sábado, 9 de abril de 2016

O PENINHA E OS PAPÉIS DO PANAMÁ


O PENINHA E OS PAPÉIS DO PANAMÁ

O Peninha dormiu mal de noite de ontem para hoje só de pensar na edição do Expresso com os nomes dos portugueses implicados nos “Panama papers”! É que o Peninha anda alvoroçado com todo o frenesim à volta do assunto e acha que é chic constar da lista.

Ouviu na tv, um jornalista dar a explicação do que é uma offshore e pôs-se a pensar se na família teria havido alguma para trás. Por aquilo que percebeu, ter dinheiro numa offshore é esconder de alguém esse dinheiro.

Peninha tem uma ideia vaga de que o avô Libório, que era dado a senhoras e a jogatana em casinos clandestinos lá para o Senhor Roubado, escondia da avó Marcolina o dinheiro que ganhava, para o poder gastar com a Alcina, meretriz conhecida como tendo muitos amásios.

Talvez, se encontrasse a Alcina, que já deve ter para cima de 80 anos, lhe pudesse pedir um papel confirmando quanto o avô lhe pagava e assim entregar no Expresso, provando que tinha havido desvio de fundos do seio familiar.

Leu de fio a pavio o artigo do jornal e ficou decepcionado.

Pensou logo que tinha que aparecer o seu nome para dar brilho, distinção e criar suspense.

Decidiu ir levantar ao BES MAU as suas poupanças e dirigiu-se ao Martim Moniz aonde lhe tinham falado de uma sobreloja aonde faziam offshores rápidas e já com problemas de legalidade. Era o que ele queria, assim seria apanhado de imediato, durante o correr da semana, e com sorte apareceria na edição do Expresso do próximo Sábado, sim porque tinha percebido que ainda tudo estava no princípio.

Tocou a uma campainha de uma porta de vidro “opaco” que dizia em letras garrafais: “Fazem-se offshores ao minuto”! Abriram-lha de seguida, e eis que entra dentro de uma sala cheia de posters nas paredes com vistas de praias, mar, montanha, neve e pensou – que raio, mas isto é uma agência de viagens!

Um paqui com um ar manhoso mandou-o sentar e perguntou-lhe: - Quer frôr?

Meio perplexo, considerou que seria talvez uma pergunta em código e respondeu:- aonde fazem offshores?

- Ah, momento – disse o paqui – é aqui na sala ao lado.

Levantou-se e entrou numa sala com fotografias de vários estabelecimentos prisionais, barras de ferro, celas e em vários países do mundo. Imediatamente percebeu que pertenciam aos países aonde secretamente se podiam fazer offshores.

Duas cadeiras de pau, incómodas e duras e um outro paqui, estendeu-lhe a mão e apresentou-se: - Fonseca de Karachi!

Começaram a conversar e da lista apresentada, Peninha escolheu uma assim mais perto para ser possível ser apanhado com rapidez, sempre com o fito de aparecer no Expresso.

A opção recaiu em Beja, numa offshore situada dentro do aeroporto. O Fonseca explicou-lhe as vantagens:
- perto
- deserto e por isso discreto
- tem uma única máquina ATM, podendo fazer levantamentos facilmente identificáveis
- consta que foi construído com fundos resultantes de uma corrupção de um Governo, que Fonseca, se esquecera qual era, talvez até de vários, mas com verbas gastas muito acima das necessárias, dando por isso um bom escândalo, quando descoberto..
- processo conhecido, nada do tipo Panamá que ninguém sabe aonde é

A Peninha pareceu-lhe o ideal e pagando o custo – que achou bastante razoável – saiu com um pacote de documentos cheios de carimbos e textos que nem leu, mas que deveriam seguramente relatar ao detalhe as modalidades do offshore que acabara de constituir.

Meteu tudo num envelope grande, e por fora escreveu a letras encarnadas: DELAÇÃO ANÓNIMA – offshore. CONTRIBUTO de um CIDADÃO CUMPRIDOR.

Reflectiu se devia assinar, mas seria contraditório em relação ao título de denúncia anónima.

Quando começassem a escarafunchar logo descobririam nos papéis que se tratava dele próprio.

Pelo sim pelo não, escreveu em letra miudinha uma pista…..Senhor Roubado!

Ficou com uma cópia dos documentos da offshore e foi deitar o sobrescrito na caixa do correio do Expresso.

domingo, 3 de abril de 2016

A VISITA ÍNTIMA À PRISÃO DE ALTA SEGURANÇA


A VISITA ÍNTIMA À PRISÃO DE ALTA SEGURANÇA

Mari Cármen, tinha apanhado o comboio em Bilbao para vir a Portugal, para mais uma vez visitar o companheiro que estava preso. A cada mês tem direito a uma visita íntima: tem que trazer a roupa de cama completa, desde os lençóis às fronhas e um par de toalhas para se lavarem num duche incómodo e muitas vezes com água fria, depois de fazerem amor.

Vem no comboio transcantábrico, em segunda classe, em bancos quase de pau de duros que são e durante umas quantas longas horas não consegue adormecer. São viagens cansativas, deixando para trás a sua vida que já está organizada com as filhas pequenas, a família, as suas ocupações…no fundo a rotina de uma vida simples mas que consegue levar por diante.

O companheiro, claro que faz falta e sabê-lo na prisão é para ela e para as filhas um motivo de tristeza. Mas a vida continua e nos esforços que faz para a sua libertação, congregando apoios políticos e jurídicos, é genuína e quer vê-lo fora assim que puder.

Mas o passageiro da frente olha para ela despudoradamente, para as suas pernas meias de lado com a saia travada e subida, pois já não tem posição no banco, para a sua blusa aberta aonde espreitam dois seios ainda fortes e bem-feitos – ela não tem mais de 29 anos – e a sua cara bonita, um pouco deslavada pela viagem, a qual acaba por ser sensual com dois olhos de longas pálpebras e uns beiços carnudos e incolores.
Ela sabe que lhe custa ser fiel: tem os seus desejos, tem quem a deseje, sente-se muito sozinha e o captiveiro do companheiro ainda vai durar mais alguns anos.

Nestas vindas para saciarem a fome de sexo que têm um pelo outro, tudo é ao contrário do que deveria ser. A viagem mói o corpo - porque diabo é que num dia marcado e durante duas horas é que o líbido tem que estar desperto, sobretudo nela…nele seguramente que sim, privado que está de qualquer contacto e passando 90% do dia na sua cela, sozinho.

Mas quando se encontram e se despem tremendo de desejo, se beijam, se apalpam e se rebolam na cama que range e que serve de ninho de amor para todos, tudo esquecem e são dois corpos ardentes que se interpenetram.

É um misto de amor e sensualidade, erotismo nos jogos de amor que celebram, esquecendo-se da nudez da sala aonde existe uma cama velha, e grades nas janelas.

Depois vem a saciedade de terem conseguido fazer amor à loucura, mas sabem que o tempo está a consumir-se para voltarem a estar separados.

E choram abraçados de tristeza, de emoção já com saudades ainda antes da partida!

Deixam para o fim as conversas e os recados e ele quer saber das filhas pequenas, se estão bem, se falam nele, no fundo quer saber da vida no dia-a-dia como que se lá tivesse estado…e desistem os dois, pois cada um tem o seu espaço e distância.

O guarda vem abrir a porta e os olhares de tristeza e de separação ficam a perder-se na lonjura do afastamento até a porta se fechar.

O regresso à cela é penoso e atira-se para a cama com a cabeça entre as mãos…

Mari Cármen, faz tudo no regresso o que fez na vinda…mas abandonada ao cansaço e ao desânimo.
Mas ambos sabem que um dia a vida voltará a ser possível para os dois. O que é preciso é saber aguentar e não desistir.

À CONSIDERAÇÃO SUPERIOR

À CONSIDERAÇÃO SUPERIOR

Alguém me dizia que as grandes datas do catolicismo como o Natal e a Páscoa, precedidas respectivamente pelo Advento e a Quaresma podem ser momentos de paragem e de reflexão da vida de cada um.

Pouco importa o credo; entendo que se deve periodicamente analisar o “curso das estrelas” da nossa vida, ainda que sem ser de forma obsessiva e doentia, mas como meio de prevenção.

Até aqui nada de novo, por ser tão evidente e de senso comum.

Já quando metemos a mão bem fundo na nossa consciência o resultado é outro. Varia de pessoa para pessoa, mas há sintomas comuns a pessoas comuns. E é dessas que estamos a tratar agora.

Atingindo-se uma idade a partir dos 60, quer por razões de menos operatividade, ou de um corpo que se ressente de uma vida cheia e às vezes menos regrada, ou mesmo de doenças crónicas, ou de crises financeiras pessoais ou do país aonde se vive, para não falar de guerras, violência….assiste-se a um decréscimo de entusiasmo pela vida e encara-se o futuro com algum desencanto, senão mesmo desespero ou neurastenia, dependendo, obviamente, de cada situação.

Por outro lado, para quem tem famílias e descendentes, formam-se novos núcleos familiares e é habitual que os filhos se dediquem mais intensamente às suas próprias vidas e da dos seus do que à dos progenitores.

Cria-se assim um fosso relacional entre várias gerações, sobretudo agudizado hoje em dia pelas solicitudes da vida moderna, trazendo problemas àqueles que sendo mais velhos, voltam a estar numa situação de carência de alguma protecção, desvelo, atenção e assistência.

Verifica-se, nomeadamente em Portugal, por falta de condições económicas e de apoio institucional do Estado, a uma diminuição gritante da qualidade de vida e de bem-estar, vulgo felicidade, que faz aumentar exponencialmente os suicídios, a apatia, o desejo da chegada da morte e sem embargo, tantas vezes, de uma eventual esperança de vida num número ainda significativo de anos que poderia ser gozado de outra forma.

Será que não há nada a fazer?

Não tenho a certeza se as organizações/instituições e as pessoas que se dedicam a estes problemas e que com tanta boa vontade, generosidade, altruísmo e disponibilidade estão a cada dia a dar apoio a esta geração, conseguem entender realmente o que é preciso para dar nova esperança e ainda chegar a tempo de recuperar uma boa percentagem de gente potencialmente válida e desejosa de desempenhar o seu papel na sociedade.

Esmiucemos o que quero dizer com este último parágrafo. Não falo daqueles que sem grande chama ou inteligência desde quase sempre foram pessoas sem interesse ou cinzentas: para estes é muito mais fácil fazer a transição e tornarem-se umas criaturas quase vegetativas, com uma vida rotineira quase igual à anterior, não fora a idade, a situação de reforma, ou alguma doença inibidora de alguma actividade.

Refiro-me a quem pense, leia, escute e intervenha e acompanhe o seu tempo, participando ainda pública ou privadamente na sociedade civil, viajando, apreciando mais a natureza, frequentando tertúlias intelectuais…
Estes são o contrapeso da irreflexão, da imprudência na governação dos povos, da inexperiência sobre o bem e o mal, do conforto na dor e na vivência da alegria. São preciosos auxiliares na formação de netos e o recurso de filhos desorientados.

Naturalmente que este quadro mirífico que traço, nem sempre corresponde a uma percentagem elevada de “qualificados”…mas em cada um de nós há sempre uma parte mais pequena ou maior de todos estes ingredientes.

E se muitas vezes se queixam de um certo abandono a que por vezes são votados na defesa “corporativa” dos seus interesses, é bem verdade que se quiserem organizar-se e constituírem forças de pressão na sociedade, mais fácil tornam o apuramento de novos caminhos e soluções.

Não há hoje em dia, muita tolerância para um capital de queixa, dado que actualmente na maioria dos países ditos civilizados, em regimes democráticos, a iniciativa é totalmente livre e existem inclusive, meios à disposição, assim fossem os interessados mais organizados.

Volto ao início do meu texto sobre os momentos necessários à interiorização.

Este é um tema que pode servir para ser proposto a quem de direito e no actual momento, tendo nós um Presidente da República que deseja um mandato de proximidade e afectos, bem faria em considerar este tópico para um dos seus pilares de actuação como Presidente de todos os Portugueses, pois abarca um número significativo de governados, com o sentimento de alguma “orfandade”.

sábado, 2 de abril de 2016

O PENINHA NO CONGRESSO DO PSD


O PENINHA NO CONGRESSO DO PSD

O Peninha levantara-se cedo na 6f para rumar a Espinho. Tinha sido inscrito como Congressista pelo círculo do Senhor Roubado, aonde mora há anos.

Tomou o foguete, sim, porque não tem dinheiro para mais e beneficiando já de um preço especial como inválido do comércio. Cobram meia-tarifa de ida e volta. Tivera um acidente lá na taberna do Folião, mesmo à saída do Senhor Roubado, quando rebolando um pixel de carrascão para substituir na taberna o que findara, tropeçou, desajeitado, caiu e ficou com uma perna por debaixo do pixel pesado.

Felizmente que a torneira do vinho ficou ao alcance da boca e enquanto, aflitos, os vizinhos procuravam socorro, foi-lhe bebendo do tinto. Foi em serviço, disseram na junta médica, e passaram-lhe um atestado de deficiência para o trabalho com um grau de 40%. Sim, porque de cabeça continuara estupendo.

Mas enfim, sempre defendera uma única via, a da social-democracia, e pareceu-lhe que PPC estava numa de vir a fazer ataques ao Presidente Marcelo, que Peninha venerava. Estava mesmo decidido a intervir se fosse caso disso.

O que apreciava no Presidente Marcelo era a modéstia no vestir, sempre com a mesma gravata azul lisa, a sua dieta que cumpria escrupulosamente, o seu saber de música moderna e sobretudo a sua filiação no Braga. Peninha fizera-se até sócio desse Clube apesar de nada ter dito no Senhor Roubado, pois sendo um filho-da-terra seria uma desfeita não ser do Recreativo Roubadecence.

Quando se aproximou do Pavilhão dos Congressos, teve assim uma comoção interior e pensou: nada como os amigos para defenderem quem possa vir a ser atacado, pois viu por ali muita chusma de oportunistas, fracas figuras, tudo gente do comércio e da corrupção, e nada dos genuínos, vá dos antigos da fundação.

Roçou-se pela Isilda Martins, jornalista reformada do Jornal de Santo Ildefonso, que conhecera quando fizera a tropa e ao saudá-la, lembrou-lhe que estava disponível para comentar o Congresso, assim ela quisesse.

Quando todos se levantaram e aplaudiram o discurso de PPC, ele ficou dignamente sentado e nada disse nem fez. No final, aproximou-se da mesa e inscreveu-se para falar, mas disseram-lhe que só havia vaga para perto da meia-noite e era bem possível que a essa hora os últimos oradores inscritos tivessem que desistir.

Foi ruminando o discurso e o sangue começou a ferver-lhe! Que topete o de PPC o de tentar sub-repticiamente intuir que o Presidente Marcelo poderia estar a fazer o jogo do PM! Mais ainda, com um ar superior e protector, veio dizer que o PSD e ele próprio não deixariam de evitar que o Presidente Marcelo fosse manipulado pelo Governo!

O raio das horas foi passando, desfilando uma série de energúmenos que botavam faladura sobre assuntos chatos e inócuos e quando chegou a sua vez, restavam na sala duas empregadas da limpeza, que se declararam do PCP e o montador de som do Partido.

Subiu com dignidade ao palco, toldado pela emoção e julgou ver a sala apinhada de militantes e num ímpeto de entusiasmo e patriotismo gritou bem alto: - Viva Portugal!

Começou a cascar em PPC e a defender o Presidente Marcelo, mas subitamente o afinador de som, gritou-lhe pelos altifalantes. – Terminou a sua intervenção.

Jurou que tinham passado pelo menos trinta minutos e o som das palmas não tinha fim.

Aproximou-se da mesa do Congresso, cumprimentou o Presidente e os Membros, olhou para os restantes partidários que se sentavam atrás e disse:
- Defendi com unhas e dentes o meu Presidente e não tenho medo de represálias! Peninha do Senhor Roubado, a Odivelas. Militante número….ó diabo falhou-lhe a memória mas não deixou de acrescentar: - ao vosso serviço!


quinta-feira, 31 de março de 2016

que pouca vergonha

Enganei-me esta manhã em duas transferências do home-banking on-line de um banco espanhol, tendo trocado as verbas referentes aos destinatários noutros dois bancos. Acontece a quem acorda já muito bebido...

Telefonei 5 minutos depois de ter feito as transferências e o funcionário que me atendeu e a quem expliquei a situação e pedi para cancelar as transferências para as corrigir, informou-me que me custaria € 25,00 + Imposto do Selo por cada anulação!!!! Fiquei indignado e ele impávido disse que era assim. Reparei entretanto que já me tinham cobrado €1,25 + Imposto do Selo por cada transferência on-line (das erradas).

Tendo tido um 5ª Avô e vários outros irmãos que foram Conjurados de 1640, estou a pensar ir prender a Duquesa de Mântua, defenestrar o traidor Miguel de Vasconcelos, dirigir-me a Madrid e enforcar o Iglésias do PODEMOS e instaurar a soberania Portuguesa sobre a Espanha.

Que pouca vergonha! O ideal é o de ou se ser pobre e não precisar dos bancos, ou ser dono de um banco e portanto ser mais ou menos ladrão, ou então ser muito rico e ter em casa guardado o cacau num cofre-forte ou cofre lateral num colchão, que ele já o há agora à benda...

segunda-feira, 28 de março de 2016

QUE CHATICE, HOJE SINTO-ME TRISTE!

QUE CHATICE, HOJE SINTO-ME TRISTE

De vez em quando é preciso saber estar triste. Estou a ouvir o álbum duplo de Luciano Pavarotti – o melhor de Pavarotti – que me acompanha há muitos anos e que oiço em tom alto, deixando a sua voz tonitruante e maravilhosa insinuar-se dentro de mim.

Fico sempre assustado e ao mesmo tempo encantado, com a magnificência da vida! Tudo pode acontecer num momento: um acidente vascular, um atropelamento, uma bomba que explode ao nosso lado, a lembrança de momentos de doçura na nossa meninice, de uma sã irresponsabilidade, e para quem, como eu e os meus irmãos que tivemos uns Pais formidáveis e também uns Avós de ambos os lados impecáveis, este enfrentar de um polvo com os seus tentáculos torna-se de vez em quando amargurante.

Esta fotografia cinzenta que aqui publico descreve como eu vejo o dia: cinzento, calmo de mais, malgré tout, com pássaros a voar, mas deprimente.

Não está um mundo fácil e apesar dos conselhos avisados que estou a intuir me podem dar os que de mim gostam:

- reza, pede e entrega-te
- faz silêncio à tua volta
- toma um calmante
- tira umas férias
- aguenta-te pois há quem sofra, esteja a morrer, não tenha aonde e como viver neste mundo, sozinho

E por aí além…

Estarão de acordo que a mais fácil é a segunda, a mais real, a que produz efeitos imediatos, bons ou maus, a cada um serve mais ou menos.

A primeira, é uma manifestação de fé a qual por definição não tem um alvo visível e palpável…!meu Deus fazei que eu me sinta melhor das dores de cabeça, que eu feche o negócio de petróleo, que não morra amanhã…e tantos outros wishful thinking….

A terceira tem a eventual duração do efeito do calmante…

A quarta, para além de estarmos a sair do inverno, é cara para ser boa, e não tenho a certeza que me apeteça.

A sexta, é de longe a mais pragmática, mas não alivia nem tira a tristeza.

Daí que a música, o tal silêncio que parece improvável com o som tremendo da voz do Pavarotti, e uma noite bem dormida talvez me ajudem.

Não faço esta declaração to "Whom it may be concerned", para me queixar ou pedir compaixão: faço-a como cidadão deste mundo, num tempo cronológico preciso, de aqui e hoje.

E as estrelas são minhas testemunhas

If


« Si tu peux voir détruit l’ouvrage de ta vie
Et sans dire un seul mot te mettre à rebâtir,
Ou perdre en un seul coup le gain de cent parties
Sans un geste et sans un soupir ;
Si tu peux être amant sans être fou d’amour,
Si tu peux être fort sans cesser d’être tendre,
Et, te sentant haï, sans haïr à ton tour,
Pourtant lutter et te défendre ;
Si tu peux supporter d’entendre tes paroles
Travesties par des gueux pour exciter les sots,
Et d’entendre mentir sur toi leurs bouches folles
Sans mentir toi-même d’un seul mot ;
Si tu peux rester digne en étant populaire,
Si tu peux rester peuple en conseillant les rois,
Et si tu peux aimer tous tes amis en frère,
Sans qu’aucun d’eux soit tout pour toi ;
Si tu sais méditer, observer et connaître,
Sans jamais devenir sceptique ou destructeur,
Rêver, mais sans laisser ton rêve être ton maître,
Penser sans n’être qu’un penseur ;
Si tu peux être dur sans jamais être en rage,
Si tu peux être brave et jamais imprudent,
Si tu sais être bon, si tu sais être sage,
Sans être moral ni pédant ;
Si tu peux rencontrer Triomphe après Défaite
Et recevoir ces deux menteurs d’un même front,
Si tu peux conserver ton courage et ta tête
Quand tous les autres les perdront,
Alors les Rois, les Dieux, la Chance et la Victoire
Seront à tout jamais tes esclaves soumis,
Et, ce qui vaut mieux que les Rois et la Gloire :
Tu seras un homme, mon fils. »

R. Kipling

sábado, 26 de março de 2016

O ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES em que me tornei

O ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES em que me tornei

Uma amiga minha queixou-se de que há muito não lê os meus escritos seja no meu blogue ou no facebook. Não é bem verdade, mas de facto tenho escrito menos, por falta de tempo.

Ando mais ocupado nos últimos tempos com uma presença de estrangeiros aqui em Lisboa em permanência o que me impede de ter disponibilidade e tranquilidade para me concentrar.

Aproveito assim esta tarde de Sábado de Aleluia, para pôr algumas ideias em dia.

Assim, comecemos pela minha vida: vou cada vez identificando mais o que quero ser e fazer, se bem que isto represente um não fácil desenraizamento;

No que respeita à ocupação do meu tempo diário, vou também sendo mais exigente com quem comigo interage, sejam nacionais ou estrangeiros. Publiquei ontem este meu pensamento que resume o que se perde tempo em coisas inúteis:

Parfois on est comme les petits enfants: on rêve tant de recevoir de bonnes nouvelles que si elles n'arrivent pas on se sent presque a défaillir de découragement et de apathie. On souhaite tant une chose, mais tant et si on raisonne logiquement on sait bien que ce sera impossible.

Em relação ao país, fora gostar do Presidente Marcelo e ser seu Amigo e esperar que o Governo vá aliviando a vida dos portugueses, confesso que não faço futurologia e vou vivendo como o futuro se nos apresenta. Já não tenho paciência para a política activa pois os seus agentes são de pouca categoria e em boa verdade, de todas as correntes ideológicas.

Quanto à Europa e ao mundo, se houvesse um éden aonde me pudesse acolher e viver uma vida simples na natureza, com ou sem parra, era para aí que me deslocaria.

Tratar dos animais e comer comida sã e frutos silvestres e deitar-me à beira de rios tranquilos debaixo de árvores frondosas..que bom seria.

Por isso, desejo ardentemente que alguém me elucide antecipadamente como é no Paraíso, mas de verdade, pois se for muito chato, não vou para lá.

Muitas amêndoas para todos, de preferência cobertas com chocolate e sobretudo procurem, procurem ovos de coelhinhos na relva pois nunca os encontrarão!

Right is right, even if nobody does it.

Right is right, even if nobody does it. Wrong is wrong, even if everybody is wrong about it.


Chesterton

quinta-feira, 24 de março de 2016

C'est la vie

Tenho estado meio calado nos últimos tempos, se bem que tanta coisa tenha vindo a acontecer. E ainda por cima coisas complicadas, terríveis umas, complexas outras.
Claro que observo, informo-me, espanto-me e pergunto-me.
Hoje li na imprensa internacional que a polícia belga e francesa anda há 3 dias atrás de um morto.
A rapaziada do Daesh deve estar a rir-se pelo baralhamento que causa.
Por outro lado o rapaz que está preso em Bruxelas só ao fim de 6 meses, diz que quer ir para França aonde presumo que levará coças monumentais pois foi lá que tudo começou, e nas cadeias não são para brincar...
Há no ar um desmerecimento da vida humana e morre-se com uma relativa facilidade, sem querer...ao chegar a um aeroporto, ao apanharmos o metro, ao tomarmos um café numa esplanada em Paris, etc..
Doenças novas e epidemias são aos molhos e paulatinamente parece-me, que se vai encarando a morte como algo de que se não pode fugir ou evitar. Nada que não saibamos já desde os tempos do saudoso Abel do éden...
Por isso, mais uma vez, reflicto se no meio de tantas lutas, despiques, maledicências pessoais e políticas, egos desproporcionados e arrogância, dificuldades, tantas vezes um estado constante de tristeza, de violência e opressão, de injustiças, de pobreza .. vale mesmo a pena aforrarmos pretensa felicidade como se de pacotes de açúcar se tratasse, arrumados a um canto da despensa just in case de vir a haver açambarcamento.
Eu acho que há que gozar a vida a cada dia e a cada momento ser atento a tudo quanto nos enche e àqueles a quem amamos, sejam animais irracionais...estou a dar a primazia ou racionais.
Vem a morte, vem a noite de velório normalmente, as carpideiras encomendadas ou aquelas por dever de ofício, enterra-se de manhã, ou passa-se a cinzas rapidamente, e à tarde a vida continua...Já cá não estamos, passámos a ser memória, muitas vezes má memória ou alívio e o relógio como o dos cucos...soa tic, tac, tic, tac, e às horas diz cu cu...
Quantas vezes apetece esganar o cuco, ou atirar-lhe com um cinzeiro pesado para o partir...porquê?
O passado é incómodo ou por omissão, ou por má acção, ou por indiferença e o que interessa é como nos testes de airbag dos carros...uns mais devagar outros mais rápido, acabamos sempre por bater com força contra a parede e explodir...
Só que nestes testes são bonecos e nem nos importamos...quero eu dizer bonecos=outros, mas um dia é o diabo, somos nós o boneco...
C'est la vie...

segunda-feira, 21 de março de 2016

clap...clap...clap

Rosé

Quando eu era jovem, a ideia de beber vinho rosé era o cúmulo da possidoneira. Hoje já não é. Aliás hoje já ninguém dá importância (espero!) a esse conceito ridículo do possidónio, que era um papão insuportável nos anos a seguir ao 25 de Abril, um fantasma do Antigo Regime ou, melhor, uma galinha decapitada que, grotescamente, ainda se movia – apesar de morta. Paz à sua alma.

Mas, naquele tempo, era algo (palavra possidónia) que nos acabrunhava (idem). Sobretudo para pessoas como os meus pais (recém-chegados, graças à elegância e inteligência próprias, ao mundo do bom gosto), era vital interiorizar todas as regras de comportamento dos não-possidónios, regras que eles transmitiram a mim e à minha irmã, criando assim uma esquizofrenia que caracterizou de forma caricata os meus primeiros vinte anos de vida – até ir para a universidade onde, rodeado de “possidónios”, comecei a perceber que tanto o vocabulário como a pronúncia do português sempre têm alguma variedade, graças a Deus.

Por outro lado, também percebi que, fora do círculo de intelectuais finos e de aristocratas literários que eram os amigos dos meus pais, havia muitas outras pessoas que valia a pena conhecer, independentemente de tratarem os filhos por tu, darem dois beijinhos e outras “possidoneiras” do género.

Sobretudo fui percebendo ao longo da minha vida que as regras herdadas do bom gosto (na fala, na interacção social, na decoração, na comida, nos vinhos, etc.) não eram dogmas imbuídos de infalibilidade papal, mas apenas opiniões subjectivas que tinham adquirido o estatuto de dogmas por isso ser um meio útil para manter à distância os não-iniciados.


No entanto, a antiga axiologia do possidónio era o mais perfeito exemplo dos perigos de se tomar a nuvem por Juno. É que, vistas de fora, de forma clínica e fria, as regras do comportamento “bem” não eram mais que um código combinado por um grupo. Sem qualquer valor intrínseco. Por isso seria disparate saltar para a conclusão de que quem dá só um beijinho e trata os filhos por você só por isso está habilitado para se pronunciar com infalibilidade sobre questões de gosto. Dar um beijinho é intrinsecamente mais “bonito” do que dar dois? A palavra “lábio” é intrinsecamente mais “feia” do que “beiço”? São códigos combinados, apenas. Sem qualquer outro valor.


Seja como for, o rosé era, de facto, a morte social. Aliás, naquele tempo mais ou menos tudo o que participava da cor “pink” era automaticamente possidónio. O que primeiro me alertou para o relativismo deste tipo de dogma foi conhecer amigas e amigos ingleses que, no seu país, pertenciam à chamada classe social “alta”. As regras, aí, eram totalmente diferentes; muitas vezes opostas. Em Inglaterra, o vinho rosé era chique: isso está, de resto, nos livros de Sacheverell Sitwell (neto do Duque de Beaufort, portanto da mais alta aristocracia da Europa). Um prato em porcelana de Sèvres do reinado de Luís XV (que vale o seu próprio peso em ouro) era considerado possidónio em Portugal; em Inglaterra, era o máximo do bom gosto. Sendo o prato o mesmo, como é que dois grupos aristocráticos, ambos auto-proclamados donos do bom gosto, podiam reagir de forma tão oposta? O terror português das cores (“tudo pintado de branco!”) não era partilhado pelos iluminados do bom gosto em Inglaterra, que se atreviam a pintar as suas salas e casas-de-jantar de amarelo, de lilás, de cor-de-rosa e sabe Deus que mais. Foi uma lição filosófica, pois eu nunca tinha sido obrigado, de modo tão cortante, a perceber a pura arbitrariedade das regras do gosto – área onde não há verdades absolutas: apenas opiniões subjectivas. Gostas de rosé – qual é o mal? Adoras porcelana de Sèvres – e depois?


Na verdade, não gosto especialmente de rosé; isto é, não desgosto, mas não me apaixona. Mas adiro com paixão à estética do reinado de Luís XV (como à do românico, do gótico, do Pártenon, de Matisse, n’importe): na arte há tantos paradigmas possíveis de beleza; uns tocam-nos, outros não. Para mim, Ange-Jacques Gabriel é um arquitecto muito mais interessante do que Siza ou Souto, mas isso é o meu gosto: não é nenhum dogma de fé. Quanto às cores que denotam “bom” ou “mau” gosto: actualmente tenho uma sala pintada de branco, mas quando comprei a minha casa de betão armado com vidros duplos, pintei a sala de cor-de-rosa. Os meus amigos ingleses diziam “what a marvellous colour!”; os portugueses, “foste tu que escolheste esta cor?”

Claro que, como mero professor universitário, nunca tive nem terei dinheiro para ter pratos do reinado de Luís XV, mas vivo perfeitamente bem sem eles – aliás, acho que o lugar deles é justamente no museu. Quando vou a Lisboa, ainda vejo pessoas a dar um beijinho e a tratar os filhos por você, ao que, da perspectiva da minha nova identidade coimbrã, acabo por achar piada. Eu próprio (confesso) também dou um beijinho às amigas de antigamente e trato por você (confesso) os filhos delas, que conheço desde que nasceram. Não o faço por acreditar no dogma de uma classe social a que não pertenço, mas por achar vagamente divertido. Mas o mais divertido é sentar-me nas belas casas-de-jantar impecavelmente pintadas de branco, com as suas pratas e porcelanas da Companhia das Índias, e ver à minha frente um copo de vinho rosé. Qualquer dia vai ser chique dar dois beijinhos e tratar os filhos por tu. Nas questões de gosto, é tudo tão arbitrário.

O Lugar Supraceleste, Livros Cotovia, 2015. por Frederico Lourenço

terça-feira, 8 de março de 2016

palavras para quê


Tous les mots que j'avais à dire se sont changés en étoiles.

Apollinaire

PRESIDENTE CAVACO E DIA DA MULHER





PRESIDENTE CAVACO E DIA DA MULHER

Dois pequenos apontamentos, num dia muito carregado de afazeres:

1.       Saída do Presidente Cavaco Silva: Muitas vezes o critiquei pois não estava de acordo com o estilo ou com a decisão! Mas hoje com o render da guarda, pergunto-me: quem sou eu? Que pesporrência achar que a minha opinião crítica (para além de a poder exprimir no voto quando entender) vale alguma coisa? Aliás a maioria dos facebookianos e opinion makers e jornalistas, estão em casa ou nos escritórios a debitarem críticas sem terem a maior das vezes a noção das dificuldades nem o conhecimento das circunstâncias em que as decisões são tomadas. Somos todos uns senhoritos que “cagamos” opiniões sobre o comportamento dos outros, sem mais! Por isso, hoje no último dia da sua Magistratura apetece-me desejar-lhe um fim de vida pessoal e política feliz com respeito e agradecimento pelo que de bem fez e pelo que de menos bem terá feito, seguramente que não me compete julgar. Mas já sei que serei apelidado de tudo com esta minha opinião, mas com sinceridade respondo que não me importo nem um minutinho e se me ofenderem ou forem malcriados, para além de tomar atitudes drásticas de eliminação…física ou moral, pagar-me-ão com língua de palmo , no inferno!

2.       Dia da Mulher : sim é simpático mas também é bom o dia do surf, do golf, da praia, das viagens, do dinheiro, do sexo…eu sei lá, de tantas efemérides. Por isso deviam as mulheres TODAS fazer um esforço para melhor nos tratarem pois os homens são imprescindíveis para o trabalho, para o lar, para a educação, para o prazer…topais? ahahahahahah

domingo, 6 de março de 2016

Tutto Pavarotti

“Tutto Pavarotti” é o álbum que me apeteceu ouvir, com a voz possante de Luciano a entrar-me pela sala em tom alto. Uma beleza!
Depois, adoro o italiano que falo e leio bem e as saudades de Itália fazem com que me apeteça lá ir em breve.
Como é possível que os governantes dos povos, não queiram criar bem-estar aos governados para que se possa estreitar os laços entre as civilizações, a interligação de culturas, a movimentação em paz e prosperidade entre as nações.
Há lá melhor coisa do que viajar! Quem alguma vez gosta da pobreza, da guerra, das chacinas, das bombas, dos roubos e violações? Pois é isto que se passa com cada vez mais frequência no mundo.
Há falta de tempo para olhar para a natureza, para ouvir os sons de músicas sublimes, de reflectir sobre o que é essencial.
Um deleite e um privilégio, apesar de tudo, de poder viver num país em paz e sem guerra.
Penso numa família antiga de amigos sírios de Aleppo, cujo pai era o Cônsul de Portugal, e que moravam num palácio milenar com um recheio estupendo e valioso.
Falo com eles agora para Beirute aonde se refugiaram e confessam-me com tristeza terem tudo perdido e o palácio, para além de pilhado, ter sido totalmente destruído.
Esta selvajaria dos homens, provém da sede de poder e de riquezas e vai destruindo progressivamente a Humanidade.
Termino esta pequena reflexão com esta ária napolitana “Core N’grato” de Cardillo primorosamente interpretada pelo meu sempre bem-amado Pavarotti.

O esquecimento não tem arte.

" Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."


Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

sexta-feira, 4 de março de 2016

O PENINHA E A POSSE DO PRESIDENTE MARCELO

O PENINHA E A POSSE DO PRESIDENTE MARCELO

Peninha não foi convidado para ir à posse, mas como é penetra vai tentar estar presente.

Gizou o seguinte plano: vai alugar no guarda-roupas Anahory, à Rua da Madalena, um traje de Simão Bolívar, que eles lá têm para o teatro.

Depois cola um bigode no buço, tisna a tez e pinta as sobrancelhas. Com voz gutural começa a falar venezuelano e apresenta-se na entrada dos Embaixadores, no Parlamento.

Está certo de que vai resultar.

Lá dentro e na galeria dos diplomatas, vai tentar sentar-se ao lado do Embaixador dos USA e em sottovoce vai deixar cair: - man, convida-me para um almoço e eu digo-te como despachar o condutor de buses. Cairá de maduro!

Está certo também de que vai resultar.

No intervalo vai-se aproximar do Embaixador da Rússia e dirá em puro ucraniano: queres a Crimeia sem problemas, pois eu sei como comprar o Trump! Quero uma continha em dólari, nada de rublos e repartimos entre o Putin, tu e eu.

Está certo de que igualmente vai resultar.

Finalmente, a caminho dos cumprimentos, ao cruzar-se com o Embaixador da Coreia do Norte, logo lhe sussurrará: - camarada, tenho a solução para o teu país. O restaurador Olex conspurcado com picada de Zica, é fatal e indolor.

Na fila para os cumprimentos, chegada a sua vez, ao estreitar Marcelo nos seus braços, diz-lhe enternecido:

- Auguri, auguri, si non e vero e ben trovato.

Nesse instante os guardas da revolução prendem Peninha como conspirador internacional e remetem-no para Rilhafoles, aonde no dia seguinte será Napoleão Bonaparte.

Diz quem com ele convive no hospício, que é um homem feliz, pois há uma miríade de personagens a incarnar a cada dia.

Todos se perguntam, porém, quando chegará a vez do Don Quijote….

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

I’ve got a crush on you

Levantei-me da cama. Malvada insónia.

" I’ve got a crush on you"…o velho Rod Stewart, inegualável.

A música enche-me as medidas e faz-me voar para fora das minhas preocupações.

Sinto o cheio a mar que é também um outro elemento do meu eu. Praias de areia branca, coqueiros, água azul, corais à distância.

Uma cadeira à sombra, música ao fundo, jazz e blues, um bom livro, um cocktail tropical, uma temperatura sem ser de muito calor, mas amena.

Um céu azul ao longe no horizonte.

Indispensável: sereias de rabos de peixe prateados e dourados e com peitos redondinhos e flores de Neptuno em grinaldas nos cabelos ondulados.

Só falta mesmo um mensageiro correndo em direcção a mim e a gritar com entusiasmo: - acabou-se o deficit, no more debt…Portugal is back to the gold old times…

Neste momento vou voltar para a cama, pois acordei da música do Rod Stewart, aquela em que ele canta…”Long ago and far away…”

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Lowcost.com um negócio de sucesso

Tive que ir a uma Repartição do Estado e por isso fui comer qualquer coisa a uma cadeia de lojas chamada lowcost.com que tenho vindo a apreciar como um modelo de negócio perfeito e altamente rentável. A comida é de excelente qualidade, os pratos variados e os salgados e bolos, óptimos. O preço do café a €0,50 e um saco de pão quentinho com 12 carcaças custa €1,00. Está sempre cheio e é muito compensador ver alguém ter sucesso.

Ora bem, tendo-me sentado numa mesa a comer um panini de frutos do mar que estava muito bom e fresco, enquanto o comia, ouvia ao meu lado, numa mesa de 6 homens dos seus 30 e tais, SÓ FALAREM sobre futebol! Mas um enjoo daqueles que enerva.

Que interesses têm a maioria dos portugueses? Really? Só falam da bola, e dão palpites e estratégias JÁ DEPOIS DOS JOGOS...


Incapazes quando estão juntos no "comer" de falar sobre assuntos que não sejam, a "bola", gajas, telenovelas, e assuntos do trabalho, nomeadamente sobre os Renatos desta vida que são sub-chefes de secção e sobre quem a cada dia repetem as mesmas imbecilidades...


Mas já repararam que estamos perto de um conflito mundial, que há livros, música, tantos outros assuntos interessantes que dão para um tema diferente a cada dia, para que as pessoas se conheçam melhor, se valorizem, eu sei lá...

Fiquei desolado: somos para além de um país falido, pobre e sem grande futuro, uma Nação de imbecis e infelizmente estes meus comentários reflectem-se muito mais na juventude e nas classes menos instruídas...a antiga classe média e superior, com mais idade, sempre teve a instrução de tempos imemoriais...creio que na época dos Sumérios...

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.


Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente eléctrica quando tocamos a pessoa certa.

Carlos Drummond de Andrade

Uma perspectiva sobre a morte, eutanásia e quejandos...muito bem escrito

Morte, minha Senhora Dona Morte, Tão bom que deve ser o teu abraço!

Considero-me um ser racional, esforço-me por ser tolerante e prezo muito a minha independência. Nunca dela abdiquei e não tenciono abdicar agora que a vida entra a passos largos no «winter of our discontent». Talvez por isso, nunca consegui ter religião ou clube de futebol ou partido político, precisamente porque nunca me senti à vontade em apriscos, fossem eles do Senhor, da bola ou da política. Como dizia o tantas vezes citado Jesus Ortega Cortès, gitano e filósofo valenciano que conheci em tempos de juventude, «Xestelabie!»
 
Reservei-me sempre, seguindo o conselho de Hipácia de Alexandria, «o direito de pensar, porque mesmo pensar erradamente é melhor do que não pensar sequer» e assim vivi e vivo, com poucas concessões excepto as que o amor me dita e são uma enorme dádiva àqueles de quem gosto. Aos outros, nada, que não quero morrer santo (estado que desconheço inteiramente o que seja, mas para mim vem sempre acompanhado de incenso e ladainhas), ademais porque acredito piamente na velha máxima de mestre Gil Vicente, no Auto da Alma, de que «tudo se descarrega no porto da sepultura» e, portanto, nada mais resta, nem essa tal alma que foi mote do auto do mestre Gil. Sou, por conseguinte, incréu impenitente, fier de l’être, com a determinação que herdei de gerações de marranos dessa província onde mandam os que lá estão. É assim, não adianta, mais que não seja por teimosia minha não me hão-de converter… 
 
E aí vamos cair no grande papão do momento, a tal eutanásia, coisa do demo, que priva o demiurgo da grande obra da outra senhora (já santa) que, na Índia, distribuía aspirinas a doentes terminais de cancro para que, pelo sofrimento, pudessem salvar as suas almas. Estranhamente, foi morrer no doce conforto de uma clínica de Zurique onde lhe deram, certamente, mais do que aspirina, mas na verdade ela já tinha lá os outros párias a gemer por ela… É estranho como também o Marquês de Peralta, na sua obra seminal Camino, afirma: «Bendito sea el dolor. -Amado sea el dolor. -Santificado sea el dolor... Glorificado sea el dolor!» Com todo o respeito, venham analgésicos, tratamentos paliativos, la totale, que essa coisa de «bendito, amado, santificado e glorificado sea el dolor» é coisa sado-masoch e eu sou definitivamente dom e não sub. Portanto, não reconhecendo qualquer valor salvífico ao sofrimento, defendo com unhas e dentes o meu direito de decidir quando chegou a hora de tirer ma révérence, como bom actor que não espera morrer trôpego do palco, a babar-se e sem saber o texto. 
 
O mesmo se aplica à dor moral de não poder comunicar, de perder o mundo por ter perdido a mente, de ter ficado num limbo onde ninguém chega e onde já ninguém existe. Me desculpem, se os meus filhos querem passar mais uns tempos comigo nesse estado, poupem-me a degradação última, deixem-me morrer e depois levem as minhas cinzas alternadamente para casa de cada um, que o resultado é o mesmo: não comunicam comigo, nem eu com eles, e tem a vantagem de não terem de me alimentar e lavar e tudo o mais e de eu ser muito mais portátil do que se estivesse vivo. Mas isto sou eu, incréu, egoísta, hombre malo y mal averiguado. Privo o demiurgo do meu sofrimento redentor, a família da minha companhia alegre, cheio de tubos e agulhas ou perdido num nevoeiro pior do que o de Dom Sebastião, e tudo porque, insisto, me recuso a abdicar do meu direito a dispor da minha vida. 
 
Parece que não, que esse direito não existe e que gente geralmente bem-pensante, genuinamente preocupada com o futuro da humanidade em geral e o meu em particular entende que não, que essa coisa chamada vida pertence um qualquer demiurgo, que no-la deu sabe-se lá por obra e graça de que divino espírito santo, e nos obriga a comê-la com batatas e a bebê-la até às fezes (como diz, ou dizia, que ao longo da vida já assisti a várias versões das escrituras, o evangelho). E pronto, meu amigo, se tiveste o azar de ser apanhado pela neoplasia ou pela demência ou outro pesadelo qualquer, aguenta forte e feio que é tudo ad maiorem Dei gloriam como diz o lema dos jesuítas. Azarinho, portanto, como dizem os mitras… 
 
Por estas e outras, cada vez acho mais que este mundo se está a transformar numa enorme chatice e este país, como disse o Eça, «não é um País, é um sítio! Ainda por cima muito mal frequentado!» Tudo me quer tratar da saúde, da alma, mostrar-me o droit chemin, a mim que trilhei sempre o caminho que tracei e tinha mais curvas e contracurvas que o caracol de Murça. Está tudo a perder a graça ou então sou eu que perdi o sentido de humor.
 
Pedi de empréstimo a Florbela Espanca os versos que servem de título.
 
 Artur Lopes Cardoso

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O PENINHA E O DISCURSO DE POSSE DE MARCELO REBELO DE SOUSA

O PENINHA E O DISCURSO DE POSSE DE MARCELO REBELO DE SOUSA

O Peninha foi convidado por Marcelo para lhe fazer o discurso de posse. Alegando falta de tempo para contactos essenciais para um bem preparado início do mandato, Marcelo deu-lhe uns tópicos, mas disse a Peninha: - tudo o que sugerires será levado em linha de conta.

Peninha ficou todo vaidoso pela confiança demonstrada e até pensou, quem sabe se no primeiro 10 de Junho não esgravate alguma condecoração. Pela amostra do Cavaco, foi um ver se te avias, e não foram poucas as Grã-Cruzes, mas no íntimo o que desejava era a da Ordem de Cristo. Comovia-se a pensar que bonito seria por cima da casaca, a banda de seda com a placa de Cristo. Marcelo prometera-lhe que iam começar as festas, bailes e recepções na Ajuda e até piqueniques na Tapada de Mafra.

Mas Peninha concentrou-se e traçou alguns princípios gerais a que obedeceria o discurso:
1. Nada de portuguesas e portugueses, que isso é ridículo e foge à tradição. Um bom princípio de discurso solene, começa por se dirigir aos Portugueses, nele incluindo todos os géneros, e até animais domésticos que são um prolongamento da afeição dos eleitores…canitos e miau-miaus e basta.
2. Deve focar-se em Portugal e no País a que vai presidir.
3. Deve ser curto, claro, interessante e inédito.

Comecemos então:

Portugueses,
Começo por vos dizer como me sinto contente por ter sido eleito Presidente de Portugal. É uma honra para mim e para a minha Família. Seria menos verdadeiro se não afirmasse que foi um projecto que sempre acalentei e que se tornou realidade fruto de muitas circunstâncias que concomitantemente o permitiram.

Depois gostaria que no meu mandato, Portugal voltasse a ter o prestígio internacional, o brilho de novas realizações que no passado tanto nos glorificaram. Tudo farei para contribuir para um renovado sentido do orgulho pela portugalidade de todos quantos no estrangeiro, vão lutando bravamente pelas suas vidas. Eventualmente um dia desejarão regressar à Pátria e devemos criar todas as condições para que isso aconteça nas melhores condições.

Como Comandante Supremo das Forças Armadas, quero desde já manifestar uma enorme solidariedade pelo papel fundamental que desempenharam no passado ao serviço de Portugal, que ainda desempenham e que pretendo que venham a fazê-lo no futuro. Muitas Famílias portuguesas têm no seu seio, militares que combateram, morreram e deram o seu melhor pela Pátria. É tempo de o reconhecer, sem hesitação e sem complexos.

Desejo também dizer-vos quais são os valores porque pautarei a minha conduta como Presidente de todos os Portugueses:
- coragem na prática da verdade;
- honestidade e total transparência na minha conduta pessoal e institucional;
- cordialidade, mantendo um sentido inato do humor que me caracteriza;
- firmeza nas minhas convicções, nomeadamente assegurando a prática do bem comum, da defesa das tradições, da cultura e do modo de vida dos portugueses, a protecção dos valores da honra, da lealdade, do respeito pelos mais velhos e dos mais desfavorecidos, da liberdade de expressão e de tudo quanto está contido na Constituição;
- uma representatividade no estrangeiro que dignifique o nome e a capacidade de diálogo e de intervenção de Portugal;
- finalmente um mandato de proximidade e de simplicidade sem no entanto descurar o brilho que se espera das funções de um Presidente da República.

O meu papel é o de um verdadeiro agente do diálogo entre os Portugueses, nas diversas formas por que estejam representados: no Parlamento, nas Autarquias, nas Regiões Autónomas, nos órgãos de Soberania, nos partidos.

Por um lado fazer-me lembrado e de que existo mas por outro com subtileza, discrição e sensibilidade actuar quando e se for preciso intervir.

O meu objectivo é o de que o país possa ser governado e posto a funcionar em plenitude pelos órgãos a quem compete gerir os destinos do povo português, de uma forma harmoniosa e complementar.
Anunciarei a seu tempo uma série de iniciativas que pretendo implementar e que sendo, talvez, inéditas procurarão ir ao encontro dos interesses dos Portugueses.

Peço-vos pois que me acompanhem no meu pedido da protecção divina para que possa desempenhar o meu cargo de Presidente ao serviço de Portugal com a maior felicidade para o povo português.

Muito obrigado e assim Deus me ajude.

Peninha reflectiu que a referência a Deus pudesse incomodar uns quantos, mas como a maioria do povo português é católico, na realidade é mesmo importante que Deus ajude Marcelo pois o barco está difícil.
Peninha vestiu-se com uma camisa de riscas azuis, uma gravata do Clube Naval, de blazer navy blue e calças cinzentas de flanela, e com uns sapatos mocassin pretos.

Na lapela pôs o emblema do Sporting de Braga….apesar de ser do Sporting, mas nada como ter um gesto de amizade e foi entregar ao escritório de Marcelo umas folhas com o draft do discurso.

A secretária disse-lhe que aguardasse uns minutos pois o Professor estava a acabar uma reunião. De saída surge o Duque de Bragança e Marcelo ao acompanhá-lo à porta disse-lhe:

- Um dia será Vossa Alteza Real! Vou deixar-lhe em dois mandatos um País real…

Peninha ficou contente, pois tudo concorria para um sonho numa noite de Verão…neste caso de Inverno e bem frio…

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

o antes, o durante e o depois

Tenho contactado recentemente com pessoas simples e felizes, com pessoas pobres e infelizes, com pessoas ricas e infelizes, com pessoas arrogantes e convencidas e infelizes, com pessoas menos simples e felizes e finalmente com pessoas tout court.

Este meu constante labor de observação das gentes, inserido a maior parte das vezes no âmbito profissional, tem vindo a apurar o meu sentido de felicidade. Ou seja os "do's and don't" que vou querendo filtrar para evitar mal estar e sofrimento desnecessários, o esforço em me situar numa plataforma cada vez mais simples na forma de pensar e agir.

Ideias singelas, escorreitas, seguras, abertas, com tolerância e não radicalismo e na busca de momentos da dita felicidade: a leitura de um livro, uma conversa interessante, um prato requintado, um ambiente selecto, uma música divinal, um pensamento sublime...não é necessário obrigatoriamente a presença de dinheiro em cada um destes cenários.

Naturalmente que a justa e generosa remuneração material do fruto de trabalho seja de que forma for é um incentivo para sempre se melhorar e possibilitar uma sofisticação da nossa vida.

Tenho para mim que o antes, o durante e o depois, sejam em que circunstâncias se apliquem, vêm sempre carregados de tonalidades diferentes.

O antes, é o momento da esperança, do sonho e da antecipação do prazer. O durante nunca corresponde ao imaginado, mas pode ser muito bom ou quase bom. O depois é o campo fértil da imaginação, de uma certa narração mentirosa daquilo que gostaríamos que tivesse acontecido e não ocorreu.

Vou assim deitar-me no antes de adormecer, na esperança que o meu sono de hoje me possa revigorar para uma semana que se augura de muito trabalho e de emoções.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Homem de um só parecer, dum só rosto e d'ua fé, d'antes quebrar que volver (Sá de Miranda)


Título da Carta a D. João III, de Sá de Miranda: 

 «Homem de um só parecer,
dum só rosto e d'ua fé,
d'antes quebrar que volver outra cousa pode ser,
 mas da corte homem não é.»

stay real - or stay away


stay real - or stay away


DEVIA PODER PEDIR-SE O DIVÓRCIO POLÍTICO ENTRE AS PESSOAS

DEVIA PODER PEDIR-SE O DIVÓRCIO POLÍTICO ENTRE AS PESSOAS

Isto de se comentar publicamente as actuações de políticos ou de governos, de banqueiros ou de sindicalistas, de partidos e até de pessoas requer que se tenha prudência, verdade, serenidade, perspicácia e independência. Tantos outros requisitos são necessários, mas fiquemo-nos por estes e já não iremos mal servidos.

A vida em sociedade cria inevitavelmente diferenças entre as pessoas pois ninguém é parecido com ninguém, e por isso as discordâncias em relação aos comportamentos são naturais.

Há por isso um conjunto de normas desde tempos imemoriais, apelidados por uns de direito positivo e por outros de direito divino, que regulam a coexistência entre os seres humanos e na sua vida gregária.

São as conhecidas normas de conduta básicas – não matarás, não roubarás…etc – e delas derivam muitas outras que se têm vindo a adaptar ao tempo e ao modo ou seja ao progresso e à cultura de cada povo.

Há no entanto um princípio que para mim é vital, sagrado e irrenunciável que é o da liberdade. Não há regime político que se possa arrogar de coartá-la ou limitá-la.

Numa subsecção da liberdade há um conceito e prática de enorme importância - a liberdade de expressão, de livre opinião.

Nas relações pessoais há que saber olhar com imparcialidade para os outros, respeitando o seu direito de errar até podermos emitir juízos de valor, ou seja julgar. Muito mais se poderia dizer, mas hoje não é este o meu mote.

Refiro-me ao que enunciei no início: os comentários públicos sobre a vida das nossas sociedades civis.

Acontece que Portugal está neste momento a atravessar uma fase difícil de ajustamento a um novo figurino político e com novos agentes políticos.

Não seria salutar, ESPERAR antes de criticar e destruir o que se pretende fazer? Serve de alguma coisa exprimir sempre de modo negativo opiniões, só porque se é de outra côr política? Eu penso que não.

Deveria poder pedir-se o divórcio político entre as pessoas, sem ter efeitos na esfera jurídica pessoal de cada um.

Amigos e amigas que no campo político estariam definitivamente divorciados sem que fosse obrigatório que no campo da amizade, do sexo e das relações profissionais se apartassem os corpos, as mentes e os contratos de trabalho.

Eu já teria muitos e muitos divórcios afichados…de fichas ou seja elencados em listas negras…ahahahahah

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Homenagem


Apetece-me interromper a pausa a que me dediquei depois da campanha que fiz por Marcelo Rebelo de Sousa no facebook, como amigo e eleitor da sua candidatura.

Correu bem, ganhou, passámos uma página.

Hoje e ainda sem ler o OE venho aqui prestar a minha homenagem a António Costa pela serenidade com que tem somado vitórias na estratégia que traçou para o seu Governo e para o País como PM.

É sabido que não sou socialista e não admito graças indirectas, mas sou português e orgulho-me de ver um PM do meu país fazer frente à CE sem rupturas e ganhar.

O OE não é perfeito, é verdade. Mereceu reservas, é verdade. Mas apesar de tudo isto serem constatações reais, o que é um facto é que não nos rendemos antes da batalha. e vencemos.

O resto não me interessa comentar. Sou dos que gosta dos vencedores. Até agora Marcelo e Costa têm dado provas de serem lutadores e vencedores.

Vamos ter problemas no futuro…talvez! Porque não salta para a ribalta quem tem soluções milagreiras? O povo português agradece.

Mais uma vez repito aqui que cada vez me apetece menos dar-me com velhos do Restelo. A vida é para ser vivida no dia-a-dia e este foi um dia de vitória para os Portugueses, pelo menos para o orgulho de termos tirado a “canga” dos ombros, nem que seja por pouco tempo.

domingo, 31 de janeiro de 2016

estar farto do desconhecido

O limite é estar farto.

Vergílio Ferreira

open your eyes

Open your eyes, look within. Are you satisfied with the life you're living?

Bob Marley

Na morte do Luís, um amigo dos Orientes - Considerações breves

MORTE DE UM AMIGO - Considerações breves

Morreu ontem um amigo dos meus tempos do Oriente. Foi um herói pois sofreu muito mas teve sempre um acompanhamento impecável da Mulher e das filhas.

Fui hoje à missa de corpo presente seguida de enterro.

Capela encafuada, cheia de gente, irrespirável e com alguma "conversata" entre as pessoas enquanto não começava a missa.


Fiquei a pensar que para ele começou o fim do sofrimento e a tal paz que ansiamos em vida.
No fundo é um corpo que ali se encontra e que começou já em decomposição. Como foi cremado tornou-se em cinza pó e nada.

Ficam as memórias de tempos passados e da amizade que soube partilhar com todos. Umas pessoas têm mais qualidades do que outras, mas já pouco importa quando se morre em fazer grandes elogios fúnebres. Somos todos iguais e o esquecimento virá para 90% das pessoas que ali estavam, excepto talvez para a família próxima.

Nem sempre para todas as famílias, outras há que já esqueceram as pessoas em vida.

Os salmos da liturgia dos defuntos são pueris e fantasiosos: anjos que vêm buscar a alma e que a levam para o resplendor da luz perpétua. Bonito de se ouvir, mas tão difícil de acreditar!

Pelo menos nunca ninguém veio dizer como é, se eventualmente é!

As leituras falam de um Deus misericordioso que perdoa todos os pecados: Assim sendo, porque as escrituras falam de labaredas e inferno e até de purgatório e de julgamento final?

Um grande contra-senso que tenho para mim serem construções administrativas da Igreja sem qualquer fundamento teológico a não ser o de disciplinar os Homens para que a vida na terra seja minimamente decente e organizada. Tudo é fruto de Concílios, cujos participantes eram e são Homens.

O mesmo se passa com outras religiões: têm sempre um conjunto de regras “clubísticas” rígidas que fazem os fiéis depender e ficarem influenciados/atemorizados com a ruptura!

Pois se até tarde na minha formação religiosa, não sabia que os Evangelhos NÃO tinham sido escritos pelos apóstolos que os subscreveram…morreram 50 anos antes do aparecimento deles!

Quem conta um conto acrescenta um ponto.

No outro dia, alguém não-católico, perguntava-me em que língua tinha falado a Nossa Senhora de Fátima aos pastorinhos boçais e iletrados? E o manto era de seda crua bordado a pedrarias? Da CASA BATALHA que existe em Portugal, no ramo, desde o final do século XVIII? Passou-se em 1917!

Claro, todas estes apontamentos são perturbadores para quem gosta de tapar os ouvidos e não pensar!

Eu gosto de pensar ainda que com seriedade e vontade de encontrar as respostas.

Tudo isto a propósito da morte de um Amigo. Fico contente que finalmente tenha deixado de sofrer.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sou lúcido

Sou Lúcido
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
Aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

Álvaro de Campos, in "Poemas"