domingo, 14 de junho de 2015

Fiquei sem palavras - Admirável


Paulo Varela Gomes, Maio de 2015
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”. 
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”. 
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara. 
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar. 
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo. 
Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca. 
Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer. 
Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.
Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos. 
Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.
Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer. 
As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.
Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor...” 
Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte? 
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães. 
Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde. 
E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado. 
Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta. 
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe. 
Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio. 
Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte. 
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se. 
Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era. 
Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore. 
Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé. 
Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:
“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.
S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015

El conde de Cardigan

Nobles arruinados ha habido siempre. Resultan entrañables y mejor aún cuanto más hacen por esconder sus penalidades. El conde de Cardigan ha optado en cambio por la estrategia contraria y no ha tenido reparos en contar hasta dónde llega el desastre en el que se ha convertido su vida. Los británicos conocen bien algunos detalles de su día a día que transcurre, sobre todo, en la cocina de su casa porque allí están más calientes. Cuando cae la noche, el aristócrata de 61 años y su mujer Joanne, de 49, se retiran al dormitorio y ambos duermen vestidos para evitar el frío. Las duchas se las dan en los baños públicos porque tampoco tienen agua caliente y él, mientras, busca trabajo de lo que le salga, como chófer, p.ej, aunque a su edad no es fácil. Hasta intentó sacarse el carnet de conducir vehículos pesados para hacerse camionero y cumplir así uno de sus sueño infantiles, pero eso tampoco pudo ser. Una extraña ambición para un niño que creció rodeado de todas las comodidades, hijo del marqués de Ailesbury y de Edwina Sylvia Bonn, perteneciente a una acaudalada familia. Su infancia transcurrió en esa misma mansión con más de 100 habitaciones en la que vive ahora y que se encuentra dentro de unos bosques de casi 2.000 hectáreas también pertenecientes a la familia. De vez en cuando, si el conde tiene suerte, le llaman de una agencia de empleo temporal y puede así completar el subsidio de 85 euros semanales que le paga el Estado británico. Uno de los empleos que ha desempeñado ha sido el de conducir una furgoneta para un empresa de catering que se encarga de abastecer a los aviones privados que pasan por Heathrow. Una dolorosa paradoja: al conde le tocaba llevar latas de caviar de Harrods al aeropuerto. Joanne, por su parte, no puede trabajar al ser ciudadana americana y contar con un visado de turista. Ahora, además, ha nacido su hija. Toda una sorpresa, dada la edad de la madre, que les hizo concebir a ambos un montón de esperanzas. Y si la niña venía con un pan debajo del brazo? O mejor, si la venida al mundo de la criatura conseguía ablandar el corazón de los administradores de la mansión? Porque ellos son, según el conde, los culpables de todo. Siete años de enredos. En 2006, el conde firmó un acuerdo para convertir la mansión en un hotel de lujo con spa y campo de golf. El contrato implica un alquiler por 150 años y una inversión de unos 60 millones de euros. Patrimonio autoriza el proyecto, ya que se trata de una construcción que ostenta el mayor grado de protección, y se consiguen todos los permisos, lo que permite a la familia no desprenderse de la propiedad y al mismo tiempo obtener un gran rendimiento de ella. Pero poco después estalla la crisis financiera y los inversores deciden abandonar el proyecto. Casi al mismo tiempo, también en 2006, el conde viaja con Rosamund su primera mujer, a Arizona para visitar a su hija lady Catherine que se encuentra en un centro de desintoxicación. Durante ese viaje, el matrimonio salta por los aires y el conde, muy afectado, ingresa en otro hospital especializado en salud mental y adicciones para reponerse del trauma. Allí conoce a su segunda mujer, Joanne, que se recupera de su dependencia a los analgésicos. Ambos se enamoran y el conde se queda a vivir 5 años en Estados Unidos. Durante este tiempo, dos administradores se ocupan de las gestiones de sus propiedades. Uno de ellos es un viejo amigo del aristócrata al que conoce desde hace más de 30 años. A su vuelta de Estados Unidos, en 2011, estalla la batalla legal entre el conde y los administradores que, según la versión del primero, le cierran el grifo y no le dan ni un penique, además de apropiarse de casi 600.000 euros suyos e impedirle, por ejemplo, vender algunos objetos de plata para ir tirando. Pero el cruce de acusaciones entre ambas partes no se queda ahí y los juicios se suceden. John Moore, uno de los administradores, denunció al conde por escupirle y la justicia le absolvió. Sí que reconoce el aristócrata que llamó «cerda fea» a la mujer del otro, pero solo después de que escuchara como le decía que Joanne necesitaba perder peso. La familia del conde. En mitad de todo este lío, el conde no cuenta con la ayuda de sus dos hijos mayores que hace tiempo dejaron de hablarle. El mayor, Thomas, permanece al margen, mientras que lady Catherine ha saltado a la fama como cantante con el nombre de Bo Bruce. Incluso participó en la versión inglesa de La voz. El conde cuenta, eso sí, con el apoyo de su madre. A mediados de octubre, nació Sophie, la nueva hija del aristócrata, lo que supone una boca más que alimentar pero también algunas ventajas sociales. Según enumeraba la prensa británica, sus padres podrán optar ahora a 600 euros por el nacimiento, 24 euros semanales y una ayuda extra de hasta 3.900 euros anuales si cumplen determinadas condiciones. Lo que no ha conseguido la recién nacida ha sido apiadar a los administradores. Al revés, poco después de que la criatura viniera al mundo, el conde contaba que el paso que habían dado sus enemigos era intentar vender la mansión en contra de su voluntad por 12 millones de euros. El mes que viene se celebrará un juicio que puede resultar decisivo. Mientras, nos quedamos con la frase que su mujer dijo bromeando al 'Daily Mail': Debería haberme casado con un fontanero, así por lo menos tendría agua caliente.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

a venda da TAP


Acabei agora uma reunião e estou de volta a casa. Há sempre qualquer coisa cá dentro que deixa uma sensação de incómodo. A venda da TAP nestas circunstâncias faz-me recuar uns tempos atrás, aonde todos os Portugueses tinham orgulho na sua transportadora e nem se concebia que fosse vendida nem que tivesse prejuízos e passivos deste montante.

Pensávamos na segurança, na qualidade, na certeza de sermos bem tratados e no orgulho de ouvirmos elogios internacionais gabando uma empresa portuguesa.

Não interessa apurar se foi bem vendida, se o comprador é ou não o melhor, se o PS tem razão ou não ou se o Governo agiu bem.

Faltam-me dados para ter uma rigorosa opinião sobre o assunto em todas as suas vertentes. Irrita-me logo os "asseclas" da oposição a ameaçarem que fazem reverter o negócio, com os custos para todos nós em dois tabuleiros: as indemnizações vultosas a serem pagas por frustração das expectativas e lucros cessantes bem como o que o Estado terá que aportar para assegurar a manutenção na esfera pública da companhia, passados tantos meses.

Por outro lado, os "manteigueiros" do poder e do Governo nem lhes passa pela cabeça que o Governo possa errar. É demais!

A sensação que me dá, não sei se concordam ou já sentiram alguma vez, é a do dia do enterro de alguém que nos disse muito, quando se regressa à porta do cemitério para mergulharmos de novo na vida, fica-se com a boca sêca, sem jeito e sem vontade de recomeçar. Há como que um cansaço de encarar a vida sem a presença desse familiar ou amigo querido.

Pois é o que sinto e ninguém me convence que estamos em tempos melhores...cada dia a caminhar para situações de desencanto que não se resolvem com folhas de cálculo.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Qu'ai-je donc fait ?


Qu'ai-je donc fait ? J'ai aimé l'eau, la lumière, le soleil, les matins d'été, les ports, la douceur du soir dans les collines et une foule de détails sans le moindre intérêt comme cet olivier très rond dont je me souviens encore dans la baie de Fethiye ou un escalier bleu et blanc flanqué de deux fontaines dans un village des Pouilles dont j'ai oublié le nom. Je ne regrette ni d'être venu ni de devoir repartir vers quelque chose d'inconnu dont personne, grâce à Dieu, n'a jamais pu rien savoir. J'ai trouvé la vie très belle et assez longue à mon goût. J'ai eu de la chance. Merci. J'ai commis des fautes et des erreurs. Pardon. Pensez à moi de temps en temps. Saluez le monde pour moi quand je ne serai plus là. C'est une drôle de machine à faire verser des larmes de sang et à rendre fou de bonheur. Je me retourne encore une fois sur ce temps perdu et gagné et je me dis, je me trompe peut-être, qu'il m'a donné - comme ça, pour rien, avec beaucoup de grâce et de bonne volonté - ce qu'il y a eu de meilleur de toute éternité : la vie d'un homme parmi les autres.

Jean d'Ormesson

sábado, 6 de junho de 2015

E não me chamem de mestre

E não me chamem de mestre
sou apenas aprendiz
daquilo que me é o mundo
e do que sendo me diz


Agostinho da Silva

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Oipniões sobre política actual


No meio dos meus afazeres internacionais, acabo por ter algum tempo no intervalo das diferentes "time zone" e tenho acompanhado em mais detalhe quer as eleições em Inglaterra e agora em Espanha, com vista a um meu maior esclarecimento.

Tenho-me também focado nos diversos programas eleitorais que começam a surgir aqui em Portugal e devo confessar que estou cada vez mais decidido a votar em branco, continuem as propostas a ser as que têm vindo a lume.

Alguns rápidos considerandos para não vos maçar.

1. O Presidente da República tem toda a razão quando chama a atenção para a crescente apatia política na sociedade portuguesa, transversal a todas as idades e extractos sociais e profissionais. Naturalmente que é um aviso aos partidos para que orientem os seus programas e campanhas eleitorais por forma a que os resultados sejam expressivos da vontade do eleitorado e não de uma minoria;

2. O Partido Socialista tem ideias apelativas e populares e, na minha opinião vai ganhar sem maioria, mas ganha. Porquê? São melhores? Não, mas perceberam que a austeridade teve os seus dias contados e mesmo que demagògicamente as propostas apresentadas criem dificuldades no futuro, os povos precisam de "descanso" no sofrimento e nos sacrifícios e votam no imediato. Mesmo antecipando problemas mais tarde (hoje em dia os "economistas, juristas e comentadores desinformados e impreparados" de raiz popular aumentaram exponencialmente devido aos debates enfadonhos e frequentes nas televisões) não se preocupam um momento sequer e deixam que sejam os vindouros a resolver. Por isso, o canto da sereia é atractivo. Muito mais haveria a dizer para sustentar a minha tese e até opinar sobre os interlocutores do PS. Fica para outra ocasião.

3. Eu votaria para Presidente da República no Marcelo Rebelo de Sousa. Vou escrever-lhe em breve pois conheço-o bem e dar-lhe algumas dicas tais como:
- tenha coragem por uma vez e diga francamente: eu sou candidato para ganhar e se perder, paciência.
- preciso que votem em mim, quer os partidos do centro e direita como as pessoas que se revêm em seriedade, competência, experiência internacional, cultura e mundo.
- não estejam sempre a pensar no meu passado e acreditem que as pessoas mudam e sobretudo se forem apoiadas;
- vou fazer um programa de compromisso para com os Portugueses;
- não julguem antes de me verem cumprir.

4. Tenho ouvido o Marinho e Pinto. Conheci-o pessoalmente em várias reuniões como Bastonário da Ordem dos Advogados. Nada a ver com política.
Por mais que estranhem, gosto do homem, e acho-o inteligente e capaz. As ideias que apresenta são genéricamente descomprometidas com todos os partidos.
É desorganizado, não tem estruturas nem experiência política, parece...digo parece oportunista, mas não creio. É um fenómeno do Entroncamento, mas único.
Ouvi, no programa Alta Definição já há alguns meses uma longa entrevista e gostei bastante. Conquistou-me.
Gosto de ideias e de gente. Estou-me nas tintas para os preconceitos dos outros, os que já me conhecem, sabem que sou assim.
Está portanto em banho-Maria na minha apreciação final. Seria útil para Portugal, tê-lo no Parlamento. Com o tempo pode-se tornar um excelente político. Veremos.

5. O Governo e a coligação.
Pelo que tenho ouvido e lido, a mensagem é pastelosa, repetitiva e professoral. Também dão tiros nos pés e estas últimas declarações da Ministra das Finanças vão-lhes causar a derrota.
O discurso técnico é porventura justo, mas não compra votos.
Os resultados têm sido sobretudo positivos para a imagem de Portugal no exterior o que é bom, e aliás, indispensável em termos financeiros senão a penúria seria ainda maior.
Uma terrível falta de estratégia de comunicação do Governo: o fartote de sempre o mesmo tom do PM ou de ameaça e pancada ou de optimismo disparatado.
Continua a falta de emprego, a crise, a pobreza, as pensões baixas, o desânimo quanto ao futuro.
Esta é a realidade, ainda que talvez injusta pelos esforços feitos.

Mas em política, como todos sabemos, quem ganha eleições é quem faz tinir nos bolsos dos contribuintes/eleitores mais uns tostões...e neste caso, saem todos dias os poucos que ainda vão restando.

Uma coligação em que se cheira à distância não haver affectio nem engajamento e por isso, o eleitor está farto de protagonismos.

Tantas coisas de interesse para comentar: o Syriza, a Grécia e as previsíveis consequências, o Podemos, os Nuevos Ciudadanos, a Rússia, a Palestina e Israel, o Papa, etc

Há tantas novas ideias no ar, tanto tão mais agradável do que o bolorento políticamente correcto. Mas isso sou eu que sou um anarquista convicto...não tenho dono.

Tenham paciência, mas sou vosso amigo e sobretudo tenho liberdade para pensar como quero.

Isso não tem preço.

domingo, 24 de maio de 2015

grande conta bancária

As senhoras dos 40 em diante, compram soutiens generosos, exibem peitos mascarados e fazem dietas horrorosas passando fome, não aproveitando a vida. Será que pensam que disfarçam a idade?

Erro: pois as sérias, casadas ou uniãodefactadas têm já companheiro. As pouco sérias, ou seja as putas, mesmo que não ganhem dinheiro, não enganam se comparadas com moças novas, frescas e jeitosas.

Entendamo-nos, estou de acordo em que se cuidem e sejam garbosas, bonitas e vistosas do que gordonas, com rabo em forma de pêra ou de outro fruto, usando vestidos ratões de padrões do tipo cortinados, sem jeito.

Mas nada melhor do que chamar as coisas pelos nomes: mulheres ou homens novos não são comparáveis com a geração mais velha.

Cada geração tem o seu encanto!

É um fato ou será um facto!

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Empreendedorismo




Anúncio em plena Av. Angola (Alto Maé, Maputo, Mocambique)
Medico tradicional que acaba de xegar de Nampula (Mocambique)! Veio pra ajudar você: cura quase tudo!
1. Faz scapar condenção de juiz no tribunal;
2. Faz aquele que não da filho dar filho;
3. Faz trazer cliente na Barraca, na loja ou nagocio para dono ficar rico;
4.Faz devolver aquilo que roubaram ou fica maluco;
5. Tem remédio para homem que já dexou de ser homem levantar e ser homem outra vez;
6. Faz aumentar bicho de homem para mulheres gostar bem;
7. Faz diminuir bexiga de mulher ou gordura que nao presta para homens gostar muito ate eskecer em casa;
8. Tem remédio de separar casal para ficar com mulher ou marido dele;
9. Devolve marido roubado e gostar da mulher dele muito mais;
10. Tem remédio pra quando dormir com mulher ou marido de dono não ser descoberto;
11. Tem remédio para homem ficar muito tempo dentro da mulher;
12. Tem remédio para ter marido, serviço e outro sorte qualquer;
13. Faz meninas parecer bonita e ser gostado por todos os homens;
14. Faz criança parecer com marido quando gravida apanha com vizinho;
15. Ajuda Agiota esquecer cobrar dinhero quando está muito mal com outra dívidas;
16. Cura doenças venerea que se apanha quando faz asnera de adultos;
17. Ajuda mulheres pra os marido lhe dar muito dinhero;
18. Faz chefe gostar no serviço mesmo você nao ser nada;
19. Cura doença dos pulmõs;
20. Faz passar de classe estudantes que no estuda.
21. Ajuda fazer tese de mestrado (MBA) em um mes;
22. Faz aparecer processo na universidade, quando precisa provar que estudou lá.
23. Ajuda partido ter razão no CNE ou Tribunal Congestional quando outro partidos ou chefes grande faz porcaria;
24. Ajuda você nunca ser confundido com "DISTRAÍDO";
25. Já esteve em muitos paises internacionales entre eles:Chimoio, gurue, nhassa, tete, machixe, zandamela, xocué e boane!
Recebe 50% no dia do tratamento os outros 50% recebe quando cliente ja estar bom;
Dr. Taibo Wotheque Abdulah
Avenida de Angola, Bairro do Alto Mae, Maputo, perto do canhoero ver placa amarela!

Lo que Juan dice de Pedro


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Atitude e os incidentes de ontem - Benfica campeão e efeitos quejandos

Que grande maçada esta de ver, ouvir e ler a cada minuto comentários sobre os acontecimentos à volta da vitória do Benfica.
1º ganhou : parabéns e ponto final. Não há cá que ficar de cara torta e ser-se cínico. As regras foram cumpridas.
2º Claro que nem todos os benfiquistas são selvagens, nem apanham bebedeiras de caixão-á-cova. Também há desta gente em todos os outros clubes e fóra dos clubes, infelizmente.
3º Há gente muito excitada, desgovernada, marcada pela crise e precisa de um momento de descompressão, já sabemos, mas tudo tem limites.
4º A PSP não tem obrigação de suportar os insultos e os destemperos de bêbados, de gente ordinária e sem maneiras e neste caso descontrolados pela vitória.
5º Na PSP, como em todas as instituições públicas e privadas, há boas e más pessoas, gente controlada e desejosa de também descomprimirem pelos sucessivos atentados à sua dignidade. Tanto faz, deverão ser responsabilizados depois de apuradas as culpas, como toda a gente.
6º O futebol está a tornar-se num desporto que aliena as consciências e faz que se tenham os olhos raiados de fúria ou de ódio, e cria situações próximas do ridículo.
7º Ontem ao pé de mim passaram uns quarenta rapazes a gritarem palavrões da pesada e nem sequer ao Benfica se referiam.
8º Se perguntarmos a um destes trogloditas que berravam como só os chibos fazem, porque estava ali e a gritar...saem uns sons roucos e sem sentido...acho que nem na morte de algum familiar se verão emoções tão destemperadas que roçam o absurdo.
9º Um clube é uma pessoa colectiva, composta por sócios e jogadores. Não é uma pessoa moral, um ser humano por quem se vibre com o ardor do amor ou da amizade ou do sacrifício...digo eu, mas parece que é.
10º Finalmente, bom seria que nas escolas houvesse uma cadeira obrigatória de comportamento na cidadania, e não só no futebol: nos respeito pelas coisas de terceiros, no cuidado das cidades e vilas aonde se habita, na ajuda aos que sofrem...podia fazer um doutoramento sobre este tema.


A ver se não damos aspecto de atrasadinhos mentais, vale?

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mais uma aula na cadeia de Monsanto

Mais uma aula na cadeia de Monsanto. Tive que esperar meia hora para que um guarda barbudo me abrisse a porta da zona dos reclusos para entrar na sala de aula. Este é um país de greves! Faziam-na de manhã até às 15h, quando deveria ter começado o meu trabalho com os reclusos às 14h30m.

Hoje resolvi dedicar a aula a uma tarefa também do domínio do ensino de português para estrangeiros, mas na sua expressão oral. Ou seja, cada um deveria exprimir-se sobre um tema que eu escolhera e apresentar as suas ideias em português.

Ora, como eles vêm na televisão os canais portugueses, e tendo-me falado sobre Fátima, achei que seria interessante trocar impressões sobre dois pontos concretos:

- como encaram a religião? Que impacto tem ou não na sua vida de prisioneiros de alta segurança ( 90% do dia em celas individuais) a religião? Rezam ou são não crentes? Como vêm a morte e a vida após a morte? Acreditam nisto ou acham que tudo termina no momento da morte?

- acreditam num Deus? Ou não? Como vêm o Universo ? Quem criou o Universo e os Homens? No avanço da ciência aonde se coloca a terra? É o planeta mais importante por ter sido criado por Deus ou é mais um núcleo de vida? Que pensam sobre as diversas Igrejas e suas normas?

São reclusos católicos, muçulmanos, ortodoxos, ateus e não praticantes pelo que a variedade de origens era desafiante e actual.

Devo confessar que mais do que ter grandes discussões filosóficas, o meu objectivo era pô-los a falar como terapia para o isolamento, solidão e silêncio a que estão votados a cada dia.

Todas as vezes que saio, finalmente, para a rua, respiro fundo e fico estomagado ao pensar que muitos mais do que só os meus alunos, ficam para trás sem poderem sequer aproveitar a magnífica vista de Monsanto, dentro do perímetro da prisão, e revolvem-se numa rotina cinzenta e inoperante, castradora de qualquer reinserção.

Não quero estar sempre a pisar na mesma tecla, mas se quem de Direito, estudasse realmente as condições das cadeias, haveria seguramente muito a mudar.

Um outro aspecto muito relevante é a calacice a que conduz pessoas sem horizonte nos próximos 7 a 20 anos de cadeia, que passam os dias sem rigorosamente fazerem nada.

Estou, naturalmente decido, como aqui tenho dito a tentar modificar tal estado de coisas através de parcerias com entidades e universidades, bem como com particulares que se queiram juntar a mim nesta tarefa.

(continua)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Fátima

Durante muitos anos fui no dia 12 de Maio a Fátima para participar na Procissão das velas e demais celebrações, bem como ficar para o dia seguinte.

Seguia atrás do andor como Membro da Ordem de Malta e por isso dava a volta ao Santuário, cantando e rezando.

Depois passei para o meio da esplanada, pois a pompa e a circunstância não se coadunavam mais com o espírito de peregrino que me levava a Fátima.

Ultimamente e quando me apetece vou no meio da semana, longe da multidão, sentar-me na Capelinha e ali fico no sossego do silêncio participando, quando há, nalguma oração comunitária.

Sempre me comoveu a procissão das velas e no dia 13 o adeus à imagem que vinda do altar-mor no fim das celebrações é despedida por milhares de lenços brancos a cantarem o adeus.

Claro que são momentos em que os sentidos ficam mais apurados e são contagiados pela emoção colectiva. São fenómenos conhecidos de que não me envergonho. São uma espécie de catarse necessária que limpa meses ou anos de empedernimento, falta de choro e desfaz no coração alguns espinhos mais teimosos em o deixar bater sem limitações.

Porém tudo isto é muito bonito mas quando se volta e se mergulha no dia-a-dia é aí que devemos pôr em prática a conversão interior na dedicação aos outros, a começar pelas nossas famílias.

Hoje em dia existe e aliás sempre existiu cepticismo em relação às aparições com teorias da conspiração para todos os gostos.

O que para mim é sempre mais difícil, independentemente de não ser o meu género venerar imagens que variam consoante o escultor ou pintor, é o conceito da fé sem ver, ouvir ou tocar. Eu sou muito “S.Tomé” e por isso, espero com curiosidade o dia em que chegar o meu fim, para tirar teimas ou pura e simplesmente ter passado a cinza, pó e nada.

Faz-me sempre candura as promessas em Fátima de gente simples e não só, diga-se em abono da verdade, que desejam “comprar” favores através de esmolas ou sacrifícios e que quando não se realizam, são capazes de voltar a pedir! Oiço com frequência e nestes tempos de crise súplicas do tipo” Ai, minha Nossa Senhora, fazei que o Jorge não seja despedido” e TAU! vem um estrepitoso processo de despedimento colectivo em que o dito Jorge vai para a rua e sabe Deus com que indemnização e se a recebe algum dia!
Esta é a realidade e digo isto sem nenhuma intenção de troçar de tantas pessoas que eu conheço, família e amigos, que pensam que Deus e os Santos, são especialistas do PIB, da redução da despesa, de decisões do Tribunal Constitucional, e por aí adiante.

Enfim, se tivesse tido a ocasião lá teria ido nesta noite quente a Fátima, ver desfilar pelo meio da multidão uma figura de gesso, frágil e rodeada de luz de velas que faz chorar, cantar de alegria, de súplica, de fé e de esperança em quem acredita ter aparecido a três bouçais pastorinhos.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Carta do meu primo Luis Bernardo - Narrativa da festa e jantar



Meu Querido Manuel,

A festa dos teus Pais foi um deslumbramento. Pediram ao "29" que lhes desse uma mão e ficou como sempre muito bem arranjado.

No terraço grande em frente da casa começava uma tenda que se alargava para o jardim imenso. Os canteiros de flores garridas de que o teu Pai tanto gosta e cuida, estavam um esplendor. De lado, por detrás de umas micas generosas deixava-se entrever o arvoredo, todo iluminado.

No fim do jardim numa varanda em pedra bastante larga, podia-se ter uma panorâmica sobre o mundo e como a festa se prolongou até ao amanhecer, os convidados vieram apreciar tanto as vistas da noite como o nascer do Sol.

O terraço tinha sido deixado para palco das representações que se iriam desenrolar e do espectáculo organizado pelos teus Pais.

Pelo parque sobre a relva, espalhavam-se as mesas que estavam lindas. Com centros de mesa com candelabros de prata e velas acesas e o serviço de porcelana armoriada da família, de que tu tens réplica no Alentejo. Os marcadores em vermeille com o mesmo faqueiro e copos de cristal valorizavam a Companhia das Índias que em cada mesa, em pequenas terrinas abertas e sem tampa deixavam sair flores vistosas a dar com as cores da porcelana.

As toalhas em seda beije e com saiote tornavam o arranjo das mesas imponente. As cadeiras eram confortáveis pois o "29" decidiu e muito bem, que os convidados deviam estar cómodos.

Criados fardados de libré, serviam os aperitivos que eram deliciosos: salmão fumado enrolado em cónes crocantes, caviar beluga à colher sobre blinis, uns camarões frescos em pequenas empadinhas de massa folhada, uns croquetes de javali quentes e como bebidas, champagne, vinho da Madeira, jerez, vinho branco gelado Chablis e Carcavelos.

O jantar era muito bom:

- ostras gratinadas com espinafres, acompanhadas por champagne;

- lagostins grelhados com molho de mayonnaise aux fines herbes acompanhado por um Mosel de primeira ordem;

- um sorbet de lima;

- perdiz estufada com cebolinhas e batata palha e acompanhadas por um vinho tinto de Chateau Petrus.

De sobremesa um soufflé Grand-Marnier acompanhado de Licor Beirão, et pour cause…

Um plateau de queijos servido em cada mesa, com Serpa e Azeitão acompanhado por um Porto Barros de 1919.

No final, havia charutos que tinham sido trazidos pelo Conde de Montérrón, ele de origem cubana, e as bebidas do costume desde o Drambuie, Whiskies de malte e sem serem, Cognacs, e Grappas. 

Muitos smokings brancos impecáveis e as senhoras muito bem vestidas, com jóias formidáveis. A parentela esmerou-se.

Lá estavam os Amigos de sempre, os Horta e Costas, os Herédias, os Mónica, os Andersen, os Vasconcellos Abreu, o Pai Motta Veiga, os Marques Guedes, os Rebello de Sousa, os Lagos, os Vasconcellos Guimarães, os Paiva Raposo e como já tinha bebido um bocado, não dei por mais.

Havia uma orquestra impecável e dançou-se bastante. A um dado momento os teus Pais que estavam elegantíssimos, foram para o terraço e a tua Mãe agradeceu muito terem vindo à festa e anunciou que se iria começar com as duas representações referidas num programa que constava no verso de um menu lindo com a descrição dos pratos do jantar, impresso a grená com um diabinho com uma cauda no meio de uma frase que dizia: “who’s the devil, is sitting here?” Por baixo o nome do Convidado. Tudo isto mandado vir de Bond Street do Smythson, que é único.

Tive uma longa conversa com o teu Trisavô, Dom Francisco Bernardo de Noronha e Távora, a propósito de uma demanda sobre umas terras e uns palmares bem como sobre uns palácios e casas em Goa. Acabou por ser o teu Bisavô Souza Andrade que como juiz da Relação de Nova Goa, dirimiu o assunto. Também encontrei a tua Bisavó italiana, com quem falei sobre Génova, cidade de que eu gosto tanto.

(continua)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Resposta do meu primo Luís Bernardo - ceia sublime


Meu Querido Manuel,

Cá recebi a tua carta que chegou bem. Estou numa roda-viva pois há aqui uma enorme festa organizada pelos teus Pais. Para além da tua família toda até aos 4ºs Avós, dos dois lados, resolveram convidar amigos de toda a vida.

O pretexto, imagina tu, é a Alegria. Até parece que um dos temas da tua missiva – a Tristeza – para que me pedes conselho, vem a calhar para te falar do que aqui se celebra. Se me deixas, vou responder-te falando do oposto.

Pois a tua Mãe, com a sua energia habitual, está a preparar tudo para que seja uma festa em cheio. Sabes como ela aí fazia umas peças de teatro muito engraçadas em que participavam os filhos e netos e os amigos caturras. Pois aqui, vai ser sem vocês os filhos e netos, mas com a parentela e os que aí tão bem alinhavam nas representações e divertimento.

Assim vai haver vários quadros inspirativos:

- é na família que se encontra a ALEGRIA – sabes tão bem como eu que ninguém é igual e cada um tem os seus feitios e interesses e à medida que se vai crescendo vai-se adquirindo a sua personalidade. 

É no seio da família que se devem dirimir os diferendos, recuperando as boas memórias e perdoando os defeitos e atitudes menos bem tomadas. Se não houver uma referência e necessidade de revisitar o ambiente familiar, nos bons e sobretudo nos maus momentos, a família dispersa-se, divide-se e tornam-se uns estranhos. 

É na unidade no sofrimento e nas alegrias que aprendem os Pais e os Filhos a serem melhores, a respeitarem-se, a exprimirem sem vergonha os sentimentos de amor e de disponibilidade quando são chamados a actuar. E, o que se ganha em partir esses laços, por muitas razões que possam existir? 

O tempo passa a correr, os anos sobrevêm, as doenças e a dependência chegam, a solidão e a dita tristeza.

Que bom é um filho ou filha sentir o calor do amor dos Pais, que tantas “untold stories” têm sobre cada um, de preocupação, de sacrifício, de alegrias, de orgulho e de entrega a ponto de se ser capaz de dar a vida. 

Pois bem no sentido contrário isso acontece, que bom é os Pais sentirem o retorno desse amor retribuído em paciência, atenções, respeito, disponibilidade e ternura.

Já vês, este quadro vai ser feito pelos teus Pais, os dois com tão ricas experiências e tal como os conheço falarão serenamente com verdade, humildade sem engrandecimento, porque sempre lhes saiu com naturalidade. Tu bem o sabes.

- um segundo quadro em que o tema é a ALEGRIA que se encontra em esquecer-nos de nós próprios e dar-nos aos outros. A alegria da dedicação, da atenção ao que esperam de nós, a misericórdia e bondade no trato com todos, o serviço aos mais desfavorecidos e não só àqueles com faltas materiais: aos solitários, aos idosos, às crianças abandonadas, aos com fome e sede de justiça. Mas para esses, o exemplo da ALEGRIA é a melhor cura dos males.

Depois um baile formidável das mil e uma noites com uma ceia opípara, com um menu digno dos maiores gourmets e gourmands. Depois te conto e descrevo ao pormenor.

Vou tentar estar com o Moisés como me pediste, para o mês que vem, pois ele não é fácil de encontrar. 

Passa a vida a fazer rectificações nas diversas versões dos mandamentos. Há por aí muita fantasia, plágio e invenções disparatadas. Já veremos o que ele diz.

Quanto ao UNIVERSO, e a tudo quanto me perguntas, estou proibido de te descrever mas posso adiantar-te algo que te vai descansar. O caminho até aqui é bom e prazenteiro e como já te disse antes em outras cartas, goza a vida aí, porque aqui é diferente.

Por isso, esquece a TRISTEZA e transforma-a em motivos de ALEGRIA. Há tantas coisas boas e positivas para desfrutar, então porque entristecer-te?

Um afectuoso abraço do teu primo muito amigo

Luís Bernardo

Chiado - 1º de Maio de 2015

Chiado 18h - cheio a abarrotar de estrangeiros, de todas as idades e feitios. Uma banda de jazz muito boa toca em frente da Casa da Sorte (fechada, mais uma) . Imensa gente ouve e aplaude.

Parece Paris ou Londres ou mais Hong Kong, sem chineses, uma densidade de gente a conversar e a olhar as lojas e a entrar e a comprar. Lisboa está na moda.

Falta ao Chiado a amplitude dos Boulevards ou das 5 avenida e Regent Street, mas é o que temos. Senti-me bem.

O meu destino era a FNAC e a Bertrand, aonde vou a cada semana e quase sempre quando almoço no Turf.

As duas livrarias com bastante gente desde locais a estrangeiros.

Aqui ainda me sinto melhor! Vou acompanhando o que vai saindo por isso ansiosamente, folheio, toco, cheiro bem perto e leio páginas e vou-me encantando por um e por outro e por mais um....se fosse comprar todos saía com pilhas de livros.

Todos têm na minha cabeça o seu momento de leitura posterior, imagino a sequência e o cenário apropriado.

A FNAC tem à venda por €9,00 as obras completas de Waughm, Wilde, Woolf e tantos outros em inglês numas edições fantásticas e maleáveis com capas atraentes....apetece comprar todos, mas para quê se já tenho em livros individuais..

E é isto folks! O meu primeiro de Maio foi passado assim.

Devo confessar que as lojas estão TODAS abertas, que não estão tempos para manifs.....ao trabalho, camaradas!

(Escrito agora num maple da Bertrand, em sossego)