quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O ALMOÇO DE CABRITO NO MEU CLUBE

O ALMOÇO DE CABRITO NO MEU CLUBE

Hoje havia cabrito ao almoço no meu Clube, oferecido por um sócio.

Nunca vou nestas festas natalícias ou outras do género, de carro para o Chiado e assim apanhei o metro cuja linha, a azul, dá acesso à Rua Garrett através de umas longas escadas rolantes de quatro patamares.

Já tenho aqui refilado pela inércia do Metro ou seja de quem for responsável, por deixar invariavelmente, em épocas festivas e ou de grande afluência, vários lanços sem funcionar.


Esta manhã, para quem descia, havia umas quantas em reparação. Ora vindo eu no sentido contrário, ou seja a subir, pus-me do lado direito para deixar passar quem assim quisesse.



Um rapaz dos seus 23 a 24 anos, vinha, qual borboleta, salteando pelos degraus acima, como se as escadas não fossem rolantes! Fiquei mesmo cheio de inveja, pois ainda que me sinta capaz de o fazer em caso de emergência, tipo ter a ameaça de uma bomba, ou de algum terrorista perseguindo-me para me matar, tenho a convicção de que chegaria ao cume e cairia, com dignidade, esfalecido de tanto cansaço, entregando-me, por isso, às mãos de tão ferozes algozes!


Lá saí no luminoso Largo do poeta Chiado, que cheio, regurgitava de músicos ambulantes e dançarinos, de estrangeiros divertidos pela animação, encantados pelo movimento.


Encontrei dois parentes a engraxarem os sapatos, encostados às paredes do antigo Ramiro Leão, que iam almoçar para o outro Clube em frente do meu.


Conversa amena, sobre tudo menos de política e continuei, depois das boas-festas dadas, em direcção à Bertrand, aonde tentaria comprar dois livros que me interessam e que me presenteio em época natalícia.


Muita gente dentro a folhear e ler livros, e apesar de ir com tempo, deixei para a tarde quando saísse do Clube.


Quando lá voltei, fiquei a saber que estavam esgotados e ainda tentando na FNAC, tive a mesma sorte.


Eram para aí umas 19h e já com o Chiado todo iluminado, o movimento parecia imparável: gente a entrar e sair das lojas, mil idiomas falados, gargalhadas, música tocada por amadores nos passeios, um fim de tarde próprio da época.


Ao descer para a Rua do Ouro ainda passei na Livraria Férin, aonde o dono, o meu amigo João Paulo tem sempre últimas novidades sobre livros que estão para sair ou de recentes edições. Também não tinha e segui. Dirigi-me então ao Rossio para apanhar o metro de retorno a casa, nos Restauradores. Também muita gente e então no Rossio nem se fala.


Vinha calmamente a observar as gentes, a escrutinar as caras, as conversas, as emoções que deixavam transparecer…frases soltas, e pensei como somos ainda sortudos aqui em Portugal de não termos o sofrimento de povos martirizados pelo ódio, pela guerra e pelas bombas, pelo terrorismo.


À despedida no Clube, um amigo perspicaz, diz-me : - que o Costa se mantenha e que continue pelo mandato até ao fim. São todos iguais, e sabes, eu não vivo disto por isso, não me importo nada nem dramatizo.

sábado, 19 de dezembro de 2015

O último abraço que me dás - por António Lobo Antunes - Muito bom


O último abraço que me dás

Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele

Para Luís Costa

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O PENINHA, SÓCRATES, CASTRATO E A VINGANÇA DA ILUSTRE CASA

O PENINHA, SÒCRATES, CASTRATO E A VINGANÇA DA ILUSTRE CASA

O Peninha teve um pesadelo esta noite. Foi dormir a Tormes, e apesar da lareira acesa desde a tarde, fazia frio à noite. O arroz de favas estava óptimo mas caiu-lhe mal e passou a noite toda a rebolar-se na cama entre meio-acordado e a dormir.

Viu o Sócrates a entrar-lhe pelo quarto a dentro e a pedir-lhe que lhe emprestasse dinheiro e rechaçou-o a pontapés mas ele insistia e louvava-se no diploma falso ao Domingo, nas aprovações pífias em obras na Covilhã, nos negócios sujos com o Chávez, o Lula, o Santos Silva, a casa pretensiosa em Paris, enfim, vinha o rol todo de patifarias feitas, e que no sonho apareciam ao Peninha como totalmente provadas e sem dúvidas nenhumas.

Mas o que mais atormentou o Peninha, foi a voz insolente na entrevista. Insuportável de arrogância, de despudor e de falta de decência.

Peninha acordou irritado e indignado e logo telefonou para um número confidencial na Sicília e só deixou estas palavras na gravação: Avanti!

Era a altura de uns rapazes conhecidos de Siracusa virem e fazerem um trabalho limpinho, sem deixar provas. Era demais!

A caminho do campo, para a volta matinal junto ao riacho, com o bom do Tendinha, fiel caseiro e confidente, dizia em sottovoce : - há de se falar durante gerações!

E de regresso a Lisboa, passou pela S. Caetano e pelo Caldas, pois queria em primeira mão anunciar aos amigos o que tinha engendrado: uma operação cirúrgica, nomeadamente como as que se faziam aos castrati, um implante mamário de algum relevo, a mudança da dentadura com quiçá alguns dentes de ouro falso, e uma cabeleira de diva.

Seria désormais uma contratada a recibos verdes do coro de S. Carlos, if ever, a voz fosse audível.

Esta é a vingança da Ilustre Casa do Peninha!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O CACHIMBO, a CICCIOLINA e PPC

O CACHIMBO, a CICCIOLINA e PPC

Quando chegava a casa tinha o hábito de colocar o cachimbo em cima do tampo da cómoda, tirar o molho de chaves do bolso das calças e numa breve olhadela ao espelho, piscava-se o olho, maroto.
- Mais um dia em que te safaste, marreco! – dizia e em mangas de camisa ia direito para a cozinha aonde havia um aparelho de televisão a preto-e-branco.
A casa, modesta, tinha duas divisões: o quarto aonde dormia com uma pequena casa-de-banho ao lado e a cozinha, que fazia de tudo: sala, comedor e entrada.
Fumava tabaco de cachimbo Mayflower que ia buscar à Caza Havaneza. O dono, jurara-lhe que nunca lhe faltaria com um pacote a cada semana. Não se esquecera, que se não fora ele, tudo teria ardido no incêndio horroroso que destruiu meio Chiado.
Abriu a televisão e pôs no canal porno da RTL, o único que via desde que o governo o deixara na situação de desempregado com um subsídio de merda…mal dava para comer.
Desistira de ouvir as notícias e só lhe interessava o sexo, puro e duro.
Nesse fim de tarde estava a passar a Cicciolina quando veio ao parlamento português no PREC e descaradamente mostrou um seio em pleno debate. Ainda que não fosse a colorido, repetia excitado o nosso homem, era mama que se visse!
Deu uma grande fumaça no cachimbo e o cheiro doce do tabaco Mayflower espalhou-se pela cozinha.
- Havia de saber o que lhe fazia! Raio de Governo que me deixa sem tostão.
E com carinho, tirou da carteira um pequeno poster de PPC quando no Verão, anunciou a vitória nas eleições.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

NEGÓCIOS NO IRÃO após o levantamento do embargo

Estou a constituir uma plataforma de negócios e investimentos no Irão, com contactos com bancos e entidades oficiais.

Gostaria de contactar com empresas potencialmente interessadas em colaborar com a minha empresa e com esta plataforma, em todas as áreas que possam interessar os potenciais investidores.

Devo viajar para o Irão no princípio do próximo ano, para ter reuniões com o Governo e demais autoridades, bem como com bancos privados e empresários.

As áreas que tenho vindo a discutir são no campo das infra-estruturas, hospitais e clínicas de saúde, indústria farmacêutica, turismo, hotelaria, indústria ligeira e metal-mecânica, habitação e escritórios, e no fundo tudo quanto possa criar valor acrescentado. O Irão vê com bons-olhos a criação de parcerias com empresas estrangeiras.

Pequenos serviços como escolas de línguas, traduções, papelarias, gráficas modernas, design, distribuição alimentar e import-export poderão ser consideradas como interessantes para parcerias locais.

Na área das profissões liberais, o exercício da medicina, enfermagem, análises clínicas, advocacia internacional, arquitectura, engenharia, são aspectos a considerar.

Fico por isso disponível para trocar impressões em português, espanhol, francês e inglês.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

José Régio - Nossa Senhora

Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.


Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
E uma expressão de febre e espanto
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enevoados
Olham, chorosos, fixos, muito além ...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “A Sua bênção, Mãe !”

Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia !
Só isto bastaria a me dar paz.

- “Porque choras, Mulher ?” – docemente a repreendo.
Mas à minh’alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: -“Não é por Ele” ...
“Eu sei ! Teus filhos somos nós”.

José Régio, Mas Deus É Grande

domingo, 6 de dezembro de 2015

Homem de pouca fé


HOMEM DE POUCA FÉ

Hoje faz 8 anos que morreu a minha Mãe. Havia uma missa em Schönstaat às 19h.
Sempre um coro que canta muito bem, entre eles uma das minhas sobrinhas. Músicas com letras muito bonitas e profundas. São momentos de grande paz e de alheamento do dia-a-dia.
Na altura da oração pelos defuntos, o Padre nomeou a minha Mãe. Tive como que um sobressalto.
Passam os anos, os meses, os dias e as horas e a nossa vida segue, umas vezes com mais luzes outras com mais sombras. E de repente é como se tudo estivesse presente.
Voltei a vê-la vividamente em tantas situações da minha vida e fiquei perdido longe da missa.
Tive tantas saudades, daquelas que não são literárias, das que fazem sentir cá dentro uma sensação de distância e ao mesmo tempo de presença.
Não sei se seria saudável termos estes momentos com muita frequência por serem tão intensos.
Mais uma vez veio à minha cabeça a ideia da morte, quando todos os dias morrem pessoas de todas as idades. É até, no geral, um pouco indiferente a causa da morte: Trata-se, sobretudo, de partida. Tudo acaba, as vaidades, os ódios, o poder, a riqueza, e até a pobreza. Sobretudo a tristeza para quem morre, tem um fim.
O Padre falava na homilia, aliás simples, directa e apropriada à época natalícia, para nos prepararmos para termos dentro de nós a presença do Menino Jesus que estava para vir. E elaborava dizendo que o sentido era o de conseguirmos interiorizar a consciência de Deus ao nosso alcance.
Rendido e sem vontade de luta de argumentos nem de considerações teológicas, pensei como seria bom que assim fosse tão fácil: termos ao nosso alcance visível e palpável esse Deus de que tanto se fala.
Para uns quantos como eu, há a necessidade sublime e pragmática de S. Tomé, como narrado nos Evangelhos: deixa-me tocar no lado do coração trespassado e nas feridas para eu crer.
Não temeria um só momento, pelo contrário, ansiaria até ouvir a frase: Homem de pouca fé, eu sou o teu Senhor.
E foi isto que me ocorreu hoje na comemoração da morte da minha querida Mãe.

sábado, 5 de dezembro de 2015

O SIDE-CAR DO PENINHA

O SIDE-CAR DO PENINHA


O Peninha hoje resolveu passar a tarde a apanhar sol junto ao rio. Meteu-se na sua moto com side-car, convidou o amigo invisível para poder conversar um pouco. Estava numa de troca de ideias e apetecia-lhe que alguém respondesse às suas perguntas: sim, porque tinha uma dúzia delas para fazer.

Capacete de coiro à aviador do princípio do século, uns óculos de motoqueiro por causa do vento, luvas de lã beijes, umas calças de bombazina amarelas torradas e umas meias-botas castanhas de pele fina de côr de mel. Um cachecol de cachemira amarelo para confortar do frio, que rodeava o pescoço e que saía do casaco de camurça acastanhado.

A caminho cruzou-se com um grupo de raparigas num descapotável que lhe acenaram excitadas pois a sua figura era deveras atraente e invulgar.

Chegado á beira-rio, parou a moto junto ao paredão, com vista directa para a ponte, os barcos à vela, as gaivotas, os pescadores e todo um mar de gente que passeava para trás e para a frente. Julgou reconhecer alguns ex-ministros, e inclusive PPC e PP que juntos caminhavam braço no braço e a rirem. 

Deixou-se estar sossegado num canto abrigado. Aqui vão as primeiras perguntas, para tu responderes, se faz favor, meu amigo invisível:

- Achas que sou feliz?
- O que pensas do meu futuro?
- O que fazer para mudar a minha vida?

O amigo invisível, óbvio que não queria ser antipático e por isso escolheu responder por metáforas.

Quanto à primeira pergunta lembro-te o nosso velho amigo Alberto Caeiro que diz….

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Quanto ao teu futuro, ainda acho que vais a tempo, mas escuta o aviso do Cassiano Ricardo, que das terras de Vera Cruz, apela à tua atenção…

Gastei o meu futuro
em coisas que não fiz.

A tarde é quase humana
quando em mim pousa. A tarde
atrozmente enfeitada
de cores, ainda arde;
porém, já não me engana.
É tarde. É muito tarde.

Só haveria um remédio.
Era o de ter prestado
mais atenção à vida.
Era eu ter consultado
mais vezes o relógio
Era o eu ter querido
mais a ti do que quis.

Mas gastei meu futuro
em coisas que não fiz.
É tarde. É muito tarde.

Finalmente para mudares a tua vida, a Martha Medeiros, num linguajar tão rico, dá um bom conselho…

Passamos a vida inteira ouvindo os sábios conselhos dos outros. Tens que aprender a ser mais flexível, tens que aprender a ser menos dramática, tens que aprender a ser mais discreta, tens que aprender... praticamente tudo.

Mesmo as coisas que a gente já sabe fazer, é preciso aprender a fazê-las melhor, mais rápido, mais vezes. Vida é constante aprendizado. A gente lê, a gente conversa, a gente faz terapia, a gente se puxa pra tirar nota dez no quesito "sabe-tudo". Pois é. E o que a gente faz com aquilo que a gente pensava que sabia?

As crianças têm facilidade para aprender porque estão com a cabeça virgem de informações, há muito espaço para ser preenchido, muitos dados a serem assimilados sem a necessidade de cruzá-los: tudo é bem-vindo na infância. Mas nós já temos arquivos demais no nosso winchester cerebral. Para aprender coisas novas, é preciso antes deletar arquivos antigos. E isso não se faz com o simples apertar de uma tecla. Antes de aprender, é preciso dominar a arte de desaprender.

Desaprender a ser tão sensível, para conseguir vencer mais facilmente as barreiras que encontramos no caminho. Desaprender a ser tão exigente consigo mesmo, para poder se divertir com os próprios erros. Desaprender a ser tão coerente, pois a vida é incoerente por natureza e a gente precisa saber lidar com o inusitado. Desaprender a esperar que os outros leiam nosso pensamento: em vez de acreditar em telepatia,é melhor acreditar no poder da nossa voz. Desaprender a autocomiseração: enquanto perdemos tempo tendo pena da gente mesmo, os dias passam cheios de oportunidades.

A solução é voltar ao marco zero. Desaprender para aprender. Deletar para escrever em cima. Houve um tempo em que eu pensava que, para isso, seria preciso nascer de novo, mas hoje sei que dá pra renascer várias vezes nesta mesma vida. Basta desaprender o receio de mudar.

E aqui tens, Peninha, alguns bons pensamentos.

Peninha, avistou de novo PPC e PP, e com atrevimento aproximou-se julgando não ser reconhecido, mas foi imediatamente saudado com efusão pelos dois.

- O que fazes por aqui? – perguntaram.

Peninha vinha com uma engatada e lançou-lhes:

-  É próprio das censuras violentas tornar credíveis as opiniões que elas atacam. Era o que queriam nos vossos discursos?

-  Sem a liberdade de censurar não há elogio lisonjeiro. – respondeu PP.

- Não devemos julgar os méritos de um homem pelas suas boas qualidades, e sim pelo uso que delas faz. – respondi-lhe.

- A confiança que temos em nós mesmos, reflecte-se em grande parte, na confiança que temos nos outros. – confia PPC.

Seguiram em frente no passeio à beira-rio e eu voltei à minha moto e virando-me para o meu amigo invisível disse-lhe:

- Raramente conhecemos alguém de bom senso, além daqueles que concordam connosco.

E com um barulho ensurdecedor do motor da moto, o Peninha arrancou para passar em frente da Torre de Belém e virando-se para o amigo invisível largou-lhe esta frase do Bukowsky:

- Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.

Brum brum brum

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Gosto

Gosto de pessoas bem-educadas, com maneiras, detesto pessoas presumidas e maledicentes que passam a vida a desdizer dos outros sem se olharem ao espelho.
Pessoas simples de coração, sem raivas nem invejas. Que tenham atenção a quem os/as rodeiam e façam de preferência o bem em vez de falarem sobre o mal, conceito que é muitas vezes subjectivo.
Pessoas que não julguem ou só pelo que vêm ou ouvem de outros.
Pessoas que sejam tolerantes e magnânimas, que saibam perdoar como os mansos e humildes de coração.
Pessoas que sejam justas e construtivas como gostam que o sejam para si próprios.
Pessoas inteligentes, cultas e com experiência dos outros e da Humanidade.
Pessoas que nos tratem bem, que gostem genuinamente de nós, como nós queremos também assim fazer se cumprirmos o que acima indico.
Pessoa com honra, princípios e palavra, sérias e com quem se possa contar.
Pessoas firmes nas suas convicções mas abertas a escutar, a trocar impressões, confiar e dar o benefício da dúvida, preparadas para mudar de opinião sem fanatismos ou radicalismos.
Gosto de pessoas felizes, sorridentes que contagiem a sua felicidade aos outros que passam nas suas vidas.
Finalmente, gosto de pessoas que seja qual for a sua visão de Deus, tenham respeito pela vida e se preparem um dia para partir com serenidade e deixarem um rasto de bondade e da memória de terem, sobretudo, pensado mais nos outros que em si próprio.



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Olhares sensuais (no metropolitano)

OLHARES SENSUAIS NO METROPOLITANO

Uma viagem no metropolitano é inesperadamente um momento de múltiplos olhares em que, cautelosamente, se podem transmitir sensações intensas.

Tive que ir por razões mecânicas a um bairro popular não longe do Senhor Roubado. E à volta apanhei o metropolitano numa viagem ainda de umas 7 estações. Vinha cheio.

Primeiro e desde logo um olhar de reconhecimento. Depois a identificação de quem nos estuda com o olhar. A seguir, fixada a presa ou presas, lança-se um olhar misto de curiosidade e de convite à troca de emoções. E várias coisas acontecem: (i) baixam os olhos com timidez ou indiferença (ii) mantêm o desafio e começa uma troca de mensagens silenciosas, às vezes encorajadas por um sorriso subtil ou dôce ou maroto, divertido (iii) atenta-se na estação em que o alvo sai e mesmo que não seja a nossa, o destino marca a hora....ahahah....ou as horas de deleite e sensualidade.

Entretanto a estação do meu destino chegou, e saí com a cabeça cheio de ideias, como se vê!

O papinho cheio de olhares e a decisão de, eventualmente, tirar um passe!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O PENINHA NA POSSE DO GOVERNO

O PENINHA NA POSSE DO GOVERNO

O Peninha aprimorara-se para ir à posse à Ajuda do Governo do PS. Disseram-lhe que o traje era mais formal e como não percebia patavina de protocolo, pôs uns sapatos de camurça clara com sola grossa de borracha de Ceilão, umas meias brancas limpas de feltro, umas calças castanhas de riscas compradas nos Armazéns do Minho em saldo, uma camisa roxa com colarinhos de botões (disseram-lhe que era a côr da moda), uma gravata fininha azul escura, com o laço abaixo do botão do colarinho, entreaberto, e finalmente um casaco de bombazina grená a dar com o tom da camisa.
Olhou-se ao espelho do quarto antes de sair e ficou convencido que ia bem.
Chamou um carro da UBER, pois achou que dava mais sainete apear-se na Ajuda, como se viesse no seu próprio carro com motorista. Lembrou-se que os finórios vinham sempre atrás e assim fez. Disse com um ar ufano : leve-me à Ajuda, sff.
Quando chegou à porta principal, o motorista perguntou-lhe: - quer sair aqui ou que o leve até aonde estão os senhores do protocolo a receber os convidados?
Sem hesitação, respondeu que saía ao pé das escadas da entrada.
Mal o motorista lhe abriu a porta, deu-lhe uma generosa gorjeta, mas depois lembrou-se que isto indiciava que era carro alugado, ora bolas…os proprietários pagam o ordenado no fim do mês aos seus motoristas e não estão cá a dar gorjas.
Subiu impante as escadas atapetadas com uma passadeira encarnada e chegando ao patamar que dava para as salas, declinou ao funcionário do protocolo, que lhe barrava a passagem: familiar do governo! Este afastou-se e com dignidade inclinou a cabeça até meio.
Peninha pensou, contente, que não havia nada como ser importante ou pelo menos ter parentes importantes no governo.
Foi avançando pelas diversas salas que via pela primeira vez, carregadinhas de quadros de reis e rainhas, príncipes e princesas e lembrou-se da sua avó Deolinda que sempre lhe contara que eles descendiam de um criado grave do Conde de Povonide, que se montara na bisavó, uma vez que Sua Excelência, passara uma noite nas propriedades aonde a família vinha todos os anos fazer a vindima.
Era uma nobreza oblíqua e longínqua, mas o facto de lhe correr sangue nas veias de alguém que convivia com um Conde, fê-lo empertigar-se ainda mais, apertar o botão do casaco e dar entrada no salão dos Actos Solenes aonde se desenrolaria a posse.
Olhou à volta a ver se encontrava a secretária do futuro Secretário de Estado da Reunificação Agrária. Era primo em segundo grau da Ernestina, que desde há muitos anos servia como amanuense na Cooperativa agrícola, de onde o Engº Agrário Lomelino, era Vogal da Direcção e agora passaria a futuro membro do Governo.
No meio da confusão, se por acaso lhe perguntassem sobre o convite, não hesitaria em confirmar que estava ali pelo primo, o Engº Lomelino.
A cerimónia começou, os Ministros todos sentados e alinhados em cadeiras de veludo felpudo, todos de fato inteiro e gravatas encarnadas, e o Presidente numa cadeira de espaldar alto.
Estava impressionado com a solenidade do momento. No fundo devia ter perguntado se era de fato inteiro, pois achava-se deslocado com o seu traje de furta-cores.
O Presidente avança para uma mesa aonde estava um livro grande e assina solenemente e com muita vagareza. Peninha reparou que tinha um anel de ouro com três brilhantes grandes no dedo anelar. Terão sido os filhos e o genro – que se dizia ter muito dinheiro com o negócio dos concertos – que lhe terão oferecido ou talvez mesmo a esposa que sempre o acompanhou, lá isso diga-se a verdade, excepto na viagem de visita às cagarras, porque enjoava , segundo Peninha ouvira dizer.
Discursos sem interesse nenhum, na opinião de Peninha, e nisto começam a chamar Ministro a Ministro e depois os Secretários de Estado.
Peninha avistou o Engº Lomelino, e quando ele veio assinar o livro de posse, no final, quando todos aplaudiram discretamente, não resistiu e pondo-se de pé, gritou a plenos pulmões: - Ó Engº Lomelino, viva, viva, sou o Peninha de Aldeia Galega! E batia palmas sem parar.
Alguém ao lado puxou-o para baixo e disse-lhe: - sente-se homem, não vê que o embaraça! Isto é só para políticos. O Engº Lomelino, fingiu que o não viu.
À saída depois da posse, ainda passou por ele o novo Primeiro-Ministro e o Peninha disse-lhe: - parabéns, parabéns, mas ele já caíra nos braços de um correligionário e nem lhe ligou.
Estava contente, ainda havia de contar a posse e inventaria outras histórias mais excitantes e que lhe dessem um pouco mais de importância.
Mesmo no alto das escadas, ao começar a descê-las vê aproximar-se o dr. Mário Soares a quem se dirige para o cumprimentar. Seguranças afastam-no com brutalidade e ainda ouve o ex-Presidente dizer em voz alta: cheira-me que vai dar merda!
Peninha saiu e foi a pé para casa, cogitando no que quereria dizer o dr. Mário Soares com aquelas palavras, sobretudo porque lhe viu a boca assim como que torcida em ar de dúvida.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

VERS UNE 3ème GUERRE MONDIALE ?

VERS UNE 3ème GUERRE MONDIALE ?

Sans vouloir céder au pessimisme, cette communication d’un prof de Fac, économiste reconnu, interpelle quelque peu.
Cette thèse est écrite par l'économiste Jean-Hervé LORENZI.
Jean-Hervé LORENZI, né le 24 juillet 1947, est professeur à l’université Paris-Dauphine depuis 1992 (Master 218 Assurance et gestion du risque), président du Cercle des économistes, conseiller du directoire de la Compagnie Financière Edmond de Rothschild...
On sait également que son cœur est plutôt à gauche..... Pessimiste ou réaliste, à vous de juger.
« La Troisième guerre mondiale : prédictions.
Une Troisième guerre mondiale, d’une ampleur probablement égale ou supérieure aux deux précédentes est en préparation et éclatera dans la première moitié de ce siècle. Voici pourquoi et voici quels seront ses protagonistes.
La guerre de 1914-1918 dont nous fêtons le centenaire et qui fut une catastrophe majeure pour l’Europe était prévisible bien des années auparavant. La Seconde guerre mondiale ne fut que son prolongement et, elle aussi, était prévisible dès la signature du Traité de Versailles et surtout dès l’arrivée de Hitler au pouvoir et du parti belliciste au Japon.
La Guerre froide (1945-1991) qui opposa les Alliés, sous direction américaine, au camp soviétique (et, partiellement communiste chinois) ressembla à un avortement. Parce que c’était un affrontement sans enjeux forts. L’URSS s’est effondrée comme un soufflet, sans violences. Pourquoi la guerre froide, communisme contre monde libre, n’a-t-elle jamais débouché sur une guerre chaude ? Parce qu’elle était idéologique et non ethnique, religieuse ou économique. Les trois ressorts passionnels et belliqueux de l’humanité, ceux qui donnent naissance aux guerres, sont le nationalisme ethnique, la religion et l’intérêt économique sous toutes ses formes. La sacralité et le matérialisme vital. L’affrontement communisme/capitalisme, purement idéologique, relevait d’une forme froide de conflit qui n’a jamais débouché sur une confrontation générale, mais seulement sur des guerres limitées (Corée, Vietnam). C’est cette raison, et non pas la crainte d’une apocalypse nucléaire, qui a
évité la guerre généralisée entre l’OTAN et l’URSS.
Dans l’Antiquité, les guerres puniques étaient prévisibles parce que Rome et Carthage étaient dans une rivalité économique vitale pour le contrôle des circuits économiques de la Méditerranée occidentale. La Première guerre mondiale était prévisible (et tout le monde s’y préparait) à cause de l’exacerbation nationaliste des États européens et de leurs peuples, opinions publiques chauffées à blanc. De même, aujourd’hui, une troisième grande confrontation mondiale est prévisible, nous allons le voir.
Depuis l’Antiquité, le déclenchement des guerres est, au fond, prévisible. Il repose sur les mêmes mécanismes que les lois de la physique : une tension finit toujours par éclater en déflagration. La montée en température d’un gaz donne lieu à une explosion, la poussée de plaques tectoniques se termine en séisme, l’accumulation de cumulo-nimbus finit par provoquer un orage, des précipitations trop fortes provoquent des inondations, etc. On peut parfaitement prévoir, donc, le déclenchement des guerres. En revanche, on ne peut pas pronostiquer la forme qu’elles prendront.
Comme l’éthologie humaine le démontre, l’état de paix ne correspond pas à la nature humaine. L’agressivité intra spécifique est la règle dans notre espèce. L’idéal kantien ou
chrétien moderne de la paix perpétuelle, n’a jamais fonctionné. L’histoire humaine est véritablement structurée par la guerre. L’état de paix n’est qu’une transition passagère entre deux états de guerre. La guerre est très ambiguë, ambivalente plutôt, comme la fameuse innovation destructrice de Schumpeter. Elle est à la fois un facteur de destruction et d’évolution.
Contrairement à une idée reçue, depuis la fin du néolithique les guerres n’ont représenté qu’une cause marginale de la mortalité. Vouloir éliminer la guerre (idéologie pacifiste), c’est aussi stupide que de vouloir éliminer la sexuation (idéologie du genre), la
religion et l’économie privée (idéologie marxiste) ou le sentiment d’appartenance et d’identité ethniques (idéologie cosmopolite).
Le problème n’est pas d’éliminer les guerres, c’est de les gagner ; et le plus rapidement possible, pour que les effets positifs de la victoire l’emportent sur les effets négatifs de l’effort guerrier trop prolongé. L’auteur de cette vision de la guerre n’est ni Sun-Tzu ni Clausewitz, c’est un certain Jules César.
Pourquoi parler de guerre mondiale ? Depuis 1945, on s’imagine qu’il n’y aura plus jamais de guerre mondiale, mais seulement des guerres locales et régionales, et que l’ONU parviendra à éviter une Troisième guerre mondiale. On avait commis la même grave erreur après 14-18 qu’on appelait d’ailleurs la Der des Ders et la création de la SDN. Or, dans un environnement mondialisé, ce qui est le cas, en gros, depuis 1880, il est inévitable qu’éclatent des guerres mondiales. Dire il n’y aura plus jamais de guerre mondiale, c’est comme dire je ne mourrai jamais ou l’été durera éternellement.
Étudions maintenant le scénario de la future Troisième guerre mondiale, la TGM. Les foyers de tensions sont multiples et ne cessent de s’aggraver. Jamais, dans toute l’histoire de l’humanité, d’une humanité devenue globalisée et de plus très nombreuse (9,5 milliards bientôt), sur une planète rapetissée, les risques d’un incendie général n’ont été aussi forts. La globalisation est un facteur de confrontation géante, plus que de création d’un État universel qui n’aurait que des problèmes de police à régler. Cette globalisation (ou mondialisation poussée au maximum) n’est pas un facteur de paix, mais de guerre généralisée.
Voici quels sont les foyers de tension qui risquent d’interagir et de provoquer un embrasement général :
1) L’immigration massive en Europe (surtout de l’Ouest) sous la bannière de l’islam va progressivement dériver vers une guerre civile ethnique. L’incapacité de l’Europe à endiguer l’immigration invasive en provenance du Maghreb et de l’Afrique continentale en explosion démographique débouchera inévitablement sur un conflit majeur. (1) La présence en Europe de très fortes masses de jeunes, d’origine arabo- musulmane, de plus en plus islamisées, avec une minorité formée militairement et voulant en découdre dans un djihad d’émeutes insurrectionnelles et de terrorisme, sera le facteur déclencheur d’une spirale incontrôlable.
2) La confrontation globale entre islam et Occident (y compris Russie) en dépit de la guerre de religion entre sunnites et chiites va peu à peu dominer le paysage et prendre une forme militaire, avec conflits interétatiques. Impossible actuellement de prévoir
leur forme. À l’échelle du monde, l’islam, qui est une idéologie-religion, ou idéo-religion fortement ethnicisée, ne cesse de se renforcer et de s’extrémiser dans le monde entier. L’islam est un facteur majeur de l’explosion mondiale inévitable.
3) Le problème d’Israël, insoluble, va inévitablement déboucher sur une nouvelle guerre entre l’État hébreu et ses voisins, avec, en toile de fond la révolte contre les colons juifs intégristes de Cisjordanie et la montée en puissance des organisations terroristes islamistes. Sans oublier que l’Iran réussira très probablement à se doter de quelques têtes nucléaires. L’éradication d’Israël est une idée fixe de tous les musulmans. Y
compris du régime turc d’Erdogan, néo-islamiste et néo-ottoman. L’embrasement est programmé et les USA ne pourront pas ne pas intervenir.
4) Le monde arabo-musulman (à l’exception du Maroc) est entré dans une spirale de chaos qui ne va que s’accentuer, avec deux fronts entremêlés : sunnites contre chiites et dictatures militaires contre islamistes. Sans oublier la volonté de liquider tous les
chrétiens. D’où l’accentuation des désordres qui ne peuvent qu’amplifier l’immigration vers l’Europe. Les actuels évènements guerriers de Syrie et d’Irak qui voient la naissance d’un État islamique sauvage (le califat) sont un pas de plus vers une confrontation.
5) Le conflit Chine-USA dans le Pacifique, choc entre deux impérialismes de nature essentiellement économique, va déboucher sur un heurt géopolitique majeur. La Chine veut ravir aux USA le statut de première puissance mondiale. Circonstance aggravante : la tension Chine-Japon (allié des USA) ne fait que croître et ce dernier pays, travaillé par un néo nationalisme, vient de lever l’obstacle constitutionnel aux interventions armées.
6) Les conflits en latence Inde-Pakistan et Inde-Chine (toutes puissances nucléaires) doivent aussi être pris en compte.
Il faut mentionner les facteurs aggravants, essentiellement économiques et écologiques, qui vont peser sur le climat, sur les ressources énergétiques fossiles, sur l’eau (le bien rare par excellence), sur les ressources minières. Le point de rupture physique se situe dans la première moitié de ce siècle. Sans oublier évidemment le terrorisme de grande ampleur, notamment avec des moyens nucléaires artisanaux, ce à quoi nous n’échapperons pas.
L’islam est le principal facteur de déclenchement d’une TGM, dans la mesure où l’on assiste partout à la montée du radicalisme islamiste, en partie financé par l’Arabie et le Qatar, avec un ennemi implicite mais très clairement présent dans les esprits : la civilisation occidentale, à laquelle la Russie est d’ailleurs assimilée. En gros, dans l’esprit des islamistes du monde entier, dont l’idéologie se répand comme un virus, l’ennemi c’est le monde blanc et chrétien, même si cela ne correspond à aucune réalité sociopolitique. (2)
Les lignes de force des confrontations et des alliances seront complexes, plus encore que pendant la précédente guerre mondiale. Les zones majeures géopolitiques d’explosion sont
l’Europe, l’Afrique du Nord, le Moyen Orient et, éventuellement le Pacifique. La forme de cette guerre : elle sera à foyers multiples et additionnera les guerres civiles, les affrontements interétatiques, les guérillas et les frappes nucléaires. À ce propos, l’État d’Israël est en grand danger. Bien qu’il dispose de la dissuasion nucléaire, cela n’empêchera pas certains de ses
voisins, probablement bientôt dotés de la même arme, de jouer les kamikaze et de le frapper.
On imagine le carnage...Il faut bien comprendre que les fanatiques islamisés ne raisonnent absolument pas comme les Russes et les Américains pendant la guerre froide, avec la retenue de la dissuasion mutuelle. Israël peut parfaitement être l’amorce de l’explosion générale.
Contrairement à ce que rabâchent tous les perroquets, la Russie ne sera absolument pas un facteur de troubles. L’impérialisme russe orienté vers l’Europe orientale et qui constituerait un
danger d’agression est un mythe construit par la propagande de certains cercles de Washington. En revanche, la Russie, elle aussi, est aux prises avec l’islam.
La prévisible confrontation mondiale produira bien entendu une catastrophe économique, notamment à cause de la rupture des approvisionnements pétro-gaziers de l’Afrique du Nord et du Moyen Orient. Une économie mondialisée, très fragile parce que très complexe, fondée sur les flux intenses (maritimes, aériens, numériques, etc.) tombera comme un jeu de dominos en cas de perturbation conflictuelle de grande ampleur.
La principale faiblesse des Occidentaux, surtout des Européens de l’Ouest, réside dans leur vieillissement démographique et dans leur ramollissement mental, leur passivité, leur crainte
de se défendre, un syndrome qui avait frappé les Romains à partir du IIe siècle. La TGM, comme la Première guerre mondiale, pourra commencer par un évènement localement limité et se poursuivre par un enchaînement de faits incontrôlables, comme une avalanche. La TGM verra très probablement des échanges de coups nucléaires. Mais ils ne seront pas plus graves qu’Hiroshima et Nagasaki. Leurs effets seront plus destructeurs sur le plan psychologique que physique.
On pourra assister à un recul global de l’humanité, sur les plans technique et démographique, pendant plusieurs siècles. Pas du tout du fait des morts de la TGM, mais à cause de l’effondrement économique et sanitaire qu’elle provoquera. L’embrasement risque de se produire vers 2025-2035. Après, les choses pourront mettre plusieurs siècles à se rétablir. Le recul de civilisation s’est déjà produit au Ve siècle quand Rome s’est effondrée. On a mis mille ans à s’en remettre. Une pichenette à l’échelle de l’histoire. Simplement, au moment où l’on va fêter, dans une euphorie feinte, le centenaire de la Première guerre mondiale, il serait bon de se préparer à la Troisième qui se profile.
NOTES.
(1). Thèse défendue par l’économiste Jean-Hervé Lorenzi dans son récent essai Un monde de violences, l’économie mondiale 2015-2030. (Eyrolles). Pour lui, les fortes migrations en Europe occidentale, tendant à un véritable remplacement de populations, associées à un vieillissement des autochtones et à une stagnation économique, déboucheront sur le retour du populisme et de la guerre. Il écrit : « ce scénario, qui paraît utopique aujourd’hui, est inéluctable et doit donc être pris en compte comme un invariant ». Cf. aussi La convergence des catastrophes. Guillaume Corvus. Voir référencements net.
(2). N’oublions pas ce qu’expliquait Carl Schmitt : ce qui compte le plus en politique et en polémologie, ce n’est pas la définition que l’on se donne de soi-même mais celle que donne l’ennemi de nous-mêmes, selon ce qu’il perçoit.
***************************************************************************
L’ancien ministre giscardien, Michel Poniatowski, écrivait dans son livre-testament une conclusion dont on ne voit pas quelle ligne on pourrait changer 21 ans plus tard.
"Son âme, la France est en train de la perdre, non seulement à cause de la mondialisation, mais aussi, et surtout, à cause de la société à la fois pluri ethnique et pluri culturelle que l’'on s’acharne avec de fausses idées et de vrais mensonges, à lui
imposer. Si cet essai a permis à quelques-uns de mesurer devant quels périls nous nous trouvons placés, il aura déjà atteint son but. (...) Ces pages peuvent apparaitre cruelles.
Mais elles correspondent à un sentiment très profond. Le moment est venu de traiter énergiquement le problème de l’'immigration africaine et notamment musulmane. Si tel n’'est pas le cas, la France aura deux visages : celui du «cher et vieux pays» et celui
du campement avancé du tiers monde africain. Si nous désirons voir les choses dégénérer ainsi, il suffit de leur laisser suivre leur cours. Le campement africain toujours plus grand, plus vaste, plus illégal, grignotera d’'abord, puis rongera, avant de faire disparaître tout entier le cher vieux pays, dont la défaite sera annoncée du haut des minarets de nos nombreuses mosquées. Nos temps sont assez graves pour ne pas faire appel à de médiocres facilités politiciennes. Nous allons vers des Saint- Barthélemy si l’'immigration africaine n’'est pas strictement contrôlée, limitée, réduite et expurgée de ses éléments négatifs et dangereux, si un effort d'’intégration ne vient pas aussi compléter cette nécessaire répression. Les mesures à prendre sont sévères et il ne faudra pas que le vieux pays frémisse de réprobation chaque fois qu'’un charter rapatriera des envahisseurs illégaux. Il faut donc ainsi que ce cher vieux pays restitue à l’'état sa place normale. Les libéraux l’'ont affaibli, les socialistes l’'ont détruit. " Où sont les grandes tâches dévolues à l’'État ? La Justice, l’'Armée, l’'Éducation nationale, la Sécurité, la Police, notre place en Europe ? En miettes. La France est à l’'abandon, est en décomposition à travers le monde. Sa recomposition est dans un retour énergique à l’'unité et à la cohérence, et de la Nation et de l’'État."
***************************************************************************
"Si la vérité vous choque, faites en sorte qu'elle devienne acceptable, mais ne bâillonnez pas celui qui en dénonce l'absurdité, l'injustice ou l'horreur."

domingo, 22 de novembro de 2015

CAVACO, O NOVO GOVERNO E A OPOSIÇÂO


CAVACO, O NOVO GOVERNO E A OPOSIÇÂO

Tudo indica que Cavaco vai indigitar António Costa, até por informações que tive de amigos bem informados no PSD e CDS.
Estive este fim-de-semana em vários sítios com a comunidade francesa e inglesa e sendo muitos deles residentes em Portugal, aqui trabalhando, manifestaram alguma preocupação não tanto pelo governo do PS (estão habituados nos seus países à alternância do poder) mas à aliança com o PCP.
Muito novo ainda em 1975, vivi em pleno o 25 de Abril e o PREC e lembro-me da perplexidade que tudo me causava.
Rapidamente nos fomos habituando e com serenidade e firmeza fomos combatendo as ideias adversas às nossas e fomos vencendo.
Não creio que radicalismos quer de um lado quer de outro, sirvam os interesses dos Portugueses, pelo que devemos estar atentos e participarmos com as nossas ideias construtivas e objectivas, pelos meios adequados, contra eventuais desmandos.
Não gostei de ver a precipitação de PPC e o dramatismo no apego ao poder. PP foi mais discreto. Foi das primeiras vezes em que vi PPC fora de si e com falta de estadismo, se bem que o saldo do seu comportamento político neste mandato tenha sido muito positivo.
Também espera-se de um futuro PM, e refiro-me ao Dr. António Costa, uma maior serenidade no caminho para o poder. De tanta sofreguidão ficou a sua imagem prejudicada.
São incidentes de percurso para ambos os lados.
Acredito que poderá ser uma nova fase por que temos que passar e que se desenrolará sem dramatismos, se soubermos dar tempo a que o novo governo possa provar o que vale. Estou seguro que fará o melhor que puder não só porque se falhar são os Portugueses que pagarão a factura, como por outro lado ao nível interno e dentro cada partido, as consequências serão fatais para os protagonistas mal sucedidos.
Estamos todos cansados de prognósticos negativos ou positivos, conforme os lados bem como de promessas teóricas. Chegou o momento de agir e provar o merecimento de governar Portugal.
Não será tarefa fácil pois de certeza encontrarão muitas coisas que não foram ditas e uma situação económica, financeira e administrativa pior do que tem vindo a ser anunciado. É assim sempre, pese embora ser errado.
Por outro lado, espera-se que a nova oposição se deixe de ameaças vingativas de falta de colaboração, pois, repito à saciedade, estes senhores estão lá todos e sem distinção de credo ou côr política, para NOS servir e não servirem-se nos seus tachos, importâncias e circunstâncias.
Qualquer desvio a este princípio terá as devidas consequências nos votos futuros.
Requer-se ao Presidente Cavaco que se deixe de esquemas pessoais e decida sem mais delongas.

A minha próxima leitura

De nos jours. Président d'une prestigieuse maison de luxe implantée au Japon, le narrateur, un Français d'une cinquantaine d'années, mène une vie en apparence sans histoires. Marié à une femme qu'il aime, il se passionne aussi pour la photographie. Un matin, sa secrétaire lui remet une lettre anonyme, écrite en japonais. Commence alors un travail de mémoire qui conduit notre homme à interroger son propre passé : son enfance en Afrique du Nord, sa découverte du Japon, dans les années 70, son ascension sociale et professionnelle dans un pays qui le fascine. Il y a aussi les zones d'ombre, entre remords et souvenirs refoulés, d'où refait surface un amour de jeunesse, une Japonaise que le narrateur a rencontrée lors de son premier voyage. Et si l'énigmatique auteur des lettres, c'était elle ?

sábado, 21 de novembro de 2015

O PENINHA E O CONVITE PARA O NOVO GOVERNO




O PENINHA E O CONVITE PARA O NOVO GOVERNO


O telemóvel do Peninha tocou na 6ªf á noite, já depois das 11h.
- Está lá? É o Engº Peninha?
- Sim sou eu. Detestava atender números não identificados.
- Fala do gabinete-sombra do Partido Socialista. O meu nome é Indalécio Boavida e em nome do secretário-geral queria fazer-lhe um convite e saber se estará disponível para integrar o novo governo, só no caso de ser empossado.
- Está brincar seguramente. Eu sou do Partido Comunista, ou melhor, posso passar a ser de outro…mas diga-me em que posto seria colocado?
- Escolhemos para si um novo ministério: o Ministério da Discórdia. Trata-se de uma pasta muito importante, criada à luz da actual situação. Vai dar muito trabalho ao seu titular e por isso vou enunciar-lhe as regalias com que será beneficiado.
- Olhe que sim, diga lá então, começa a interessar-me. Sabe que eu tenho muita influência no meu partido e terá sido por isso que terei sido lembrado, não?
- Isso já não sei. Mas terá um carro, destes que estão nas penhoras do Ministério das Finanças, dos mais modestos, porque enfim, percebe, o exemplo. O seu motorista, será um estivador e só terá direito a ele, durante as horas de trabalho, pois nada de horas extraordinárias e ele poderá faltar em dias de greve. O salário mensal, será o novo ordenado mínimo nacional, do qual, tanto quanto sabemos, metade será dado generosamente ao seu partido. O traje diário é um macaco de ganga, e nunca por nunca, irá de gravata. A sede do Ministério será nos armazéns da Matinha, pois há para lá muito espaço desocupado. Um computador fixo dos gabinetes já desactivados, uma secretária/recepcionista das que estão nas vagas disponíveis.
- Mas estão a ofender-me!!! – o Peninha quando ficava furioso, piava muito alto e seguido.
- Nada, ainda não lhe disse a parte mais sensível: se o governo cair vai para a gaiola, se se aguentar, no fim terá uma parte do bolo que entretanto, os capitalistas forem dando à medida que o governo aprovar grandes obras e empreendimentos. Essa será a compensação pelo seu esforço em manter o acordo de pé.
O Peninha, fez silêncio e pensou, pensou.
- Está aí? – pergunta o Indalécio.
- Sim, estou. Diga ao secretário-geral que eu não aceito, pois seria uma traição aos valores que defendo. Além disso, tenho a certeza que não haverá governo de esquerda.
- Porquê? Como sabe?
- Ouvi o Presidente dizer ao meu secretário-geral para o ajudar a fazer duvidar do entendimento com o vosso partido e em troca…bem não posso dizer.
- O quê? Mas isso é gravíssimo!
E desligando o telefone de pronto, deixou Peninha pendurado. Este começou a rir de fininho e voando com presteza foi pousar no parapeito da janela da Rua do Possolo, aonde o Presidente lhe deu, como todas as manhãs, a sua ração de milho.
Porém hoje, viu que era milho rôxo. Não gostava da côr e delicadamente nem tocou e deixou-o por ali.
Nesse momento, ouviu o Presidente às gargalhadas com o ex-PM e a dizer-lhe:
- Deixe lá que está tudo arranjado para 2ªf. Vou anunciar que confirmei que as bananas na Madeira são maiores do que eu pensava.
Peninha, piou, piou e voou espavorido para o Largo do Rato. Lá chegando, ouviu o secretário-geral dizer em inglês para o representante da União Europeia: “A caged canary is safe, but not free.”
Rapidamente foi ao Google translator ver o que era "canary" e ficou todo orgulhoso quando a tradução indicou: Peninha.
Voou com dignidade em direcção ao alto do céu, com o peito todo enfunado e a dizer: a mim ninguém me prende, sim, sou livre.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O PENINHA E OS GRAVES ACONTECIMENTOS


O PENINHA E OS GRAVES ACONTECIMENTOS

O Peninha gosta de viajar. Há lá no Senhor Roubado uma agência de viagens que se chama “ Feliz Destino” que bateu o record de acidentes de aviação para as reservas dos seus clientes, mas não havendo outra nas redondezas, continua a ser muito requisitada.

O Peninha andava com aquela enfiada na cabeça que havia de ir ao Iraque, tentar encontrar-se com o Nelo, filho da dª Ausónia, que morava paredes-meias com a sua casa. Tinham brincado em putos e na rua o Nelo era conhecido como o “turra”, porque batia como o caraças, era bruto a falar e tinha uma voz gutural que usava para dar uns gritos numa língua que ninguém percebia.

O Nelo era vanguardista, andava de blusão de couro, calças e botas pretas de matar baratas ao canto. Tinha um brinco na orelha, daqueles pretos, que o Peninha sempre admirara, pois era de artista tê-lo incrustado na carne.

Quando se encontravam no quarto para curtir um charro, o Peninha reparara que tinha cenas tipo posters na parede com a cara do Che, do Marx, do Pires Oliveira que era o gajo do bairro que comandava as manifs comunas quando as havia, e estranha e recentemente aparecera a cara de um barbudo com uma arma, e com uns dizeres em árabe.

Desapareceu de súbito e a dª Ausónia andava finada com o desgosto, pois nem sequer após quase 1 ano de ausência, tinha dado qualquer notícia.

Com a guerra terrorista no Iraque e na Síria, não foi difícil adivinhar para aonde tinha ido, tanto mais que o Leal, seu amigo do peito, tinha sido identificado nos jornais como fazendo parte do movimento. Tinha por isso a polícia à perna.

Peninha comprou um bilhete na Air Síria e foi apanhar o voo a Marrocos, indo de carro e atravessando de barco em Algeciras. Foi tudo arranjado pela agência de viagens, que garantiu ao Peninha que estava tudo confirmado.

Já dentro do avião e com destino a Damasco, aonde apanharia um autocarro para o Iraque na zona da fronteira, foi surpreendido tal como todo o avião pelos gritos ferozes de um vulto vestido com uma burka e que falava em árabe. O Peninha percebia, que ele dizia Alá e acabar…e o gajo sacou de uma metralhadora e apontou em direcção ao lado do avião em que o Peninha ia.

Quando quis accionar o gatilho para disparar, aquilo emperrou e soltou em voz alta: - porra que esta merda engatou.

O Peninha estremeceu e reconheceu de imediato a voz do Nelo.

- Ó Nelo, meu filho da puta, tu não me reconheces? – disse o Peninha com firmeza na direcção do embuçado.

O terrorista estremeceu, tirou a burka e apareceu de tee-shirt e jeans que o Peninha reconheceu terem sido comprados no Pinheiro das Quinquilharias, no Senhor Roubado.

Perante a estupefacção geral, caíram nos braços um do outro e desataram às palmadas nas costas e a dizerem-se mimos entre palavrões e frases sem nexo.

O passageiro ao lado do Peninha mudou de banco e o Nelo veio sentar-se junto dele.

Ficou tudo mais calmo e o Peninha que não falava línguas, levantou-se foi até ao local aonde estava a hospedeira, lívida de terror, pegou no intercomunicador e começou a dizer:

- No medo – ó Nelo como porra se diz medo em inglês?

- My friend Nelo, é um porreiraço, no problem. Só reination, queria ele dizer reinação e desatou numa conversa para descomprimir o ambiente, toda cool e fixe, tudo em português do Senhor Roubado.

O Comandante veio cumprimentá-lo e agradecer-lhe e como não se entendiam, foi só sorrisos, e o Peninha dizia sem cessar com o dedo para cima: tudo ok!

O Nelo continuava calado e com má cara e o Peninha disse-lhe: e a dª Ausónia, numa ralação e tu sem dizeres nada, meu cabrão!

E nisto ouviu-se uma explosão no bojo do avião que partiu e o Peninha, ainda com vida disse para o Nelo….”olha que tu me saíste um porco, só para comeres 70 virgens, fazes-me isto”.

Nesse momento saltando para o vazio, o corpo do Nelo caiu a pique despedaçando-se aos poucos.
Peninha, esvoaçou e pensou para si: “esta merda de agência de viagens, comprovou a sua prática – mais um acidente! “

O que valeu a Peninha era ter asas e ser leve como as penas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

TEXTO ESCRITO POR MIM EM CAXIAS, PRESO EM GREVE DE FOME, DEPOIS DA REVOLUÇÃO



TEXTO ESCRITO POR MIM EM CAXIAS, PRESO EM GREVE DE FOME, DEPOIS DA REVOLUÇÃO

Eu sou muito teimoso e destemido, mas nunca me tenho arrependido de dizer o que penso, ainda que com oportunidade, boa-educação e respeito, mas com verdade.

Como diz um primo meu, “tenho as ruas para passear” por isso o que me interessa é quem sirva o meu País.

Assisti à entrevista do Prof. Mário Centeno (não o conheço de lado nenhum para o tratar por tu) e gostei. Gostei, porque me pareceu calmo, seguro e disposto a servir o tal dito meu País.

Logo vi, comentários execrandos de putos do CDS, a começar pelo de um dos opositores a Paulo Portas que tinha como programa inovar, dizendo em suma, que estavam enojados, que era incompetente, que tinham ouvido dizer que era péssimo economista…e não continuo para não vos e me enervar.

Lá fui perguntando o que faziam na vida, se tinham preparação técnica para se compararem como iguais a quem criticavam….e ninguém me respondia. Seria do tarde da noite que se aproximava?

Li igualmente outras críticas de várias outras origens, também do mesmo género, e ia respondendo que tinha humildemente vindo a aprender com o tempo que não se deve julgar, para já, nunca…mas ter uma opinião negativa sem se conhecer.

E pergunto-me se com mais uma manif que me dizem marcada para Sábado e cujo objectivo não estou a ver qual poderá ser, e com as diversas e taxativas opiniões de que Cavaco Silva deve dar posse de novo a PPC e mantê-lo num Governo de gestão, pergunto de novo: será que as forças adversas ao eventual executivo de António Costa, não entendem que o país se tornará ingovernável? As manifs nas ruas a cada dia, as greves, os poderes restritos que o putativo Governo teria, traduzir-se-iam num inferno e numa derrocada final?

Creio ser conhecido como não sendo socialista, nem das áreas para adelante. Sou por isso insuspeito nas minhas simpatias pela esquerda radical, totalitária e anti-democrática.

Dito isto, não quereria estar na pele de António Costa e do seu Governo. Qualquer cabeça de mediana inteligência perceberá o porquê deste meu raciocínio.

Por isso, estranho, irrita-me e indigna-me assistir a este espernear diário da direita, com um apego insolente e indigno ao poder, aos empregos e ao protagonismo, quando, sinceramente, agora que todo o povo português virou economista, jurista, jornalista….não senti na minha pele, nem no meu bolso, realmente qualquer melhoria significativa.

Terá sido do Governo Sócrates, talvez. Terá sido da troika, talvez. Terão corrido com a troika para fóra, sim, mas só por dignidade ufana de provincianos inchados, pois o combate pela sobrevivência continuou, com austeridade, com desemprego, com emigração, com pobreza.

É culpa de quem? De todos nós, que como já nos conhecemos, somos indisciplinados, encantadores na desordem, na mania da grandeza, no porreirismo nacional, na improvisação, no sol e nas praias e no porreiro, pá!

Há desonestos em todas as áreas do poder e em todos os partidos….até agora, parece…que não se conhecem nem BE nem no PC, assim suculentos como o Sócrates, o Macedo dos vistos, o Dias Loureiro, para só nomear alguns de primeira água.

Portanto e a concluir, deixemo-nos de tretas e vamos ao que interessa: temos um Parlamento, vamos ter um novo Presidente e o actual não tem mais do que nomear António Costa como Primeiro-Ministro.

E sabem que mais, o povo deve ser mesmo quem mais ordena e como? Pois no rigoroso escrutínio a cada dia no Parlamento do que fizerem e no final em eleições quando tiverem que ser. Nada de querer antecipar e cortar as asas a quem tem que provar que merece lá estar.

Se não merece, há mecanismos democráticos para serem substituídos.

Vamos mas é trabalhar, para ver se criamos riqueza e emprego e melhores condições de vida para todos nós.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

APONTAMENTOS DE UM CITIZEN KANE

APONTAMENTOS DE UM CITIZEN KANE

Oiço para aí dizer que várias coisas podem ser decididas por Cavaco:
- demitir-se por motivos de doença ou pessoais;
- dar posse a Passos Coelho num governo de gestão;
- dar posse a António Costa;
- constituir um governo de iniciativa presidencial

O que tenho lido aqui no facebook de insultos ordinários, excessivos, demonstrando um extremismo soez e perigoso, faz-me crer que Portugal vai passar por tempos difíceis.
Do lado da esquerda, há também um fanatismo enraizado, uma espécie de epifania…finalmente poderão deitar a mão ao pote. Resta saber se haverá muita coisa dentro do dito pote.
Muitos destes novos dirigentes não têm a menor dignidade institucional, são reles e ordinários, não sabem distinguir a ideologia da prática política e de um conjunto de regras que são comuns a todos os países civilizados, sejam de esquerda ou do centro ou de direita.
Do lado dos vencidos, senti ódio e rancor e desejo de vingança.
Pergunto-me se de ambas as partes, realizam a figura que estão a fazer e se acham que nós somos meros espectadores sem termos o direito a dizer o que queremos?
E o que queremos é que se entendam seja de que forma for, PARA NOS RESOLVEREM OS PROBLEMAS, os da Nação, do seu povo e não os deles e dos seus umbigos cheios de vaidade, presunção e tantas vezes de incompetência, mentira e apego ao poder.
Por estes motivos já se tem visto, na História de Portugal, fazer revoluções! Watch out ou seja tomem cuidado desde os Cavacos, aos Costas, aos Passos Coelhos e Portas, aos Jerónimos e Catarinas Martins.
Ele há limites para as vossas “brincadeiras” !

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O ócio


O ÓCIO

Dorme descuidado o peito e repousam os pensamentos graves.
Vou para o prado lá fora, onde a erva me brota
Fresca, como a fonte, da raiz, onde o lábio amoroso da flor
Se abre pra mim e mudo com hálito doce me bafeja,
E em mil ramos do bosque, como em velas a arder,
Me brilha a chama da vida, a avermelhada flor,
Onde na fonte com sol os peixes contentes se agitam,
Onde a andorinha esvoaça c'os filhos loucos à volta do ninho,
E as borboletas se alegram e as abelhas; e aí vou eu
Por entre os seus prazeres; e eis-me no campo pacífico
Como um ulmeiro amoroso, e como vides e uvas
Enroscam-se a mim os doces jogos da vida.

Ou quando olho às vezes pra o monte, que de nuvens
Coroa a cabeça e sacode os cabelos escuros
Ao vento, e quando ele me traz no ombro potente,
Quando o ar mais leve me encanta os sentidos
E o vale infinito, qual nuvem de cores,
Jaz a meus pés, faço-me águia e, liberta do solo,
Minha vida, como os nómadas, muda de casa no todo da Natureza.
E agora o caminho me guia de novo pra a vida dos homens,
De longe alveja a cidade, como armadura de bronze
Forjada contra o poder do deus das tempestades e dos homens,
Olha ao alto majestosa, e em volta repousam aldeias;
E os telhados envolve, corado da luz da tardinha,
Amigável o fumo doméstico; repousam jardins com sebes
Cuidadas, dorme o arado nos campos talhados.
Mas para o luar ascendem as colunas quebradas
E as portas dos templos, que outrora o terrível, secreto
Espírito da revolta feriu, que no seio da terra e dos homens
Braveja e referve, o indómito, o velho conquistador
Que rasga as cidades como cordeiros, que outrora assaltou
O Olimpo, que se agita no seio dos montes e vomita chamas,
Que arranca as florestas e passa pelo Oceano
E quebra os navios, e contudo em tua ordem eterna
Te não perturba, ó Natureza, na tábua das tuas leis
Nem uma sílaba apaga, esse que também é teu filho, ó Natureza
Nascido dum ventre junto com o espírito da paz. —
E quando em casa então, onde as árvores rumorejam à minha janela,
E o ar brinca com a luz, uma página que conta
Da vida humana leio até ao fim,
Vida! Vida do Mundo! eis-te ante mim como um bosque sagrado.
Falo eu então, e tome quem queira o machado pra derrubar-te,
Feliz moro em ti.

Hölderlin

domingo, 1 de novembro de 2015

O PENINHA E O DIA DE FINADOS

O PENINHA E O DIA DE FINADOS

O Peninha, vestira-se a rigor para o dia de finados. Não percebera ainda se era a 1 ou a 2 de Novembro, com estas mudanças litúrgicas. Seja como for, os mortos estão lá ou hoje ou amanhã, não mudam de sítio.

Fato preto escuro de flanela, camisa branca de popelina suíça, com esticadores em ouro, herdados do avô e com uma frase em cada um. “ ao menos se esticas, estica-los bem” e assinava – Arsélio Martins. Nunca fora pessoa de grande cultura, mas dera-lhe para pôr esta frase que Peninha sempre acreditou ser genuína.

No colete enfiou a corrente de ouro por uma das casas dos botões, deixando-a à vista. Era ouro de lei, pesado e com torcidos ricos, tinha sido uma transformação que fizera de um cordão de Viana que herdara de uma tia.

Abriu a porta do seu Toyota branco – os amigos perguntavam-lhe sempre, porquê esta côr – e ele respondera que era o que havia disponível no stand. Peninha nunca se preocupara com estas coisas de costumes, a não ser no dia de finados. Aí era irredutível: trajado de negro, luvas de pelica e uma rosa na lapela, um chapéu mole que fora do pai e uma braçada de lírios lilases. Sempre achou que os lírios eram as melhores flores para pôr por cima das campas…disfarçavam o horror do abandono de todo um ano sem visitas.

Chegado ao cemitério, punha um ar formal, andava devagar e pomposamente como se fosse atrás de um cortejo e aproximava-se com devoção e em silêncio das campas rasas dos pais.

Lia-se numa placa de mármore branco de Estremoz com as letras gravadas a ouro: “ Aqui jazem os pais chorados do seu filho Peninha”. Achou na altura que não era preciso mais.

Peninha era o suficiente e depois o que importam os apelidos, se já morreram. Ajoelhou, depôs os lírios com ternura e devotamente, persignou-se mal-enjorcadamente – nunca foi de rezas e de bênçãos e era ateu – e disse:

- Olá paizinhos, como tem sido o ano? Muita chuva? Com chuva vêm os vermes, vejam lá se apanham alguma infecção. Espero que não tenham discutido um com o outro, se sim, ao menos baixinho, pois é uma vergonha para os vizinhos.

E ficou em silêncio, olhando o azul do céu, pensando que lhe apetecia comer caracóis ao jantar, e que os melhores de sempre eram na Rua da Esperança.

Tirou a cebola do colete, olhou para as horas e disse:

- Paizinhos fiquem bem e até para o ano. – tinham passado uns meros 20 minutos.

Para sair do cemitério, passou por vários jazigos ricos com nomes imponentes, mas aquele que mais o maravilhava era um trabalhado com umas ogivas rendilhadas e com umas figuras de mulheres nuas em pedra sustentando uma divisa que dizia” Para quem muito amou. Condessa de Gouvarinho” do seu chorado esposo Conde de Gouvarinho.

Cheirou-lhe a corno aquilo do chorado Gouvarinho, até tinha ouvido dizer que era fraco de perna, ou eventualmente não teria areia para aquela camioneta.

Mas sim, achava uma situação chic a valer que lhe fazia uma certa comoçãozinha.

Peninha pensou. Vou começar a juntar dinheiro para um gavetão aonde poderei mandar gravar na porta da gaveta:

“ Aqui jaz o Peninha, não levou a vida tão a sério, afinal ninguém sairá vivo dela.”

sábado, 31 de outubro de 2015

A ENTREVISTA DOS DUQUES DE BRAGANÇA

A ENTREVISTA DOS DUQUES DE BRAGANÇA

Achei bem o Duque de Bragança na entrevista à SIC no final do telejornal das 20h. Fiquei surpreendido pelas palavras desempoeiradas e democráticas que pronunciou em relação ao Partido Comunista considerando-o um partido sério e cumpridor bem como ao BE estando de acordo de que se tiverem um pacto fundamentado e estável com o PS, nada impede que sejam Governo.

O papel de um Chefe de uma Dinastia e pretendente ao trono de um sistema de monarquia constitucional é o de assegurar o funcionamento das instituições e permitir que haja estabilidade e que os cidadãos tenham uma vida sustentável aonde os valores básicos de uma sociedade sejam assegurados, e muito mais que aqui não cabe referir neste sucinto comentário.

Pode e deve dizer o que sente e até o que lhe é transmitido pelo povo e demais autoridades, cabendo-lhe gerir os interesses das diversas forças como um árbitro inteligente, sagaz, sensível, experimentado e patriota.
O lema é o de servir a Nação e não servir-se nem à sua Família.

Também é tradição na Monarquia Portuguesa, acontecer que quando os monarcas "não servem" por razões justas, atendíveis, objectivas e comummente sentidas serem substituídos por quem melhor possa desempenhar as funções. Para isso são educados e preparados.

Dito isto, parece-me que o Senhor Dom Duarte, que conheço bem e de há muitos anos, deveria, para além da sua espontaneidade legítima e de uma preparação que é justo reconhecer ser bastante abrangente e bem fundamentada, aceitar aconselhar-se em momentos de grande responsabilidade na transmissão de mensagens que podem ser mal interpretadas.

Em todos os centros de poder, nacionais e estrangeiros e em outras Casas Reais de países em que existe monarquia, os Reis ou Pretendentes, têm um cuidado rigoroso em medir as consequências do que afirmam.

Nada disto do que digo, coarta a inteligência ou capacidade de cada um, mas já passou o tempo de "excêntricos" ou "bizarros" ou génios mal compreendidos, até porque o objectivo é manterem-se no poder, respeitados e gerindo com prudência e eficácia as Nações.

A Duquesa de Bragança, que também conheço bem, deveria também, no seu papel de Mãe de Príncipes e como importante auxiliar do Duque de Bragança, dar uma imagem um pouco mais sofisticada e concreta da maneira como são educados, ainda que com toda a simplicidade e lhaneza que lhe são típicas, demonstrando ser uma Mulher moderna, tanto do agrado de muita gente.

Neste momento crucial de incerteza, de perplexidade e de necessidade de ouvir palavras avisadas e independentes, não podem ocorrer amadorismos.

Mas isto é o que eu penso.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O que é que se pode dizer em mais um dia de anos?

O que é que se pode dizer em mais um dia de anos?

Em primeiro lugar e desde logo um agradecimento, no meu caso a Deus, no de outras pessoas à semente de vida que nos fez nascer, esta maravilha de máquina que é o nosso corpo, com uma precisão e encadeamento de dependências naturais entre os diversos órgãos, diria perfeita. Só se avaria, hoje estou bem certo disso, por nossa exclusiva culpa. Sabe cada um, porquê, nos seus excessos, falta de cuidado, de intemperança, mas ainda bem que podemos escolher e não sermos uns simples robots imortais.

Depois aos meus Pais, que tanto amei e respeitei e tentei seguir o exemplo. Tudo quanto possa dizer está bem fundo gravado no meu coração e a cada dia relembro com doçura e saudade.

Finalmente à minha Família directa, indirecta e aos meus Amigos/as que sempre contribuíram para me moldar no que hoje sou. 

Tenho para mim, que embora devamos estar sempre aos comandos da nossa vida, e traçar o nosso rumo, não podemos deixar de fazer derivações consoante os escolhos que nos vão aparecendo. Muitas vezes nem são escolhos, são atalhos que sendo mais longos para a chegada, aparentemente nos contrariam, mas por outro lado fazem a outros mais felizes.

E escuso de vos descrever como é bom ser amado, gostado, às vezes menos do que gostaríamos e essa ausência, maior valor dá aos bons momentos. Isto acontece a todos, sem excepção.

Por isso no dia de anos, estes votos de parabéns que se recebem são pequenas/grandes atenções que nos prestam e adoçam a agrura do dia-a-dia.

Muitos me dizem, por muitos e bons anos. É bom pensar nisso, sobretudo se como eu, temos ainda planos para o futuro, nomeadamente de retribuir, se puder, o bem que recebi de outros. É isso o que eu quero e nas actividades a que me tenho dedicado como voluntário, bem como no mundo dos negócios internacionais vou encontrando uma enorme motivação para continuar a olhar para a vida com entusiasmo, interesse, uma certa ingenuidade de menino pequeno e de facto uma grande humildade em aprender. 

Isto vem com a experiência e o facto de se ser mais tolerante sem ceder nos princípios, e não julgar os outros sem os ouvir e mesmo assim, guardar um prudente silêncio, e é isto o que levo deste mundo.

Lembro-me sempre destas palavras da parábola das 10 virgens (as néscias e as prudentes):  "Portanto vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora." (Mateus 25:1-13)


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

if you obbey the rules, you miss all the fun

É uma grande maçada ter que se fazer sempre tudo nos conformes.

Como dizia a Katharine Hepburn “ if you obbey all the rules, you miss all the fun”!

No entanto, tudo está preparado na sociedade civil e moral, para castigar quem não cumpra as leis.

Isto faz-me lembrar o Decálogo, que foi atribuído a Deus e que foi dado a Moisés na montanha.

Grande treta: os povos já estavam a abusar, a abandalhar e os políticos lá do sítio, obrigaram Moisés a subir ao alto do monte, já com dificuldade pois era velho, os bordões para se apoiar não abundavam, e sobretudo não havia cá máscaras de oxigénio para o ajudar a respirar com a falta de ar na altitude.

Já estava tudo escrito e esculpido numas tábuas, tudo pensadinho e o pobre do profeta quando desceu disse que não tinha encontrado ninguém mas sim um frio de rachar.

Espetaram-lhe nas mãos o dito Decálogo e prometeram-lhe mais umas cabras e outras vitualhas, se dissesse o que lhe diziam para dizer. Nada de invenções e falar pouco e não responder às perguntas dos jornalistas.

Lá fez isso, ficou para a história e nós lixámo-nos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O PENINHA E A RURITÂNEA



O PENINHA E A RURITÂNEA

O Peninha acordou agitado e para piorar deu-lhe para ouvir a 5ª sinfonia de Beethoven. Um esplendor: os sons da orquestra entravam-lhe pelas entranhas a dentro.

Estes últimos tempos não tinham sido de feição para a sua vida. Um emprego chato, rotineiro, mal pago e com colegas invejosos, mesquinhos e intriguistas na Repartição.

A Adélia, a chefe de secção, era zarolha e coxa e reflectia no seu carácter o azedume das suas deficiências. Odiava Peninha por ele ser alto, bem lançado, com farta cabeleira aloirada, olhos verdes, mãos finas e dedos compridos com unhas lindas e bem tratadas. Vestia sempre correctamente e raramente se salientava no ambiente do trabalho. Chegava a horas, cumpria o seu dever e saía no fim do dia, desejando uma boa tarde para todos.

O Peninha nunca revelara o furacão que lhe ia na alma, de revolta pela falta de horizontes que no seu país – a Ruritânea – os políticos traçavam para si e para os seus concidadãos.

Acresce que sendo governados por uma ditadura de esquerda, a Junta revolucionária abolira todos os traços de religiosidade e era-se preso por praticar alguma religião, fosse ela qual fosse.

Ora Peninha, tendo nascido numa família de crenças religiosas cristãs, andava desde pequeno em conversações com o seu Deus para ver se O encontrava, fisicamente, vá..assim tu cá tu lá!

Não lhe serviam as teorias todas dos livros sagrados, nem dos rituais litúrgicos por mais bonitos que fossem. Quando era miúdo acompanhava o pai à catedral e acendia uma vela e punha-a no altar do seu ícone preferido, um Deus de barbas num fundo ricamente decorado com desenhos a ouro fino, com a corte celeste no fundo.

Nem as vozes bem moldadas em uníssono do coro ortodoxo, que subiam ao céu e ecoavam na nave do templo, o faziam desistir de, como dizia, encontrar-se frente a frente com o seu Deus.

Depois tudo fora proibido, e vivia num país sem Deus e sem moral, cinzento, planificado e lúgubre.

No emprego, pertenciam todos ao partido e vigiavam-se uns aos outros e não hesitavam em delatar ao comité central, quando suspeitassem que alguém pudesse estar a praticar algum desvio ideológico.

Peninha, reunia-se todas as 5ª feiras à noite num celeiro, fora da cidade, com um grupo de amigos para falarem de religião. Era um risco tremendo pois, se descoberto, implicaria a prisão e a perda do emprego, que apesar de miserável, sempre lhe dava para sobreviver.

Ora nessa noite Peninha resolvera não ir e ficar em casa, pois, excepcionalmente, a televisão estatal passava um filme de que ele sempre gostara. Tratava-se da produção grandiosa e histórica dos “Dez Mandamentos”. Peninha sempre admirara a figura de Moisés e teve um pressentimento de que talvez fosse a oportunidade, tal como o profeta na montanha sagrada, de se encontrar finalmente com Deus.

Peninha, era espirita e ouvia vozes e contactava com as almas, mas nunca conseguira ir para além de familiares ou de pessoas que lhe indicavam, quando acompanhado nas sessões.

Comprara uma pizza e uma bebida parecida com a coca-cola, pois na Ruritânea não deixavam entrar produtos do imperialismo, e sentara-se comodamente no sofá, à espera da hora do início do filme.

O seu apartamento não era no centro da cidade, pois as rendas eram mais caras, e nos subúrbios sempre se encontravam algumas oportunidades.

Herdara dos pais alguns móveis, mas nada de especial, por isso tinha muitos quartos fechados sem mobília, com as paredes escorrendo humidade. Vivia entre o quarto de cama e a sala com um pequeno televisor a preto e branco e um aparelho de hi-fi aonde ouvia a música de que tanto gostava.

Passara para a 9ª sinfonia e o coro ia começar a cantar, quando ouviu um barulho como se fosse alguém que tivesse entrado de mansinho.

Ficou de sentidos alerta, pôs o som mais baixo e esperou.

- Aqui estou. Sei que procuras por mim.

Peninha, olhando à sua volta, nada nem ninguém encontrou.

A voz continuava a fazer-se ouvir dentro da sua cabeça:

- Nada temas, e fala comigo.

- Quem és tu? – perguntou.

- Sou o teu Deus, que vem ao teu encontro.

E Peninha, de contente, respondeu:

- Há tanto tempo que Te procuro. Aonde tens estado?

E nesse momento, invadiu-o uma sensação de grande conforto e de alegria.

Na manhã seguinte, quando acordou e se levantou, Peninha era outro homem, tinha finalmente acreditado plenamente.

Quando saiu do psiquiatra, olhou para a prescrição do médico: internamento forçado no hospício-prisão para dementes. Motivo: distorção mental e visões perigosas para o regime.