sexta-feira, 15 de março de 2013
quarta-feira, 13 de março de 2013
terça-feira, 12 de março de 2013
le monde crève d’amour
“On se parlait peu, on n’avait pas à se rassurer. J’étais avec elle tout le temps même quand je la quittais. Je me demandais comment j’avais pu vivre avant si longtemps sans la connaître, vivre dans l’ignorance. Dès que je la quittais elle grandissait à vue d’oeil. Je marchais dans la rue et je souriais à tout le monde, tellement je la voyais partout. Je sais bien que tout le monde crève d’amour car c’est ce qui manque le plus, mais moi j’avais fini de crever et je commençais à vivre.”
Emile Ajar
quinta-feira, 7 de março de 2013
Faz favor de entrar!
Nunca tinha sido
necessário dizer o nome.
Desde que descera do
Olimpo e me convertera em humano, evitava repartições públicas, polícias,
bancos, e quejandos. Por isso passava incólume sem me identificar.
Contactava sobretudo
gente: era essa a minha missão. Os meus pares falavam-me tanto dos seres
terrestres, dos seus hábitos e costumes, que aproveitando um bom momento sem
temores de conspirações nos meus domínios, resolvi tomar um tempo e vir.
Comecei a habituar-me à
desordem e ao caos, às greves, às falências, ao desespero e à pobreza. Mas
também à alegria, ao amor, à paixão, ao sexo e à loucura.
Aprendi a ler e a escrever
e a conversar. Os meus alvos foram sempre homens e mulheres normais,
desempoeirados, felizes e sofredores, e fui acumulando um pouco de tudo para
ver se mudo no Olimpo aquele ambiente chato de eterna felicidade, delicodôce, em
que alguns cometem excessos, sem sequer saberem o significado de "prazer".
Quis, um dia destes,
conhecer quem todos me diziam ser o chefe e foi o que me levou a um palácio cor-de-rosa,
lá para os lados de Belém. Tinha a morada um ar imponente com uns guardas com
plumas de cavalo nos elmos e ao querer entrar, de repente perguntaram-me quem eu era.
Foi a primeira vez que
fui confrontado com a minha identificação, foi um choque!
Disse-lhes que pouco
interessava, mas nada os demoveu. Disseram-me que o chefe quase nunca saía e
que raramente falava em público, por isso era cauteloso.
Pedi-lhes então que me
concedessem um favor: escreveria num papel dobrado o meu nome para só a ele ser
entregue. A muito custo convenci o guarda pretoriano da entrada e rabisquei então
numa folha, umas letras.
Vi dirigir-se-me de
dentro um senhor vetusto que com uma voz gutural e um sotaque estranho, se
virou cortêsmente para mim e me disse:
- Faça o favor de entrar,
Senhor Zeus, temos muito que conversar!
domingo, 3 de março de 2013
Resposta do meu primo Luis Bernardo - reflexões e conselhos
Meu Caro Manuel,
Em resposta à tua carta,
deixa-te envolver por um silêncio interior aonde ecoe música serena e suave, de
preferência sem palavras. Sugiro-te algumas peças de Debussy, em violino. É o primeiro conselho que te dou.
Sim, é verdade que o
desânimo é como se te sangrassem em vida com sanguessugas, como os antigos
barbeiros faziam aos doentes. É um sentimento de progressiva perca de forças,
de amolecimento da resistência à luta pela sobrevivência.
Muitos te dirão que tudo
irá correr bem: não acredites nos “wishful thinking” - ou é ou não é!
As doenças ou têm cura ou
se morre delas, quanto à pobreza, à fome e ao frio ou se é sustentado,
alimentado ou agasalhado ou sucumbe-se exangue!
Tenta esquecer a política
e os seus agentes por algum tempo e faz-te à vida com quem possas fazer equipe
e planeia, programa e executa estratégias de trabalho, de ocupação do tempo,
dos talentos, das capacidades que possas congregar.
Procura ser criativo,
inovador, fazer a diferença, inicia coisas novas se preciso for em outras
paragens. Mas às vezes, está ao alcance do teu braço, ali à esquina.
Não desistas, nunca. A
cedência ao desespero, aos braços caídos é meio caminho andado para a derrota. Este
é o segundo conselho que te dou.
Já te tenho dito noutras
cartas que uma das curas mais eficazes para o desencontro, a confusão de ideias
ou de tristeza é o esquecimento de ti próprio, das tuas aflições e problemas.
Tenta envolver-te com
outros que precisem de ti: nas prisões, nos hospitais ou hospícios, nos quartos
com solidão mas antes de fazeres uma lista pomposa e variada de “caridadezinha”,
olha em redor para a tua família, para os teus amigos e começa por esses.
Sabes que o esforço de
perdoar sem condições, de reatares o contacto, de estares presente nas devidas
proporções sem te impores, de te interessares genuinamente pelos problemas dos
outros, de não exagerares nos “sábios e indiscutíveis” conselhos que “só tu”
conheces é um enorme remédio para a neura, depressão e opacidade da vida.
No
entanto, escuta primeiro e apreende o que se espera de ti e começa por dar só
isso. É muito mais fácil e vai ao encontro do que se pretende. O resto, virá ou
não por acréscimo.
Garanto-te que não terás
tempo para dares tanta importância ao teu ego. Sentir-te-ás muito mais feliz e
quando caíres na cama exausto a cada dia, o sono é reparador. Este é o terceiro
conselho que te dou.
Finalmente, cuida da tua
espiritualidade, seja ela qual for: cristã, budista, muçulmana, judaica, ou ortodoxa.
Temo que o ateísmo, diferente do não-crente, seja pernicioso para o bom ânimo.
Não se afeiçoar a nada e estar, por definição, num “limbo” expectante do
momento da morte, deve trazer momentos de grande solidão e angústia. Este é o quarto
conselho que te dou.
Falaste-me da resignação
do Papa. É um episódio na história da Igreja Católica. Tal como a separação dos
entes queridos, o tempo se encarrega de fazer diluir os contornos da lembrança
e das saudades: rei morto, rei posto.
Dentro de semanas, degladiar-se-ão
Cardeais para a eleição do novo Papa. Será um outro e a ele, os de há poucos
dias, de novo se curvarão almejando por favores e graças e assim a vida
continua. Para já nem falar da imprensa que incensará as virtudes do eleito e
apoucará ou tendencialmente se irá esquecendo do anterior.
Salazares e Cunhais e
quejandos, tem-los por aí. Estão em casa, de pantufas, a beberem “chá da
Escócia” , vulgo whisky, e a perorarem sobre o mérito e o demérito da governação de uns e de
outros, mas não avançam nem patrioticamente querem dar a cara e o couro por
pouco dinheiro.
Pelo que há que fazer uma
busca criteriosa: deveis querer a paz, uma disciplina segura e serena sem
sobressaltos, planos bem definidos para saírem dessa senda direita a um abismo desconhecido.
Grassa, normalmente e nestes casos, um cansaço grande sobre sonhos e promessas
não cumpridas!
Um líder moderno,
desempoeirado, com ideias ajustadas aos vossos tempos, com respeito pelos
direitos de cada povo e da sua liberdade, há-de estar por aí, algures, só que
não aparece pois é pouco generoso e egoísta!
Gostei da alusão às
nêsperas: era o que o teu Avô paterno dizia, quando não gostava de alguma coisa.
Era a alternativa cavalheiresca de sempre!
Se escreveres ao Ministro
das Finanças dá-lhe uns dois ou três conselhos que aqui te deixo:
a) Que tire umas
férias, longe de Portugal durante pelo menos uma semana inteira e que se desligue
mesmo de tudo. O objectivo é descansar o corpo e o espírito e ver, ver com outros
olhos o mundo fora das paredes do Ministério e do Governo. Que escolha um sítio
aonde esteja em contacto com a Natureza, o campo ou o mar e com gente simples,
que pratiquem a economia doméstica.
b) Que visite no
regresso, com discrição e sem alardes, uma família daquelas que sofre mas que
sem ódio, nem rancor, lhe descreva como é a vida do dia-a-dia. Às vezes, estas
vozes não chegam puras aos ouvidos de quem de direito. É importante que
sensorialmente escute e veja o que é a obra, com todas as justificações
teóricas que possa ter, que o seu Governo está a fazer. A realidade é mais
perceptível quando conhecida em directo. O romance do Luis Sttau Monteiro, “Angústia
para o jantar” poderia ser o guião da sua visita a um lar português. Literáriamente
e como tu gostas, a referida família e na senda de novo de Sttau Monteiro,
deveria após a sua saída, concluir que “Felizmente há
luar”!
c) Que fale aos
Portugueses, sem medo e sem esquemas pré-definidos, como Governante e como
cidadão. Porque não uma “Conversa em Família”? Mas das boas, com olhos límpidos
e fala directa, abordando o que vos aflige e deixando palavras de encorajamento
sem demagogia. Dos fracos não reza a História!
E por hoje é tudo meu
querido Manuel.
Um afectuoso abraço do
teu primo
Luís Bernardo
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Carta ao meu primo Luis Bernardo - à escuta
Meu Caro Luís Bernardo,
Por cá os tempos vão complicados. Sabes, não apetece nada estar bem-disposto,
não sei se me percebes? Quase tudo corre mal, nas famílias, no país, na Europa
e no mundo.
Tantas frases sublimes escritas por inúmeros autores do passado e do
presente, metidas a martelo e fora do contexto actual, consolando, tentando descrever
situações anormais como normais, intuindo que o sofrimento, o desespero, a
indigência, o abandono, hão-de passar em breve.
Nunca houve tanta gente a pedir esmola, disfarçadamente,
baixinho, às portas dos supermercados, lojas, metropolitano, estações de comboio
e até no aeroporto, para não falar nas ruas.
Falta vontade para acreditar num futuro, a maioria nem sabe
como vai viver nos próximos meses.
O Papa sai, até ele, sem forças para aguentar o peso do
mundo, mais do que da idade, parece-me, mas não estou dentro do Vaticano.
Diz lá o que achas, pois deves estar bem informado. Vale a
pena comprar coroas suecas ou norueguesas? O euro vai soçobrar? Como vamos
viver na velhice? Vem aí o Anticristo? Acaba o mundo para breve?
É urgente que me respondas pois tenho cerca de 48.000
leitores no meu blogue que acreditam no que me escreves e sobretudo nos teus
conselhos. Vê lá não nos desapontes e sobretudo não te enganes, caraças!. Encontrei uma
nota de cem escudos por detrás de uma gaveta que caiu com estrondo: achei de
mau agoiro.
Ouve lá, consigo contactar com o Ministro das
Finanças por e-mail e ele simpaticamente responde-me a perguntas objectivas, é
claro, nada do meu interesse pessoal, por isso se tiveres alguma recomendação
aproveita.
Pergunta por curiosidade ao Salazar o que ele faria
se estivesse nestes assados, e também já agora ao Cunhal pois sempre pode dar
jeito um ditador de esquerda – ia tudo de cana e dava um certo gozo ver o
Oliveira e Costa, o Vara e o Dias Loureiro bem como o inefável Sócrates e quejandos
a pagarem pelo que nos fizeram - , e olha e porque não ao D. João II, o Príncipe
Perfeito…enfim, a quem tu encontrares por aí e que te pareça de confiança. Não
percas tempo com os Apóstolos nem com gente antiga, não percebem nada de nada. Deixaram
o patrão acabar mal.
Hás de um dia destes apurar se a Eva sucumbiu a uma maçã,
havendo tantas frutas tão mais saborosas ou se é tudo treta.
Eu por mim gosto mais de nêsperas!
Um abraço muito amigo do teu primo muito afeiçoado
Manuel
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Pai, estamos pobres?
"Pai, estamos pobres?"
Estremeceu ao ouvir esta simples questão a qual, embora com apenas
alguns laivos de racionalismo não apresentava nenhuma inocência. Perante
um olhar taciturno mas simultaneamente despreocupado, ficou impotente
para responder com o imediatismo necessário, tal como era hábito.
- Pobres? Sorriu engolindo em seco.
- De modo algum. Como poderíamos estar pobres se nunca fomos ricos?
Obviamente que para uma criança de cinco anos estava a ser confuso ver
desaparecer alguns objectos da casa, diminuir o número de horas em que à
noite se via televisão, entre outros cortes necessários para uma gestão
eficaz, eram estas as palavras. O facto de ter saído do colégio
deixando para trás amigos de sempre tinha sido difícil de ultrapassar,
assim como a inexplicável presença dos pais em casa a horas que
habitualmente seriam de trabalho. A simples pergunta "nunca mais me
levaste ao teu trabalho" levou dias a ser respondida até que se
conseguisse uma explicação possível, o que nunca aconteceu.
A
palavra pobre soava como trovoada seca numa noite de Verão, como um
trapezista a quem falha por centímetros a barra e verifica que sempre
esteve a actuar sem rede. Foi assim que conseguiu acalmar uma mente
exigente e traidora, sem escrúpulos, que não tinha feito soar as
campainhas de alarme quando todo o baralho já se inclinava para um dos
lados.
O despedimento foi como um murro no estômago. Na verdade o
mundo estava a mudar, mas, que diabo, nunca pensou que fizesse dele bode
espiatório. Fez e não foi meigo. A parca indemnização foi abatendo
algumas dívidas e o subsidio dava apenas para uma refeição diária.
Apenas a filha usufruía de todas as que tinha direito, sem saber no
entanto que a última - também questionada pela sua hora tardia - era já
fruto de caridade.
Sim, estavam pobres. Envergonhadamente pobres.
"Mãe, estamos pobres?"
Com um sorriso que só as mães sabem exprimir, afagou-lhe o cabelo rebelde e acenou com a cabeça. Estavam na realidade pobres.
Já não conseguia contar o tempo passado no campo de refugiados, sob lei
marcial e uma guerra sem tréguas. Vira ser-lhe tirado o único filho
ainda vivo e guardou sem gemidos a dor proveniente de violações
sucessivas. Sabia que jamais iria esquecer, mas essa não era a
prioridade no momento. Sobreviver era a única chama que lhe alimentara o
espírito nas longas noites de bruma.
Sabia por rumores aqui e ali
que o filho permanecia vivo. Mas o campo era enorme e os movimentos
toldados pelos vários grupos armados.
Por uns tempos pensou que o
fim tinha chegado. Luas passaram sem uma mão de arroz ou uma colher de
água. A insalubridade instalou-se e a vergonha desceu o seu manto negro,
levando-a à doença. Desnutrida, foi-lhe colocado o sinal redondo
vermelho à volta do pescoço : prioridade mínima. Adormeceu.
Por
esses dias o movimento no campo alterou-se e começaram a ouvir-se mais
gritos que gemidos, mais velas que escuridão. Retiraram-na do canto onde
se encontrava tolhida e colocaram-na a soro. Gradualmente alguma força
voltava aos seus braços e as mãos já conseguiam suster a pouca água de
arroz que lhe forneciam duas vezes ao dia. Os voluntários da paz
tornaram-se os seus mais íntimos confidentes.
Dois anos depois, o
campo era já uma miragem dolorosa mas passada. Um casebre de duas
pequenas divisões onde coabitava com o filho entretanto recuperado,
fizeram voltar o brilho a uns olhos castanhos um dia quase corroídos
pelos insectos.
Sorrindo, afagou mais uma vez os cabelos do pequeno. Sim, estamos finalmente pobres.
JCL
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