sábado, 2 de julho de 2016
Peace, at last
Recebi esta manhã pelas 6:30am no WhatsApp esta mensagem: Just to let you know that Eric passed away 2 days ago.
O Eric era um meu parceiro de negócios africano, mais precisamente ganês, de 50 anos e que para além de ser uma excelente pessoa, honesto, activo e eficaz, tinha uma enorme afabilidade de trato.
Tinha um escritório em Londres, aonde morava, e foi lá que o conheci.
A mulher tinha-o abandonado o que muito o afectara e em termos de saúde tinha uma diabetes alta.
Porque comento isto aqui?
Porque foi um murro no estômago a notícia, para além da dor e tristeza, mais uma vez fez-me pensar que devemos estar leves para a partida, sem demasiadas prisões a tudo quanto nos exige a vida.
O Eric era um meu parceiro de negócios africano, mais precisamente ganês, de 50 anos e que para além de ser uma excelente pessoa, honesto, activo e eficaz, tinha uma enorme afabilidade de trato.
Tinha um escritório em Londres, aonde morava, e foi lá que o conheci.
A mulher tinha-o abandonado o que muito o afectara e em termos de saúde tinha uma diabetes alta.
Porque comento isto aqui?
Porque foi um murro no estômago a notícia, para além da dor e tristeza, mais uma vez fez-me pensar que devemos estar leves para a partida, sem demasiadas prisões a tudo quanto nos exige a vida.
domingo, 26 de junho de 2016
sábado, 25 de junho de 2016
O PENINHA E O SÃO JOÃO
O PENINHA E O SÃO JOÃO
O Peninha tinha estado na véspera do S.João no Porto, com um
olho no peixe e outro no gato, ou seja brincando com os foliões e olhando para
as notícias a ver o que dava o referendo em Inglaterra.
Mais a mais estando lá o seu querido Presidente Marcelo,
apostara que lhe havia de dar com um alho porro, pois dava assim um ar de maior
intimidade. E lá se misturou na multidão, desta vez com um traje mais discreto.
Foi-se aproximando, aproximando e no meio da multidão chegou
bem perto. Tinha na mão um martelinho de plástico do S.João que tinha comprado
nos chineses, de côr laranja, por causa do PSD.
Vai de truz e quando o Presidente se vira, catrapum com
leveza na cabeça dá-lhe uma toutiçada. Marcelo com bonomia dá-lhe um abraço e
um sorriso. Alguém disparou um flash e entretanto Peninha desmaiou, tal foi o
gozo.
Borrifaram-lhe a cara, deram-lhe umas estaladas e quando
recuperou os sentidos, a sua primeira preocupação foi a de perguntar quem teria
tirado a fotografia dele com o Presidente. Ninguém lhe sabia dizer e começou
então, no meio da multidão, uma busca sôfrega e imparável, perguntando a torto
e a direito se lhe tinham tirado uma selfie com o Chefe do Estado.
Acabou por se ir deitar tardíssimo e estava exausto. Ninguém
sabia do que se tratava.
De manhã cedo, quando acordou, decidira pôr um anúncio nos
jornais do Porto e de Lisboa, com o seu retrato e dando alvíssaras a quem lhe
entregasse a fotografia que dele tirara com Marcelo, no momento do contacto.
Houve uma única resposta com uma fotografia em anexo. Ele há
coisas do diabo!
quinta-feira, 23 de junho de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
UMA CURIOSA TROCA DE INSULTOS
Em 1537 alguns marinheiros portugueses praticaram um crime, então classificado como um "grande gaffe diplomática". Em frente de Diu recebeu-se o Sultão Bahadur Xá a bordo de uma nau portuguesa.
As conversações diplomáticas deram para o torto e o Sultão e sua comitiva resolveram retirar-se zangados.
Alguns marinheiros portugueses, indisciplinados, dificultaram-lhes a entrada no batel, chegando ao ponto de dar com um remo, fortemente, na cabeça do Sultão, tendo este morrido afogado. A acção vergonhosa causou um grito de vingança desde os reinos mulçumanos do Golfo de Cambaia até ao Egipto e Constantinopla. A viúva do Sultão ofereceu toda a sua fortuna para financiar uma expedição punitiva contra os portugueses. A fortaleza de Diu estava a ser defendida por 600 portugueses, comandados por António da Silveira. O Sultão de Cambaia e o turco Suleimão Paxá reuniram as suas forças, conseguindo cercar Diu com 70 galés turcas um exército de terra de 23.000 homens. Tendo já feito prisioneiros alguns portugueses, enviou por um deles uma carta a António da Silveira.
Temos de saber que Suleimão Paxá não era tido em boa conta pelos portugueses. Tratava-se de um eunuco que, através de uma revolução palaciana, com o levantamento geral dos eunucos, conseguiu degolar a família real, usurpando o respectivo trono e poder.
Quanto António da Silveira recebeu a carta do turco, virou-se para os seus companheiros dizendo: «Vejamos o que diz o perro do capado!» e leua a carta em público. Suleimão Paxá prometia aos portugueses livre saída de pessoas e bens desde que fossem para a costa de Malabar e entregassem a fortaleza e as armas. Prometia esfolar todos vivos se não o fizessem e glorificava-se de ter reunido o maior exército em Cambaia, tendo muita gente que tomara Belgrado, Hungria e a ilha de Rodes. Perguntava mesmo a António da Silveira como se iria defender num "curral com tão pouco gado"!
António da Silveira mandou vir papel e Tinta e, estando todos presentes, enviou-lhe a seguinte resposta:
«Muito honrado capitão Paxá, bem vi as palavras da tua carta. Se em Rodes tivessem estado os cavaleiros que estão aqui neste curral podes crer que não a terias tomado. Fica a saber que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros e têm por capitão António Silveira, que tem um par de tomates mais fortes que as balas dos teus canhões e que todos os portugueses aqui têm tomates e não temem quem os não tenha!»
Não se pode imaginar insulto maior! Narra-no Gaspar Correia que o capado, quando recebeu esta resposta, mandou logo matar alguns portugueses, feridos, que estavam na sua posse e começou um luta de gigantes. Durante mais de um mês António da Silveira fez-lhe frente, ficando os portugueses capazes de lutar reduzidos a menos de quarenta, mas causando tais baixas aos turcos que estes resolveram levantar o cerco a Diu e retirar-se.
(Gaspar Correia: Cronica dos Feytos da Índia, vol. IV, p.34-36)
segunda-feira, 20 de junho de 2016
Pour faire le portrait d'un oiseau
Pour faire le portrait d'un oiseau
Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau."
Jacques Prévert
Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau."
Jacques Prévert
domingo, 19 de junho de 2016
o Doutor da mula ruça
Pois a graça disto tudo está em que, no ano de 1534, um tal
António Lopes exercia medicina, em Évora onde era muito conhecido, mas não
tinha diploma. Tinha estudado em Alcalá de Henares e, por falta de verba para
pagar o «canudo», saiu de lá sem o respectivo diploma. Vai daí escreveu ao rei
Dom João III e pediu-lhe que o mandasse analisar pelos médicos da corte de modo
a poder exercer a sua actividade sem qualquer contestação. Em 23 de Maio de
1534, o livro da Chancelaria de D. João III refere:
«Dom Joham 3º a quantos esta minha carta virem faço saber
que o doutor António Lopes, físico de Évora, me apresentou ua carta do doutor
Diogo Lopes, meu físico moor, de que o theor de verbo é o seguinte: O doutor
Diogo Lopes, comendador da Ordem de Christo e físico moor del Rey Nosso senhor
em seus regnos e senhorios, faço saber a quantos esta minha carta de doutorado
virem como por António Lopes, físico da mula ruça, morador em esta Évora, me
foy apresentado hum allvará dellRey nosso senhor, por sua alteza assygnado e
passado per sua chancelaria do qual o trellado he o seguinte: Eu ell Rey faço
saber a vós Doutor Diogo Lopes seu fisico moor, que António Lopes, físico da
mula ruça, morador en esta cidade, me dice por sua petiçam que elle estudou
nove ou dez annos no estudo de Alcala de Henares.»
Os dicionários esclarecem que a expressão “doutor da mula
ruça” usada em registo familiar e em tom depreciativo, se aplica a «indivíduos
que possuem um título ou um diploma, mas que não têm os conhecimentos de que se
dizem detentores». Por extensão, a expressão “doutor da mula ruça” aplica-se
vulgarmente ao chamado charlatão, aquele que tenta enganar os outros,
fazendo-se passar por algo que afinal não é, neste caso, fingindo ser muito
erudito.
No entanto, a história que se conta sobre o 1.º doutor da
mula ruça aponta para um significado da expressão um pouco diferente, quase
oposto, que é o do homem que exerce a prática (e tem os conhecimentos) mas que
não tem o diploma que o habilitaria oficialmente para isso.
Então quem foi este doutor da mula ruça? De acordo com
vários autores, houve um homem no século XVI em Évora, de nome António Lopes,
que era conhecido como o “físico da mula ruça”, e exercia medicina sem possuir
o grau de doutor. Acontece que este senhor tinha estudado em Alcalá de Henares,
em Espanha, perto de Madrid. Mas uns dizem que por falta de dinheiro não pôde pagar
o diploma, e portanto acabou por exercer sem ele; outros contam que obteve o
grau de bacharel, mas havia certas reservas em relação à sua prática, porque
não era doutor pela Universidade de Lisboa. Seja como for, o que acontece é que
ele terá pedido ao rei D. João III, uma espécie de “equivalência”, como agora
se diria (de bacharel, o grau que teria adquirido em Espanha, para doutor) ou,
se quisermos, uma “creditação de competências”, como agora também se faz, ao
abrigo do Processo de Bolonha, se considerarmos que ele não chegou a obter o
diploma em Espanha, ainda que tivesse frequentado a Universidade. O que parece
certo é que o Rei, a pedido deste António Lopes, solicitou ao físico-mor do
reino, Diogo Lopes, que o examinasse para se avaliar a sua competência para
exercer medicina. O resultado da avaliação foi positivo e há um registo no
Livro de Chancelaria de D. João III que declara precisamente isso: «que António
Lopes, físico da mula ruça, morador em esta cidade me disse por sua petição que
ele estudou nove ou dez anos no estudo de Alcalá» (excerto da carta régia de 23
de Maio de 1534).
Portanto, fica a ideia de que este homem exerceu a profissão
antes de obter oficialmente o grau academico, que solicitou esse grau por carta
régia e não pela via normal, que seria um diploma da universidade, e que era
conhecido como o “doutor da mula ruça”, talvez por se deslocar habitualmente
numa mula de cor parda ou acinzentada. Não temos a certeza. Mas pelos vistos a
sua actividade era contestada pelo facto de ele a exercer sem a mesma
legitimidade que os outro físicos, o que o levou a sentir a necessidade de
requerer o reconhecimento da sua competência. Algo que parece hoje novidade,
mas que afinal não é...
Fui descobrir esta curiosidade num livro de Orlando Neves,
intitulado «Dicionário da origem das frases feitas». A edição é da Lello &
Irmão Editores – Porto.
Info obtida gentilmente do Doutor João das Regras
sábado, 18 de junho de 2016
wise man
1. work on one thing at a time until finished.
2. Start no more new books, add no more new material to “Black Spring.”
3. Don’t be nervous. Work calmly, joyously, recklessly on whatever is in hand.
4. Work according to the program and not according to mood. Stop at the appointed time!
5. When you can’t create you can work.
6. Cement a little every day, rather than add new fertilizers.
7. Keep human! See people; go places, drink if you feel like it.
8. Don’t be a draught-horse! Work with pleasure only.
9. Discard the Program when you feel like it–but go back to it the next day. Concentrate. Narrow down. Exclude.
10. Forget the books you want to write. Think only of the book you are writing.
11. Write first and always. Painting, music, friends, cinema, all these come afterwards.
Henry Miller
5. When you can’t create you can work.
6. Cement a little every day, rather than add new fertilizers.
7. Keep human! See people; go places, drink if you feel like it.
8. Don’t be a draught-horse! Work with pleasure only.
9. Discard the Program when you feel like it–but go back to it the next day. Concentrate. Narrow down. Exclude.
10. Forget the books you want to write. Think only of the book you are writing.
11. Write first and always. Painting, music, friends, cinema, all these come afterwards.
Henry Miller
sexta-feira, 17 de junho de 2016
E é isto rapazes, nada de tristezas pois a vida é para gozar.
E é isto rapazes, nada de tristezas pois a vida é para gozar. Este pragmatismo do Pessoa sempre me encantou.
______________
Se, depois de eu morrer...
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vivi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro
______________
Se, depois de eu morrer...
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vivi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro
quarta-feira, 15 de junho de 2016
O PENINHA E O ENCONTRO COM RONALDO
O PENINHA E O ENCONTRO COM RONALDO
O Peninha deslocou-se de autocarro a Caxias ao novo centro de formação da FPF para tentar falar com Cristiano Ronaldo.
Pensou, pensou e disse para si próprio: sem entrevista marcada, tenho que ir vestido de uma forma apelativa para chamar a atenção do Cristiano, senão nem me deixam entrar.
Assim fez: começou pelas cuecas que tinha comprado nos chineses – com a imagem do Ronaldo aos xutos e pontapés a uma bola – depois escolheu uma camisa branca com a cara da mãe Aveiro estampada, a vender bananas da Madeira (achou que ele havia de gostar) e finalmente seleccionou uns jeans rotos, que o eram pelo uso desde há anos, mas cujos rasgões e buracos estavam à moda.
Nos pés umas xanatas com meias grossas de futebol, pois assim dava um toque, um sinal a que ia.
Um cap, tipo boné que dizia “ a Madeira é um jardim”. Olhou-se ao espelho e sorriu: - um janota, é o que sou!
Claro está que no autocarro era o alvo da atenção de toda a gente, pois já não bastava o traje que portava, mas tinha engordado estupidamente, e tinha um ventre descomunal. Era uma verdadeira visão do não-desportista.
Lá chegado, apresentou-se ao portão e disse orgulhoso: - Venho para uma reportagem com o nosso campeão. Sou jornalista do “Alvorada do Senhor Roubado” a Odivelas.
O porteiro não conteve o riso e disse-lhe – mas você julga que ele vai alguma vez aceitar ser entrevistado por si?
Peninha, empertigou-se e sentindo-se atingido no seu brio profissional respondeu-lhe com uma voz fria: - deixe-me entrar para as bancadas e logo verá. Para já venho assistir aos treinos.
O porteiro deixou-o passar e Peninha dirigiu-se às bancadas aonde aquela hora da manhã ainda havia pouca gente. Sentou-se e esperou que Ronaldo chegasse, pois só lá estavam ainda uns poucos.
Finalmente, Cristiano Ronaldo chegou. De popa levantada, cheia de brilho de banha no cabelo, peito enfunado e olhando para todo o lado a ver que audiência tinha. De repente tosca o Peninha e desata a rir, sem parar, com um ar teatral! Aproxima-se devagar das bancadas e ao chegar perto de Peninha, faz: - pst, pst você aí, seu anormaleco, venha aqui.
Peninha olhou à sua volta, não estava ninguém com um baque no coração, pensou: - é para mim! E aproximou-se entre o tímido e o excitado. – Estava a chamar-me? – disse, na direcção de Ronaldo.
Cristiano, sem parar de rir, respondeu-lhe: - Claro!
Chegando perto, Ronaldo mirou-o dos pés à cabeça e disse-lhe: - é pá, estás o máximo, dá cá um abraço. E estreitando-o nos braços, ficaram assim uns segundos.
Peninha, desmaiou de comoção e quando acordou estava no posto de enfermagem do centro de estágio da FPF.
Um enfermeiro virou-se para ele e disse-lhe: - Isso deve ter sido do sol, pois você desmaiou à entrada e teve que ser trazido para aqui. Que raio de traje é esse?
Peninha, esfregou os olhos e perguntou-lhe: - mas eu não fui abraçado pelo Cristiano Ronaldo?
- Ó homem, o Cristiano está em França a jogar no campeonato, aqui não está ninguém. Sorte teve você de eu ter passado por aqui, senão tinha ficado ali à porta sem ninguém dar fé de si. Vá lá andando, pois já está melhor e da próxima vez, cuide-se.
Peninha, estonteado levantou-se e cabisbaixo saiu devagar para a rua. Sentou-se num banco à sombra ali ao perto e pôs-se a cogitar:
Ainda bem que existem outros dias. E outros sonhos. E outros sorrisos. E outras pessoas. E outras coisas...
E partiu rumo ao Senhor Roubado, com ânimo para novas aventuras.
O Peninha deslocou-se de autocarro a Caxias ao novo centro de formação da FPF para tentar falar com Cristiano Ronaldo.
Pensou, pensou e disse para si próprio: sem entrevista marcada, tenho que ir vestido de uma forma apelativa para chamar a atenção do Cristiano, senão nem me deixam entrar.
Assim fez: começou pelas cuecas que tinha comprado nos chineses – com a imagem do Ronaldo aos xutos e pontapés a uma bola – depois escolheu uma camisa branca com a cara da mãe Aveiro estampada, a vender bananas da Madeira (achou que ele havia de gostar) e finalmente seleccionou uns jeans rotos, que o eram pelo uso desde há anos, mas cujos rasgões e buracos estavam à moda.
Nos pés umas xanatas com meias grossas de futebol, pois assim dava um toque, um sinal a que ia.
Um cap, tipo boné que dizia “ a Madeira é um jardim”. Olhou-se ao espelho e sorriu: - um janota, é o que sou!
Claro está que no autocarro era o alvo da atenção de toda a gente, pois já não bastava o traje que portava, mas tinha engordado estupidamente, e tinha um ventre descomunal. Era uma verdadeira visão do não-desportista.
Lá chegado, apresentou-se ao portão e disse orgulhoso: - Venho para uma reportagem com o nosso campeão. Sou jornalista do “Alvorada do Senhor Roubado” a Odivelas.
O porteiro não conteve o riso e disse-lhe – mas você julga que ele vai alguma vez aceitar ser entrevistado por si?
Peninha, empertigou-se e sentindo-se atingido no seu brio profissional respondeu-lhe com uma voz fria: - deixe-me entrar para as bancadas e logo verá. Para já venho assistir aos treinos.
O porteiro deixou-o passar e Peninha dirigiu-se às bancadas aonde aquela hora da manhã ainda havia pouca gente. Sentou-se e esperou que Ronaldo chegasse, pois só lá estavam ainda uns poucos.
Finalmente, Cristiano Ronaldo chegou. De popa levantada, cheia de brilho de banha no cabelo, peito enfunado e olhando para todo o lado a ver que audiência tinha. De repente tosca o Peninha e desata a rir, sem parar, com um ar teatral! Aproxima-se devagar das bancadas e ao chegar perto de Peninha, faz: - pst, pst você aí, seu anormaleco, venha aqui.
Peninha olhou à sua volta, não estava ninguém com um baque no coração, pensou: - é para mim! E aproximou-se entre o tímido e o excitado. – Estava a chamar-me? – disse, na direcção de Ronaldo.
Cristiano, sem parar de rir, respondeu-lhe: - Claro!
Chegando perto, Ronaldo mirou-o dos pés à cabeça e disse-lhe: - é pá, estás o máximo, dá cá um abraço. E estreitando-o nos braços, ficaram assim uns segundos.
Peninha, desmaiou de comoção e quando acordou estava no posto de enfermagem do centro de estágio da FPF.
Um enfermeiro virou-se para ele e disse-lhe: - Isso deve ter sido do sol, pois você desmaiou à entrada e teve que ser trazido para aqui. Que raio de traje é esse?
Peninha, esfregou os olhos e perguntou-lhe: - mas eu não fui abraçado pelo Cristiano Ronaldo?
- Ó homem, o Cristiano está em França a jogar no campeonato, aqui não está ninguém. Sorte teve você de eu ter passado por aqui, senão tinha ficado ali à porta sem ninguém dar fé de si. Vá lá andando, pois já está melhor e da próxima vez, cuide-se.
Peninha, estonteado levantou-se e cabisbaixo saiu devagar para a rua. Sentou-se num banco à sombra ali ao perto e pôs-se a cogitar:
Ainda bem que existem outros dias. E outros sonhos. E outros sorrisos. E outras pessoas. E outras coisas...
E partiu rumo ao Senhor Roubado, com ânimo para novas aventuras.
segunda-feira, 13 de junho de 2016
A QUEDA EM DESGRAÇA
A QUEDA EM DESGRAÇA
Os seres humanos são naturalmente vaidosos. Todos sem excepção, e é irritante ouvir alguém dizer que é tão modesto que não gosta que lhe façam elogios. Por isso mente ou mentem e torna-se um desafio apaixonante tentar apanhá-lo ou apanhá-los em pequenos deslizes aonde se vê o ego subir velozmente até aparecer da goela para fora…
Isto passa-se no campo político, profissional e social. Não vale a pena teorizar sobre o tema pois a não ser que se seja coxo, zarolho, maneta ou muito feio/a, todos já passaram por estas sensações de engodo, acreditando piamente nas louvaminhices…que gira, que bem que estás, que bom gosto, que elegante, que bonito, que inteligente, que interessante…e por aí a fora. A irresistível postura de fotografias no facebook em todas as situações, na cama, no solar, na praia, vestido ou nú, a rir ou a chorar torna tão visível isto que acima digo, mas mesmo assim, mesmo com indirectas…as pessoas keep on posting.. mas não é muito importante.
O que hoje me traz aqui para referir este tema é constatar que há gente soberba, mesquinha, má, intriguista e maledicente que quando vê alguém, mesmo por própria culpa escorregar nos degraus profissionais, políticos ou sociais, não tem um gesto, uma palavra e um oferecimento para nos momentos da “desgraça” e de ostracização, estenderem a mão e declararem-se presentes, sem julgarem, se bem que podendo discordar.
Esquecem-se de que quando precisaram ou desejaram roçar o poder, ou os negócios ou o brilho dos salões, não havia limites para o incenso.
E disse.
Os seres humanos são naturalmente vaidosos. Todos sem excepção, e é irritante ouvir alguém dizer que é tão modesto que não gosta que lhe façam elogios. Por isso mente ou mentem e torna-se um desafio apaixonante tentar apanhá-lo ou apanhá-los em pequenos deslizes aonde se vê o ego subir velozmente até aparecer da goela para fora…
Isto passa-se no campo político, profissional e social. Não vale a pena teorizar sobre o tema pois a não ser que se seja coxo, zarolho, maneta ou muito feio/a, todos já passaram por estas sensações de engodo, acreditando piamente nas louvaminhices…que gira, que bem que estás, que bom gosto, que elegante, que bonito, que inteligente, que interessante…e por aí a fora. A irresistível postura de fotografias no facebook em todas as situações, na cama, no solar, na praia, vestido ou nú, a rir ou a chorar torna tão visível isto que acima digo, mas mesmo assim, mesmo com indirectas…as pessoas keep on posting.. mas não é muito importante.
O que hoje me traz aqui para referir este tema é constatar que há gente soberba, mesquinha, má, intriguista e maledicente que quando vê alguém, mesmo por própria culpa escorregar nos degraus profissionais, políticos ou sociais, não tem um gesto, uma palavra e um oferecimento para nos momentos da “desgraça” e de ostracização, estenderem a mão e declararem-se presentes, sem julgarem, se bem que podendo discordar.
Esquecem-se de que quando precisaram ou desejaram roçar o poder, ou os negócios ou o brilho dos salões, não havia limites para o incenso.
E disse.
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Orgulho de ser Português
Gostei muito dos 2 discursos das cerimónias no Terreiro do Paço. Mas sobretudo, como Portugueses, devemos estar gratos ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, pela nova alma de orgulho e portuguesismo que nos vai dando, paulatinamente, em cada acto que inteligentemente vai escolhendo para imprimir uma nova marca de Portugal.
Ver 2 mil militares em parada, cantar com voz firme, o hino nacional, é comovente e animador.
Bem haja!
terça-feira, 7 de junho de 2016
O patrão e a secretária na praia
O patrão e a secretária na praia
Quando estou na praia, para além de dar mergulhos e tomar banho, como detesto estar deitado ao sol, apesar de lagarto, adoro cuscar o que me vai passando à frente.
Hoje, havia uma série de ninfas do Mondego muito bem apessoadas e novinhas, já despontando para o robusto e generoso peito e também para caudas muito redondinhas….ahahah.
Passou às tantas um “patrão” com um chapéu à Panamá papers e
fato-de–banho de qualidade em conversa com donzela, seguramente, uns 35
aninhos, mais nova, tipo secretária.
Ele conversava a borbotos e ela ouvia respeitosa mas olhando para o horizonte e assim foram de uma ponta a outra da praia, junto ao mar.
Apeteceu-me extrapolar e “sair “dali visionando um jantarinho romântico à luz de velas, ele de bom fato de seda e bela camisa aberta e ela (esta, pelo menos) de bestido mal enjorcado, amarelo, com muitas pregas e um decote grande, mas feio, que nem sequer deixava ver os alvos peitos, branqueando! como diria o Luiz Vaz.
Mas o que quero comentar na atitude do "patrão" é esta presunção de dominar a conversa, contando histórias mil vezes repetidas, desinteressantes, gabarolices, falando de dinheiro gasto e de luxos ou de comentários sobre trivialidades….e a pikena, teúda e manteúda, a ter que aturar tudo aquilo…uma chatice, um frete…mas para o Armindo a poder ter no apartamento que o patrão lhe pusera, era preciso aturar tudo isto. O Armindo é que tinha conversas interessantes…falava-lhe das telenovelas, das revistas do coração, e de ideias…sim de ideias bem quentes...
Ora, havendo tanto tema interessante para conversar, explorar a ciência e inteligência da menina, até iniciar, from time to time, alguma conversa picante preparatória de voluptuosas mil e uma noites…suspeito que os temas seriam de bocejo.
Até porque fazer de Coronel Higgins e My Fair Lady ou qual Pigmalião, é tão mais interessante…molda-se, assiste-se ao desabrochar das qualidades, têm-se momentos de desânimo, mas no final é um apogeu real.
E depois destes pensamentos longínquos, caí na real e fui mergulhar. Ainda estava fria, a maldita da água, mas enrijece as carnes, they say…
Ele conversava a borbotos e ela ouvia respeitosa mas olhando para o horizonte e assim foram de uma ponta a outra da praia, junto ao mar.
Apeteceu-me extrapolar e “sair “dali visionando um jantarinho romântico à luz de velas, ele de bom fato de seda e bela camisa aberta e ela (esta, pelo menos) de bestido mal enjorcado, amarelo, com muitas pregas e um decote grande, mas feio, que nem sequer deixava ver os alvos peitos, branqueando! como diria o Luiz Vaz.
Mas o que quero comentar na atitude do "patrão" é esta presunção de dominar a conversa, contando histórias mil vezes repetidas, desinteressantes, gabarolices, falando de dinheiro gasto e de luxos ou de comentários sobre trivialidades….e a pikena, teúda e manteúda, a ter que aturar tudo aquilo…uma chatice, um frete…mas para o Armindo a poder ter no apartamento que o patrão lhe pusera, era preciso aturar tudo isto. O Armindo é que tinha conversas interessantes…falava-lhe das telenovelas, das revistas do coração, e de ideias…sim de ideias bem quentes...
Ora, havendo tanto tema interessante para conversar, explorar a ciência e inteligência da menina, até iniciar, from time to time, alguma conversa picante preparatória de voluptuosas mil e uma noites…suspeito que os temas seriam de bocejo.
Até porque fazer de Coronel Higgins e My Fair Lady ou qual Pigmalião, é tão mais interessante…molda-se, assiste-se ao desabrochar das qualidades, têm-se momentos de desânimo, mas no final é um apogeu real.
E depois destes pensamentos longínquos, caí na real e fui mergulhar. Ainda estava fria, a maldita da água, mas enrijece as carnes, they say…
domingo, 5 de junho de 2016
O discurso de António Costa
Achei o discurso final do António Costa, um bom discurso. Porque
hei-de de dizer o contrário se foi isso que achei. Desejo ardentemente
que ponha em prática todas as medidas que propugna pois são boas para o
país e para todos nós. Estou-me nas tintas se é socialista ou de
direita, o que eu quero como cidadão e português é que as coisas
melhorem e a vida no dia a dia tenha maior qualidade.
Irrita-me tanto o sectarismo, a raiva e o radicalismo das pessoas, que tal como eu, não sendo socialistas, rosnem e critiquem logo no minuto seguinte, mesmo sem terem ouvido....é o cúmulo.
Irrita-me tanto o sectarismo, a raiva e o radicalismo das pessoas, que tal como eu, não sendo socialistas, rosnem e critiquem logo no minuto seguinte, mesmo sem terem ouvido....é o cúmulo.
Tenho, como é sabido por quem conhece a minha Família, uma irmã deficiente....desde quase sempre, pois nasceu normal.
Ora bem foi anunciado que iria haver uma série de prestações em vários níveis e com total aplicação, neste caso à minha irmã.
Porque hei-de ser ingrato, injusto e radical?
Como esta já foram postas em prática muitas outras medidas que tinham sido prometidas.
Eu sinto-me bem com quem promete e cumpre e não está sempre a adiar por razões que nos lixam sempre....é um azar!
Por isso vou mesmo afastando da minha convivência quem me desagrade e contrarie , independentemente de terem sido meus amigos/as ou com familiares deste calibre só falo de pureza e açucenas.....
E eu ralado, com o que dizem de mim!
Em tempo: percebo perfeitamente e concordo inteiramente com o Presidente Marcelo quando pugna pela estabilidade em Portugal.
Ora bem foi anunciado que iria haver uma série de prestações em vários níveis e com total aplicação, neste caso à minha irmã.
Porque hei-de ser ingrato, injusto e radical?
Como esta já foram postas em prática muitas outras medidas que tinham sido prometidas.
Eu sinto-me bem com quem promete e cumpre e não está sempre a adiar por razões que nos lixam sempre....é um azar!
Por isso vou mesmo afastando da minha convivência quem me desagrade e contrarie , independentemente de terem sido meus amigos/as ou com familiares deste calibre só falo de pureza e açucenas.....
E eu ralado, com o que dizem de mim!
Em tempo: percebo perfeitamente e concordo inteiramente com o Presidente Marcelo quando pugna pela estabilidade em Portugal.
sábado, 4 de junho de 2016
pobreza de espírito
Estava a ouvir à distância o programa do Alta Definição na SIC daquele rapaz Daniel Oliveira!
Hoje era um tal de Quaresma. Que pobre mentalidade a destes jogadores de futebol! Fiquei angustiado com o que ouvi. Nem uma única frase que não fosse ou sobre futebol ou sobre tragédias corriqueiras de uma vida qualquer! Tudo espremido dá zero.
Nada sobre música, leitura, ideias e sobre o mundo à nossa volta tão dramático e ao mesmo tempo tão interessante para reflectir.
E o mais preocupante é que grande parte da nova geração e da antiga que considero limitada e burra, adora e bebe estas palavras como ciência certa.
Pode parecer soberba, convencimento ou presunção, é verdadeiramente uma falta de paciência para pessoas desinteressantes e sem cultura e sem o tal brilhozinho nos olhos...
Hoje era um tal de Quaresma. Que pobre mentalidade a destes jogadores de futebol! Fiquei angustiado com o que ouvi. Nem uma única frase que não fosse ou sobre futebol ou sobre tragédias corriqueiras de uma vida qualquer! Tudo espremido dá zero.
Nada sobre música, leitura, ideias e sobre o mundo à nossa volta tão dramático e ao mesmo tempo tão interessante para reflectir.
E o mais preocupante é que grande parte da nova geração e da antiga que considero limitada e burra, adora e bebe estas palavras como ciência certa.
Pode parecer soberba, convencimento ou presunção, é verdadeiramente uma falta de paciência para pessoas desinteressantes e sem cultura e sem o tal brilhozinho nos olhos...
segunda-feira, 30 de maio de 2016
prenhas ao mesmo tempo
This man is married to thirteen women and they are all pregnant at the
same time. Not only are they contented with the pregnancy, but they are
very happy to be his wife and they all get along very well. Each woman
speaks very highly of each other. They look out for the well being of
each and for their beloved husband. This is perfectly legal in their
country but this is the first man to have all his wives pregnant at
once…
segunda-feira, 23 de maio de 2016
terça-feira, 17 de maio de 2016
O PENINHA E AS GALAS
O PENINHA E AS GALAS
O Peninha, coitado, anda sempre à cata de eventos sociais, nomeadamente adora Galas de canais de televisão, revistas e não perde uma.
Tem uma agenda amovível que vai actualizando com antecedência para não falhar.
O Peninha, coitado, anda sempre à cata de eventos sociais, nomeadamente adora Galas de canais de televisão, revistas e não perde uma.
Tem uma agenda amovível que vai actualizando com antecedência para não falhar.
Foi assim à da REVISTA COSTAS, pois sendo uma publicação sobre fofocas e moda, tem muita visibilidade.
Achou que ficava bem ir de modérninho, tipo vestido com cuecas de flores garridas que deixava ver num rasgão das calças na zona das nádegas. Por acaso as calças eram de moiré adamascado em cor carmim e apertavam até aos calcanhares aonde cruzavam com um par de meias de vidro transparentes deixando ver o pelame.
Calçou-se com uns sapatos de verniz alaranjado em bico pontiagudo de matar baratas ao canto. Da cintura para cima vestiu uma camisa verde-salsa com folhos dos quais pendiam corações pequeninos que abanavam aos mais pequenos gestos. Por cima um casaco apertado de veludo preto.
O cabelo com gel estava penteado em forma de pirâmide e dos lados tinha rapado com a máquina zero.
Muitas pulseiras de pano com cores sortidas que tinha comprado numa loja do Martim Moniz, de uma orixá reformada.
Meteu-se num carro da Uber, enfim sempre era dia de festa e queria parar mesmo em frente da passadeira de honra.
Ao sair do carro, veio uma polícia de serviço que lhe disse de impromptu:
- Aonde pensa que vai assim vestido? O seu convite?
Peninha não tinha de facto convite mas pensou que com este traje seria logo confundido com uma star da constelação da REVISTA COSTAS.
Achou que ficava bem ir de modérninho, tipo vestido com cuecas de flores garridas que deixava ver num rasgão das calças na zona das nádegas. Por acaso as calças eram de moiré adamascado em cor carmim e apertavam até aos calcanhares aonde cruzavam com um par de meias de vidro transparentes deixando ver o pelame.
Calçou-se com uns sapatos de verniz alaranjado em bico pontiagudo de matar baratas ao canto. Da cintura para cima vestiu uma camisa verde-salsa com folhos dos quais pendiam corações pequeninos que abanavam aos mais pequenos gestos. Por cima um casaco apertado de veludo preto.
O cabelo com gel estava penteado em forma de pirâmide e dos lados tinha rapado com a máquina zero.
Muitas pulseiras de pano com cores sortidas que tinha comprado numa loja do Martim Moniz, de uma orixá reformada.
Meteu-se num carro da Uber, enfim sempre era dia de festa e queria parar mesmo em frente da passadeira de honra.
Ao sair do carro, veio uma polícia de serviço que lhe disse de impromptu:
- Aonde pensa que vai assim vestido? O seu convite?
Peninha não tinha de facto convite mas pensou que com este traje seria logo confundido com uma star da constelação da REVISTA COSTAS.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
O Guardador de Rebanhos
Eu Nunca Guardei Rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa)
Do livro “O Guardador de Rebanhos”
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa)
Do livro “O Guardador de Rebanhos”
domingo, 15 de maio de 2016
quinta-feira, 12 de maio de 2016
DILMA
DILMA
Fez muitas asneiras, com certeza, terá a consciência pesada de acções e omissões, corrupções, cumplicidades.
Estava no Brasil quando foi a posse dela e fiquei entusiasmado com o discurso, a pose de mulher só num país herdado de Lula, corajosa no que disse que queria e que ia fazer. Até me lembro de ter comentado e escrito do Brasil para os meus amigos.
Fui durante três anos muitas vezes a terras de Vera Cruz, quase a cada três semanas , e a vários Estados, e estive com quase todos estes que agora estão implicados - Odebrechts, Camargos Corrêas, Votorantins, etc e óbviamente não era conhecedor do que faziam ou não de pouco correcto no país deles, mas sentia-se no ar uma esperança e mesmo os meus amigos mais direitistas lhe davam o benefício da dúvida.
Em algumas das fotografias que a imprensa publica das manifestações anti-Dilma, vêem-se dondocas esticadas, com grandes bocarras pintadas mas inertes, pretensamente a gritar e a festejar. Os homens e rapazes não parecem melhores: lembram os corruptores que se congratulam pela chance de recomeçarem com nova gente ou até movendo-se na sombra para a instauração de uma reforçada ditadura militar. Sente-se no que dizem e apregoam, que era o que lhes apetecia.
Conheci gente perto de Dilma e sei que houve muita podridão, conspurcação do exercício legítimo e limpo do poder para que foi eleita e muitos apaniguados à sua volta a sugarem da máquina do poder. A falta de tudo o que diferencia os maus dos bons, não engana.
No entanto....esta fotografia de uma Presidenta desolada, a sair cabisbaixa do seu pelouro não deixa de nos chamar a atenção para quão fátuo o poder é...
Fez muitas asneiras, com certeza, terá a consciência pesada de acções e omissões, corrupções, cumplicidades.
Estava no Brasil quando foi a posse dela e fiquei entusiasmado com o discurso, a pose de mulher só num país herdado de Lula, corajosa no que disse que queria e que ia fazer. Até me lembro de ter comentado e escrito do Brasil para os meus amigos.
Fui durante três anos muitas vezes a terras de Vera Cruz, quase a cada três semanas , e a vários Estados, e estive com quase todos estes que agora estão implicados - Odebrechts, Camargos Corrêas, Votorantins, etc e óbviamente não era conhecedor do que faziam ou não de pouco correcto no país deles, mas sentia-se no ar uma esperança e mesmo os meus amigos mais direitistas lhe davam o benefício da dúvida.
Em algumas das fotografias que a imprensa publica das manifestações anti-Dilma, vêem-se dondocas esticadas, com grandes bocarras pintadas mas inertes, pretensamente a gritar e a festejar. Os homens e rapazes não parecem melhores: lembram os corruptores que se congratulam pela chance de recomeçarem com nova gente ou até movendo-se na sombra para a instauração de uma reforçada ditadura militar. Sente-se no que dizem e apregoam, que era o que lhes apetecia.
Conheci gente perto de Dilma e sei que houve muita podridão, conspurcação do exercício legítimo e limpo do poder para que foi eleita e muitos apaniguados à sua volta a sugarem da máquina do poder. A falta de tudo o que diferencia os maus dos bons, não engana.
No entanto....esta fotografia de uma Presidenta desolada, a sair cabisbaixa do seu pelouro não deixa de nos chamar a atenção para quão fátuo o poder é...
E também
para quem, como eu, que gosto da magnanimidade, na hora incerta e
infeliz, de solidão e aflição...o que se deve é respeitar os vencidos.
Compete a quem de direito julgar, fazer pagar e culpar ou não dando direito à defesa, mas é com o silêncio que, como seres humanos, devemos olhar para quem sai derrotada e amargurada.
Quem sabe, alguma vez, nas nossas vidas e à nossa medida, não tenhamos já sentido este sabor da derrota.
Compete a quem de direito julgar, fazer pagar e culpar ou não dando direito à defesa, mas é com o silêncio que, como seres humanos, devemos olhar para quem sai derrotada e amargurada.
Quem sabe, alguma vez, nas nossas vidas e à nossa medida, não tenhamos já sentido este sabor da derrota.
terça-feira, 10 de maio de 2016
segunda-feira, 9 de maio de 2016
sexta-feira, 6 de maio de 2016
O PENINHA EM MOÇAMBIQUE COM O PRESIDENTE MARCELO.
O PENINHA EM MOÇAMBIQUE COM O PRESIDENTE MARCELO.
O Peninha é muito amigo de um sacerdote da Comunidade de Santo Egídio, em Roma, de nome padre Ritalino.
Ora tendo ouvido dizer que o Presidente Marcelo passaria por Roma a caminho de Maputo, o Peninha antecipou-se e meteu-se num voo da Air Belin (um láu cost, como dizem os que nunca aprenderam inglês) e partiu uns dois dias antes, para se confessar ao padre Ritalino e tentar sacar antecipadamente algumas informações.
Assim sendo, tendo chegado ao albergue das Doroteias que alugam quartos mais baratos em Roma, telefonou para a dita Comunidade de Santo Egídio e marcou para o dia seguinte de manhã o sacramento da reconciliação com o padre Ritalino.
- Ciao, estás bom? – começou por perguntar o padre Riatalino ao Peninha, que de joelhos estava na grelha do confessionário.
- Saiba V. Reverência que sim, estou bonzinho. Gostava de lhe
fazer umas perguntas sobre a vossa ida a Moçambique com o meu Presidente, pois ouvi dizer que iam dar uma mãozinha à Renamo e tentar um acordo com a Frelimo.
- Primeiro o dever, mio figlio. Vou-te ouvir em confissão.
Peninha já não se confessava há muitos anos, tinha perdido o treino e nem se lembrava dos eventuais pecados que tivesse feito.
- Olha, como tem sido a tua sexualidade Peninha? Muitos pecados contra a carne, maus pensamentos, actos e omissões? Conta-me ao detalhe, figlio mio!
- Olhe padre Ritalino: tanto quanto me lembro não vejo carne já há uns bons anos, pois sinto-me desajeitado, sem romantismo e sempre com a cabeça ocupada com a maldita da política! Maus pensamentos tenho tido muitos contra o BE, o PCP, mesmo contra o Costa e ultimamente sonho com o PPC e o Paulo Portas no inferno. Em actos, e como estou no estrangeiro não há perigo de se saber, confesso que foi com gosto que ajudei vários banqueiros relapsos a esconderem o dinheiro nas offshores…fui, vá, o portador das notas..muitas notas, muitos milhões..
- Mio figlio, se foi por uma boa causa, fizeste bem. Mas, tu não tens uma namorada, uma amiga assim mais íntima com quem estejas assim mais caldo? Capisce?
- Padre Ritalino, caldo só como de vez em quando do verde com chouriço e sem batata pois dizem que engorda. Andei aí enrolado com uma deputada do PC, a dª Odete Santos, mas nada de sexo. Só estratégia política. De feia que era só me causava prejuízos quando com ela era visto.
- Figlio, fala-me agora da tua vida material? Pensas muito em dinheiro? Roubaste alguma vez?
- Sim, gosto muito, mas tenho pouco. Só gostava de ter mais para dá-lo todo, todinho ao meu ídolo. Seria para financiar tudo o que ele quisesse, assim ele me ligasse mais.
- Mas figlio, Deus olha para todos de igual e se o teu ídolo é Deus, Ele vai-te ajudar. Fiquei muito comovido com a tua sinceridade do coração e pelo amor que sentes pelo Altíssimo.
- Mas padre Ritalino, qual Deus nem qual carapuça! O meu ídolo é o Presidente Marcelo! Por isso, com sacrifício vim aqui a Roma para que o possa ajudar na missão nobre que intenta fazer em Moçambique. Diga-me pois, há algum plano com os senhores para apresentar à Renamo?
- Olha não te devia falar nisto, mas como temos ambos o dever de segredo, vou-te dizer qual é o plano: o Presidente Marcelo vai propor à Renamo uma verba mensal de 30 milhões de dólares para se manter a paz. O dinheiro sai parte do OE Português, outra parte de um fundo de várias empresas portuguesas que lá têm negócios em Moçambique e finalmente uma significativa tranche das receitas do jogo de Macau. Mas tu guarda para ti. O que tem estado a emperrar é o Costa, que não consegue arranjar o dinheiro da contribuição do OE Português…mas já o disse em petit-comité que quem vai pagar esta fatia de leão é o povo português, através dos seus contribuintes!
- Mas então é só isto que ele lá vai fazer? – perguntou descorçoado e perplexo o Peninha.
- Sim é isto só mesmo. O resto é folclore e até consta que vai ser o Governo de Moçambique que vai emprestar a Portugal o dito dinheiro, o qual por sua vez volta a mandá-lo para Maputo. Olha figlio mio, é uma grande trapalhada.
O Peninha recebeu a absolvição e levantou-se titubeante, pesaroso e com um progressivo desencanto no seu Marcelo.
Então todo este folguedo na imprensa, estas parangonas e estes planos de paz que foram mencionados por alto, nada têm a ver com Moçambique?
Peninha foi chorar amargamente para junto da Fontana dei Trevi. Estava ele assim tristonho quando uma mão se poisou no ombro caído de Peninha.
- Quem és? – perguntou Peninha para um homem dos seus sessenta e muitos anos que o contemplava com um ar amigo, com um boné na cabeça um pouco descaído, com uma capa à espanhola…tipicamente, um embuçado!
- Eu sou o Marcelo!
domingo, 1 de maio de 2016
À MEMÓRIA DA MINHA MÃE
À MEMÓRIA DA MINHA MÃE
Fui ao cinema. Voltei com fome pois não tinha jantado. Fiz-me uma bela ceia. Reparei que já era o dia da Mãe. Antigamente era no dia 8 de Dezembro. Pouco importa.
O que importa sim, é pensar nas saudades que eu tenho da minha Mãe.
O tempo vai esbatendo a ausência e quando sobretudo sobrevêm tempos
mais difíceis, no mundo, em Portugal, nas famílias, se não se tem
cuidado não se cuida do passado bom…um pouco como no colesterol (há o
bom e o mau!).
E o passado bom é o de uma Mãe normal, equilibrada, generosa, inteligente, bonita, bondosa, atenta, dotada de qualidades artísticas para escrever prosa, poesia e peças de teatro, amiga das suas e seus amigos, Mulher e Filha exemplar…tantos encómios que eu faço sem me poupar, pois senti tudo isto na minha vida vindo dela. E testemunhei a prática junto dos outros.
Defeitos também os tinha mas hoje que é o dia da Mãe, não é a ocasião para falar de imperfeições…que nunca abafaram, porém, as suas qualidades.
Apetece-me elevar-me acima do meu dia-a-dia e da sua rotina cinzenta e voltar a sentir a ternura, o brilho nos olhos, a protecção, o amparo e refúgio que encontrei sempre na minha Mãe, para além de uma grande cumplicidade e interesse em tantas coisas afins e igualmente díspares com respeito mútuo pelas diferenças.
De facto o passado não volta e é estúpido e incauto viver só dele, mas tenho pena que o futuro não possa contar com a presença de quem tanto amei.
Não posso deixar de constatar que se foi uma Mãe extraordinária, muito do que fez e conseguiu foi devido também ao amor que o meu Pai por ela tinha e que tanto a fez feliz, projectando essa harmonia nos seus filhos com uma estabilidade exemplar.
Gostava de poder acreditar que um dia voltarei a estar com esta minha Mãe terrena, aquela a quem dei beijinhos, apertei nos meus braços, dei as mãos, chorei junto e socorri nos últimos tempos da sua vida.
Não me interessam especialmente nuvens, nem almas, nem infinito. Deixo sempre uma porta aberta para a novidade. Oxalá ela exista!
Mas o principal testemunho é o de amor e saudades imensas pela sua ausência. Acho que é muito bom e consolador dizer isto de alguém, sobretudo se é a minha Mãe.
E o passado bom é o de uma Mãe normal, equilibrada, generosa, inteligente, bonita, bondosa, atenta, dotada de qualidades artísticas para escrever prosa, poesia e peças de teatro, amiga das suas e seus amigos, Mulher e Filha exemplar…tantos encómios que eu faço sem me poupar, pois senti tudo isto na minha vida vindo dela. E testemunhei a prática junto dos outros.
Defeitos também os tinha mas hoje que é o dia da Mãe, não é a ocasião para falar de imperfeições…que nunca abafaram, porém, as suas qualidades.
Apetece-me elevar-me acima do meu dia-a-dia e da sua rotina cinzenta e voltar a sentir a ternura, o brilho nos olhos, a protecção, o amparo e refúgio que encontrei sempre na minha Mãe, para além de uma grande cumplicidade e interesse em tantas coisas afins e igualmente díspares com respeito mútuo pelas diferenças.
De facto o passado não volta e é estúpido e incauto viver só dele, mas tenho pena que o futuro não possa contar com a presença de quem tanto amei.
Não posso deixar de constatar que se foi uma Mãe extraordinária, muito do que fez e conseguiu foi devido também ao amor que o meu Pai por ela tinha e que tanto a fez feliz, projectando essa harmonia nos seus filhos com uma estabilidade exemplar.
Gostava de poder acreditar que um dia voltarei a estar com esta minha Mãe terrena, aquela a quem dei beijinhos, apertei nos meus braços, dei as mãos, chorei junto e socorri nos últimos tempos da sua vida.
Não me interessam especialmente nuvens, nem almas, nem infinito. Deixo sempre uma porta aberta para a novidade. Oxalá ela exista!
Mas o principal testemunho é o de amor e saudades imensas pela sua ausência. Acho que é muito bom e consolador dizer isto de alguém, sobretudo se é a minha Mãe.
sábado, 30 de abril de 2016
TEXTO MUITO BONITO DE PAULO VARELA GOMES, que hoje morreu
TEXTO MUITO BONITO DE PAULO VARELA GOMES, que hoje morreu
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.
Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.
Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.
Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.
Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos.
Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.
Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer.
As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.
Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…”
Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.
Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães.
Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde.
E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado.
Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta.
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe.
Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.
Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se.
Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.
Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore.
Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.
Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:
“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.
S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015
Paulo Varela Gomes,
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