domingo, 9 de agosto de 2015

Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo



Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros. 



Nuno Júdice

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

silly season


Todos desligaram da Grécia, da Síria, do Iraque, da Palestina, de aonde há sofrimento e problemas. É um facto. Há direito a sossego, dirão.

E dos doentes terminais de cancro e de outras doenças mortíferas que gemem ou nem isso, em camas de hospitais ou já em casa prestes a morrer?
Também temos direito a férias, caramba, mesmo até que se tratem de nossos familiares, amigos ou desconhecidos.

E dos que mesmo de férias são e continuam pobres, desempregados, sem esperança de futuro e de soluções rápidas para o desespero diário?
Os Senhores Ministros e a sociedade civil estão na silly season, e nas rentrées políticas logo se verá nos discursos e então este ano na campanha eleitoral vão haver muitas promessas "sérias".


E os que estão sós, nas prisões, na vida, acabados de serem abandonados ou desde há muito em solidão moral, e os maus filhos, e os maus/más companheiros que servem infelicidade às colheres a cada minuto/segundo, se fosse ao dia, seria un pouco mais suportável.


Pois, mas mesmo neste tempo de lazer há quem disfarce, se endivide para fingir que ao ser visto por quem julgam que interessa, resolvem a escuridão do coração e as lágrimas engolidas em seco, a recusa de compaixão e de perdão.


Deixei para o fim os velhos/idosos ou como queiram chamar? Levam em cima com tudo o que acabo de dizer em doses cavalares, por nem sequer se poderem defender?


Convenhamos que a areia e a água do mar devem ter um muito, muito amargo sabor!

stairs to heaven

John BANVILLE, The Sea, Picador 2005
P. 118 - 119
«Yet for all my disconcertation it is the mortal she, and not the divine, who shines for me still, with however tarnished a gleam, amidst the shadows of what is gone. She is in my memory her own avatar. Which is the more real, the woman reclining on the grassy bank of my recollections, or the strew of dust and dried marrow that is all the earth any longer retains of her? No doubt for others elsewhere she persists, a moving figure in the waxworks of memory, but their version will be different from mine, and from each other’s. Thus in the minds of the many does the one ramify and disperse. It does not last, it cannot, it is not immortality. We carry the dead with us only until we die too, and then it is we who are borne for a little while, and then our bearers in their turn drop, and so on into the unimaginable generations.»

Carpe diem

Morreu há dias uma Tia de quem todos gostavam muito, incluindo eu. Passei ontem em frente da casa dela vindo da missa do 7º dia. Morta e cremada em horas. Tornou-se cinzas e desapareceu.

Dirão, ficam as boas memórias. Sim, mas até essas irão desaparecendo com a poeira dos dias.

Como é possível que em Agosto, nestes dias luminosos em que tudo apela a que se descanse do turbilhão dos dias cansativos de um ano intenso, me dê para pensar na morte?

É que ela está a cada canto e a cada momento. Não tem dias de férias e pode surgir inesperadamente.

Gostaria hoje de reflectir sobre o que se possa passar para além da morte. Nunca ninguém, realmente, veio dizer. Não estou a considerar aparições, media e espíritas, inspirados ou “delegadas de Deus” na terra como a Alexandra Solnado entre muitos outros espalhados pelo mundo, diga-se em seu abono, mas se tal se tivesse verificado, não havia dúvidas, não é?

Resta portanto a fé, seja em que religião for ou a descrença por ignorância, já nem me refiro aos que odiando as diversas doutrinas, são por princípio ateus.

Sobre a fé de cada religião, está tudo lá, quero eu dizer, cada uma por si tem cartilhas, versões, explicações, teorias, verdades assumidas.

Concentremo-nos assim, nos descrentes por ignorância, que estarão ansiosos e disponíveis, mesmo na praia e a qualquer hora do dia ou da noite, para saber o que os espera.

Estava ontem a ler um artigo e a ver o respectivo videoclip da NASA sobre Marte: desolação completa, terra seca e árida…mas a milhões de quilómetros de luz de distância da terra. Quem somos nós, de onde viémos, que “aves” raras somos? A escuridão do Universo é aterrorizadora e nada sossegativa!

Será que acabamos em cinza, pó e nada, como tantos outros habitantes de planetas que nos precederam e que têm o seu fim com o decurso do tempo, noção essa, que pode ser variável de civilização em civilização?

Pois olhem foi esta a minha reflexão desta manhã ensoalheirada de verão.

Ficai na paz e não vos perturbeis, diria eu se fosse um profeta.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

ravina japonesa


summer colours


se acordarem em mim a fera

Todos os dias morrem pessoas de várias origens sociais, intelectuais, culturais, de distintas nacionalidades, etc
Aqui no burgo têm mais ou menos fama e reputação, e é frequente que sejam louvadas/os pelas suas qualidades, dotes de inteligência, bondade, altruísmo e óbviamente outras tantas pessoas pelo oposto.

Mas, voltando, às personagens sempre louvaminhadas e com certeza com razão, tenho pensado porque será que não vibro especialmente e até me irrito e acabo por me posicionar em contra-corrente quando se anunciam milagres, virtudes ocultas, histórias exemplares, etc

- Inveja não é, pois é das poucas,,,cof cof qualidades que tenho;

- Não tenho ídolos humanos e sendo um experimentado observador de gente, sei que há muito de empolamento e de fantasia no que se diz;

- depois, irritam-me multidões irracionais, simplistas, emotivas e sem espírito de análise e racionalismo.

- de facto quer na política, quer no futebol quando todos se levantam de rompante ou com os dedinhos em V ou aos gritos eu fico SEMPRE sentado, impávido.

Conclusão: a culpa é minha, sou um frio e desdenhoso e não acredito na raça humana.

Fisicamente, em termos de sensualidade e sexualidade posso ser um vulcão que jorra torrentes de lava, se me tocarem no ponto certo, ou seja se acordarem em mim a fera...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Deitar para cima por Miguel Esteves Cardoso

Já reparei que há bons amigos meus que desconfiam quando eu elogio uma empresa ou uma marca.
Na cultura portuguesa de desconfiança, dizer mal é prova de independência e dizer bem é prova de patrocínio.
Elogiar é o trabalho mais difícil e necessário que há. No meio de tanta merda - e de vidas tão curtas - dizer bem do que é bom (e se pagou sem favores ou descontos) é um acto de generosidade. Cede e partilha:  aproveitem esta oportunidade que seria melhor quanto menos fossem as pessoas a conhecê-la.
Já me ofereceram pouco dinheiro (10 mil euros) para fazer publicidade (da Sagres e da Netcabo) mas nunca me deixei corromper. Mesmo se fossem 10 milhões de euros jamais prescindiria da única coisa valiosa que tenho, para além do meu talento: a minha independência que, longe de ser um sacrifício, é o meu ganha-pão.
Dizer mal é fácil e, por ser quase sempre justo, junta muitas mãos na posição (e atitude) de suplicante.
Dizer bem é mais perigoso mas arrisca mais para ser útil para os outros.
É verdade que umas poucas empresas (no máximo 4, ao longo da minha longa vida) mandaram-me mercadorias boas depois de terem sido pagas e muito friamente elogiadas por mim.
Malcriadamente aceito e não agradeço. A minha liberdade, honestidade e dignidade são as únicas coisas que tenho para mostrar que mereço que acreditem em mim.
O resto é corrupção, subornos e angariações de influências.
A única pureza que subsiste é a verdade descontrolada das nossas almas.

terça-feira, 28 de julho de 2015

sem sono


Estou sem sono e encontrei uma maldita ovelha tresmalhada fora do redil. Não posso perder nenhuma pois o fisco não perdoa. Pago os impostos a peso, como o Aga Khan teve de presente do seu povo o seu peso em diamantes e lingotes de ouro.

Até que o Mikael Carreira dava um bom Pachá sempre com um ar simpático e uma voz pior do que a do pai. Mas ele faz-se,diz a costureira da d.Benedita! E quando, quando estava quase a adormecer Zeus pegou-me nos braços qual Ganimedes e levou-me para o Olimpo aonde escorre o mel e se ouve o dedilhar das harpas.

Sedução dos deuses é coisa tão certa como ganhar o Euromilhões.


Copula carnalis dizia-se no tempo dos romanos, agora diz-se levar uma pranchada.


Haja amanhã, com o tempo de hoje.


E esfalecendo nos braços de Morfeu fui hoje, esta noite, safo dos apetites de Zeus.


Cos diabos aparece-me a ovelhinha de novo a tresmalhar-se.


Há quem esteja lá por menos! No Júlio ou será a Júlia florista.


Invade-me o sono...vou deixar-me ir.

domingo, 26 de julho de 2015

O meu sinal na perna


Hoje ao sair de shorts de marca, claro, de uma famosa daquelas das lojas chinesas Peng Ling, comprados na 5ª Avenida, sou interpelado por uma estrangeira que declinou ser do lado da Ucrânia pró-russa, e que me fez sentar num banco do shopping das Amoreiras, e tocando numa das minhas belas e formosas pernas me diz:
- que romântico, meu amôr! Ter um pequeno sinal em forma de coração no meio do perna!

Lá olhei e confirmei! Agradeci-lhe, dei-lhe um beijo e um rublo, e decidi anunciar aqui, derivado do caso de alguém mais querer também se admirar e achar ternurento.

Se estiver de calças cobro €2,00 para arregaçar os pantalones, se de shorts é grátes!

Inté fiquei com pele de galinha!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Uma aventura na praia


Hoje na praia ao meu lado presenciei um "fenómeno do Entroncamento".

Chapéu de sol feioso mas de qualidade. Muito enterrado, por isso só bisbilhotando é que se topava quem poderia estar por debaixo.

Fartei-me de tomar banho, uma maravilha de temperatura, água limpa com uma ou outra alforreca - sinal de limpeza de sangue...ou melhor da água - uma tarde linda, calor mas com uma brisa quente que sabia bem quando se saía do mar.

Imensos casais estrangeiros com criancinhas brancas de loiras, de vária proveniência geográfica, mas muito amorosas.

Como tenho uma sinusite danada fartei-me de mergulhar e nadar para ver se a água salgada, ao penetrar-me nas mimosas ventas, me aliviavam.

Ora, uma das vezes quando voltava depois de um excelente banho, vi movimento no casal do lado.

A madame tinha saído do casulo e era uma Lara Sandra já entrada nos seus 50 e picos, muito rondelette, com o peito descaído, e com um biquini preto que deixava ver as carnes roliças laterais e traseiras, mas que num ímpeto de pudor tinha uma excrecência de tecido fininho que ligava a parte de cima do soutien às calcinhas do biquini. Um verdadeiro horror de elaboração possidónia, mas que em sendo uma sereia passaria despercebido.

Não sendo o caso, no entanto tinha o cabelo pintado de ruivo com caracóis mil, que desciam até meio das costas, mas que usava arrepiado, com um gancho a segurar.

A nossa Lara, estirou-se numa toalha ao sol enquanto o cavalheiro continuava a dormir que nem um justo, reparei eu, agora com o campo de visão mais alargado.

A dada altura, ouve-se o Sérgio Cláudio dizer para a Lara:

- a senhora dá-me uma mão para eu me levantar?

Sempre tive esta vaga impressão das minhas inúmeras leituras de autores portugueses dos finais do século XIX e princípio do XX, de que quando se está perante uma ligação patrão-manucure, nunca se usa o nome próprio, mas o tratamento que à luz do dia e no salão de beleza, é usado: - a senhora, lime-me a unha pequena bem pontiaguda, para não magoar...

Com grande espanto meu, saiu uma voz gutural da Lara, doce e resistente, dizendo...- não senhor, não vou ajudar. Mas fiquei com a noção que os sons que saíam eram de puro linguajar cigano.

As frases posteriores não foram escorreitas, os tons eram de tasca mal-afamada, mas qual gata matreira, continuava a negar-se.

- A senhora recusa-se? dizia o Sérgio Cláudio com prazer, por se sentir contrariado. - Olhe que pode ter um dissabor um dia quando me pedir qualquer coisa!

- O senhor está muito pesado, não é má-vontade, só que não tenho forças! Só mesmo com um guindaste!

- A senhora diz isso, por que eu tenho para lá guindastes nas minhas obras...

Saiu finalmente debaixo do chapéu de sol e com grande surpresa minha, era um sexagenário, "fit" com peitorais bem trabalhados, sem barriga, com um fato de banho de qualidade e com cabelo bem tratado ainda que careca em cima.

Segui-os com os olhos até à borda da água e ela displicente, foi soltando os caracóis qual "lady Godiva", até entrar na água.

Ele mergulhou enérgicamente e revelou aparentemente que se deve cuidar em ginásios e com "personal trainers".

Ela penetrou no elemento líquido, e nadando de lado à flausina, demonstrou prática de férias nas termas dos Cucos...ahahahah

Regressaram à base e vendo que eu tinha cuidado dos pertences, dirigiu-se-me ele e apresentou-se:

- Sérgio Cláudio do ramo da construção civil. Esta é a minha amiga Lara Sandra, que comigo colabora. Muito agradecido pela gentileza.

Claro que de pé, agradeci e apresentei-me revelando uma das minhas profissões:

- Luis Paixão, diletante!

Fez um ar sério e disse, tenho muito prazer pois nunca conheci nenhum.

Voltei ao banho e rapidamente sequei-me enquanto eles tinham ido à esplanada e com um cumprimento de cabeça, afastei-me para o carro a caminho de casa.

terça-feira, 21 de julho de 2015

In vino veritas


Entro no restaurante, sento-me, consulto o cardápio. E então reparo que alguns dos presentes, nas mesas em volta, não comem. Fotografam. O prato está pronto e eles, antes de usarem os talheres, tiram fotos da refeição com os celulares –de todos os ângulos, como se tivessem uma Gisele Bündchen na frente.

Por momentos, penso que o problema é médico: pessoas com primeiros sintomas de demência que gostam de registrar o que comeram ao almoço para não repetirem ao jantar.

Depois sou informado que não: é moda fotografar os pratos e enviá-los para as "redes sociais". Se os "amigos" sabem onde estamos e o que fazemos 24 horas por dia, é inevitável saberem também o que comemos. Desconfio até que existem competições gastronômicas em que os pratos são usados como exibição de classe. Se as férias em família já servem para isso –esqui na Suíça, praia em Bali– por que não o almoço ou o jantar?

Mas o pasmo não termina com os fotógrafos. Continua com os enólogos amadores que tomaram conta do espaço público. Entendo pouco de vinhos. Fiz umas provas aqui e ali –mas, honestamente, o meu principal talento é saber se o vinho está estragado ou não.

Ninguém se fica por papéis tão modestos. No mesmo restaurante, os clientes giram os copos, cheiram, conferem a cor. Depois provam, fecham os olhos e invariavelmente convidam o empregado a servir. Quando foi que o mundo distribuiu diplomas de enologia pelo pessoal? E por que motivo eu não fui convidado?

Um colega meu é exímio nessas cenas. Saímos para almoçar, ele escolhe o vinho e, quando o empregado verte as primeiras gotas, inicia um ritual que dura minutos. Sempre com uma concentração digna de um monge tibetano. E, antes do inevitável "pode servir", gera-se um "suspense" de filme policial, como se a salvação do planeta dependesse da qualidade do líquido.

Várias vezes bebi vinhos medonhos, escolhidos por ele em estado de êxtase. "Está boa essa bosta?", deveria ser a pergunta. Não é. "A colheita desse Malbec é muito apurada, não?" Digo que sim e depois penso em vinganças mil.

Uma dessas vinganças foi preparada dias atrás. Convidei uns amigos para jantar. O meu camarada enólogo incluso. E eu, antes dos convidados chegarem, fui ao supermercado do bairro comprar o vinho mais barato em exibição. Por menos de € 4, trouxe três garrafas de um tinto alentejano cujo nome omito por razões judiciais.

Quando cheguei a casa, abri as garrafas e verti tudo em jarro de cristal. Os convidados chegaram. Primeiras conversas, primeiros coquetéis. E quando o jantar soou, eu anunciei aos presentes que tinha ganho de presente de aniversário três garrafas de Château Lafite que gostaria de partilhar com os comensais.

Ouviram-se aplausos. O jarro veio para a mesa e, quando enchi os copos, um deles murmurou sem demoras: "Esse odor é inconfundível". Fizeram-se brindes. E quando o líquido escorreu pela goelas, o meu colega enólogo olhou para mim, rosto sério, e eu temi que a pegadinha tinha chegado ao termo.

Ilusão. Ele sorriu, grato, e depois arrumou o assunto com uma frase solene: "É o melhor Bordeaux que bebi neste ano".

Todos concordaram. Um deles, mais humilde, ainda disse: "João, você não deveria desperdiçar vinho desse com a gente". Fiz cara de desagrado e concluí: "Se não partilhamos o melhor que temos com os amigos, partilhamos com quem?".

Ora, com quem: com as redes sociais. No fim do jantar, quando havia uma alegria leve sobre a mesa, propus um brinde de despedida –e uma foto do vinho para partilhar no Facebook.

Fez-se o brinde e eu fui buscar uma garrafa do meu alentejano vira-lata. Ninguém tirou fotos para mostrar. Só o especialista enólogo, razoavelmente sóbrio, murmurou um "filho da puta" que despertou gargalhadas gerais.

Eu, com cara séria, tranquilizei as manadas: "Calma, pessoal. Mas vocês acham que eu faria uma sacanagem dessas?". E depois plantei na mesma mesa uma garrafa vazia de Château Lafite, que o empregado de um restaurante que frequento em Lisboa me emprestou só para impressionar os incréus.

Os ânimos acalmaram-se. E as fotos vieram logo a seguir.

sábado, 18 de julho de 2015

25 anos de casados dos meus Pais


Cada um sabe da sua luta, do seu sofrimento e da sua causa ; não permitas que ninguém te aponte o dedo e diga o que deves ou não fazer , afinal , a história é tua!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A Thousand days in Tuscany


Hoje estou de mau humor: por causa do dia cinzento, porque o Ramadão é uma treta - vários negócios que tenho em países do Médio-Oriente têm vindo a ficar adiados com a desculpa do jejum, preces, e blábláblá - diz-me uma amiga marroquina que as pessoas que cumprem os preceitos entram e saem na mesma, ou seja se eram más ou estúpidas ou cretinas vão continuar a sê-lo.

Depois porque estou cansado da política caseira, de novo as promessas do costume e um futuro nada risonho.

Finalmente, sinto que preciso de férias, mas daquelas em que desligo de tudo e aproveito para ler, para fazer desporto de verão (nadar, jogar ténis, fazer umas séstas debaixo da bananeira, comer em qualidade mas ajuizadamente, beber em quantidade...ahahahah,).

Dito isto, se me contrariarem hoje arriscam-se a que mande vir uma rapaziada da Sicília que faz o serviço com uma limpeza exemplar.

Comecei a ler no iPad ( ainda compro livros também e muito) um clássico de férias cujo título é "A Thousand days in Tuscany" de Marlena de Blasi".

Alea jacta est

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Cartago delenda est.


Wolfgang Schäuble entrou este fim de semana na fase em que Catão, o Censor, começou a achar que só havia uma solução para Cartago, a arqui-inimiga de Roma. (...) Catão, cujo partido dominava Roma naquela época, perdeu a paciência com os cartagineses, que gostavam de abusar da paz assinada, e passou a terminar todos os discursos com a mesma frase: "Quanto ao resto, acho que Cartago deve ser destruída". Cartago delenda est.

Quando perceberam que Catão falava a sério, os cartagineses ainda tentaram negociar, mas era tarde demais. Depois de anos e anos de hesitações, Roma tinha passado ao plano B. E foi assim que Roma arrasou Cartago, que ardeu durante dezassete dias até que não restasse um vestígio. Este fim de semana, Schäuble entrou na sua fase Catão e perdeu o medo do Grexit, num processo dificilmente reversível. 

Atenas delenda est."

Ricardo Costa

O sr. Costa e a sua circunstância

O sr. Costa deve ter maus conselheiros.

Passar o tempo a zurzir no PM e no Governo não só cansa, como as palavras escolhidas são banais e pouco sofisticadas, não consegue ter verve e pior ainda não tem razão.

Se conseguisse esquecer-se do PM e do Governo e propusesse ao País uma série de medidas realistas, adaptadas ao evoluir dos acontecimentos na Europa e no mundo, se mostrasse vontade de assinar pactos de colaboração depois das eleições com o PSD caso vencesse ou no caso de perder, todos ganharíamos mais pois comportar-se-ia como um político de oposição sério e responsável, preocupado com o bem-estar do seu povo e do seu país.

Tudo quanto se está a passar na Grécia deveria servir de exemplo para estudo e reflexão dos partidos dos diversos países da Europa: a tenacidade de um povo em resistir a medidas punitivas ainda que merecidas pela irresponsabilidade de governos anteriores, a união de esforços notável e patriótica entre oposição e governo a bem do país, o espírito de rebeldia que talvez melhor articulado faz tremer os poderes instituídos, sobretudo a busca de outras soluções alternativas que saiam dos padrões estatuídos.

Trabalho, diria eu, incansável dos governantes em vez de perderem tempo em viagens de politiquice pelo país e campanhas eleitorais. Coordenação de esforços para tornar o Estado uma pessoa de bem.
Faz-me enjoo estas entrevistas de um e de outro, PM e Costa, com as suas agendas pessoais.

Não conseguirão pensar limpo...quero eu dizer, respirar fundo, terem modéstia e esquecerem-se de si próprios e tratarem de honestamente construir cenários realistas para Portugal?

sábado, 11 de julho de 2015

O SEU A SEU DONO


É importante na vida reconhecer-se que nos podemos enganar e sem rebuço, o fazermos pelo mesmo meio em que dissemos o contrário.

Tenho dito várias vezes em público e em privado, e a minha vida prova-o, que não sou conformista. Este facto é irrelevante para a maioria dos meus concidadãos, mas isso não evita de que para mim possa ser importante dizê-lo.

Detesto pessoas radicais e maniqueístas e sobretudo ignorantes em relação aos assuntos que defendem com intransigência total, com um despudor absoluto do conhecimento da verdade objectiva, seja ela qual for. Normalmente vem associado uma arrogância insuportável, mormente se se detém o poder.

Vem isto a propósito de dois eventos que recentemente mereceram os meus comentários: a situação na Grécia e na visita do Papa Francisco à Bolívia, a entrega que lhe foi feita pelo Presidente Evo Morales de um crucifixo vexatório e provocador.

Comecemos brevemente pelo primeiro tópico: à hora a que escrevo neste Sábado dia 11 de Julho, ainda não se sabe qual vai ser o desfecho: se o chamado Grexit ou um terceiro resgate.

Seja o que for e nem vou perder tempo a dizer o que já tem sido dito sobre este assunto por tanta gente, não me arrependo de ter, na altura, sido a favor do referendo e sobretudo da vontade que o mesmo permitiu de expressar aos responsáveis da União Europeia, uma reacção valente de um povo em grande sofrimento.

Hoje, reconheço aqui ter feito uma defesa menos ponderada da actuação do Governo Grego e nomeadamente de Tsipras e Varoufakis, mas fico expectante em saber com o decorrer do tempo, o que os moveu: se uma incompetência e impreparação com consequências ainda não contabilizadas financeira e politicamente para os Gregos ou uma estratégia cujos frutos ou não se concretizaram ou virão ainda a ser revelados.

Quanto ao segundo tema: este Papa faz estremecer uma ala conservadora e radical que vive do passado e que nem sequer actua em conformidade com os padrões que pretende impor como sendo os tradicionais da Igreja.

É gente inculta e ignorante sobre a própria Igreja a que dizem pertencer e das suas “tocas” bolorentas, estão sempre à procura para maldizer deste Papa.

O que tenho lido e ouvido quer no facebook e fóra, brada aos Céus. O Papa não sabia que lhe seria entregue quer uma condecoração ( protocolarmente os Papas nunca aceitam e imagine-se se este Papa é do género do Idi Amin Dada!) e um crucifixo. Não releva o facto de ser usual que na preparação da visita, os dois Serviços de Protocolo de cada um dos países deveriam ter regulado este assunto. Seguramente que não deve ter sido mencionado quais seriam os presente do Presidente para o Papa.

Veja-se, por exemplo, a surpresa e o desagrado que a Rainha Isabel teve com o presente do Presidente da Alemanha na sua última visita! Não é possível comparar os Serviços de Protocolo do Reino Unido e da Alemanha com os da Bolívia.

Como Chefe de Estado e da Igreja Católica, de condenar seria, que ao pregar a paz e a concórdia, fosse ostensivamente afastar com a mão quer a entrega da venera quer do presente insólito.

Quem tenha um bocadinho de “mundo” sabe como é praticada a diplomacia e para sossego das almas piedosas e ovelhinhas reparadoras, o Papa deixou na Bolívia estes dois objectos segundo informação oficial do Vaticano.

O Secretário do Vaticano, informa que a imagem de Cristo sobre a foice e o martelo, foi elaborada pelo falecido sacerdote jesuíta espanhol nos anos 70, cuja réplica o mandatário obsequiou o Papa, o qual celebrou Missa pela manhã na capela da residência do Arcebispo Emérito de Santa Cruz de la Sierra, Cardeal Julio Terrazas.

No final da Celebração Eucarística, o Papa entregou à Virgem de Copacabana, Padroeira da Bolívia, as duas condecorações presenteadas pelo Presidente Evo Morales, na última quarta-feira, durante sua visita de cortesia ao Palácio Presidencial de La Paz.

O Papa Francisco pronunciou as seguintes palavras, seguidas de uma oração: “O Senhor Presidente da Nação através de um gesto de acolhida teve a delicadeza presentear-me com duas condecorações em nome do povo boliviano”.

“Agradeço o carinho do povo boliviano e agradeço este detalhe, esta delicadeza do Senhor Presidente e gostaria de deixar estas duas condecorações à Padroeira da Bolívia, à Mãe desta nobre Nação para que Ela sempre se lembre do seu povo”.

E é isto!

quarta-feira, 8 de julho de 2015

This is a wish for us dreamers.

This is a wish for us dreamers.
Us over-feelers and “too much” thinkers.
That we will spend more time smiling, gazing in to the sun and less time frowning into another cup of coffee on top of a blank page.
A wish for us to not be lonely. But to find music in the silence of our houses and adventures on our doorsteps in the mist of a morning.
A wish that we will be seen as we long to be seen: As true—as flawed, of course. But flawed as a river is not straight or a leaf round.
A wish for us heart-led whose hearts break so easily. Who offer them first and take them back last.
Us talkers, romantics, us lovers and fighters.
To find beauty right now, to let us sit with the pain of the pieces of our hearts, to find peace in the quiet and wonder in the sky.
To find us once and for all.
A wish that we’ll find hidden wings. And that we’ll fly till we die.
For us writers, us readers, us singers, us dancers.
A wish to find you. And a wish to find me.
I wish that we’ll sleep and we’ll dream not of new life or venture or people or things. But that instead of escaping to our pillow so quick, we’ll dream of ourselves and be happy to wake next to one such as us.
We’re special, us wild ones. For we’re the ones who see stars, where others see night.
We’re the ones who see hearts before minds.
But most of all.
We’re alright.
I wish that we’d all know that tonight.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Maça-me de ter que de novo me dirigir às portuguesas e aos portugueses, a propósito da Grécia.


Maça-me de ter que de novo me dirigir às portuguesas e aos portugueses, a propósito da Grécia.

Ópás deixem os rapazes negociar à sua maneira…mania esta de ser toda a gente formaleca, com o calor que está!

Se o novo Ministro das Finanças escreveu numas notas em papel do Hotel em que se hospedou, o fruto das suas discussões com a sua equipe, porque já começaram a chamar-lhe bimbo?

Há tantos engravatados por cá que ganham fortunas sem saberem um décimo do que este Professor Catedrático sabe e tenta defender os interesses do seu País!

Chega a cansar os argumentos ad nauseam de que são de extrema-esquerda, de que os gregos não pagam impostos, que são preguiçosos, que são caloteiros…que simplicidade básica de raciocínio! Claro que têm que ser acautelados os interesses dos outros países europeus no que respeita a outro resgate, mas a diferença está em:

- ajudar de novo e mais uma vez, mas com regras estritas de controlo sem poder haver incumprimento, mesmo. É o que faz um Pai que sofre por ver o filho a drogar-se e a arruinar moral e financeiramente a vida dele e da sua família e quando os de fóra lhe dizem para não abrir a porta, abre de novo quando o filho bate no regresso de mais uma noite de folia….apesar de dar razão aos tais de fóra….o Pai abre sempre e vai acreditando na regeneração.

- chamar ajuda e abusar das condições de empréstimo, fazendo um comboiozinho em que o dinheiro entra pomposamente pela porta da frente e sai pela detrás sem largar passageiros, mudando só de linha.
Não sou dos que defenda que tudo se tolere, mas que se observe com critério e sem preconceitos o que se vai fazendo a par e passo e aí, sim, se vá louvando ou criticando.

Este país é de oito ou oitenta e é tão mau ser-se radical em qualquer situação, mas sobretudo quando está em causa a maioria de governados de um povo que teve, sem excepções, uma cambada de corruptos e de corruptores como governantes e como credores!
.
E não me obriguem mais nenhuma vez a vir falar deste assunto, pás…a não ser quando tudo estiver a encaminhar-se para uma solução positiva.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Passou a diligência pela estrada, e foi-se


Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos;passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.

Alberto Caeiro

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Faut-il vraiment faire du sport ?

  1. Il est démontré que chaque fois que l'on court 1500 mètres, on ajoute une minute à sa durée de vie. Ce qui vous permettrait, à 85 ans, de passer 5 mois de plus dans une maison de retraite à 6000 euros par mois ! Donc, commencez tout de suite...
  2. Le jour de son soixantième anniversaire, ma grand-mère a décidé de marcher 7 kilomètres par jour. Aujourd'hui, elle a 85 ans, et on se demande bien où elle peut être ?
  3. La seule raison qui pourrait m'amener à courir, à jogger, comme ils disent, ce serait que, pour une fois, j'entendrais à nouveau quelqu'un haleter dans mon oreille.
  4. L'année dernière, je me suis inscrit au Gymnase Club de mon coin, et ça m'a coûté 500 euros. Je n'ai pas perdu un kilo. Il paraît qu'en plus il faut assister aux séances...
  5. Si je fais de la gym, c'est tôt le matin, avant que mon cerveau ne comprenne ce que j'entreprends......
  6. Si Dieu avait voulu que nous touchions l'extrémité de nos orteils, il aurait implanté lesdits orteils moins bas sur nos jambes.
  7. J'aime les longues promenades, tout particulièrement quand elles conduisent les casse-pieds à me lâcher les baskets.
  8. J'ai les cuisses trop potelées, mais par bonheur mon ventre les dissimule.
  9. Faire du sport tous les jours présente un grand avantage : on meurt en meilleure santé.
  10. Le sport ne rend pas plus beau.

domingo, 28 de junho de 2015

Grécia e Portugal - Dois irmãos

Tenho-me interessado pelo caso da Grécia por diversas razões que não vêm aqui ao caso. Um dia talvez explique.

As opiniões são múltiplas desde as prudentes, outras avisadas, ainda outras excessivas e histéricas, e finalmente, as piores, pois baseadas na dicotomia esquerda/direita.

Poucas falam do povo grego, do que é acusado de não pagar impostos, ser calaçeiro e fraudulento, aldrabão, etc.

Será que as calamidades que afligem os nossos tempos e são muitas e graves, impedem que serenamente, mesmo no olho do furacão, falhe a solidariedade para com seres humanos que sofrem na pele as consequências da má governação?

Será que não se vê que o dito povo, não paga impostos porque não gera rendimentos sobre os quais recaiam mais impostos, pois são os milionários, os corruptos e o aparatchik que como em todos os outros países do mundo se protege e é relapso?

Será que só um dia quando estivermos nas filas para levantar o nosso dinheiro dos bancos, é que perceberemos o que é a aflição da incerteza do futuro?

Será que a maioria dos cronistas impiedosos já visitou alguma vez a Grécia? E viu o que se produz, o que se trabalha, a riqueza que tem e que potencialmente, bem gerida, pode vir ainda a criar?

Não há prognósticos possíveis para o que irá acontecer nas cenas dos próximos capítulos.

O que eu sei e pressinto é que será difícil fugirmos destas hipóteses que me parecem lógicas:

- a Europa cede e chega a um entendimento com o Governo Grego;

- a Europa não cede e a Grécia sai do Euro e começam em cascata toda uma série de novas situações com as suas dores e aprendizagens para ambas as partes. Não se iludam, não há buracos no mapa!

- A Grécia é apoiada pela China, ou Rússia ou USA e de uma maneira ou de outra, passa a ditar as regras à Europa pois passou de dependente de um "patrão europeu" para outro domínio imperial. Creio que os dirigentes europeus deverão, se forem ainda clarividentes, pesar as consequências de tal vergonhosa atitude de abandono.

- A Grécia, pela sua posição geo-estratégica, sai dignificada desta luta, estabelece um acordo sério e consistente para pagar o que deve e consegue "respirar" como Nação e recomeçar.

De todos estes cenários, que penso serem realistas, há que tirar uma conclusão:

- Portugal, mais uma vez, foi a reboque dos seus pares europeus,sem chama, nem brilhantismo...seguiu a cartilha. O que se espera de um Governo chefiado por pessoas inteligentes não é demagogia barata nem propostas sonhadoras, mas a reflexão e ponderação de todas as posições, uma intermediação valente e cordial sem preconceitos, com vista a uma confluência de soluções.

Imaginem o que seria o nosso Governo a dar a mão ao Governo Grego, sem serem necessárias afirmações de princípios políticos de concordância. Um irmão que ajuda outro irmão, pois somos brothers in arms, quase na mesma situação.

A lição que daríamos ao mundo, o impacto que criaríamos num maior conhecimento da nossa cultura, do nosso país.

Uma diplomacia activa, com mentes jovens, dinâmicas, desdobrando-se em viagens e contactos.

O que pensaria a Grécia e a Europa? Pequeno país, mas solidário, da mesma franja europeia.

A França e a Alemanha não podem fazer isto porque são majestáticos e a Espanha já tem complicações que bastem.

Mas não, temos um Ministro dos Negócios Estrangeiros velho e que ou está calado ou sai asneira, enfim...percebem-me

quinta-feira, 25 de junho de 2015

As mulheres têm fios desligados por António Lobo Antunes

""Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."

António Lobo Antunes

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Be nice to me


My father had taught me to be nice first, because you can always be mean later, but once you've been mean to someone, they won't believe the nice anymore. So be nice, be nice, until it's time to stop being nice, then destroy them.

Laurell K. Hamilton

sábado, 20 de junho de 2015

DE NOVO A GRÉCIA



Volto de novo ao tema do momento: o que vai acontecer à Grécia a curto prazo?

Li e reli dezenas de argumentos, em escritos de comentadores políticos, económicos e jurídicos nacionais e estrangeiros bem como o que diz a imprensa internacional.

Fico com pena que neste areópago que é o FB, a maior parte das vezes os comentários são emotivos, vingativos, politiqueiros e incompletos.

Realço de novo que se conseguirmos colocar-nos na pele de uma família grega desempregada, sem condições mínimas de dignidade de vida, sem vislumbre de soluções realistas se soçobrarem, o que mais desejam, colados ao vidro de uma televisão, é que não lhes cortem o futuro.

Transportem-se para cá, para vilas e aldeias, para cidades com velhos e reformados, desempregados de meia-idade, jovens sem o primeiro-emprego, pessoas com fome, sem casa, endividados, para já não falar dos espoliados do BES e vítimas dos rombos do BPN e similares e o que desejariam que os países ricos da Europa fizessem?

Sim, claro, os sucessivos governantes gregos foram corruptos, esbanjaram dinheiro, não foram exigentes na condução de um Estado rigoroso…tudo isto é verdade! E a Alemanha e a França e os outros países europeus quando venderam submarinos caríssimos à Grécia com as inevitáveis corrupções para todos os lados, e as armas e os aviões militares, etc, etc, etc

É uma situação de caos, pois é! O que se faz nestas situações quando se detém o poder? Organiza-se, ajuda-se, endireita-se o desequilíbrio, impõe-se medidas de correcção mas não se abusa, não se violenta nem se castiga…o dinheiro que a Europa se propõe pagar com fortes medidas de austeridade locais, entra e volta a sair para reembolsar os países "caridosos" da União Europeia…o que fica na Grécia para minorar as dificuldades, incrementar a economia e baixar o desemprego? NADA.

Por isso, volto ao princípio e lembro-me sempre do episódio do filho pródigo que não vou relatar aqui pois quem o não tem bem presente nas suas vidas, que o leia e aprenda pois é muito útil nas relações familiares, profissionais e sociais.

Transcrevo aqui um pequeno texto do Luis Osório que me parece muito a propósito daqueles, que na Grécia, esperam por dias melhores:

“O desemprego não é apenas a falta de um trabalho. Não é apenas a ausência de ocupação, a lentidão dos minutos, a ditadura das memórias, o olhar complacente dos outros, a falta de dinheiro, o sentimento de humilhação, a ideia de um não sentido para as vidas. Não é apenas cada uma dessas coisas, mas a soma delas e de todas as outras que aqui não cabem. O desemprego é o fim dos dias úteis, um Domingo em tamanho XXL, um Domingo onde até o Sol parece ter derretido, um Domingo que não acaba.”

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Oxalá que nenhum de vocês falhe na vossa vida e não precise da ajuda, perdão e compaixão dos outros

 

Acho que devemos torcer pela Grécia como país e pelos Gregos como povo. Há que ter solidariedade e respeito pelo sofrimento e consequências danadas que esta situação pode causar.

Nada disto tem a ver com apoios ao Governo actual ou passados. Não se enganem, não se chega a uma situação destas sem a conivência de todos os políticos...de esquerda ou de direita.

Pouco adianta acusar os Gregos de serem relapsos, fugirem aos impostos, etc...cada povo é como é, e sem embargo de discordarmos totalmente de tais práticas, chegámos a um estado em que só deve falar a compreensão e a ajuda.

Medidas exigentes e controlo estrito, claro que sim. Deixar um povo afundar-se, claro que não.

Não me apetece hoje falar da situação em Portugal nem das consequências que poderão advir para nós, Portugueses, da derrocada Grega.

Os meus considerandos são muito mais humanitários do que interesseiros.

Em todos os países há governantes sérios, patriotas e desejando o melhor para os governados, mas também há muito patife miserável e desprezível em Portugal, que me causa uma raiva imensa de continuarem impunes.

Por isso estou de acordo com a imagem que abaixo publico: vai-te embora ó morte!

Oxalá que nenhum de vocês falhe na vossa vida e não precise da ajuda, perdão e compaixão dos outros. Eu vejo isso a toda a hora no meu trabalho de voluntariado nas prisões. Aprendi a ser mais tolerante com os outros e a saber perdoar. Mas aceito com humildade as vossas críticas. Há aquela frase que dizia: só sábios éramos 5...