sábado, 18 de julho de 2015
25 anos de casados dos meus Pais
Cada um sabe da sua luta, do seu sofrimento e da sua causa ; não permitas que ninguém te aponte o dedo e diga o que deves ou não fazer , afinal , a história é tua!
sexta-feira, 17 de julho de 2015
A Thousand days in Tuscany
Hoje estou de mau humor: por causa do dia cinzento, porque o Ramadão é uma treta - vários negócios que tenho em países do Médio-Oriente têm vindo a ficar adiados com a desculpa do jejum, preces, e blábláblá - diz-me uma amiga marroquina que as pessoas que cumprem os preceitos entram e saem na mesma, ou seja se eram más ou estúpidas ou cretinas vão continuar a sê-lo.
Depois porque estou cansado da política caseira, de novo as promessas do costume e um futuro nada risonho.
Finalmente, sinto que preciso de férias, mas daquelas em que desligo de tudo e aproveito para ler, para fazer desporto de verão (nadar, jogar ténis, fazer umas séstas debaixo da bananeira, comer em qualidade mas ajuizadamente, beber em quantidade...ahahahah,).
Dito isto, se me contrariarem hoje arriscam-se a que mande vir uma
rapaziada da Sicília que faz o serviço com uma limpeza exemplar.
Comecei a ler no iPad ( ainda compro livros também e muito) um clássico de férias cujo título é "A Thousand days in Tuscany" de Marlena de Blasi".
Alea jacta est
Comecei a ler no iPad ( ainda compro livros também e muito) um clássico de férias cujo título é "A Thousand days in Tuscany" de Marlena de Blasi".
Alea jacta est
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Cartago delenda est.
Wolfgang Schäuble entrou este fim de semana na fase em que Catão, o Censor, começou a achar que só havia uma solução para Cartago, a arqui-inimiga de Roma. (...) Catão, cujo partido dominava Roma naquela época, perdeu a paciência com os cartagineses, que gostavam de abusar da paz assinada, e passou a terminar todos os discursos com a mesma frase: "Quanto ao resto, acho que Cartago deve ser destruída". Cartago delenda est.
Quando perceberam que Catão falava a sério, os cartagineses ainda tentaram negociar, mas era tarde demais. Depois de anos e anos de hesitações, Roma tinha passado ao plano B. E foi assim que Roma arrasou Cartago, que ardeu durante dezassete dias até que não restasse um vestígio. Este fim de semana, Schäuble entrou na sua fase Catão e perdeu o medo do Grexit, num processo dificilmente reversível.
Atenas delenda est."
Ricardo Costa
O sr. Costa e a sua circunstância
O sr. Costa deve ter maus conselheiros.
Passar o tempo a zurzir no PM e no Governo não só cansa, como as palavras escolhidas são banais e pouco sofisticadas, não consegue ter verve e pior ainda não tem razão.
Se conseguisse esquecer-se do PM e do Governo e propusesse ao País uma série de medidas realistas, adaptadas ao evoluir dos acontecimentos na Europa e no mundo, se mostrasse vontade de assinar pactos de colaboração depois das eleições com o PSD caso vencesse ou no caso de perder, todos ganharíamos mais pois comportar-se-ia como um político de oposição sério e responsável, preocupado com o bem-estar do seu povo e do seu país.
Passar o tempo a zurzir no PM e no Governo não só cansa, como as palavras escolhidas são banais e pouco sofisticadas, não consegue ter verve e pior ainda não tem razão.
Se conseguisse esquecer-se do PM e do Governo e propusesse ao País uma série de medidas realistas, adaptadas ao evoluir dos acontecimentos na Europa e no mundo, se mostrasse vontade de assinar pactos de colaboração depois das eleições com o PSD caso vencesse ou no caso de perder, todos ganharíamos mais pois comportar-se-ia como um político de oposição sério e responsável, preocupado com o bem-estar do seu povo e do seu país.
Tudo quanto se
está a passar na Grécia deveria servir de exemplo para estudo e
reflexão dos partidos dos diversos países da Europa: a tenacidade de um
povo em resistir a medidas punitivas ainda que merecidas pela
irresponsabilidade de governos anteriores, a união de esforços notável e
patriótica entre oposição e governo a bem do país, o espírito de
rebeldia que talvez melhor articulado faz tremer os poderes instituídos,
sobretudo a busca de outras soluções alternativas que saiam dos padrões
estatuídos.
Trabalho, diria eu, incansável dos governantes em vez de perderem tempo em viagens de politiquice pelo país e campanhas eleitorais. Coordenação de esforços para tornar o Estado uma pessoa de bem.
Faz-me enjoo estas entrevistas de um e de outro, PM e Costa, com as suas agendas pessoais.
Não conseguirão pensar limpo...quero eu dizer, respirar fundo, terem modéstia e esquecerem-se de si próprios e tratarem de honestamente construir cenários realistas para Portugal?
Trabalho, diria eu, incansável dos governantes em vez de perderem tempo em viagens de politiquice pelo país e campanhas eleitorais. Coordenação de esforços para tornar o Estado uma pessoa de bem.
Faz-me enjoo estas entrevistas de um e de outro, PM e Costa, com as suas agendas pessoais.
Não conseguirão pensar limpo...quero eu dizer, respirar fundo, terem modéstia e esquecerem-se de si próprios e tratarem de honestamente construir cenários realistas para Portugal?
sábado, 11 de julho de 2015
O SEU A SEU DONO
É importante na vida reconhecer-se que nos podemos enganar e sem rebuço, o fazermos pelo mesmo meio em que dissemos o contrário.
Tenho dito várias vezes em público e em privado, e a minha vida prova-o, que não sou conformista. Este facto é irrelevante para a maioria dos meus concidadãos, mas isso não evita de que para mim possa ser importante dizê-lo.
Detesto pessoas radicais e maniqueístas e sobretudo ignorantes em relação aos assuntos que defendem com intransigência total, com um despudor absoluto do conhecimento da verdade objectiva, seja ela qual for. Normalmente vem associado uma arrogância insuportável, mormente se se detém o poder.
Vem isto a propósito de dois eventos que recentemente mereceram os meus comentários: a situação na Grécia e na visita do Papa Francisco à Bolívia, a entrega que lhe foi feita pelo Presidente Evo Morales de um crucifixo vexatório e provocador.
Comecemos brevemente pelo primeiro tópico: à hora a que escrevo neste Sábado dia 11 de Julho, ainda não se sabe qual vai ser o desfecho: se o chamado Grexit ou um terceiro resgate.
Seja o que for e nem vou perder tempo a dizer o que já tem sido dito sobre este assunto por tanta gente, não me arrependo de ter, na altura, sido a favor do referendo e sobretudo da vontade que o mesmo permitiu de expressar aos responsáveis da União Europeia, uma reacção valente de um povo em grande sofrimento.
Hoje, reconheço aqui ter feito uma defesa menos ponderada da actuação do Governo Grego e nomeadamente de Tsipras e Varoufakis, mas fico expectante em saber com o decorrer do tempo, o que os moveu: se uma incompetência e impreparação com consequências ainda não contabilizadas financeira e politicamente para os Gregos ou uma estratégia cujos frutos ou não se concretizaram ou virão ainda a ser revelados.
Quanto ao segundo tema: este Papa faz estremecer uma ala conservadora e radical que vive do passado e que nem sequer actua em conformidade com os padrões que pretende impor como sendo os tradicionais da Igreja.
É gente inculta e ignorante sobre a própria Igreja a que dizem pertencer e das suas “tocas” bolorentas, estão sempre à procura para maldizer deste Papa.
O que tenho lido e ouvido quer no facebook e fóra, brada aos Céus. O Papa não sabia que lhe seria entregue quer uma condecoração ( protocolarmente os Papas nunca aceitam e imagine-se se este Papa é do género do Idi Amin Dada!) e um crucifixo. Não releva o facto de ser usual que na preparação da visita, os dois Serviços de Protocolo de cada um dos países deveriam ter regulado este assunto. Seguramente que não deve ter sido mencionado quais seriam os presente do Presidente para o Papa.
Veja-se, por exemplo, a surpresa e o desagrado que a Rainha Isabel teve com o presente do Presidente da Alemanha na sua última visita! Não é possível comparar os Serviços de Protocolo do Reino Unido e da Alemanha com os da Bolívia.
Como Chefe de Estado e da Igreja Católica, de condenar seria, que ao pregar a paz e a concórdia, fosse ostensivamente afastar com a mão quer a entrega da venera quer do presente insólito.
Quem tenha um bocadinho de “mundo” sabe como é praticada a diplomacia e para sossego das almas piedosas e ovelhinhas reparadoras, o Papa deixou na Bolívia estes dois objectos segundo informação oficial do Vaticano.
O Secretário do Vaticano, informa que a imagem de Cristo sobre a foice e o martelo, foi elaborada pelo falecido sacerdote jesuíta espanhol nos anos 70, cuja réplica o mandatário obsequiou o Papa, o qual celebrou Missa pela manhã na capela da residência do Arcebispo Emérito de Santa Cruz de la Sierra, Cardeal Julio Terrazas.
No final da Celebração Eucarística, o Papa entregou à Virgem de Copacabana, Padroeira da Bolívia, as duas condecorações presenteadas pelo Presidente Evo Morales, na última quarta-feira, durante sua visita de cortesia ao Palácio Presidencial de La Paz.
O Papa Francisco pronunciou as seguintes palavras, seguidas de uma oração: “O Senhor Presidente da Nação através de um gesto de acolhida teve a delicadeza presentear-me com duas condecorações em nome do povo boliviano”.
“Agradeço o carinho do povo boliviano e agradeço este detalhe, esta delicadeza do Senhor Presidente e gostaria de deixar estas duas condecorações à Padroeira da Bolívia, à Mãe desta nobre Nação para que Ela sempre se lembre do seu povo”.
E é isto!
quarta-feira, 8 de julho de 2015
This is a wish for us dreamers.
This is a wish for us dreamers.
Us over-feelers and “too much” thinkers.
That we will spend more time smiling, gazing in to the sun and less time frowning into another cup of coffee on top of a blank page.
A wish for us to not be lonely. But to find music in the silence of our houses and adventures on our doorsteps in the mist of a morning.
A wish that we will be seen as we long to be seen: As true—as flawed, of course. But flawed as a river is not straight or a leaf round.
A wish for us heart-led whose hearts break so easily. Who offer them first and take them back last.
Us talkers, romantics, us lovers and fighters.
To find beauty right now, to let us sit with the pain of the pieces of our hearts, to find peace in the quiet and wonder in the sky.
To find us once and for all.
A wish that we’ll find hidden wings. And that we’ll fly till we die.
For us writers, us readers, us singers, us dancers.
A wish to find you. And a wish to find me.
I wish that we’ll sleep and we’ll dream not of new life or venture or people or things. But that instead of escaping to our pillow so quick, we’ll dream of ourselves and be happy to wake next to one such as us.
We’re special, us wild ones. For we’re the ones who see stars, where others see night.
We’re the ones who see hearts before minds.
But most of all.
We’re alright.
I wish that we’d all know that tonight.
Us over-feelers and “too much” thinkers.
That we will spend more time smiling, gazing in to the sun and less time frowning into another cup of coffee on top of a blank page.
A wish for us to not be lonely. But to find music in the silence of our houses and adventures on our doorsteps in the mist of a morning.
A wish that we will be seen as we long to be seen: As true—as flawed, of course. But flawed as a river is not straight or a leaf round.
A wish for us heart-led whose hearts break so easily. Who offer them first and take them back last.
Us talkers, romantics, us lovers and fighters.
To find beauty right now, to let us sit with the pain of the pieces of our hearts, to find peace in the quiet and wonder in the sky.
To find us once and for all.
A wish that we’ll find hidden wings. And that we’ll fly till we die.
For us writers, us readers, us singers, us dancers.
A wish to find you. And a wish to find me.
I wish that we’ll sleep and we’ll dream not of new life or venture or people or things. But that instead of escaping to our pillow so quick, we’ll dream of ourselves and be happy to wake next to one such as us.
We’re special, us wild ones. For we’re the ones who see stars, where others see night.
We’re the ones who see hearts before minds.
But most of all.
We’re alright.
I wish that we’d all know that tonight.
terça-feira, 7 de julho de 2015
Maça-me de ter que de novo me dirigir às portuguesas e aos portugueses, a propósito da Grécia.
Maça-me de ter que de novo me dirigir às portuguesas e aos portugueses, a propósito da Grécia.
Ópás deixem os rapazes negociar à sua maneira…mania esta de ser toda a gente formaleca, com o calor que está!
Se o novo Ministro das Finanças escreveu numas notas em papel do Hotel em que se hospedou, o fruto das suas discussões com a sua equipe, porque já começaram a chamar-lhe bimbo?
Há tantos engravatados por cá que ganham fortunas sem saberem um décimo do que este Professor Catedrático sabe e tenta defender os interesses do seu País!
Chega a cansar os argumentos ad nauseam de que são de extrema-esquerda, de que os gregos não pagam impostos, que são preguiçosos, que são caloteiros…que simplicidade básica de raciocínio! Claro que têm que ser acautelados os interesses dos outros países europeus no que respeita a outro resgate, mas a diferença está em:
- ajudar de novo e mais uma vez, mas com regras estritas de controlo sem poder haver incumprimento, mesmo. É o que faz um Pai que sofre por ver o filho a drogar-se e a arruinar moral e financeiramente a vida dele e da sua família e quando os de fóra lhe dizem para não abrir a porta, abre de novo quando o filho bate no regresso de mais uma noite de folia….apesar de dar razão aos tais de fóra….o Pai abre sempre e vai acreditando na regeneração.
- chamar ajuda e abusar das condições de empréstimo, fazendo um comboiozinho em que o dinheiro entra pomposamente pela porta da frente e sai pela detrás sem largar passageiros, mudando só de linha.
Não sou dos que defenda que tudo se tolere, mas que se observe com critério e sem preconceitos o que se vai fazendo a par e passo e aí, sim, se vá louvando ou criticando.
Este país é de oito ou oitenta e é tão mau ser-se radical em qualquer situação, mas sobretudo quando está em causa a maioria de governados de um povo que teve, sem excepções, uma cambada de corruptos e de corruptores como governantes e como credores!
.
E não me obriguem mais nenhuma vez a vir falar deste assunto, pás…a não ser quando tudo estiver a encaminhar-se para uma solução positiva.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Passou a diligência pela estrada, e foi-se
Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos;passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.
Alberto Caeiro
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Faut-il vraiment faire du sport ?
- Il est démontré que chaque fois que l'on court 1500 mètres, on ajoute une minute à sa durée de vie. Ce qui vous permettrait, à 85 ans, de passer 5 mois de plus dans une maison de retraite à 6000 euros par mois ! Donc, commencez tout de suite...
- Le jour de son soixantième anniversaire, ma grand-mère a décidé de marcher 7 kilomètres par jour. Aujourd'hui, elle a 85 ans, et on se demande bien où elle peut être ?
- La seule raison qui pourrait m'amener à courir, à jogger, comme ils disent, ce serait que, pour une fois, j'entendrais à nouveau quelqu'un haleter dans mon oreille.
- L'année dernière, je me suis inscrit au Gymnase Club de mon coin, et ça m'a coûté 500 euros. Je n'ai pas perdu un kilo. Il paraît qu'en plus il faut assister aux séances...
- Si je fais de la gym, c'est tôt le matin, avant que mon cerveau ne comprenne ce que j'entreprends......
- Si Dieu avait voulu que nous touchions l'extrémité de nos orteils, il aurait implanté lesdits orteils moins bas sur nos jambes.
- J'aime les longues promenades, tout particulièrement quand elles conduisent les casse-pieds à me lâcher les baskets.
- J'ai les cuisses trop potelées, mais par bonheur mon ventre les dissimule.
- Faire du sport tous les jours présente un grand avantage : on meurt en meilleure santé.
- Le sport ne rend pas plus beau.
domingo, 28 de junho de 2015
Grécia e Portugal - Dois irmãos
Tenho-me interessado pelo caso da Grécia por diversas razões que não vêm aqui ao caso. Um dia talvez explique.
As opiniões são múltiplas desde as prudentes, outras avisadas, ainda outras excessivas e histéricas, e finalmente, as piores, pois baseadas na dicotomia esquerda/direita.
Poucas falam do povo grego, do que é acusado de não pagar impostos, ser calaçeiro e fraudulento, aldrabão, etc.
Será que as calamidades que afligem os nossos tempos e são muitas e graves, impedem que serenamente, mesmo no olho do furacão, falhe a solidariedade para com seres humanos que sofrem na pele as consequências da má governação?
Será que não se vê que o dito povo, não paga impostos porque não gera rendimentos sobre os quais recaiam mais impostos, pois são os milionários, os corruptos e o aparatchik que como em todos os outros países do mundo se protege e é relapso?
Será que só um dia quando estivermos nas filas para levantar o nosso dinheiro dos bancos, é que perceberemos o que é a aflição da incerteza do futuro?
Será que a maioria dos cronistas impiedosos já visitou alguma vez a Grécia? E viu o que se produz, o que se trabalha, a riqueza que tem e que potencialmente, bem gerida, pode vir ainda a criar?
Não há prognósticos possíveis para o que irá acontecer nas cenas dos próximos capítulos.
O que eu sei e pressinto é que será difícil fugirmos destas hipóteses que me parecem lógicas:
- a Europa cede e chega a um entendimento com o Governo Grego;
- a Europa não cede e a Grécia sai do Euro e começam em cascata toda uma série de novas situações com as suas dores e aprendizagens para ambas as partes. Não se iludam, não há buracos no mapa!
- A Grécia é apoiada pela China, ou Rússia ou USA e de uma maneira ou de outra, passa a ditar as regras à Europa pois passou de dependente de um "patrão europeu" para outro domínio imperial. Creio que os dirigentes europeus deverão, se forem ainda clarividentes, pesar as consequências de tal vergonhosa atitude de abandono.
- A Grécia, pela sua posição geo-estratégica, sai dignificada desta luta, estabelece um acordo sério e consistente para pagar o que deve e consegue "respirar" como Nação e recomeçar.
De todos estes cenários, que penso serem realistas, há que tirar uma conclusão:
- Portugal, mais uma vez, foi a reboque dos seus pares europeus,sem chama, nem brilhantismo...seguiu a cartilha. O que se espera de um Governo chefiado por pessoas inteligentes não é demagogia barata nem propostas sonhadoras, mas a reflexão e ponderação de todas as posições, uma intermediação valente e cordial sem preconceitos, com vista a uma confluência de soluções.
Imaginem o que seria o nosso Governo a dar a mão ao Governo Grego, sem serem necessárias afirmações de princípios políticos de concordância. Um irmão que ajuda outro irmão, pois somos brothers in arms, quase na mesma situação.
A lição que daríamos ao mundo, o impacto que criaríamos num maior conhecimento da nossa cultura, do nosso país.
Uma diplomacia activa, com mentes jovens, dinâmicas, desdobrando-se em viagens e contactos.
O que pensaria a Grécia e a Europa? Pequeno país, mas solidário, da mesma franja europeia.
A França e a Alemanha não podem fazer isto porque são majestáticos e a Espanha já tem complicações que bastem.
Mas não, temos um Ministro dos Negócios Estrangeiros velho e que ou está calado ou sai asneira, enfim...percebem-me
As opiniões são múltiplas desde as prudentes, outras avisadas, ainda outras excessivas e histéricas, e finalmente, as piores, pois baseadas na dicotomia esquerda/direita.
Poucas falam do povo grego, do que é acusado de não pagar impostos, ser calaçeiro e fraudulento, aldrabão, etc.
Será que as calamidades que afligem os nossos tempos e são muitas e graves, impedem que serenamente, mesmo no olho do furacão, falhe a solidariedade para com seres humanos que sofrem na pele as consequências da má governação?
Será que não se vê que o dito povo, não paga impostos porque não gera rendimentos sobre os quais recaiam mais impostos, pois são os milionários, os corruptos e o aparatchik que como em todos os outros países do mundo se protege e é relapso?
Será que só um dia quando estivermos nas filas para levantar o nosso dinheiro dos bancos, é que perceberemos o que é a aflição da incerteza do futuro?
Será que a maioria dos cronistas impiedosos já visitou alguma vez a Grécia? E viu o que se produz, o que se trabalha, a riqueza que tem e que potencialmente, bem gerida, pode vir ainda a criar?
Não há prognósticos possíveis para o que irá acontecer nas cenas dos próximos capítulos.
O que eu sei e pressinto é que será difícil fugirmos destas hipóteses que me parecem lógicas:
- a Europa cede e chega a um entendimento com o Governo Grego;
- a Europa não cede e a Grécia sai do Euro e começam em cascata toda uma série de novas situações com as suas dores e aprendizagens para ambas as partes. Não se iludam, não há buracos no mapa!
- A Grécia é apoiada pela China, ou Rússia ou USA e de uma maneira ou de outra, passa a ditar as regras à Europa pois passou de dependente de um "patrão europeu" para outro domínio imperial. Creio que os dirigentes europeus deverão, se forem ainda clarividentes, pesar as consequências de tal vergonhosa atitude de abandono.
- A Grécia, pela sua posição geo-estratégica, sai dignificada desta luta, estabelece um acordo sério e consistente para pagar o que deve e consegue "respirar" como Nação e recomeçar.
De todos estes cenários, que penso serem realistas, há que tirar uma conclusão:
- Portugal, mais uma vez, foi a reboque dos seus pares europeus,sem chama, nem brilhantismo...seguiu a cartilha. O que se espera de um Governo chefiado por pessoas inteligentes não é demagogia barata nem propostas sonhadoras, mas a reflexão e ponderação de todas as posições, uma intermediação valente e cordial sem preconceitos, com vista a uma confluência de soluções.
Imaginem o que seria o nosso Governo a dar a mão ao Governo Grego, sem serem necessárias afirmações de princípios políticos de concordância. Um irmão que ajuda outro irmão, pois somos brothers in arms, quase na mesma situação.
A lição que daríamos ao mundo, o impacto que criaríamos num maior conhecimento da nossa cultura, do nosso país.
Uma diplomacia activa, com mentes jovens, dinâmicas, desdobrando-se em viagens e contactos.
O que pensaria a Grécia e a Europa? Pequeno país, mas solidário, da mesma franja europeia.
A França e a Alemanha não podem fazer isto porque são majestáticos e a Espanha já tem complicações que bastem.
Mas não, temos um Ministro dos Negócios Estrangeiros velho e que ou está calado ou sai asneira, enfim...percebem-me
quinta-feira, 25 de junho de 2015
As mulheres têm fios desligados por António Lobo Antunes
""Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."
António Lobo Antunes
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."
António Lobo Antunes
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Be nice to me
My father had taught me to be nice first, because you can always be mean later, but once you've been mean to someone, they won't believe the nice anymore. So be nice, be nice, until it's time to stop being nice, then destroy them.
Laurell K. Hamilton
domingo, 21 de junho de 2015
sábado, 20 de junho de 2015
DE NOVO A GRÉCIA
Volto de novo ao tema do momento: o que vai acontecer à Grécia a curto prazo?
Li e reli dezenas de argumentos, em escritos de comentadores políticos, económicos e jurídicos nacionais e estrangeiros bem como o que diz a imprensa internacional.
Fico com
pena que neste areópago que é o FB, a maior parte das vezes os
comentários são emotivos, vingativos, politiqueiros e incompletos.
Realço de novo que se conseguirmos colocar-nos na pele de uma família grega desempregada, sem condições mínimas de dignidade de vida, sem vislumbre de soluções realistas se soçobrarem, o que mais desejam, colados ao vidro de uma televisão, é que não lhes cortem o futuro.
Transportem-se para cá, para vilas e aldeias, para cidades com velhos e reformados, desempregados de meia-idade, jovens sem o primeiro-emprego, pessoas com fome, sem casa, endividados, para já não falar dos espoliados do BES e vítimas dos rombos do BPN e similares e o que desejariam que os países ricos da Europa fizessem?
Sim, claro, os sucessivos governantes gregos foram corruptos, esbanjaram dinheiro, não foram exigentes na condução de um Estado rigoroso…tudo isto é verdade! E a Alemanha e a França e os outros países europeus quando venderam submarinos caríssimos à Grécia com as inevitáveis corrupções para todos os lados, e as armas e os aviões militares, etc, etc, etc
É uma situação de caos, pois é! O que se faz nestas situações quando se detém o poder? Organiza-se, ajuda-se, endireita-se o desequilíbrio, impõe-se medidas de correcção mas não se abusa, não se violenta nem se castiga…o dinheiro que a Europa se propõe pagar com fortes medidas de austeridade locais, entra e volta a sair para reembolsar os países "caridosos" da União Europeia…o que fica na Grécia para minorar as dificuldades, incrementar a economia e baixar o desemprego? NADA.
Por isso, volto ao princípio e lembro-me sempre do episódio do filho pródigo que não vou relatar aqui pois quem o não tem bem presente nas suas vidas, que o leia e aprenda pois é muito útil nas relações familiares, profissionais e sociais.
Transcrevo aqui um pequeno texto do Luis Osório que me parece muito a propósito daqueles, que na Grécia, esperam por dias melhores:
“O desemprego não é apenas a falta de um trabalho. Não é apenas a ausência de ocupação, a lentidão dos minutos, a ditadura das memórias, o olhar complacente dos outros, a falta de dinheiro, o sentimento de humilhação, a ideia de um não sentido para as vidas. Não é apenas cada uma dessas coisas, mas a soma delas e de todas as outras que aqui não cabem. O desemprego é o fim dos dias úteis, um Domingo em tamanho XXL, um Domingo onde até o Sol parece ter derretido, um Domingo que não acaba.”
Realço de novo que se conseguirmos colocar-nos na pele de uma família grega desempregada, sem condições mínimas de dignidade de vida, sem vislumbre de soluções realistas se soçobrarem, o que mais desejam, colados ao vidro de uma televisão, é que não lhes cortem o futuro.
Transportem-se para cá, para vilas e aldeias, para cidades com velhos e reformados, desempregados de meia-idade, jovens sem o primeiro-emprego, pessoas com fome, sem casa, endividados, para já não falar dos espoliados do BES e vítimas dos rombos do BPN e similares e o que desejariam que os países ricos da Europa fizessem?
Sim, claro, os sucessivos governantes gregos foram corruptos, esbanjaram dinheiro, não foram exigentes na condução de um Estado rigoroso…tudo isto é verdade! E a Alemanha e a França e os outros países europeus quando venderam submarinos caríssimos à Grécia com as inevitáveis corrupções para todos os lados, e as armas e os aviões militares, etc, etc, etc
É uma situação de caos, pois é! O que se faz nestas situações quando se detém o poder? Organiza-se, ajuda-se, endireita-se o desequilíbrio, impõe-se medidas de correcção mas não se abusa, não se violenta nem se castiga…o dinheiro que a Europa se propõe pagar com fortes medidas de austeridade locais, entra e volta a sair para reembolsar os países "caridosos" da União Europeia…o que fica na Grécia para minorar as dificuldades, incrementar a economia e baixar o desemprego? NADA.
Por isso, volto ao princípio e lembro-me sempre do episódio do filho pródigo que não vou relatar aqui pois quem o não tem bem presente nas suas vidas, que o leia e aprenda pois é muito útil nas relações familiares, profissionais e sociais.
Transcrevo aqui um pequeno texto do Luis Osório que me parece muito a propósito daqueles, que na Grécia, esperam por dias melhores:
“O desemprego não é apenas a falta de um trabalho. Não é apenas a ausência de ocupação, a lentidão dos minutos, a ditadura das memórias, o olhar complacente dos outros, a falta de dinheiro, o sentimento de humilhação, a ideia de um não sentido para as vidas. Não é apenas cada uma dessas coisas, mas a soma delas e de todas as outras que aqui não cabem. O desemprego é o fim dos dias úteis, um Domingo em tamanho XXL, um Domingo onde até o Sol parece ter derretido, um Domingo que não acaba.”
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Oxalá que nenhum de vocês falhe na vossa vida e não precise da ajuda, perdão e compaixão dos outros
Acho que devemos torcer
pela Grécia como país e pelos Gregos como povo. Há que ter solidariedade e
respeito pelo sofrimento e consequências danadas que esta situação pode causar.
Nada disto tem a ver com
apoios ao Governo actual ou passados. Não se enganem, não se chega a uma
situação destas sem a conivência de todos os políticos...de esquerda ou de
direita.
Pouco adianta acusar os
Gregos de serem relapsos, fugirem aos impostos, etc...cada povo é como é, e sem
embargo de discordarmos totalmente de tais práticas, chegámos a um estado em
que só deve falar a compreensão e a ajuda.
Medidas exigentes e
controlo estrito, claro que sim. Deixar um povo afundar-se, claro que não.
Não me apetece hoje falar
da situação em Portugal nem das consequências que poderão advir para nós,
Portugueses, da derrocada Grega.
Os meus considerandos são
muito mais humanitários do que interesseiros.
Em todos os países há
governantes sérios, patriotas e desejando o melhor para os governados, mas
também há muito patife miserável e desprezível em Portugal, que me causa uma
raiva imensa de continuarem impunes.
Por isso estou de acordo
com a imagem que abaixo publico: vai-te embora ó morte!
Oxalá que nenhum de vocês
falhe na vossa vida e não precise da ajuda, perdão e compaixão dos outros. Eu
vejo isso a toda a hora no meu trabalho de voluntariado nas prisões. Aprendi a
ser mais tolerante com os outros e a saber perdoar. Mas aceito com humildade as
vossas críticas. Há aquela frase que dizia: só sábios éramos 5...
domingo, 14 de junho de 2015
Fiquei sem palavras - Admirável
Paulo Varela Gomes, Maio de 2015
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador
na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida,
“Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não
esteja vivo”.
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas
que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas
ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar
muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque
não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e
daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características
muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se
preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema
deste número da Granta: “Falhar melhor”.
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma
amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de
incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma
infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista
dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma
massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave
e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela
cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos
orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha
mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a
podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a
seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a
olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a
correr-lhe pela cara.
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me
sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz
qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos,
deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam
informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois
hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera.
Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso
instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O
radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a
uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia
linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável.
Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a
dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina
oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas)
e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias
do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi
suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para
tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.
Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero,
um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos
tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se
fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.
Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que
trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico
do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais
tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro
vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.
Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só
quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa
altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até
me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte
de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o
conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no
nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23
de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de
Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.
Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a
quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre.
Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a
todos.
Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC,
por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça
nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa
paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime
alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das
pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema
imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o
médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos
homeopáticos.
Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de
vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de
começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro.
Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava
arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de
entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas
vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão
grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do
Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma
Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas
tempo de viver e não de morrer.
As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu.
Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia
à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos
saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram
durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos
desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso,
como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances,
uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um
romance e um livro de contos.
Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem
um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de
Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que,
demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou
para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais
poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu
encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão
por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no
meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por
psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns
anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu
como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve
conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito
com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor...”
Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que
experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando
soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica
queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se
recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se
aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de
maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um
tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da
vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas,
nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a
vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de
repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por
vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que
sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada
assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do
caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a
conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais
provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e
sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo
contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que
escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas,
em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador
ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o
Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença
amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou
a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do
diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no
pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais.
Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um,
todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o
sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com
mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o
interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma
corrida com os miúdos ou os cães.
Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi
crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco
com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o
penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a
melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à
Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde,
alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as
enfermeiras dos serviços continuados de saúde.
E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de
uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma
veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei
imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me,
pensou que tudo estava acabado.
Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias
inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em
Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me
a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava,
como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia
simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à
minha volta.
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha
morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua
cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012
que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer?
Exactamente como?, perguntava-lhe.
Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido
desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim
próprio.
Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o
meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre
que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do
psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte
de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no
momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a
Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada
me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um
hospital. Esse juramento mantém-se.
Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da
clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a
morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão
impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da
esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de
terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos
riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de
uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos
letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte
ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender,
precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto
mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.
Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma
espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de
saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver
outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor
os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me
enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a
escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma
resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e
de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas,
ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa
transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a
coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as
pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão
pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das
ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro
vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem
hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto,
ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma
hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então,
alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos
cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o
gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça,
dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de
que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os
olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol,
através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da
encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como
se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os
textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do
mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei
verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo
as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para
trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente
indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir
dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos
braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como
se fôssemos o tronco de uma grande árvore.
Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.
Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que
levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui
a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e
finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei
com o sofrimento nestes mais de mil dias:
“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.
S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015
sábado, 13 de junho de 2015
sexta-feira, 12 de junho de 2015
El conde de Cardigan
Nobles arruinados ha habido siempre. Resultan entrañables y mejor aún
cuanto más hacen por esconder sus penalidades. El conde de Cardigan ha
optado en cambio por la estrategia contraria y no ha tenido reparos en
contar hasta dónde llega el desastre en el que se ha convertido su vida.
Los británicos conocen bien algunos detalles de su día a día que
transcurre, sobre todo, en la cocina de su casa porque allí están más
calientes. Cuando cae la noche, el aristócrata de 61 años y su mujer
Joanne, de 49, se retiran al dormitorio y ambos duermen vestidos para
evitar el frío. Las duchas se las dan en los baños públicos porque
tampoco tienen agua caliente y él, mientras, busca trabajo de lo que le
salga, como chófer, p.ej, aunque a su edad no es fácil. Hasta intentó
sacarse el carnet de conducir vehículos pesados para hacerse camionero y
cumplir así uno de sus sueño infantiles, pero eso tampoco pudo ser. Una
extraña ambición para un niño que creció rodeado de todas las
comodidades, hijo del marqués de Ailesbury y de Edwina Sylvia Bonn,
perteneciente a una acaudalada familia. Su infancia transcurrió en esa
misma mansión con más de 100 habitaciones en la que vive ahora y que se
encuentra dentro de unos bosques de casi 2.000 hectáreas también
pertenecientes a la familia. De vez en cuando, si el conde tiene suerte,
le llaman de una agencia de empleo temporal y puede así completar el
subsidio de 85 euros semanales que le paga el Estado británico. Uno de
los empleos que ha desempeñado ha sido el de conducir una furgoneta para
un empresa de catering que se encarga de abastecer a los aviones
privados que pasan por Heathrow. Una dolorosa paradoja: al conde le
tocaba llevar latas de caviar de Harrods al aeropuerto. Joanne, por su
parte, no puede trabajar al ser ciudadana americana y contar con un
visado de turista. Ahora, además, ha nacido su hija. Toda una sorpresa,
dada la edad de la madre, que les hizo concebir a ambos un montón de
esperanzas. Y si la niña venía con un pan debajo del brazo? O mejor, si
la venida al mundo de la criatura conseguía ablandar el corazón de los
administradores de la mansión? Porque ellos son, según el conde, los
culpables de todo. Siete años de enredos. En 2006, el conde firmó un
acuerdo para convertir la mansión en un hotel de lujo con spa y campo de
golf. El contrato implica un alquiler por 150 años y una inversión de
unos 60 millones de euros. Patrimonio autoriza el proyecto, ya que se
trata de una construcción que ostenta el mayor grado de protección, y se
consiguen todos los permisos, lo que permite a la familia no
desprenderse de la propiedad y al mismo tiempo obtener un gran
rendimiento de ella. Pero poco después estalla la crisis financiera y
los inversores deciden abandonar el proyecto. Casi al mismo tiempo,
también en 2006, el conde viaja con Rosamund su primera mujer, a Arizona
para visitar a su hija lady Catherine que se encuentra en un centro de
desintoxicación. Durante ese viaje, el matrimonio salta por los aires y
el conde, muy afectado, ingresa en otro hospital especializado en salud
mental y adicciones para reponerse del trauma. Allí conoce a su segunda
mujer, Joanne, que se recupera de su dependencia a los analgésicos.
Ambos se enamoran y el conde se queda a vivir 5 años en Estados Unidos.
Durante este tiempo, dos administradores se ocupan de las gestiones de
sus propiedades. Uno de ellos es un viejo amigo del aristócrata al que
conoce desde hace más de 30 años. A su vuelta de Estados Unidos, en
2011, estalla la batalla legal entre el conde y los administradores que,
según la versión del primero, le cierran el grifo y no le dan ni un
penique, además de apropiarse de casi 600.000 euros suyos e impedirle,
por ejemplo, vender algunos objetos de plata para ir tirando. Pero el
cruce de acusaciones entre ambas partes no se queda ahí y los juicios se
suceden. John Moore, uno de los administradores, denunció al conde por
escupirle y la justicia le absolvió. Sí que reconoce el aristócrata que
llamó «cerda fea» a la mujer del otro, pero solo después de que
escuchara como le decía que Joanne necesitaba perder peso. La familia
del conde. En mitad de todo este lío, el conde no cuenta con la ayuda de
sus dos hijos mayores que hace tiempo dejaron de hablarle. El mayor,
Thomas, permanece al margen, mientras que lady Catherine ha saltado a la
fama como cantante con el nombre de Bo Bruce. Incluso participó en la
versión inglesa de La voz. El conde cuenta, eso sí, con el apoyo de su
madre. A mediados de octubre, nació Sophie, la nueva hija del
aristócrata, lo que supone una boca más que alimentar pero también
algunas ventajas sociales. Según enumeraba la prensa británica, sus
padres podrán optar ahora a 600 euros por el nacimiento, 24 euros
semanales y una ayuda extra de hasta 3.900 euros anuales si cumplen
determinadas condiciones. Lo que no ha conseguido la recién nacida ha
sido apiadar a los administradores. Al revés, poco después de que la
criatura viniera al mundo, el conde contaba que el paso que habían dado
sus enemigos era intentar vender la mansión en contra de su voluntad por
12 millones de euros. El mes que viene se celebrará un juicio que puede
resultar decisivo. Mientras, nos quedamos con la frase que su mujer
dijo bromeando al 'Daily Mail': Debería haberme casado con un fontanero,
así por lo menos tendría agua caliente.
quinta-feira, 11 de junho de 2015
a venda da TAP
Acabei agora uma reunião e estou de volta a casa. Há sempre qualquer coisa cá dentro que deixa uma sensação de incómodo. A venda da TAP nestas circunstâncias faz-me recuar uns tempos atrás, aonde todos os Portugueses tinham orgulho na sua transportadora e nem se concebia que fosse vendida nem que tivesse prejuízos e passivos deste montante.
Pensávamos na segurança, na qualidade, na certeza de sermos bem tratados e no orgulho de ouvirmos elogios internacionais gabando uma empresa portuguesa.
Não interessa apurar se foi bem vendida, se o comprador é ou não o melhor, se o PS tem razão ou não ou se o Governo agiu bem.
Faltam-me dados para ter uma rigorosa opinião sobre o assunto em todas as suas vertentes. Irrita-me logo os "asseclas" da oposição a ameaçarem que fazem reverter o negócio, com os custos para todos nós em dois tabuleiros: as indemnizações vultosas a serem pagas por frustração das expectativas e lucros cessantes bem como o que o Estado terá que aportar para assegurar a manutenção na esfera pública da companhia, passados tantos meses.
Por outro lado, os "manteigueiros" do poder e do Governo nem lhes passa pela cabeça que o Governo possa errar. É demais!
A sensação que me dá, não sei se concordam ou já sentiram alguma vez, é a do dia do enterro de alguém que nos disse muito, quando se regressa à porta do cemitério para mergulharmos de novo na vida, fica-se com a boca sêca, sem jeito e sem vontade de recomeçar. Há como que um cansaço de encarar a vida sem a presença desse familiar ou amigo querido.
Pois é o que sinto e ninguém me convence que estamos em tempos melhores...cada dia a caminhar para situações de desencanto que não se resolvem com folhas de cálculo.
Faltam-me dados para ter uma rigorosa opinião sobre o assunto em todas as suas vertentes. Irrita-me logo os "asseclas" da oposição a ameaçarem que fazem reverter o negócio, com os custos para todos nós em dois tabuleiros: as indemnizações vultosas a serem pagas por frustração das expectativas e lucros cessantes bem como o que o Estado terá que aportar para assegurar a manutenção na esfera pública da companhia, passados tantos meses.
Por outro lado, os "manteigueiros" do poder e do Governo nem lhes passa pela cabeça que o Governo possa errar. É demais!
A sensação que me dá, não sei se concordam ou já sentiram alguma vez, é a do dia do enterro de alguém que nos disse muito, quando se regressa à porta do cemitério para mergulharmos de novo na vida, fica-se com a boca sêca, sem jeito e sem vontade de recomeçar. Há como que um cansaço de encarar a vida sem a presença desse familiar ou amigo querido.
Pois é o que sinto e ninguém me convence que estamos em tempos melhores...cada dia a caminhar para situações de desencanto que não se resolvem com folhas de cálculo.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Qu'ai-je donc fait ?
Qu'ai-je donc fait ? J'ai aimé l'eau, la lumière, le soleil, les matins d'été, les ports, la douceur du soir dans les collines et une foule de détails sans le moindre intérêt comme cet olivier très rond dont je me souviens encore dans la baie de Fethiye ou un escalier bleu et blanc flanqué de deux fontaines dans un village des Pouilles dont j'ai oublié le nom. Je ne regrette ni d'être venu ni de devoir repartir vers quelque chose d'inconnu dont personne, grâce à Dieu, n'a jamais pu rien savoir. J'ai trouvé la vie très belle et assez longue à mon goût. J'ai eu de la chance. Merci. J'ai commis des fautes et des erreurs. Pardon. Pensez à moi de temps en temps. Saluez le monde pour moi quand je ne serai plus là. C'est une drôle de machine à faire verser des larmes de sang et à rendre fou de bonheur. Je me retourne encore une fois sur ce temps perdu et gagné et je me dis, je me trompe peut-être, qu'il m'a donné - comme ça, pour rien, avec beaucoup de grâce et de bonne volonté - ce qu'il y a eu de meilleur de toute éternité : la vie d'un homme parmi les autres.
Jean d'Ormesson
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