terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
O QUE SE APRENDE COM OS FILHOS
O QUE SE APRENDE COM OS FILHOS
Fui a um excelente supermercado com uma secção biológica.
Num pequeno aparte e com esforço próprio tenho dado provas na minha vida de estar aberto a escutar. Apraz-me a novidade, a modernidade e então quando tem lógica sou fácilmente convencido.
Voltando ao fio da meada, observava a Mariana com mestria e conhecimento a "pescar" uma série de legumes com que depois faz as deliciosas sopas bimbianas! Eu lá arriscava os nomes dos que me pareciam ser, e com segurança - porque a Mariana estava sempre a incentivar-me para que tirasse o que quisesse das prateleiras - escolho um saco de cogumelos ou champignons ou mushrooms!
Azar para mim, diz a Mariana - não faço a menor ideia o que fazer com eles ! Digo eu, gourmet e gourmand do melhor, tendo sempre comido do bom desde os tempos dos meus Bisavós de ambos os lados, MAS SEMPRE NO PRATO, - então podem-se fazer salteados na frigideira, cortados em fatias fininhas e num molho do tal bife do lombo australiano.....ahahah..disse-me que ia ver à internet, que querida!
Depois, como sai a mim em muitas coisas, compramos asneirinhas que destroem um niquinho o efeito de saudabilidade do acima descrito - caixona de gelado, queijo em triângulos da "la vache qui rit", uma caixa de Camembert! Trouxe-lhe de Lisboa 6 tablettes de chocolate e bolachas...
Fui depois do exercício matinal a um spa fazer massagens aos pés que já conhecíamos desde a nossa estadia na China (Macau, HK, etc).
Aqui deixo a ilustração de tal sessão.
O Peninha tem estado calado, pois pu-lo de férias.
O SULTÃO DA MALÁSIA MANDOU-ME CHAMAR
O SULTÃO DA MALÁSIA MANDOU-ME CHAMAR
Recebeu-me nos jardins junto a um lago, e perguntou-me se estava a gostar da estadia.
Fui barbeado, perfumado na barba e no pescoço com um perfume do Hugo Boss que a Mariana me mandou pelo Natal e que fez o percurso de volta para prova do meu apreço, uma camisa branca de linho imaculada, uns shorts verdes de algodão finíssimo (do protocolo indicaram-me que o Sultão estaria também informal e adorava estar de calções) e uns Paez verdes azeitona a dar com os shorts.
Entretanto na véspera tinha jantado um opíparo ágape tudo feito pela dona-da-casa, que me tem tratado com imensos mimos.
Uma sopa bimbiana de vegetais only (maçã, abacate, courgettes, abóbora), um frango de pica com um limão no rabo....ahahah, sem corantes nem conservantes...ahah, no forno e com imensa carne branca fofinha...ahahah...e como sobremesa uns maracujás deliciosos. Estou um fio de elegância....
Sessão de cinema a seguir...viciante o Marco Polo na Netflix...vimos uns 6 episódios e eu continuei ainda mais uns dois..dormi que nem um justo, apesar da biolência.
Durante o dia enquanto a pikena trabalhava, arranjou-me um driver indiano com um bruto carro com ar condicionado. Fomos dar uma volta in town. Muito culto, tinha sido da polícia de investigação e detective. Estava a par de tudo!
Foi uma manhã muito bem passada e interessante.
Li vagamente ( têm sido umas férias de notícias) que o Sócrates terá dado uma entrevista. Falei-lhe nele e logo me disse que conhecia o processo e que me ia enviar revelações bombásticas sobre apartamentos no centro de Singapura e Kuala Lumpur....ahahah..só a pachorra.
Hoje Sábado, malhação no gym e mergulhaços na piscina. Está imenso sol e calor. Ontem à noite houve trovões, raios e coriscos.
Na 5f fomos jantar a um restô japona na marina. Uma maravilha.
Como dizia um meu bisavô: está bem rapazes!
Visita a Singapura e à Malásia
Lá vim há duas semanas para Singapura e Malásia para estar com a Mariana, minha filha até 17 de Fevereiro, data em que volto com ela para Lisboa, pois vem passar cá os anos. Está-me a apetecer imenso.
Vai ser bom para descansar e estar com ela, pois tenho sempre muitas saudades. No fundo é a minha "menina" e os Pais gostam sempre muito das filhotas. Eu sou dos que gosto de todos por igual, mas uma filha é diferente.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
SILÊNCIO de SCORSESE
SILÊNCIO de SCORSESE
Fui ver "Silêncio" de Scorsese. Primorosamente realizado, com excelentes interpretações. Passa-se em 1640 e seguintes. Não me apetece perder tempo sobre o tema.
Tirei para mim uma conclusão, que confirma o que já penso há anos: não se deve fazer na vida NADA (i) que não nos apeteça e em que acreditemos possa ser útil a nós e aos outros (ii) que seja uma maçada, um sofrimento e sem resultados palpáveis previsíveis.
Fui ver "Silêncio" de Scorsese. Primorosamente realizado, com excelentes interpretações. Passa-se em 1640 e seguintes. Não me apetece perder tempo sobre o tema.
Tirei para mim uma conclusão, que confirma o que já penso há anos: não se deve fazer na vida NADA (i) que não nos apeteça e em que acreditemos possa ser útil a nós e aos outros (ii) que seja uma maçada, um sofrimento e sem resultados palpáveis previsíveis.
No mundo dos negócios, social, pessoal cada vez tenho menos tempo a
perder com "non issues" ou seja com factos, actos cometidos ou a cometer
por losers, non-performers, non professionals, sonhadores.
Para sonhar há boas viagens, bons hotéis, boas praias, bons países para viver. Simultâneamente com isso, em podendo, é bom ajudar quem precisa, mas sem o espírito de rato de sacristia, de mártir, de S. Vicente de Paula: é ajudar na medida e da forma como pudermos. Se for material é dar e não pensar mais. O ou os destinatários que o gozem e que tenham muita saúdinha...ahahah
Que grande maçada causas perdidas!
Voltando ao filme, que estultícia pensar que a missionação teria algum sentido no Japão, sobretudo tendo em conta que não é obrigatório ser-se cristão, ainda mais com a rigidez dos princípios dessa época e para aborígenes para quem tanto fazia uma coisa ou outra.
Mas isto é o que penso e mai nada.
Para sonhar há boas viagens, bons hotéis, boas praias, bons países para viver. Simultâneamente com isso, em podendo, é bom ajudar quem precisa, mas sem o espírito de rato de sacristia, de mártir, de S. Vicente de Paula: é ajudar na medida e da forma como pudermos. Se for material é dar e não pensar mais. O ou os destinatários que o gozem e que tenham muita saúdinha...ahahah
Que grande maçada causas perdidas!
Voltando ao filme, que estultícia pensar que a missionação teria algum sentido no Japão, sobretudo tendo em conta que não é obrigatório ser-se cristão, ainda mais com a rigidez dos princípios dessa época e para aborígenes para quem tanto fazia uma coisa ou outra.
Mas isto é o que penso e mai nada.
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
domingo, 22 de janeiro de 2017
A POSSE DE TRUMP E A REPORTAGEM DO PENINHA
A POSSE DE TRUMP E A REPORTAGEM DO PENINHA
O Peninha conseguiu que lhe validassem o bilhete de regresso de Caracas a Washington, devido ao infortunado azar de ter adormecido a bordo e falhado a sua saída nos USA!
Tendo chegado a Washington na véspera da posse do Presidente-eleito Donald Trump, hospedou-se num pequeno e modesto hotel junto do Capitólio, que a agência lhe reservara em Lisboa.
O primo John vociferou contra tudo o que Peninha tinha proposto: o traje para estar presente na cerimónia bem como, em caso de entrevista a algum órgão de informação, as ideias que alinhara que eram o oposto das expressas por Trump.
Assim que, recomeçou tudo: foi a um armazém de roupas e comprou uns jeans normais, uma camisa aos quadrados e um blusão de couro castanho-escuro, uns ténis pretos NIKE e numa loja de souvenirs levou um cap que dizia “Madeira -1968”. Pareceu-lhe um gesto de portuguesismo, ainda que nunca tivesse ido à dita ilha mas em homenagem ao primo John que tinha emigrado directamente de lá, e que ficaria contente em vê-lo aparecer nos écrans com este toque de gentil sensibilidade. Só não percebeu o porquê da data – 1968 – mas a menina do balcão disse-lhe que o pai dela tinha-o lá desde essa data e que ninguém o tinha comprado, entretanto!
Voltou a ler alguns recortes de jornais e revistas portuguesas sobre o Trump e apercebeu-se que tinha interpretado tudo ao contrário: o homem era de direita, conservador, tinha vontade de esganar os mexicanos e construir um muro junto à fronteira, odiava outras raças nomeadamente a muçulmana, enfim, concluiu que ali estava o exemplo de um estadista de valor e defendendo os princípios por que o Peninha sempre pugnara, inclusive na sua aldeia, quando era miúdo e jogava ao berlinde com os outros colegas de escola. Sempre admirara o dr. Paupério que era o senhor rico da terra, que tinha uma casa boa e farta e que não se dava com ninguém da vizinhança, nem os filhos jogavam ao bilas com ele e os outros. Peninha achava bem; ricos de um lado e pobres do outro. Pareceu-lhe que Trump devia ser um dr. Paupério da América e rejubilou com o facto. Assim é que era, nada de modernices nem de abrir as portas dos países aos outros estranhos.
A única coisa com que discordava era da segregação em relação à ILGA, pois o Américo era bicha desde pequeno e mesmo na escola já era chamado de Toninha, mas isso nunca o tinha impedido de com ele brincar.
Peninha achava mal qualquer discriminação fosse de que tipo fosse e por isso haveria de dizer publicamente e com orgulho, se por acaso fosse entrevistado, que não estava de acordo!
Enfim, chegou o grande momento. O Peninha não tinha mais do que o 2º ano do liceu de antigamente, pois tinha ido logo trabalhar, mas a vida tinha sido uma escola importante pelo que falava razoavelmente o inglês, ainda que com alguns erros, sobretudo verbos e vocabulário, mas dava para perceber tudo o que se ia passar.
Entrou no recinto com umas três horas de antecedência e de facto o lugar que o primo lhe arranjara era muito bem situado: junto das escadas do Capitólio, numa zona reservada a técnicos de electricidade e de som, que asseguravam que tudo corresse sem problemas.
Claro, não tinha Senadores nem Congressistas, mas tinha a imprensa que fazia a cobertura do evento, em cima, num estrado.
Começou a meter conversa com os vizinhos do seu lugar que se apresentaram simpaticamente: um, era um talhante do Arkansas, já entradote e que viera sem a família que ficara a tomar conta do talho. O Peninha ficou um pouco admirado quando lhe disse que era português e de Lisboa e o homem respondeu-lhe que sabia muito bem aonde era o país – Madagáscar - com um ar convencido. Peninha referiu-lhe o nome do seu clube – o Sporting – um dos maiores da Europa e o tipo ficou na mesma. Quando, já irritado, lhe falou em Jesus, ele disse-lhe : “Of course, that one I know!” Peninha não lhe achou muita graça pois pareceu-lhe de uma ignorância atroz.
A outra, era moça jovem, um pouco máscula e pareceu-lhe que seria travesti pois disse-lhe que se chamava Persifal mas que era conhecida por Gina. Ora fez-se luz na cabeça de Peninha e lembrou-se do Américo e da Toninha e tal e coisa. Muito simpática apresentou-lhe várias amigas, e foi-lhe dizendo que era jornalista de um jornal famoso em Nova Iorque, dizia ela, de nome “Pussy Cat”! Achou o máximo e pensou logo que estaria ali a oportunidade de falar à imprensa.
Conversaram muito sobre o Trump e sobre o futuro, enquanto aguardavam a chegada das altas individualidades e dos principais participantes na tomada de posse.
Entretanto, Peninha reparou que na zona dos jornalistas para além de um ecrã aonde se via o desenrolar da cerimónia havia uma aparelhagem, que lhe pareceu de escutas. Indagou da sua vizinha jornalista, que com um piscar de olhos lhe disse:
- Pusemos uns microfones na zona dos VIP para ouvirmos os comentários e depois os publicarmos. Peninha ficou muito intrigado pois pareceu-lhe coisa do Correio da Manhã ou mesmo do Expresso.
De facto começaram a chegar os ex-presidentes e Peninha foi-se aproximando e começou a tomar notas:
- Jimmy Carter para a mulher: que grande maçada, ainda por cima acho o Donald um grosseiro e um boçal. Só aceitei vir porque sempre somos vistos e há anos que não nos ligam nada. Olha chegou agora a Hillary com o Bill Clinton. Ele está muito velho. Oiça dizer que ainda cutuca as secretárias da Fundação…
- Hillary para Bill Clinton : Estou-lhe com uma raiva! Claro que vou sorrir e fingir que está tudo bem, mas tu ao menos podias agarrar-me nas mãos como se fôssemos muito unidos, para dar uma imagem de casal feliz. Que velho está o Jimmy Carter, caquéctico e ela mal vestida, nunca souberam ter classe. Olha para lá Bill e sorri!
- George W. Bush para Laura Bush: Tu não achas que a Hillary está muito tensa. Nem sei como se vão falar, o Trump e ela. Está gorda e sem graça nenhuma e o Bill está a cair da tripeça. Olha eu tenho saudades destas honras e mordomias, no fundo foi para isso que fui presidente.
- Obama para Michelle: tu, contém-te e não faças cara de enjoada, um dia ainda voltamos a isto tudo, prometo-te. Fomos muito melhores do que aquela cambada dos ex-presidentes, que ali estão a sorrir-nos.
O Peninha estava perplexo, pois julgava que todas aquelas amabilidades que via entre eles, não fossem tão hipócritas.
Obama para Michelle: Olha-me para a Melania, copiona, está com um vestido igual ao da Jackie Kennedy. Ela quando te deu o presente esta manhã à porta da Casa Branca, estendeu-te a mão…safada, fizeste bem em dar-lhe logo dois beijos! Quem se julga ela que é?
Michelle para Obama: Vem bem vestida e tu não me deixaste comprar nada melhor do que este meu vestido, que eu acho sem glamour nenhum! Foste sovina!
E continuaram a dizer mal uns dos outros até que chegou Trump.
Trump para Melania: Finge que me dás um beijo sentido e ri-te minha estúpida! Estás aí entrouxada nesse vestido…põe-te mais à vontade. Foste às aulas de protocolo mas eu sei mais do que esses chulos. Cambada de gente. Vou ali ser visto outra vez a dar manteiga ao Obama pois eles vão ficar para morrer quando ouvirem o meu discurso.
Melania para Trump: estou farta disto e de armar que nos damos bem. Vou mas é para NY e levo o puto e não julgues que volto cá muitas vezes. Ele também detesta isto tudo, olha-me para a cara desatenta dele. O marido da Ivanka, não perde pitada e está com o peito todo cheio. Vocês estão bons um para o outro. Espero que ela te controle, só tens dito asneiras. E deixa de te peidares que é uma vergonha.
E o Peninha desolado via os seus sonhos da política como uma coisa sã e preciosa, esboroarem-se como um castelo de cartas. Todos uns pulhas!
Voltou para o lugar para ouvir o discurso de Trump. Ali ao lado dele eram todos fans, mas o Peninha estava desiludido com as ideias e as generalidades: achou que não tinha plano nenhum.
Quando o discurso acabou e enquanto tocavam as bandas, a sua vizinha do jornal o “Pussy Cat” perguntou-lhe se aceitava responder a três perguntas para publicar com a sua fotografia, no jornal. Peninha ficou encantado e disse logo que sim.
- Qual é a tua orientação sexual? – perguntou-lhe ela.
O Peninha ficou um pouco surpreendido e antes de responder pensou para si mesmo: sempre fui um homão e gostei de gajas.
- Olha sou hétero e gosto muito de mulheres – respondeu o Peninha. Viu que a sua resposta não tinha agradado muito à jornalista.
- 2ª pergunta: sabendo tu que eu sou travesti, ias para a cama comigo? – lançou a jornalista com um ar de desafio para o Peninha.
- Nem penses nisso filha ou filho, sei lá, não saberia o que te fazer, mas olha que tenho amigos como tu e damo-nos muito bem. Eu não tenho preconceitos, disse o Peninha com um ar satisfeito pela sua posição liberal. Mas olha, faz-me uma pergunta sobre política, sobre o Trump, a América.
- 3ª pergunta – gostaste do vestido da Melania? – e acrescentou á laia de desculpa que nada sabia sobre política. Peninha desgostado, a contragosto disse-lhe:
- Gostei das mangas em godé, do cós alto, do busto saliente e da gola em rodovalho tipo cachecol…o azul bebé fica-lhe bem ainda que ela não seja nenhuma inocente. Das luvas, achei chic a valer.
Peninha saiu desconcertado da entrevista pois tinha sonhado dar opiniões políticas profundas e avisadas.
Voltou para o hotel para se vestir para o baile. Tinha trazido de Lisboa um smoking emprestado do Américo, de veludo lavrado em encarnado vivo, com umas calças escuras e uns sapatos com umas solas novas que o faziam escorregar. Pôs uma écharpe de seda azul escura à volta do pescoço, pois estava frio, e com um cravo branco na lapela, meteu-se num táxi e zarpou para o local do baile.
Lá chegado, de convite na mão apresentou-o à entrada e ouviu um comentário em voz baixa que lhe fez uma das meninas recepcionistas:
- I love the colour of your tuxedo, but I have to warn you, President Trump is a conservative and doesn’t like red, it reminds him of the communists, at least until he meets Putin…but I love it. Do you dance?
Peninha ficou encantado com o elogio e respondeu logo que sim e que ficava à espera dela para quando começasse o baile ela ser o seu par.
- Chamo-me Elsie ( Elsa, pensou o Peninha) e tu?
- Eu chamo-me Little Feather (Peninha) but I guarantee you that I have what you expect very big…e riu-se ainda que tivesse achado que tinha sido um pouco grosseiro.
Entrou para a sala gigantesca aonde se desenrolaria a festa e notou que havia um palco mais elevado que lhe disseram ser só para o Presidente Trump e a mulher abrirem o baile. Achou de uma arrogância e pretensão desmedidas e logo ali planeou que tentaria ir com a Elsie dançar para lá e assim, ao menos, poder aparecer na imprensa, pois os fotógrafos estariam todos de baterias apontadas.
A sala começou a encher-se mas o convite do Peninha só dava direito a ficar em pé junto ao bar e não a jantar. Assim fez e enquanto Elsie não chegava, começou a beber desenfreadamente: estava excitado com o ambiente e Elsie era rechonchuda, de rabo grande saliente do vestido comprido branco com uma racha atrevida lateral que deixava entrever umas belas pernas, tinha um peito de rola grande e cheio e uma cara agradável com uns olhos morenos e cabelo castanho claro.
Entretanto a orquestra começou a tocar umas musiquinhas gostosas e Peninha com os copos, meneava o corpo dando um bocado nas vistas.
Elsie foi ter com ele e enlaçados começaram a aproximar-se da pista que já tinha alguns pares de convidados a dançar. Peninha disse-lhe ao ouvido que ela estava muito sexy e confessou-lhe o seu desejo de irem disfarçadamente lá para o palco de cima para que quando o casal Trump começasse a dançar eles entrarem os dois também no mesmo palco e teriam um momento de fama…Ela ficou estarrecida com a ideia e falou-lhe na CIA e no FBI mas ele não se demoveu.
Elsie disse-lhe que a única maneira seria a de pretenderem ser da organização e estarem de serviço,sim não levantariam suspeitas e só mesmo quando a primeira valsa começasse poderiam então deslizar para o palco…Elsie achava uma loucura mas como já tinha bebido uns copos valentes como o Peninha, ia cedendo molemente.
Encontraram vária segurança a quem Elsie dizia que era da organização e sem grande dificuldade ficaram perto do palco, como se de meros observadores se tratassem e estivessem ali à disposição para qualquer coisa.
O casal Trump, chega ao palco e é saudado pelos convidados em delírio. A orquestra começa a tocar a valsa do Danúbio Azul e o casal Trump vai deslizando pela pista sob os aplausos de todos. Toda a gente está concentrada nos convidados de honra e não se apercebem de que Elsie e Peninha se vão aproximando do centro do palco, dançando ao som da valsa.
Os organizadores tinham tido ordens para espalharem no chão pó de talco em grande quantidade para facilitar ao casal Trump os passos da valsa e poderem rodopiar facilmente.
Numa volta mais ousada, o raio dos sapatos com solas novas que o Américo lhe emprestou, derrapam no chão escorregadio e perante o olhar assustado de todos, o Peninha estatela-se no chão dando um enorme trambolhão indo parar ao pés de Melania.
O FBI já tinha entrado no encalço dos dois e leva-os presos para interrogatório.
Foi um sarilho e só depois de muitas explicações, o Peninha conseguiu ser libertado.
Ansioso correu para um quiosque à procura dos jornais aonde tinha a certeza estaria noticiada a sua proeza, ainda que tendo acabado mal. NADA!
A equipa de TRUMP tinha censurado esta parte da festa e NADA deixara que os jornais reportassem. Peninha ficou tristíssimo e regressou a Lisboa.
Um dia depois do seu regresso recebeu um e-mail de Persival com um attachment aonde vinha na primeira página do jornal “Pussy Cat” a fotografia do seu estampanço!
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
O PENINHA E A POSSE DE DONALD TRUMP
O PENINHA E A POSSE DE DONALD TRUMP
O Peninha tem um primo que emigrou para os Estados Unidos. Chama-se John e é comerciante em New Bedford. Exerce um cargo político nas estruturas locais do Partido Republicano.
O Peninha lembrou-se de lhe pedir se lhe arranjava uma entrada para o recinto da posse de Donald Trump junto às escadarias do Capitólio. Recebeu no Sábado o dito convite e alvoroçado foi a uma agência de viagem para marcar o voo para Washington.
O primo pediu-lhe que se preparasse para responder a algumas perguntas sobre o programa do Trump, para o caso de ser entrevistado e assim Peninha, começou a ler jornais e revistas e a ouvir as entrevistas na televisão que o Presidente-eleito deu nos últimos tempos. Começou a alinhar as seguintes conclusões:
- Trump não detesta tanto assim o Presidente Obama;
- Trump acabou por ficar com simpatia por Hillary Clinton;
- quanto ao Obamacare é errada a ideia de que o abomina, vai melhorá-lo (é um pretexto para dizer que o vai extinguir) e está a pensar convidar o ex-Presidente Obama para ficar à frente do novo plano, sendo muito bem pago;
- está preparado para a primeira visita de Estado ao Kremlin para contactar o Presidente Putin e tornar-se amigo do peito, até porque gostam ambos muito de vodka, o que já é um bom começo;
- vai financiar ainda mais a NATO e a ONU ( bom para Guterres);
- com a China, vai aumentar o comércio bilateral e aceita que Taiwan não é um país independente;
- com o México, afinal já não vai construir o muro e conta com a ajuda dos mariachi para distrair os eventuais emigrantes ilegais de salto;
- tenciona pôr a família o mais que é possível em cargos de confiança pois assim assegura o controlo do poder.
Estas foram algumas das linhas mestras que Peninha afivelou, mas nada quis dizer ao primo, para que quando fosse entrevistado fazer um brilharete. Orgulho da família!
Decidiu partir no Domingo para os USA e preparou a mala:
Levava como traje para assistir à cerimónia, um smoking aveludado de lilás, com um colete amarelo de cetim, umas calças de bombazina de cor de vinho escuro a dar ton sur ton com o smoking. Sapatos não podiam deixar de ser de verniz caramelizado. A camisa, branca lisa, com os colarinhos revirados aonde poria um papillon de pintas amarelas sobre um fundo azul. Na cabeça e por causa do frio, um boné à Tonicha. Levava, mais uma vez, a capa à espanhola pois seria sempre conveniente, não fosse o tempo esfriar.
Foi para o aeroporto e estava entre cansado, nervoso e muito excitado. Não percebia nada do aeroporto e das portas pois desde há muito que não viajava de avião e tudo estava mudado para melhor, pensou!
Foi ao bar, tomou uma pastilha para dormir e quando viu toda a gente embarcar pôs-se atrás e seguiu-os sem cuidar de mais nada, pois já estava até meio adormecido.
Muitas horas depois acordou com a hospedeira a tocar-lhe no braço e a dizer-lhe que era tempo de sair do avião.
- Já chegámos a Washington? – perguntou contente, pois a pastilha tinha sido eficaz.
- No Señor, estamos en Caracas. El vuelo era Lisboa, Washington, Caracas.
O Peninha tinha falhado a escala! Porra!
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Mário Soares
MÁRIO SOARES
É normal que se façam reportagens e entrevistas a propósito da morte de Mário Soares. Têm passado nos écrans tudo quanto é gente da esquerda, do centro e da direita. Repetem-se as palavras e os encómios e mais uma vez acho normal.
No entanto, tal como qualquer um de nós quando morrer, não seremos mais do que cinza, pó e nada.
E o tempo, no seu decurso inexorável, irá apagando a sua memória, não porque mereça ser esquecido no que de bem fez, mas porque a história é imparável e haverá que avançar e novos desafios nos esperam no presente e no futuro e não se avizinham fáceis.
É normal que se façam reportagens e entrevistas a propósito da morte de Mário Soares. Têm passado nos écrans tudo quanto é gente da esquerda, do centro e da direita. Repetem-se as palavras e os encómios e mais uma vez acho normal.
No entanto, tal como qualquer um de nós quando morrer, não seremos mais do que cinza, pó e nada.
E o tempo, no seu decurso inexorável, irá apagando a sua memória, não porque mereça ser esquecido no que de bem fez, mas porque a história é imparável e haverá que avançar e novos desafios nos esperam no presente e no futuro e não se avizinham fáceis.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
O PENINHA E O NOVO BANCO
O PENINHA E O NOVO BANCO
O Peninha já anda há muito a ruminar em como pode ajudar o
país, contribuindo com qualquer gesto grandioso que o faça ser recordado no
futuro.
Com estes últimos acontecimentos no NOVO BANCO, o Peninha
julgou chegado o momento de intervir.
Um tio do Peninha, o sr. Asdrúbal, fora nos bons tempos da
família Espírito Santo, bicheiro na Quinta do Perú, e pendurava religiosamente
nas árvores que conduziam á casa, tudo quanto era de animais nocivos à caça,
para os patrões verem bem que desempenhava as suas funções a contento:
milhafres, águias de pequeno porte, ratazanas, gatos selvagens…
Sempre tivera, por isso, a gratidão da família e em troca também
sempre depositara as suas poupanças nos bancos do GES. Esta devoção fora
transmissível à restante família do sr. Asdrúbal, pelo que o Peninha sempre
fora cliente do BES.
Qual não foi, por isso, a enorme dor, desilusão e prejuízo
quando todo o império se desmoronou. Tinha aplicado umas massas no papel
comercial e ficou sem nada. Infelizmente tinha em alternativa uma outra parte
no Banif e ficou sem nada. O que vale foi uma herança pequena de uma tia
Felismina do Sul, que lhe deixou uns Certificados de Aforro de que Peninha vai
vivendo, para além do seu ordenado mensal.
Peninha trabalha, como funcionário público, num departamento
de apoio à emigração pelo que conhece muitos emigrantes estrangeiros, cujos
processos lhes passam pelas mãos.
Ora, um certo Sadiq, de nacionalidade paquistanesa, dá-se
ares de ter bons contactos na banca do seu país. Peninha lembrou-se de que uma
prima servia a dias na casa do dr. Sérgio Monteiro, que está indicado pelo Banco
de Portugal, para liderar as negociações do NOVO BANCO.
Começou por sondar Sadiq que lhe prometeu falar a uns amigos
poderosos em Karachi e retornar sobre o potencial interesse da compra do banco.
Por outro lado, haveria de pedir à prima que falasse ao dr.
Sérgio Monteiro para este o receber quando houvesse algo de concreto.
Sadiq convocou-o e disse-lhe que um grupo de paquistaneses
estava altamente interessado na aquisição do banco e que portanto ele que
avançasse com o contacto.
Peninha, começou a sentir-se importante e a estar imbuído
daquele espírito de missão patriótica de um Gama ou Albuquerque e lá conseguiu
que a prima lhe arranjasse uns 10m no fim-de-semana para uma conversa com o dr.
Sérgio Monteiro.
Vestiu-se como julgava um banqueiro o fizesse: fato Hugo Boss azul-marinho, com as calças a esterlicarem em baixo junto às canelas,
cinto de coiro preto com uma fivela de cowboy em prata, uma camisa com
colarinhos à Mao, com dois botões, e na lapela uma bandeira de Portugal em
esmalte, pois não era para menos. Os sapatos ainda pensou pôr os de pele de
lagarto castanhos, mas acabou por optar por uns All Star casual.
Lá chegado a casa do dr. Sérgio Monteiro, a prima disse-lhe
que fosse tomar um café e voltasse dali a uma hora, pois o dr. tinha-se deitado
tarde e ainda estava a dormir. Peninha achou de uma grande desconsideração, mas
não teve outro remédio, pois nem para a sala o mandaram entrar.
Regressado ao apartamento, a prima mandou-o entrar e
pediu-lhe que aguardasse, pois o dr. estava a acabar o pequeno-almoço.
Nisto, aparece-lhe o dr. Sérgio Monteiro de roupão de seda
com dragões de fogo e estendendo-lhe a mão, diz-lhe:
- Desculpe estar de roupão, mas estou com muito sono ainda,
pois ontem foi uma noitada com uns chineses de um banco comprador e ainda vou voltar
para a cama. Então diga lá!
Peninha ficou sem fala e atrapalhado. Bloqueou-se-lhe o
raciocínio, mas vendo que ele esperava que ele falasse, lá lhe foi dizendo que
conheçia um Sadiq, paquistanês, comerciante de grosso trato, que tem uns amigos
comerciantes em Karachi que querem comprar o NOVO BANCO pois têm lojas em
Portugal e têm dificuldades em abrir cartas de crédito…..e logo o dr.Sérgio
Monteiro, o interrompe e diz:
- Meu caro amigo, muito obrigado pelo seu empenho e esforço
em ajudar o país. No entanto o valor que estamos a pedir pela compra do banco é
tão baixo, tão baixo que seguramente não interessará aos seus amigos
comerciantes que estão dispostos a pagar vultuosas quantias. Não deixarei de
mencionar ao dr. Carlos Costa, o seu interesse e talvez se possa um dia fazer
um negócio com o Paquistão.
Levantando-se, começou a dirigir-se em direcção à porta e
estendendo-lhe a mão despediu-se dizendo que tinha de voltar para a cama.
Peninha encontrou-se na rua, entre contente e desiludido.
Contente por ter sido reconhecido o seu esforço em ter querido ser de mais-valia
para o seu país, mas desiludido pois tinha achado que o grupo paquistanês seria
considerado de grande impacto económico e financeiro.
Peninha ainda teve uma reunião com Sadiq o qual lhe disse
que afinal percebera que se tratava de um banco e não de uma casa de câmbios,
pois os que eles queriam era aumentar a loja que tinham na Almirante Reis para
fazer transferências.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
CHAMADA TELEFÓNICA PARA MIM, DE UMA CLÍNICA DIETÉTICA
CHAMADA TELEFÓNICA PARA MIM, DE UMA CLÍNICA DIETÉTICA
(Voz de gata, arrastada e mimada) : Táaaa? Tou a falar com o Manuéel?
Eu- Tá, tá
Ela: Em primeiro lugar um Bom Ano, Manuéel...
Eu: Agradecido e também retribuo.
Ela: Manuel, temos uma oferta irrecusável, Manuel para ter uma consulta grátes na nossa Clínica, Manuel, o que acha Manuel!
Eu: Como se chama?
Ela: Kátia, Manuel.
Eu: também se chama Manuel, Kátia Manuel...nunca tinha ouvido...
Ela: O Manuel é tão engraçado...(juro poder ter ouvido um ronronar gatal a rir de mansinho)
Eu a finalizar: Olhe Kátia, teremos que deixar para depois do dia 15 de Janeiro, pois estou com uma gripe daquelas violentas (verdade, mas estou muito melhor..ahahah) e temo que só para essa altura possa estar disponível.
Ela ( miando de gozo por eu não ter cancelado e prever uma comissão, aliás justa!): Olhe Manuel, quer que eu lhe telefone ou telefona-me?
Eu: fica combinado ( que é uma maneira delicada de deixar tudo à vontade do Altíssimo...ou seja ao deusdará...
Ahahahahah...ainda estremeço com o som do Manueeeelll
(Voz de gata, arrastada e mimada) : Táaaa? Tou a falar com o Manuéel?
Eu- Tá, tá
Ela: Em primeiro lugar um Bom Ano, Manuéel...
Eu: Agradecido e também retribuo.
Ela: Manuel, temos uma oferta irrecusável, Manuel para ter uma consulta grátes na nossa Clínica, Manuel, o que acha Manuel!
Eu: Como se chama?
Ela: Kátia, Manuel.
Eu: também se chama Manuel, Kátia Manuel...nunca tinha ouvido...
Ela: O Manuel é tão engraçado...(juro poder ter ouvido um ronronar gatal a rir de mansinho)
Eu a finalizar: Olhe Kátia, teremos que deixar para depois do dia 15 de Janeiro, pois estou com uma gripe daquelas violentas (verdade, mas estou muito melhor..ahahah) e temo que só para essa altura possa estar disponível.
Ela ( miando de gozo por eu não ter cancelado e prever uma comissão, aliás justa!): Olhe Manuel, quer que eu lhe telefone ou telefona-me?
Eu: fica combinado ( que é uma maneira delicada de deixar tudo à vontade do Altíssimo...ou seja ao deusdará...
Ahahahahah...ainda estremeço com o som do Manueeeelll
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
O Peninha e o Reveilhão 2016 - o Elefante Branco - Bom Ano de 2017
O PENINHA E O REVEILHÃO 2016
O Peninha lamentou o fecho do Elefante Branco, que entre os amigos que com ele o frequentavam, era conhecido como "o Trombinhas"!
Lá conhecera a Odete, a linda e carnuda Míriam - maravilhosa brasileira - a Natasha e tantas outras por quem se apaixonara.
Agora que tudo acabou, o Peninha não tem a certeza de que fosse reciprocado. Tantos "I love you, darling" e pedidos de permissão para novas e incontáveis garrafas de whiskey, talvez lhe tenham despertado o líbido, mas também rombos significativos no seu bolso.
O Peninha ia todas as vésperas de Natal, confessar-se à igreja do Loreto, a um padre italiano velhinho. Quando lhe relatava por alto os múltiplos pecados carnais praticados no Trombinhas e derivados, o padre levantava os olhos para ele, uns minutos, e dizia: " reze, reze, muito"! E lá vinha uma penitência valente. Até disto ia ter saudades.
Este ano, a malta tinha-o desafiado para um reveilhão numa boîte de acompanhantes de luxo chamada "o Papagaio Amarelo". O preço era puxado, mas o Peninha estava numa de compensar o desgosto, fosse a que preço fosse.
O traje obrigatório era de maillot de banho, justo, tipo tanga à Tarzan e por cima penas de papagaio a cobrir o corpo. Podiam ser penas de várias cores!
Lembrou-se dos guarda-roupas Paiva e Anahory, e foi no primeiro que arranjou um casaquinho emplumado de cor violeta, pois fornecera os teatros de revista, visto ser situado em pleno Parque Mayer!
Segundo diziam os frequentadores, havia aquecimento de sobra e até corria o rumor que se brincava ao Adão e Eva, está visto, neste caso, aves canoras do paraíso.
Bar aberto, tapas requintadas de caviar e de salmão fumado, santola recheada, lagosta Thermidor, e no fim uma omeleta surprise, neste caso era sorteada uma papagaia surpresa, entre os convivas de cada privé.
O Peninha não podia ir de metro, vestido com as plumas e de tanguinha - tinha comprado numa loja chinesa, uma com as cores da bandeira dos USA, com uns dizeres bem salientes de entre umas labaredas "burn inside"! Tinha muito sainete!
Posto isto, comprara na Rua dos Fanqueiros, no Armazém da Covilhã, umas calças de flanela cinzentas tipo ministro do antigamente, uma camisa branca de quadrados azuis bébé num saldo do boxing day, numa loja do Conde Barão. Na sapataria Oliveira, a que calça Lisboa inteira, foi um par de sapatos de polimento preto, bicudos de matar baratas ao canto, e umas meias com as listas verdes do Sporting.
Por cima da camisa, pois está muito frio, adquirira na feira de roupas dos paquistaneses em Alverca, um blusão da tropa que tinha uma tira na manga, que dizia " Matias, 1959".
Assim planeou todo o seu fim-do-ano.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
JANTARES DE NATAL ad nauseam
JANTARES DE NATAL ad nauseam
Isto dos jantares de Natal, com as migas e migos, da escolinha, da catequese, da rua, da Câmbara ou da Junta de Freguesia, da carrêra do 29, é nôbo, caraças! Debe de ser da era do Costa, do PPC, do Marcelo dos afectos, enfim da democracia.
No tempo da outra Sinhóra, só habia festas pribadas nos lares e nas famílias e nada destes luxos, bubadeiras, rotinas de cunbersas todos os santos dias, melhor noites, e vai e volta e gasta e depois os presentes/prendinhas são uma merda...tudo tipo, topas, sabonetes, promoções, tabuletas de chicolate, meias, livros já lidos...
Isto dos jantares de Natal, com as migas e migos, da escolinha, da catequese, da rua, da Câmbara ou da Junta de Freguesia, da carrêra do 29, é nôbo, caraças! Debe de ser da era do Costa, do PPC, do Marcelo dos afectos, enfim da democracia.
No tempo da outra Sinhóra, só habia festas pribadas nos lares e nas famílias e nada destes luxos, bubadeiras, rotinas de cunbersas todos os santos dias, melhor noites, e vai e volta e gasta e depois os presentes/prendinhas são uma merda...tudo tipo, topas, sabonetes, promoções, tabuletas de chicolate, meias, livros já lidos...
sábado, 17 de dezembro de 2016
O PENINHA E O TEATRO DA CORNUCÓPIA - A "BONDADE" DE MARCELO
O PENINHA E O TEATRO DA CORNUCÓPIA
O Peninha leu no jornal que o seu querido Presidente Marcelo queria salvar o Teatro da Cornucópia de fechar, vulgo ir à falência.
Indagou, indagou e percebeu que este teatro só se aguentava de pé devido a um subsídio do Estado, o que para ele queria dizer do bolso do contribuinte.
Mas se o Presidente Marcelo queria salvar o teatro alguma coisa devia valer.
Decidiu ir a uma soirée e comprou um bilhete para uma peça que estava em representação, de seu nome “ Nem queiras saber, Diógenes”. Deve ser um grego, pelo nome.
Ouvira dizer que nestes teatros de vanguarda se tem que ir vestido apropriadamente e por isso tirou do baú uma camisa toda preta que a mãe lhe comprara na Rosicler, fazia anos, e que tinha usado quando andava com o Hélder que morava em Almada e que tinha uns piercings no nariz que quando espirrava, tudo aquilo abanava, e pelos palavrões que ouvia, devia doer para burro.
Iam muitas vezes sair à noite a uma discoteca numa cave de nome " a cova da lagarta", com as paredes pintadas de negro, com as camisas pretas, e botifarras de sola de Ceilão, que herdara do pai, quando estivera na tropa. A música era tocada por uma banda gótica, que o Peninha achava deplorável, fumava-se uns charros, curtia-se a noite com umas tipas que eram cabeleireiras no centro de Almada, e o Peninha regressava a casa todo pedrado.
Com relutância procurou também uns jeans cinzentos, que usava na fase da corrente grossa que começava numa ilharga atrás e terminava à frente quase junto à braguilha. Era de metal pesado em tons de prateado o que fazia com que usasse as calças quase nos joelhos deixando as cuecas à mostra e tantas vezes a parte superior da racha do rabo, ao léu!
Reviveu esses tempos e com um boné de pala preto que tinha bordado “Klux,klux, klan – Moscavide 69” foi de metropolitano para sair no Rato e ir depois a pé até à Cornucópia.
Ficou desolado! Uma peça com mais actores que espectadores que durou QUATRO horas, com os personagens a deambular por um cenário post nuclear e a dizerem coisas sem nexo. O Diógenes, nem vê-lo e o tema incompreensível.
Uma estopada e saiu indignado. Com o dinheiro dele nunca lá poria mais os pés e decidiu mandar um telegrama seco e duro ao seu querido Presidente Marcelo:
Para : MRS – Presidente
meu ídolo. fui teatro Cintra. cócó total. dinheiro meu e contribuinte mal gasto. Presidente não deve ser catitinha. compete Governo decisão. precisamos mais carcanhóis saúde, educação, transportes e cultura sã e decente. prometo ovos pôdres e tomates cara actores e palco, se salvar falência. espero, ídolo meu, bom-senso impere. Diógenes mando pró caraças. salve país.traga de volta d.Sebastião. Assinado : Peninha Silva Poiares Relvas.
Custou-lhe uma fortuna o raio do telegrama mas ficou convicto que tinha feito um desforço que a sua consciência lhe ditara.
Decidiu ir a uma soirée e comprou um bilhete para uma peça que estava em representação, de seu nome “ Nem queiras saber, Diógenes”. Deve ser um grego, pelo nome.
Ouvira dizer que nestes teatros de vanguarda se tem que ir vestido apropriadamente e por isso tirou do baú uma camisa toda preta que a mãe lhe comprara na Rosicler, fazia anos, e que tinha usado quando andava com o Hélder que morava em Almada e que tinha uns piercings no nariz que quando espirrava, tudo aquilo abanava, e pelos palavrões que ouvia, devia doer para burro.
Iam muitas vezes sair à noite a uma discoteca numa cave de nome " a cova da lagarta", com as paredes pintadas de negro, com as camisas pretas, e botifarras de sola de Ceilão, que herdara do pai, quando estivera na tropa. A música era tocada por uma banda gótica, que o Peninha achava deplorável, fumava-se uns charros, curtia-se a noite com umas tipas que eram cabeleireiras no centro de Almada, e o Peninha regressava a casa todo pedrado.
Com relutância procurou também uns jeans cinzentos, que usava na fase da corrente grossa que começava numa ilharga atrás e terminava à frente quase junto à braguilha. Era de metal pesado em tons de prateado o que fazia com que usasse as calças quase nos joelhos deixando as cuecas à mostra e tantas vezes a parte superior da racha do rabo, ao léu!
Reviveu esses tempos e com um boné de pala preto que tinha bordado “Klux,klux, klan – Moscavide 69” foi de metropolitano para sair no Rato e ir depois a pé até à Cornucópia.
Ficou desolado! Uma peça com mais actores que espectadores que durou QUATRO horas, com os personagens a deambular por um cenário post nuclear e a dizerem coisas sem nexo. O Diógenes, nem vê-lo e o tema incompreensível.
Uma estopada e saiu indignado. Com o dinheiro dele nunca lá poria mais os pés e decidiu mandar um telegrama seco e duro ao seu querido Presidente Marcelo:
Para : MRS – Presidente
meu ídolo. fui teatro Cintra. cócó total. dinheiro meu e contribuinte mal gasto. Presidente não deve ser catitinha. compete Governo decisão. precisamos mais carcanhóis saúde, educação, transportes e cultura sã e decente. prometo ovos pôdres e tomates cara actores e palco, se salvar falência. espero, ídolo meu, bom-senso impere. Diógenes mando pró caraças. salve país.traga de volta d.Sebastião. Assinado : Peninha Silva Poiares Relvas.
Custou-lhe uma fortuna o raio do telegrama mas ficou convicto que tinha feito um desforço que a sua consciência lhe ditara.
O TEATRO EM PORTUGAL - O fim do TEATRO da Cornucópia
O TEATRO EM PORTUGAL
O sucesso do teatro em Londres, Paris, Nova York e mesmo Madrid, sem falar em S.Paulo e em Roma, é precisamente pela variedade de tipo de peças que faz com que estejam sempre cheios.
Isto vem a propósito dos nossos teatros e do fecho do teatro da Cornucópia (subsidiado pelo Estado = nós).
Com o afluxo de estrangeiros cada vez maior e com carácter de permanência talvez fizesse sentido enveredar por uma política cultural teatral poliglota, atraindo companhias de teatro estrangeiras que como no passado ( a "saison" do teatro francês no S.Luís, que me permitiu e aos meus irmãos e amigos ver os melhores e mais famosos artistas franceses representando todo o tipo de teatro durante décadas). Era chiquíssimo, ia-se de smoking ( dinner jacket, para não me chatearem), lindamente bem frequentado, e caro....ahahaha...
Os pais ou avós de família pagavam os bilhetes dos filhos ou netos e era um regalo ver tudo quanto era a gente nova em alegre conbibência, nos intervalos e depois em ceias que continuavam pelo Tavares para os crescidos e no Gambrinus na barra, para os mais novos, com o famoso "pincho-de-gambas" com umas cervejas, acessível à nossa bolsa.
Fartei-me de ir em Londres, Paris, Madrid e NY com os meus Pais e Avós a excelente teatro e era um must antes de partirmos, reservar os bilhetes. Depois, mais tarde, já maior e adulto a minhas próprias expensas.
Porque fecham a maioria dos teatros cá? Porque a maioria das peças são de uma chatice incompreensível e sobre temas de tão elevada craveira intelectual que ninguém (diga-se, pessoas que gostam de bom teatro escorreito, compreensível, divertido, bem representado...) tem paciência de fazer "toilette" para ir ao teatro...
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
We’re all snobs — however much we deny it
D.J. Taylor’s clever dissection of snobs is really two books in one. Scattered throughout are entertaining, delicious (initially), solemnly related nuggets of hardcore snobbery. He writes brilliantly, for example, about the diarist and National Trust employee James Lees-Milne, who liked a world that knew its place (ideally beneath him). Lees-Milne was steeped so far in snobbery that he couldn’t bear the vulgarity of calling a garage a garage and so called his the ‘motor-house’.
Either the absurdity of this makes you snort with laughter or it doesn’t. It does me, though I have to say the cumulative effect of a zillion snobberies is nauseating. You find yourself thinking, ‘My God, these terrible people’ on every other page. It works in both directions, kind of. Snobs is peppered with examples of reverse snobbery. My favourite is the singer Paul Weller moaning about an album being rejected by the record label:
I’m not used to people talking to me like that. Not because I think I’m Mr Superstar but because I’m not fucking having it. Basically, because I’m from Woking and I don’t give a fuck, d’you know what I mean?All too well, mate.
Snobs is also a historical and literary study of British snobbery, the idea being that we are all snobs in some way and that all of us are class-obsessed:
Snobbery, it might reasonably be argued, is a key to our national life, as vital to the backstreet family on benefits as to the proprietor of the grandest stately home, an essential element in our view of who we are and what the world might be thought to owe us.However, Taylor notes, modern snobbery is ‘frequently hidden from public view’: for every ostentatious Porsche on a suburban street (unsnobbish, I would say: to do with pulling rank, surely, which isn’t at all the same thing), ‘the majority of snobs pursue their craft by stealth’. It is ‘a matter of closed circles as such; it frequently declares itself to be a matter of tone’. This is exactly right; and it’s why it’s so difficult to write well about snobbery, which is to do with microscopic, imperceptible, fairly deranged nuances. I do think Taylor sometimes conflates snobbery and conspicuous consumption, but that doesn’t really matter: he goes a long way to unravelling this knottiest of subjects and dances along the crevasses of class without falling right in.
I found the historical bits slightly boring, but that’s because my only two responses to the snobberies he describes are hilarity or anger: I am not interested enough in the whys and wherefores, only in semi-grotesque human behaviour, which is abundantly displayed here. We are all snobs, of course, about something, whether it be magazines, books, music, food or people’s postcodes. (There’s a riff on this that I found unconvincing: does anyone really still care about postcodes? It’s been a long time since Evelyn Waugh schlepped to a postbox in Hampstead from Golders Green so that his letters bore the postmarkNW3.)
My favourite chapter is about ‘snob lingo’. ‘Nothing, in the end, is more important to the snob than language,’ says Taylor, before going on the explain why with startling clarity. I learned CAUC (complete and utter c…), but I didn’t believe him when he says that some people still say NQOCD (not quite our class, dear) to semaphore unsuitability to their children. He also claims that ‘the diehard snob doesn’t have a bath, he “takes his tub”’.
Snobs also contains some pen-portraits of contemporary snobs — film snobs, City snobs and the like. These are hit and miss: some are beady, some make outdated assumptions. They reminded me of Peter York’s and Ann Barr’s slyer and more knowing The Official Sloane Ranger Handbook (1982) and, to a lesser extent, of Jilly Cooper’s Class (1979), but with a greater emphasis on Norfolk. D.J. Taylor has a sneaking admiration for his snobs, and that’s perfectly fine; but I don’t know that he finds them funny enough, or that they really deserve his forensics.
domingo, 11 de dezembro de 2016
Cartuxa de Évora
Na
Cartuxa de Évora, não falta, nem sobra tempo. Os horários estão
definidos, mas a espiritualidade não se rege pelos ponteiros do relógio.
O dia começa por volta das 6h30.
"Estamos em celebração até às 8h00 com missa cantada. Das 9h00 até às 17h00, trabalhamos. Depois cantamos novamente, seguindo-se oração até às 20h30. Dormimos até à meia-noite e a seguir voltamos a cantar até às 3h00 e a partir desta hora até às 6h30, voltamos a dormir", descreve à Renascença o padre Antão Lopez, prior da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli.
"Resumindo: dormimos sete horas em duas vezes".
É a rotina dos monges. O silêncio e a oração caracterizam o dia-a-dia dos cartuxos, recolhidos em celas. Cada uma composta por um oratório, um quarto para dormir, uma divisão para estudar e um quintal onde podem desfrutar da natureza.
Uma vida de simplicidade e rigor, onde é testada a capacidade de passar os dias, apenas na companhia de Deus, o que é cada vez mais raro. "Quando eu digo 'Deus basta' esta frase já não tem a força que tinha antigamente. Não entendem o que significa a palavra 'Deus'. Essa explicação de ser capaz de viver só com Deus é que justifica o estarmos aqui. O problema actual é que a sociedade não prepara para isto. Costumo dizer que há atractivo, mas não há preparação. Há fé, acreditar em Deus, mas a palavra Deus já não significa o que significava antes", sublinha o padre Antão Lopez.
Domingos de convívio
Uma vida de despojamento e rigor consentidos, num convento que aos domingos "veste-se" de convívio. "É dia de comermos juntos, cantamos mais tempo na Igreja e passamos a tarde conversando", conta.
Não é fácil entender a vocação destes homens que comem uma vez por dia e passam as sextas-feiras a pão e água. Há tarefas a executar diariamente, sempre entre o resguardo, o silêncio e a comunhão com Deus.
A própria comida chega às celas através de uma pequena porta que não permite o contacto visual. Apesar da aparente rigidez, os monges não estão alheados do mundo e recorrem à imprensa escrita para se actualizarem, depois de uma rigorosa selecção noticiosa.
"Os jornais, por exemplo, dedicam muitas páginas à economia. Nós seleccionamos apenas a temática que nos interessa e fazemo-las passar por todas as celas. Dedicamos parte da tarde de convívio (domingo) a comentá-las". Quanto à internet serve apenas para visionar o correio electrónico.
Os monges dispõem de uma imensa biblioteca, um espaço com obras de valor incalculável das mais antigas às mais actuais. A leitura é sempre feita nas celas.
Encontrar a felicidade? É como o parafuso e a porca
"Estou em paz e tranquilo dentro de mim. Não tenho, inquietações. Nada me perturba. O silêncio depende mais de nós próprios do que dos outros. E muitas vezes estamos tão recolhidos que passa um avião ou toca o relógio e não ouvimos", assegura o padre Antão.
Eremitas dentro de um convento e uma forma de vida que confunde muitos. Mas para os monges é como tocar o "Alto" já na terra.
"Ser feliz consiste em ser aquilo para que estamos preparados para ser. É como o parafuso e a porca. Podem ser muito diferentes, mas cada um encontra a sua. Então, a felicidade consiste nisso: encontrar o seu sítio, encontrar a sua vocação", conta-nos o prior.
Mas há mais: fidelidade a Deus, a si próprio e muita perseverança. "Eu digo que o infeliz não persevera. Nós, aqui, somos felizes e estamos cá por isso. Esta é a maior felicidade: ser capaz de ser eu próprio".
A fundação assegura a manutenção e conservação do mosteiro enquanto património espiritual, artístico, histórico e cultural único em Portugal.
"Estamos em celebração até às 8h00 com missa cantada. Das 9h00 até às 17h00, trabalhamos. Depois cantamos novamente, seguindo-se oração até às 20h30. Dormimos até à meia-noite e a seguir voltamos a cantar até às 3h00 e a partir desta hora até às 6h30, voltamos a dormir", descreve à Renascença o padre Antão Lopez, prior da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli.
"Resumindo: dormimos sete horas em duas vezes".
É a rotina dos monges. O silêncio e a oração caracterizam o dia-a-dia dos cartuxos, recolhidos em celas. Cada uma composta por um oratório, um quarto para dormir, uma divisão para estudar e um quintal onde podem desfrutar da natureza.
Uma vida de simplicidade e rigor, onde é testada a capacidade de passar os dias, apenas na companhia de Deus, o que é cada vez mais raro. "Quando eu digo 'Deus basta' esta frase já não tem a força que tinha antigamente. Não entendem o que significa a palavra 'Deus'. Essa explicação de ser capaz de viver só com Deus é que justifica o estarmos aqui. O problema actual é que a sociedade não prepara para isto. Costumo dizer que há atractivo, mas não há preparação. Há fé, acreditar em Deus, mas a palavra Deus já não significa o que significava antes", sublinha o padre Antão Lopez.
Domingos de convívio
Uma vida de despojamento e rigor consentidos, num convento que aos domingos "veste-se" de convívio. "É dia de comermos juntos, cantamos mais tempo na Igreja e passamos a tarde conversando", conta.
Não é fácil entender a vocação destes homens que comem uma vez por dia e passam as sextas-feiras a pão e água. Há tarefas a executar diariamente, sempre entre o resguardo, o silêncio e a comunhão com Deus.
A própria comida chega às celas através de uma pequena porta que não permite o contacto visual. Apesar da aparente rigidez, os monges não estão alheados do mundo e recorrem à imprensa escrita para se actualizarem, depois de uma rigorosa selecção noticiosa.
"Os jornais, por exemplo, dedicam muitas páginas à economia. Nós seleccionamos apenas a temática que nos interessa e fazemo-las passar por todas as celas. Dedicamos parte da tarde de convívio (domingo) a comentá-las". Quanto à internet serve apenas para visionar o correio electrónico.
Os monges dispõem de uma imensa biblioteca, um espaço com obras de valor incalculável das mais antigas às mais actuais. A leitura é sempre feita nas celas.
Encontrar a felicidade? É como o parafuso e a porca
"Estou em paz e tranquilo dentro de mim. Não tenho, inquietações. Nada me perturba. O silêncio depende mais de nós próprios do que dos outros. E muitas vezes estamos tão recolhidos que passa um avião ou toca o relógio e não ouvimos", assegura o padre Antão.
Eremitas dentro de um convento e uma forma de vida que confunde muitos. Mas para os monges é como tocar o "Alto" já na terra.
"Ser feliz consiste em ser aquilo para que estamos preparados para ser. É como o parafuso e a porca. Podem ser muito diferentes, mas cada um encontra a sua. Então, a felicidade consiste nisso: encontrar o seu sítio, encontrar a sua vocação", conta-nos o prior.
Mas há mais: fidelidade a Deus, a si próprio e muita perseverança. "Eu digo que o infeliz não persevera. Nós, aqui, somos felizes e estamos cá por isso. Esta é a maior felicidade: ser capaz de ser eu próprio".
A fundação assegura a manutenção e conservação do mosteiro enquanto património espiritual, artístico, histórico e cultural único em Portugal.
Mas a vida é uma coisa imensa
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta branca onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta branca onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.
Miguel Torga, in "Diário (1941)"
hope
Pois eu também acho, mas precisamos de uma candeia...dão-se alvíssaras a quem a encontrar depressa, enquanto há tempo!
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
O BARBAS
O BARBAS
Hoje deu-me para estar reflexivo.
Neste meu incidente recente em que fiquei com o lóbulo da orelha rasgado, bem como de um corte profundo na cara, tudo isto já cosido e descosido e em franca normalidade, resta como vestígio uma barba que nunca tive.
Quando me olho ao espelho para tratar das cicatrizes, estranho-me e revejo a minha debilidade. Eu explico: meço 1,90m e estou forte e entroncado. Portanto uma massa corporal significativa....ahah
Hoje deu-me para estar reflexivo.
Neste meu incidente recente em que fiquei com o lóbulo da orelha rasgado, bem como de um corte profundo na cara, tudo isto já cosido e descosido e em franca normalidade, resta como vestígio uma barba que nunca tive.
Quando me olho ao espelho para tratar das cicatrizes, estranho-me e revejo a minha debilidade. Eu explico: meço 1,90m e estou forte e entroncado. Portanto uma massa corporal significativa....ahah
Quando, suspeito, depois de ter perdido e recobrado os sentidos na
escuridão do meu quarto de cama, dei comigo desamparado, perdido, com
dores enormes e quando abri a luz, a sangrar abundantemente, fiquei
perplexo!
E é, não tanto nestas consequências já ultrapassadas, mas na minha sensação de impotência e de impossibilidade de antecipação para evitar, que vislumbro a ideia da morte.
Deve ser esta inevitabilidade de uma derrota depois de uma luta mais ou menos consciente ( hospitais, tratamentos, ciência, assistência médica e medicamentosa) versus o que me aconteceu, perfeitamente imponderado, que configurará a rendição sem condições.
Foi essa a visão que tive, não a da morte, mas a de nada poder fazer, no momento do acontecimento: ultrapassou a minha vontade e decisão.
Com esta vida danada em que andamos, é um azar se, podendo ir paulatinamente arrumando os cadinhos nas prateleiras da nossa vida, deixarmos como que uma cozinha num nojo ou um laboratório desarrumado.
Nestas coisas de boas intenções, dizem que está o inferno cheio, mas já agora vale a pena tentar dar um arrumo.
Até para quem fica!
E é, não tanto nestas consequências já ultrapassadas, mas na minha sensação de impotência e de impossibilidade de antecipação para evitar, que vislumbro a ideia da morte.
Deve ser esta inevitabilidade de uma derrota depois de uma luta mais ou menos consciente ( hospitais, tratamentos, ciência, assistência médica e medicamentosa) versus o que me aconteceu, perfeitamente imponderado, que configurará a rendição sem condições.
Foi essa a visão que tive, não a da morte, mas a de nada poder fazer, no momento do acontecimento: ultrapassou a minha vontade e decisão.
Com esta vida danada em que andamos, é um azar se, podendo ir paulatinamente arrumando os cadinhos nas prateleiras da nossa vida, deixarmos como que uma cozinha num nojo ou um laboratório desarrumado.
Nestas coisas de boas intenções, dizem que está o inferno cheio, mas já agora vale a pena tentar dar um arrumo.
Até para quem fica!
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
A PARÓQUIA DA MINHA INFÂNCIA - S.MAMEDE
A PARÓQUIA DA MINHA INFÂNCIA - S.MAMEDE
Hoje fui à missa a S. Mamede, paróquia da minha infância, adolescência e juventude. Às 18h30m celebra aos Domingos e dias Santos o Pe.Tolentino. A igreja estava cheia de meus conhecidos e amigos.
Durante a celebração voei até uns bons anos atrás e vi-me com a minha família toda viva e florescente, na missa aos Domingos aonde acompanhávamos os meus Pais, Avós e Bisavós e de todos os "paroquianos" com quem confraternizávamos à saída da missa, ficando no adro demoradamente em alegre cavaqueira.
Tudo gente, ao nível da geração de cima, parentes e amigos íntimos dos
meus Pais e Avós e de cujos filhos e netos fiquei amigo para o resto da
vida, estando com uns mais do que outros e, no entanto, basta estarmos
juntos em jantares, anos, enterros para, ao nos falarmos, ser como se
continuasse tudo em vírgula, com uma pausa de anos.
Tive um aperto no coração, pois vi desfilarem tantos momentos da minha vida, aperto esse de saudades.
O Pe.Tolentino, com a magia e profundidade das suas palavras escorreitas e directas, situou-me no tempo.
Tive um aperto no coração, pois vi desfilarem tantos momentos da minha vida, aperto esse de saudades.
O Pe.Tolentino, com a magia e profundidade das suas palavras escorreitas e directas, situou-me no tempo.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
CALISTA e ENGRAXADOR
CALISTA e ENGRAXADOR
Gosto muito dos programas típicos de Lisboa: fui a um calista dos antigos, para os lados do Martim Moniz ( que a bem dizer me disse que tinha tido como Clientes bastantes dos inspectores da PIDE conhecidos, e tendo-lhe perguntado se tinha igualmente tido algum democrata me disse que não sabia o que era...ahahah) e a seguir fui ao Rossio engraxar uns Alden que comprei em NY, bordóns...ahahah, muito bonitos. O engraxador é um personagem e depois um dia destes vos contarei as aventuras.
O Rossio é um mundo igual ao que deveriam ser estes sítios típicos de Lisboa com tão variegada gente, no século XVI.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
O maldito casaco na cadeira do jantar de gala
O PROTOCOLO DE ESTADO, A IGNORÂNCIA E A CANALHA
Tenho visto por aqui e por ali, as gaffes da gente do Governo e de outras instituições oficiais.
1. São mal-criados. Ponto. Não tiveram educação em casa, para as mais básicas coisas, seja com Reis ou Presidentes ou com o rato mickey;
2. Se continuarem em funções oficiais, ganha o País e ganham eles, aprenderem como fazer, com humildade e interesse como todos nós aprendemos tanta coisa todos os dias;
3. Precisam quem os saiba ensinar mas de forma correcta e não com invenções ou modernices protocolares do tipo simplex;
4. Just an idea...porque não o Protocolo do Estado fazer uma pequena brochura, simples e clara, com as regras protocolares para as diferentes cerimónias ( seja com do's/ don't ou só com os do's) e distribuírem por cada chefe-de-gabinete ou equivalente, que terá a obrigação de a cada vez lembrar ou entregar uma cópia ao seu superior hirárquico).
Evitaria assim o nervosismo, excitex e fru-fru de saias e casacos mal placés...ahahah
O resto da gente que se recusa a cumprir é canalha..é para ignorar e nem ser convidada.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
O PENINHA E A VISITA DOS REIS DE ESPANHA AO PORTO
O Peninha comprara uma vez em Badajoz, uma capa à espanhola com alamares, que lhe tinha custado uma fortuna. Um dia haveria de servir, dizia sempre!
E eis senão quando lê nos jornais que os Reis de Espanha visitavam oficialmente Portugal, começando pelo Porto. Ainda tinha para lá a prima Indalécia que morava na Ribeira numa casa modesta mas que valia um fortunão. Estava na moda a zona e já tinham oferecido bastas centenas de milhares de euros pelo espaço, mas a prima não saía dali senão morta.
O Peninha escreveu-lhe, com muitas mesuras e louvaminhices, perguntando-lhe se poderia ir pernoitar na sua casa, por uns dois dias. A razão que tinha alegado era a de que tentaria aproximar-se de Suas Majestades e deixar-se fotografar em conjunto. Prometeu à prima Indalécia que se tudo corresse bem ainda lhe arranjava uma cópia da fotografia. Sempre seria uma honra que poderia partilhar na vizinhança.
O diabo é que a prima era republicana dos sete costados e os avós operários tinham sido fervorosos participantes na implantação da república. Mas como não via Peninha há muito tempo, assentiu com bonomia. Morava sozinha, já ia nos 80 e tinha amealhado uns cobres, nada lhe restava já de muito extraordinário para fazer, pelo que sempre era uma companhia do parente da capital.
O Peninha ficou encantado, e na véspera da partida, preparou com cuidado o que levaria na mala para o Porto. Para ser mais barato, ia numa camioneta da carreira, mas como hoje em dia já vão pela auto-estrada, levam cerca de 4 horas. Sempre dormia!
Abriu a mala, e começou a por num dos lados, uns slips de seda que tinha comprado no chinês, um par de meias com listas das cores da bandeira de Espanha, uma camisa de folhos (lembrou-se de touradas e de sevilhanas) e num saco de veludo pequeno levava um recuerdo de Toledo, um género de um colar com o brasão da cidade em bronze pendente que achou que ficava bem por cima dos folhos da camisa (sempre sonhou que um dia teria um colar de mérito como via o seu querido Presidente Marcelo dar aos mergulhadores nacionais – ele não era menos, caramba!)! Os botões de punho para a camisa seriam de metal doirado e esmalte com uma réplica mais pequena do galo de Barcelos da Joana Vasconcelos ( o disparate do tamanho da obra exposta junto ao Tejo, o que diriam Suas Majestades?). No fundo era português, era preciso demonstrá-lo com orgulho.
Hesitou se devia usar um bolero em tafetá preto, com a frente cavada fazendo ressaltar os folhos, mas como no Porto está frio, tendo decidido levar a capa à espanhola que era forrada a lã, iria sem nada por cima da camisa. Como calças levava umas presas ao joelho, para deixar ver bem as meias coloridas e de riscas.
Tinha comprado no chinês um perfume de uma marca conhecida, mas falsa, que ele próprio achou que deitava um pivete medonho…era de muito má qualidade, mas paciência, era o que tinha.
Na cabeça levaria uma boina do país basco, com as armas reais presas num alfinete. Daria sainete.
Finalmente, como botas tinha encontrado umas com que fizera a recruta: estavam cambadas e em mau estado, mas ninguém, no meio da multidão iria reparar e olhar para os pés. Deixou-as no sapateiro para ele as engraxar e o raio do homem, levou-lhe € 4.00, mas brilhavam…lembrou-se de uma frase fascista : - cara al sol, mas com os diabos a Espanha era democrática!
O Peninha achava-se monárquico pelo gosto do brilho dos Reis e da Nobreza, fossem eles de que país fossem, das capelines (tinha aprendido numa revista espanhola que ele comprava religiosamente todas as semanas – a iola – ) e sabia o que eram escarpins e zibelinas, e boás, que nada tinham a ver com as boasonas que lá vinham, e das luvas de pelica e até das carteiras do Loéve…era um nome do catano para dizer, mas em Portugal o seu monarca era o Presidente Marcelo. O jeito que ele tinha para se dar ao povo, como os reis devem ser como uns pais para a plebe, esperto, bem vestido, inteligente, com humor, sabendo o que dizer…não tinha comparação. Depois ouvira dizer que um fadista era o pretendente! Achava isso muito reles, agora depois no palácio real o rei por-se a dedilhar uma guitarra…ainda podia aparecer a Severa e era um escândalo.
Chegou ao Porto no Domingo pelas 7 horas da tarde, foi directo para casa da prima Indalécia, que o recebeu de braços abertos. – Ó filho, quem te viu pequeno e agora estás um homem! E muitos beijos e abraços. Que entrasse que lhe tinha preparado umas tripas pois estava frio. Esta moda das francesinhas, não era com ela.
Peninha, que era pouco dado às coisas do Porto, disse logo que preferia as portuguesas às francesas! A prima Indalécia achou muita pilhéria e riu-se a valer.
Ficaram à conversa até tarde, mas Peninha vinha cansado da viagem e queria dormir pois no dia seguinte, era dia de festa e queria ir impecável.
Levantou-se cedo, veio tomar o café-da-manhã e deu dois dedos de conversa à prima Indalécia, sempre era o mínimo. Na véspera tinha-lhe contado do traje que iria levar e a prima, mulher experimentada e já com o rabo pelado, achou que era inapropriado e tentou dizer-lhe de mansinho…mas ele nem deu por isso.
Tomou um rico banho, perfumou-se e manteve a barba de dois dias (sempre levava a boina basca, com o raio), e começou a vestir-se com volúpia. A cada peça de roupa mirava-se ao espelho. As cuecas de seda beije moldavam-se ao sexo e suportavam-no com comodidade, a camisa dos folhos fora passada a ferro com goma e estava entufada. Vestiu as meias listadas com as cores reais de Espanha, depois as calças que apertavam nos joelhos, calçou as botas que pareciam um espelho de engraxadas que estavam, pôs o colar de Toledo ao peito, e depois de pôr a boina às três pancadas, rodopiou e pôs a capa sobre os ombros.
Inchou de orgulho e desceu. A prima Indalécia, de olhar pasmado, só dizia – valha-te Deus, Peninha, valha-te Deus! Peninha tomou como um elogio de êxtase e saiu porta fora, não sem antes ter pedido à prima que lhe emprestasse um alho-porro do São João ( destes de plástico verde-alface) pois tinha a ideia que quando chegasse ao pé dos Reis de Espanha, se fosse bem recebido, seria engraçado dar com ele na cabeça da Rainha ( o Rei é muito alto, e a Rainha sempre foi do povo, havia de perceber).
Tomou um ónibus para os Aliados e reparou que toda a gente o mirava: pensou inbejosos! (que eles dizem os “v” pelos "b”) e não ligou, mas o próprio motorista lhe perguntou para aonde ia assim bestido. Que ia esperar os Reis de Espanha, respondeu ufano da sua importância.
Mal chegou à Praça, saiu do autocarro e avançou imponente para a cerca de metal que protegia da zona oficial, o povoléu assistente.
Já lá estava muita gente e por isso foi a custo que se foi chegando para a frente. Ouvia uns risinhos que o incomodavam e um grupo de mitras, começou a insultá-lo. Não ligou e ficou expectante que Suas Majestades chegassem.
Entretanto, apareceu a polícia e as demais autoridades e havia uma apertada segurança por causa dos atentados. Ouvira dizer que, mesmo entre a multidão, estariam agentes da polícia secreta, disfarçados e à paisana.
De repente, sentiu-se segurado pelos braços e quando olhou, dois matulões fortes e grandes, sem serem fardados, afastaram-no do sítio aonde estava e perante o ar atónito da multidão, empurraram-no para o chão.
- Porco basco, un atentado, verdad? – disseram-lhe em espanhol e quando Peninha, se propunha responder, apalparam-no todo, encontraram o alho-porro, arrancaram a boina e despiram-lhe a capa.
Contra uma parede de braços levantados e de camisa branca, ouvia a multidão gritar: - al paredón, al paredón!
Foi levado para os calabouços da polícia municipal, atirado para uma cela, e quando só mais tarde conseguiu tudo explicar, Sua Majestades já tinham partido para Lisboa!
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