sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O CRIME DO PADRE ADELINO REVISITADO PELO PENINHA


O CRIME DO PADRE ADELINO REVISITADO PELO PENINHA

A Tia Umbelina dirigiu-se pressurosa a casa e quando entrou, estava só o Peninha sentado na sala a ver a bola e julgou ser alguém das relações da Tia Umbelina que vinha de visita.

Levantou-se e formalmente dirigiu-se-lhe dizendo:

- Boa noite, sou o sobrinho da Dª Umbelina e ela não se encontra. Posso-lhe ser útil em alguma coisa?

- Ó Peninha então não vês que sou eu a tua Tia Umbelina! A tua namorada é a responsável pela mudança na aparência e eu estou muito contente que ela tenha vindo.

Peninha ia caindo para o lado depois de se lembrar do fanatismo religioso, do rigor nos trajes e nas críticas ao que ela chamava de "pouca vergonha" do mundo moderno.

A Tia Umbelina pô-lo ao corrente do amor e paixão que nutria pelo Pe. Adelino e contou-lhe do convite para lá pernoitar no quarto de hóspedes do 2º andar nessa noite.

- Agora deixa-me Peninha, pois vou arranjar-me, ainda por cima estão lá uns Cónegos de passagem e que lá jantam e depois é todo meu!

E foi para o quarto preparar-se. Entretanto chega Yrina a quem Peninha pôs ao corrente dos planos da Tia Umbelina para essa noite e riram-se os dois muito divertidos, pois ficando sozinhos em casa ia haver forrobodó sem problemas e impedimentos.

Umbelina ainda maquilhada da tarde olhava-se ao espelho e sentia-se outra mulher, mais atractiva e despojada do formalismo exagerado que tinha povoado a sua imaginação toda a sua vida e que a tinha impedido de a gozar como qualquer mulher impetuosa no amor, que sempre se sentira.

Foi ao armário das roupas e depois de bem procurar encontrou uma saia comprida de seda castanha grossa dos seus primeiros tempos de casada e do seu enxoval. Sempre iria mais composta à noite pela rua e tirando uma saia de baixo com rendas, faltavam-lhe os sapatos e uma camisa sensual que seria tapada por um xaile de lã durante o percurso para não deixar ver o peito e o pescoço.

De uma gaveta retirou uma camisa de cambraia branca bordada com rendas de Guimarães que lhe deixava ver os seios generosamente salvo se um botão em madre-pérola no sítio certo, uma vez abotoado, não lhe tapasse castamente essa vista.

Vestiu-a e gostou de se ver ao espelho. Benzeu-se várias vezes e citou umas orações rápidas de piedade ao Céu e calçando uns socos de cabedal fino, enroscou-se no xaile escuro e saiu pela porta de trás sem dar notícia da partida.

Entretanto Peninha e Yrina tinham começado o seu elixir de amor no sofá, beijando-se, enrolando-se, despindo-se e aguardando que a Tia Umbelina saísse.

O quarto do segundo andar da casa do Senhor Abade Adelino, estava decorado com muito requinte e conforto. A desculpa era a de que os passantes do clero ou visitantes deviam sentir-se benvindos em ser recebidos por um descendente dos Sarmento Beiriz!

Tinha num chão de tábuas de vinhático polidas, por debaixo da cama de casal Dona Maria um tapete persa grande que saía para fora dos limites da cama, para evitar que no Inverno o frio causasse incómodo aos seus visitantes descalços a entrar para os lençóis.

Era espaçoso, tinha um boudoir em prata lavrada com três espelhos e com umas saias em seda a darem com a colcha da cama e em cima todos os apetrechos em prata esculpida que tornam a vida cómoda a uma Senhora. Por outro lado tinha um grande armário de espelho inteiro na porta que servia para o hóspede guardar e pendurar as suas roupas. Uma cómoda de pau-santo com gavetas e um espelho pequeno em cima do tampo que permitia a qualquer cavalheiro fazer o nó da gravata ou ajeitar o cabeção. Uma garrafa de cristal continha água de lavanda para perfumar o lenço.

A cama de 2 metros de cabeceira por 1,50m de comprido tinha um colchão de penas que envolto em lençóis do mais puro linho e alvura permitiam que quem nela repousasse se enterrasse por inteiro num fofo ambiente propício à luxúria.

Por cima da cabeceira tinha uma gravura de uma Santa Quitéria que quando queimada foi, se via o corpo nú e bem feito enrolada numa coluna de madeira com as labaredas a envolverem uma carne branca e púdica.

Janelas amplas por aonde entrava o sol mas que de noite estavam fechadas com portadas e reforçadas com cortinas de seda que criavam intimidade e como que protecção do exterior.

A câmara dava para um quarto de banho todo em azulejos brancos com uma tina grande e lavatórios, bidés e pias para o conforto e satisfação das necessidades de cada hóspede.

Umas toalhas de banho felpudas e grandes com as armas bordadas do Senhor Abade e num tampo de mármore encimado por um espelho corrido, encontrava-se uma profusão de sabonetes cheirosos para Cavalheiros e Damas, águas de colónia, pincéis para a barba e o adequado sabão e uma ou outra navalha para a fazer podendo bem escanhoar por afiadas que estavam. As torneiras da banheira eram em forma de golfinho prateado da Fábrica de Ferros Forjados de Manteigas.

Como se poderá constatar o Senhor Abade era um verdadeiro homem de Deus, um abastado proprietário de bens que herdara e de ascendência fidalga. Tinha os achaques da idade e sobretudo devido ao pecado da gula, que sem hesitações confessava, era obeso.

Umbelina foi pela sombra dos candeeiros como já eram umas 9h 30m da noite, estava tudo nas suas casas, para além de um ou outro cão lazarento esfomeado à procura de alimento nos caixotes do lixo.

Chegando a casa do Senhor Abade, logo bateu à porta e passado uns momentos veio o próprio Abade abrir a porta e tendo-se já esquecido da nova aparência de Umbelina ficou meio perplexo na soleira.

- Sou eu a Umbelina, Senhor Abade!

- Entra, entra e vai para a sala. Os Cónegos estão no fim do jantar e logo partirão e eu irei ter de seguida contigo – disse o Abade luzindo-lhe o olho lúbrico já bem regado por um bom tinto e por uma jeropiga.

(continua)

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