sexta-feira, 6 de novembro de 2015
O ócio
O ÓCIO
Dorme descuidado o peito e repousam os pensamentos graves.
Vou para o prado lá fora, onde a erva me brota
Fresca, como a fonte, da raiz, onde o lábio amoroso da flor
Se abre pra mim e mudo com hálito doce me bafeja,
E em mil ramos do bosque, como em velas a arder,
Me brilha a chama da vida, a avermelhada flor,
Onde na fonte com sol os peixes contentes se agitam,
Onde a andorinha esvoaça c'os filhos loucos à volta do ninho,
E as borboletas se alegram e as abelhas; e aí vou eu
Por entre os seus prazeres; e eis-me no campo pacífico
Como um ulmeiro amoroso, e como vides e uvas
Enroscam-se a mim os doces jogos da vida.
Ou quando olho às vezes pra o monte, que de nuvens
Coroa a cabeça e sacode os cabelos escuros
Ao vento, e quando ele me traz no ombro potente,
Quando o ar mais leve me encanta os sentidos
E o vale infinito, qual nuvem de cores,
Jaz a meus pés, faço-me águia e, liberta do solo,
Minha vida, como os nómadas, muda de casa no todo da Natureza.
E agora o caminho me guia de novo pra a vida dos homens,
De longe alveja a cidade, como armadura de bronze
Forjada contra o poder do deus das tempestades e dos homens,
Olha ao alto majestosa, e em volta repousam aldeias;
E os telhados envolve, corado da luz da tardinha,
Amigável o fumo doméstico; repousam jardins com sebes
Cuidadas, dorme o arado nos campos talhados.
Mas para o luar ascendem as colunas quebradas
E as portas dos templos, que outrora o terrível, secreto
Espírito da revolta feriu, que no seio da terra e dos homens
Braveja e referve, o indómito, o velho conquistador
Que rasga as cidades como cordeiros, que outrora assaltou
O Olimpo, que se agita no seio dos montes e vomita chamas,
Que arranca as florestas e passa pelo Oceano
E quebra os navios, e contudo em tua ordem eterna
Te não perturba, ó Natureza, na tábua das tuas leis
Nem uma sílaba apaga, esse que também é teu filho, ó Natureza
Nascido dum ventre junto com o espírito da paz. —
E quando em casa então, onde as árvores rumorejam à minha janela,
E o ar brinca com a luz, uma página que conta
Da vida humana leio até ao fim,
Vida! Vida do Mundo! eis-te ante mim como um bosque sagrado.
Falo eu então, e tome quem queira o machado pra derrubar-te,
Feliz moro em ti.
Hölderlin
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
domingo, 1 de novembro de 2015
O PENINHA E O DIA DE FINADOS
O PENINHA E O DIA DE FINADOS
O Peninha, vestira-se a rigor para o dia de finados. Não percebera ainda se era a 1 ou a 2 de Novembro, com estas mudanças litúrgicas. Seja como for, os mortos estão lá ou hoje ou amanhã, não mudam de sítio.
Fato preto escuro de flanela, camisa branca de popelina suíça, com esticadores em ouro, herdados do avô e com uma frase em cada um. “ ao menos se esticas, estica-los bem” e assinava – Arsélio Martins. Nunca fora pessoa de grande cultura, mas dera-lhe para pôr esta frase que Peninha sempre acreditou ser genuína.
No colete enfiou a corrente de ouro por uma das casas dos botões, deixando-a à vista. Era ouro de lei, pesado e com torcidos ricos, tinha sido uma transformação que fizera de um cordão de Viana que herdara de uma tia.
Abriu a porta do seu Toyota branco – os amigos perguntavam-lhe sempre, porquê esta côr – e ele respondera que era o que havia disponível no stand. Peninha nunca se preocupara com estas coisas de costumes, a não ser no dia de finados. Aí era irredutível: trajado de negro, luvas de pelica e uma rosa na lapela, um chapéu mole que fora do pai e uma braçada de lírios lilases. Sempre achou que os lírios eram as melhores flores para pôr por cima das campas…disfarçavam o horror do abandono de todo um ano sem visitas.
Chegado ao cemitério, punha um ar formal, andava devagar e pomposamente como se fosse atrás de um cortejo e aproximava-se com devoção e em silêncio das campas rasas dos pais.
Lia-se numa placa de mármore branco de Estremoz com as letras gravadas a ouro: “ Aqui jazem os pais chorados do seu filho Peninha”. Achou na altura que não era preciso mais.
Peninha era o suficiente e depois o que importam os apelidos, se já morreram. Ajoelhou, depôs os lírios com ternura e devotamente, persignou-se mal-enjorcadamente – nunca foi de rezas e de bênçãos e era ateu – e disse:
- Olá paizinhos, como tem sido o ano? Muita chuva? Com chuva vêm os vermes, vejam lá se apanham alguma infecção. Espero que não tenham discutido um com o outro, se sim, ao menos baixinho, pois é uma vergonha para os vizinhos.
E ficou em silêncio, olhando o azul do céu, pensando que lhe apetecia comer caracóis ao jantar, e que os melhores de sempre eram na Rua da Esperança.
Tirou a cebola do colete, olhou para as horas e disse:
- Paizinhos fiquem bem e até para o ano. – tinham passado uns meros 20 minutos.
Para sair do cemitério, passou por vários jazigos ricos com nomes imponentes, mas aquele que mais o maravilhava era um trabalhado com umas ogivas rendilhadas e com umas figuras de mulheres nuas em pedra sustentando uma divisa que dizia” Para quem muito amou. Condessa de Gouvarinho” do seu chorado esposo Conde de Gouvarinho.
Cheirou-lhe a corno aquilo do chorado Gouvarinho, até tinha ouvido dizer que era fraco de perna, ou eventualmente não teria areia para aquela camioneta.
Mas sim, achava uma situação chic a valer que lhe fazia uma certa comoçãozinha.
Peninha pensou. Vou começar a juntar dinheiro para um gavetão aonde poderei mandar gravar na porta da gaveta:
“ Aqui jaz o Peninha, não levou a vida tão a sério, afinal ninguém sairá vivo dela.”
O Peninha, vestira-se a rigor para o dia de finados. Não percebera ainda se era a 1 ou a 2 de Novembro, com estas mudanças litúrgicas. Seja como for, os mortos estão lá ou hoje ou amanhã, não mudam de sítio.
Fato preto escuro de flanela, camisa branca de popelina suíça, com esticadores em ouro, herdados do avô e com uma frase em cada um. “ ao menos se esticas, estica-los bem” e assinava – Arsélio Martins. Nunca fora pessoa de grande cultura, mas dera-lhe para pôr esta frase que Peninha sempre acreditou ser genuína.
No colete enfiou a corrente de ouro por uma das casas dos botões, deixando-a à vista. Era ouro de lei, pesado e com torcidos ricos, tinha sido uma transformação que fizera de um cordão de Viana que herdara de uma tia.
Abriu a porta do seu Toyota branco – os amigos perguntavam-lhe sempre, porquê esta côr – e ele respondera que era o que havia disponível no stand. Peninha nunca se preocupara com estas coisas de costumes, a não ser no dia de finados. Aí era irredutível: trajado de negro, luvas de pelica e uma rosa na lapela, um chapéu mole que fora do pai e uma braçada de lírios lilases. Sempre achou que os lírios eram as melhores flores para pôr por cima das campas…disfarçavam o horror do abandono de todo um ano sem visitas.
Chegado ao cemitério, punha um ar formal, andava devagar e pomposamente como se fosse atrás de um cortejo e aproximava-se com devoção e em silêncio das campas rasas dos pais.
Lia-se numa placa de mármore branco de Estremoz com as letras gravadas a ouro: “ Aqui jazem os pais chorados do seu filho Peninha”. Achou na altura que não era preciso mais.
Peninha era o suficiente e depois o que importam os apelidos, se já morreram. Ajoelhou, depôs os lírios com ternura e devotamente, persignou-se mal-enjorcadamente – nunca foi de rezas e de bênçãos e era ateu – e disse:
- Olá paizinhos, como tem sido o ano? Muita chuva? Com chuva vêm os vermes, vejam lá se apanham alguma infecção. Espero que não tenham discutido um com o outro, se sim, ao menos baixinho, pois é uma vergonha para os vizinhos.
E ficou em silêncio, olhando o azul do céu, pensando que lhe apetecia comer caracóis ao jantar, e que os melhores de sempre eram na Rua da Esperança.
Tirou a cebola do colete, olhou para as horas e disse:
- Paizinhos fiquem bem e até para o ano. – tinham passado uns meros 20 minutos.
Para sair do cemitério, passou por vários jazigos ricos com nomes imponentes, mas aquele que mais o maravilhava era um trabalhado com umas ogivas rendilhadas e com umas figuras de mulheres nuas em pedra sustentando uma divisa que dizia” Para quem muito amou. Condessa de Gouvarinho” do seu chorado esposo Conde de Gouvarinho.
Cheirou-lhe a corno aquilo do chorado Gouvarinho, até tinha ouvido dizer que era fraco de perna, ou eventualmente não teria areia para aquela camioneta.
Mas sim, achava uma situação chic a valer que lhe fazia uma certa comoçãozinha.
Peninha pensou. Vou começar a juntar dinheiro para um gavetão aonde poderei mandar gravar na porta da gaveta:
“ Aqui jaz o Peninha, não levou a vida tão a sério, afinal ninguém sairá vivo dela.”
sábado, 31 de outubro de 2015
A ENTREVISTA DOS DUQUES DE BRAGANÇA
A ENTREVISTA DOS DUQUES DE BRAGANÇA
Achei bem o Duque de Bragança na entrevista à SIC no final do telejornal das 20h. Fiquei surpreendido pelas palavras desempoeiradas e democráticas que pronunciou em relação ao Partido Comunista considerando-o um partido sério e cumpridor bem como ao BE estando de acordo de que se tiverem um pacto fundamentado e estável com o PS, nada impede que sejam Governo.
O papel de um Chefe de uma Dinastia e pretendente ao trono de um sistema de monarquia constitucional é o de assegurar o funcionamento das instituições e permitir que haja estabilidade e que os cidadãos tenham uma vida sustentável aonde os valores básicos de uma sociedade sejam assegurados, e muito mais que aqui não cabe referir neste sucinto comentário.
Pode e deve dizer o que sente e até o que lhe é transmitido pelo povo e demais autoridades, cabendo-lhe gerir os interesses das diversas forças como um árbitro inteligente, sagaz, sensível, experimentado e patriota.
O lema é o de servir a Nação e não servir-se nem à sua Família.
Também é tradição na Monarquia Portuguesa, acontecer que quando os monarcas "não servem" por razões justas, atendíveis, objectivas e comummente sentidas serem substituídos por quem melhor possa desempenhar as funções. Para isso são educados e preparados.
Dito isto, parece-me que o Senhor Dom Duarte, que conheço bem e de há muitos anos, deveria, para além da sua espontaneidade legítima e de uma preparação que é justo reconhecer ser bastante abrangente e bem fundamentada, aceitar aconselhar-se em momentos de grande responsabilidade na transmissão de mensagens que podem ser mal interpretadas.
Em todos os centros de poder, nacionais e estrangeiros e em outras Casas Reais de países em que existe monarquia, os Reis ou Pretendentes, têm um cuidado rigoroso em medir as consequências do que afirmam.
Nada disto do que digo, coarta a inteligência ou capacidade de cada um, mas já passou o tempo de "excêntricos" ou "bizarros" ou génios mal compreendidos, até porque o objectivo é manterem-se no poder, respeitados e gerindo com prudência e eficácia as Nações.
A Duquesa de Bragança, que também conheço bem, deveria também, no seu papel de Mãe de Príncipes e como importante auxiliar do Duque de Bragança, dar uma imagem um pouco mais sofisticada e concreta da maneira como são educados, ainda que com toda a simplicidade e lhaneza que lhe são típicas, demonstrando ser uma Mulher moderna, tanto do agrado de muita gente.
Neste momento crucial de incerteza, de perplexidade e de necessidade de ouvir palavras avisadas e independentes, não podem ocorrer amadorismos.
Mas isto é o que eu penso.
Achei bem o Duque de Bragança na entrevista à SIC no final do telejornal das 20h. Fiquei surpreendido pelas palavras desempoeiradas e democráticas que pronunciou em relação ao Partido Comunista considerando-o um partido sério e cumpridor bem como ao BE estando de acordo de que se tiverem um pacto fundamentado e estável com o PS, nada impede que sejam Governo.
O papel de um Chefe de uma Dinastia e pretendente ao trono de um sistema de monarquia constitucional é o de assegurar o funcionamento das instituições e permitir que haja estabilidade e que os cidadãos tenham uma vida sustentável aonde os valores básicos de uma sociedade sejam assegurados, e muito mais que aqui não cabe referir neste sucinto comentário.
Pode e deve dizer o que sente e até o que lhe é transmitido pelo povo e demais autoridades, cabendo-lhe gerir os interesses das diversas forças como um árbitro inteligente, sagaz, sensível, experimentado e patriota.
O lema é o de servir a Nação e não servir-se nem à sua Família.
Também é tradição na Monarquia Portuguesa, acontecer que quando os monarcas "não servem" por razões justas, atendíveis, objectivas e comummente sentidas serem substituídos por quem melhor possa desempenhar as funções. Para isso são educados e preparados.
Dito isto, parece-me que o Senhor Dom Duarte, que conheço bem e de há muitos anos, deveria, para além da sua espontaneidade legítima e de uma preparação que é justo reconhecer ser bastante abrangente e bem fundamentada, aceitar aconselhar-se em momentos de grande responsabilidade na transmissão de mensagens que podem ser mal interpretadas.
Em todos os centros de poder, nacionais e estrangeiros e em outras Casas Reais de países em que existe monarquia, os Reis ou Pretendentes, têm um cuidado rigoroso em medir as consequências do que afirmam.
Nada disto do que digo, coarta a inteligência ou capacidade de cada um, mas já passou o tempo de "excêntricos" ou "bizarros" ou génios mal compreendidos, até porque o objectivo é manterem-se no poder, respeitados e gerindo com prudência e eficácia as Nações.
A Duquesa de Bragança, que também conheço bem, deveria também, no seu papel de Mãe de Príncipes e como importante auxiliar do Duque de Bragança, dar uma imagem um pouco mais sofisticada e concreta da maneira como são educados, ainda que com toda a simplicidade e lhaneza que lhe são típicas, demonstrando ser uma Mulher moderna, tanto do agrado de muita gente.
Neste momento crucial de incerteza, de perplexidade e de necessidade de ouvir palavras avisadas e independentes, não podem ocorrer amadorismos.
Mas isto é o que eu penso.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
O que é que se pode dizer em mais um dia de anos?
O que é que se pode dizer em mais
um dia de anos?
Em primeiro lugar e desde logo um
agradecimento, no meu caso a Deus, no de outras pessoas à semente de vida que
nos fez nascer, esta maravilha de máquina que é o nosso corpo, com uma precisão
e encadeamento de dependências naturais entre os diversos órgãos, diria
perfeita. Só se avaria, hoje estou bem certo disso, por nossa exclusiva culpa.
Sabe cada um, porquê, nos seus excessos, falta de cuidado, de intemperança, mas
ainda bem que podemos escolher e não sermos uns simples robots imortais.
Depois aos meus Pais, que tanto
amei e respeitei e tentei seguir o exemplo. Tudo quanto possa dizer está bem
fundo gravado no meu coração e a cada dia relembro com doçura e saudade.
Finalmente à minha Família
directa, indirecta e aos meus Amigos/as que sempre contribuíram para me moldar
no que hoje sou.
Tenho para mim, que embora
devamos estar sempre aos comandos da nossa vida, e traçar o nosso rumo, não
podemos deixar de fazer derivações consoante os escolhos que nos vão
aparecendo. Muitas vezes nem são escolhos, são atalhos que sendo mais longos
para a chegada, aparentemente nos contrariam, mas por outro lado fazem a outros
mais felizes.
E escuso de vos descrever como é
bom ser amado, gostado, às vezes menos do que gostaríamos e essa ausência,
maior valor dá aos bons momentos. Isto acontece a todos, sem excepção.
Por isso no dia de anos, estes
votos de parabéns que se recebem são pequenas/grandes atenções que nos prestam
e adoçam a agrura do dia-a-dia.
Muitos me dizem, por muitos e
bons anos. É bom pensar nisso, sobretudo se como eu, temos ainda planos para o
futuro, nomeadamente de retribuir, se puder, o bem que recebi de outros. É isso
o que eu quero e nas actividades a que me tenho dedicado como voluntário, bem
como no mundo dos negócios internacionais vou encontrando uma enorme motivação
para continuar a olhar para a vida com entusiasmo, interesse, uma certa ingenuidade
de menino pequeno e de facto uma grande humildade em aprender.
Isto vem com a
experiência e o facto de se ser mais tolerante sem ceder nos princípios, e não
julgar os outros sem os ouvir e mesmo assim, guardar um prudente silêncio, e é isto o que levo
deste mundo.
Lembro-me sempre destas palavras
da parábola das 10 virgens (as néscias e as prudentes): "Portanto vigiai, porque não sabeis nem o dia
nem a hora." (Mateus 25:1-13)
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
if you obbey the rules, you miss all the fun
É uma grande maçada ter que se fazer sempre tudo nos conformes.
Como dizia a Katharine Hepburn “ if you obbey all the rules, you miss all the fun”!
No entanto, tudo está preparado na sociedade civil e moral, para castigar quem não cumpra as leis.
Como dizia a Katharine Hepburn “ if you obbey all the rules, you miss all the fun”!
No entanto, tudo está preparado na sociedade civil e moral, para castigar quem não cumpra as leis.
Isto faz-me lembrar o Decálogo, que foi atribuído a Deus e que foi dado a Moisés na montanha.
Grande treta: os povos já estavam a abusar, a abandalhar e os políticos lá do sítio, obrigaram Moisés a subir ao alto do monte, já com dificuldade pois era velho, os bordões para se apoiar não abundavam, e sobretudo não havia cá máscaras de oxigénio para o ajudar a respirar com a falta de ar na altitude.
Já estava tudo escrito e esculpido numas tábuas, tudo pensadinho e o pobre do profeta quando desceu disse que não tinha encontrado ninguém mas sim um frio de rachar.
Espetaram-lhe nas mãos o dito Decálogo e prometeram-lhe mais umas cabras e outras vitualhas, se dissesse o que lhe diziam para dizer. Nada de invenções e falar pouco e não responder às perguntas dos jornalistas.
Lá fez isso, ficou para a história e nós lixámo-nos.
Grande treta: os povos já estavam a abusar, a abandalhar e os políticos lá do sítio, obrigaram Moisés a subir ao alto do monte, já com dificuldade pois era velho, os bordões para se apoiar não abundavam, e sobretudo não havia cá máscaras de oxigénio para o ajudar a respirar com a falta de ar na altitude.
Já estava tudo escrito e esculpido numas tábuas, tudo pensadinho e o pobre do profeta quando desceu disse que não tinha encontrado ninguém mas sim um frio de rachar.
Espetaram-lhe nas mãos o dito Decálogo e prometeram-lhe mais umas cabras e outras vitualhas, se dissesse o que lhe diziam para dizer. Nada de invenções e falar pouco e não responder às perguntas dos jornalistas.
Lá fez isso, ficou para a história e nós lixámo-nos.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
O PENINHA E A RURITÂNEA
O PENINHA E A RURITÂNEA
O Peninha acordou agitado e para piorar deu-lhe para ouvir a 5ª sinfonia de Beethoven. Um esplendor: os sons da orquestra entravam-lhe pelas entranhas a dentro.
Estes últimos tempos não tinham sido de feição para a sua vida. Um emprego chato, rotineiro, mal pago e com colegas invejosos, mesquinhos e intriguistas na Repartição.
A Adélia, a chefe de secção, era zarolha e coxa e reflectia no seu carácter o azedume das suas deficiências. Odiava Peninha por ele ser alto, bem lançado, com farta cabeleira aloirada, olhos verdes, mãos finas e dedos compridos com unhas lindas e bem tratadas. Vestia sempre correctamente e raramente se salientava no ambiente do trabalho. Chegava a horas, cumpria o seu dever e saía no fim do dia, desejando uma boa tarde para todos.
O Peninha nunca revelara o furacão que lhe ia na alma, de revolta pela falta de horizontes que no seu país – a Ruritânea – os políticos traçavam para si e para os seus concidadãos.
Acresce que sendo governados por uma ditadura de esquerda, a Junta revolucionária abolira todos os traços de religiosidade e era-se preso por praticar alguma religião, fosse ela qual fosse.
Ora Peninha, tendo nascido numa família de crenças religiosas cristãs, andava desde pequeno em conversações com o seu Deus para ver se O encontrava, fisicamente, vá..assim tu cá tu lá!
Não lhe serviam as teorias todas dos livros sagrados, nem dos rituais litúrgicos por mais bonitos que fossem. Quando era miúdo acompanhava o pai à catedral e acendia uma vela e punha-a no altar do seu ícone preferido, um Deus de barbas num fundo ricamente decorado com desenhos a ouro fino, com a corte celeste no fundo.
Nem as vozes bem moldadas em uníssono do coro ortodoxo, que subiam ao céu e ecoavam na nave do templo, o faziam desistir de, como dizia, encontrar-se frente a frente com o seu Deus.
Depois tudo fora proibido, e vivia num país sem Deus e sem moral, cinzento, planificado e lúgubre.
No emprego, pertenciam todos ao partido e vigiavam-se uns aos outros e não hesitavam em delatar ao comité central, quando suspeitassem que alguém pudesse estar a praticar algum desvio ideológico.
Peninha, reunia-se todas as 5ª feiras à noite num celeiro, fora da cidade, com um grupo de amigos para falarem de religião. Era um risco tremendo pois, se descoberto, implicaria a prisão e a perda do emprego, que apesar de miserável, sempre lhe dava para sobreviver.
Ora nessa noite Peninha resolvera não ir e ficar em casa, pois, excepcionalmente, a televisão estatal passava um filme de que ele sempre gostara. Tratava-se da produção grandiosa e histórica dos “Dez Mandamentos”. Peninha sempre admirara a figura de Moisés e teve um pressentimento de que talvez fosse a oportunidade, tal como o profeta na montanha sagrada, de se encontrar finalmente com Deus.
Peninha, era espirita e ouvia vozes e contactava com as almas, mas nunca conseguira ir para além de familiares ou de pessoas que lhe indicavam, quando acompanhado nas sessões.
Comprara uma pizza e uma bebida parecida com a coca-cola, pois na Ruritânea não deixavam entrar produtos do imperialismo, e sentara-se comodamente no sofá, à espera da hora do início do filme.
O seu apartamento não era no centro da cidade, pois as rendas eram mais caras, e nos subúrbios sempre se encontravam algumas oportunidades.
Herdara dos pais alguns móveis, mas nada de especial, por isso tinha muitos quartos fechados sem mobília, com as paredes escorrendo humidade. Vivia entre o quarto de cama e a sala com um pequeno televisor a preto e branco e um aparelho de hi-fi aonde ouvia a música de que tanto gostava.
Passara para a 9ª sinfonia e o coro ia começar a cantar, quando ouviu um barulho como se fosse alguém que tivesse entrado de mansinho.
Ficou de sentidos alerta, pôs o som mais baixo e esperou.
- Aqui estou. Sei que procuras por mim.
Peninha, olhando à sua volta, nada nem ninguém encontrou.
A voz continuava a fazer-se ouvir dentro da sua cabeça:
- Nada temas, e fala comigo.
- Quem és tu? – perguntou.
- Sou o teu Deus, que vem ao teu encontro.
E Peninha, de contente, respondeu:
- Há tanto tempo que Te procuro. Aonde tens estado?
E nesse momento, invadiu-o uma sensação de grande conforto e de alegria.
Na manhã seguinte, quando acordou e se levantou, Peninha era outro homem, tinha finalmente acreditado plenamente.
Quando saiu do psiquiatra, olhou para a prescrição do médico: internamento forçado no hospício-prisão para dementes. Motivo: distorção mental e visões perigosas para o regime.
O Peninha acordou agitado e para piorar deu-lhe para ouvir a 5ª sinfonia de Beethoven. Um esplendor: os sons da orquestra entravam-lhe pelas entranhas a dentro.
Estes últimos tempos não tinham sido de feição para a sua vida. Um emprego chato, rotineiro, mal pago e com colegas invejosos, mesquinhos e intriguistas na Repartição.
A Adélia, a chefe de secção, era zarolha e coxa e reflectia no seu carácter o azedume das suas deficiências. Odiava Peninha por ele ser alto, bem lançado, com farta cabeleira aloirada, olhos verdes, mãos finas e dedos compridos com unhas lindas e bem tratadas. Vestia sempre correctamente e raramente se salientava no ambiente do trabalho. Chegava a horas, cumpria o seu dever e saía no fim do dia, desejando uma boa tarde para todos.
O Peninha nunca revelara o furacão que lhe ia na alma, de revolta pela falta de horizontes que no seu país – a Ruritânea – os políticos traçavam para si e para os seus concidadãos.
Acresce que sendo governados por uma ditadura de esquerda, a Junta revolucionária abolira todos os traços de religiosidade e era-se preso por praticar alguma religião, fosse ela qual fosse.
Ora Peninha, tendo nascido numa família de crenças religiosas cristãs, andava desde pequeno em conversações com o seu Deus para ver se O encontrava, fisicamente, vá..assim tu cá tu lá!
Não lhe serviam as teorias todas dos livros sagrados, nem dos rituais litúrgicos por mais bonitos que fossem. Quando era miúdo acompanhava o pai à catedral e acendia uma vela e punha-a no altar do seu ícone preferido, um Deus de barbas num fundo ricamente decorado com desenhos a ouro fino, com a corte celeste no fundo.
Nem as vozes bem moldadas em uníssono do coro ortodoxo, que subiam ao céu e ecoavam na nave do templo, o faziam desistir de, como dizia, encontrar-se frente a frente com o seu Deus.
Depois tudo fora proibido, e vivia num país sem Deus e sem moral, cinzento, planificado e lúgubre.
No emprego, pertenciam todos ao partido e vigiavam-se uns aos outros e não hesitavam em delatar ao comité central, quando suspeitassem que alguém pudesse estar a praticar algum desvio ideológico.
Peninha, reunia-se todas as 5ª feiras à noite num celeiro, fora da cidade, com um grupo de amigos para falarem de religião. Era um risco tremendo pois, se descoberto, implicaria a prisão e a perda do emprego, que apesar de miserável, sempre lhe dava para sobreviver.
Ora nessa noite Peninha resolvera não ir e ficar em casa, pois, excepcionalmente, a televisão estatal passava um filme de que ele sempre gostara. Tratava-se da produção grandiosa e histórica dos “Dez Mandamentos”. Peninha sempre admirara a figura de Moisés e teve um pressentimento de que talvez fosse a oportunidade, tal como o profeta na montanha sagrada, de se encontrar finalmente com Deus.
Peninha, era espirita e ouvia vozes e contactava com as almas, mas nunca conseguira ir para além de familiares ou de pessoas que lhe indicavam, quando acompanhado nas sessões.
Comprara uma pizza e uma bebida parecida com a coca-cola, pois na Ruritânea não deixavam entrar produtos do imperialismo, e sentara-se comodamente no sofá, à espera da hora do início do filme.
O seu apartamento não era no centro da cidade, pois as rendas eram mais caras, e nos subúrbios sempre se encontravam algumas oportunidades.
Herdara dos pais alguns móveis, mas nada de especial, por isso tinha muitos quartos fechados sem mobília, com as paredes escorrendo humidade. Vivia entre o quarto de cama e a sala com um pequeno televisor a preto e branco e um aparelho de hi-fi aonde ouvia a música de que tanto gostava.
Passara para a 9ª sinfonia e o coro ia começar a cantar, quando ouviu um barulho como se fosse alguém que tivesse entrado de mansinho.
Ficou de sentidos alerta, pôs o som mais baixo e esperou.
- Aqui estou. Sei que procuras por mim.
Peninha, olhando à sua volta, nada nem ninguém encontrou.
A voz continuava a fazer-se ouvir dentro da sua cabeça:
- Nada temas, e fala comigo.
- Quem és tu? – perguntou.
- Sou o teu Deus, que vem ao teu encontro.
E Peninha, de contente, respondeu:
- Há tanto tempo que Te procuro. Aonde tens estado?
E nesse momento, invadiu-o uma sensação de grande conforto e de alegria.
Na manhã seguinte, quando acordou e se levantou, Peninha era outro homem, tinha finalmente acreditado plenamente.
Quando saiu do psiquiatra, olhou para a prescrição do médico: internamento forçado no hospício-prisão para dementes. Motivo: distorção mental e visões perigosas para o regime.
domingo, 25 de outubro de 2015
Uma vergonha
Tento ser equilibrado na minha vida, tanto quanto consigo, com bom-senso
e prudência no julgamento de terceiros, mas confesso que Sócrates
tira-me do sério. Nas declarações que ouvi hoje proferidas numa
pseudo-conferência em não sei bem aonde, teve o descaramento de afirmar
que vai voltar à vida política e a intervir.
Não quero ser injusto em criticar a Justiça, o Juiz Carlos Alexandre e o Ministério Público sem ter ainda sido pronunciada a acusação ou o arquivamento.
Mas deixar passar estes meses todos, com Sócrates preso e todas as fugas ao segredo de justiça que foram sendo desvendadas indiciando-o como culpado, mais os comentários que os seus advogados fizeram hoje dizendo que nada encontram, trata-se de uma situação insustentável.
Uma vergonha, um desgoverno em Portugal em quase tudo e um desânimo para o futuro. Apetece fugir e esquecer.
Não quero ser injusto em criticar a Justiça, o Juiz Carlos Alexandre e o Ministério Público sem ter ainda sido pronunciada a acusação ou o arquivamento.
Mas deixar passar estes meses todos, com Sócrates preso e todas as fugas ao segredo de justiça que foram sendo desvendadas indiciando-o como culpado, mais os comentários que os seus advogados fizeram hoje dizendo que nada encontram, trata-se de uma situação insustentável.
Uma vergonha, um desgoverno em Portugal em quase tudo e um desânimo para o futuro. Apetece fugir e esquecer.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
O PENINHA, O Presidente e os "ARMAZÉNS PAGA POUCO"
O PENINHA, O Presidente e os "ARMAZÉNS PAGA POUCO"
Peninha tinha estado até tarde no Largo do Gato. A reunião tinha-se prolongado e estava exausto. No entanto tinha uma missão a cumprir: entregar ao Presidente uma mensagem privada do seu Secretário-geral. Sem falta.
A mensagem dizia o seguinte:
Peninha tinha estado até tarde no Largo do Gato. A reunião tinha-se prolongado e estava exausto. No entanto tinha uma missão a cumprir: entregar ao Presidente uma mensagem privada do seu Secretário-geral. Sem falta.
A mensagem dizia o seguinte:
“Excelência,
Venho comunicar privadamente que fez muito bem em ter tomado a decisão que tomou. Só não posso apoiar às claras por isso é às escuras que o faço.
Salvou-me a vida, pois a luta continua e os meus camaradas, foram mais uma vez enganados pois são todos uns trouxas.
Esta farsa do acordo secreto, é mesmo assim porque não existe nenhum. Alguma vez eu seria capaz de atraiçoar os meus ideais do centro-esquerda. Claro que tenho muito mais chances de sobreviver se me aliar ao outro (todos os cuidados são poucos em não dizer nomes).
Cá o espero para um jantarinho em tête-à-tête, e a entrada é pela Condenssa de Cuba.
Venha disfarçado e a senha é "o filósofo grego (nada de nomes) que vá para o inferno". Sugiro-lhe que cantarole as primeiras letras do fado do embuçado do Ferreira Rosa e traga uma capa com a Banda das Três Ordens.
Nota à parte: o meu desiderato em ser o que sabe que sei que sabe que quero ser, é para no final do cargo ter uma Grã-Cruz da Ordem de quem sabe (nada de nomes). Ressalta muito e é chic a valer.
Seu muito dedicado
Arcanjo S. Gabriel (na última mensagem era S.Rafael, por isso não há perigo de identificarem).”
E o Peninha, lá foi e em chegando, perguntou se podia falar com o Arcanjo S. Miguel (nome de código). O Oficial riu-se-lhe na cara mas ele insistiu para comunicar para dentro que tinha uma mensagem para o dito Anjo.
Qual não foi o espanto do Oficial, quando viu chegar de afogadilho Sua Excelência, ainda de roupão, que arrancou com sofreguidão das mãos de Peninha, a referida missiva.
O Oficial ainda fez atabalhoadamente a continência, sem o capacete das plumas posto, pois não teve tempo, e reparou que no roupão havia uma etiqueta que dizia: “Armazéns Paga Pouco”!
Venho comunicar privadamente que fez muito bem em ter tomado a decisão que tomou. Só não posso apoiar às claras por isso é às escuras que o faço.
Salvou-me a vida, pois a luta continua e os meus camaradas, foram mais uma vez enganados pois são todos uns trouxas.
Esta farsa do acordo secreto, é mesmo assim porque não existe nenhum. Alguma vez eu seria capaz de atraiçoar os meus ideais do centro-esquerda. Claro que tenho muito mais chances de sobreviver se me aliar ao outro (todos os cuidados são poucos em não dizer nomes).
Cá o espero para um jantarinho em tête-à-tête, e a entrada é pela Condenssa de Cuba.
Venha disfarçado e a senha é "o filósofo grego (nada de nomes) que vá para o inferno". Sugiro-lhe que cantarole as primeiras letras do fado do embuçado do Ferreira Rosa e traga uma capa com a Banda das Três Ordens.
Nota à parte: o meu desiderato em ser o que sabe que sei que sabe que quero ser, é para no final do cargo ter uma Grã-Cruz da Ordem de quem sabe (nada de nomes). Ressalta muito e é chic a valer.
Seu muito dedicado
Arcanjo S. Gabriel (na última mensagem era S.Rafael, por isso não há perigo de identificarem).”
E o Peninha, lá foi e em chegando, perguntou se podia falar com o Arcanjo S. Miguel (nome de código). O Oficial riu-se-lhe na cara mas ele insistiu para comunicar para dentro que tinha uma mensagem para o dito Anjo.
Qual não foi o espanto do Oficial, quando viu chegar de afogadilho Sua Excelência, ainda de roupão, que arrancou com sofreguidão das mãos de Peninha, a referida missiva.
O Oficial ainda fez atabalhoadamente a continência, sem o capacete das plumas posto, pois não teve tempo, e reparou que no roupão havia uma etiqueta que dizia: “Armazéns Paga Pouco”!
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
O PENINHA, a secretária e o PAF
O PENINHA, a secretária e o PAF
- Fiquei danado hoje quando me contrariaram. Sou um sujeito convencido, arrogante e detesto que me digam que não tenho razão – dizia o Peninha para Emília, sua secretária, ao entrar no gabinete naquela manhã ensoleirada.
A Emília, já o aturava há 20 anos e apesar de ser bem paga, e não ter assim muito para fazer, já se lhe viam na cara umas rugas que tentava disfarçar com borato de sódio – tinham-lhe dito que era eficaz – mas não se viam os resultados.
Peninha fazia inúmeros negócios, uns bem-sucedidos, outros nem tanto – mas sempre na sua cabeça – por isso Emília no fundo era assistente de um patrão inexistente.
Ele entrava, sentava-se numa cadeira que mandara vir do Azerbeijão – toda horrorosa, com dourados e umas costas enormes forradas a tecido com fios de seda – e numa posição confortável, começava a falar vários idiomas, cada um mais estranho.
Emília que era católica, até já conversara com o senhor prior, à saída da missa de Domingo e aventara que o Peninha talvez pudesse estar possuído pelo demo. – Que sim, que há muitos casos e se ele falava em vietnamita, galês, esperanto, mandarim da Mongólia e em dialecto da Papua Nova Guiné, tudo era possível. Combinaram então, que Emília deixaria disfarçado, debaixo de uns papéis, uma pagela de Santo Honório, patrono dos que padecem de males desconhecidos.
Passava a manhã nisto, ora se ria ora se zangava e no intervalo vinha ter com Emília, passava-lhe carinhosamente a mão pela cara – ela sempre fora irresistivelmente enfeitiçada por aquele homem de tez morena e de olhos castanhos, com uns beiços carnudos e um nariz bem feito – e dizia invariavelmente: - ainda hás-de ser feliz com o dinheiro que te der, quando ganhar muito, muito, nestes negócios.
Outras vezes, vinha com uma cara carrancuda e perguntava-lhe: - tu achas que sou má pessoa? Bem sei que às vezes tenho o diabo dentro de mim, mas ao ponto de me detestarem…
- Lá está, pensava Emília, isto é coisa de Satanás. Que ele é bom homem, lá isso é.
Peninha, entabulara, desta vez em português, uma conversa com alguém:
- Tu vê-me se podes manipular o gajo, que eu pago-te bem. Insinua-te no pensamento e fá-lo atraiçoar os compromissos e fazer o que eu quero.
Nisto, na secretária, alguns papéis voaram, sem embargo, porém, das janelas estarem fechadas.
- Valha-me Deus, que é Santo Honório que está a lutar com o demo – disse Emília apavorada.
Peninha, ficou com uma voz alterada e irreconhecível e começou freneticamente à procura de algo, por cima da secretária. Cada vez ia gritando mais e mais com uns guinchos tremendos, espumando da boca.
Emília assomou à porta a tremer de medo e viu que de súbito a mão de Peninha se abateu sobre um papel que estava em cima da mesa. E Peninha começou a acalmar e passado uns instantes, olhou para ela e perguntou-lhe o que queria.
Emília aproximou-se da secretária de Peninha e viu finalmente o papel ao qual o patrão tinha dado uma pantufada.
Tinha escrito: PÀF
Entre pafs e pufs, Peninha tinha contentado o diabo que existe dentro de si e sorridente, de saída, repetiu para Emília:
- Ainda hás-de ser muito feliz. Confia em mim.
Emília, lavada em lágrimas teve a certeza que a troika voltaria de novo a breve trecho.
- Fiquei danado hoje quando me contrariaram. Sou um sujeito convencido, arrogante e detesto que me digam que não tenho razão – dizia o Peninha para Emília, sua secretária, ao entrar no gabinete naquela manhã ensoleirada.
A Emília, já o aturava há 20 anos e apesar de ser bem paga, e não ter assim muito para fazer, já se lhe viam na cara umas rugas que tentava disfarçar com borato de sódio – tinham-lhe dito que era eficaz – mas não se viam os resultados.
Peninha fazia inúmeros negócios, uns bem-sucedidos, outros nem tanto – mas sempre na sua cabeça – por isso Emília no fundo era assistente de um patrão inexistente.
Ele entrava, sentava-se numa cadeira que mandara vir do Azerbeijão – toda horrorosa, com dourados e umas costas enormes forradas a tecido com fios de seda – e numa posição confortável, começava a falar vários idiomas, cada um mais estranho.
Emília que era católica, até já conversara com o senhor prior, à saída da missa de Domingo e aventara que o Peninha talvez pudesse estar possuído pelo demo. – Que sim, que há muitos casos e se ele falava em vietnamita, galês, esperanto, mandarim da Mongólia e em dialecto da Papua Nova Guiné, tudo era possível. Combinaram então, que Emília deixaria disfarçado, debaixo de uns papéis, uma pagela de Santo Honório, patrono dos que padecem de males desconhecidos.
Passava a manhã nisto, ora se ria ora se zangava e no intervalo vinha ter com Emília, passava-lhe carinhosamente a mão pela cara – ela sempre fora irresistivelmente enfeitiçada por aquele homem de tez morena e de olhos castanhos, com uns beiços carnudos e um nariz bem feito – e dizia invariavelmente: - ainda hás-de ser feliz com o dinheiro que te der, quando ganhar muito, muito, nestes negócios.
Outras vezes, vinha com uma cara carrancuda e perguntava-lhe: - tu achas que sou má pessoa? Bem sei que às vezes tenho o diabo dentro de mim, mas ao ponto de me detestarem…
- Lá está, pensava Emília, isto é coisa de Satanás. Que ele é bom homem, lá isso é.
Peninha, entabulara, desta vez em português, uma conversa com alguém:
- Tu vê-me se podes manipular o gajo, que eu pago-te bem. Insinua-te no pensamento e fá-lo atraiçoar os compromissos e fazer o que eu quero.
Nisto, na secretária, alguns papéis voaram, sem embargo, porém, das janelas estarem fechadas.
- Valha-me Deus, que é Santo Honório que está a lutar com o demo – disse Emília apavorada.
Peninha, ficou com uma voz alterada e irreconhecível e começou freneticamente à procura de algo, por cima da secretária. Cada vez ia gritando mais e mais com uns guinchos tremendos, espumando da boca.
Emília assomou à porta a tremer de medo e viu que de súbito a mão de Peninha se abateu sobre um papel que estava em cima da mesa. E Peninha começou a acalmar e passado uns instantes, olhou para ela e perguntou-lhe o que queria.
Emília aproximou-se da secretária de Peninha e viu finalmente o papel ao qual o patrão tinha dado uma pantufada.
Tinha escrito: PÀF
Entre pafs e pufs, Peninha tinha contentado o diabo que existe dentro de si e sorridente, de saída, repetiu para Emília:
- Ainda hás-de ser muito feliz. Confia em mim.
Emília, lavada em lágrimas teve a certeza que a troika voltaria de novo a breve trecho.
domingo, 18 de outubro de 2015
O PENINHA E O ROUXINOL
O PENINHA E O ROUXINOL
O Peninha saiu de casa num desaforo. Ia de peúgas de cada côr e tamanho, uma mostrando o pelo forte da canela e a outra com a marca do avesso, conseguindo-se apesar de tudo ler, “made in Taiwan”.
O pai, embarcadiço, trazia-lhe invariavelmente de Taipé, meias de todas as cores e feitios. Estas eram horrendas, de feltro grosso, captivando o cheiro e empapando-se de suor de dias de caminhadas sem fim…o Peninha andava na escola técnica de Massamá e calcorreava a pé uns 10km á ida e outros tantos à volta, fosse à chuva, ao vento ou ao sol.
Raivoso, gritava quando via o carro do PM passar, com ele pimpão lá dentro….- um dia o sol brilhará para todos nós - e fazia-lhe um manguito com o dedo bem espetado.
O Peninha era filho de um comunista e a mãe do MRPP. O pai estava sempre em todas as greves da estiva e apesar de imediato de um navio da Marinha Mercante, quando podia metia-se em conspirações a bordo.
A mãe, marchava na rua, de bata, mal cuidada, com os cabelos desgrenhados e oleosos, olhos fora das órbitas gritando com todos os bofes, palavras de ordem irrealistas…dizia-lhe o pai, que sendo ortodoxo suspeitava que o MRPP fosse uma camuflagem dos gringos. Havia discussões sérias entre ambos e davam-se mal, excepto quando era para zurzir na direita e no Governo.
Um dia o Peninha, transformara-se em rouxinol e voara até uma árvore que dava para o quarto de uma moça que conhecera na escola na aula de trabalhos manuais.
De seu nome, Lucrécia, achara-lhe logo graça pois lembrara-se da capa de um livro que encontrara lá em casa trazido pelo pai : “Lucrécia Bórgia, o Papado e a sensualidade de uma pecadora”: uma jovem nua deitada entre sedas e bordados, lasciva, com um olhar inconfundível de luxúria.
Não descansou enquanto não soube aonde morava e sempre que podia voava cedo para o pinheiro fronteiriço em frente da janela do seu quarto.
Todos os dias, Lucrécia levantava-se da cama nua e abria a janela de par-em-par e voltava para a cama espreguiçando-se em cima dos lençóis, deixando ver as partes mais sensuais do seu belo corpo.
Peninha, trinava ardentemente para chamar-lhe a atenção e louco de desejo não se atrevia a voar para o parapeito.
Voltava para casa muito excitado e saía então a pé para a escola prometendo que se declararia logo que a encontrasse. Mas depois hesitava sempre…como posso dizer-lhe que a vejo desnuda e que a desejo de todo o coração? Se me perguntar como, para além de incrédula, quiçá indignada, não lhe posso confessar que sou o rouxinol que lhe canta as canções mais lindas que um apaixonado pode conceber!
Se lhe digo que lhe quero, olha para mim e vê em mim o Peninha que anda a pé de volta a casa no fim das aulas, com calçado manco e rude, roupa russa e coçada, de cabelo espetado e mal cortado, sem graça e sem eira nem beira…
Peninha, resolveu falar com o pai a pedir-lhe que trouxesse um presente da China, assim coisa que se visse, para dar a uma amiga a quem arrastava a asa.
No regresso, o pai trouxe-lhe uma caixa vistosa, muito bem embrulhada em papel vermelho e com dragões e umas fitas doiradas garridas. Disse-lhe porém que não a podia abrir e teria que lha dar sem saber o que era, até que ela o abrisse.
Peninha odiou o pai nesse momento, mas assim fez por medo a alguma maldição chinesa de "feng shui" e seguiu de perto as suas instruções.
Nesse dia, mais uma vez voou para a árvore do costume e viu-a fresca, apetitosa, roliça e desejável. Voltou a casa decido a ser esse o dia tão esperado!
Partiu a pé mais uma vez, animado e cheio de coragem com a caixa na mão para lhe ofertar. Quando se cruzou com o PM que saía de Massamá na sua imponente viatura, como tinha as mãos ocupadas com o presente, nada fez mas com a cabeça e com os olhos os seus movimentos foram inequívocos.
Contava os passos e apressava-os para chegar à escola.
Lá chegado, quando a avistou, avançou em silêncio para ela e estendeu-lhe a caixa bem embrulhada e ficou à espera, que Lucrécia, entre espantada e divertida lhe perguntasse o que era.
- É uma prenda para ti – disse afogueado – foi o meu pai que a trouxe da China, mas disse-me para não a abrir sem ta entregar. Ardo em curiosidade para ver o que é.
Lucrécia, abriu o embrulho com vagar, desatando as fitas e desdobrando o papel vermelho, apreciando os desenhos com um olhar curioso. Levantou a tampa e abriu-a.
Dentro estava um rouxinol adormecido, com um papel em verso que dizia:
“Do teu Peninha, com amor para sempre”!
domingo, 11 de outubro de 2015
CHEGOU A HORA NOVAMENTE DE ACORDAR PORTUGAL
CHEGOU A HORA NOVAMENTE DE ACORDAR PORTUGAL
Tenho andado preocupado, como calculo que aconteça com uma boa maioria de portugueses decentes e patriotas.
O que se está a passar neste país neste momento é de molde a indignar a quem por Portugal, de ser seu filho, se orgulha, de ter tido gerações de antepassados que serviram a Pátria, que deram a vida e o seu sangue, que trabalharam com honradez prestigiando a Nação.
Somos muitos assim, eu diria mesmo que estas minhas palavras se aplicam
a todos os portugueses, pois que cada família compõe o todo que é
Portugal: e isto inclui democratas, conservadores, apolíticos, de
esquerda ou de direita, pobres e ricos, pois somos todos seres humanos e
cidadãos para além das nossas convicções.
Acordei hoje com vontade de gritar bem alto que me honro de ser Português, que quero viver num país aonde haja pão, trabalho e educação para toda a gente.
Não concordo, nem aceito, nem quero políticos calculistas, que olham mais para o seu umbigo do que para os governados, que se enredam em negociatas de regime, que projectam um futuro negro para milhares de concidadãos sem para tal estarem mandatados.
Não quero um regime comunista em Portugal, quero ter a certeza que o meu País é governado por pessoas de bem, que o servem com generosidade, entrega e transparência, que zelam pelo bem-estar dos concidadãos com competência e rigor e de acordo com a vontade da maioria.
Acho que chegou a hora de fazermos qualquer coisa colectivamente e tomarmos a rédea do nosso destino, nas nossas mãos.
Chegou a hora, novamente de acordar Portugal.
Pensem nisto e depressa.
Acordei hoje com vontade de gritar bem alto que me honro de ser Português, que quero viver num país aonde haja pão, trabalho e educação para toda a gente.
Não concordo, nem aceito, nem quero políticos calculistas, que olham mais para o seu umbigo do que para os governados, que se enredam em negociatas de regime, que projectam um futuro negro para milhares de concidadãos sem para tal estarem mandatados.
Não quero um regime comunista em Portugal, quero ter a certeza que o meu País é governado por pessoas de bem, que o servem com generosidade, entrega e transparência, que zelam pelo bem-estar dos concidadãos com competência e rigor e de acordo com a vontade da maioria.
Acho que chegou a hora de fazermos qualquer coisa colectivamente e tomarmos a rédea do nosso destino, nas nossas mãos.
Chegou a hora, novamente de acordar Portugal.
Pensem nisto e depressa.
sábado, 3 de outubro de 2015
O Peninha e o período de reflexão para as eleições
O Peninha levantara-se cedo. Dia de reflexão que se preze, começa de manhãzinha. Tomou a sua frugal refeição de leite de sonhos, pão com raspas de ananás, e um copo de licor cheio de fel. Sempre ajuda para detestar toda a gente, para começar.
Lá para meio da manhã, quando chegar ao fígado, abranda a acidez e talvez se possa começar a ver alguma luz no fundo do cólon em quem votar.
Por isso a alguns animais se chama cloaca.
Claro está que o Peninha, tinha passado a semana toda em arruadas, com bandeirinhas e tal, beijos lambuzados e caso curioso, não perdeu um único comício. Nestas coisas não vá ter-se alguma surpresa e ganhar alguém, tipo Marinho e Pinto. É preciso aparecer, camaradas. Os tachos é assim que se conquistam.
Mas nunca dizer destes desabafos a ninguém, cara alegre e parecer que se adora todos e cada um dos candidatos.
E passaram-se muitas luas e a reflexão até hoje não mudou um pimento de critério. Não sabe, nem quer saber em quem votar.
Deixa-se conduzir pelo códradinho em que a mão pousar e já está. Escolherá a hora em que esteja muita gente para ser visto.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Quem nasce lagartixa, nunca chega a jacaré.
Fico muito admirado pela progressiva decadência de Cavaco, pois achei
que no fim do mandato poderia fazer um esforço para sair com dignidade e
sem ressentimentos dos muitos que nele acreditaram nas eleições para o
seu primeiro mandato.
Há uns quantos adivinhos, quais Profs. Karamba, que dirão que sempre souberam que seria um mau Presidente, e tal, e qual. São estúpidos, irritantes e merecedores de bengaladas nas costas, porque não estão tempos para aturar imbecis.
Esta recusa de presidir, como deve institucionalmente, às cerimónias do 5 de Outubro, goste ou não desta República, é mais uma prova da sua total falta da noção para que foi eleito.
Os seus eleitores e o povo em geral, não lhe concedem o direito de ficar em casa na rua do Possolo a tomar o pequeno-almoço de pijama e roupão, depois de uma noitada a ver os resultados das eleições, se por acaso não se for deitar com as galinhas, em vez de numa rápida manhã cumprir o seu dever como Chefe de Estado.
Tudo desculpas reles, comezinhas e sem categoria pessoal e institucional.
Foi dos piores Presidentes e Chefes de Estado, para mim, pois quis ser mais do que na realidade era.
Quem nasce lagartixa, nunca chega a jacaré.
Há uns quantos adivinhos, quais Profs. Karamba, que dirão que sempre souberam que seria um mau Presidente, e tal, e qual. São estúpidos, irritantes e merecedores de bengaladas nas costas, porque não estão tempos para aturar imbecis.
Esta recusa de presidir, como deve institucionalmente, às cerimónias do 5 de Outubro, goste ou não desta República, é mais uma prova da sua total falta da noção para que foi eleito.
Os seus eleitores e o povo em geral, não lhe concedem o direito de ficar em casa na rua do Possolo a tomar o pequeno-almoço de pijama e roupão, depois de uma noitada a ver os resultados das eleições, se por acaso não se for deitar com as galinhas, em vez de numa rápida manhã cumprir o seu dever como Chefe de Estado.
Tudo desculpas reles, comezinhas e sem categoria pessoal e institucional.
Foi dos piores Presidentes e Chefes de Estado, para mim, pois quis ser mais do que na realidade era.
Quem nasce lagartixa, nunca chega a jacaré.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
A viagem do Papa Francisco aos USA
Acompanhei bastante a estadia do Papa nos USA e assisti através da CNN, que esteve sempre on-line e transmitiu em permanência TUDO, o que é de pasmar, e eis, assim, as minhas primeiras impressões:
a) foi pessoal e pastoralmente um êxito enorme, que excedeu tudo quanto se esperava e o próprio Vaticano esperaria. Muito bem preparada a visita, com as estruturas locais no seu melhor e em todas cidades aonde esteve;
b) o povo americano e nomeadamente os emigrantes, deram provas de grande entusiasmo, carinho e de genuinidade para com o Papa;
c) o Presidente e o establishment foram igualmente impecáveis no seu todo, excepto algum radical conservador que chegou a ser mal-criado para o Papa dizendo que não era bem-vindo à América, tendo sido de imediato corrigido pelo Partido Republicano;
d) o Episcopado americano rendeu-se ao Papa, tendo o seu grande opositor sido nomeado para ir para Roma, para ser o Capelão ad Honorem da Ordem de Malta!
Quanto ao Papa:
a) vinha cansado de Cuba aonde já tinha tido uma viagem apoteótica e estava cheio de dores ciáticas que lhe impediam de andar normalmente. Formidável, não cedeu um milímetro e consta, dito pela CNN, que não fez fisioterapia. Lá teria as suas razões, creio que seria pelas intenções para que esta viagem desse frutos;
b) pena não ser fluente em inglês, mas estava tudo impecavelmente organizado pois havia tradução simultânea nas transmissões e nas cerimónias em ecrans e ao microfone, textos pré-distribuídos com a tradução em inglês, etc;
c) todas as intervenções que fez foram pragmáticas, directas, e com conteúdos importantes mas ditas com um ar doce e convincente;
d) começaram já a produzir frutos pois o Presidente Obama e o Presidente Chinês no encontro a seguir à Assembleia da ONU assinaram um tratado de protecção do ambiente e outros países tomaram iniciativas semelhantes depois do discurso do Papa na ONU;
e) com calma vou ler as outras intervenções pastorais pois tratam de temas que vão ser discutidas no Sínodo;
f) o programa que o Papa escolheu foi um êxito total quer pela adesão dos destinatários como dos americanos em geral;
g) o Papa não é fisicamente sofisticado, está gordo por estar doente e pela medicação que toma e não se preocupa com o aspecto exterior, não sendo por isso um príncipe da Igreja da Renascença;
h) é no entanto, muito mais importante que tudo isso pois é coerente com o que prega e com o exemplo que dá. Troca a pompa e circunstância pela entrega aos valores do Evangelho.
Muito haverá mais a dizer, mas fiquei a conhecer melhor o Papa e a ter maior admiração pelos americanos pois demonstraram o que é sabido ser uma das suas melhores qualidades: a simplicidade na expressão dos seus sentimentos.
Por isso a viagem foi um sucesso.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
quando eu morrer
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura
Soneto do amor e da morte
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
EU SOU UM EXCÊNTRICO E GOSTO DA INVULGARIDADE
Eu sou um excêntrico e gosto da invulgaridade.
Dito isto, confesso que respeitando as mesmas características nos outros, há no entanto limites os quais ultrapassados, me causam incómodo e não me sinto bem na minha pele.
O que caracterizo como excentricidade em mim, é uma insaciável curiosidade em observar os outros, medir os seus comportamentos, intuir as razões, compará-las com as minhas, num processo evolutivo de aprendizagem e de recolha de informação.
Isto inclui uma dose substancialmente generosa de tolerância inteligente ( até prova em contrário de que a não é), a aceitação dos outros tal como eles são, mas só até um certo ponto que é por mim definido, sobretudo e este é um elemento fundamental: tenho que ter prazer ao desviar-me do cinzentismo habitual e rotineiro. É um deleite pessoal. Esta é uma actividade unilateral, para meu gáudio e faz parte de uma minha forma de ser e de viver.
Assim que, quando nada disto se verifica deixo de ser excêntrico e torno-me numa pessoa exigente, fria, impaciente e com pouca tolerância para a vulgaridade, pretensiosismo, falta de classe e de categoria. Detesto “xungarias” e acho mais depressa “interessante” um milionário excêntrico do que um "meia-tigela" convencido.
Os elementos: cor, cheiro, som, sensualidade, equilíbrio e harmonia mesmo que totalmente ao contrário do que é o considerado como “normal” são o que me atraem.
Tem que haver inteligência, “reason to be” na desconformidade em relação ao padronizado.
Por isso quando alguém me provoca com razões inexplicáveis, sem intenções perceptíveis, criando situações que me fazem sentir irritado, contrariado ou sem excitação no desafio, desapareço umas vezes com estrépito e demonstrando o meu desprazer e outras, de fininho.
O facebook é um campo fértil para muitas selecções interessantes de pessoas com quem me apetece relacionar: divido assim, os frequentadores por categoria e permanência na lista de “amizades”.
Como nos bancos – AAA (triple A) aqueles por quem daria metade do meu reino para conhecer melhor, aproveitar e aprender, estabelecer relações de amizade, de solidariedade.
Contam-se muito poucos candidatos/as e actuais classificados/as.
AA – pessoas engraçadas e com boas-maneiras, agradáveis, interessantes e com quem há um "trade-off" equilibrado. Podem-se reactivar amizades antigas, outras que se aprofundam e se revelam, finalmente as que nos fazem passar bons bocados. Normalmente há de tudo: genuínos, inteligentes, burros com um grau aceitável, cultos e versáteis.
Há bastantes e vou fazendo uma limpeza cirúrgica quando abusam da sua presunção ou intolerância.
A – os que “pescam” e pedem para me conhecer sem eu fazer a menor ideia de quem são, mas que só porque acham que por eu ter escrito alguma coisa que lhes agradou ou às vezes até não, merecem ser admitidos no meu androceu que é também gineceu, tendo até lugar para “osgas” excêntricas.
São muitos os que pedem, poucos os “happy few”.
ZZZZ – Os chatos/as, estúpidos/as, radicais, fanáticos, mal-educados, provocadores destrutivos, filhos-da-puta, cabrões, mal-intencionados, insuportáveis.
Levam uma vassimborada ( de vá-se embora) completamente definitiva e sem apelo.
Voltando à vida pessoal e profissional, o facebook teve esta enorme vantagem de ajudar-me a encaixar os meus contactos nestas definições e tornou-me tudo mais fácil.
E é isto.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
O Peninha, o Américo, o Ivo e o que mais se verá
- Andas com problemas em
casa? – perguntou o Peninha, entre realmente interessado e cusco ao mesmo
tempo.
- Sim, ando cheio de
problemas. – respondeu o Américo, rapaz sensato e bondoso, marceneiro de
profissão e sem muitos rendimentos. O negócio, com a crise, começara a baixar,
e ele levava para casa muito pouco dinheiro.
A Aldina, mulher de
carnes rijas e voz forte, era conhecida como mandando irrestritamente nele. Na
casa de cantoneiros, ali para Fornos, onde eles moravam, tinha-lhe ficado por
herança do pai, o Xana de Albergaria, e como era à beira da estrada, quase nunca
ninguém parava. Sentiam-se muito sozinhos.
Tinham uma courela nas
traseiras que lhes dava para sobreviver, pois a terra era boa e lá plantavam
couves para a sopa, tomates, feijão-verde, umas batatas e algum alecrim. Havia
duas árvores de frutos, uma com pêros de bravo esmôlfo, e outra de pêras.
Por dentro a casa era
modesta e quanto a aquecimento, bem andavam a juntar para ver se compravam um
fogão a gás, mas nem para as bilhas tinham dinheiro. Era ainda uma lareira das
que fumam bem que aquecia, nas noites de frio de rachar, a casa toda que estava
virada para a cozinha.
Não tinham filhos, mas
ambos tinham aceitado bem a infertilidade dela.
O Américo era moço
surpreendentemente atraente e fino de aspecto: olhos azuis, cabelo alourado,
carnadura clara, mãos bem cuidadas com dedos finos e unhas sempre aparadas e
cuidadas, tinha uma barba fina que lhe moldava o queixo, e um sorriso alegre
com a boca escancarada.
Magro e escorreito, tinha
um corpo que marcava os passos com elegância: parecia um modelo.
Foi um espanto quando os
banhos para o casamento foram publicados e afixados na porta da igreja. A
Aldina, era o dobro do tamanho dele, grosseira, com mau feitio e com uma voz de
homem, mandona e arrevesada.
O Américo era filho de um
pai que tinha morrido no Ultramar, um tenente miliciano de Lisboa que se
amancebara com uma polaca de passagem e de que nascera um filho.
A mãe seguira a sua vida
e partira e Américo tinha ficado na aldeia entregue aos pais de Aldina, que o
tinham acolhido e o trataram sempre como um verdadeiro filho.
De modo que tinha
crescido ao lado de Aldina, e foi natural que sem eira nem beira nem tostão na
algibeira, quando morreram os seus protectores, Aldina o tenha guardado consigo
e por uma questão de decência e para evitar as más-línguas, tivesse casado com
ele.
Amor não havia entre
ambos e era com sacrifício, que Américo se punha nela a cada semana, pois
dizia-lhe, “pelo menos temos que fingir que somos marido e mulher”.
Cá para fora, para o
povoado, a imagem era a de um casal igual a tantos outros, em que tudo se
adivinha mas nada se sabe. Passavam despercebidos.
Peninha, uma das vezes
que fora a Fornos, encontrou o Américo no café e meteram conversa e falaram um
pouco de tudo.
Com a frequência das
visitas de Peninha, pois andava a negociar com a Câmara o lançamento de um
monumento a um poeta famoso da terra, foi-se tornando íntimo de Américo e
brotou uma sã amizade que se foi cultivando ao longo dos tempos.
Ora, num verão de muito
calor, Peninha trouxe finalmente a Fornos um seu amigo poeta, de seu nome Ivo,
que queria apresentar na autarquia para que fosse ele, na festa da inauguração
do monumento, a ler os versos do homenageado.
Era um rapaz da idade de
Américo, ruivo, com uns olhos melancólicos, um corpo enxuto e um pouco curvado,
com uma voz efeminada e como que desinteressado da vida.
Conheceram-se e como ele
ia ficar por uns meses em Fornos, até à conclusão do monumento, Ivo passou a
ser a companhia de Américo.
Ia ter à marcenaria e
passavam horas à conversa sobre a natureza, Américo contava-lhe histórias
pueris da vida do campo, pois não tinha cultura e eram estes os seus
interesses.
As larvas nos pêros, os
remédios para as evitar, as folhas de couve bem ricas que davam sopas
suculentas, as pêras rijas mas saborosas, e Ivo ia tomando notas, em silêncio.
Um dia perguntou-lhe se conhecia a terra da mãe, a Polónia, e como Arménio dissesse que não,
prometeu-lhe no dia seguinte levar um Atlas para lhe mostrar.
Estava quente e o sol
brilhava em todo o seu esplendor. Américo propôs-lhe irem até ao rio, pois
sempre seria mais fresco e de caminho comiam uns figos de capa rôta, que eram
de estalo.
Lá se puseram ao caminho e
Ivo desde que conhecera o Américo, mudara de aspecto, os olhos sorriam-lhe, a
cara ficara mais rosada, o corpo endireitara e comentou isso com o amigo.
Américo ficou contente e
revelou-lhe que se não fosse ele, já tinha fugido de casa, pois a mulher
tratava-o mal e era bruta com ele, ademais o negócio andava mau, pelo que ele
tinha pouco dinheiro e ela estava sempre a queixar-se.
Chegando às margens, num
sítio protegido aonde, segundo o Américo, costumava tomar banho longe da vista
de intrusos, sentaram-se numa pedra ao lado um do outro.
Américo estava excitado
por ir ver finalmente em mapa, a terra da sua mãe e achava o Ivo, um amigo
verdadeiro.
Ivo tirou com vagar da
sua mochila um iPad, e pô-lo sobre os joelhos.
Américo olhava com
surpresa para aquele “atlas” que pela descrição na véspera, sempre julgou ser
em papel.
- Isso é um Atlas? –
perguntou.
- Não, é um iPad. Já te
explico o que é e vais ficar maravilhado com o que vais ver.
Entretanto, Peninha
voltara sem ser esperado e instalara-se na pensão Morabitinos aonde o Ivo
estava hospedado. Perguntou por ele na recepção e disseram-lhe que o Américo o
tinha vindo buscar para irem para o rio.
Pôs-se a caminho.
Ivo, carregou no botão de
“power”, o ecrã iluminou-se e apareceram uma série de aplicações que compunham
os programas favoritos de Ivo.
Este, passou um dedo
rápido num dos ícones, e apareceram uma série de fotografias, com uma nitidez e
colorido, que parecia que as pessoas saíam da tela.
Américo estava
deslumbrado e fazia perguntas, umas atrás das outras. Ivo respondia com
interesse e bonomia.
Nisto, chega Peninha que
os encontra debruçados sobre qualquer coisa que não vislumbrava àquela
distância.
- Rapazes, acabei de
chegar. – disse.
Os dois apanharam um
enorme susto e levantaram-se de chofre.
Explicou-lhes que vinha
buscar Ivo de volta à capital, pois o trabalho preparatório com a autarquia
estava completo.
Américo ficou
verdadeiramente cabisbaixo, o que não passou despercebido aos dois.
- Ó pá – disse Ivo para o
Américo – e se fugisses de casa e viesses connosco para Lisboa? Isso é que era.
O Peninha também insistia
e Américo, convencido, combinou logo ali a estratégia. Iria a casa buscar os
seus poucos pertences, num momento em que Aldina estivesse atrás, na courela.
Pelas sete da tarde,
chegou Américo todo afogueado com um saco de pano e as botas atadas nos cordões
ao pescoço.
Peninha tinha vindo de
tapete voador e partiram sem mais delongas.
Américo estava encantado
ao sobrevoar as várias terras e povoações a caminho de Lisboa.
O tapete, demorou cerca
de uma hora e meia e desceu numa rua do Bairro Alto, aonde morava a Severa.
Fizeram-se as
apresentações e Peninha deixou uma bolsa de moedas de oiro, que serviria para
pagar o alojamento de Américo para os próximos meses.
A Severa olhava gulosa o
moço novinho e apetecível, pois o Marialva já era velho e barrigudo e
obrigava-a a tocar guitarra e a cantar todas as noites e bebia muito do pichel
da adega.
Foi levá-lo até ao quarto
e ajudou-o a despir o casaco de cabedal e perguntou-lhe se queria que lhe
preparasse um banho quente na tina de cobre.
Estava o nosso Américo
deleitado com o sabão que fazia espuma dentro da tina com água quente, sob os
olhares excitados da Severa que olhava para a sua nudez. quando se ouvem de
súbito, os cascos dos cavalos, e irrompe pela estalagem o marquês de Marialva
que pede logo de beber.
Aflita, a Severa, enxuga
Américo, não sem lhe tocar nas partes baixas e mete-o dentro de um armário do
Ikea que tinha acabado de comprar, por instruções do Peninha.
Sentem-se as botas pesadas
do Marialva a subir as escadas e a entrar no quarto: viu as roupas do Américo
no chão e perguntou zangado à amante:
- Tens cá homem dentro de
casa?
- É um hóspede que acabou
de chegar, meu Marquês!
E puxando-o com ternura
para a cama, começou a dedilhar a guitarra e pôs-se a cantar um fado do Camané.
Embalado pela música,
pelo calor do banho e pela excitação de ter conhecido a Severa, Américo
adormeceu e deixou-se escorregar pelas paredes lisas abaixo do armário, e as
portas escancararam-se e viu-se nú de pernas abertas no chão.
Telefonaram para o
telemóvel da Marquesa a avisá-la do sítio aonde o Marialva estava, e com o rabo
entre as pernas, voltou para casa e o Américo e a Severa viveram felizes para
sempre.
Muito mentirosa é a
História!
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
O Peninha e o UBER
O PENINHA E O UBER
O Peninha detestava pessoas que tivessem pelos nas orelhas, pretos e hirsutos a sair como jorros de água dos faunos das fontes do Rossio.
Recomendava sempre que no barbeiro, baixando a voz, não fosse ser ouvido pelos vizinhos de cadeira, se dissesse: - olhe, Aníbal, quando puder e discretamente, com uma pinça arranque-os um a um, que no fim dou-lhe uma generosa gorgeta!
Todas as vezes que ia cortar o cabelo e fazia-o a cada mês, aparecia pelo meio-dia, um cavalheiro já meio-careca, com uma testa e alto do cocuruto completamente lisos, que em frente a um espelho de uma cadeira livre, tirava do bolso um capachinho e besuntando-o com cola, aplicava-o na cabeça, ajeitando-o.
Fazia-o com a naturalidade de quem repete isto a cada dia, não se importando dos olhares dos circunstantes, entre divertidos e enojados.
O Peninha não resistiu e um dia perguntou ao Alex, o dono da barbearia : - Oiça lá, o gajo acha que não se topa a léguas que é tudo falso?
Resposta do Alex: - é por causa das miúdas. À noite vai para os "cabarétes" e elas enganam-no com palavras bonitas e o sr. Poupinho vai no engodo e tem torrado tudo com as gajas. Eu até já lhe disse que temos aqui clientes distintos e de sucesso com carecas bem piores do que a dele. Mas nada, a vaidade cega.
O Peninha frequenta uma casa de alterne muito conhecida no meio, mas muito discreta. Entra-se para um parque de automóveis que diz: “Loja gourmet – Aberta 24h. Arrumador privativo”. O Gonçalves, arrastando o pé bôto, vai indicando aonde arrumar e já conhece os clientes de ginjeira. Esta locanda tem uma particularidade: os clientes têm números. Registam-se como tal a primeira vez e depois ficam para sempre.
Como a clientela é internacional, por causa dos chineses e dos angolanos há números que ou dão má sorte ou são óbvios de mais para um supermercado que se preze visto do exterior, segundo afiança o Peninha. Os números proscritos são o 13, o 69 e o 7 por causa do Cristiano, nada de apelidos.
Ora o que mais agrada ao Peninha é a música e a dança. O Héldrio, o proprietário, de brincadeira assim chamado, pois o nome verdadeiro é Ismael, teve a brilhante ideia de gizar um sistema lucrativo para a casa: as meninas que são convidadas para dançar, têm um taxímetro à cintura, numa zona de ninguém, não importunando o trabalho de mãos, e que tem dois objectivos: o número do cliente e o tempo de dança.
Ou seja, o Peninha que adora bailar com a Eline, uma diva da Estónia, as músicas do Julito, todo atracassado a ela, mãos no traseiro redondinho e ela com a cara encostadinha e com a boca colada aos ouvidos dele sussurrando palavras de amor, fixa um tempo, vá…uns 10m que equivalem a um Martini para ela e para ele um Brandy Constantino.
Ao fim dos 10m, ouve-se um alarme discreto no taxímetro indicando o fim da corrida e ela de repente fica estática, hirta e firme: ou continua com mais um prazo ou com dignidade vai à procura de outro cliente.
Todos se divertem e agora com a UBER, o Héldrio até já arranjou uma aplicação para os telemóveis em que dispensa, para os que querem, o uso do taxímetro. É o próprio cliente que programa e é debitado na sua conta corrente na casa.
Claro está que para os mais tradicionais ainda faz todo o sentido o velho taxímetro.
In " prosas de fim de Estio" de Vicente Mais ou Menos de Souza
O Peninha detestava pessoas que tivessem pelos nas orelhas, pretos e hirsutos a sair como jorros de água dos faunos das fontes do Rossio.
Recomendava sempre que no barbeiro, baixando a voz, não fosse ser ouvido pelos vizinhos de cadeira, se dissesse: - olhe, Aníbal, quando puder e discretamente, com uma pinça arranque-os um a um, que no fim dou-lhe uma generosa gorgeta!
Todas as vezes que ia cortar o cabelo e fazia-o a cada mês, aparecia pelo meio-dia, um cavalheiro já meio-careca, com uma testa e alto do cocuruto completamente lisos, que em frente a um espelho de uma cadeira livre, tirava do bolso um capachinho e besuntando-o com cola, aplicava-o na cabeça, ajeitando-o.
Fazia-o com a naturalidade de quem repete isto a cada dia, não se importando dos olhares dos circunstantes, entre divertidos e enojados.
O Peninha não resistiu e um dia perguntou ao Alex, o dono da barbearia : - Oiça lá, o gajo acha que não se topa a léguas que é tudo falso?
Resposta do Alex: - é por causa das miúdas. À noite vai para os "cabarétes" e elas enganam-no com palavras bonitas e o sr. Poupinho vai no engodo e tem torrado tudo com as gajas. Eu até já lhe disse que temos aqui clientes distintos e de sucesso com carecas bem piores do que a dele. Mas nada, a vaidade cega.
O Peninha frequenta uma casa de alterne muito conhecida no meio, mas muito discreta. Entra-se para um parque de automóveis que diz: “Loja gourmet – Aberta 24h. Arrumador privativo”. O Gonçalves, arrastando o pé bôto, vai indicando aonde arrumar e já conhece os clientes de ginjeira. Esta locanda tem uma particularidade: os clientes têm números. Registam-se como tal a primeira vez e depois ficam para sempre.
Como a clientela é internacional, por causa dos chineses e dos angolanos há números que ou dão má sorte ou são óbvios de mais para um supermercado que se preze visto do exterior, segundo afiança o Peninha. Os números proscritos são o 13, o 69 e o 7 por causa do Cristiano, nada de apelidos.
Ora o que mais agrada ao Peninha é a música e a dança. O Héldrio, o proprietário, de brincadeira assim chamado, pois o nome verdadeiro é Ismael, teve a brilhante ideia de gizar um sistema lucrativo para a casa: as meninas que são convidadas para dançar, têm um taxímetro à cintura, numa zona de ninguém, não importunando o trabalho de mãos, e que tem dois objectivos: o número do cliente e o tempo de dança.
Ou seja, o Peninha que adora bailar com a Eline, uma diva da Estónia, as músicas do Julito, todo atracassado a ela, mãos no traseiro redondinho e ela com a cara encostadinha e com a boca colada aos ouvidos dele sussurrando palavras de amor, fixa um tempo, vá…uns 10m que equivalem a um Martini para ela e para ele um Brandy Constantino.
Ao fim dos 10m, ouve-se um alarme discreto no taxímetro indicando o fim da corrida e ela de repente fica estática, hirta e firme: ou continua com mais um prazo ou com dignidade vai à procura de outro cliente.
Todos se divertem e agora com a UBER, o Héldrio até já arranjou uma aplicação para os telemóveis em que dispensa, para os que querem, o uso do taxímetro. É o próprio cliente que programa e é debitado na sua conta corrente na casa.
Claro está que para os mais tradicionais ainda faz todo o sentido o velho taxímetro.
In " prosas de fim de Estio" de Vicente Mais ou Menos de Souza
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
o boca de pato e o Peninha
O Peninha veio-me com lamúrias de que tinha saudades do pai, que estava cinzento o dia e que ele quando chegava a casa ouvia o vizinho com a Cavalaria Rusticana aos berros e ainda por cima tentando acompanhar a música, sem acertar uma só vez com o Caruso, mas que se recordava do pai a dizer-lhe:
- Peninha, isto é que é voz!
Uma vez tentou perguntar: - Quem a do Caruso?
– Não, filho, a do sr. Azevedo, ele tocou ferrinhos na orquestra da Junta e afinou a voz.
Que tinha ido à casa dos pneus e se tinha lembrado, de repente, daquela viagem que tinha feito em pequeno, no carro do pai, um boca de sapo, que súbitamente nas curvas da estrada da Beira, desatou a ir para cima e para baixo, coisas de hidráulica!
Claro está que rebentaram não um, mas os quatro pneus, à noite junto da
ponte para Penacova. Lá foram a pé todos, o pai dele a única coisa que
dizia era: - Deus queira que a taberna esteja aberta..tenho cá uma fome
das bifanas, dos pastéis de bacalhau e do copo de três…
A mãe dele, dizia aflita…- mas ó filho e os pneus, a esta hora aonde encontraremos algum mecânico aberto e uma loja para comprar, ainda por cima, logo os quatros pneus? Lá se vão as poupanças nas arrecadas em ouro que herdei da minha madrinha!
Acabaram por ficar 8 dias em Penacova na pensão Gonçalves, cujo dono, o Leonel, de alcunha o Gonçalves (nunca ninguém soube a razão deste apelido) tinha andado na tropa com o pai do Peninha. A verdade é que ambos tinham sido dispensados do serviço militar por total inutilidade para a Nação, mas foram camaradas no quartel em Abrantes.
Grandes pândegas todos os 8 dias, almoços até tarde bem regados e copiosos e ao jantar novas pançadas e muito vinho, do tinto, da região.
A mãe e o Peninha passaram os dias a visitar oragos, capelas e sítios de devoção acompanhados pela dª.Ondina, que era a esposa do Leonel, dito o Gonçalves.
Mulher de muita piedade, tinha como único consolo dedicar-se à oração.
Perguntei ao Peninha: - ouve lá, o que é que esta viagem tem assim de tão extraordinário para te fazer lembrar o teu pai?
- Os pneus, dizia sem parar, os pneus…e até hoje….
In " Prosas várias" de Vicente Mais ou Menos de Souza
A mãe dele, dizia aflita…- mas ó filho e os pneus, a esta hora aonde encontraremos algum mecânico aberto e uma loja para comprar, ainda por cima, logo os quatros pneus? Lá se vão as poupanças nas arrecadas em ouro que herdei da minha madrinha!
Acabaram por ficar 8 dias em Penacova na pensão Gonçalves, cujo dono, o Leonel, de alcunha o Gonçalves (nunca ninguém soube a razão deste apelido) tinha andado na tropa com o pai do Peninha. A verdade é que ambos tinham sido dispensados do serviço militar por total inutilidade para a Nação, mas foram camaradas no quartel em Abrantes.
Grandes pândegas todos os 8 dias, almoços até tarde bem regados e copiosos e ao jantar novas pançadas e muito vinho, do tinto, da região.
A mãe e o Peninha passaram os dias a visitar oragos, capelas e sítios de devoção acompanhados pela dª.Ondina, que era a esposa do Leonel, dito o Gonçalves.
Mulher de muita piedade, tinha como único consolo dedicar-se à oração.
Perguntei ao Peninha: - ouve lá, o que é que esta viagem tem assim de tão extraordinário para te fazer lembrar o teu pai?
- Os pneus, dizia sem parar, os pneus…e até hoje….
In " Prosas várias" de Vicente Mais ou Menos de Souza
domingo, 13 de setembro de 2015
SÓCRATES E O FUTURO
Fui já há uns meses, na minha qualidade de voluntário da Cruz
Vermelha para o sector prisional, convidado pela minha colega local para
dar uma sessão de trabalho no Estabelecimento prisional de Évora. O
eng.Sócrates, nesse dia não compareceu e creio que por razões próprias,
pois tinha sido publicado nessa manhã nos jornais, mais uma das suas
“complicações”.
Conheci-o em várias visitas de Estado para que fui convidado, como empresário, e guardei dele a memória de uma pessoa simpática, activo, e eficaz na promoção das empresas portuguesas que acompanhava.
Nessas viagens, não sendo eu seu íntimo nem do seu partido, constatei ser uma pena que os líderes, Chefes-de-Estado incluídos, não tenham um contacto mais desinibido com todos, revelando mais o homem do que o político. Bem sei que são muitos participantes e agendas intensas.
Vem tudo isto a propósito de ter vindo a ler uma série de comentários, artigos, reportagens, fotografias aéreas e terrestres…sobre a casa, as pizzas, os convidados e a vida pessoal do eng. Sócrates, na fase pós-Évora.
A minha experiência com reclusos que vale o que vale, apesar de serem de alta segurança e estrangeiros, leva-me a reflectir sobre o que eu sugeriria que o eng. Sócrates deveria fazer para se dignificar a ele próprio, não só porque tem família, foi Primeiro-Ministro do meu País e eu tenho orgulho de ser Português, como também para preparar o seu futuro.
Algumas dicas:
1. Ter a serenidade e categoria para falar menos, pensar no que diz e no que pode ou não causar como efeitos;
2. Ser natural, isto é, igual a qualquer outro português que ao tocarem à porta para entregar uma pizza que pediu, abre-a sem mistérios, paga ao "menino" que a leva, sorri para os fotógrafos e torna a fechar a porta…e já agora dando uma lição de normalidade à imprensa ranhosa de que este é um “non-issue” ou seja ninguém está interessado na pizza do engº Sócrates, que tem direito a comer como qualquer cidadão;
3. Depois, tentar exteriorizar sem raiva, ódio ou extremismos o que aprendeu durante o tempo de reclusão e solidão. Há tanto para transmitir e até dar exemplo. Só ganharia em reconhecimento por parte dos portugueses, de como aprendeu a ter mais humildade, a analisar-se e a ganhar eventualmente a simpatia de quem já o condenou na praça pública;
4. Se eu fosse Juiz do seu eventual processo, já teria à partida uma irritação imensa pela sua arrogância, temeridade em afrontar a Justiça, falta de maneiras como cidadão desrespeitando as regras aplicáveis para todos os outros reclusos, atacando irreflectidamente tudo e todos, prejudicando o seu partido e os socialistas e por último dando um péssimo exemplo internacionalmente, como foi tantas vezes referido, inclusivamente por jornais de esquerda;
5. Os reclusos que eu ensino, são todos pessoas inteligentes e com perfis diferentes do engº Sócrates, ainda que cada um é cada um, e a importância dos seus casos é impossível de comparar. Uma coisa é certa porém, nem eles próprios lhe têm respeito e criticam-no pelo seu desbragado ego, espalhafato e incumprimento das leis penais;
6. A falta de bom senso de Mário Soares e de outros destacados líderes socialistas em visitá-lo acintosamente, mais uma vez dando cobertura ao espectáculo mediático de que tanto gosta, vai causar-lhe de certeza um grande amargo de boca quando se apurarem os actos ilícitos que eventualmente tenha praticado. É como se quisessem pré-ilibá-lo de culpas, quando se sabe que só ele, engº Sócrates conhece o que fez.
7. Finalmente, se tivesse crescido interiormente e se dispusesse, quando falasse ou escrevesse, a espelhar uma outra imagem de arrependido e de capaz de recomeçar uma nova vida, só revelaria como vale a pena acreditar que muitas vezes a expiação, com sofrimento e solidão, é a única maneira de reabilitação.
Conheci-o em várias visitas de Estado para que fui convidado, como empresário, e guardei dele a memória de uma pessoa simpática, activo, e eficaz na promoção das empresas portuguesas que acompanhava.
Nessas viagens, não sendo eu seu íntimo nem do seu partido, constatei ser uma pena que os líderes, Chefes-de-Estado incluídos, não tenham um contacto mais desinibido com todos, revelando mais o homem do que o político. Bem sei que são muitos participantes e agendas intensas.
Vem tudo isto a propósito de ter vindo a ler uma série de comentários, artigos, reportagens, fotografias aéreas e terrestres…sobre a casa, as pizzas, os convidados e a vida pessoal do eng. Sócrates, na fase pós-Évora.
A minha experiência com reclusos que vale o que vale, apesar de serem de alta segurança e estrangeiros, leva-me a reflectir sobre o que eu sugeriria que o eng. Sócrates deveria fazer para se dignificar a ele próprio, não só porque tem família, foi Primeiro-Ministro do meu País e eu tenho orgulho de ser Português, como também para preparar o seu futuro.
Algumas dicas:
1. Ter a serenidade e categoria para falar menos, pensar no que diz e no que pode ou não causar como efeitos;
2. Ser natural, isto é, igual a qualquer outro português que ao tocarem à porta para entregar uma pizza que pediu, abre-a sem mistérios, paga ao "menino" que a leva, sorri para os fotógrafos e torna a fechar a porta…e já agora dando uma lição de normalidade à imprensa ranhosa de que este é um “non-issue” ou seja ninguém está interessado na pizza do engº Sócrates, que tem direito a comer como qualquer cidadão;
3. Depois, tentar exteriorizar sem raiva, ódio ou extremismos o que aprendeu durante o tempo de reclusão e solidão. Há tanto para transmitir e até dar exemplo. Só ganharia em reconhecimento por parte dos portugueses, de como aprendeu a ter mais humildade, a analisar-se e a ganhar eventualmente a simpatia de quem já o condenou na praça pública;
4. Se eu fosse Juiz do seu eventual processo, já teria à partida uma irritação imensa pela sua arrogância, temeridade em afrontar a Justiça, falta de maneiras como cidadão desrespeitando as regras aplicáveis para todos os outros reclusos, atacando irreflectidamente tudo e todos, prejudicando o seu partido e os socialistas e por último dando um péssimo exemplo internacionalmente, como foi tantas vezes referido, inclusivamente por jornais de esquerda;
5. Os reclusos que eu ensino, são todos pessoas inteligentes e com perfis diferentes do engº Sócrates, ainda que cada um é cada um, e a importância dos seus casos é impossível de comparar. Uma coisa é certa porém, nem eles próprios lhe têm respeito e criticam-no pelo seu desbragado ego, espalhafato e incumprimento das leis penais;
6. A falta de bom senso de Mário Soares e de outros destacados líderes socialistas em visitá-lo acintosamente, mais uma vez dando cobertura ao espectáculo mediático de que tanto gosta, vai causar-lhe de certeza um grande amargo de boca quando se apurarem os actos ilícitos que eventualmente tenha praticado. É como se quisessem pré-ilibá-lo de culpas, quando se sabe que só ele, engº Sócrates conhece o que fez.
7. Finalmente, se tivesse crescido interiormente e se dispusesse, quando falasse ou escrevesse, a espelhar uma outra imagem de arrependido e de capaz de recomeçar uma nova vida, só revelaria como vale a pena acreditar que muitas vezes a expiação, com sofrimento e solidão, é a única maneira de reabilitação.
sábado, 12 de setembro de 2015
MORREU UM DOS MEUS RECLUSOS ESTRANGEIROS da cadeia de Alta Segurança
Um dos meus reclusos morreu enquanto decorria o Verão e eu não dava aulas. Era o mais velho, e saía agora em Setembro. Estava muito contente com a perspectiva de voltar à liberdade e poder passar os restos da vida com a família.
Resolvi ouvir o Requiem em D menor de Mozart, em homenagem ao General sérvio, enquanto escrevo este seu obituário.
Para além do ensino do Português que absorvia com alguma dificuldade mas com muita atenção e interesse, era estudioso e tinha uma gramática feita por ele para compreender os tempos dos verbos e o género que na sua língua, era diferente do nosso.
Tivémos inúmeras conversas ao longo de quase um ano de convivência. Uma prisão de alta segurança não é fácil para ninguém e para ele já com 74 anos, tornara-se insuportável, e só ansiava pela liberdade.
Inteligente, muito bem educado, correcto no tratamento com os outros reclusos, pediu-me ajuda para os novos planos que tinha em mente a partir de Setembro, quando regressasse ao seu país: a produção de caviar a partir de uma nova tecnologia, mediante a criação de caracóis.
Levei-lhe uns livros e fotocópias em inglês para se começar a inteirar. Queria ocupar o seu tempo, trabalhando no campo e ganhando algum dinheiro.
Condenação: por ter estado no lugar errado, no momento errado. Tenho a certeza que ao obedecer ao seu superior, fê-lo por disciplina militar e não por ser criminoso. No entanto como referi atrás as consequências da sua desejável não-obediência ter-lhe-iam evitado a prisão.
Não tenho mais palavras para definir o sentimento de piedade que sinto por ele e que espelha bem a miséria humana na sua expressão mais dolorosa: na sua cela sozinho, mais de 90% do tempo, o que pode um homem com 74 anos esperar da vida e até da liberdade, depois de dezenas de anos recluso?
Não me pronuncio sequer sobre a justeza do julgamento que não conheço e que não me compete apreciar.
Concluo com este desejo sincero: que tenha encontrado a paz antes de fechar os olhos.
Para além do ensino do Português que absorvia com alguma dificuldade mas com muita atenção e interesse, era estudioso e tinha uma gramática feita por ele para compreender os tempos dos verbos e o género que na sua língua, era diferente do nosso.
Tivémos inúmeras conversas ao longo de quase um ano de convivência. Uma prisão de alta segurança não é fácil para ninguém e para ele já com 74 anos, tornara-se insuportável, e só ansiava pela liberdade.
Inteligente, muito bem educado, correcto no tratamento com os outros reclusos, pediu-me ajuda para os novos planos que tinha em mente a partir de Setembro, quando regressasse ao seu país: a produção de caviar a partir de uma nova tecnologia, mediante a criação de caracóis.
Levei-lhe uns livros e fotocópias em inglês para se começar a inteirar. Queria ocupar o seu tempo, trabalhando no campo e ganhando algum dinheiro.
Condenação: por ter estado no lugar errado, no momento errado. Tenho a certeza que ao obedecer ao seu superior, fê-lo por disciplina militar e não por ser criminoso. No entanto como referi atrás as consequências da sua desejável não-obediência ter-lhe-iam evitado a prisão.
Não tenho mais palavras para definir o sentimento de piedade que sinto por ele e que espelha bem a miséria humana na sua expressão mais dolorosa: na sua cela sozinho, mais de 90% do tempo, o que pode um homem com 74 anos esperar da vida e até da liberdade, depois de dezenas de anos recluso?
Não me pronuncio sequer sobre a justeza do julgamento que não conheço e que não me compete apreciar.
Concluo com este desejo sincero: que tenha encontrado a paz antes de fechar os olhos.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
convite para um gin ao fim da tarde, num sítio prazenteiro
Reconheço que ando irritado, com mau feitio e à mais pequena coisa
que me contrarie sem razão, descarrego missivas impiedosas que moem e
criam no interlocutor raivas tremendas, respostas iradas, cortes de
relações e um caminho certo para a solidão.
Nem sempre conseguimos ser boas pessoas, nem fazer sempre o bem e tratar os outros com a paciência, tolerância ou a urbanidade que o bom-senso ou a virtude, aconselhariam.
Vem isto a propósito desta migração avassaladora de sírios, na sua grande maioria, que a cada dia esbracejam para conseguir chegar a um porto seguro.
Nem sempre conseguimos ser boas pessoas, nem fazer sempre o bem e tratar os outros com a paciência, tolerância ou a urbanidade que o bom-senso ou a virtude, aconselhariam.
Vem isto a propósito desta migração avassaladora de sírios, na sua grande maioria, que a cada dia esbracejam para conseguir chegar a um porto seguro.
As reacções distintas e contraditórias que vão sendo por aí expressas,
falham pelo simples facto de até hoje e desde que começou a fuga
maciça, não podermos saber como se comportam.
Por isso, os sírios e eu precisamos de uma mão estendida, sem condições.
Nunca me esqueço deste pensamento que é bem verdadeiro e que na maioria dos casos se aplica a 100%: se contares a alguém os teus problemas, 70% das pessoas não só não te “ouvem”, como não se interessam e não virá nenhuma ajuda pois estão a compará-los com os deles e as outras 30%, comprazem-se com o teu infortúnio e até tentam ver como poderão tirar desforço.
Há, felizmente, mãos gentis e mentes serenas e compassivas e são estas que devem aproximar-se em silêncio e de braços abertos, dos refugiados sírios.
Quanto a mim, um bom abraço já serve de muita consolação.
Naturalmente, se for acompanhado de um convite para um gin ao fim da tarde, num sítio prazenteiro, melhor.
E disse, o resto é conversa!
Por isso, os sírios e eu precisamos de uma mão estendida, sem condições.
Nunca me esqueço deste pensamento que é bem verdadeiro e que na maioria dos casos se aplica a 100%: se contares a alguém os teus problemas, 70% das pessoas não só não te “ouvem”, como não se interessam e não virá nenhuma ajuda pois estão a compará-los com os deles e as outras 30%, comprazem-se com o teu infortúnio e até tentam ver como poderão tirar desforço.
Há, felizmente, mãos gentis e mentes serenas e compassivas e são estas que devem aproximar-se em silêncio e de braços abertos, dos refugiados sírios.
Quanto a mim, um bom abraço já serve de muita consolação.
Naturalmente, se for acompanhado de um convite para um gin ao fim da tarde, num sítio prazenteiro, melhor.
E disse, o resto é conversa!
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
OS SAFANÕES DA ASTROLOGIA
Não pauto o meu dia a dia por
horóscopos imbecis, mas confesso que fiquei pasmado quando ao enviar por
internet a data, hora e local do meu nascimento a uma “astróloga” de S.
Francisco na Califórnia, que nunca me viu nem me conhece, recebi um
perfil psicológico de 12 páginas que acerta em quase 100% do meu
carácter.
Já sei que irão dizer que figura ridícula, insana e inesperada faço em sinceramente falar neste assunto “desprimoroso”, mas o que é facto é que beneficiei tremendamente do relatório astrológico, pois pôs preto no branco, umas quantas coisas que não me atrevia a dizer a mim próprio, ou melhor, não queria reconhecer que de uma forma sistemática eram e são a causa de algum infortúnio!
O dito perfil contribuiu para ressaltar aspectos potenciadores de correcção desses mesmos deslizes, ocasionando uma análise introspectiva “à séria”, naturalmente não originada na menina de S. Francisco, mas a quem agradeço o safanão!
E porque vos estou a contar tudo isto, perguntarão? Pois a ideia é a de vos incentivar ao mesmo, com determinação, sagacidade e prudência nos critérios, escolhas e passos a dar, mas com ousadia, sabendo que o respirar fundo em cada acordar é um dos primeiros sintomas de que uma nova e melhor vida está a despontar, devagarinho mas segura.
Já sei que irão dizer que figura ridícula, insana e inesperada faço em sinceramente falar neste assunto “desprimoroso”, mas o que é facto é que beneficiei tremendamente do relatório astrológico, pois pôs preto no branco, umas quantas coisas que não me atrevia a dizer a mim próprio, ou melhor, não queria reconhecer que de uma forma sistemática eram e são a causa de algum infortúnio!
O dito perfil contribuiu para ressaltar aspectos potenciadores de correcção desses mesmos deslizes, ocasionando uma análise introspectiva “à séria”, naturalmente não originada na menina de S. Francisco, mas a quem agradeço o safanão!
E porque vos estou a contar tudo isto, perguntarão? Pois a ideia é a de vos incentivar ao mesmo, com determinação, sagacidade e prudência nos critérios, escolhas e passos a dar, mas com ousadia, sabendo que o respirar fundo em cada acordar é um dos primeiros sintomas de que uma nova e melhor vida está a despontar, devagarinho mas segura.
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