quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Saramago e Deus


O Sr. Hugo Loureiro, que não conheço, publicou no facebook este comentário que acho muito divertido:

A questão é que ele ao chamar " filho da puta " a Deus parte do pressuposto que Deus tem uma mãe; o que é ser mais crente do que qualquer fiel comum, uma vez que até hoje ainda não ouvi a Igreja falar sobre a progenitora do Todo Poderoso.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Há vida para além do futebol


O salazarismo serviu-se do futebol como emblema das virtudes do regime. Do futebol, do fado e de Fátima. Há um pouco de exagero nesta afirmação, que fez caminho anos a fio. Agora, então, com esta esquizofrenia quase generalizada, que regime serve o futebol? Há umas semanas, Rui Santos (sobrinho de um grande jornalista, Vítor Santos, que foi chefe de redacção de "A Bola") dizia, na SIC Notícias, da dimensão excessiva que o futebol adquirira na vida portuguesa. E advertia que o jogo não era tudo: os problemas nacionais eram mais imperiosos.

É evidente: o futebol converteu-se num negócio fabuloso, com milhões de milhões a trocar o passo a todas as probidades. Onde há dinheiro aos montes há corrupção correspondente, no-lo diz a sabedoria dos povos. Assistimos, além disso, ao súbito nascimento mediático de uma corja de analfabetos, com "mais tempo de antena do que qualquer outra pessoa de outra qualquer actividade" [Rui Santos, SIC Notícias].

Julgo saber que o comentador da SIC alimenta muitos verdetes. Não é importante: a ciumeira e a inveja sempre se associaram contra quem escapa às regras da arte. A verdade é que o abuso de espaço e de tempo que as televisões atribuem ao futebol e adjacências chega a ser doentio. Que dizer das respostas dos jogadores às extraordinárias perguntas dos "jornalistas" de plantão? O festival de cretinice não pertence, em sistema de exclusividade, aos primeiros: o amorfismo cabe, por inteiro, aos segundos. Parece haver um temor reverencial ao mundo dos negócios futebolísticos. Ninguém, ou quase, se atreve a revelar o que subjaz a tudo aquilo. E a famosa "transparência" não passa de um vidro muito opaco. Os vencimentos são manipulados, os privilégios de dirigentes, subdirigentes e pequenos vassalos são zelosamente omitidos.

Cansa-me, a mim e a muitos mais portugueses, a importância quase sagrada que se concede a um penalty que não chegou a ser; a fúria causada por um encontrão; as ameaças de morte a um árbitro por ter apitado mal. Há três diários de futebol, com tiragens que justificam, afinal, a sua existência, e nem um, um sequer, assume posições críticas acerca destas e de outras poucas-vergonhas. Durante a fase mais acesa do Apito Dourado, e ante o espectral silêncio daquela imprensa, perguntei a um camarada meu, importante redactor de um importante jornal "desportivo" o porquê daquele comportamento. Numa metáfora rigorosa respondeu: "O medo guarda a vinha." Outro, disse-me que o assunto pertencia à área da Imprensa "generalista." E eu fiquei-me, entre o assombro e a perplexidade.

Claro que a insistência doentia, quase hora a hora, no futebol, nos comentários, nas previsões, nas análises remove do português comum qualquer reflexão acerca da sua própria situação social. As agendas dos jornais, os alinhamentos e as opções das televisões e das rádios merecem uma vigilância crítica dos próprios profissionais. O que não existe. Manifesta-se uma total subserviência aos imperativos do que dizem ser as exigências do público. É uma velha pecha e uma desculpa fatigante de quem abdicou do dever mais sagrado da comunicação social: informar e esclarecer para formar.

Apesar de tudo, das limitações da época antiga, das censuras e dos constrangimentos, nem sempre as coisas atingiram níveis tão surpreendentemente baixos. "A Bola", por exemplo, que reuniu um admirável conjunto de redactores, abriu um precedente extraordinário. Cândido de Oliveira, homem excepcional, convidou o crítico e ensaísta literário João Gaspar Simões a colaborar no, então, julgo, bissemanário. Na última página de "A Bola", Gaspar Simões escrevia um rodapé intitulado "Cartas a um Jovem Desportista que se Interessa pela Cultura." Muitos dos rapazes desse tempo (eu incluído) aprendemos mais literatura, arte, cinema, teatro, do que o ensino oficial praticado. Mais tarde, Carlos Pinhão, estilista do idioma e carácter incomum, convidou escritores a colaborar no jornal, dando continuidade a uma grande tradição. Lá estava eu. De novo e, posteriormente, chamado por Vítor Serpa, voltei a publicar crónicas no, então, já diário.

Havia a preocupação ética e cívica de não tornar o futebol num sistema de exclusividade informativo. E as próprias secções do grande jornal não falavam, apenas, naquele desporto. Alfredo Farinha (falecido há dias), Aurélio Márcio, Vítor Santos e Pinhão, mas também Carlos Miranda, Santos Neves, Cruz Santos, outros, fizeram de "A Bola" um órgão distintivo na Imprensa portuguesa. A preocupação com a escrita associava-se a um forte empenho moral.

Tudo se alterou substancialmente na urgência de se estabelecer um compromisso com aquilo que se presumia (e presume) ser o que o leitor deseja. É um problema preocupante, mas que segue as linhas gerais da Imprensa. A ausência de relações culturais, o receio de se perder tiragens, a inexistência de uma forte atitude crítica, o cuidado temeroso e extremo com que se escreve sobre temas "escaldantes", ou, simplesmente, não se escreve - transformou os jornais "desportivos" em folhas quase amorfas, nas quais se sobrelevam os aspectos fúteis em detrimento das grandes questões.

Há vida para além do futebol.

Baptista Bastos

terrível profecia


Como as velhas famílias falidas que ostentam o brasão e comem a crédito nos restaurantes da moda, a Europa tenta salvar o pouco que ainda resta do seu modelo social criado noutros tempos e por outra gente.

A II Guerra acabou só há 65 anos. Devastada e faminta, a Europa de então ergueu-se ensaiando uma unidade feita de valores comuns, assente na alternância e cimentada no diálogo entre movimentos sociais fortes e articulados.

Lideranças e governos provinham da excelência da política, da cultura, da sociedade e das academias. Depois a Europa aburguesou-se. E alargou-se contagiando vícios e perdendo virtudes.

O Estado do Bem-Estar pareceu coisa eterna e indestrutível. Tornou-se egoísta e narcisista, esquecendo os escombros onde se reinventou. Assemelhou-se à imagem do capitalista gordo e de charuto difundida pelos marxistas nos tempos da guerra fria.

Leu as cartilhas epicuristas e consumiu o presente com a avidez de um cigarro que se desfaz em cinza e nada. Enjeitou os seus valores fundacionais e prosseguiu políticas de controlo da natalidade como se não houvesse futuro.

Abriu as portas a movimentos populacionais que quis aculturar sem êxito e depois controlar sem piedade. É essa Europa perdulária e esbanjadora, servida por lideranças medíocres, formada por povos descrentes sem mais dinheiro para alimentar a sua preguiça, que corre o risco de implodir.

Não é fácil impor sacrifícios a quem da vida sempre teve a noção do desfrute. Por isso, esta Europa da crise está à mercê do primeiro populista que apareça para lá dos Pirenéus e reclame a sua desagregação. E não serão as pusilânimes lideranças europeias do momento (porventura à excepção de Merkel e de poucos mais) que terão o engenho, a coragem moral e a confiança pública para os enfrentar. Este é o drama. Pior. A terrível profecia.

José Luís Seixas

Provar o futuro


Tentar provar o futuro é muito mais interessante do que poder conhecê-lo. Como no jogo, não o ganhar, mas o poder ganhar. Porque nenhuma vitória se ganha se se não puder perder.

Virgílio Ferreira

Abeilles...


Un jour Jane rencontre Tarzan dans la jungle. Elle se sent aussitôt très attirée par sa bestialité et alors qu'ils faisaient connaissance et qu'elle lui expliquait toute sorte de choses, elle lui demanda comment il faisait par rapport au sexe.
- Quoi être sexe ? Jane lui explique séance tenante et il lui dit :
- Ah, moi habitude utiliser trou dans arbre.
Horrifiée, elle lui dit :
- Mais Tarzan, tu te trompes. C'est pas un arbre qu'il faut utiliser. Je te montre. Elle enlève alors rapidement ses vêtements, se couche par terre et lui dévoile son intimité.
- Ici Tarzan. Il faut mettre ton sexe ici. Tarzan se met alors à poil, s'avance vers Jane et lui donne un gros coup de pied dans le sexe. Jane se tord de douleur et après un bon moment, encore interloquée, elle lui demande:
- Mais pourquoi tu m'as fait ça ?
- Moi vérifier si pas abeilles...

Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo.



Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

negrinho inocente


Não sei se sabem que eu sou Cônsul-Geral da República da Serra Leôa em Portugal (há muitos anos já) e tenho cerca de 400 africanos deste país que por cá habitam e trabalham.

Sou uma espécie de Padrinho que zelo por eles, protegendo-os e defendendo-os e por isso gostam muito de mim.

Porque digo isto? Porque hoje esteve cá um negrinho com uma cara redonda e uns olhos expressivos e bem novinho e depois de tratarmos de assuntos consulares perguntei-lhe se ele era muçulmano ao que disse que sim.

De propósito ofereci-lhe com um ar maroto se não queria um whiskey e ele desatou numa enorme gargalhada a dizer que não bebia álcool, nem fumava.

Conversa (aliás agradável) puxa conversa e derrapámos para a morte e céu e o inferno e pecados...acho que saiu do Consulado com a fé dele menos fortalecida...sou tão mau!

Combinámos que da próxima ele me trazia argumentos mais convincentes sobre o céu...

Ele abalou com um sorriso de orelha a orelha e a ouvir eu perguntar-lhe se porventura ele conhecesse alguém do céu ou do inferno que me apresentasse.

Eu estive tentado a falar-lhe da minha correspondência com o meu primo Luis Bernardo..

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Que haja silêncio para se ouvir o murmúrio dos deuses


O poeta americano Ralph Waldo Emerson escreveu:

" Que haja silêncio para podermos ouvir o murmúrio dos deuses", dizendo com estas palavras o que os homens antigos sugerem há milénios : o encanto do mundo só pode sobrevir no silêncio.

É certamente disso que o homem moderno tem horror: que no silêncio se oiça enfim o barulho do desencanto, se revele o vazio de um mundo reduzido à diminuta dimensão de todos os dias, se sinta a solidão com que cada um tem de lidar com a sua angústia.

sábado, 19 de novembro de 2011

Les plaisirs de lire


Relire son livre préféré
Découvrir avec émerveillement qu'un livre peut se lire à l'envers
Regarder quelqu'un lire le livre qu'on aime
Lire la dernière page d'un livre pour connaître la fin de l'histoire
Commencer un livre quand le train part, et le finir juste avant l'arrivée
Lire des citations savoureuses, et les recopier dans un carnet pour les conserver comme des trésors
Attendre un peu avant de tourner la dernière page
Aimer un livre que quelqu'un qu'on aime à aimé
Regarder une pile de livres
Mettre de côté des livres en pile pour les lire demain, la semaine prochaine, le mois prochain, bref plus tard
Faire la lecture à quelqu'un
Attendre un livre qu'on a très envie de lire
Arrêter de lire et regarder le ciel
Lire toute la nuit
Lire pour la énième fois un livre de toute notre vie mais là, ce n'est pas celui de la bibliothèque, comme d'habitude, mais le sien, que l'on vient d'acheter


« La littérature, c'est la vie concentrée servie aux lecteurs dans leur fauteuil, c'est le fruit de millions d'expériences dont ils n'auraient pas le temps de vivre la plus infime partie! Elle nous fait participer à une sorte d'éternité, elle nous rend comme Dieu : omniprésents, dans tous les lieux, dans tous les temps! La fréquenter ne rend pas nécessairement plus sage, mais elle nous aide à être moins sot. »

Yves Beauchemin

sábado, 12 de novembro de 2011

Teimosia e fanatismo


É muito complicado querer perceber quando uma pessoa se torna fanática.

Uma coisa é certa, nem todos os teimosos são necessariamente fanáticos, mas todos os fanáticos transformam-se sempre em teimosos.

A verdade deles é a única que prevalece em qualquer discussão ou interpretação. Portanto, um fanático é um duplo teimoso, no mínimo.

Num teimoso, a sua verdade é a que deve prevalecer, custe o que custar.

Todo o processo de introspecção e auto-análise pode ser efectuado através de dois caminhos:

O mais recomendado, e correcto até, é o conseguirmos interpretar a nossa postura que esteja em conflito com o princípio da causalidade.

O outro caminho é o de nos acharmos senhores absolutos da verdade, mesmo que isso signifique péssimas “colheitas” futuras em termos de satisfações e de controle emocional.

Falhar faz parte da aprendizagem de como se não quer ser. Errar é continuar a repetir as falhas de uma forma cega e ignorante.

Cada ser humano possui a sua verdade. Ela é fruto do quanto cada um já evoluiu e de quantas experiências já viveu. Por isso o mais importante não é o que sabemos, mas sim o que fazemos com o que sabemos. Ainda mais, com que rapidez pomos em prática o que sabemos.

Todos os fanáticos são ignorantes que se acham inteligentes.

Assim, encontramos o fanatismo em todos as pessoas que têm uma obediência cega a uma ideia. Muitas religiões são mestres em conseguir esse "seguidismo" cego e fanático dos seus fiéis.

É preciso muita reflexão e ponderação para encontrarmos o “dragão” que existe dentro de nós e, assim, fazermos com que ele viva na sua plenitude no nosso íntimo.

Sem estar “desperto”, somos um pouco mais do que nada. Seguimos qualquer coisa que possa dar-nos serenidade em momentos de adversidade e depois deixamos de saber o que realmente somos. Tornamo-nos num robot...

Provavelmente, o caminho mais curto, para o abandono do fanatismo e teimosia, é desfazermo-nos das “bengalas” de algumas religiões e, assim, conseguirmos caminhar com as nossas próprias “pernas”, lúcidos e sem fazermos aos outros o que não queremos que façam connosco.

O ser humano precisa, sobretudo, de saber que ele é hoje o que decidiu ser ontem.

MNA

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

tiempos dificiles


A aquel hombre le pidieron su tiempo
para que lo juntara al tiempo de la Historia.
Le pidieron las manos,
porque para una época difícil
nada hay mejor que un par de buenas manos.
Le pidieron los ojos
que alguna vez tuvieron lágrimas
para que no contemplara el lado claro
(especialmente el lado claro de la vida)
porque para el horror basta un ojo de asombro.
Le pidieron sus labios
resecos y cuarteados para afirmar,
para erigir, con cada afirmación, un sueño
(el-alto-sueño);
le pidieron las piernas,
duras y nudosas,
(sus viejas piernas andariegas)
porque en tiempos difíciles
¿algo hay mejor que un par de piernas
para la construcción o la trinchera?
Le pidieron el bosque que lo nutrió de niño,
con su árbol obediente.
Le pidieron el pecho, el corazón, los hombros.
Le dijeron
que eso era estrictamente necesario.
Le explicaron después
que toda esta donación resultaría inútil
sin entregar la lengua,
porque en tiempos difíciles
nada es tan útil para atajar el odio o la mentira.
Y finalmente le rogaron
que, por favor, echase a andar,
porque en tiempos difíciles
ésta es, sin duda, la prueba decisiva.

boring life


Life is so boring
first off to bed and snoring

Wake up, make up and dress up
off to work, only to mess up

One o’ clock, time for lunch
where you only have time to munch

Back to routine work
only to face the boss who is a jerk

When I wonder will five o’clock come
cos’ that’s the time to be home

Home? Oh to the same old house of mine
going back home, waiting for dinner time

After that, TV time just sitting there
in front of the idiot box and stare and stare

Then what? But off to bed of course
and have my life restart its course

Round and round it goes…
When it will stop nobody knows.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

DESPERTAR É PRECISO



Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.

Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissèmos nada, já não podemos dizer nada.

Vladimir Maiakóvski

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A sabedoria do rinoceronte



Mantém-te placidamente no meio do ruído e da pressa e lembra-te de quanta paz podes encontrar no silêncio.

Tanto quanto possível, e sem cedências tenta estar de bem com toda a gente. Fala a tua verdade com tranquilidade e clareza e escuta os outros, mesmo os estúpidos e os ignorantes pois eles também têm a sua história.

Evita as pessoas barulhentas e agressivas, pois são vexames para o espírito.

Ao comparar-te com os outros, podes tornar-te vaidoso e mordaz, pois haverá sempre pessoas melhores e piores do que tu.

Desfruta com prazer as tuas realizações e os teus projectos; mantém-te interessado na tua própria carreira, mesmo que humilde, pois é pelo menos uma garantia contra as súbitas mudanças e imprevistos da sorte.

Exerce a prudência nos teus negócios, pois o mundo está cheio de artifícios. Mas não deixes que isto te impeça de ver aonde está a virtude, pois há muita gente que luta por grandes ideais e em todo o lado a vida está cheia de heroísmo.

Sê tu próprio. Especialmente não simules a afeição, nem sejas cínico sobre o amor, pois para muitos a aridez e o desencanto são perenes como a erva daninha.

Aceita bondosamente o conselho dos anos, cedendo com modernidade às coisas da juventude. Cria força de espírito para te escudares contra os súbitos infortúnios, mas não te atormentes com especulações. Muitos medos são fruto da fadiga e da solidão.

Para além de uma saudável disciplina, sê gentil para ti próprio. Tu és filho do Universo, nem mais nem menos do que as árvores e as estrelas e tens o direito de estar aqui. E seja ou não claro para ti, não duvides que o Universo está a revelar-se como ele é.

Por isso fica em paz com Deus, qualquer que seja a forma como O concebas e quaisquer que sejam os teus trabalhos e aspirações, no meio da confusão ruidosa da vida, conserva a paz com a tua alma.

Com todos os seus enganos e seduções, a sua penosidade e sonhos desfeitos, este é ainda um mundo maravilhoso. Sê prudente. Luta para seres feliz.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A linguagem



Gostava de começar por apresentar duas conhecidas e controversas perspectivas sobre a linguagem, mas nada contraditórias na minha opinião.

A primeira é uma queixa tantas vezes ouvida de que a linguagem é de alguma maneira inadequada para captar, ou reconhecer, a nossa vida interior, as nossas experiências privadas.

Como podemos percepcionar em palavras os nossos sentimentos? As descrições parecem tão inexpressivas, tão longínquas, tão frias em relação à vivacidade de uma sensação ou emoção.

Os seres humanos, porém, precisam da linguagem, apesar de estarem reféns dela.

Para descrever o que se avista de uma janela, ou mesmo uma flor num vaso pousado numa mesa (escura no centro, com as folhas murchas nas pontas, iluminada pelo sol da manhã, reflectida num espelho) podem-se enumerar mil situações e mesmo assim falhar…em conseguir pôr em linguagem tão completa quanto possível tudo quanto a flor possui nas suas propriedades.

E se a especificidade, “coisificação” daquilo a que chamamos “ objectos concretos” é tão inacessível á linguagem corrente, quanto mais inacessível não será a de transmitir a sensação de um momento no nosso pensamento, ou o humor, uma visão ou uma atitude.

A segunda perspectiva, também conhecida, é a de que só podemos compreender completamente as descrições da vida privada de terceiros, os seus sentimentos e experiências, se tivermos experimentado as mesmas sensações.

Isto leva-nos até à afirmação tantas vezes ouvida de que “ não podes compreender totalmente o que estou a tentar dizer-te, porque nunca o sentiste como eu”!

Determinadas descrições de certas espécies de experiências podem unicamente ser entendidas por uma pessoa que as tenha tido de uma forma semelhante.

O problema é o de que o âmago da verdade sai distorcido se associado muito de perto a uma determinada concepção do seu significado.

John Locke dá-nos uma perfeita definição ao dizer que as palavras, no seu sentido mais simples e primário, significam nada mais do que as ideias do pensamento de quem as usou. As palavras, segundo ele, são a exteriorização de ideias nas mentes das pessoas.

Por outro lado, não se pode compreender o significado da palavra “ vermelho” excepto se tivermos visto coisas encarnadas. De nada serve aprender línguas, ou consultar dicionários. Por isso também se pode aceitar que o sentido das palavras é precisamente o objecto que cada qual utiliza quando observa coisas encarnadas.

Que conclusões podemos tirar?

A poesia é a única que fala a linguagem das palavras.

A palavra, para além de ser a matéria-prima da criação da poesia, é o instrumento utilizado pelo poeta para expressar os seus estados de alma, extravasando, dessa forma, os seus mais íntimos sentimentos.

Assim sendo, o peso e o valor da palavra dependem, e muito, do modo como esta é articulada e, principalmente, dos acréscimos de significado que o poeta lhe dá.

Na poesia, a linguagem não é apenas um sistema orgânico do qual lançamos mão para nos expressarmos e comunicarmos com as outras pessoas. Nela, a linguagem apresenta-se como um "ser vivo" e, como tal, possui vida, personalidade e determinadas “nuances” que a tornam única quando comparada com as demais formas de manifestações linguísticas.

Na minha opinião a linguagem possui três funções fundamentais no esquema da comunicação: a representação, a expressão e o apelo.

A palavra, assim, transforma-se num instrumento utilizado pelo poeta para retratar a sua visão de e sobre o mundo; é o código por ele utilizado para traduzir os seus sentimentos e desnudar as suas emoções. Possui vida, é nervosa, auto-suficiente e criadora de outras palavras que, por sua vez, possuem um novo significado. No poema, a palavra é que faz nascer o "espaço."


Som da Linguagem

Por vezes reaprendo
o som inesquecível da linguagem

Há muito desligadas
formam frases instáveis as palavras

Aos excessos do céu cede o silêncio e
as constelações caem vitimadas
pelo eco da fala

Gastão Cruz, in "Campânula"

sábado, 29 de outubro de 2011

Há amor para sempre? Há saúde eterna? Há empregos definitivos? Há sol ou lua sempre iguais?


Hoje resolvi parar por uns momentos para pensar um pouco.

Tenho nos últimos meses trabalhado muito e com pouco recolhimento para grandes reflexões.

Actividade em demasia não é saudável sob nenhum ponto de vista: para o corpo, para o espírito e sobretudo para um certo desejo de felicidade.

Na verdade, nascem uns, para outros vão passando os anos, mas o que fica sempre é esta sensação de caducidade, de provisório em tudo o que fazemos ou sentimos.

Há amor para sempre? Há saúde eterna? Há empregos definitivos? Há sol ou lua sempre iguais?

Há sobretudo um humor permanente, sem desvios?

Pois as respostas a estas perguntas, que na minha opinião são de um rotundo não, fazem com que os nossos dias não sejam mais do que um passeio transitório por este mundo.

Quando chegar a solidão, a velhice e a morte nada nos deve surpreender pois se formos atentos, tudo é previsível.

Pareço negativo, sorumbático, deprimido…nada disso!

Talvez cansado mas realista.

Mesmo as boas alegrias que são picos de felicidade, uma vez os primeiros momentos passados, tornam-se rotineiras. Não se pode estar sempre esfusiante…seria tremendo!

Tenho ouvido dizer que há estimulantes sexuais que dão potência seguida durante 72 horas, passe a publicidade! Que grande maçada deve ser ter que se fazer sexo para aproveitar os efeitos erógenos!

Em conclusão, mais uma vez estou a ser desmancha-prazeres pois deveria incensar os nossos tempos presentes, ressaltando o positivo, ainda que pouco se vislumbre.

Mas se não sinto que haja motivos para ter esperança na Europa, em Portugal e até no Mundo tal como avança, então porque hei-de disfarçar o meu descontentamento, a minha desilusão, o meu desalento e a “preguiça” do futuro risonho?

Claro que desistir é morrer, mas uma coisa é continuar a lutar, outra é, de momento, sorrir imbecilmente e achar que tudo é delico-doce!

Há pequenos oásis de paz e felicidade e há espaço para desejar sorte e mudança para quem acaba de nascer.

Talvez daqui a umas generosas dezenas de anos, os neófitos possam almejar ter uma vida mais harmoniosa.

Eu estarei de certeza ao lado do meu primo Luis Bernardo, no Além, em alegre caturreira observando o planeta terráqueo!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Evadido


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Para ser Grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Desafio




Olá,

Hoje escrevo para ti!

Sim, para ti que passas por aqui sem nunca dizer nada!

Já te apanhei uma vez ou duas a ler uns bocaditos, a ouvir uma musica e a olhar para uma das fotografias!

Por isso aceita o desafio… Escreve um texto sobre a foto.

Bem sei que nem nos comentários escreves, mas isto é diferente: podes ter um post que ninguém vai ler!

Será coisa para contares aos filhos e até aos netos!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A recuperação da culpa


A Cultura Europeia encontra-se, há pelo menos seis décadas, numa situação embaraçosa. Ao serem solucionados problemas da saúde e do trabalho; ao crescerem as hipóteses e as profecias do bem-estar, o espírito criador foi sofrendo na sua raiz uma lesão profunda. A solidão, tão cara ao homem de pensamento e necessária à sua originalidade, foi sendo condenada pelo apelo à aldeia global. As fronteiras, ao caírem, produziram um fenómeno de desorientação; os mass-media, ao servirem os grandes espaços geofísicos, contribuíram para uma desmobilização do génio.

Não é de estranhar que a Cultura se tornasse uma espécie de cruzada, sem objetivos exceto os de menos alcance e que competem aos programas locais, de divulgação mais excitante. Mas o pensamento ficou bloqueado, o cérebro humano não responde aos estímulos da paixão criadora. Os modelos heroicos foram surpreendidos por uma concorrência de robots, que desiludem os homens e deixam as sociedades perturbadas quanto aos seus direitos à imaginação própria. No entanto, é preciso enfrentar as condições oferecidas por uma nova era que se quer propensa à esperança genuína dos povos. Uma era de Cultura.

A Cultura é, em princípio, um sentimento de afeto pelo mundo que nos rodeia. Se o afeto das situações não for contemplado, a Cultura não passa do âmbito das instituições que a nomeiam e tentam proteger. Ao ampliar os seus horizontes físicos, o homem sente-se tentado a julgar-se preparado para o acontecimento da Cultura. Porém, conhecer mais nomes célebres e lugares estranhos não desperta o caráter primordial duma cultura, que é o ser livre de orgulho e dispensado da inteligência de grupo. Toda a diferenciação cria qualquer forma de fanatismo. A Cultura instalou-se sempre partindo duma diferenciação. É um direito, sem dúvida, mas em que medida um direito não é também uma culpa?

Para vivermos plenamente um direito, temos de nos mover dentro do afeto desse direito. Não na autoridade ou no espírito da lei que lhe assiste, mas no afeto do direito. E o afeto da culpa? Quando ele nos é negado, morremos no corpo e no espírito.

A um auditório de mulheres de cultura, faria sentido eu dirigir a seguinte pergunta: porque é que a culpa foi, através dos tempos, atribuída às mulheres? Ao atribuir-se à mulher um estado de culpa, não se estará a dignificar a culpa como motivadora duma civilização? É possível. Nesse caso, a mulher, como portadora duma culpa, é sempre iniciadora duma cultura. A culpa, nesse caso e aqui, não é um opróbrio, mas uma consequência da própria infalibilidade. Só da culpa a pessoa pode elevar-se. A cultura parte do pressuposto duma culpa. Só ela se interroga. Só ela desencadeia o conflito.

S. Boaventura, porque observa a ordem da justiça com particular atenção, considera o pecado original não só imputável à mulher, mas também ao varão por não a ter contido e reprimido. O homem teme, ao mover a mulher a seguir a razão, perder a sua parte de deleite sensual de que a sociedade fez um bem útil. É de prever que novas capacidades intelectuais e morais estejam em evolução no homem do futuro. A sua sensibilidade ganhará forma no sentido de o aproximar de uma linguagem mais universal do que tribal. A literatura e as artes serão cultivadas como uma religião de ascetas, provavelmente. A ascese é a escolha duma inovação. É uma prova da inovação.

Entretanto, um dos grandes impasses da Cultura reside nos conflitos entre o prazer que a sociedade adapta ao seu sistema, e a vinculação ao desprazer, ou seja, ao trabalho e a todas as propostas difíceis.

O mundo está constituído por etnias cujas contradições não são absorvidas tão rapidamente como se movem e se reproduzem. A Cultura, fenómeno de sedimentação de experiências, tornou-se num expediente, numa tática e num consentimento sem obra.

Todas as pessoas possuem um dom que protege há milhões de anos a sua vida na terra. É uma espécie de infalibilidade que previne o instinto de morte de se desenvolver e nos destruir. Não tem a ver com a opção, mas com um acordo comum entre todas as espécies. A vontade do homem apoia assim o interesse dos políticos que, como Ciro, fazem de cada lar um bordel, para deste modo governarem as metrópoles com menos despesa de guarnições.

A Europa enfrenta-se com o seu dom de infalibilidade. Decisão, partilha, amor e cultura têm de ser conduzidos pela mão da infalibilidade. Senão, tudo não passará de muito barulho para nada.

O afeto da cultura, mais do que o planeamento da Cultura, a infalibilidade, mais do que a certeza, serão auxiliares para nos podermos conhecer e libertar.

São estas as ideias para uma renovação da Cultura. São ideias que marcam o entendimento do tempo comum europeu, tanto atlântico como mediterrânico.

O tempo europeu, subsidiário da cultura helénica e romana, encontra hoje o vazio do pensamento que a serviu. As dicotomias bem e mal, justo e injusto, puro e impuro, sofrem grandes provações. A tendência é para recuperar do passado velhas fórmulas cuja sabedoria está confundida com preconceitos mutáveis.

Que nome daremos à atualidade da culpa, única forma de instaurar uma cultura? É com certeza nome de mulher. O nome do eterno feminino que o Dr. Fausto reconheceu não sem admiração. «A tua incerteza mata-me» - diz Fausto a Margarida. E ela está completamente nas últimas palavras que profere: «Causas-me horror!»

Freud deu o último abanão ao sentimento burguês de culpa. Depois disso a sociedade não parou de conferir ao prazer uma inteligência como forma de reprimir os ideais, mais perigosos do que o instinto do prazer.

É certo que a culpa pode submeter os homens a um simples treino da infelicidade. Hoje, o homem está capacitado de ser infeliz, apesar de as condições de vida serem melhores. Os seus padecimentos são demonstrados, são, por assim dizer, consumidos. Mas não correspondem a qualquer glória integrada no mistério humano.

Conheci uma mulher pobre e, além disso, atrasada mental. Ela passava os dias prestando serviços gratuitos numa pequena loja onde eu ia fazer as minhas compras do dia: o pão, o leite, a fruta. Ela vigiava-me para que eu não escolhesse a fruta e repreendia-me se eu o fazia. Até que, um dia, a dona da loja lhe fez ver que eu era uma pessoa importante e que não podia tratar-me dessa maneira. No fundo, eu achei que aquela mulher era idiota e que alguém devia pô-la na ordem.

Só que, alguns dias depois, a mulher apareceu morta em casa. Embora todos comentassem aquilo sem qualquer emoção duradoura, eu pensei que alguma coisa teria acontecido que lhe tivesse provocado a morte. Ela tinha sido atingida na sua infalibilidade. Há um ponto na razão que comandou a infalibilidade, o direito de julgar e de agir conforme o afeto da justiça. Eu tinha ferido de morte a infalibilidade dessa mulher. Ela viu-se como todos a viam: pobre e inútil, sobretudo, fora da inteligência da culpa. Eu e os outros não a culpávamos. Mas também não a amávamos.

A mulher-objeto, a mulher-demónio, não são senão interpretações da culpa. A mulher não representa maior perigosidade do que o homem, e isso tenta-se demonstrar ao situá-la numa escala inferior, ou numa situação submissa. Mas o que muito se demonstra sofre de falta de convicção.

A mulher conhece-se a si mesma; o homem não. Não é por acaso que o oráculo de Delfos, uma mulher, aconselhe o homem a conhecer-se a si mesmo, o que produziria o estado de culpa. A culpa que não se descreve por meio de qualquer linguagem, é unicamente uma via onde se cruzam a vida e a morte.



Texto inédito escrito entre 1990 e 1993, publicado no jornal “Público” a 15 de outubro de 2011, dia em que Agustina Bessa-Luís completou 89 anos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Como é que se esquece alguém que se ama?


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso

domingo, 9 de outubro de 2011

Conversa entre bonecas


O almoço

O restaurante era pequeno – poder-se-ia qualificá-lo de cosy. Isabel olhou à volta com o à vontade e prática de uma médica que tudo inspecciona. Gostou da sala: tinha sido Graça quem o escolhera mas Isabel achava o ambiente bem agradável, mesmo encantador.

Chegara dez minutos antes: detestava atrasos. Talvez essa fosse uma das razões porque gostava tanto de Lu Yang: era disciplinado e tinha maneiras. Tinha ascendido a um cargo importante no hospital apesar de estrangeiro naturalizado. Era uns anos mais novo do que ela e beneficiava logicamente da sua maturidade.

Além disso era fantástico na cama. Este último pensamento fê-la sorrir e corar. Estava confiante de que em breve desse o passo em frente. Adoraria casar-se com Lu Yang. Isabel achava que faziam o par ideal coincidindo em quase tudo. Os filhos dos dois seriam lindos. Esta ideia fê-la regressar de novo à realidade e a pensar em Graça.

Tinha acontecido já há sete meses e Isabel ficara deveras surpreendida quando Graça Simões, a convidara para almoçar. Nunca tinham sido particularmente próximas, apesar dos acontecimentos as terem colocado no mesmo palco. Graça conheceu José Simões, o director do hospital aonde Isabel trabalhava, com quem namorou e se casou.

Graça entrou no bistrot, topou-a de imediato e sorriu. Isabel retribui-lhe o sorriso e levantou-se quando ela se aproximou da mesa. Estendeu-lhe a mão para cortesmente a cumprimentar quando Graça a surpreendeu com um abraço. Ficou tão atrapalhada por um momento que nem reagiu. Constatou que Graça ficaria ofendida e se sentiria rejeitada, por isso rapidamente estreitou-a nos braços e apertou-a gentilmente. Sentaram-se as duas depois desta saudação tão efusiva.

- Acho que ficaste pasmada, não é verdade, Isabel? - Graça sorria docemente.

- De facto devo confessar que sim, pois não somos nada próximas…

- Deves estar a perguntar-te o que vem a ser tudo isto – acrescentou Graça.

Isabel acenou afirmativamente. Tinha considerado este convite para almoço como tendo um propósito definido, uma agenda.

- Como te sentes Graça? Estás boa?

- Sinto-me lindamente…agora!

- Ainda bem, fico muito contente de saber. – disse Isabel.

Antes de poder perguntar-lhe o que tinha em mente, chegou um empregado à mesa para que escolhessem. Isabel achou divertido ver que Graça escolhera ostras e salmão.

- Sabes Graça, é tudo um mito o que dizem sobre o efeito das ostras!

Graça riu abertamente e disse:

- Eu sei, simplesmente adoro mariscos.

Graça ficara encantada por Isabel ter comentado tão naturalmente esta brejeirice. Não tinha muitas amigas e esperava sinceramente poder contar com Isabel daí para a frente como uma delas.

- O meu marido, além disso não precisa de estimulantes – disse Graça com um ar maroto.

Isabel corou levemente. Graça notou-o.

- Oiça lá Drª Isabel, enfatizando o seu grau académico e o você de cortesia, de certeza que este meu comentário não lhe causa nenhum embaraço, pois não?

- Graça - disse Isabel com brusquidão pela inesperada intimidade – porque quis almoçar comigo?

- Muito bem, vou responder-te – disse Graça com prontidão – quero pedir-te um favor.

- Com certeza – Isabel ficou aliviada, pois esta resposta vinha ao encontro do que tinha expectado, e dando um gole na sua bebida, fez sinal com a cabeça para Graça continuar.

- Queria que me fizesses uma ecografia.

- O quê?

- Estou grávida, acrescentou Graça.

- A sério? Que bom, é fantástico. Parabéns!

Graça sorriu abertamente.

- Muito obrigado.

Isabel fez um esgar de hesitação e perguntou:

- Espera, porque queres que te faça uma ecografia? Não sou nem obstetra nem ginecologista! O teu marido é o director do hospital.

- Eu sei, Isabel. Tu és uma óptima médica e quero que me acompanhes durante a gravidez. E a voz de Graça baixou de tom e disse, tristemente – e tu estiveste lá, antes, quando…

- Perfeito, atalhou Isabel. Ela sabia o que custava a Graça mencionar a triste ocorrência do seu aborto espontâneo e queria poupar-lhe a dor de o recordar.

- Muito bem, disse amigavelmente, se é o que queres…e o teu marido?

- Não te preocupes, disse Graça sorrindo, ele faz o que eu quiser. Obrigado Isabel.

A ecografia

- Parece tudo muito bem e em ordem, Graça. Já vais com 11 semanas. Vou-te receitar umas vitaminas. Faz exercício moderadamente, dado que estás em óptima forma. Tens alguma pergunta a fazer-me?

- Não, acho que está tudo esclarecido…enfim…quais são as hipóteses?

- De teres novo aborto? Percebo a tua preocupação, mas parece-me tudo sem problemas nenhuns, por isso há uma margem muito pequena de risco.

- Também tudo estava bem da outra vez!

Isabel olhou para ela e a sua expressão adoçou-se:

- Graça, não volta a acontecer!

- Eu quero muito acreditar que sim, mas tenho medo!

- Eu sei, disse Isabel. Um aborto espontâneo acontece quando algo está drasticamente errado – o corpo é suficientemente esperto para percebê-lo e transmitir. Mas a maioria das mulheres têm gravidezes saudáveis que resultam em bebés felizes!

- Eu sei disso Drª Isabel – Graça estava a sentir-se taquinada pela conversa. Por isso o primeiro não foi tão duro de aceitar, mas quando perdi os gémeos…

Graça começara a sentir-se muito deprimida.

- Sim, os gémeos. Foi horrível. Isabel estava de turno na maternidade. Viu Graça na entrada da sala de operações à espera do começo do trabalho de parto, e vendo um rosto amigo, sentiu-se confortada e pediu-lhe para que a acompanhasse, mas Isabel não o fez pois o caso complicou-se e foram outros colegas da especialidade que seguiram o resto da intervenção cirúrgica.

Graça recompôs-se.

- Foi um problema bem sério, mas a explicação que me deram foi tão fria, tão medicamente correcta que chorei durante dias a fio.

Isabel disse com simpatia:

- Deve ter sido tão difícil, Graça! Talvez possas ser apoiada psicologicamente!

Catorze meses depois

- Fantástico! Este foi o melhor salmão que já comi.

- Nunca vi ninguém tão guloso por salmão como tu, Graça!

- Tenho que manter as minhas forças e energia. Graça voltou-se para o lado para olhar para o seu bebé. Isabel sorriu. O miúdo era lindo, claro de cores, olhos azuis.

- Que tal se porta durante a noite? – perguntou Isabel.

- Está com dentes e maça-nos um bocadinho, mas eu não me importo, vale todos os sacrifícios por que passei. Para além disso, isto tudo fez-me mudar!

- Porque? Como?

- Sabes, a vida continua… Tenho bons motivos para acordar, abrir os olhos, deixar que o sol me queime...entregar-me à vida...viver com intensidade... olhar o futuro com esperança, e o passado com satisfação...fazendo tudo com paixão, pois tenho a minha vida nas mãos...

MNA

A invenção do purgatório




Na Idade Média o desenvolvimento de uma série de factos e experiências históricas fizeram da Igreja uma das mais poderosas instituições da época. A difusão dos preceitos cristãos pela Europa e em outras partes do mundo fez com que os seus dirigentes interferissem profundamente nos hábitos, concepções e modos de agir de um grande número de pessoas.

Não podemos, porém, tirar a simplista conclusão de que os clérigos conseguiam que as pessoas fizessem aquilo que eles bem entendiam. A Igreja influiu na sociedade dessa época, mas houve situações em que a religião católica teve também que dialogar com os impasses gerados pelos seus próprios seguidores. Para melhor compreendermos tal aspecto, relevemos, como um interessante exemplo, a questão da vida depois da morte.

Até ao século XII, o cristão estava destinado às glórias e conforto dos céus ou ao tormento eterno das profundezas do inferno. A existência de destinos tão diferentes, fez com que vários fiéis levassem uma vida predominantemente voltada para a garantia da salvação. Mas nessa altura, muitos cristãos cometiam muitos pecados e, por isso, pairava uma enorme dúvida sobre qual seria o destino de alguém que não tivesse sido nem completamente bom nem mau.

Nesse período medieval, a organização social dos povos, legitimada pela Igreja, começou a escapar ao seu controle e estando dantes dividido entre o clero, a nobreza e o povo passou a contar com a acessão de pessoas que não se ajustavam completamente a esse modelo harmonioso preferido pelos clérigos medievais.

Passando a viver no efervescente ambiente urbano, muitos fiéis e clérigos deixaram de ter meios seguros para comprovar se alguém levara ou não uma vida louvável aos olhos de Deus.

De facto este tema era bastante antigo e já tinha sido tratado nos escritos de Santo Agostinho, no século IV. Segundo esse teólogo medieval, o indivíduo que tivesse tido uma vida mais inclinada para o pecado seria destinado ao Inferno, mas poderia sair dessa condição através das orações feitas pelos vivos em sua memória.

Já aqueles que não tivessem sido integralmente bons passariam por uma fase de purificação que poderia levá-los aos céus.

Até então, o purgatório era compreendido como um processo de salvação espiritual que se afastava do que era tradicionalmente convencionado pela Igreja.

Segundo alguns historiadores, a ideia de que o purgatório fosse um “lugar à parte” só tomou consistência entre os séculos XII e XIII. Contudo, engana-se quem acredita que esse terceiro destino no “post mortem” seja uma proposta originalmente concebida pela cristandade ocidental.

Os próprios judeus acreditavam que aqueles que não eram nem bons nem maus seriam conduzidos a um lugar aonde a pessoa humana sofreria castigos temporários até que estivesse apta para subir ao céu.

Entre os indianos, os “intermediários” poderiam viver uma série de reencarnações que os levariam até aos céus ou ao inferno.
Nos tempos que correm, eu diria que com o inferno que já temos na terra, qualquer coisa que seja o purgatório ou o céu é melhor com certeza!

Resta saber se lá encontraremos os políticos portugueses! Seria uma grande injustiça!

Lá está...corrupção!



Quem deixou pôr aquele pedregulho no meio de um bairro classificado?

Lá está, a corrupção não tem limites! Francamente!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

multidão aguarda ansiosamente a estátua de Sócrates



Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura.
Uma fronte sem rugas denota insensibilidade.
Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar.

Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes,
pois implica o silenciar de tantos horrores.

Tempos sombrios por Bertolt Brecht

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

insolência



Mi mente no está comprometida. Ella vuela libre, a veces con usted, otras tantas, con muchos otros.

Un día mi mente decidió huir, aunque mi cuerpo este aprisionando a mi cabeza confieso que no estoy enamorada.

En esta huida nadie pintará mi sombra con tiza* para recordar que ya me fui.

* giz

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O dr. Rodrigues e o centauro do Banif





O dr. Rodrigues era o criativo do Banif e tinha recebido a incumbência de remodelar completamente a imagem corporativa do banco.

Andava a cogitar desde há um mês em como poderia ser original e criar impacto na clientela e na opinião pública, fazendo a diferença com os seus concorrentes.

O dr. Rodrigues parava numa bomba de gasolina perto de casa para abastecer o seu carro de serviço e habituara-se a olhar para o Ricardo, o gasolineiro que amavelmente lhe enchia o depósito, como um ser um pouco especial, mas recebera dele sempre provas de grande respeito e deferência.

Nessa manhã a caminho do banco decidira que não podia mais demorar na identificação do novo produto publicitário do Banif, pois o Presidente tinha-lhe fixado um prazo que estava a expirar.

Ao chegar à bomba de gasolina pediu a Ricardo que atestasse o depósito e enquanto distraidamente o observava, de repente deu uma palmada na testa e exclamou:

- Raios, o homem parece um centauro! Que grande ideia de força e de pujança!

Ricardo ficou muito honrado quando o dr. Rodrigues lhe levou a primeira prova da nova imagem do Banif e ainda hoje, muitos quadros do banco, vão expressamente abastecer as suas viaturas de serviço para conhecerem a musa inspiradora do dr. Rodrigues.

MNA

precauções a ter com as imitações baratas chinesas...



Se quiserem comprar ténis de marca, usem de todas as precauções para não terem surpresas com as imitações baratas chinesas...

Serviço Nacional de Saúde poupa nos Hospitais públicos



No poupar é que está o ganho....

domingo, 2 de outubro de 2011

"A Mulher Mais Bonita do Mundo"


"A Mulher Mais Bonita do Mundo"

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

Collette III



Nesse Domingo apeteceu-lhes ir almoçar a Rambouillet, a uns 50 km de Paris. O castelo é imponente e tem um parque e um lago lindos, bem como uma pelouse enorme e muito verde, sombreada por árvores seculares aonde se está muito bem e recatadamente.

Passaram pelo Fauchon aonde tinham encomendado na véspera um apetitoso pic-nic e que constava de uma entrada de foie-gras com tostas pequenas, umas carnes frias de faisão e perdiz com um molho de amoras num frasco elegante com a marca de origem e acompanhadas de baguettes de pão de centeio, 2 garrafas de Moët & Chandon num recipiente que conservava o frio bem como as respectivas flutes, e como sobremesa umas framboesas com creme fresco, à parte. Um cesto de vime muito leve e sofisticado, continha uma toalha imaculada de linho branco bem como os talheres necessários. Um lucho mas um deleite para os olhos e para a boca!

Collette tinha-se esmerado no traje e escolhera uma tee-shirt generosamente decotada deixando ver os seus bem desenhados e opulentos seios, e uns jeans estreitos, moldando o seu traseiro e pernas de uma elegância e sensualidade ímpar.

O cabelo solto e leve, um creme hidratante na cara e um perfume que sabia entontecer Yann, que estava nessa manhã excepcionalmente bem disposto e até já lhe sussurrara aos ouvidos, mordiscando o lóbulo, propostas que lhe agradavam sobremaneira.

Escolheram ir por estradas interiores, bordejando campos floridos e verdejantes, e devagar no seu Aston Martin descapotável, contornavam vilórias e auberges que no caminho, sugeriam tentadores petiscos e acomodação.

Trocavam olhares cúmplices e langorosos, entrelaçavam-se as mãos e o desejo ia crescendo para Yann, brutal e incontrolávelmente.

De repente pára o carro, nem olhou se estava no meio da estrada, e sofregamente as duas bocas unem-se em beijos gulosos, tresloucados e sem controlo e os corpos rolam um para cima do outro e as mãos de Yann, desapertam com força e sem pudor o que impedia que os seios de Collette ficassem nas suas mãos quentes e fortes, e gemem os dois loucos de desejo.

(to be continued)

MNA

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Collette II


Collette tinha finalmente encontrado o Monsieur por que tanto ansiara e procurara.

Vivia agora num hotel particulier da Av. Foche, com todas as mordomias e comodidades: um buttler que lhe abria todas as manhãs as cortinas de seda espessa e deixava entrar uma luz diáfana no quarto que dava para a Torre Eiffel, um chauffeur que a levava numa magnífica limusina aonde bem quisesse e um maître que lhe propunha os mais sofisticados menus. Tinha uma conta bancária confortável, roupa e demais adereços de marca sem limites, e já tinha estado em todos os restaurantes da moda.

Yann era presidente em França de uma grande multinacional o que o levava a viajar muitas vezes durante o mês.

Era um homem muito bem parecido de 47 anos, alto e de olhos cinzentos, mãos fortes e esguias, um tronco bem desenvolvido e musculoso fruto da prática de ténis, equitação e caça bem como de ginásio todas as manhãs em casa com um personal trainer, quando não viajava, mas mesmo fora fazia work out nos hotéis.

Tinha um sorriso franco e era considerado um excelente profissional com êxitos averbados na sua fulgurante carreira. Uma das suas características era a de ser frio e insusceptível de ser influenciado por factores que não fossem os do rigor, da competência, da seriedade e por isso tinha conseguido amealhar uma notável fortuna por ter correspondido a quem nele confiara.

Era casado e tinha 3 filhos mas estava, porém, separado e vivia numa prestigiada moradia numa das melhores zonas de Paris.

Collette via Yann menos do que desejava, pois era impensável acompanhá-lo nas viagens de negócios da empresa. No fundo não deixava de ser uma puta sensual, muito carinhosa e vistosa, mas não apresentável nos círculos sociais de Yann.

Nos dias em que Yann voltava cedo, jantavam romanticamente à luz de velas, e ele fazia-lhe mil juras de amor eterno com champagne, sussurrava-lhe palavras doces e Collette sentia que naqueles momentos pertencia-lhe. Yann ia, nessas noites, dormir no quarto dela e no colchão que era uma maravilha de macio enterravam-se os dois nas reviravoltas de amor que davam.

(to be continued)

MNA

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desculpe, disse Portugal?



Talvez seja por isto que há que começar com sangue novo, com gente de outras gerações, com provas provadas de competência, rigor, honestidade e desejo de servir!

Há que os formar, incentivar, interessar e trazê-los para a coisa pública, pagando-lhes progressivamente bem à medida que vão merecendo e compensando-os do "quentinho" do sector privado!

É bom servir Portugal! Portugal pode ser um grande país se os portugueses o quiserem.

Neste momento é a merda possível, tolerada mas o momento é propício para se fazer o que se diz do Brasil:

- AME-O ou DEIXE-O!

É isso aí!

Campanha de inverno do Holmes Place dá frutos



Senhora hiper desportiva beneficia da campanha de promoção do fim de ano desta conhecida cadeia de ginásios.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Como sei que estou em Portugal?


Gosto da ideia de Portugal.

Tenho um passado familiar importante em Portugal mas que alcanço só através da História. Não me chegou assim de uma forma directa..tipo caiu-me em cima da cabeça o peso da tradição (lembro-me do meu Avô Vasco da Gama, de toda uma plêiade de Noronhas que fizeram Portugal) mas tive que recomeçar o meu lugar em Portugal, por mais modesto que ele seja ou esteja a ser ou venha a ser.

Mas sim, gosto do meu País e irrita-me quando tenho razões para dizer mal e tenho várias e não são as habituais. Nem me apetece aqui louvar as costumeiras qualidades dos Portugueses nem de Portugal: outros já o disseram e basta.

Portugal é um país foleiro...do tipo da pessoa que quando em recato, ao nos aproximarmos de mansinho vislumbramos-lhe de perfil um sorriso alvar e de bonomia silenciosa, em permanência.

Porquê, co os raios? Está-se infeliz, tem-se uma vida de rafeiro, caminhamos para o abismo porque carga de água é que temos este riso alvar?

Canga, digo eu! Somos um país de canga, como dizia o meu Avô!

Dos espanhóis, dos estrangeiros, do vizinho, sempre a querer agradar sem que, e quando venha a propósito, mostremos que estamos carrancudos, soltemos um berro de indignação, corramos com o carrasco que nos oprime, sejamos brutos, duros e frios e chamemos as coisas pelos nomes.

Ladrão é ladrão e deve ir para a cadeia, corrupto é corrupto e deve para além de devolver do que se apropriou ilegítimamente, ir passar uns tempos ao xelindró, pobreza é pobreza e merece apoio directo, claro, sem vergonha disfarçada; desemprego é desemprego e traz aflição e perturbação à alma, ao espírito, ao estômago e causa infelicidade material, familiar, de harmonia entre as pessoas...

"Tout m'est bonheur"...qual quê! Como tudo pode ser bem-vindo e ser felicidade às colheres?

E é isto que me irrita neste povo a que pertenço e de que me orgulho temperadamente: não totalmente como toda a gente faz, sem fazer ressalvas.

Sim, nalgumas coisas tenho orgulho e até ao fim, noutras não: critico, digo mal, não concordo e pouco me importa se é Portugal!

Se nas nossas vidas devemos ser assim, como não no sítio que nos deu o berço?

Por isso, quando penso em partir, vou em busca do Eldorado, mesmo! Quero sossego, horizontes largos, dinheiro, cultura, um fim de vida merecido. Vou trabalhar no duro mas com a certeza de ser compensado. Cá, neste momento...impensável!

Quero poder comprar Cds, livros, viajar, experimentar novas culturas e gentes sem contar os tostões e isso por cá nos próximos dez anos não dá mesmo, e depois veremos se acontece!

Bem, voltando à pergunta inicial, infelizmente de momento pelas más razões.

Mas espero que um dia quando regressar sentimentalmente (porque fisicamente é um até já e não um adeus) me sinta tranquilo debaixo da sombra de um choupo e consiga encontrar a paz, a luz e o encanto de uma bonita tarde de Outono.

Mas tal como os filhos, não é obrigatório que os Pais biológicos sejam os melhores...quantas vezes não o são.

Em todo o caso, gosto da ideia de um Portugal desconhecido à procura do qual irei, pois o conhecido é um pesadelo.

sábado, 24 de setembro de 2011

a sanguínea do Trisavô Brasileiro


Um dos inúmeros quadros que guardo nas paredes da livraria, vulgo biblioteca, do meu monte em Estremoz, é uma sanguínea de um Trisavô.

Habituei-me, como mais velho, a recolher todo o acervo cultural da minha Família ao longo das gerações ( pinturas, retratos a óleo, carvão e a papel, diários, cartas, objectos - objets de vertu -), pois como conheci os meus 4 Avós e muito bem, mais uns 6 Bisavós e outros tantos Tios-Bisavós, tudo me fala e está vivo pelos testemunhos que deles colhi sobre cada uma das peças.

Hoje apetece-me revisitar este meu Trisavô brasileiro, cujos avoengos do Minho da baixa Nobreza foram para o Brasil no princípio do séc.XIX e voltaram de lá feitos Barões e Viscondes e com muito dinheiro. Tratou-se de serviços prestados ao Imperador, ou seja fundos próprios doados à Nação, os quais fruto de um legítimo e vasto património criado com trabalho, dedicação e sabedoria, levaram ao prémio supremo da nobilitação.

Regressado à Metrópole, eis o meu antepassado, rico e já naquela 3ª ou 4ª geração em que a labuta é substituída pelo consumo. Chiquíssimo, vestindo em Paris, com palácios em Lisboa e quintas no Minho, qual Jacinto do Eça, frequenta a alta sociedade, os teatros, as ceias no Tavares, os literatos, as actrizes, as coristas.

Casa-se com uma filha de um Conde conhecido e com gerações para trás de nobreza esclarecida e antiga.

Num dos tais diários herdados, com capa de pele linda e bem rematada, estão várias letras em ouro incrustadas, muito à forma da época. Na zona do meio aparece elegantemente desenhada uma pergunta em espanhol : "Llegaré?" seguido de uma data, e mais abaixo uma afirmação “ Llegué” também com uma data, vários anos depois.

Fiquei intrigadíssimo quando manuseei o referido diário pela primeira vez, e fui-me deleitando ao abri-lo, com o relato dos amores clandestinos, fervorosos e românticos deste meu Trisavô brasileiro com uma minha Trisavó espanhola!

Resistência inicial, cedência progressiva e branda face às investidas fogosas, permanentes e insistentes do nosso “marialva”, uma correspondência imensa de leituras sugeridas, feitas e comentadas de autores cúmplices, um namoro culto, rico, em que o sexo é tratado com doçura e pudor, mas presente e sem mácula de desencanto, e que chega ao fim com um “billet doux” irresistível, reciprocado com a expressão “llegué”!

Quando olho para a sanguínea, ficam-me as saudades desse convívio tão rico e ao mesmo tempo íntimo e perturbador das conversas tidas e transmitidas, as quais só ouso desvendar parcialmente, como se o Trisavô me olhasse entre irado mas com um ternurento desvelo.

MNA

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Madame Poulain


O casal Poulain adora fazer window shopping pelas montras das lojas de Paris!

Monsieur Poulain observa a menina nua na magnífica moldura rócócó..... enquanto que Madame Poulain não resiste a olhar com devoção para uma tela pueril representando a última ceia.

As nossas qualidades


Todas as nossas qualidades são incertas e duvidosas, tanto no bem como no mal, e são quase todas fruto das ocasiões.

La Rochefoucauld

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.


Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.
Começar morto, para despachar logo o assunto.
Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.
Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo.
E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer.
Por fim, passo nove meses flutuando num “spa” de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois – “Voilà!” – desapareço num orgasmo.

Wooddy Allen