segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

We’re all snobs — however much we deny it


D.J. Taylor’s clever dissection of snobs is really two books in one. Scattered throughout are entertaining, delicious (initially), solemnly related nuggets of hardcore snobbery. He writes brilliantly, for example, about the diarist and National Trust employee James Lees-Milne, who liked a world that knew its place (ideally beneath him). Lees-Milne was steeped so far in snobbery that he couldn’t bear the vulgarity of calling a garage a garage and so called his the ‘motor-house’.
Either the absurdity of this makes you snort with laughter or it doesn’t. It does me, though I have to say the cumulative effect of a zillion snobberies is nauseating. You find yourself thinking, ‘My God, these terrible people’ on every other page. It works in both directions, kind of. Snobs is peppered with examples of reverse snobbery. My favourite is the singer Paul Weller moaning about an album being rejected by the record label:
I’m not used to people talking to me like that. Not because I think I’m Mr Superstar but because I’m not fucking having it. Basically, because I’m from Woking and I don’t give a fuck, d’you know what I mean?
All too well, mate.

Lees-Milne is compared to the Labour MP Dennis Skinner who, despite being encouraged to do so by teachers, refused to go to university because he didn’t want to be disloyal to his mining background. I’m not convinced that this is in any way equivalent to straightforward snobbery: there is a pure nobility in Skinner’s choice that is wholly absent in Lees-Milne’s creepy and obsessive stalking of dukes, or in his almost ejaculatory delight at being among aristocrats. Taylor is clearly aware of this, but he might make more of it. East Midlands working men’s clubs in the 1970s may have been hostile to the idea of admitting women, but comparing the policy to that of White’s or Brooks’s is disingenuous.
Snobs is also a historical and literary study of British snobbery, the idea being that we are all snobs in some way and that all of us are class-obsessed:
Snobbery, it might reasonably be argued, is a key to our national life, as vital to the backstreet family on benefits as to the proprietor of the grandest stately home, an essential element in our view of who we are and what the world might be thought to owe us.
However, Taylor notes, modern snobbery is ‘frequently hidden from public view’: for every ostentatious Porsche on a suburban street (unsnobbish, I would say: to do with pulling rank, surely, which isn’t at all the same thing), ‘the majority of snobs pursue their craft by stealth’. It is ‘a matter of closed circles as such; it frequently declares itself to be a matter of tone’. This is exactly right; and it’s why it’s so difficult to write well about snobbery, which is to do with microscopic, imperceptible, fairly deranged nuances. I do think Taylor sometimes conflates snobbery and conspicuous consumption, but that doesn’t really matter: he goes a long way to unravelling this knottiest of subjects and dances along the crevasses of class without falling right in.
I found the historical bits slightly boring, but that’s because my only two responses to the snobberies he describes are hilarity or anger: I am not interested enough in the whys and wherefores, only in semi-grotesque human behaviour, which is abundantly displayed here. We are all snobs, of course, about something, whether it be magazines, books, music, food or people’s postcodes. (There’s a riff on this that I found unconvincing: does anyone really still care about postcodes? It’s been a long time since Evelyn Waugh schlepped to a postbox in Hampstead from Golders Green so that his letters bore the postmarkNW3.)
My favourite chapter is about ‘snob lingo’. ‘Nothing, in the end, is more important to the snob than language,’ says Taylor, before going on the explain why with startling clarity. I learned CAUC (complete and utter c…), but I didn’t believe him when he says that some people still say NQOCD (not quite our class, dear) to semaphore unsuitability to their children. He also claims that ‘the diehard snob doesn’t have a bath, he “takes his tub”’.
Snobs also contains some pen-portraits of contemporary snobs — film snobs, City snobs and the like. These are hit and miss: some are beady, some make outdated assumptions. They reminded me of Peter York’s and Ann Barr’s slyer and more knowing The Official Sloane Ranger Handbook (1982) and, to a lesser extent, of Jilly Cooper’s Class (1979), but with a greater emphasis on Norfolk. D.J. Taylor has a sneaking admiration for his snobs, and that’s perfectly fine; but I don’t know that he finds them funny enough, or that they really deserve his forensics.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Cartuxa de Évora

Na Cartuxa de Évora, não falta, nem sobra tempo. Os horários estão definidos, mas a espiritualidade não se rege pelos ponteiros do relógio. O dia começa por volta das 6h30.

"Estamos em celebração até às 8h00 com missa cantada. Das 9h00 até às 17h00, trabalhamos. Depois cantamos novamente, seguindo-se oração até às 20h30. Dormimos até à meia-noite e a seguir voltamos a cantar até às 3h00 e a partir desta hora até às 6h30, voltamos a dormir", descreve à Renascença o padre Antão Lopez, prior da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli.

"Resumindo: dormimos sete horas em duas vezes".

É a rotina dos monges. O silêncio e a oração caracterizam o dia-a-dia dos cartuxos, recolhidos em celas. Cada uma composta por um oratório, um quarto para dormir, uma divisão para estudar e um quintal onde podem desfrutar da natureza.

Uma vida de simplicidade e rigor, onde é testada a capacidade de passar os dias, apenas na companhia de Deus, o que é cada vez mais raro. "Quando eu digo 'Deus basta' esta frase já não tem a força que tinha antigamente. Não entendem o que significa a palavra 'Deus'. Essa explicação de ser capaz de viver só com Deus é que justifica o estarmos aqui. O problema actual é que a sociedade não prepara para isto. Costumo dizer que há atractivo, mas não há preparação. Há fé, acreditar em Deus, mas a palavra Deus já não significa o que significava antes", sublinha o padre Antão Lopez.

Domingos de convívio


Uma vida de despojamento e rigor consentidos, num convento que aos domingos "veste-se" de convívio. "É dia de comermos juntos, cantamos mais tempo na Igreja e passamos a tarde conversando", conta.

Não é fácil entender a vocação destes homens que comem uma vez por dia e passam as sextas-feiras a pão e água. Há tarefas a executar diariamente, sempre entre o resguardo, o silêncio e a comunhão com Deus.

A própria comida chega às celas através de uma pequena porta que não permite o contacto visual. Apesar da aparente rigidez, os monges não estão alheados do mundo e recorrem à imprensa escrita para se actualizarem, depois de uma rigorosa selecção noticiosa.

"Os jornais, por exemplo, dedicam muitas páginas à economia. Nós seleccionamos apenas a temática que nos interessa e fazemo-las passar por todas as celas. Dedicamos parte da tarde de convívio (domingo) a comentá-las". Quanto à internet serve apenas para visionar o correio electrónico.

Os monges dispõem de uma imensa biblioteca, um espaço com obras de valor incalculável das mais antigas às mais actuais. A leitura é sempre feita nas celas.

Encontrar a felicidade? É como o parafuso e a porca
"Estou em paz e tranquilo dentro de mim. Não tenho, inquietações. Nada me perturba. O silêncio depende mais de nós próprios do que dos outros. E muitas vezes estamos tão recolhidos que passa um avião ou toca o relógio e não ouvimos", assegura o padre Antão.

Eremitas dentro de um convento e uma forma de vida que confunde muitos. Mas para os monges é como tocar o "Alto" já na terra.

"Ser feliz consiste em ser aquilo para que estamos preparados para ser. É como o parafuso e a porca. Podem ser muito diferentes, mas cada um encontra a sua. Então, a felicidade consiste nisso: encontrar o seu sítio, encontrar a sua vocação", conta-nos o prior.

Mas há mais: fidelidade a Deus, a si próprio e muita perseverança. "Eu digo que o infeliz não persevera. Nós, aqui, somos felizes e estamos cá por isso. Esta é a maior felicidade: ser capaz de ser eu próprio".

A fundação assegura a manutenção e conservação do mosteiro enquanto património espiritual, artístico, histórico e cultural único em Portugal.

Vassourada


Mas a vida é uma coisa imensa

Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.

A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta branca onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.

Miguel Torga, in "Diário (1941)"

hope


Pois eu também acho, mas precisamos de uma candeia...dão-se alvíssaras a quem a encontrar depressa, enquanto há tempo!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O BARBAS

O BARBAS

Hoje deu-me para estar reflexivo.

Neste meu incidente recente em que fiquei com o lóbulo da orelha rasgado, bem como de um corte profundo na cara, tudo isto já cosido e descosido e em franca normalidade, resta como vestígio uma barba que nunca tive.

Quando me olho ao espelho para tratar das cicatrizes, estranho-me e revejo a minha debilidade. Eu explico: meço 1,90m e estou forte e entroncado. Portanto uma massa corporal significativa....ahah

Quando, suspeito, depois de ter perdido e recobrado os sentidos na escuridão do meu quarto de cama, dei comigo desamparado, perdido, com dores enormes e quando abri a luz, a sangrar abundantemente, fiquei perplexo!

E é, não tanto nestas consequências já ultrapassadas, mas na minha sensação de impotência e de impossibilidade de antecipação para evitar, que vislumbro a ideia da morte.

Deve ser esta inevitabilidade de uma derrota depois de uma luta mais ou menos consciente ( hospitais, tratamentos, ciência, assistência médica e medicamentosa) versus o que me aconteceu, perfeitamente imponderado, que configurará a rendição sem condições.

Foi essa a visão que tive, não a da morte, mas a de nada poder fazer, no momento do acontecimento: ultrapassou a minha vontade e decisão.

Com esta vida danada em que andamos, é um azar se, podendo ir paulatinamente arrumando os cadinhos nas prateleiras da nossa vida, deixarmos como que uma cozinha num nojo ou um laboratório desarrumado.

Nestas coisas de boas intenções, dizem que está o inferno cheio, mas já agora vale a pena tentar dar um arrumo.

Até para quem fica!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A PARÓQUIA DA MINHA INFÂNCIA - S.MAMEDE


A PARÓQUIA DA MINHA INFÂNCIA - S.MAMEDE

Hoje fui à missa a S. Mamede, paróquia da minha infância, adolescência e juventude. Às 18h30m celebra aos Domingos e dias Santos o Pe.Tolentino. A igreja estava cheia de meus conhecidos e amigos.
Durante a celebração voei até uns bons anos atrás e vi-me com a minha família toda viva e florescente, na missa aos Domingos aonde acompanhávamos os meus Pais, Avós e Bisavós e de todos os "paroquianos" com quem confraternizávamos à saída da missa, ficando no adro demoradamente em alegre cavaqueira.
Tudo gente, ao nível da geração de cima, parentes e amigos íntimos dos meus Pais e Avós e de cujos filhos e netos fiquei amigo para o resto da vida, estando com uns mais do que outros e, no entanto, basta estarmos juntos em jantares, anos, enterros para, ao nos falarmos, ser como se continuasse tudo em vírgula, com uma pausa de anos.
Tive um aperto no coração, pois vi desfilarem tantos momentos da minha vida, aperto esse de saudades.
O Pe.Tolentino, com a magia e profundidade das suas palavras escorreitas e directas, situou-me no tempo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

CALISTA e ENGRAXADOR


CALISTA e ENGRAXADOR

Gosto muito dos programas típicos de Lisboa: fui a um calista dos antigos, para os lados do Martim Moniz ( que a bem dizer me disse que tinha tido como Clientes bastantes dos inspectores da PIDE conhecidos, e tendo-lhe perguntado se tinha igualmente tido algum democrata me disse que não sabia o que era...ahahah) e a seguir fui ao Rossio engraxar uns Alden que comprei em NY, bordóns...ahahah, muito bonitos. O engraxador é um personagem e depois um dia destes vos contarei as aventuras.

O Rossio é um mundo igual ao que deveriam ser estes sítios típicos de Lisboa com tão variegada gente, no século XVI.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O maldito casaco na cadeira do jantar de gala



O PROTOCOLO DE ESTADO, A IGNORÂNCIA E A CANALHA

Tenho visto por aqui e por ali, as gaffes da gente do Governo e de outras instituições oficiais.

1. São mal-criados. Ponto. Não tiveram educação em casa, para as mais básicas coisas, seja com Reis ou Presidentes ou com o rato mickey;


2. Se continuarem em funções oficiais, ganha o País e ganham eles, aprenderem como fazer, com humildade e interesse como todos nós aprendemos tanta coisa todos os dias;

3. Precisam quem os saiba ensinar mas de forma correcta e não com invenções ou modernices protocolares do tipo simplex;

4. Just an idea...porque não o Protocolo do Estado fazer uma pequena brochura, simples e clara, com as regras protocolares para as diferentes cerimónias ( seja com do's/ don't ou só com os do's) e distribuírem por cada chefe-de-gabinete ou equivalente, que terá a obrigação de a cada vez lembrar ou entregar uma cópia ao seu superior hirárquico).

Evitaria assim o nervosismo, excitex e fru-fru de saias e casacos mal placés...ahahah

O resto da gente que se recusa a cumprir é canalha..é para ignorar e nem ser convidada.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O PENINHA E A VISITA DOS REIS DE ESPANHA AO PORTO





O Peninha comprara uma vez em Badajoz, uma capa à espanhola com alamares, que lhe tinha custado uma fortuna. Um dia haveria de servir, dizia sempre!

E eis senão quando lê nos jornais que os Reis de Espanha visitavam oficialmente Portugal, começando pelo Porto. Ainda tinha para lá a prima Indalécia que morava na Ribeira numa casa modesta mas que valia um fortunão. Estava na moda a zona e já tinham oferecido bastas centenas de milhares de euros pelo espaço, mas a prima não saía dali senão morta.

O Peninha escreveu-lhe, com muitas mesuras e louvaminhices, perguntando-lhe se poderia ir pernoitar na sua casa, por uns dois dias. A razão que tinha alegado era a de que tentaria aproximar-se de Suas Majestades e deixar-se fotografar em conjunto. Prometeu à prima Indalécia que se tudo corresse bem ainda lhe arranjava uma cópia da fotografia. Sempre seria uma honra que poderia partilhar na vizinhança.

O diabo é que a prima era republicana dos sete costados e os avós operários tinham sido fervorosos participantes na implantação da república. Mas como não via Peninha há muito tempo, assentiu com bonomia. Morava sozinha, já ia nos 80 e tinha amealhado uns cobres, nada lhe restava já de muito extraordinário para fazer, pelo que sempre era uma companhia do parente da capital.

O Peninha ficou encantado, e na véspera da partida, preparou com cuidado o que levaria na mala para o Porto. Para ser mais barato, ia numa camioneta da carreira, mas como hoje em dia já vão pela auto-estrada, levam cerca de 4 horas. Sempre dormia!

Abriu a mala, e começou a por num dos lados, uns slips de seda que tinha comprado no chinês, um par de meias com listas das cores da bandeira de Espanha, uma camisa de folhos (lembrou-se de touradas e de sevilhanas) e num saco de veludo pequeno levava um recuerdo de Toledo, um género de um colar com o brasão da cidade em bronze pendente que achou que ficava bem por cima dos folhos da camisa (sempre sonhou que um dia teria um colar de mérito como via o seu querido Presidente Marcelo dar aos mergulhadores nacionais – ele não era menos, caramba!)! Os botões de punho para a camisa seriam de metal doirado e esmalte com uma réplica mais pequena do galo de Barcelos da Joana Vasconcelos ( o disparate do tamanho da obra exposta junto ao Tejo, o que diriam Suas Majestades?). No fundo era português, era preciso demonstrá-lo com orgulho.

Hesitou se devia usar um bolero em tafetá preto, com a frente cavada fazendo ressaltar os folhos, mas como no Porto está frio, tendo decidido levar a capa à espanhola que era forrada a lã, iria sem nada por cima da camisa. Como calças levava umas presas ao joelho, para deixar ver bem as meias coloridas e de riscas.

Tinha comprado no chinês um perfume de uma marca conhecida, mas falsa, que ele próprio achou que deitava um pivete medonho…era de muito má qualidade, mas paciência, era o que tinha.

Na cabeça levaria uma boina do país basco, com as armas reais presas num alfinete. Daria sainete.

Finalmente, como botas tinha encontrado umas com que fizera a recruta: estavam cambadas e em mau estado, mas ninguém, no meio da multidão iria reparar e olhar para os pés. Deixou-as no sapateiro para ele as engraxar e o raio do homem, levou-lhe € 4.00, mas brilhavam…lembrou-se de uma frase fascista : - cara al sol, mas com os diabos a Espanha era democrática!

O Peninha achava-se monárquico pelo gosto do brilho dos Reis e da Nobreza, fossem eles de que país fossem, das capelines (tinha aprendido numa revista espanhola que ele comprava religiosamente todas as semanas – a iola – ) e sabia o que eram escarpins e zibelinas, e boás, que nada tinham a ver com as boasonas que lá vinham, e das luvas de pelica e até das carteiras do Loéve…era um nome do catano para dizer, mas em Portugal o seu monarca era o Presidente Marcelo. O jeito que ele tinha para se dar ao povo, como os reis devem ser como uns pais para a plebe, esperto, bem vestido, inteligente, com humor, sabendo o que dizer…não tinha comparação. Depois ouvira dizer que um fadista era o pretendente! Achava isso muito reles, agora depois no palácio real o rei por-se a dedilhar uma guitarra…ainda podia aparecer a Severa e era um escândalo.

Chegou ao Porto no Domingo pelas 7 horas da tarde, foi directo para casa da prima Indalécia, que o recebeu de braços abertos. – Ó filho, quem te viu pequeno e agora estás um homem! E muitos beijos e abraços. Que entrasse que lhe tinha preparado umas tripas pois estava frio. Esta moda das francesinhas, não era com ela.

Peninha, que era pouco dado às coisas do Porto, disse logo que preferia as portuguesas às francesas! A prima Indalécia achou muita pilhéria e riu-se a valer.

Ficaram à conversa até tarde, mas Peninha vinha cansado da viagem e queria dormir pois no dia seguinte, era dia de festa e queria ir impecável.

Levantou-se cedo, veio tomar o café-da-manhã e deu dois dedos de conversa à prima Indalécia, sempre era o mínimo. Na véspera tinha-lhe contado do traje que iria levar e a prima, mulher experimentada e já com o rabo pelado, achou que era inapropriado e tentou dizer-lhe de mansinho…mas ele nem deu por isso.

Tomou um rico banho, perfumou-se e manteve a barba de dois dias (sempre levava a boina basca, com o raio), e começou a vestir-se com volúpia. A cada peça de roupa mirava-se ao espelho. As cuecas de seda beije moldavam-se ao sexo e suportavam-no com comodidade, a camisa dos folhos fora passada a ferro com goma e estava entufada. Vestiu as meias listadas com as cores reais de Espanha, depois as calças que apertavam nos joelhos, calçou as botas que pareciam um espelho de engraxadas que estavam, pôs o colar de Toledo ao peito, e depois de pôr a boina às três pancadas, rodopiou e pôs a capa sobre os ombros.

Inchou de orgulho e desceu. A prima Indalécia, de olhar pasmado, só dizia – valha-te Deus, Peninha, valha-te Deus! Peninha tomou como um elogio de êxtase e saiu porta fora, não sem antes ter pedido à prima que lhe emprestasse um alho-porro do São João ( destes de plástico verde-alface) pois tinha a ideia que quando chegasse ao pé dos Reis de Espanha, se fosse bem recebido, seria engraçado dar com ele na cabeça da Rainha ( o Rei é muito alto, e a Rainha sempre foi do povo, havia de perceber).

Tomou um ónibus para os Aliados e reparou que toda a gente o mirava: pensou inbejosos! (que eles dizem os “v” pelos "b”) e não ligou, mas o próprio motorista lhe perguntou para aonde ia assim bestido. Que ia esperar os Reis de Espanha, respondeu ufano da sua importância.

Mal chegou à Praça, saiu do autocarro e avançou imponente para a cerca de metal que protegia da zona oficial, o povoléu assistente.

Já lá estava muita gente e por isso foi a custo que se foi chegando para a frente. Ouvia uns risinhos que o incomodavam e um grupo de mitras, começou a insultá-lo. Não ligou e ficou expectante que Suas Majestades chegassem.

Entretanto, apareceu a polícia e as demais autoridades e havia uma apertada segurança por causa dos atentados. Ouvira dizer que, mesmo entre a multidão, estariam agentes da polícia secreta, disfarçados e à paisana.

De repente, sentiu-se segurado pelos braços e quando olhou, dois matulões fortes e grandes, sem serem fardados, afastaram-no do sítio aonde estava e perante o ar atónito da multidão, empurraram-no para o chão.

- Porco basco, un atentado, verdad? – disseram-lhe em espanhol e quando Peninha, se propunha responder, apalparam-no todo, encontraram o alho-porro, arrancaram a boina e despiram-lhe a capa.

Contra uma parede de braços levantados e de camisa branca, ouvia a multidão gritar: - al paredón, al paredón!

Foi levado para os calabouços da polícia municipal, atirado para uma cela, e quando só mais tarde conseguiu tudo explicar, Sua Majestades já tinham partido para Lisboa!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O SILÊNCIO no facebook sobre temas importantes


O SILÊNCIO no facebook sobre temas importantes.

A maior parte dos meus Amigos /as e dos "amigos/as" do facebook limitam-se a postar graçolas ( eu também, mas sou selectivo) citações de terceiros, pensamentos e bonecos/vídeos.

Raramente para não dizer nunca, se submetem ao escrutínio da opinião dos outros, ao contraditório ou mesmo ao laudatório.

Não quero crer que seja por que não tenham opinião, ou porque são pouco versados nas matérias realmente relevantes para a vida/ Humanidade, ou mesmo ignorantes ou sem saberem como organizar e expressar as suas ideias.

Um comentário apropriado e judicioso é sempre importante pois ajuda a formar melhor a opinião sobre os assuntos em análise. Ninguém é detentor da verdade!

Por outro lado há uma certa cobardia de dar a cara, sujeitando-se a críticas. Se forem inteligentes e válidas não há melhor remédio para se "peaufiner" ou seja aperfeiçoar a visão das coisas.

Há convicções arreigadas, sejam conservadoras ou progressistas, e os campos estagnam e pouco se actualizam pois nem sequer se dispõem a ouvir objectivamente outros argumentos, pois, dizem, não vale a pena.

E uma das vantagens enormes do facebook é esta miríade de gente diversa com todas as luzes e sombras mas que fazem circular informação, opiniões e juízos de valor, uns mais discutíveis do que outros.

Tenho pena que o facebook tenha vindo a perder o seu estatuto de forum livre e universal. Assiste-se ao abandono, cada vez maior, de pessoas inteligentes, interessantes e cultas que aqui encontrei.

Mas é o ritmo da vida dos tempos de hoje!

O PAPA FRANCISCO e a Exortação Apostólica ( Extensão aos sacerdotes - sacramento da Penitência - aborto)


O PAPA FRANCISCO e a Exortação Apostólica ( Extensão aos sacerdotes - sacramento da Penitência - aborto)

1. Sou católico. Não sou mulher e logo a opção de fazer um aborto, não se põe;

2. Como Advogado e com larga experiência de vida internacional no sentido de que contactei com muitas raças, povos com costumes e hábitos diferentes uns dos outros, apercebi-me de que este tema aborto não é nem simples nem claro nas motivações que levam uma mulher a praticá-lo. Variadíssimas razões pessoais, familiares e culturais levam a que infelizmente se tome esta triste decisão;

3. Nunca encontrei nenhuma mulher com ou sem religião escolhida que se lembrasse com alegria e sem remorsos do que fizera;

4. O trauma a que me refiro não é no sentido físico, pois esse também provoca efeitos secundários muito dolorosos e psíquicamente muito complicados. Trata-se da oportunidade falhada do amor que num momento se sentiu quando se soube que se iria ter um filho. Claro que violações, maus-tratos e violência, pobreza, estupidez e inconsciência na falta de protecção, falta de vocação parental, frieza, materialismo, adultério, receio da morte como penalização e tantas outras circunstâncias tornam este tema tão difícil de julgar.....

5. Por isso quando uma mulher católica ( e os ignorantes, os ateus e agnósticos não entendem ter esta decisão uma aplicação localizada) quer, arrependida, receber o sacramento da penitência, com sinceridade e humildade, que gesto melhor e mais bonito é este de ter acesso à semelhança de outros seus irmãos na fé, aos mecanismos que a Igreja põe à disposição dos fiéis?

Por isso mais uma vez este Papa no seguimento do seu Pontificado e da sua Encíclica anterior, demonstrou uma sensibilidade amorosa para com todos os que anseiam pelo regresso à vida na Igreja.

Só pessoas de má-fé e repito, ignorantes, podem criticar esta justíssima actualização canónica, tornando-a mais fácil pois no passado competia aos Bispos, que naturalmente nunca recusavam.

domingo, 20 de novembro de 2016

CUMPLICIDADE EQUIVOCADA


CUMPLICIDADE EQUIVOCADA

Diz a formiga para o elefante no meio do deserto: já viste a poeira que estamos a levantar?
A propósito desta magnífica frase, apeteceu-me pensar alto.

Estive na 6f num jantar de uma Ordem Dinástica com vários Príncipes. Um espanhol e dois dos Príncipes portugueses, entre eles o Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança e a Duquesa.

Lembro-me de em muito novo e há muitos anos atrás ( o pudor de declinar a minha idade, impede-me de revelar há quantos) ter escrito uma carta bem pensada e em profundidade sobre o que queria dizer e ter manifestado ao Senhor Dom Duarte, a minha "allegiance" ou seja fidelidade e desejo de bem servir.

Já nessa altura, começando a conhecer-me, expressei porém duas condições para o cumprimento da minha disponibilidade: o respeito mútuo e a manifestação pela minha parte da verdade do meu sentir, sempre e sem tergiversar.

Sempre me soube por no meu lugar, e por isso qual formiga da magnífica citação supra, nunca o Senhor me ouviu dizer que " estávamos" num plural igualitário a levantar a mesma "poeira".

Com o andar dos anos e ao longo das posições que fui ocupando na minha vida, fui prestando serviços, alguns relevantes e nomeadamente quando era militar e ocupava o cargo de Chefe de Brigada da Comissão de Extinção da PIDE/DGS. Ambos sabemos a que me refiro, "e basta"!

Neste dito jantar, tivemos a ocasião de falar entre nós com tranquilidade à mesa ( eu estava a um lugar de diferença) e a conversa fluiu como há muito tempo não acontecia.

Quando depois, ao café e já na sala, voltámos a conversar naturalmente, ocorreu-me a figura da formiga e do elefante no deserto.

É assim que na minha opinião, vão os Príncipes formando uma preparação participada, actual e consentânea com a realidade. É só assim que podem ser apreciados, seguidos e por sua vez também, "servindo"!

Tenho bons episódios em conjunto e "no deserto, quais formiga e elefante" que são os que gosto de recordar, estiveram em presença dois seres humanos, com as suas debilidades e grandezas, e aonde a amizade se revelou para cada um como bons momentos partilhados.

O Presidente Marcelo, de quem sou amigo e admirador há também muitos anos, tem vindo a encarnar esta imagem do monarca, perto dos seus governados.

Falta-lhe a herança dinástica, mas tem um estilo muito eficaz que é propiciador de excelentes resultados.

Nunca ninguém estará de acordo a 100%, com a forma e o estilo do Princeps mas por isso, como referia no princípio e quanto à minha condição de servir com verdade, respeito e carácter, há nesta soberba comparação do "pó levantado no deserto" uma confortável oportunidade do elefante ouvir a formiga na medida do desejável......

Senti-me quand-même uma formiga que jantou bem e foi ouvida.

sábado, 19 de novembro de 2016

Uma qualquer pessoa


UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.
Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida e tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que, em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa a uma
qualquer pessoa!
E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,.
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de, frente
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?
Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sofregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.

ANTÓNIO GEDEÃO
“Máquina de fogo”

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Pobre Rainha por Miguel Esteves Cardoso

Pobre Rainha

Se calhar a Rainha perdeu a paciência e disse ao Presidente: “Oh do shut up, for God’s sake!
O Presidente da República foi ao Palácio de Buckingham ver a Rainha. A visita e a conversa foram registadas num vídeo de alta definição que está, por exemplo, no site do PÚBLICO.
Depois de lhe dar um beijinho na mão, o Presidente desatou a falar. Contou à Rainha que se lembrava das duas visitas de Estado que ela tinha feito a Portugal. Na primeira, em 1957, Marcelo observa: “I was a child.” A Rainha, agradecendo a referência à diferença de idade entre eles (ela tem 90 anos, ele faz 68 em Dezembro), conseguiu, sabe-se lá como, interrompê-lo e respondeu, com ironia majestática: “I’m sure you were.”
O Presidente Marcelo continuou: “In Terreiro do Paço, you know, that big square.” A Rainha, mostrando as suas boas maneiras, mas querendo também pô-lo no lugar, disse um longuíssimo “yeeeesss…” (tradução: “Não faço a mais pequena ideia do que está a falar”).
O Presidente intuiu que a Rainha já visitou muitos big squares ao longo da vida e decidiu avivar-lhe a memória: “And the carriage…” E a Rainha, entrando em royal repetition mode, num tom “Nós não acreditamos no que nos está a acontecer”, murmurou: “The carriage…
Aí o Presidente recorreu ao rigor: “With General Craveiro Lopes…” Aí a Rainha, ouvindo o nome do grande general, deve ter sido inundada por recordações daquele dia maravilhoso à beira-Tejo.
É então que o Presidente revela tudo: “I was there, in the front row!” E a Rainha: “Were you?” Mas o Presidente Marcelo ainda não tinha terminado: “And then, in 85, I was invited for dinner on Britannia…” E a Rainha, ao lembrar-se do iate real que lhe tiraram e já tendo desistido de qualquer manobra de disuassão, limita-se a repetir: “Were you?…”
Fulminante, e sem perder uma batida, o Presidente explica: “Because I was leader of the opposition…”
Infelizmente o vídeo termina aqui, abruptamente. Se calhar a Rainha perdeu a paciência e disse ao Presidente: “Oh, do shut up, for God’s sake!” O mais provável é a Rainha ter continuado a registar a excitação de ouvir estas recordações do Presidente com mais um “Were you?”, enquanto executava a complexa manobra diplomática de andar para trás, passo a passo, até escapar do salão.

A RAINHA, protocolo e uma história engraçada





A RAINHA, protocolo e uma história engraçada

Um dos Embaixadores em Londres do país africano que represento em Portugal, veio apresentar as credenciais ao Presidente da República Portuguesa, estando aqui acreditado.

Acompanhei-o sempre e criámos uma certa intimidade ao ponto de me contar que quando apresentou credenciais à Rainha de Inglaterra estava deveras embaraçado pelo rígido e detalhado protocolo.

Era um antigo Vice Primeiro Ministro do seu país, uma pessoa civilizada e educada e com um PHd em Finanças. O posto da Court of St. James é o principal.

Estudou atempadamente o protocolo mas esquecia-se amiúde dos passos atrás e à frente, quando devia falar, etc

Tudo correu impecavelmente pois o protocolo inglês, muito rodado, está sempre a acompanhar discretamente todo o percurso e a dar as devidas indicações.

Foi acompanhado da Embaixatriz e ambos usavam os trajes tribais de gala do seu país.

Depois das formalidades habituais e já mais relaxado, foi convidado pela Rainha, para com a Embaixatriz, tomar chá numa sala mais pequena, ao lado e conversarem.

Naturalmente que quem iniciou a conversa foi a Rainha que sempre se revela amável, culta e informada sobre cada país e fazendo perguntas apropriadas.

Os Embaixadores saíram de Buckingham encantados com Sua Majestade, pois comentava-me ele, até elogiou a chita do vestido da Embaixatriz, fez perguntas sobre outros padrões e cores e acrescentou que para o Verão e para o clima africano devia ser muito cómodo.

E é isto, rapazes!

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

First briefing by the CIA, Pentagon, FBI

sábado, 12 de novembro de 2016


Quando o silêncio convida à contemplação… é tempo de percorrer de forma atenta as nossas escolhas. De entre todas, merece uma análise demorada e corajosa aquilo que escolhemos sonhar.


Uma das maiores fontes do sofrimento resulta do confronto brutal e cru entre os desejos e a realidade.

Quem deseja o impossível está, desde logo, a decidir-se por uma inevitável frustração a prazo. Importa saber sonhar, com a cabeça nas nuvens, porém com os pés na terra. Sem uma consciência clara da realidade, não há sonho que se consiga cumprir.

Para se alcançar qualquer objetivo é fundamental saber bem de onde se parte e o que fazer para seguir em direção ao que se deseja. Quem espera que os sonhos se realizem sem se responsabilizar com rigor pela sua concretização, sem se arriscar a si mesmo, não deve esperar se não desesperos…

É essencial manter um coração íntegro. Sem criar vazios que o rasguem, dividam e enfraqueçam.

Há quem deseje tudo o que vê. Alguns até desejam o que sabem que depois terão o prazer de rejeitar.

Quem tem um coração inteiro nunca está só. Quem se entrega a desejos que apenas criam anseios ainda maiores, entrega-se às promessas de tudo quanto existe e não existe. Mas a vida não é assim. Cada um de nós é chamado a criar as condições para que se concretize o que pretende, a comprometer-se na criação ativa do mundo que quer para si.

Quem se tenta convencer a si mesmo daquilo que sabe ser mentira, destrói-se.

Para chegar a alcançar o que desejamos não devemos perder tempo a falar nisso. Só com fé, coragem e paciência nos conseguimos libertar das fantasias que nos adormecem – sem nos deixar sonhar. 
 
José Luís Nunes Martins


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

E é isto, rapazes....


Tenho lido com circunspecção os comentários de uns e de outros quanto a este assunto. Naturalmente que a minha opinião interessa sobretudo os meus amigos do Sr. Roubado que me lêem com avidez.

Não escondo que apreciaria ser eleito Presidente da Junta, mas vamos ao que interessa:

- o cavalheiro, diz-se, é competente para o cargo, deu provas em outras instituições e poderá ser o ideal para a recuperação da CGD;

- o cavalheiro, terá ganho muito dinheiro no passado fruto da sua sagacidade e inteligência e não me passa pela cabeça que não tenha as contas em ordem, ou seja, ter pago os competentes impostos devidos;

- o cavalheiro, preferia não desvendar os seus rendimentos, o que percebo, pois nesta terra de invejosos e de miserabilistas, quem tenha sucesso paga por isso mesmo. No entanto, se o cavalheiro quer passar despercebido e gozar de um estatuto de "rico discreto", não deveria sequer ter pensado em aceitar a propositura para este cargo;


- o País agradece, mas temos cá mais pessoas igualmente competentes e quiçá, menos vulneráveis à opinião pública e também com menos dinheiro acumulado. Como soe dizer-se, os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis!


- Finalmente o cavalheiro tem que ter uns tomates grandes para ao aceitar, declarar no sítio certo e requerido por lei, os seus rendimentos, por-se ao trabalho e provar que é bom e competente e deixar os cães ladrar...normalmente cansam-se passado umas horas, quando vêm que a caravana passa impávida e serena.


E é isto, rapazes...

terça-feira, 8 de novembro de 2016

As eleições nos USA


 
Ópás estou excitado com as eleições de logo. Comprei couratos, amarguinha, entrecosto e orêlha de porco, tudo para trincar com os nérves.

Num círculo de 100m da minha casa no Sr. Roubado conbidei a malta, arranjei tradução simultânea para a reportagem da CNN e outras, comprei confettis e serpentinas e estalinhos.....ahahah....no fundo é um Carnaval, pás!

A WEB SUMMIT e o Peninha


A WEB SUMMIT e o Peninha

O Peninha, aterrorizado por não ter dado a devida importância ao WS, levantou-se de madrugada, para tentar entrar no segundo dia.

Percebeu que era "very in" estar lá e sobretudo ser visto no meio dos geeks e fixou umas frases que dizia a torto e a direito, sem saber sequer o sentido! "Unicorn" a que atribuía no seu provincianismo o sentido de alguém que tinha levado com UM par de cornos, porque o sr. Valente da papelaria, já tinha sido enganado duas vezes!

Pensou que devia ir de tee-shirt e jeans rasgados, mas os únicos que tinha estavam como novos e tinha-os comprado, baratos, no chinês e a camisola de algodão de manga curta com dizeres que tinha era "Inatel - excursão a Vidago" o que achava inapropriado!

Lá pegou na tesoura e fez, com dor na alma, uns cortes nos jeans ao nível dos joelhos e canelas e vestiu a tee-shirt do Inatel. Pôs um cap da CML que lhe tinham dado como brinde, com a pala para trás e lá partiu a apanhar o metro para a EXPO.

Três horas na fila, metendo conversa com estrangeiros ( com muitos sorrisos e okays...mais não sabia dizer) e por fim chegou à entrada:

- o teu bilhete, meu? - pergunta um segurança.

- ópá, ya, esqueci-me de comprar mas ouvi falar que há uns a €9,00 para a malta que estuda - respondeu o Peninha.

Dois seguranças hercúleos da discoteca Hipopótamo pegaram no Peninha e levaram-no para longe da multidão e com uns pontapés nas pernas, deixaram-no chão.

- Penetra do Inatel!

Quando chegou a casa e se olhou ao espelho, desolado, constatou que os rasgões dos jeans, com os pontapés, tinham verdadeiramente ficado à moda!

Ao menos isso, pensou!

domingo, 6 de novembro de 2016

rir perdidamente de bócês


Estou a boltar do fds para o Júlio de Matos e de repente tive uma bontade enorme de me rir de bócês todos...descaradamente...buuuu para bocês!

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

De Profundis

Das Profundezas, Salmo 130

Das profundezas clamo a ti, ó Senhor;
Ouve o meu grito! Que teus ouvidos estejam atentos
ao meu pedido por graça!
Se fazes conta de minhas iniquidades, Senhor, quem poderá se manter?
Mas contigo está o perdão, tenho esperado por ti, ó Senhor, por causa de teu nome.
Minha alma espera, confiando na tua palavra:
Minha alma tem esperança no Senhor,
De manhã até a noite; que Israel possa ter esperança no Senhor do alvorecer ao anoitecer.
Pois a misericórdia está na mão do Senhor, e nele se encontra redenção em abundância;
Ele vai resgatar Israel de todas suas iniquidades.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

CONVITE ao PM e Governo bem como à oposição


CONVITE ao PM e Governo bem como à oposição para se sentarem como utentes num Centro de Saúde

Fui ao da Lapa que é o meu, para me vacinar contra a gripe e pelos vistos, depois disseram-me e deram-me, a vacina contra o tétano que tinha caducado.

Estive lá 2 horas!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Un mathématicien n'urine pas


O NÚMERO DE PARAFUSOS da Ponte sobre o Tejo


O NÚMERO DE PARAFUSOS da Ponte sobre o Tejo

Vim almoçar à pizzeria do Zé Avillez e ao vir a pé do parque no Camões, passei em frente da Brasileira em direcção ao restaurante. ( tanta precisão chata, caramba) e no meio de um grupo de turistas, um guia novinho dizia com um ar dramático: " and he died begging in the streets". Calculo que se referisse à estátua do poeta Chiado....

O que dirão de enormidades todos estes pseudo-guias condutores dos tuk-tuk???? Sem um exame prévio das qualificações para falarem sobre Lisboa e a sua história!

Pelos vistos os turistas devem ser tão incultos como eles e a maioria sem nenhum interesse em saber se foi verdade ou não o entalão do Martim Moniz!

A minha irmã mais nova no princípio da sua vida profissional tirou um curso de guia e intérprete. Acompanhava turistas que ao passarem por debaixo da ponte sobre o Tejo, nomeadamente americanos, lhe perguntavam quantos parafusos tinha? Ela respondia impávida: 2 biliões, trezentos e trinta milhões e dois parafusos!

Eles admirados com a precisão, perguntavam-lhe, como sabia?


Ela respondia bluntly : não sei, é inventado!

E é isto, mes amis!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

AS MINHAS CONVERSAS do DIA DOS MEUS ANOS


AS MINHAS CONVERSAS do DIA DOS MEUS ANOS

Tem graça, passou mais um ano. E comecei de manhã grandes conversas interiores com Deus, agradecendo ponto por ponto, tudo quanto era mais importante e de que me ia lembrando.

Peço sempre pelos meus e por muita gente! Sou um pedincha! Mas não peço por coisas fáceis. Essas estão nas nossas mãos tentar resolver.

E a minha conversa continuou na missa de Domingo, ao meio dia e na acção de graças da comunhão.

Tive um bom dia de anos com gestos de ternura, amizade, amor. Nada nunca é perfeito nem completo.

Agora ao deitar-me novamente voltei a agradecer.

O telefone divino anda um pouco avariado para a minha linha fixa. Acho que é por eu andar a não pagar as contas últimamente....distracções imperdoáveis, sobretudo quando do outro lado sei que o credor é compreensivo e está sempre disposto a desculpar.

Isto aprendi desde pequeno.

Mas há silêncio que atrapalha a conversa que iniciei de manhã. Dava-me jeito fazer o ponto da situação, conversando como dois amigos. Afinal é para isso que o amor serve: para entender-nos!

E se não estiver do outro lado do telefone nenhum interlocutor? Nunca?

Hoje nas leituras da missa houve um apontamento importante salientado na homilia: o mudo de que todos fugiam, porque sendo deficiente, tentava aproximar-se e pedir ajuda e por isso ainda mais dele fugiam.

Jesus aproximou-se e disse-lhe: vou ainda hoje jantar a tua casa! Assim, sem mais prégações ou julgamentos!

Talvez no final do dia dos meus anos, deva continuar a insistir na conversa, como o mudo e assim um dia de mansinho tê-lo-ei a visitar-me ou melhor, irei eu para junto d'Ele!

NÃO TE QUEIXES


«Não te queixes. Recolhe em ti a amargura, não a disperses, não a esbanjes com os outros. Ela é tua, nasceu de ti, da tua miséria, pertence-te como os ossos e as vísceras. Concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. Porque só se é grande pelo sofrimento, não pela futilidade do prazer. As pedras não sofrem, Cristo esteve «triste até à morte». Tem desprezo pelos Homens felizes, porque dos Homens felizes «não reza a história». Só a dor pode medir o teu tamanho de exceção, só ela pode medir o que tu vales. O sofrimento medíocre não dá mais do que a comédia, mas a grandeza da tragédia só pode atribuir-se aos grandes. Não te aconselho a que vás ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo, acolhe-a com serenidade. Não sucumbas aos seus golpes, aguenta-os até onde puderes. E se és Homem de verdade, tu a aguentarás.

Também as grandes alegrias são do destino dos grandes, porque elas são irmãs dos grandes sofrimentos. Só os pequenos e mesquinhos se alegram e sofrem com o que é mesquinho e pequeno. Aquilo que é pequeno é impercetível a quem o não é. Que juízo fazem de ti, se sofres com o que é ridículo? Não sofras. As grandes tempestades, a grande luz solar são a medida da Natureza. Que tu tentes contrariar a alegria que te rodeia na nova Primavera e não o conseguirás. A Terra cumpre-se igual em flores e renovação. Não te queixes. Recolhe-te a ti. E o destino do Homem que te sagrou será a tua perfeição.»


Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV

On my birthday, it is good to be here!

On my birthday, it is good to be here!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Contaram-me que as letras descansam de lado




Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos. Outros, afirmam que os textos mudam ao sabor das edições; nenhuma se compara à leitura inicial. Há ainda quem me confidencie que recebe os livros de braços abertos, às vezes até com as pernas, e dou por mim a olhar para as lombadas que me rodeiam; a senti-las latejar como um animal magnifico, alheio a interpretações domesticas. Se estender a mão, sei que o irei acordar; prefiro entreter-me a escrever este texto, onde as letras ainda são verticais e se estampam no papel, como uma mancha de tinta, uma ave suicida, um eco sem som.

Jorge Fallorca, in "O livro do fim" 2012

Se não houver esperanças


Se não houver esperanças de que o teu amor seja recebido, o que tens a fazer é não o declarar. Poderá desenvolver-se em ti, num ambiente de silêncio. Esse amor proporciona-te então uma direcção que permite aproximares-te, afastares-te, entrares, saíres, encontrares, perderes.

Antoine de Saint Exupéry

CRÍTICA DE ARTE

CRÍTICA DE ARTE

Na crítica de arte impera, invariavelmente, um tipo de escrita que não me interessa nada. Que não interessa nada ao público leigo, no qual me incluo, que tem apenas como ferramenta básica a sua sensibilidade e o seu ponto de vista pessoal que oscila entre o "gosto" e o "não gosto".
A grande maioria dos críticos de arte escreve de um modo rebuscado, com uma linguagem demasiado hermética que só é inteligível para uma minoria: ele próprio e talvez a meia dúzia de amigos que escreve do mesmo modo.
O divórcio entre o público e a arte deve-se em parte a muitos textos críticos que só servem para complicar aquilo que, no fundo, é simples. Depois de se ter lido a crítica fica-se com a sensação de não se ter percebido nada. Em vez de aproximar o público, afasta-o.
Além disso, é muito difícil que uma crítica não seja um exercício de vaidade do seu autor, um elogio a um amigo, um piscar de olho a um interesse qualquer ou, não raras vezes, para rebaixar a obra de arte e o artista.
Se me atrevesse a escrever uma linha crítica sobre arte seria sempre para dizer bem de algo. Por norma os artistas sofrem muito para criar. Trata-se de horas e horas de trabalho duro e solitário, para depois vir um crítico arrasar todo o esforço e sacrifício com um texto.
Pablo Picasso, farto da insistente pergunta da crítica e do público, que toda a vida o perseguiu, para saber qual “a verdade” contida nas suas pinturas, um dia respondeu: «Toda a gente quer entender a arte. E porque não tentar entender o canto dos passarinhos? Por que razão se pode amar a noite, as flores e tudo à nossa volta, sem tentar compreender? Mas, no caso da pintura, as pessoas teimam em compreender.»
Não é necessário “compreender” a arte para a fruir. Não é preciso ser um conhecedor de arte para se ser recetivo à arte, para se sentir tocado por ela, para se comover com ela. Uma obra de arte vale por si própria e não carece de crítica para deleitar ou impressionar o público. Mal vai a obra que precise desse suporte…
A ambição do artista não é ser explicado, é ser visto e apreciado.

Paulo Marques

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

SOU UM CÔNSUL-GERAL HON. SOFREDOR !


SOU UM CÔNSUL-GERAL HON. SOFREDOR!

Tenho referido aqui que sou Cônsul Honorário de um país africano em Portugal.

Tenho assuntos consulares a tratar com as diferentes Autoridades e nomeadamente com o SEF ( Serviço de Estrangeiros e Fronteiras).

Misteriosamente não vêm em nenhum sítio deste pobre país NENHUM número que REALMENTE atenda a quem a ele queira recorrer telefónicamente, para não estar HORAS numa bichette.

Escrevi um e-mail oficial do Consulado para a Direcção Norte do SEF no dia 5 de Outubro, tendo normalmente sido recepecionado uns dias depois.

Pacientemente liguei para um número, que dizem de atendimento e estive vociferando com o Universo, 32m (registados no meu telemóvel).

Finalmente atendeu-me um imbecil que me disse ser do call center e que não faz a menor ideia do que é um Diplomata.

Disse-me então que me ia dar um número fixo que é o geral.

Novamente uns 20m a tocar e quando do outro lado já não há paciência de ouvir o trimmm do telefone, desligam!

Para grandes males grandes remédios: telefonei para o Ministério da Administração Interna, dizendo que era o pai do PM (soi-disant) e do outro lado uma funcionária zelosa, com esta bonomia e brandos costumes portugueses, passou-me finalmente a chamada para secretária da Directora-Regional.

Com mais um pouco de charme consular, obtive os dados todos para entrar na Caverna do Ali-Bábá, no futuro, sem ficar à espera.

Digam-me lá se não é desesperante para o vulgar cidadão ESTRANGEIRO que é a maioria que pretende ter acesso fácil aos serviços públicos, passar por estas tormentas?

sábado, 22 de outubro de 2016

The flying dog - fantastic


red tree - amaizing


Mushrooms with hot pepper..delicious!


pessoas chatas


FANFARRONADAS e DESPEITO

 
FANFARRONADAS e DESPEITO

Se há coisa que eu mais deteste são pessoas bota-abaixo.

Hoje houve várias boas notícias para PORTUGAL.

O que é que um bom patriota deve fazer? 

Reconhecer, ficar agradado e se não conseguir disfarçar o despeito, AO MENOS, calar-se.

Eu acho que PPC a cada dia vai destruindo o capital de respeito que acumulou.

É pena para ele, mas um País não para em Massamá!

O IMEDIATISMO EMOCIONAL DOS PORTUGUESES - o jovem Rúben


O IMEDIATISMO EMOCIONAL DOS PORTUGUESES - o jovem Rúben

"Agarrem-me se não eu mato-o" expressão popular que essa sim, é muitas vezes uma fanfarronada! Mais garganta do que acção!

A mãe do Ruben, mãe extremosa, que se esquece do perfil troublemaker do filhinho que passa a vida " à porrada" segundo ela e é um provocador, diz que o Governo devia ter actuado doutra maneira.

A linguagem vernácula da mesma, a presumível falta de grandes habilitações, deviam impedi-la de se pronunciar públicamente sobre a justeza ou não dos procedimentos jurídicos.

Sobre o Rúben, sim.

Ora acontece que existe o Direito Internacional que regula as relações entre os Estados e nomeadamente em situações desta natureza litigiosa.

Há por isso o chamado atrevimento da ignorância que não há pior!

Os órgãos de informação do tipo sentimental (CM e quejandos que os vai havendo) deliram em explorar o lado trivial do caso, sem guardarem o silêncio prudente que o profissionalismo exige até se apurarem as responsabilidades.

Por isso, uma rixa entre rapazes bêbados, neste caso de etnias diferentes, ao que se sabe tendo o incidente sido originado nessa base e em provocações feitas  e degenerado em consequências de "porrada" segundo a mãe do Rúben, tem-se vindo a tornar num novo Alcácer-Kibir, de má memória.

É que não há pior do que gente imbecilmente impetuosa e sem "mundo" para tratar de assuntos que têm a importância que têm.

Devo salientar a minha apreciação pela exemplar e prudente atitude que o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal tem sempre tomado em relação a este caso. Falando o q.b. e com uma integral posição de Estado.

E não é diplomata de carreira!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

ao meu encontro



Se eu fosse a pessoa de quem estou à espera que venha ao meu encontro, eu não me faria esperar e viria ao encontro de mim mesmo.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Para que sirvo eu ( What Good Am I? ) por Bob Dylon

 
Para que sirvo eu se sou como todos os outros
Se simplesmente me afasto ao ver como te vestes
Se me fecho em mim mesmo pra não te ouvir chorar
Para que sirvo eu?
Para que sirvo eu se sei e não ajo
Se vejo e não digo, se através de ti contemplo
Se me faço de surdo ao céu troante
Para que sirvo eu?
Para que sirvo eu enquanto choras suavemente
E escuto na minha mente o que dizes durante o sono
E logo regelo como os que nada fazem
Para que sirvo eu?
Para que sirvo eu então aos outros e a mim
Se tive todas as chances e falhei mesmo assim
Se tenho as mãos atadas e não me interessa
Quem as atou nem porquê nem onde devia eu estar?
Para que sirvo eu se digo disparates
E rio na cara do que a tristeza traz
E apenas volto as costas enquanto morres em silêncio
Para que sirvo eu?
Versão de HMBF.

What Good Am I? é uma das canções emblemáticas do álbum Oh Mercy (1989). Bob Dylan tinha há muito recusado o título de cantor de protesto, colado por uma imprensa ávida de rótulos num tempo em que os profetas eram muitos e para todos os gostos. Colocando-se à margem desse caudal messiânico tão profuso no mundo artístico das décadas de 1960 e de 1970, Dylan optou por uma postura cada vez mais recolhida, isolada e enigmática. No entanto, os seus discos da década de 1980 ficaram altamente marcados por letras de teor religioso. Esta é uma delas, encenando um diálogo íntimo e autocrítico consigo mesmo ou com as forças exteriores que o habitam. Optei pelo verbo servir respeitando esse mesmo contexto confessional, do servo de uma causa que se questiona a si próprio acerca do valor e da eficácia das suas acções. Assim sendo, o sentido da bondade confunde-se com o da utilidade. É-se bom na medida em que se é útil enquanto servo de uma causa. 

Henrique Manuel Bento Fialho

sábado, 15 de outubro de 2016

O enigma do Bom Samaritano por Frederico Lourenço


O enigma do Bom Samaritano

O Bom Samaritano é uma personagem bíblica que toda a gente conhece – mesmo pessoas que nunca tenham lido o Novo Testamento sabem contar a história. Aqueles de nós que somos, de facto, leitores da Bíblia sabemos precisar melhor o contexto: sabemos que é um episódio (ou «perícope») que ocorre somente no Evangelho de Lucas, esse príncipe da originalidade entre os evangelistas «sinópticos» (Mateus, Marcos e Lucas), já que em Lucas encontramos tanta coisa bonita que está ausente dos outros Evangelhos.

No entanto, o episódio do Bom Samaritano não pode ser lido isoladamente de Mateus e de Marcos, porque precisamos deles para ajudar a compor o retrato do Samaritano: precisamos dos outros evangelistas para percebermos quem está por trás da máscara do Bom Samaritano.

Esta questão de «quem é quem?» no episódio do Bom Samaritano tem causado perplexidade a muitos intérpretes do Evangelho de Lucas. Quem conta a história (Lucas 10:30-37) é Jesus. Este facto, porém, não inibiu os exegetas de verem na história uma personagem que é o próprio Jesus, como se Jesus fosse um narrador intradiegético, personagem da sua própria narração. Em 1959, o teólogo alemão Hans Binder publicou um artigo fascinante na revista «Theologische Zeitschrift» (nº 15, pp. 176-194) em que argumentou a favor da identificação da vítima do assalto como Jesus. Segundo Binder, a história contada por Jesus sobre os maus-tratos sofridos por «certo homem» diz respeito e ele mesmo: Jesus.

Pessoalmente, apesar de toda a admiração por Binder e pelo seu belo artigo, não concordo com esta interpretação. Jesus está presente na história do Bom Samaritano, sim: e é muito claro, se olharmos para as subtilezas do texto grego, perceber quem é. 

A chave está no versículo 33, no verbo «compadeceu-se», que descreve a reacção do Samaritano ao ver o homem espancado. Trata-se do verbo grego «splankhnízomai», relacionado com «splánkhna», que são as «vísceras». Descreve um sentimento de «compaixão visceral». Das 11 vezes que este verbo surge nos Evangelhos, é sempre usado com referência a Jesus ou a personagens que são apresentadas como «alter ego» de Jesus. É o caso do rei que perdoa as dívidas em Mateus (18:27); é o caso do pai do filho pródigo, que se condói visceralmente ao ver o estado em que o filho chega a casa (Lucas 15:20).

E é o caso do Bom Samaritano: o uso do verbo «splankhnízomai» não deixa lugar para dúvidas. O Bom Samaritano só pode ser Jesus.
 
Frederico Lourenço

ALFRED NOBEL GALARDOADO COM O PRÉMIO DYLAN


1. O Prémio Nobel não é o Juízo Final, e nenhum júri, por mais qualificados que sejam os seus membros, tem o dom da infalibilidade. Para cada prémio dado há, naturalmente, uma quantidade infinita de outros escritores tão ou mais merecedores da mesma distinção. Mas há que reconhecer que, no seu conjunto, os sucessivos júris do Nobel da Literatura têm feito um excelente trabalho e que no seu conjunto a lista dos premiados, ao longo dos anos, é de uma enorme dignidade e contém muitos dos nomes de referência da Literatura mundial do último século. Podemos chorar as ausências mas não me parecer que se possa construir qualquer teoria da conspiração para as explicar a todas. O Prémio é o que é, faz o que faz, escolhe quem escolhe, e a meu ver, de um modo geral, não tem escolhido mal.

2. Se o Senhor Robert Allen Zimmermann tivesse publicado desde os anos 60 os seus versos numa série de livrinhos respeitáveis, em pequenas editoras independentes de vão de escada, estaríamos hoje sem qualquer dúvida a falar de um dos maiores poetas de língua inglesa desse período, na linha de um Allen Ginsberg, por exemplo, e neste momento sentir-nos-íamos felicíssimos com mais uma narrativa reconfortante de como o Nobel fez finalmente justiça a uma vítima do sistema. Desde o Romantismo que nos habituámos a gostar muito desta imagem do génio incompreendido a desfalecer numa mansarda, apesar da realidade aparentemente irritante de que houve sempre muitos génios que foram compreendidos e prósperos e muitos inquilinos de mansardas com pretensões artísticas e literárias que não passavam de medíocres anónimos.

3. Sucede que o dito Senhor Zimmerman preferiu, desde os seus anos de juventude como estudante na Universidade de Minnesota, cantar os seus versos, sob o nome de Bob Dylan, e desde então há mais de meio século que as suas canções continuam a marcar o nosso imaginário e a nossa consciência, geração após geração, influenciando decisivamente escritores, músicos, artistas plásticos e cineastas como poucos criadores do nosso tempo alguma vez o conseguiram fazer. Se no início a sua obra se inseriu assumidamente ao fenómeno específico da luta pelos Direitos Civis e contra a guerra no Vietname, nas décadas de 60 e 70, sobreviveu largamente a este contexto político concreto e afirmou-se sempre como uma voz única, inconfundível, indispensável, a falar-nos a cada momento dos nossos medos e das nossas epifanias, das nossas memórias e das nossas utopias, das nossas raízes e das nossas escolhas para o futuro.

4. É por isso de um grande, grande poeta que estamos a tratar. Ao contrário do que tem sido a leitura apressada de alguma Comunicação Social, o Nobel concedido a Bob Dylan não representa de modo algum uma suposta “descida” do Prémio ao patamar da Cultura de massas – o que em si mesmo não teria, a meu ver, qualquer inconveniente de princípio – mas a consagração de um enorme criador literário, de pleno direito, cuja escolha honra quem o escolheu. De algum modo, Alfred Nobel recebeu hoje o Prémio Dylan.

Ruy Vieira Nery

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

As alegrias do matrimónio por António Lobo Antunes


As alegrias do matrimónio por António Lobo Antunes

As pessoas nos restaurantes fazem-me sempre lembrar os quadros grandes, com martírios de santos, da igreja da minha infância. Casais que não se olham nem se falam: eles de queixo no prato, a espiarem os vizinhos de baixo para cima, elas de cabeça noutro lado e ambos a pensarem
– Porque carga de água não me desamparas a loja?
mas o dinheiro, mas o hábito, mas o medo da solidão dos homens
– E se eu adoeço?
mas a vantagem de ter uma mulher a dias sempre à mão, com olho para os botões a caírem e para as nódoas no fato apesar da chatice de ter que fazer amor com ela de vez em quando
– Assim que acabo arranjo uma desculpa qualquer e levanto- -me logo
porque ela gosta de ficar no nónhónhó, abraçada, e a gente o que nos apetece é que nos deixem em paz, o maior prazer que tiro daquilo é saber que
– Agora, durante uma semana, estou safo
pensar
– Que raio de ideia me fez casar contigo?
pensa
– Só não me separo por causa das crianças
quando não me separo não por causa das crianças, não me separo porque tenho medo, se me aparecesse uma garina em condições, mais nova do que tu, claro, mais bonita, o que também não é difícil, sobretudo de manhã, quando acordas, despenteada, sem pintura, não aguento o barulho dos teus chinelos no corredor, não aguento as tuas conversas, as histórias intermináveis acerca do emprego, constantemente interrompidas por um
– Estás a ouvir?
a gente, que não ouviu nada
– Estou
ela
– Então o que é que eu disse?
a gente, num resmungo
– Que raio de conversa, se respondi que ouvi é porque ouvi
a pensar
– E se me deixasses em paz?
a pensar
– Que idiotas as mulheres
que ainda por cima gastam um rolo inteiro de papel higiénico quando fazem chichi apesar de dois quadradinhos chegarem perfeitamente, para quê tanto papel, senhores, ao entrarmos de manhã na casa de banho encontramos sempre a rodela de algodão, toda preta, com que na véspera, à noite, tiraram a maquilhagem e que nunca despejam no balde como se custasse muito despejar aquilo no balde, basta carregar no pedal com a ponta do pé e nunca carregam, a rodela de algodão, a bandelete com que puxaram o cabelo para trás, a pasta de dentes sem tampa, a toalha torta no toalheiro, aqueles frascos todos, aqueles boiões todos, a inquietação a propósito de uma borbulha no queixo que teimam em mostrar-nos
– Já viste esta borbulha?
uma merdice que mal se percebe de súbito dramática, a queixa indignada
– Nem olhaste
a tragédia da celulite, a tragédia das estrias, o que elas decidem ser uma variz na perna esquerda
– Estou uma velha
ganas de concordar com elas
– Não estás velha, estás a envelhecer
porque a tragédia não é ser velha, é envelhecer, a inveja
– Nos homens dá-lhes charme envelhecerem, nas mulheres é horrível
de facto é horrível mas se por acaso concordamos
– Pensas que és algum actor de cinema, tu?
e de imediato referências à nossa barriga, à tristeza de nos estarmos a tornar repetitivos, à maçada de nos estarmos a tornar cada vez mais chatos, um olhar de desprezo à nossa silhueta
– E gordo, e curvado
portanto nada de conversas sobre a idade para não encontrar olhos que cintilam de lágrimas de humilhação e raiva, a boca, de cantos para baixo
– Desculpa confessar isto mas o que tu mudaste
e claro que mudei mas, ao contrário de ti, mudei para melhor, um dia destes tens as pernas fininhas como dois palitos cravados numa batata, há ginásios, sabias, o que não falta para aí são ginásios de onde voltarás toda suada, de madeixas agarradas à testa, com olheiras, a atirares-te para cima de um sofá, exausta, soprando
– Já não tenho vinte anos
e realmente já não tens, tens quarenta, perdão, quarenta e três, tu logo, ofendidíssima
– Quarenta e dois
nós
– Fazes quarenta e três em junho e estamos em março, olha que grande diferença
elas
– E eu só não falo da tua idade por pena de mim, prefiro esquecer-me que vivo com uma múmia
nós, picados
– Não há nada mais amargo que uma senhora provecta
e oxalá ela fique amuada uma semana ou duas, é da maneira que me salvo do tal e coisa por mais uns dias, tenho que pensar nas amigas da minha filha mais velha para conseguir o tal e coisa ou na atriz daquele filme de ontem na televisão ou nas pequenas do rialitichâo que tu
– Umas pindéricas, umas saloias para não dizer a verdade
pindéricas e saloias de facto que nem português sabem falar mas aqueles peitos, aquelas cinturas, aquelas bocas, no fundo não há como uma pindérica saloia para acordar hormonas, tu, desgostada
– Vocês, homens, são uns animais, e de facto somos, tens razão, somos uns animais mas é graças a elas que eu, e calamo- -nos a tempo, ou seja, pensamos que nos calámos a tempo mas não nos calámos a tempo porque bateste com a porta do apartamento e fico sozinho, sem saber o que fazer, no terror que te passe pela cabeça não voltar.