sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O PENINHA ESTEVE UNS DIAS NO ALGARVE EM MONTE MAGRO



O PENINHA ESTEVE UNS DIAS NO ALGARVE EM MONTE MAGRO

Aproveitando o regresso dos Açores o Peninha e a Adélinha resolveram ir dar um ar da sua graça pelos Algarves.

Escolheram o Hotel Afonso de Albuquerque um dos primeiros e mais bem-sucedidos do Algarve, pertencente à reputada família da região Sousa Luva.

Reservaram um quarto com vista de mar e exigiram que tivesse na varanda um ramo de flores da direcção para dar um ar de bem-vindos. Na recepção o velho Tarcísio que já vira de tudo, pensou que seriam gente difícil e convencida.

Inclusivamente mandaram por e-mail o texto que queriam constasse no bilhete no pé do ramalhete de flores:
- “Aos srs. Adélia e Peninha com os votos de uma boa estadia e muito penhorados pela vossa escolha uma vez mais. A Direcção”

Mentirosos, pensou o Tarcísio, nunca para cá vieram! 

A ideia do Peninha era para se dar ares, mostrar no trabalho para impressionar.

Eles tinham pedido rosas, mas como estava um calor de rachar, a desculpa do Hotel foi a de dizer que só havia cardos naquela época…Peninha ficou desiludido e Adélinha furiosa:

- É com cardos espinhosos que me recebes Peninha? E eu que por um momento tive o sonho de que fosses romântico!

Na primeira noite para o jantar Adélinha foi de bikini curto por debaixo de uma túnica larga transparente de côr alaranjada. Ficou gelada de vergonha quando chegou á sala de jantar e viu todos bem arranjados “chic casual”!

Estava numa mesa o Silva Tavares da concelhia do PSD local e julgando que Adélinha fosse uma militante, levantou-se e dirigiu-se a ela dizendo em voz alta virado para a sala:

- Assim é que é, com as eleições à porta, não há que ter vergonha e mostrar bem as cores do nosso partido!

Adélinha fez um sorriso amarelo e o Peninha furioso puxou por ela e desapareceram.

- Tu és doida Adélia! Então se o meu protector te vê nalguma fotografia! Estava bem tramado.

Note-se que o protector era um vago assistente do gabinete do Dr. António Costa e o Peninha estava a fazer tudo para ser nomeado para encarregado do armazém de Cabo Ruivo, da empresa municipal de lixo de Moscavide. 

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço foram ao quarto arranjar-se para irem para a praia.

Ela que tinha andado num programa de emagrecimento do Dr. Bayard (o dos rebuçados para a tosse mas na vertente de dietas) estava seca de carnes, com os seios bem espetados e um rabo coleante e redondinho. Pôs por isso um bikini ousado que lhe tinha sido vendido pela dª Céu, uma contrabandista que vendia mercadoria desembarcada dos barcos do Brasil. Neste caso, o bikini, tinha estampado nos bicos do peito e no meio do rabo a frase” amo-te Brasil”! Tinha escolhido um de côr de amarelo-bébé. O Hotel tinha deixado em cima da cama uns roupões brancos felpudos por isso ela contava esconder-se envolta no turco e ao chegar à praia arrasar a turba multa.

O Peninha tinha comprado umas tangas à Tarzan com raias de leopildo e sentia-se forte e musculado com os abdómens fortificados e o sexo cheio a realçar no maillot.

Falaram com o encarregado dos toldos, o Rúben, que lhes deu um, na primeira fila e Peninha agradado deixou-lhe escorregar uma nota de 50 euros. 

- Criado de V.Exª disse o Rúben. A Peninha esta frase soube-lhe ao paraíso.

Despiram os roupões e nada aconteceu. Mesmo ao lado estavam duas suecas a fazer topless que nem tugiram nem mugiram.

Peninha e Adélinha aproximaram-se da água, andando em simultâneo com os passos da Pantera côr-de-rosa, bamboleando o corpo e mexendo os braços e levantando as solas dos pés.

Os nadadores-salvadores não se contiveram e desataram a rir.

O Alípio que era de Braga, vinha todos os anos para Monte Magro para o engate. De cabelo farto pintado de preto, com um bigode retorcido nas pontas, tinha já os seus sessenta e tais, mas era o típico gigolo das Adélinhas.

- Olá, pensou para si, lambendo os beiços. Isto é ave de arribação de categoria.

O Alípio piscou o olho à Adélinha que reparou e contente, nada disse ao Peninha.

(continua)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O PENINHA REGRESSOU DOS AÇORES DE PAPINHO CHEIO

O PENINHA REGRESSOU DOS AÇORES DE PAPINHO CHEIO

Nada do que a Adélinha e o Peninha levaram como trajes para os Açores foi usado. Foram recebidos por um primo do Peninha, um tal de Gonçalo Falé de Bittancourt, homem apalaçado, de posses e vivendo numa mansão na Ribeira Seca.

Imensos móveis tipo séc ( mas dos verdadeiros), retratos de antepassados pendurados nas paredes de 3 salões, elas de barbinha fina e um buço abigodado, eles loiros de olhos azuis com um ar efeminado, mas o primo disse que era da raça de onde provinham quando aportaram ao Arquipélago: as ilhas Faroé.

Adélinha não parava de perguntar porque não tinham televisão, não havia rendinhas em cima das cómodas nem bonecas vestidas de trajes brilhantes em prateleiras, os pratos não eram dos cafés Delta e os copos da Coca Cola. Tudo em cristal da Boémia e os vinhos que o primo servia das caves de Vizela no Continente. O Peninha que tinha mais sensibilidade para os brasões, assegurou à Adélinha que o vinho era do Visconde de Vizela (com uma cabrinha desenhada), um título muito antigo talvez mesmo antes dos Visigodos!

No fim do jantar como não havia a “pantalla” nem telenovelas para ver, o primo Bittancourt mandava vir um rancho de Ribeira Seca para cantar, mas tanto Adélinha como o Peninha, adormeciam rapidamente, pois não percebiam peva do que estavam a ouvir. Saíam assim umas notas em forma de uivos de lobos…

Quando a troupe partia lá acordavam os dois estremunhados e o primo começava a contar a história da família.
Veio no barco uma Ursulina, mulher de má-vida que como rameira que era a todos servia e quando desembarcou esgotada da viagem…logo ali pariu uns pares de gémeos que foram os primeiros habitantes das ilhas, com corvos que já lá existiam desde a criação do mundo.
Uma das pequenas que nasceu, era esguia e magra e para crescer foi mandada para uma ilha mais amena e central a que deram o nome de Ponta Delgada, pois a menina que era delgadita, passava-lhe os dias numa ponta da ilha a cismar.

À Ursulina enfiaram-na numa aldeia viçosa para recuperar mas já sendo entradita de idade e depois de tanto parto e ante-parto na viagem de barco, secou. Chamaram por isso à povoação aonde ficou de Ribeira Seca.

Peninha e a Adélinha sentiram-se orgulhosos e perguntaram então se não podiam usar no dedo mindinho que adoravam espetar quando bebiam chá, um cachucho igual ao do primo. Bittancourt aí achou que era topete, mas não querendo desfeiteá-los, prometeu-lhes no dia seguinte levá-los a uma loja de anéis.

Foram deitar-se muito animados os dois e dormiram agarrados um ao outro felizes e contentes.

De manhã a mulher de Gonçalo Bittancourt de uma família local de origem modesta, de apelido de Saldanha e Bolama e Victorino, levou-lhes ao quarto uns trajes típicos e lá saíram de carro em direcção a Ponta Delgada.

O fito do primo era levá-los à loja do chinês e lá sugerir uns anéis vistosos para os dois. Eles não tinham percebido o que estava gravado no anel do Gonçalo assim que lá chegados, o chinês cheio de mesuras pôs-se à disposição do fidalgo.

Para a Adélinha, Bittancourt escolheu um camafeu e quando ela lhe perguntou quem era a mulher representada no anel, a resposta foi de que era uma antepassada romana. Adélinha encheu o peito de orgulho.

Para o Peninha, tinham acabado de chegar uns anéis com pedras brilhantes falsas de cores variadas e com gravações dos signos chineses. Bittancourt disse-lhe que escolhesse o anel com o símbolo do macaco, pois a família descendia de um colateral de um antropopitecos troglodita, que dera origem à nobre estirpe.

Claro está que no centro da cidade eram o alvo da chacota de todos, micaelenses e estrangeiros, pelo uso dos trajes inapropriados ao calor que fazia.

Os dias foram passando. Iam à praia e Adélinha trouxera um bikini de tamanho inferior ao dos seus seios gigantescos e a cada momento, quando eles saíam para fora do exíguo tecido dava uns repelões para ajeitar a carniça. Peninha trouxera uma tanga à Tarzan e uma parra à Adão, de forma que se via bem torneado o sexo, coisa que na praia era muito comentado pelas donzelas magalonas, sem ele se aperceber.

O primo modificara-os quase totalmente:

- não arrotavam alarvemente e quando saía um som mais ousado, punham a mão anelada em frente da boca e diziam : - com licença ou perdão!
- no fim do almoço armavam uma barraquinha com a mão anelada em frente da boca e escarafunchavam com palitos entre os dentes o resto da comida;
- o primo dissera-lhes que era deselegante comer com a boca aberta e falar ao mesmo tempo, de modo que eram parcos nas conversas, mas no fim não dispensavam uns estalidos da língua a mostrarem o apreço pela comida chupando e fazendo barulho entre os dentes.

Enfim chegou o dia da despedida e vieram os dois gordos e anafados, rosados de carnes e contentes como uns cucos.

Mal chegaram, descansaram, dormiram e no dia seguinte partiram de carro em direcção a Paços de Ferreira, a capital do móvel, para renovarem a mobília toda.

Isto era apenas o começo. Deram os tarecos velhos para a paróquia e já falavam em comprar uma bibenda em Massamá, passe a publicidade.

Foram, pode dizer-se, umas férias chics a valer.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Instantâneo com Fernando Pessoa

Instantâneo: Chiado, em frente à Brasileira. Senhor idoso com um ar convencido senta-se ao lado de Fernando Pessoa.Dá ordens à esposa:
- tira-me uma boa fotografia com o gajo. Deve ser importante!
Apresentei-me:
- Luís Paixão. ( Meu nome de incógnito)
Retorquiu: - Anacleto Bemposta.
Eu: - ouvi o seu comentário. Não sabe quem é Fernando Pessoa?
Ele, impertinente: E o senhor tem alguma coisa a ver com ele?
Eu: - Como o meu nome indica, tenho uma grande PAIXÃO!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O PENINHA VAI PASSAR 10 DIAS AOS AÇORES


O PENINHA VAI PASSAR 10 DIAS AOS AÇORES

O Peninha e a Adélinha vão passar uns dias aos Açores a casa de uns amigos do Inatel local.

Ao fazer a mala a Adélinha, sem a menor noção de como é Ponta Delgada leva brocados, sedas, veludos e jóias falsas compradas no chinês e até espartilhos. Sapatos de verniz com saltos altos, vestidos compridos com decotes generosos mas coitada, serve-lhe de pouco pois como cantava Luiz Vaz, “o alvo peito branqueando” já está na cintura…bem compra soutiens alçados nas lojas dos paqui, mas com o peso ficam os seios espetados mas no rés-do-chão…ahhaha

O Peninha, leu umas coisas no Correio da Manhã e sabe que há romarias e festas de Verão nas povoações e lembrou-se de ir à campino de camisa branca, colete encarnado, uma faixa vermelha que usa na cintura, calça azul, meias brancas até ao joelho, sapato preto com esporas, uma jaqueta que coloca sobre o ombro esquerdo e por último o seu bastão (pampilho) que comprou no Ribatejo.

Para o caso de haver assim uma festa mais formal e dado que assistia à Adélinha, que nem uma doida, a encher a mala de viagem com roupa como se fosse cantar a S.Carlos, empacotou o smoking com um laço garrido e uma camisa de folhos.

Vão na AIR BERLIM, num voo muito barato às duas da manhã pois essa é a hora dos voos low-cost, e por isso foram deitar-se cedo.

Prometeu contar as aventuras.

Bon voyage casal Peninha!

Instantâneos

Instantâneos:

Vou de carro para o Chiado, não me apetece ir de metro. Algum trânsito junto à Misericórdia. Dois polícias barrigudos e velhos assistem impávidos à bagunça. Como é possível a esta hora camiões de descarga de mercadorias impedirem o trânsito? A autoridade não controla, não mexe um palmo a barriga. Apetece-me sair do carro, dirigir-me aos polícias e apresentar-me: fulano, tenente de cavalaria na disponibilidade e depois esbofeteá-los com as luvas até me cansar!!! Sigo para o parque do Camões e vejo na placa de peões em frente ao Loreto para atravessarem a rua, magotes de estrangeiros. Impressionante! Será que merecemos este boom?

Depois em frente do Paris em Lisboa impedindo a passagem, um guia espanhol rufia, rodeado de uns 60 castelhanos devia dizer coisas chistosas pois riam-se que nem uns alarves! Não é em vão que um meu Avô, Dom Thomaz de Noronha, Conde dos Arcos, foi um dos Conjurados de 1640! E mais outros Noronhas e Távoras! Ainda desembainhei a espada mas dou de caras com o mesmo cenário em frente dos Mártires. Mudei de táctica e pensei num petardo Molotoff!

Entrei exausto com tantas emoções na Bertrand e sentei-me ao fresquinho. Entram umas francesas rascas com um guia de Lisboa na mão e perguntam ao empregado: - quantos metros são da entrada até ao fundo da loja?

A empregada ficou confusa.
Pus -me de pé e apresentei- me:
- Luis Paixão (meu nome incógnito) e em um perfeito francês de Versalhes, respondi: - a distância é de 1,5Km. Olharam para mim com surpresa e acrescentaram: - como sabe?
- não sei, inventei!
- porquê?
- porque a uma pergunta idiota, a resposta é estúpida.
E inclinando-me saí.

O que me espera ainda até à FNAC?

sábado, 5 de agosto de 2017

O PENINHA VAI DE FÉRIAS PARA AS TERMAS


O PENINHA VAI DE FÉRIAS PARA AS TERMAS

Finalmente o Peninha dispôs de tempo para ir de férias. Anda muito maçado, com mau feitio, embirra por tudo e por nada e Adélia, já não o atura mais.

O Peninha tem direito a beneficiar dos privilégios dos sócios do Inatel, pois um tio dele, irmão da mãe, o tio Ramón sendo cigano, acampou durante muitos anos junto aos muros de uma quinta de lazer do Inatel. Sendo boa pessoa e cordato, foi acarinhado desde miúdo pelo sr. Jacinto e a d.Pulcheria, vigilantes da propriedade. Educaram-no muito bem e tornou-se o Ramón num garboso mocetão que se engraçou da Maria Engrácia, filha do casal. Não tiveram filhos e deixaram tudo ao sobrinho, o Peninha, incluindo a inscrição perpétua no Inatel.

Assim sendo, todos os anos o Peninha e a Adélinha aproveitam de excursões baratas e passam uns dias de férias com outros sócios em grande confraternização.

Pois este ano escolheram um plano de férias duplo: uma cura de uma semana nas termas dos Cucos e a segunda semana na praia de Mira.

O Peninha, pela mãe, tinha sangue cigano e Dulce marcara nele as cores e o garbo de uma gitana salerosa que tendo vindo de Toledo para Portugal, tornou-se uma cantadeira de renome. Era conhecida como a Dulcineia, só não era de Toboso como a do don Quijote, pois a mãe era de carne e osso e muito bem provida.

Quando foi esta discussão toda sobre algum racismo étnico contra os ciganos por parte de um candidato autárquico, Peninha enervou-se e chegou a ameaçar partir-lhe os cornos, nas suas palavras. Mas tudo acalmou e ele bem merece descansar.

Ao preparar a mala pensou ao detalhe que roupa levaria para os dois tão diferentes sítios de vilegiatura e dividiu em dois o espaço, a saber.

Termas dos Cucos:

- roupa branca, calças e colete e um casaco de alpaca fina para pôr de manhã, depois dos tratamentos. No fundo era beber auguinha pura da nascente para as doenças venéreas de que ele não padecia, mas ficava bem dizer que tinha estado a águas. Um chapéu de palhinha clara com uma fita em seda azul escura dava o contraste. Procurou na sapataria Oliveira, ao Chiado, comprar uns sapatos adequados mas já não se fazem daqueles de duas cores: beijes como se fosse palhinha em cima e carneira à volta.
Levava lenços, um frasco de lavanda Ach.de Brito e comprara uma caixa de charutos da marca da Fábrica Micaelense para fumar a seguir ao jantar no terraço, ao fresco, sentado numa cadeira cómoda de palhinha.

Praia de Mira:

- vira umas tangas/sungas de Tarzan em saldo na loja de roupa dos chineses e comprou umas quatro de várias cores aleopardadas e achou que seria um sucesso. Levava umas camisas de manga curta, de marca Tony Carreiro, e nos pés umas xanatas brasileiras.

Para se entreter em leituras, pensou em várias alternativas que adquiriu na livraria local, aconselhado pelo sr. Medeiros que mandava vir livros ao desbarato sem fazer escolha e tinha-os para ali, sem esperança nenhuma de ter compradores. Fazia descontos ao Peninha para se ver livre deles.

Ora então, para a Adélínha não maçar e estar calada absorvida na leitura:

- série completa de 2016 da revista Maria;
- As Pupilas do Senhor Reitor;
e para um género religioso, a Vida e Obra de São Vicente de Paula, um calhamaço volumoso que daria ainda para as férias dos dois anos a seguir.

Para o Peninha:

- de carácter sexual: encontrou num alfarrabista uns 6 números da Gaiola Dourada do Vilhena. Histórias sórdidas, picantes, muito bem desenhadas…rijo a valer. Pensara fazer esta leitura ao fim do dia.
- alguém lhe tinha sugerido como leitura de informação económica, os Pensamentos de Adam Smith. Parece que era nele que o Governo se inspirava, nomeadamente o Ministro das Finanças. Sempre daria sainete nas termas a seguir ao almoço, adormecer com este livro nos joelhos e os passantes lerem de soslaio o nome do autor. Chic a valer…
- Finalmente assim para mais divertido na praia debaixo do toldo do Inatel, o Tio Patinhas em vários números.

Tudo arrumado, pronto para a partida de autocarro com os companheiros de férias, pensou consoladinho para si mesmo:

- Isto de férias divertidas, só no INATEL. E talvez em Mira, na praia ainda encontre algum político. Deixa-me mas é levar mais um livro de política, assim um que dê nas vistas. Hesitou entre o Mein Kampf e o Das Kapital e acabou por levar as memórias de Christine Garnier “ As minhas férias com Salazar”! Sempre seria mais equilibrado no Norte!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Ainda estou comovido a escrever isto

No meu múnus de Cônsul-geral Honorário do país africano que represento em Portugal há largos anos tenho visto passar pela minha frente muitos acontecimentos interessantes uns, outros tristes, outros difíceis de ultrapassar e alguns de uma violência inaudita (guerra civil).
Sempre encarei este cargo não remunerado como mais uma experiência curiosa da minha vida de desafio constante à rotina e na busca de encontrar o ser humano em todas as suas vertentes. Sou um estudioso interessado, humilde e aberto à descoberta de encontrar nos outros algo que me possa ajudar a ser melhor. Isto não tem nenhum pressuposto religioso, ou de cariz materialista, mas tão somente uma curiosidade infinita sobre esta maravilha da criação, que é o Homem.
Dito isto (e quem me conhece bem sabe que sou genuíno, verdadeiro, directo e sem esquemas) recebi há uns dias um pedido de ajuda de uma cidadã do referido país e já residente no Algarve e casada, de cerca de 80 anos.
Em resumo:
- Visitou-me há já alguns meses no Consulado em Lisboa para se apresentar e tratar de um assunto com os SEF de Faro;
- como faço sempre para além das conversas de prestação de serviços consulares procuro sempre conhecer melhor as pessoas que represento, escutá-las, aconselhá-las e porventura ajudá-las;
- achei-a formidável, serena, doce, falando baixo e com humildade mas com muita cultura e sendo das primeiras mulheres no seu país com um curso profissional e tendo desempenhado funções públicas de relevo;
- casou-se pela segunda vez com um patrício da mesma idade e vivem tranquilamente em Portugal e nomeadamente no Algarve gozando a reforma e da paz e amenidade do clima e da beleza do país, de que muito gostam;
- ela tem uma filha do primeiro casamento, que vive no país de origem aonde é Advogada;
- o pai dela e ex-marido da pessoa referida acima morreu junto da filha com bastante sofrimento e teve que sozinha arcar com todas as responsabilidades e o sofrimento e aflição da perda, pois mais ninguém da família a pode acompanhar;
- ficou exausta, deprimida, triste e deseja procurar o consolo da presença da mãe em Portugal por um ou dois meses para depois regressar ao seu país;
 Pediu um visto de turismo na Embaixada de Portugal, apresentando estas razões e foi-lhe recusado por não serem consideradas razões convincentes da justificação da sua vinda. Desatou a chorar desconsolada na Embaixada de Portugal quando lhe entregaram o ofício da recusa, desamparada e sem forças para poder, pelo menos, naquele momento, aguentar o stress.
Fiz o que pude para ajudar a mãe e recorri a um amigo Diplomata, esperando que se resolva.
Recebi entretanto uma mensagem gravada da mãe no meu WhatsApp que guardarei para me lembrar como servir os outros desinteressadamente calando no seus corações sentimentos de confiança, agradecimento, gratidão e exemplo.
É uma mensagem respeitosa mas cheia de ternura, em voz baixa e de agradecimento em termos tão humildes, gratos e de esperança que me atrapalham pois não sei se conseguirei, mas farei ainda mais tudo o que estiver ao meu alcance para trazer a filha até ela.
Tenho cruzado pessoas na minha vida que me agradecem um favor que me pediram anos atrás e que pelos vistos realizaram e de que não me lembro de todo. Espero que contrabalance com outras coisas menos boas que possa ter feito.
São reconfortantes para mim estas lições de humildade e de chamamento de atenção para o que é mais importante.
Ainda estou muito comovido ao escrever estas linhas.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Rio maravilha


O QUE MAIS ME DANA


O QUE MAIS ME DANA
Levantei-me cedinho e planeei ir a uma das companhias majestáticas fornecedoras de electricidade para refilazar sobre uma factura descomunal.

Pensei que estando numa época estival e um grande número de clientes de férias, seria rápido e eficaz.

Esperei talvez uma meia-hora e atrás de mim tinha uma fila de africanos, na sua maioria, e reparei que a única funcionária disponível para atendimento estava sem as menores maneiras profissionais a tratar um outro cliente africano com irritação, arrogância e em termos indesculpáveis. Para além de se estar a marimbar para as restantes almas nas quais eu me incluía, já íamos em 45 minutos de espera e a fila a aumentar.

Ao fim de uma hora chegou a minha vez.

Tenho um compartimento no meu cérebro que uma vez accionado é demolidor em frieza, intolerância e ataque feroz e impiedoso. Foi ganho pela parentela em Aljubarrota (Os Magriços) – apesar de eu estar um pouco forte mas a tentar fazer uma dieta – e igualmente com o Senhor Dom Sebastião em Alcácer-Kibir. Os meus, depois de um resgate que os salvou mas nos deixou de tanga até ao século XVII, conseguiram transmitir na parcela de sangue-azul que foram passando, este temperamento de excepção. Note-se que d’habitude sou um ser encantador, cordato, calmo e sem excentricidades…ahahahah

Ora bem a dª Gertrudes, assim se chamava e ostentava numa placa sobre o seio direito, já cansada do cliente anterior começou mal, perguntando-me o que eu queria!

Comecei por lhe dizer, em ar de nada, que queria o livro de reclamações. Ficou bízara e disse-me que não tinha com maus modos. Eu repliquei que era Advogado entre outras coisas e que sabia que era obrigatório ter. Foi buscar e repreendeu-me dizendo-me que a obrigava a ficar ao meu lado a acompanhar o preenchimento da reclamação com os outros Clientes à espera.

Depois de ela ter acabado de falar, levantei a voz o suficiente para ser ouvido pela numerosa bichette que já me antecedia impaciente e disse que ia participar da Companhia e dela e que não precisava que estivesse ao meu lado e que fosse atender os outros Clientes. Disparatou, gritou, insultou e perante o meu ar impávido e sereno, já sentado e a escrever o meu relatório, foi atender as restantes pessoas com um ar assustado e cordato.

Terminei uma longa e bem estruturada reclamação que nem Fernão Lopes teria tido tanto detalhe e arte a fazer e entreguei-lhe o livro que ela sofregamente leu ficando cada vez mais lívida.

- Mas o Senhor com o que diz aqui vai fazer com que eu seja despedida! – exclamou sem voz.

Os africanos num outburst/explosão de satisfação deram largas aos seus comentários de apoio e contentamento.

Respondi-lhe que não sabia se esse seria o desfecho mas que lhe servisse de lição para ser profissional e tratar com correcção e boas maneiras as pessoas que lhe garantiam o salário.

Entreguei-lhe uma outra reclamação pessoal sobre o referido excesso na minha factura como referi acima e saí tendo a noção que naquele momento um rasto de ódio vinha na minha direcção proveniente dos olhos da dª Gertrudes.

Uns 15 dias depois recebo dois ofícios separados da dita companhia majestática dizendo o seguinte:

- que pediam desculpa pelo engano na factura tendo tudo ficado resolvido a meu contento.

- que a dª Gertrudes tinha ido para um campo de re-educação na Guarda gerido pelos Guardas Vermelhos da Revolução e seria integrada numa célula revolucionária aquando da próxima revolução.

Caspité! Ainda bem que assinei a reclamação com um dos meus nomes de disfarce: Luis Paixão!
Seria uma das primeiras vítimas a tombar!

domingo, 23 de julho de 2017

TRUMP e o IRÃO



Tinha já uma viagem marcada ao Irão desde há meses, com contactos feitos com empresas e entidades oficiais. Comecei a perceber que desde a subida do Trump ao poder nos USA, o esmorecimento do interesse dos investidores começou a aumentar.

Passado uns meses ficou claro que tudo quanto tinha sido assinado e acordado no tempo de Obama ia ser posto em causa. Novas sanções económicas, a continuação do bloqueio ao funcionamento regular das instituições financeiras de e para o Irão tornando quase impossível concretizar aquilo que muitos iranianos, sobretudo mais novos, desejam: a abertura do país a outras culturas e a livre circulação de pessoas e bens e uma cooperação com países europeus que os possam ajudar a desenvolver o alto potencial económico que o país oferece.

O diletante, infantil e impreperado Trump nem sequer perdeu tempo a reflectir, observar o que tinha feito: numa cegueira radical veio pôr em causa o que já estava bem negociado e afinal a continuar na região com uma política de interferência política e económica ao contrário das políticas isolacionistas que o seu partido sempre propõe quando está no poder.

Trump tem que sair da cena mundial como Presidente dos USA, e quanto mais rápido melhor!

aventuras no Parque Eduardo VII


AVENTURAS NO PARQUE EDUARDO VII

Estou parado à sombra de um pinheiro vetusto no cimo do parque Eduardo VII a escrever uns e-mails no meu smart phone. É uma urgência dominical de um negócio para se fechar ainda hoje, hopefully. Mando um e recebo uma resposta.
 
Mientras ou entretanto já fui abordado por várias pessoas julgando que estou no engate:
 
1. Duas velhas de 47 anos que estão no Ritz e me convidaram para almoçar na esplanada do hotel e propuseram o rate de €150. Fiz-me de lucas e disse que sabia falar muito bem inglês e que lhes contaria as histórias do "Peninha" que publico aqui. Recusaram, queriam marmelada!
 
2. A Silvéria que é uma puta habitual daqui durante o dia que está muito passadinha a quem eu já ajudei no passado, internando-a no hospital quando teve um ataque epiléptico em plena rua. Tinha-se esquecido que já tínhamos interagido mas não na especialidade dela!
 
3. Dois suecos de vinte e tal anos, loiros e de sandalecas que me queriam contratar para irem visitar Sintra. Confundiram o meu carro consular com um béiculo de turismo.
 
Enfim, nem uma tia lindamente nem nenhum político conhecido de qualquer cor partidária.
 
Ainda me vieram propor a compra de toalhas de mesa de rendas da Madeira, mas declinei pois tenho comprado na Pollux em plástico arrendilhado que são mais fáceis de lavar com um pano molhado.

Tive pena das pikenas do Ritz pois sabia-me bem um almoço de lagostins e champagne!

Não se pode ter tudo, pás!

sábado, 22 de julho de 2017

stupid people


reincarnation disappointment


esquerda


Qualquer observador atento sabe que não é a esquerda que nos governa, até porque não temos suficiente poder nacional para sermos soberanos, dado que apenas gerimos dependências. O PS pode sonhar em ser qualquer coisa, mas para governar tem que meter sempre o programa na gaveta, tal como o PCP engole sapos vivos e o Bloco de Esquerda se torna um jacobino postiço. De tal maneira que, se houvesse oposição, o PSD poderia facilmente ser social-democrata e ficar bem à esquerda da plataforma que sustenta Costa. Porque há mesmo a quadratura do círculo. É a que costuma ganhar eleições, com demagogia.

José Maltez

sexta-feira, 21 de julho de 2017

quinta-feira, 20 de julho de 2017

BOLETIM DO ESTADO DE SAÚDE DO PENINHA




BOLETIM DO ESTADO DE SAÚDE DO PENINHA

Adélia Sandra da Conceição e Silva Peninha vem informar os amigos do seu extremoso esposo, mais conhecido por Peninha que ontem ao fim da noite foi acometido por um ataque de despenteamento mental tendo sido levado impromptu para o Hospital do Senhor Prof. Miguel Bombarda, que faz o favor de ser nosso amigo.

O médico de serviço transmitiu-me esta mensagem que o Peninha ininterruptamente diz e pede se por acaso algum dos dedicados amigos saberá decifrar o sentido:

“Manifesto repúdio por tudo quanto é chato, pomposo e sem graça. União Europeia tá a fazer merda com a proibição da pesca das sardinhas. Aquele provérbio “ tu es ici tu es au milieu de la rue” pode aplicar-se à Costa do castelo a quem tá acorrer tudo mal. Santana não dá apoio a candidata porque sabe que ela vai levar uma grande tunda. Paulo Portas não foi visto no México a acompanhar o patrão na inauguração da sede da Mota Engil, porque tem tidos explicações particulares de Marcelo de como se preparar para concorrer a presidente depois do 2º mandato do dito.O tempo está uma caca e tem lixado as férias a quem pagou caro no Algarve para impressionar os colegas de trabalho. Não há pior do que ter férias com criancinhas pequenas na praia acompanhadas por uma sogra ou os sogros. Dá sempre raivas miudinhas e os esposos anseiam pelo regresso a casa e ao office como canta a música sacra: como o veado anseia pelas águas vivas…etc. O Trump já tem dificuldade em passar por debaixo das portas pois faz “bonc..bonc”. 

Muito reconhecidamente agradecida 

Adélinha

quarta-feira, 19 de julho de 2017

PANACEIAS

PANACEIAS

Estava hoje parado dentro do meu carro, numa sombra, a ouvir música, a mandar e receber mensagens e sobretudo com um ar condicionado que me sabia muito bem.

Não deixava de observar esporadicamente quem passava e ia tirando as minhas conclusões.

Estava uma bonita tarde, com boa luz, sem muito trânsito e dir-se-ia que quem neste país estivesse a viver como cidadão, de passagem como turista ou em negócios, se deveria sentir muito bem pela paz que se respira. Não vou aqui sequer fazer comparações com os piores países.

E constatei que muitas vezes temos tendência a dizer mal de tudo, do Governo, da oposição, das Finanças, dos Hospitais ou Serviços de Saúde, dos incêndios, da incúria, do desemprego, dos políticos, do vizinho, do colega de trabalho inclusive da própria família e ao observar a serenidade do que me rodeava, pensei que injustos somos uns para os outros. E isto envolve a sociedade civil, os outros povos, as outras raças e religiões e no fundo o mundo inteiro.

Esta perspectiva permanente de negativismo torna-nos tensos, azedos e belicosos e mesmo connosco próprios andamos zangados. Quando de manhã olhamos para o espelho lá está a mesma cara de sempre ou com sono, ou de ressaca, ou chateada e maldisposta e logo ali começa uma antecipação de penosidade que se arrasta, se adensa e não para mais. Isto connosco para já não falar com quem tiver a pouca sorte de se cruzar no nosso caminho.

Anos e anos a fio, com menor ou maior intensidade, tornam esta vida num inferno, não apetecível de ser vivida. Estou somente a referir-me à consciência, aos sentimentos íntimos.

Junte-se o desemprego, a falta de dinheiro ou saúde, o desentendimento relacional, a desilusão profissional, uma doença, uma morte, o estado real do país…não é possível aguentar por muito tempo esta carga nem o peso de uma verdadeira infelicidade.

Panaceias:

- ler, silêncio, atenção, desprendimento, esquecimento de nós próprios, dedicação aos outros, música, campo, verde, animais, mar, cultura, conversas com quem possamos aprender e bem dormir.

terça-feira, 18 de julho de 2017

reacção de um ciganito da Amadora


O PENINHA ANDA TRISTE

O PENINHA ANDA TRISTE

O Peninha anda desolado com o país. Só antevê dificuldades e agora que leu algures que o fim do mundo é para Agosto não consegue sorrir e passa os dias neura e sem vontade de reagir.

A “silly season” para ele é fatal. Vai tudo de férias e não há programas para fazer de carácter público/social, aonde possa aparecer, ser visto, gabado, e conviver com a boa sociedade, como ele diz.

O Peninha nunca fala na Adélinha, que é a esposa de trinta e tal anos de casamento, e só quando programam as férias de verão é que vêm as discussões. Ela quer ir numas viagens que o INATEL organiza lá para Arganil e ele recusa-se a acompanhá-la.

A d. Adélia é mulher dos seus 54 anos, roliça de carnes imensas, com seios descomunais descaídos e até parece que compra os soutiens em saldo, pois não firmam os peitos e fica horripilante. Tem um cabelo oleoso de que lhe deu a mania de pintar de uma cor preta de azeviche, escorrido pela cara com um nariz curvilíneo – diz ela que sai ao lado Ortiz de Castela – e uns olhos pequenos de côr escura. Não é muito alta e tem um corpo gigantesco e sem elegância. Com uns braços e pernas gordas parece que bamboleia ao andar.

Tem uma obsessão que é a de usar batas por cima do que veste: são de cores garridas com mangas à cava, com motivos florais, às riscas, com bonecos, com desenhos de legumes…um horror.

O Peninha tem convivido com mulheres mais bem introduzidas no meio académico, das artes e do cinema e perdeu as esperanças de ter na companheira a mulher que outrora o captivou.

Adélinha come que nem uma bruta, tem buço e pelos nas pernas e noutros sítios e não se pinta nem se sabe vestir, pelo que é um pesadelo para Peninha aguentar o casamento. Acresce que não tem mais do que a 4ª classe e muito pouca cultura, mesmo! Fala um português gramaticalmente discutível, não tem uma ideia, adora as revistas do coração cujas histórias sabe ao detalhe e com as vizinhas, ouvem-na muitas vezes tratar por tu a Rainha Letizia, que sendo Ortiz, ela considera como prima.

O Peninha tinha decidido ir passar férias a Moledo. Ouvira dizer que a praia era bem frequentada mas jamais levaria a Adélinha. Nanja que ele era muito mais chic e tinha vergonha dela. No fundo, matavam-se dois coelhos com uma só cajadada: ela ia para o programa do Inatel com as amigas e ele ia flausinar para Moledo, exibir-se na praia qual Tarzan Taborda.

Deu-se porém uma imprevista alteração dos planos de Peninha: Costa, o Primeiro Ministro, na remodelação que fez, foi buscá-lo para motorista do Sub-Secretário de Estado da Desorientação Administrativa e tinha que estar às ordens e disponível a qualquer hora.

Sentiu-se inchar de importância e aceitou logo, ficando de se apresentar no dia seguinte no Ministério.

Mal lá chegou e foi dos primeiros, foi mandado entrar para um gabinete aonde esperou umas boas horas até que foi chamado para uma sala aonde estava um funcionário dos Recursos Humanos do Ministério.

Respondeu às perguntas da praxe sem nenhum problema e no final antes de o contratarem, o funcionário, sem levantar a cabeça perguntou-lhe:

- Número da licença de condução e o ano de emissão.
- Ó Sr. Dr., mas eu nunca tive carta. Sei conduzir como ninguém mas sem carta! Não tive estudos!

- O Senhor Peninha ponha-se na rua imediatamente!

E o Peninha saiu cabisbaixo sem saber o que fazer à vida, por isso tamanha tristeza.