive», Jane lui dit : Tarzan, qu'est-ce qu'il t'arrive ? Pourquoi depuis un mois tu ne mets plus ton linge dans ma machine.
Alors Tarzan lui répondit :
- Tarzan avoir appris à laver à la main !!!!

How pleasant to know Mr. Lear


How pleasant to know Mr. Lear,
Who has written such volumes of stuff.
Some think him ill-tempered and queer,
But a few find him pleasant enough.

His mind is concrete and fastidious,
His nose is remarkably big;
His visage is more or less hideous,
His beard it resembles a wig.

He has ears, and two eyes, and ten fingers,
(Leastways if you reckon two thumbs);
He used to be one of the singers,
But now he is one of the dumbs.

He sits in a beautiful parlour,
With hundreds of books on the wall;
He drinks a great deal of marsala,
But never gets tipsy at all.

He has many friends, laymen and clerical,
Old Foss is the name of his cat;
His body is perfectly spherical,
He weareth a runcible hat.

When he walks in waterproof white,
The children run after him so!
Calling out, "He's gone out in his night-
Gown, that crazy old Englishman, oh!"

He weeps by the side of the ocean,
He weeps on the top of the hill;
He purchases pancakes and lotion,
And chocolate shrimps from the mill.

He reads, but he does not speak, Spanish,
He cannot abide ginger beer;
Ere the days of his pilgrimage vanish,
How pleasant to know Mr. Lear!

a poem by Edward Lear