sábado, 10 de dezembro de 2011

Resposta do meu primo Luis Bernardo - Salazar e outros familiares


Meu Querido Manuel,

Muito obrigado pela tua missiva.

Apanhaste-me em plena época de Natal e cheio de visitas e afazeres.

Tens razão, na noite de 24 para 25 isto enche-se tudo de luz, de cânticos, de alegria contagiante e é muito bom.

Fui tratar dos teus “presentes” e aqui tens o meu relato:

1. Encontrei o teu Pai na sala que dá para o tal jardim que tu tão bem gabas, pois é um primor de cores das flores com os seus perfumes, de trinados de variegados pássaros canoros, do esvoaçar de borboletas exóticas, com um relvado imenso a perder de vista com árvores frondosas e raras.

Tinha uma visita: um político conhecido dos seus tempos, que a tua Mãe me disse ser Salazar.

2. Apresentou-mo e sentei-me sem querer interromper uma conversa que percebi ir a meio e sobre Portugal.

3. A tua Mãe ofereceu-me de beber um sumo delicioso e comecei a ouvir o que discutiam.

4. No meu tempo, havia Monarquia e por isso a minha cultura sobre o dito Salazar era unicamente a de ouvir vários parentes nossos mais novos do que eu e que com ele tinham servido, nomeadamente o teu Tio Luis, Almirante, que foi Secretário da Defesa.

5. Salazar dissertava sobre a Europa e lamentava-se que os líderes europeus não se entendessem pois achava-os de pouca qualidade e estatura como estadistas, sem profundidade de conhecimentos políticos e sobretudo, nas suas palavras, sem o espírito de missão que qualquer Governante deve ter para servir o seu País.

6. A tua Mãe apartou-me da conversa e fomos para a biblioteca aonde nos sentámos confortavelmente. Transmiti-lhe os teus recados e ela muito se alegrou, nomeadamente com o nascimento do teu neto.

7. Disse-me também que acompanha com ternura os teus esforços brasileiros e que o teu Pai e ela estão seguros que serás bem-sucedido. Manda-te um grande beijo e pede-te que consigas saber “desligar” mais vezes do bulício diário e possas assim dedicar-te a tarefas mais do espírito do que da matéria. Achei-a muito bem e confessou-me que neste Natal tem a casa cheia de teus Avós e Bisavós de ambos os lados. O convidado de honra deste ano é o Avô El Cid “O Campeador”, o que os obrigou a refrescarem a memória para não fazerem gaffes.

8. Depois fui estar com a tua Avó materna que ficou também encantada pelo nascimento de mais um trisneto e tal como previas, por uns momentos e em silêncio ficou muito comovida e pediu-me para te dizer que cuides muito bem dele e que o protejas sempre.

Ela e o teu Avô, que entretanto apareceu, estavam muito contentes e orgulhosos e ele até me recomendou que lembres ao teu Filho para o pôr na esgrima um dia mais tarde e assim perpetuar a tradição familiar. Estavam muito entusiasmados com o jantar de Natal e com a presença inopinada do Campeador, pois o teu Avô tinha aí na terra lido tudo, na altura, sobre este herói e já tinha dado umas dicas aos teus Pais.

9. Finalmente, fui a casa do teu Avô paterno. Não sei se sabes que ele mora num sítio chamado “Guddem” igual ao da Índia aonde nasceu. O mesmo palácio, as mesmas terras, os mesmos palmares e ilha e o rio Mandovi a passar pela frente. É um sítio muito aprazível e com a tua Avó estavam ambos sentados numa enorme varanda e terraço que dava sobre o vale.

Disse-me para te transmitir que não deverias estar preocupado pois saberias como vencer os adversários. Ele sempre o soube: com tenacidade, com bravura, com vigor e obstinação e quando for preciso, não hesites em os afastar do caminho com frieza e pouca consideração.

Acrescentou que nada tem a ver com falta de bondade ou paciência ou inclusive menos tolerância: só que quem luta, ou vence ou morre e ele sabe que somos dos que vencem. Que leias umas memórias, um género de diário que ele te deixou e que conta como foi vencendo na sua vida, mas que o faças com desportivismo e como curiosidade intelectual.

Também se referiu ao jantar de Natal em casa dos teus Pais com o seu antepassado directo "o Cid, El Campeador". Estava a pensar levar na casaca (o teu Pai, parece que exigiu um traje formal para o receber e como só o Campeador é de outra geração, todos os teus Bisavós são do tempo da casaca) a Grã-Cruz de Isabel a Católica. Fica vistosa, traçada no colete e é um gesto de consideração pelo país do Avoengo.

Ficaram, ambos, muito vaidosos por mais um Noronha na Família e o teu Avô, sugere-te que lhe dês quando fizer 18 anos, uma réplica do seu anel de armas, que ele perdeu numa caçada ao elefante em África. A tua Avó, repetiu-lhe com ternura, que lhe estava, na altura, sempre a dizer que em África e sobretudo numa caçada se deviam dispensar tais vaidades, mas ele respondeu de novo, que o usava sempre desde que o tinha herdado.

Lembrou-te que há uma fotografia da tua Bisavó Maria do Carmo com este anel, antes de o ter passado e que tu sabes qual é, o que te permitirá mandares fazer uma cópia, na devida altura.

10. Finalmente e agora te digo eu, vou convidar vários dos nossos antepassados do lado da Avó Madalena de Bourbon, que sendo das famílias romanas de melhor estirpe deram alguns Papas à nossa dinastia.

11. Sei que passa aí uma série dos Bórgia: pois vê-a bem, pois na próxima missiva te contarei o que fizeram a alguns do nossos Avós. O maldito do espanhol! Já o vi por aqui e tenho uma conversa aprazada com ele. Sempre foi Papa e deixou um legado cultural impressionante.

Por hoje é tudo, meu querido Manuel. Sossega! Não se atribule o teu pensamento nem o teu coração. Goza a vida e os teus e verás como as aflições perdem a dimensão terrena que têm e sobem para o alto, perdendo-se nas nuvens.

Bonito poema o que me enviaste! Mas esqueceste-te que aqui temos uma outra visão sobre a vida e sobre a morte. A isto voltarei, apesar de já ter tratado anteriormente na nossa correspondência.

Vi na biblioteca da casa dos teus Pais, uma belíssima memória da imagem da Virgem do século XVI, que tens no teu monte. Perguntei-lhes porque a tinham e eles disseram-me que nunca se esqueceram como ela lá foi parar e contaram-me que estando tu num leilão há uns anos, e querendo comprá-la, vários outros interessados começaram a picar o preço. E parece que tu numa conversa sotto voce terás informado a candidata que se queria ir lá para casa, teria que parar naquele preço e nem mais um tostão! Os teus Pais, acharam de muito valimento este teu diálogo tendo surtido grande efeito. Mereceste essa lindíssima imagem!

Um afectuoso abraço do teu primo e amigo

Luis Bernardo

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Carta ao meu primo Luis Bernardo por altura do Natal


Resumo: Imaginem vocês que recebi uma carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. No meu blogue está tudo explicado e as cartas anteriores trocadas foram abundantes. Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Deixei passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!

Meu Querido Luís Bernardo,

Aproveito a época natalícia para conversar de novo contigo.

Calculo que sejam uma beleza por aí todas as festividades das comemorações do Natal. Verás todos os anjos e coros celestiais ao vivo, cantando hossanas e que vozes não terão!

Como estão os meus Pais e Avós? Estive na quinta em Estremoz e desatei a procurar uma série de fotografias que lá tenho e senti umas saudades enormes ao olhar para todos eles.

Que sorte devem ter em estar aí contigo.

Conta-me da paz e tranquilidade que por aí se goza, do decorrer do tempo sem pressas nem stress, das vistas esplendorosas, das cores e do verde de que me falas ter o gazon do jardim bem tratado, da casa dos meus Pais.

Hoje tinha uns quantos pedidos a fazer-te por altura do Natal: digamos que são os teus presentes da quadra. Tendo em conta que por cá nos cortaram metade do subsídio, este ano vai ser curto de compras. Há outras prioridades. Mas não faltará ternura, nem espírito de família nem uma refeição melhor em comum para nos sentirmos bem unidos.

Como sabes estou de abalada para o Brasil, e como dizem os espanhóis “ con mucha ilusión “ apesar de nesta fase da minha vida ir começar de novo! Sabes que gosto de desafios e este é mais um.

As diligências estão bem avançadas e conto em breve poder dar este passo. Acho que encontrei o sócio brasileiro ideal de quem gosto, mas para escangalhar o entusiasmo inicial, o “danado” não dá notícias há dias! Espero que não tenha sido engolido por um crocodilo no Amazonas!

Quando estiveres com os meus Pais, fala-lhes disto, pois tenho a certeza de que gostarão de saber que eu não desisto e que sigo em frente.

Aliás, seria útil saberes do meu Bisavô Visconde Brasileiro se ele tem algum conselho a me dar. Foi um grande pândego e desfrutou muito bem do Brasil, e embora os tempos sejam outros, nada melhor do que escutar de um vencedor algumas avisadas opiniões sobre um país para aonde eu vou “de armas e bagagens”.

É claro que pode ser que não corra tão favoravelmente como desejo e tenha que voltar, mas tu sabes bem que na nossa Família não se baixa a guarda, não somos “canga” de ninguém e sobretudo há esta “joie de vivre” como se o mundo começasse amanhã!

Voltando aos presentes:

1.Quero receber forças do meu Pai! Sempre um exemplo de bom trabalho, de aceitação do que veio para a sua vida e foram tantas coisas boas.

Apetecia-me abraçá-lo forte e dar-lhe um grande beijo! Diz-lhe muitas e muitas vezes que gosto muito dele ainda, da sua memória pelo menos, e que em vida também gostei. Vive sempre comigo este débito de alguma falta menos intensa deste amor filial. Fui pouco expansivo e ele que gostava tanto que lhe déssemos a devida atenção. Estava sempre disponível, nós é que nem sempre estávamos!

Coisas de rapazes novos, inebriados pelo aparente sucesso de vida diferente, da excitação do mundo novo, do dinheiro, das viagens, de tantas coisas que hoje reputo bem menos importantes. Este será o meu melhor presente de Natal que quero receber neste ano! Esmera-te!

2.Depois, “I miss my Mother so much”, nem queiras saber! Diz-lhe isso, apesar dela saber! As fotografias ajudam mas não valem a presença e nesta altura era bem importante que pudesse ir ter com ela e conversarmos de mãos dadas, sentindo o conforto do carinho e ternura que sempre me deu. Também é um presente top deste ano!

3.Quando estiveres com o meu Avô paterno diz-lhe que vou começar nova jornada, difícil e arriscada e que tal como ele quando partiu para África aos vinte e tal anos, deixando tudo para trás, tenciono ser bem sucedido como ele o foi. O Avô que te transmita alguns segredos de como conseguiu ultrapassar a distância, o desânimo, as gentes más e perversas que o invejavam e que ele foi sabendo vencer, sobretudo que eu possa saber com o que posso contar daí, dele, como apoio e suporte. Este é um presente de um resistente para outro, mas embrulhado em são orgulho e ternura que era o que eu sentia tanto por ele e que ele me retribuía.

4.Por último, visita a minha Avó materna, ainda tão viva na minha memória, e diz-lhe que tenho um neto, o meu primeiro neto. Que alegria não irá ter! Mesmo! Estou a vê-la toda sorridente e quase sem palavras de emoção e contentamento a fazer-me tantas perguntas.

Diz-lhe que agora a entendo tão bem quanto gostava de ser tão boa Avó! Aproveita para dizer ao meu Avô que já comecei a fazer o que ele fazia e de que gosto tanto de o imitar: ir ao fim da tarde de trabalho fazer uma visita a Sua Excelência o meu neto. Pegar-lhe ao colo, conversar com ele – importante desde sempre ele ouvir vozes meigas – contar-lhe tudo quanto quero com ele mais tarde compartilhar, o orgulho que já tenho nele e santo Deus, o que já gosto dele!

Este é o meu presente para todos os daí!

Vejo o meu filho mais velho e Pai deste neto, tão encantado e pendente dele como eu era com ele e com os outros meus Filhos todos.

A minha nora e Mãe dele é um amor e dá-me a segurança de que vai zelar para que ele possa ser um Homem e um bom filho, neto e irmão e um excelente profissional que perpetue o nosso nome.

Vou-te confessar, só tu é que me fazes dizer tantas coisas emotivas, mas és o mensageiro privilegiado das minhas notícias.

Anda tenso o meu pensamento e coração e por isso hoje deixei-me embalar por coisas mais “doces” e que me fazem parar nesta alucinante cruzada do dia-a-dia, em que nem tudo é luminoso e fácil. Os que aqui hoje encontramos não são mais iguais aos que amámos e que já partiram, pois como eu padecem de grandes aflições.

Mas não deve temer o nosso coração, pois não Luis Bernardo?

Escrevi esta tua carta ao som de Pachelbel, Elgar, Chopin…uma ou outra música de Tchaikovsky e de um fundo do Coro da Abadia de Cluny cantando Fauré. Uma maravilha, celestial et pour cause…

Em homenagem ao meu neto, misturei na minha inspiração o Frank Sinatra, o dueto do Tonny Benett com a Amy Winehouse e algumas outras músicas mais “modérninhas”: sempre sou um Avô jovem e quero assim manter-me fit. Comecei hoje a enésima dieta e vou fazer novas sessões de yoga!

Sinto-me mais confortado por ter conseguido ser sincero naquilo que te digo e sabes, deve-se sempre dizer aquilo que se sente, naturalmente quando são coisas boas, coisas nossas.

Este poema que li hoje, calha como ginjas sobre o conteúdo desta minha missiva. É de Ernesto Guerra da Cal e diz:

Cultiva o teu futuro
Com amor
Porque ele é o lugar
Onde tens que passar
O resto da tua vida.
Cultiva Deus
Com muito amor
Ainda maior
Porque,
Com sorte
Com Ele irás passar
O resto da tua morte.

Teu muito dedicado primo

Manuel

domingo, 4 de dezembro de 2011

Entra no meu mundo


Já reparaste que tens o mundo inteiro
dentro da tua cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça
é o teu mundo
e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro
dentro da minha cabeça
e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça
é o meu mundo
o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos
mas através dos nomes
pois o que tu tens dentro da tua cabeça
e o que eu tenho dentro da minha cabeça
são os nomes do mundo em brutal compressão
como um filtro ou coador
de forma que nem és tu que conheces o mundo
nem sou eu que conheço o mundo
mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo
e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo
o qual entra em ti e o qual entra em mim
através dos nomes que já tem
de forma que o que entra pelos meus olhos não pode
entrar pelos teus olhos
mas só pela tua cabeça através
dos nomes dados pela minha cabeça
àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes
e do mesmo modo o que entra pelos teus olhos não pode
entrar pelos meus olhos
mas só pela minha cabeça através
dos nomes dados pela tua cabeça
àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes
e assim o que tu vês
já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres
e assim o que eu vejo
já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver
e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de ti
e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes
é indizível e fica dentro de mim
e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez
tu a ti e eu a mim...
construindo uma consciência irrepetível e intransmissível
cada vez mais intensa em si
tu em ti eu em mim
no entanto continuando a falar um com o outro
tu comigo e eu contigo
cada um
tentando dizer ao outro
como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça
e porque é e para que é
tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça
eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça
até que morra um de nós
e depois o outro...

Alberto Pimenta

uma boa homilia


The secret of a good sermon is to have a good beginning and a good ending; and to have the two as close together as possible.

Menu


C'est un homme qui est attaché à un poteau dans une tribu cannibaliste.
Un cannibale s'approche et lui demande:
- C'est quoi ton nom?
Alors l'homme lui répond:
- Pourquoi me demandes-tu ça?
Le cannibale lui répond:
- C'est pour le menu !

Vanity


I am easily satisfied with the very best.

Winston Churchill

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

intuição de sogra...


Un jeune homme annonce à sa mère qu'il est amoureux et qu'il souhaite se marier. Avec un sourire en coin, il lui dit :
- J'ai invité ma chérie et ses deux copines demain à prendre le thé à la maison. Je ne vais rien te dire, et tu essaieras de deviner laquelle des trois j'ai décidé d'épouser !
La mère accepte.
Le lendemain, il revient avec trois jolies filles. Ils passent au salon, discutent un bon moment, et finalement le jeune homme demande à sa mère :
- Alors maman, à ton avis, qui crois-tu que je compte épouser ?
- Celle du milieu.
- Waow, c'est super, tu as deviné !!! Comment as-tu fait ?
- Simple intuition, elle me tape déjà sur les nerfs...

Rendas indiscretas


Ainda tenho as florinhas inquietas,
Que beijaram os teus seios pequeninos,
Através dessas rendas indiscretas,
Sob entremeios brancos e tão finos!

Flores que dos teus lábios coralinos
Ouviram confidencias tão secretas,
E que teus dedos brancos, peregrinos,
Deitaram fora... Pobres Violetas!

Perdidas pela sala e desatadas,
Encontrei-as, as pobres, requeimadas,
Ainda cheias desse teu encanto!
Mas tão inquietas e viçosas
As que olharam os teus seios, vergonhosas...
Reviveram nas águas do meu pranto.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Saramago e Deus


O Sr. Hugo Loureiro, que não conheço, publicou no facebook este comentário que acho muito divertido:

A questão é que ele ao chamar " filho da puta " a Deus parte do pressuposto que Deus tem uma mãe; o que é ser mais crente do que qualquer fiel comum, uma vez que até hoje ainda não ouvi a Igreja falar sobre a progenitora do Todo Poderoso.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Há vida para além do futebol


O salazarismo serviu-se do futebol como emblema das virtudes do regime. Do futebol, do fado e de Fátima. Há um pouco de exagero nesta afirmação, que fez caminho anos a fio. Agora, então, com esta esquizofrenia quase generalizada, que regime serve o futebol? Há umas semanas, Rui Santos (sobrinho de um grande jornalista, Vítor Santos, que foi chefe de redacção de "A Bola") dizia, na SIC Notícias, da dimensão excessiva que o futebol adquirira na vida portuguesa. E advertia que o jogo não era tudo: os problemas nacionais eram mais imperiosos.

É evidente: o futebol converteu-se num negócio fabuloso, com milhões de milhões a trocar o passo a todas as probidades. Onde há dinheiro aos montes há corrupção correspondente, no-lo diz a sabedoria dos povos. Assistimos, além disso, ao súbito nascimento mediático de uma corja de analfabetos, com "mais tempo de antena do que qualquer outra pessoa de outra qualquer actividade" [Rui Santos, SIC Notícias].

Julgo saber que o comentador da SIC alimenta muitos verdetes. Não é importante: a ciumeira e a inveja sempre se associaram contra quem escapa às regras da arte. A verdade é que o abuso de espaço e de tempo que as televisões atribuem ao futebol e adjacências chega a ser doentio. Que dizer das respostas dos jogadores às extraordinárias perguntas dos "jornalistas" de plantão? O festival de cretinice não pertence, em sistema de exclusividade, aos primeiros: o amorfismo cabe, por inteiro, aos segundos. Parece haver um temor reverencial ao mundo dos negócios futebolísticos. Ninguém, ou quase, se atreve a revelar o que subjaz a tudo aquilo. E a famosa "transparência" não passa de um vidro muito opaco. Os vencimentos são manipulados, os privilégios de dirigentes, subdirigentes e pequenos vassalos são zelosamente omitidos.

Cansa-me, a mim e a muitos mais portugueses, a importância quase sagrada que se concede a um penalty que não chegou a ser; a fúria causada por um encontrão; as ameaças de morte a um árbitro por ter apitado mal. Há três diários de futebol, com tiragens que justificam, afinal, a sua existência, e nem um, um sequer, assume posições críticas acerca destas e de outras poucas-vergonhas. Durante a fase mais acesa do Apito Dourado, e ante o espectral silêncio daquela imprensa, perguntei a um camarada meu, importante redactor de um importante jornal "desportivo" o porquê daquele comportamento. Numa metáfora rigorosa respondeu: "O medo guarda a vinha." Outro, disse-me que o assunto pertencia à área da Imprensa "generalista." E eu fiquei-me, entre o assombro e a perplexidade.

Claro que a insistência doentia, quase hora a hora, no futebol, nos comentários, nas previsões, nas análises remove do português comum qualquer reflexão acerca da sua própria situação social. As agendas dos jornais, os alinhamentos e as opções das televisões e das rádios merecem uma vigilância crítica dos próprios profissionais. O que não existe. Manifesta-se uma total subserviência aos imperativos do que dizem ser as exigências do público. É uma velha pecha e uma desculpa fatigante de quem abdicou do dever mais sagrado da comunicação social: informar e esclarecer para formar.

Apesar de tudo, das limitações da época antiga, das censuras e dos constrangimentos, nem sempre as coisas atingiram níveis tão surpreendentemente baixos. "A Bola", por exemplo, que reuniu um admirável conjunto de redactores, abriu um precedente extraordinário. Cândido de Oliveira, homem excepcional, convidou o crítico e ensaísta literário João Gaspar Simões a colaborar no, então, julgo, bissemanário. Na última página de "A Bola", Gaspar Simões escrevia um rodapé intitulado "Cartas a um Jovem Desportista que se Interessa pela Cultura." Muitos dos rapazes desse tempo (eu incluído) aprendemos mais literatura, arte, cinema, teatro, do que o ensino oficial praticado. Mais tarde, Carlos Pinhão, estilista do idioma e carácter incomum, convidou escritores a colaborar no jornal, dando continuidade a uma grande tradição. Lá estava eu. De novo e, posteriormente, chamado por Vítor Serpa, voltei a publicar crónicas no, então, já diário.

Havia a preocupação ética e cívica de não tornar o futebol num sistema de exclusividade informativo. E as próprias secções do grande jornal não falavam, apenas, naquele desporto. Alfredo Farinha (falecido há dias), Aurélio Márcio, Vítor Santos e Pinhão, mas também Carlos Miranda, Santos Neves, Cruz Santos, outros, fizeram de "A Bola" um órgão distintivo na Imprensa portuguesa. A preocupação com a escrita associava-se a um forte empenho moral.

Tudo se alterou substancialmente na urgência de se estabelecer um compromisso com aquilo que se presumia (e presume) ser o que o leitor deseja. É um problema preocupante, mas que segue as linhas gerais da Imprensa. A ausência de relações culturais, o receio de se perder tiragens, a inexistência de uma forte atitude crítica, o cuidado temeroso e extremo com que se escreve sobre temas "escaldantes", ou, simplesmente, não se escreve - transformou os jornais "desportivos" em folhas quase amorfas, nas quais se sobrelevam os aspectos fúteis em detrimento das grandes questões.

Há vida para além do futebol.

Baptista Bastos

terrível profecia


Como as velhas famílias falidas que ostentam o brasão e comem a crédito nos restaurantes da moda, a Europa tenta salvar o pouco que ainda resta do seu modelo social criado noutros tempos e por outra gente.

A II Guerra acabou só há 65 anos. Devastada e faminta, a Europa de então ergueu-se ensaiando uma unidade feita de valores comuns, assente na alternância e cimentada no diálogo entre movimentos sociais fortes e articulados.

Lideranças e governos provinham da excelência da política, da cultura, da sociedade e das academias. Depois a Europa aburguesou-se. E alargou-se contagiando vícios e perdendo virtudes.

O Estado do Bem-Estar pareceu coisa eterna e indestrutível. Tornou-se egoísta e narcisista, esquecendo os escombros onde se reinventou. Assemelhou-se à imagem do capitalista gordo e de charuto difundida pelos marxistas nos tempos da guerra fria.

Leu as cartilhas epicuristas e consumiu o presente com a avidez de um cigarro que se desfaz em cinza e nada. Enjeitou os seus valores fundacionais e prosseguiu políticas de controlo da natalidade como se não houvesse futuro.

Abriu as portas a movimentos populacionais que quis aculturar sem êxito e depois controlar sem piedade. É essa Europa perdulária e esbanjadora, servida por lideranças medíocres, formada por povos descrentes sem mais dinheiro para alimentar a sua preguiça, que corre o risco de implodir.

Não é fácil impor sacrifícios a quem da vida sempre teve a noção do desfrute. Por isso, esta Europa da crise está à mercê do primeiro populista que apareça para lá dos Pirenéus e reclame a sua desagregação. E não serão as pusilânimes lideranças europeias do momento (porventura à excepção de Merkel e de poucos mais) que terão o engenho, a coragem moral e a confiança pública para os enfrentar. Este é o drama. Pior. A terrível profecia.

José Luís Seixas

Provar o futuro


Tentar provar o futuro é muito mais interessante do que poder conhecê-lo. Como no jogo, não o ganhar, mas o poder ganhar. Porque nenhuma vitória se ganha se se não puder perder.

Virgílio Ferreira

Abeilles...


Un jour Jane rencontre Tarzan dans la jungle. Elle se sent aussitôt très attirée par sa bestialité et alors qu'ils faisaient connaissance et qu'elle lui expliquait toute sorte de choses, elle lui demanda comment il faisait par rapport au sexe.
- Quoi être sexe ? Jane lui explique séance tenante et il lui dit :
- Ah, moi habitude utiliser trou dans arbre.
Horrifiée, elle lui dit :
- Mais Tarzan, tu te trompes. C'est pas un arbre qu'il faut utiliser. Je te montre. Elle enlève alors rapidement ses vêtements, se couche par terre et lui dévoile son intimité.
- Ici Tarzan. Il faut mettre ton sexe ici. Tarzan se met alors à poil, s'avance vers Jane et lui donne un gros coup de pied dans le sexe. Jane se tord de douleur et après un bon moment, encore interloquée, elle lui demande:
- Mais pourquoi tu m'as fait ça ?
- Moi vérifier si pas abeilles...

Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo.



Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

negrinho inocente


Não sei se sabem que eu sou Cônsul-Geral da República da Serra Leôa em Portugal (há muitos anos já) e tenho cerca de 400 africanos deste país que por cá habitam e trabalham.

Sou uma espécie de Padrinho que zelo por eles, protegendo-os e defendendo-os e por isso gostam muito de mim.

Porque digo isto? Porque hoje esteve cá um negrinho com uma cara redonda e uns olhos expressivos e bem novinho e depois de tratarmos de assuntos consulares perguntei-lhe se ele era muçulmano ao que disse que sim.

De propósito ofereci-lhe com um ar maroto se não queria um whiskey e ele desatou numa enorme gargalhada a dizer que não bebia álcool, nem fumava.

Conversa (aliás agradável) puxa conversa e derrapámos para a morte e céu e o inferno e pecados...acho que saiu do Consulado com a fé dele menos fortalecida...sou tão mau!

Combinámos que da próxima ele me trazia argumentos mais convincentes sobre o céu...

Ele abalou com um sorriso de orelha a orelha e a ouvir eu perguntar-lhe se porventura ele conhecesse alguém do céu ou do inferno que me apresentasse.

Eu estive tentado a falar-lhe da minha correspondência com o meu primo Luis Bernardo..

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Que haja silêncio para se ouvir o murmúrio dos deuses


O poeta americano Ralph Waldo Emerson escreveu:

" Que haja silêncio para podermos ouvir o murmúrio dos deuses", dizendo com estas palavras o que os homens antigos sugerem há milénios : o encanto do mundo só pode sobrevir no silêncio.

É certamente disso que o homem moderno tem horror: que no silêncio se oiça enfim o barulho do desencanto, se revele o vazio de um mundo reduzido à diminuta dimensão de todos os dias, se sinta a solidão com que cada um tem de lidar com a sua angústia.

sábado, 19 de novembro de 2011

Les plaisirs de lire


Relire son livre préféré
Découvrir avec émerveillement qu'un livre peut se lire à l'envers
Regarder quelqu'un lire le livre qu'on aime
Lire la dernière page d'un livre pour connaître la fin de l'histoire
Commencer un livre quand le train part, et le finir juste avant l'arrivée
Lire des citations savoureuses, et les recopier dans un carnet pour les conserver comme des trésors
Attendre un peu avant de tourner la dernière page
Aimer un livre que quelqu'un qu'on aime à aimé
Regarder une pile de livres
Mettre de côté des livres en pile pour les lire demain, la semaine prochaine, le mois prochain, bref plus tard
Faire la lecture à quelqu'un
Attendre un livre qu'on a très envie de lire
Arrêter de lire et regarder le ciel
Lire toute la nuit
Lire pour la énième fois un livre de toute notre vie mais là, ce n'est pas celui de la bibliothèque, comme d'habitude, mais le sien, que l'on vient d'acheter


« La littérature, c'est la vie concentrée servie aux lecteurs dans leur fauteuil, c'est le fruit de millions d'expériences dont ils n'auraient pas le temps de vivre la plus infime partie! Elle nous fait participer à une sorte d'éternité, elle nous rend comme Dieu : omniprésents, dans tous les lieux, dans tous les temps! La fréquenter ne rend pas nécessairement plus sage, mais elle nous aide à être moins sot. »

Yves Beauchemin

sábado, 12 de novembro de 2011

Teimosia e fanatismo


É muito complicado querer perceber quando uma pessoa se torna fanática.

Uma coisa é certa, nem todos os teimosos são necessariamente fanáticos, mas todos os fanáticos transformam-se sempre em teimosos.

A verdade deles é a única que prevalece em qualquer discussão ou interpretação. Portanto, um fanático é um duplo teimoso, no mínimo.

Num teimoso, a sua verdade é a que deve prevalecer, custe o que custar.

Todo o processo de introspecção e auto-análise pode ser efectuado através de dois caminhos:

O mais recomendado, e correcto até, é o conseguirmos interpretar a nossa postura que esteja em conflito com o princípio da causalidade.

O outro caminho é o de nos acharmos senhores absolutos da verdade, mesmo que isso signifique péssimas “colheitas” futuras em termos de satisfações e de controle emocional.

Falhar faz parte da aprendizagem de como se não quer ser. Errar é continuar a repetir as falhas de uma forma cega e ignorante.

Cada ser humano possui a sua verdade. Ela é fruto do quanto cada um já evoluiu e de quantas experiências já viveu. Por isso o mais importante não é o que sabemos, mas sim o que fazemos com o que sabemos. Ainda mais, com que rapidez pomos em prática o que sabemos.

Todos os fanáticos são ignorantes que se acham inteligentes.

Assim, encontramos o fanatismo em todos as pessoas que têm uma obediência cega a uma ideia. Muitas religiões são mestres em conseguir esse "seguidismo" cego e fanático dos seus fiéis.

É preciso muita reflexão e ponderação para encontrarmos o “dragão” que existe dentro de nós e, assim, fazermos com que ele viva na sua plenitude no nosso íntimo.

Sem estar “desperto”, somos um pouco mais do que nada. Seguimos qualquer coisa que possa dar-nos serenidade em momentos de adversidade e depois deixamos de saber o que realmente somos. Tornamo-nos num robot...

Provavelmente, o caminho mais curto, para o abandono do fanatismo e teimosia, é desfazermo-nos das “bengalas” de algumas religiões e, assim, conseguirmos caminhar com as nossas próprias “pernas”, lúcidos e sem fazermos aos outros o que não queremos que façam connosco.

O ser humano precisa, sobretudo, de saber que ele é hoje o que decidiu ser ontem.

MNA

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

tiempos dificiles


A aquel hombre le pidieron su tiempo
para que lo juntara al tiempo de la Historia.
Le pidieron las manos,
porque para una época difícil
nada hay mejor que un par de buenas manos.
Le pidieron los ojos
que alguna vez tuvieron lágrimas
para que no contemplara el lado claro
(especialmente el lado claro de la vida)
porque para el horror basta un ojo de asombro.
Le pidieron sus labios
resecos y cuarteados para afirmar,
para erigir, con cada afirmación, un sueño
(el-alto-sueño);
le pidieron las piernas,
duras y nudosas,
(sus viejas piernas andariegas)
porque en tiempos difíciles
¿algo hay mejor que un par de piernas
para la construcción o la trinchera?
Le pidieron el bosque que lo nutrió de niño,
con su árbol obediente.
Le pidieron el pecho, el corazón, los hombros.
Le dijeron
que eso era estrictamente necesario.
Le explicaron después
que toda esta donación resultaría inútil
sin entregar la lengua,
porque en tiempos difíciles
nada es tan útil para atajar el odio o la mentira.
Y finalmente le rogaron
que, por favor, echase a andar,
porque en tiempos difíciles
ésta es, sin duda, la prueba decisiva.

boring life


Life is so boring
first off to bed and snoring

Wake up, make up and dress up
off to work, only to mess up

One o’ clock, time for lunch
where you only have time to munch

Back to routine work
only to face the boss who is a jerk

When I wonder will five o’clock come
cos’ that’s the time to be home

Home? Oh to the same old house of mine
going back home, waiting for dinner time

After that, TV time just sitting there
in front of the idiot box and stare and stare

Then what? But off to bed of course
and have my life restart its course

Round and round it goes…
When it will stop nobody knows.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

DESPERTAR É PRECISO



Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.

Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissèmos nada, já não podemos dizer nada.

Vladimir Maiakóvski

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A sabedoria do rinoceronte



Mantém-te placidamente no meio do ruído e da pressa e lembra-te de quanta paz podes encontrar no silêncio.

Tanto quanto possível, e sem cedências tenta estar de bem com toda a gente. Fala a tua verdade com tranquilidade e clareza e escuta os outros, mesmo os estúpidos e os ignorantes pois eles também têm a sua história.

Evita as pessoas barulhentas e agressivas, pois são vexames para o espírito.

Ao comparar-te com os outros, podes tornar-te vaidoso e mordaz, pois haverá sempre pessoas melhores e piores do que tu.

Desfruta com prazer as tuas realizações e os teus projectos; mantém-te interessado na tua própria carreira, mesmo que humilde, pois é pelo menos uma garantia contra as súbitas mudanças e imprevistos da sorte.

Exerce a prudência nos teus negócios, pois o mundo está cheio de artifícios. Mas não deixes que isto te impeça de ver aonde está a virtude, pois há muita gente que luta por grandes ideais e em todo o lado a vida está cheia de heroísmo.

Sê tu próprio. Especialmente não simules a afeição, nem sejas cínico sobre o amor, pois para muitos a aridez e o desencanto são perenes como a erva daninha.

Aceita bondosamente o conselho dos anos, cedendo com modernidade às coisas da juventude. Cria força de espírito para te escudares contra os súbitos infortúnios, mas não te atormentes com especulações. Muitos medos são fruto da fadiga e da solidão.

Para além de uma saudável disciplina, sê gentil para ti próprio. Tu és filho do Universo, nem mais nem menos do que as árvores e as estrelas e tens o direito de estar aqui. E seja ou não claro para ti, não duvides que o Universo está a revelar-se como ele é.

Por isso fica em paz com Deus, qualquer que seja a forma como O concebas e quaisquer que sejam os teus trabalhos e aspirações, no meio da confusão ruidosa da vida, conserva a paz com a tua alma.

Com todos os seus enganos e seduções, a sua penosidade e sonhos desfeitos, este é ainda um mundo maravilhoso. Sê prudente. Luta para seres feliz.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A linguagem



Gostava de começar por apresentar duas conhecidas e controversas perspectivas sobre a linguagem, mas nada contraditórias na minha opinião.

A primeira é uma queixa tantas vezes ouvida de que a linguagem é de alguma maneira inadequada para captar, ou reconhecer, a nossa vida interior, as nossas experiências privadas.

Como podemos percepcionar em palavras os nossos sentimentos? As descrições parecem tão inexpressivas, tão longínquas, tão frias em relação à vivacidade de uma sensação ou emoção.

Os seres humanos, porém, precisam da linguagem, apesar de estarem reféns dela.

Para descrever o que se avista de uma janela, ou mesmo uma flor num vaso pousado numa mesa (escura no centro, com as folhas murchas nas pontas, iluminada pelo sol da manhã, reflectida num espelho) podem-se enumerar mil situações e mesmo assim falhar…em conseguir pôr em linguagem tão completa quanto possível tudo quanto a flor possui nas suas propriedades.

E se a especificidade, “coisificação” daquilo a que chamamos “ objectos concretos” é tão inacessível á linguagem corrente, quanto mais inacessível não será a de transmitir a sensação de um momento no nosso pensamento, ou o humor, uma visão ou uma atitude.

A segunda perspectiva, também conhecida, é a de que só podemos compreender completamente as descrições da vida privada de terceiros, os seus sentimentos e experiências, se tivermos experimentado as mesmas sensações.

Isto leva-nos até à afirmação tantas vezes ouvida de que “ não podes compreender totalmente o que estou a tentar dizer-te, porque nunca o sentiste como eu”!

Determinadas descrições de certas espécies de experiências podem unicamente ser entendidas por uma pessoa que as tenha tido de uma forma semelhante.

O problema é o de que o âmago da verdade sai distorcido se associado muito de perto a uma determinada concepção do seu significado.

John Locke dá-nos uma perfeita definição ao dizer que as palavras, no seu sentido mais simples e primário, significam nada mais do que as ideias do pensamento de quem as usou. As palavras, segundo ele, são a exteriorização de ideias nas mentes das pessoas.

Por outro lado, não se pode compreender o significado da palavra “ vermelho” excepto se tivermos visto coisas encarnadas. De nada serve aprender línguas, ou consultar dicionários. Por isso também se pode aceitar que o sentido das palavras é precisamente o objecto que cada qual utiliza quando observa coisas encarnadas.

Que conclusões podemos tirar?

A poesia é a única que fala a linguagem das palavras.

A palavra, para além de ser a matéria-prima da criação da poesia, é o instrumento utilizado pelo poeta para expressar os seus estados de alma, extravasando, dessa forma, os seus mais íntimos sentimentos.

Assim sendo, o peso e o valor da palavra dependem, e muito, do modo como esta é articulada e, principalmente, dos acréscimos de significado que o poeta lhe dá.

Na poesia, a linguagem não é apenas um sistema orgânico do qual lançamos mão para nos expressarmos e comunicarmos com as outras pessoas. Nela, a linguagem apresenta-se como um "ser vivo" e, como tal, possui vida, personalidade e determinadas “nuances” que a tornam única quando comparada com as demais formas de manifestações linguísticas.

Na minha opinião a linguagem possui três funções fundamentais no esquema da comunicação: a representação, a expressão e o apelo.

A palavra, assim, transforma-se num instrumento utilizado pelo poeta para retratar a sua visão de e sobre o mundo; é o código por ele utilizado para traduzir os seus sentimentos e desnudar as suas emoções. Possui vida, é nervosa, auto-suficiente e criadora de outras palavras que, por sua vez, possuem um novo significado. No poema, a palavra é que faz nascer o "espaço."


Som da Linguagem

Por vezes reaprendo
o som inesquecível da linguagem

Há muito desligadas
formam frases instáveis as palavras

Aos excessos do céu cede o silêncio e
as constelações caem vitimadas
pelo eco da fala

Gastão Cruz, in "Campânula"

sábado, 29 de outubro de 2011

Há amor para sempre? Há saúde eterna? Há empregos definitivos? Há sol ou lua sempre iguais?


Hoje resolvi parar por uns momentos para pensar um pouco.

Tenho nos últimos meses trabalhado muito e com pouco recolhimento para grandes reflexões.

Actividade em demasia não é saudável sob nenhum ponto de vista: para o corpo, para o espírito e sobretudo para um certo desejo de felicidade.

Na verdade, nascem uns, para outros vão passando os anos, mas o que fica sempre é esta sensação de caducidade, de provisório em tudo o que fazemos ou sentimos.

Há amor para sempre? Há saúde eterna? Há empregos definitivos? Há sol ou lua sempre iguais?

Há sobretudo um humor permanente, sem desvios?

Pois as respostas a estas perguntas, que na minha opinião são de um rotundo não, fazem com que os nossos dias não sejam mais do que um passeio transitório por este mundo.

Quando chegar a solidão, a velhice e a morte nada nos deve surpreender pois se formos atentos, tudo é previsível.

Pareço negativo, sorumbático, deprimido…nada disso!

Talvez cansado mas realista.

Mesmo as boas alegrias que são picos de felicidade, uma vez os primeiros momentos passados, tornam-se rotineiras. Não se pode estar sempre esfusiante…seria tremendo!

Tenho ouvido dizer que há estimulantes sexuais que dão potência seguida durante 72 horas, passe a publicidade! Que grande maçada deve ser ter que se fazer sexo para aproveitar os efeitos erógenos!

Em conclusão, mais uma vez estou a ser desmancha-prazeres pois deveria incensar os nossos tempos presentes, ressaltando o positivo, ainda que pouco se vislumbre.

Mas se não sinto que haja motivos para ter esperança na Europa, em Portugal e até no Mundo tal como avança, então porque hei-de disfarçar o meu descontentamento, a minha desilusão, o meu desalento e a “preguiça” do futuro risonho?

Claro que desistir é morrer, mas uma coisa é continuar a lutar, outra é, de momento, sorrir imbecilmente e achar que tudo é delico-doce!

Há pequenos oásis de paz e felicidade e há espaço para desejar sorte e mudança para quem acaba de nascer.

Talvez daqui a umas generosas dezenas de anos, os neófitos possam almejar ter uma vida mais harmoniosa.

Eu estarei de certeza ao lado do meu primo Luis Bernardo, no Além, em alegre caturreira observando o planeta terráqueo!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Evadido


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Para ser Grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Desafio




Olá,

Hoje escrevo para ti!

Sim, para ti que passas por aqui sem nunca dizer nada!

Já te apanhei uma vez ou duas a ler uns bocaditos, a ouvir uma musica e a olhar para uma das fotografias!

Por isso aceita o desafio… Escreve um texto sobre a foto.

Bem sei que nem nos comentários escreves, mas isto é diferente: podes ter um post que ninguém vai ler!

Será coisa para contares aos filhos e até aos netos!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A recuperação da culpa


A Cultura Europeia encontra-se, há pelo menos seis décadas, numa situação embaraçosa. Ao serem solucionados problemas da saúde e do trabalho; ao crescerem as hipóteses e as profecias do bem-estar, o espírito criador foi sofrendo na sua raiz uma lesão profunda. A solidão, tão cara ao homem de pensamento e necessária à sua originalidade, foi sendo condenada pelo apelo à aldeia global. As fronteiras, ao caírem, produziram um fenómeno de desorientação; os mass-media, ao servirem os grandes espaços geofísicos, contribuíram para uma desmobilização do génio.

Não é de estranhar que a Cultura se tornasse uma espécie de cruzada, sem objetivos exceto os de menos alcance e que competem aos programas locais, de divulgação mais excitante. Mas o pensamento ficou bloqueado, o cérebro humano não responde aos estímulos da paixão criadora. Os modelos heroicos foram surpreendidos por uma concorrência de robots, que desiludem os homens e deixam as sociedades perturbadas quanto aos seus direitos à imaginação própria. No entanto, é preciso enfrentar as condições oferecidas por uma nova era que se quer propensa à esperança genuína dos povos. Uma era de Cultura.

A Cultura é, em princípio, um sentimento de afeto pelo mundo que nos rodeia. Se o afeto das situações não for contemplado, a Cultura não passa do âmbito das instituições que a nomeiam e tentam proteger. Ao ampliar os seus horizontes físicos, o homem sente-se tentado a julgar-se preparado para o acontecimento da Cultura. Porém, conhecer mais nomes célebres e lugares estranhos não desperta o caráter primordial duma cultura, que é o ser livre de orgulho e dispensado da inteligência de grupo. Toda a diferenciação cria qualquer forma de fanatismo. A Cultura instalou-se sempre partindo duma diferenciação. É um direito, sem dúvida, mas em que medida um direito não é também uma culpa?

Para vivermos plenamente um direito, temos de nos mover dentro do afeto desse direito. Não na autoridade ou no espírito da lei que lhe assiste, mas no afeto do direito. E o afeto da culpa? Quando ele nos é negado, morremos no corpo e no espírito.

A um auditório de mulheres de cultura, faria sentido eu dirigir a seguinte pergunta: porque é que a culpa foi, através dos tempos, atribuída às mulheres? Ao atribuir-se à mulher um estado de culpa, não se estará a dignificar a culpa como motivadora duma civilização? É possível. Nesse caso, a mulher, como portadora duma culpa, é sempre iniciadora duma cultura. A culpa, nesse caso e aqui, não é um opróbrio, mas uma consequência da própria infalibilidade. Só da culpa a pessoa pode elevar-se. A cultura parte do pressuposto duma culpa. Só ela se interroga. Só ela desencadeia o conflito.

S. Boaventura, porque observa a ordem da justiça com particular atenção, considera o pecado original não só imputável à mulher, mas também ao varão por não a ter contido e reprimido. O homem teme, ao mover a mulher a seguir a razão, perder a sua parte de deleite sensual de que a sociedade fez um bem útil. É de prever que novas capacidades intelectuais e morais estejam em evolução no homem do futuro. A sua sensibilidade ganhará forma no sentido de o aproximar de uma linguagem mais universal do que tribal. A literatura e as artes serão cultivadas como uma religião de ascetas, provavelmente. A ascese é a escolha duma inovação. É uma prova da inovação.

Entretanto, um dos grandes impasses da Cultura reside nos conflitos entre o prazer que a sociedade adapta ao seu sistema, e a vinculação ao desprazer, ou seja, ao trabalho e a todas as propostas difíceis.

O mundo está constituído por etnias cujas contradições não são absorvidas tão rapidamente como se movem e se reproduzem. A Cultura, fenómeno de sedimentação de experiências, tornou-se num expediente, numa tática e num consentimento sem obra.

Todas as pessoas possuem um dom que protege há milhões de anos a sua vida na terra. É uma espécie de infalibilidade que previne o instinto de morte de se desenvolver e nos destruir. Não tem a ver com a opção, mas com um acordo comum entre todas as espécies. A vontade do homem apoia assim o interesse dos políticos que, como Ciro, fazem de cada lar um bordel, para deste modo governarem as metrópoles com menos despesa de guarnições.

A Europa enfrenta-se com o seu dom de infalibilidade. Decisão, partilha, amor e cultura têm de ser conduzidos pela mão da infalibilidade. Senão, tudo não passará de muito barulho para nada.

O afeto da cultura, mais do que o planeamento da Cultura, a infalibilidade, mais do que a certeza, serão auxiliares para nos podermos conhecer e libertar.

São estas as ideias para uma renovação da Cultura. São ideias que marcam o entendimento do tempo comum europeu, tanto atlântico como mediterrânico.

O tempo europeu, subsidiário da cultura helénica e romana, encontra hoje o vazio do pensamento que a serviu. As dicotomias bem e mal, justo e injusto, puro e impuro, sofrem grandes provações. A tendência é para recuperar do passado velhas fórmulas cuja sabedoria está confundida com preconceitos mutáveis.

Que nome daremos à atualidade da culpa, única forma de instaurar uma cultura? É com certeza nome de mulher. O nome do eterno feminino que o Dr. Fausto reconheceu não sem admiração. «A tua incerteza mata-me» - diz Fausto a Margarida. E ela está completamente nas últimas palavras que profere: «Causas-me horror!»

Freud deu o último abanão ao sentimento burguês de culpa. Depois disso a sociedade não parou de conferir ao prazer uma inteligência como forma de reprimir os ideais, mais perigosos do que o instinto do prazer.

É certo que a culpa pode submeter os homens a um simples treino da infelicidade. Hoje, o homem está capacitado de ser infeliz, apesar de as condições de vida serem melhores. Os seus padecimentos são demonstrados, são, por assim dizer, consumidos. Mas não correspondem a qualquer glória integrada no mistério humano.

Conheci uma mulher pobre e, além disso, atrasada mental. Ela passava os dias prestando serviços gratuitos numa pequena loja onde eu ia fazer as minhas compras do dia: o pão, o leite, a fruta. Ela vigiava-me para que eu não escolhesse a fruta e repreendia-me se eu o fazia. Até que, um dia, a dona da loja lhe fez ver que eu era uma pessoa importante e que não podia tratar-me dessa maneira. No fundo, eu achei que aquela mulher era idiota e que alguém devia pô-la na ordem.

Só que, alguns dias depois, a mulher apareceu morta em casa. Embora todos comentassem aquilo sem qualquer emoção duradoura, eu pensei que alguma coisa teria acontecido que lhe tivesse provocado a morte. Ela tinha sido atingida na sua infalibilidade. Há um ponto na razão que comandou a infalibilidade, o direito de julgar e de agir conforme o afeto da justiça. Eu tinha ferido de morte a infalibilidade dessa mulher. Ela viu-se como todos a viam: pobre e inútil, sobretudo, fora da inteligência da culpa. Eu e os outros não a culpávamos. Mas também não a amávamos.

A mulher-objeto, a mulher-demónio, não são senão interpretações da culpa. A mulher não representa maior perigosidade do que o homem, e isso tenta-se demonstrar ao situá-la numa escala inferior, ou numa situação submissa. Mas o que muito se demonstra sofre de falta de convicção.

A mulher conhece-se a si mesma; o homem não. Não é por acaso que o oráculo de Delfos, uma mulher, aconselhe o homem a conhecer-se a si mesmo, o que produziria o estado de culpa. A culpa que não se descreve por meio de qualquer linguagem, é unicamente uma via onde se cruzam a vida e a morte.



Texto inédito escrito entre 1990 e 1993, publicado no jornal “Público” a 15 de outubro de 2011, dia em que Agustina Bessa-Luís completou 89 anos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Como é que se esquece alguém que se ama?


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso

domingo, 9 de outubro de 2011

Conversa entre bonecas


O almoço

O restaurante era pequeno – poder-se-ia qualificá-lo de cosy. Isabel olhou à volta com o à vontade e prática de uma médica que tudo inspecciona. Gostou da sala: tinha sido Graça quem o escolhera mas Isabel achava o ambiente bem agradável, mesmo encantador.

Chegara dez minutos antes: detestava atrasos. Talvez essa fosse uma das razões porque gostava tanto de Lu Yang: era disciplinado e tinha maneiras. Tinha ascendido a um cargo importante no hospital apesar de estrangeiro naturalizado. Era uns anos mais novo do que ela e beneficiava logicamente da sua maturidade.

Além disso era fantástico na cama. Este último pensamento fê-la sorrir e corar. Estava confiante de que em breve desse o passo em frente. Adoraria casar-se com Lu Yang. Isabel achava que faziam o par ideal coincidindo em quase tudo. Os filhos dos dois seriam lindos. Esta ideia fê-la regressar de novo à realidade e a pensar em Graça.

Tinha acontecido já há sete meses e Isabel ficara deveras surpreendida quando Graça Simões, a convidara para almoçar. Nunca tinham sido particularmente próximas, apesar dos acontecimentos as terem colocado no mesmo palco. Graça conheceu José Simões, o director do hospital aonde Isabel trabalhava, com quem namorou e se casou.

Graça entrou no bistrot, topou-a de imediato e sorriu. Isabel retribui-lhe o sorriso e levantou-se quando ela se aproximou da mesa. Estendeu-lhe a mão para cortesmente a cumprimentar quando Graça a surpreendeu com um abraço. Ficou tão atrapalhada por um momento que nem reagiu. Constatou que Graça ficaria ofendida e se sentiria rejeitada, por isso rapidamente estreitou-a nos braços e apertou-a gentilmente. Sentaram-se as duas depois desta saudação tão efusiva.

- Acho que ficaste pasmada, não é verdade, Isabel? - Graça sorria docemente.

- De facto devo confessar que sim, pois não somos nada próximas…

- Deves estar a perguntar-te o que vem a ser tudo isto – acrescentou Graça.

Isabel acenou afirmativamente. Tinha considerado este convite para almoço como tendo um propósito definido, uma agenda.

- Como te sentes Graça? Estás boa?

- Sinto-me lindamente…agora!

- Ainda bem, fico muito contente de saber. – disse Isabel.

Antes de poder perguntar-lhe o que tinha em mente, chegou um empregado à mesa para que escolhessem. Isabel achou divertido ver que Graça escolhera ostras e salmão.

- Sabes Graça, é tudo um mito o que dizem sobre o efeito das ostras!

Graça riu abertamente e disse:

- Eu sei, simplesmente adoro mariscos.

Graça ficara encantada por Isabel ter comentado tão naturalmente esta brejeirice. Não tinha muitas amigas e esperava sinceramente poder contar com Isabel daí para a frente como uma delas.

- O meu marido, além disso não precisa de estimulantes – disse Graça com um ar maroto.

Isabel corou levemente. Graça notou-o.

- Oiça lá Drª Isabel, enfatizando o seu grau académico e o você de cortesia, de certeza que este meu comentário não lhe causa nenhum embaraço, pois não?

- Graça - disse Isabel com brusquidão pela inesperada intimidade – porque quis almoçar comigo?

- Muito bem, vou responder-te – disse Graça com prontidão – quero pedir-te um favor.

- Com certeza – Isabel ficou aliviada, pois esta resposta vinha ao encontro do que tinha expectado, e dando um gole na sua bebida, fez sinal com a cabeça para Graça continuar.

- Queria que me fizesses uma ecografia.

- O quê?

- Estou grávida, acrescentou Graça.

- A sério? Que bom, é fantástico. Parabéns!

Graça sorriu abertamente.

- Muito obrigado.

Isabel fez um esgar de hesitação e perguntou:

- Espera, porque queres que te faça uma ecografia? Não sou nem obstetra nem ginecologista! O teu marido é o director do hospital.

- Eu sei, Isabel. Tu és uma óptima médica e quero que me acompanhes durante a gravidez. E a voz de Graça baixou de tom e disse, tristemente – e tu estiveste lá, antes, quando…

- Perfeito, atalhou Isabel. Ela sabia o que custava a Graça mencionar a triste ocorrência do seu aborto espontâneo e queria poupar-lhe a dor de o recordar.

- Muito bem, disse amigavelmente, se é o que queres…e o teu marido?

- Não te preocupes, disse Graça sorrindo, ele faz o que eu quiser. Obrigado Isabel.

A ecografia

- Parece tudo muito bem e em ordem, Graça. Já vais com 11 semanas. Vou-te receitar umas vitaminas. Faz exercício moderadamente, dado que estás em óptima forma. Tens alguma pergunta a fazer-me?

- Não, acho que está tudo esclarecido…enfim…quais são as hipóteses?

- De teres novo aborto? Percebo a tua preocupação, mas parece-me tudo sem problemas nenhuns, por isso há uma margem muito pequena de risco.

- Também tudo estava bem da outra vez!

Isabel olhou para ela e a sua expressão adoçou-se:

- Graça, não volta a acontecer!

- Eu quero muito acreditar que sim, mas tenho medo!

- Eu sei, disse Isabel. Um aborto espontâneo acontece quando algo está drasticamente errado – o corpo é suficientemente esperto para percebê-lo e transmitir. Mas a maioria das mulheres têm gravidezes saudáveis que resultam em bebés felizes!

- Eu sei disso Drª Isabel – Graça estava a sentir-se taquinada pela conversa. Por isso o primeiro não foi tão duro de aceitar, mas quando perdi os gémeos…

Graça começara a sentir-se muito deprimida.

- Sim, os gémeos. Foi horrível. Isabel estava de turno na maternidade. Viu Graça na entrada da sala de operações à espera do começo do trabalho de parto, e vendo um rosto amigo, sentiu-se confortada e pediu-lhe para que a acompanhasse, mas Isabel não o fez pois o caso complicou-se e foram outros colegas da especialidade que seguiram o resto da intervenção cirúrgica.

Graça recompôs-se.

- Foi um problema bem sério, mas a explicação que me deram foi tão fria, tão medicamente correcta que chorei durante dias a fio.

Isabel disse com simpatia:

- Deve ter sido tão difícil, Graça! Talvez possas ser apoiada psicologicamente!

Catorze meses depois

- Fantástico! Este foi o melhor salmão que já comi.

- Nunca vi ninguém tão guloso por salmão como tu, Graça!

- Tenho que manter as minhas forças e energia. Graça voltou-se para o lado para olhar para o seu bebé. Isabel sorriu. O miúdo era lindo, claro de cores, olhos azuis.

- Que tal se porta durante a noite? – perguntou Isabel.

- Está com dentes e maça-nos um bocadinho, mas eu não me importo, vale todos os sacrifícios por que passei. Para além disso, isto tudo fez-me mudar!

- Porque? Como?

- Sabes, a vida continua… Tenho bons motivos para acordar, abrir os olhos, deixar que o sol me queime...entregar-me à vida...viver com intensidade... olhar o futuro com esperança, e o passado com satisfação...fazendo tudo com paixão, pois tenho a minha vida nas mãos...

MNA

A invenção do purgatório




Na Idade Média o desenvolvimento de uma série de factos e experiências históricas fizeram da Igreja uma das mais poderosas instituições da época. A difusão dos preceitos cristãos pela Europa e em outras partes do mundo fez com que os seus dirigentes interferissem profundamente nos hábitos, concepções e modos de agir de um grande número de pessoas.

Não podemos, porém, tirar a simplista conclusão de que os clérigos conseguiam que as pessoas fizessem aquilo que eles bem entendiam. A Igreja influiu na sociedade dessa época, mas houve situações em que a religião católica teve também que dialogar com os impasses gerados pelos seus próprios seguidores. Para melhor compreendermos tal aspecto, relevemos, como um interessante exemplo, a questão da vida depois da morte.

Até ao século XII, o cristão estava destinado às glórias e conforto dos céus ou ao tormento eterno das profundezas do inferno. A existência de destinos tão diferentes, fez com que vários fiéis levassem uma vida predominantemente voltada para a garantia da salvação. Mas nessa altura, muitos cristãos cometiam muitos pecados e, por isso, pairava uma enorme dúvida sobre qual seria o destino de alguém que não tivesse sido nem completamente bom nem mau.

Nesse período medieval, a organização social dos povos, legitimada pela Igreja, começou a escapar ao seu controle e estando dantes dividido entre o clero, a nobreza e o povo passou a contar com a acessão de pessoas que não se ajustavam completamente a esse modelo harmonioso preferido pelos clérigos medievais.

Passando a viver no efervescente ambiente urbano, muitos fiéis e clérigos deixaram de ter meios seguros para comprovar se alguém levara ou não uma vida louvável aos olhos de Deus.

De facto este tema era bastante antigo e já tinha sido tratado nos escritos de Santo Agostinho, no século IV. Segundo esse teólogo medieval, o indivíduo que tivesse tido uma vida mais inclinada para o pecado seria destinado ao Inferno, mas poderia sair dessa condição através das orações feitas pelos vivos em sua memória.

Já aqueles que não tivessem sido integralmente bons passariam por uma fase de purificação que poderia levá-los aos céus.

Até então, o purgatório era compreendido como um processo de salvação espiritual que se afastava do que era tradicionalmente convencionado pela Igreja.

Segundo alguns historiadores, a ideia de que o purgatório fosse um “lugar à parte” só tomou consistência entre os séculos XII e XIII. Contudo, engana-se quem acredita que esse terceiro destino no “post mortem” seja uma proposta originalmente concebida pela cristandade ocidental.

Os próprios judeus acreditavam que aqueles que não eram nem bons nem maus seriam conduzidos a um lugar aonde a pessoa humana sofreria castigos temporários até que estivesse apta para subir ao céu.

Entre os indianos, os “intermediários” poderiam viver uma série de reencarnações que os levariam até aos céus ou ao inferno.
Nos tempos que correm, eu diria que com o inferno que já temos na terra, qualquer coisa que seja o purgatório ou o céu é melhor com certeza!

Resta saber se lá encontraremos os políticos portugueses! Seria uma grande injustiça!

Lá está...corrupção!



Quem deixou pôr aquele pedregulho no meio de um bairro classificado?

Lá está, a corrupção não tem limites! Francamente!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

multidão aguarda ansiosamente a estátua de Sócrates



Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura.
Uma fronte sem rugas denota insensibilidade.
Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar.

Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes,
pois implica o silenciar de tantos horrores.

Tempos sombrios por Bertolt Brecht

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

insolência



Mi mente no está comprometida. Ella vuela libre, a veces con usted, otras tantas, con muchos otros.

Un día mi mente decidió huir, aunque mi cuerpo este aprisionando a mi cabeza confieso que no estoy enamorada.

En esta huida nadie pintará mi sombra con tiza* para recordar que ya me fui.

* giz

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O dr. Rodrigues e o centauro do Banif





O dr. Rodrigues era o criativo do Banif e tinha recebido a incumbência de remodelar completamente a imagem corporativa do banco.

Andava a cogitar desde há um mês em como poderia ser original e criar impacto na clientela e na opinião pública, fazendo a diferença com os seus concorrentes.

O dr. Rodrigues parava numa bomba de gasolina perto de casa para abastecer o seu carro de serviço e habituara-se a olhar para o Ricardo, o gasolineiro que amavelmente lhe enchia o depósito, como um ser um pouco especial, mas recebera dele sempre provas de grande respeito e deferência.

Nessa manhã a caminho do banco decidira que não podia mais demorar na identificação do novo produto publicitário do Banif, pois o Presidente tinha-lhe fixado um prazo que estava a expirar.

Ao chegar à bomba de gasolina pediu a Ricardo que atestasse o depósito e enquanto distraidamente o observava, de repente deu uma palmada na testa e exclamou:

- Raios, o homem parece um centauro! Que grande ideia de força e de pujança!

Ricardo ficou muito honrado quando o dr. Rodrigues lhe levou a primeira prova da nova imagem do Banif e ainda hoje, muitos quadros do banco, vão expressamente abastecer as suas viaturas de serviço para conhecerem a musa inspiradora do dr. Rodrigues.

MNA

precauções a ter com as imitações baratas chinesas...



Se quiserem comprar ténis de marca, usem de todas as precauções para não terem surpresas com as imitações baratas chinesas...

Serviço Nacional de Saúde poupa nos Hospitais públicos



No poupar é que está o ganho....

domingo, 2 de outubro de 2011

"A Mulher Mais Bonita do Mundo"


"A Mulher Mais Bonita do Mundo"

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

Collette III



Nesse Domingo apeteceu-lhes ir almoçar a Rambouillet, a uns 50 km de Paris. O castelo é imponente e tem um parque e um lago lindos, bem como uma pelouse enorme e muito verde, sombreada por árvores seculares aonde se está muito bem e recatadamente.

Passaram pelo Fauchon aonde tinham encomendado na véspera um apetitoso pic-nic e que constava de uma entrada de foie-gras com tostas pequenas, umas carnes frias de faisão e perdiz com um molho de amoras num frasco elegante com a marca de origem e acompanhadas de baguettes de pão de centeio, 2 garrafas de Moët & Chandon num recipiente que conservava o frio bem como as respectivas flutes, e como sobremesa umas framboesas com creme fresco, à parte. Um cesto de vime muito leve e sofisticado, continha uma toalha imaculada de linho branco bem como os talheres necessários. Um lucho mas um deleite para os olhos e para a boca!

Collette tinha-se esmerado no traje e escolhera uma tee-shirt generosamente decotada deixando ver os seus bem desenhados e opulentos seios, e uns jeans estreitos, moldando o seu traseiro e pernas de uma elegância e sensualidade ímpar.

O cabelo solto e leve, um creme hidratante na cara e um perfume que sabia entontecer Yann, que estava nessa manhã excepcionalmente bem disposto e até já lhe sussurrara aos ouvidos, mordiscando o lóbulo, propostas que lhe agradavam sobremaneira.

Escolheram ir por estradas interiores, bordejando campos floridos e verdejantes, e devagar no seu Aston Martin descapotável, contornavam vilórias e auberges que no caminho, sugeriam tentadores petiscos e acomodação.

Trocavam olhares cúmplices e langorosos, entrelaçavam-se as mãos e o desejo ia crescendo para Yann, brutal e incontrolávelmente.

De repente pára o carro, nem olhou se estava no meio da estrada, e sofregamente as duas bocas unem-se em beijos gulosos, tresloucados e sem controlo e os corpos rolam um para cima do outro e as mãos de Yann, desapertam com força e sem pudor o que impedia que os seios de Collette ficassem nas suas mãos quentes e fortes, e gemem os dois loucos de desejo.

(to be continued)

MNA