domingo, 14 de maio de 2017

O PENINHA E O AEROPORTO COM SALVADOR SOBRAL.


O PENINHA E O AEROPORTO COM SALVADOR SOBRAL.

Acabado de chegar de Paris aonde esteve na posse do novo Presidente Francês, Emanuel Macron, Peninha resolveu esperar pela chegada do Salvador Sobral que vinha de Kiev.

Não fizera a barba ainda, estava de preto pois vinha de um acto formal em França e tinha apanhado os cabelos em cima, tal e qual como o Salvador Sobral.

Numa palavra podia ser confundido com o dito e foi o que aconteceu, pois, duas empregadas de limpeza ao verem-no passar ligaram para a segurança do aeroporto e disseram quem tinha acabado de aterrar e excitadas foram por portas interiores avisar a malta.

Ora, como se sabe a gente das secretas percebe pouco de canções festivaleiras e de cantores, pelo que assim que o Peninha chegou à zona de controlo, rodearam-no e levaram-no bem protegido para uma sala à parte.

Por mais que o Peninha dissesse que vinha de Paris, eles gracejavam e tocavam-lhe como se ele fosse um deus. A sala foi inclusivé invadida por técnicos da torre de controlo, inspectores do Serviço de Estrangeiros e uma miríade de funcionários indiscriminados da Ana. O pessoal feminino dava gritinhos e clamava: Salvador! Salvador!

Quando Peninha quis dizer que havia uma confusão e que estavam errados, isso foi entendido como modéstia e o entusiasmo aumentou assim como os vivas e outras manifestações de carinho.

O voo de Salvador era muito mais tarde, pelo que alguém da segurança veio dizer que não estava ninguém lá fora à espera o que a todos intrigou.

O director do Aeroporto, o dr. Fonseca, furioso, perguntou a Peninha quem ele era. Tendo o Peninha respondido com sinceridade, começou tudo a sair e sobretudo os da torre de controlo, pois havia já aviões a sobrevoar o aeroporto, com apelos lancinantes para a torre, que tinha gravado uma mensagem automática: “Please wait, Salvador arrived”!

Os agentes da segurança que tinham trazido Peninha para a referida sala reservada do aeroporto, furiosos por se terem enganado, avançaram para o Peninha e deram-lhe uma tosa de criar bicho!

Peninha saiu cheio de contusões para a rua e ainda na zona dos táxis, maltrapilho e rôto, enquanto esperava por transporte, ouviu um homem do lixo a trautear a canção de Salvador!

Chegou-se ao pé dele e num gesto de fúria deu-lhe um estaladão e gritou: cala-te nojento!

A seguir correu para o primeiro carro-de-praça que lhe surgiu e ainda ofegante ao declinar o destino, viu o ofendido esbracejar atrás do táxi a insultá-lo.

A pior prisão


JAMAIS


sans-cullotes


Quand je pense que ce grand savant a fini guillotiné...
et que les infâmes sans-culottes qui le menèrent à la mort ont osé déclarer: "la Révolution n'a pas besoin de savants"! On a vu le résultat...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Fátima



 


IDA A FÁTIMA

Durante muitos anos fui no dia 12 de Maio a Fátima para participar na Procissão das velas e demais celebrações, bem como ficar para o dia seguinte.

Seguia atrás do andor como Membro da Ordem de Malta e por isso dava a volta ao Santuário, cantando e rezando.

Depois passei para o meio da esplanada, pois a pompa e a circunstância não se coadunavam mais com o espírito de peregrino que me levava a Fátima.

Ultimamente e quando me apetece vou no meio da semana, longe da multidão, sentar-me na Capelinha e ali fico no sossego do silêncio participando, quando há, nalguma oração comunitária.

Sempre me comoveu a procissão das velas e no dia 13 o adeus à imagem que vinda do altar-mor no fim das celebrações é despedida por milhares de lenços brancos a cantarem o adeus.

Claro que são momentos em que os sentidos ficam mais apurados e são contagiados pela emoção colectiva. São fenómenos conhecidos de que não me envergonho. São uma espécie de catarse necessária que limpa meses ou anos de empedernimento, falta de choro e desfaz no coração alguns espinhos mais teimosos em o deixar bater sem limitações.

Porém tudo isto é muito bonito mas quando se volta e se mergulha no dia-a-dia é aí que devemos pôr em prática a conversão interior na dedicação aos outros, a começar pelas nossas famílias.

acordar num país normal


Amazon


Guapa! Conchita!


Mandamentos


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Advogados...


Un hombre va a un abogado.
- ¿Y usted cuanto cobra por una consulta rápida?
- Bienvenido, 1.000€ por tres preguntas.
- ¿Vaya, es un poco caro, no?
- Si, quizás, y dígame... ¿cuál es su tercera pregunta?

domingo, 30 de abril de 2017

TEXTO MUITO BONITO DE PAULO VARELA GOMES, que entretanto, morreu


Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.
Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.
Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.
Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.
Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos.
Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.
Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer.
As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.
Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…”
Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.
Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães.
Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde.
E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado.
Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta.
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe.
Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.
Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se.
Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.
Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore.
Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.
Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:
“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.

S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015
Paulo Varela Gomes,

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O PENINHA E A 2ª VOLTA EM FRANÇA (1ª PARTE)


O PENINHA E A 2ª VOLTA EM FRANÇA (1ª PARTE)


O Peninha recebeu guia de marcha da Rádio SenhorRoubacense para ir a França acompanhar a 2ª volta das eleições.

Tem lá primos emigrantes que moram num “bidonville”, sendo o Alain mecânico de parafusos de portas nas linhas de montagem da Renault em Guyonville e a Adosinda “concierge” num prédio de 3 andares, aonde moram no rés-do-chão.

Têm dois filhos já crescidos, a Valentine de 30 anos meia nazi-fascista que é doidinha pela Le Pen e faz parte da célula local do FN e o Vasquinho que desde o 25 de Abril em Portugal aderiu ao PCP e quando foi para França inscreveu-se no PC francês. Fala sempre no camarada Vasco Gonçalves de que se inspira para os ideais que professa.

Ora pensou o Peninha, vai ser uma boa maneira de poder conhecer o pensamento de duas ideologias diferentes e programas para a França, e se eu os entrevistar faço uma caixa que será apreciada no Senhor Roubado.

O Peninha fala mal francês e por isso como os primos arranham o português sempre é mais fácil do que se por a entrevistar outros franceses na rua.

Arranjaram-lhe um bilhete de camioneta do Senhor Roubado directa a Guyonville, ao pé de Paris e a viagem dura 16 horas, com partida no Sábado à noite.

Foi fazer a mala e matutou no que devia levar para França: uns trajes de jornalista, talvez uma coisa mais chique para ir uma noite a Pigalle ver as coristas e um fato do Hugo Boss, daqueles esterlicadinhos na cintura e nas calças em baixo, que comprou nos outlets dos chineses em Odivelas, paras estar presente no comício da vitória do vencedor.

Para as entrevistas, achou por bem um boné à ardina de Lisboa, um lenço ao pescoço à Alfredo Marceneiro, e uma camisa estampada com galos de Barcelos. As calças de ganga preta fininhas nas pernas e uns sapatos castanhos claros abotinados, pois estamos na Primavera.

Para o can-can arrumou na mala uma camisa côr-de-rosa de popelina aberta no pescoço, umas calças “chino” de cor verde-alface e os já habituais sapatos de crocodilo falso pontiagudos de matar baratas aos cantos.

A viagem correu bem, ainda que a meio-caminho tenha vomitado para cima de um passageiro que ia no banco da frente e que ficou para além de sujo a cheirar pessimamente o resto da viagem. Peninha pediu desculpa e disse que era dos nervos e da emoção por ir fazer pela primeira vez uma reportagem no estrangeiro.

Os primos tinham sido avisados da chegada de Peninha no Domingo à tardinha e lá estavam à espera dele no terminal.

- Tu vas bien, cher cousin? – perguntou-lhe o Alain.

- Sim, a mãmã está bem e o primo? – porque raio não tinha estudado na escola o francês em vez de faltar às aulas e passado o tempo todo na marmelada com a Vandinha.

A Adélia é que era portuguesa e a sua parenta e sabia falar bem o português ainda que com um ligeiro timbre francês.

- Ó filho ela pergunta se estás bem. Deixa lá que eu respondo por ti.

- Tu es un com Alain car il ne sait pas parler en français e il ne comprend rien.-. disse a Adélia para o marido.

O Peninha perguntou-lhe que tinha dito e ela respondeu que tinha dado notícias da mãmã.

Quando entrou na casa deles deram-lhe o antigo quarto do Vasquinho, que já não morava com eles.

- Credo, que impressão – pensou o Peninha – tantos postes do Lenine e do Estaline e até do Àlvaro Cunhal.

Nessa noite iria encontrar-se com ele pois o Vasquinho não falava à irmã, por ela ser seguidora da Marine Le Pen. Assim tinham que ser entrevistas separadas.

Descansou uma hora e preparou-se para a entrevista.

(continua)

Maldade


Veneza dos Doges


Falar sózinho


busy


the world in a mess


terça-feira, 25 de abril de 2017

Velhos do Restelo

Ouvi o discurso de Marcelo, que está bem estruturado e inteligentemente escolhido para o dia, mas que já não suscita o entusiasmo dos ouvintes.

Andamos todos fartos de factos políticos cá e no estrangeiro. Ou se faz parte do establishment e se tem uma sensibilidade política de aparelho ou então e somos a maioria, preferimos acção e transformação.

Vai vindo a pouco e pouco e sabe mais a parole, parole.

Também vai sendo cansativo os velhos do Restelo, suspirando por Salazar e pelo passado não entendendo que o tempo passa e que não há nem homens nem regimes perfeitos. Felizmente estão velhos e a morrer deixando uma juventude que já nasceu há 40 anos em plena democracia e liberdade.

Não há outra posição que possa defender: liberdade e democracia.

O resto cansa-me e nem me merece refutação, nem querela.

Passo, como se diz no jogo das cartas!

O 25 de Abril foi sobretudo o passo necessário, de resto a forma foi irrelevante, mais capitães menos generais, mais golpe palaciano menos mortes na rua. Felizmente isso foi-nos poupado!