segunda-feira, 11 de maio de 2015

Carta do meu primo Luis Bernardo - Narrativa da festa e jantar



Meu Querido Manuel,

A festa dos teus Pais foi um deslumbramento. Pediram ao "29" que lhes desse uma mão e ficou como sempre muito bem arranjado.

No terraço grande em frente da casa começava uma tenda que se alargava para o jardim imenso. Os canteiros de flores garridas de que o teu Pai tanto gosta e cuida, estavam um esplendor. De lado, por detrás de umas micas generosas deixava-se entrever o arvoredo, todo iluminado.

No fim do jardim numa varanda em pedra bastante larga, podia-se ter uma panorâmica sobre o mundo e como a festa se prolongou até ao amanhecer, os convidados vieram apreciar tanto as vistas da noite como o nascer do Sol.

O terraço tinha sido deixado para palco das representações que se iriam desenrolar e do espectáculo organizado pelos teus Pais.

Pelo parque sobre a relva, espalhavam-se as mesas que estavam lindas. Com centros de mesa com candelabros de prata e velas acesas e o serviço de porcelana armoriada da família, de que tu tens réplica no Alentejo. Os marcadores em vermeille com o mesmo faqueiro e copos de cristal valorizavam a Companhia das Índias que em cada mesa, em pequenas terrinas abertas e sem tampa deixavam sair flores vistosas a dar com as cores da porcelana.

As toalhas em seda beije e com saiote tornavam o arranjo das mesas imponente. As cadeiras eram confortáveis pois o "29" decidiu e muito bem, que os convidados deviam estar cómodos.

Criados fardados de libré, serviam os aperitivos que eram deliciosos: salmão fumado enrolado em cónes crocantes, caviar beluga à colher sobre blinis, uns camarões frescos em pequenas empadinhas de massa folhada, uns croquetes de javali quentes e como bebidas, champagne, vinho da Madeira, jerez, vinho branco gelado Chablis e Carcavelos.

O jantar era muito bom:

- ostras gratinadas com espinafres, acompanhadas por champagne;

- lagostins grelhados com molho de mayonnaise aux fines herbes acompanhado por um Mosel de primeira ordem;

- um sorbet de lima;

- perdiz estufada com cebolinhas e batata palha e acompanhadas por um vinho tinto de Chateau Petrus.

De sobremesa um soufflé Grand-Marnier acompanhado de Licor Beirão, et pour cause…

Um plateau de queijos servido em cada mesa, com Serpa e Azeitão acompanhado por um Porto Barros de 1919.

No final, havia charutos que tinham sido trazidos pelo Conde de Montérrón, ele de origem cubana, e as bebidas do costume desde o Drambuie, Whiskies de malte e sem serem, Cognacs, e Grappas. 

Muitos smokings brancos impecáveis e as senhoras muito bem vestidas, com jóias formidáveis. A parentela esmerou-se.

Lá estavam os Amigos de sempre, os Horta e Costas, os Herédias, os Mónica, os Andersen, os Vasconcellos Abreu, o Pai Motta Veiga, os Marques Guedes, os Rebello de Sousa, os Lagos, os Vasconcellos Guimarães, os Paiva Raposo e como já tinha bebido um bocado, não dei por mais.

Havia uma orquestra impecável e dançou-se bastante. A um dado momento os teus Pais que estavam elegantíssimos, foram para o terraço e a tua Mãe agradeceu muito terem vindo à festa e anunciou que se iria começar com as duas representações referidas num programa que constava no verso de um menu lindo com a descrição dos pratos do jantar, impresso a grená com um diabinho com uma cauda no meio de uma frase que dizia: “who’s the devil, is sitting here?” Por baixo o nome do Convidado. Tudo isto mandado vir de Bond Street do Smythson, que é único.

Tive uma longa conversa com o teu Trisavô, Dom Francisco Bernardo de Noronha e Távora, a propósito de uma demanda sobre umas terras e uns palmares bem como sobre uns palácios e casas em Goa. Acabou por ser o teu Bisavô Souza Andrade que como juiz da Relação de Nova Goa, dirimiu o assunto. Também encontrei a tua Bisavó italiana, com quem falei sobre Génova, cidade de que eu gosto tanto.

(continua)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Resposta do meu primo Luís Bernardo - ceia sublime


Meu Querido Manuel,

Cá recebi a tua carta que chegou bem. Estou numa roda-viva pois há aqui uma enorme festa organizada pelos teus Pais. Para além da tua família toda até aos 4ºs Avós, dos dois lados, resolveram convidar amigos de toda a vida.

O pretexto, imagina tu, é a Alegria. Até parece que um dos temas da tua missiva – a Tristeza – para que me pedes conselho, vem a calhar para te falar do que aqui se celebra. Se me deixas, vou responder-te falando do oposto.

Pois a tua Mãe, com a sua energia habitual, está a preparar tudo para que seja uma festa em cheio. Sabes como ela aí fazia umas peças de teatro muito engraçadas em que participavam os filhos e netos e os amigos caturras. Pois aqui, vai ser sem vocês os filhos e netos, mas com a parentela e os que aí tão bem alinhavam nas representações e divertimento.

Assim vai haver vários quadros inspirativos:

- é na família que se encontra a ALEGRIA – sabes tão bem como eu que ninguém é igual e cada um tem os seus feitios e interesses e à medida que se vai crescendo vai-se adquirindo a sua personalidade. 

É no seio da família que se devem dirimir os diferendos, recuperando as boas memórias e perdoando os defeitos e atitudes menos bem tomadas. Se não houver uma referência e necessidade de revisitar o ambiente familiar, nos bons e sobretudo nos maus momentos, a família dispersa-se, divide-se e tornam-se uns estranhos. 

É na unidade no sofrimento e nas alegrias que aprendem os Pais e os Filhos a serem melhores, a respeitarem-se, a exprimirem sem vergonha os sentimentos de amor e de disponibilidade quando são chamados a actuar. E, o que se ganha em partir esses laços, por muitas razões que possam existir? 

O tempo passa a correr, os anos sobrevêm, as doenças e a dependência chegam, a solidão e a dita tristeza.

Que bom é um filho ou filha sentir o calor do amor dos Pais, que tantas “untold stories” têm sobre cada um, de preocupação, de sacrifício, de alegrias, de orgulho e de entrega a ponto de se ser capaz de dar a vida. 

Pois bem no sentido contrário isso acontece, que bom é os Pais sentirem o retorno desse amor retribuído em paciência, atenções, respeito, disponibilidade e ternura.

Já vês, este quadro vai ser feito pelos teus Pais, os dois com tão ricas experiências e tal como os conheço falarão serenamente com verdade, humildade sem engrandecimento, porque sempre lhes saiu com naturalidade. Tu bem o sabes.

- um segundo quadro em que o tema é a ALEGRIA que se encontra em esquecer-nos de nós próprios e dar-nos aos outros. A alegria da dedicação, da atenção ao que esperam de nós, a misericórdia e bondade no trato com todos, o serviço aos mais desfavorecidos e não só àqueles com faltas materiais: aos solitários, aos idosos, às crianças abandonadas, aos com fome e sede de justiça. Mas para esses, o exemplo da ALEGRIA é a melhor cura dos males.

Depois um baile formidável das mil e uma noites com uma ceia opípara, com um menu digno dos maiores gourmets e gourmands. Depois te conto e descrevo ao pormenor.

Vou tentar estar com o Moisés como me pediste, para o mês que vem, pois ele não é fácil de encontrar. 

Passa a vida a fazer rectificações nas diversas versões dos mandamentos. Há por aí muita fantasia, plágio e invenções disparatadas. Já veremos o que ele diz.

Quanto ao UNIVERSO, e a tudo quanto me perguntas, estou proibido de te descrever mas posso adiantar-te algo que te vai descansar. O caminho até aqui é bom e prazenteiro e como já te disse antes em outras cartas, goza a vida aí, porque aqui é diferente.

Por isso, esquece a TRISTEZA e transforma-a em motivos de ALEGRIA. Há tantas coisas boas e positivas para desfrutar, então porque entristecer-te?

Um afectuoso abraço do teu primo muito amigo

Luís Bernardo

Chiado - 1º de Maio de 2015

Chiado 18h - cheio a abarrotar de estrangeiros, de todas as idades e feitios. Uma banda de jazz muito boa toca em frente da Casa da Sorte (fechada, mais uma) . Imensa gente ouve e aplaude.

Parece Paris ou Londres ou mais Hong Kong, sem chineses, uma densidade de gente a conversar e a olhar as lojas e a entrar e a comprar. Lisboa está na moda.

Falta ao Chiado a amplitude dos Boulevards ou das 5 avenida e Regent Street, mas é o que temos. Senti-me bem.

O meu destino era a FNAC e a Bertrand, aonde vou a cada semana e quase sempre quando almoço no Turf.

As duas livrarias com bastante gente desde locais a estrangeiros.

Aqui ainda me sinto melhor! Vou acompanhando o que vai saindo por isso ansiosamente, folheio, toco, cheiro bem perto e leio páginas e vou-me encantando por um e por outro e por mais um....se fosse comprar todos saía com pilhas de livros.

Todos têm na minha cabeça o seu momento de leitura posterior, imagino a sequência e o cenário apropriado.

A FNAC tem à venda por €9,00 as obras completas de Waughm, Wilde, Woolf e tantos outros em inglês numas edições fantásticas e maleáveis com capas atraentes....apetece comprar todos, mas para quê se já tenho em livros individuais..

E é isto folks! O meu primeiro de Maio foi passado assim.

Devo confessar que as lojas estão TODAS abertas, que não estão tempos para manifs.....ao trabalho, camaradas!

(Escrito agora num maple da Bertrand, em sossego)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Carta ao meu primo Luís Bernardo - várias perguntas

Resumo:

Imaginem vocês que recebi uma carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Deixei passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!

Meu Querido Luís Bernardo,

Não te tenho escrito pois sei que aí também chegou a moda das greves e não tem havido portadores. Que coisa! Mas disseram-me que há os serviços mínimos, por isso vou aproveitar para te mandar esta carta, sumarizando uma série de perguntas que se têm acumulado.

Comecemos pelo primeiro tema: que remédio dar à tristeza? Eu acho que nenhum, mas talvez tenhas alguma mezinha! Tanta gente desanimada, uns pela vida familiar, outros pelo desemprego e falta de dinheiro, ainda outros sem esperança nas suas doenças incuráveis, finalmente muitos milhares abandonados, feridos e desalojados pelas guerras. Já nem me refiro às causas e consequências, mas ao estado de sofrimento e de desalento.

Um outro tema que suscita perplexidade crescente: com os novos avanços da ciência e da técnica, tem-se progredido no conhecimento do universo e muitas novas descobertas vêm perturbar os menos preparados e esclarecidos. Seremos os únicos no Universo, quem nos criou, quem deu origem a tudo? Claro que sabemos quais são as diversas doutrinas fruto de diferentes religiões e credos, mas diz-me lá tu, que estás bem colocado, ao menos o que te parece se não me puderes dizer a verdade.

Um terceiro aspecto que levanta muitas questões: vê se estás com Moisés e lhe perguntas se é tudo uma treta, bem gizada, sem dúvida ou a pura das verdades:

Os Dez Mandamentos ou o Decálogo é o nome dado ao conjunto de leis que segundo a Bíblia, teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés (as Tábuas da Lei). As tábuas de pedra originais foram quebradas, de modo que, Deus teve de escrever outras.

Como sabemos, o Decálogo significa "dez palavras", as palavras que resumem a Lei dada por Deus ao povo de Israel, no contexto da Aliança, por meio de Moisés. Este, ao apresentar os mandamentos do amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traça, para o povo eleito e para cada um em particular, o caminho de uma vida liberta da escravidão do pecado.

Segundo a Torá, os Dez Mandamentos foram entregues no Monte Sinai ao povo hebreu, por Deus, através de Moisés, separadamente do restante da Torá ("Ensinamentos"). De acordo com a Bíblia, os mandamentos escritos nas duas tábuas da Lei, foram escritas pelo dedo do próprio Deus sendo que os demais foram ditados e escritos em pergaminhos por Moisés e ambos falados directamente ao povo. Em hebraico (língua original dos Mandamentos), o número de letras dos Dez Mandamentos é equivalente a 613, o número total dos mandamentos da Torá.

Luís Bernardo, desembrulha-me esta confusão, se fazes favor.

Finalmente, tenho sido muito solicitado para apurar a personalidade de um misterioso Don Quijote de la Mancha e do seu aio, Sancho, dito da Pança.

Nas tuas voltas, convida-os para jantar e indaga tudo sobre os moinhos de vento e das fantasias que o levou ao desânimo após ter desistido de lutar contra os arrogantes e ignóbeis nobres, que segundo ele, temiam se defrontar com tal valente cavaleiro.

Teu muito dedicado primo

Manuel

sábado, 25 de abril de 2015

Esta gente

ESTA GENTE

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Harém

Une fois dans le Harem, les femmes pouvaient « monter en grade ». En étant « honorée » par le sultan, la jeune femme devenait « odalisque ».
 
Puis si elle lui donnait un garçon elle devenait kadin. Enfin, si son fils devenait sultan, elle devenait « valide sultane », le titre le plus envié : elle régnait alors sur le harem et avait très souvent un rôle clé dans l’organisation de l’Etat.

les femmes dans l'empire ottoman au XVIIIe siècle

"Il y avait bien là ce jour, aux hammans, 200 baigneuses. Les premiers sofas furent couverts de coussins et de riches tapis, et ces dames s'y placèrent, les esclaves les coiffèrent, toutes étaient dans l'état de nature, toutes nues. Cependant, il n'y avait parmi elles ni geste indécent, ni posture lascive, elles marchaient et se mettaient en mouvement avec cette grâce majestueuse !

Il y en avait plusieurs de bien faites, la peau d'une blancheur éclatante, et n'étaient parées que de leurs beaux cheveux séparés en tresses, qui tombaient sur les épaules et qui étaient parsemés de perles et de rubans : belles femmes nues dans différentes postures ; les unes jasant, les autres travaillant, celles-ci prenant du café ou du sorbet, quelques autres négligemment couchées sur leurs coussins. De jolies filles, de 16 à 18 ans, sont occupées à tresser les cheveux des baigneuses de mille manières... Après le repas on finit par donner le café ou les parfums, ce qui est une grande marque de considération ; alors, de cette manière, deux jeunes esclaves à genoux encensèrent pour ainsi dire mes cheveux..."

( Extraits des lettres de Lady Montague - Mary Wortley Montagu (26 mai 1689 - 21 août 1762), épouse de l'ambassadeur de Grande-Bretagne en Turquie, publiées à Londres en 1764. Une source inestimable sur les femmes dans l'empire ottoman au XVIIIe siècle. En effet, en tant que femme, elle put avoir accès à des lieux interdits aux hommes : harems ou bains par exemple ; plus généralement, elle eut de véritables contacts avec les femmes ottomanes.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Stefan Zweig

Zweig was an immensely successful novelist, playwright, and librettist in early 20th century Europe. Though Austrian by nationality and Jewish by heritage, he considered himself first and foremost an European, and no one was more delighted than he by the vigorous bounty of European culture at the turn of the last century. To be a talented aspiring writer, nineteen years old, in Vienna, in 1900 — what a joy! Modernity must have looked like a blossoming Eden. And then, of course, came the snakes. By 1942, Zweig was in Brazil, a refugee with no citizenship and no possessions, and he with his wife saw no future. They took an enormous amount of barbiturates and lay down to die. I send greetings to all of my friends,” he wrote. “May they live to see the dawn after this long night. I, who am most impatient, go before them.

dar a mão

Os discípulos de Emaús são um retrato de nós mesmos. Como eles, também nós somos seres abatidos, caminhando pela estrada, a caminho de casa, no ocaso do dia. Também as nossas expectativas parecem esvaziadas e as esperanças caídas. Só que nas estradas da vida surgem muitas surpresas. É nestas estradas que surge o Jesus que nós, à primeira, não reconhecemos nem acolhemos. Jesus, que é o caminho (cf. Jo 14, 6), nunca deixa de Se aproximar de nós e de caminhar connosco (cf. Lc 24, 15). 

Jesus é o Deus próximo e o Deus peregrino. 

Ele é o nosso caminho e a luz que guia os nossos passos em todos os caminhos. 

É Ele que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro.

Pe. João António Pinheiro Teixeira

quarta-feira, 15 de abril de 2015

The Italian Wedding Test

I was a very happy man. My wonderful girlfriend and I had been dating for over a year. 

So we decided to get married.

There was only one little thing bothering me.. It was her beautiful younger sister, Sofia.

My prospective sister-in-law was twenty-two, wore very tight miniskirts, and generally was Bra-less. She would regularly bend down when she was near me. I always got more than a nice view. It had to be deliberate...she never did it around anyone else.

One day she called me and asked me to come over. 'To check my Sister's wedding- invitations' she said. She was alone when I arrived and she whispered to me that she had feelings and desires for me. She couldn't overcome them anymore. She told me that she wanted me just once before I got married.

She said "Before you commit your life to my sister". Well, I was in total shock, and I couldn't say a word. She said, "I'm going upstairs to my bedroom" she said... "if you want one last wild fling, just come up and have me".

I was stunned and frozen in shock as I watched her go up the stairs. I stood there for a moment...then turned and made a bee-line straight to the front door. I opened the door, and headed straight towards my car.

Lo and behold, my entire future family was standing outside, all clapping! With tears in his eyes, my father-in-law hugged me. He said, 'Sergio, we are very happy that you have passed our little test. We couldn't ask for a better man for our daughter. Welcome to the family my son..'

And the moral of this story is:

Always keep your condoms in your car.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Nem tudo o que exponho foi escrito com a cabeça; muita coisa também saiu do coração.


Muitas vezes me enganei e não raro tive que aprender tudo de novo. Mas sei – e por isso me conformei – que é só da noite que se faz o dia, e que a verdade sai do erro.  Por isso nunca tive medo do erro, nem dele me arrependi seriamente.  Nem tudo o que exponho foi escrito com a cabeça; muita coisa também saiu do coração.

C.G. Jung

Cada pessoa é aquilo em que crê


Cada pessoa é aquilo em que crê;
fala do que gosta; retém o que procura;
ensina o que aprende; tem o que dá e vale o que faz.

Hoje a minha aula habitual na prisão de alta segurança de Monsanto aos reclusos estrangeiros, foi substituída pela passagem de um filme que pedi aos cinemas Corte Inglês e que simpaticamente disponibilizaram.

Era um filme muito divertido e na língua materna de 3 dos detidos, e para além de rirem a bom rir todo o tempo, em momentos aonde apareciam casas, campos, paisagens, cidades e pessoas reparei que ficaram muito comovidos.

Saí com a certeza que estes são seguramente passos, mais do que grandes discursos, para os ajudar na reinserção e para cada vez mais ansiarem pela liberdade.

Senti, tal como eles, um aperto no coração e pensei que era por eles que vibrava...faz bem esquecer-nos de nós e solidarizar-nos com os outros.

Será que alguém pensa que também é bom sentirmos a solidariedade dos outros por nós ou tudo julga que somos imortais e insensíveis...

Deu-me para este pensamento num dia cinzento, mas que se pode sempre, quando o quisermos, tornar-se bem mais claro!

Foi o que sentiram hoje, estou certo, os reclusos de Monsanto!

sábado, 11 de abril de 2015

7 Cardinal rules for life


Senhor, partem tão tristes meus olhos por vós

Senhor, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo-Branco

sábado, 4 de abril de 2015

rosa enjeitada

Sou essa rosa, caprichosa, sem ser má
Flor de alma pura e de ternura ao Deus dará
Que viu um dia, que sentia um grande amor
E de paixão o coração estalar de dor

Rosa enjeitada
Sem mãe sem pão sem ter nada
Que vida triste e chorada
O teu destino te deu
Rosa enjeitada
Rosa humilde e perfumada
Afinal desventurada quem és tu?
Rosa enjeitada
Uma mulher que sofreu

Tão pobrezinha que ainda tinha uma afeição
Alguém que amava e que sonhava uma ilusão
Mas esse alguém por outro bem se apaixonou
E assim fiquei sem ele que amei e me enjeitou

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Na morte do António Mendia


Na morte do António Mendia.

Tinha estado com o António na 3ªf, nas habituais tertúlias de fim de tarde no Clube.

Custava-lhe a respirar mas achei-o com melhor côr e disse-lhe. Esteve à conversa, sorrindo com as minhas histórias e comigo estavam o Sebastião Lancastre e apareceu depois o Jorge Brito e Abreu.

Quando saímos pelas 21h 30m, pediu-me o braço para se apoiar e descemos até ao carro do Sebastião que impecavelmente nos levava a cada 3ªf, passando primeiro pela casa do António e depois seguindo.
Despedimo-nos e desejámo-nos mutuamente uma boa Páscoa.

O António foi das pessoas mais resignadas que eu tenho encontrado. Guardando para si as suas dores e mágoas e à medida que ia piorando não se ouvia um queixume, a não ser aqueles que decorriam do seu estado visível.

Foi melhor assim. Parou de sofrer. Frase sempre dita.

Deixa-me saudades e sobretudo deste hábito de nos vermos com frequência: e de repente a morte tudo vence e leva os Amigos.

Sempre que alguém a quem eu quero morre, reflicto sobre tudo por quanto lutamos tantas vezes não medindo verdadeiramente a essencialidade das coisas.

O mais importante em cada pessoa é a forma como se revela aos outros, ou seja é pelo seu comportamento que os outros vão classifica-lo como boa ou má pessoa.

No fundo os valores mais importantes, independentemente da origem social de onde se provenha são:

- a bondade de coração, a magnanimidade e a boa disposição.
- a honestidade e a lealdade.
- a honra e a palavra dada que é sempre cumprida, seja em que circunstâncias for.
- a preparação para bem cumprir as tarefas que lhe estão confiadas.
- o desejo de agradar aos outros com decência e decôro ( com boas-maneiras e sem chocar).
- alguma reflexão interior e paz conseguida com espiritualidade.
- o manejo do dinheiro de uma forma desapegada.
- a temperança no sentido de evitar excessos.

Não há pessoas perfeitas nem é fácil a combinação destas e de mais algumas características que ainda possam faltar, mas se se conseguir ser uma grande parte de isto, penso poder-se dizer que se deixa um bom exemplo como ser humano.

E o António, o meu querido António, esforçou-se para isso e de certeza que encontrou o merecido descanso.

Que Deus o tenha na Sua Santa Guarda

quarta-feira, 1 de abril de 2015

a vida não acaba quando o corpo morre, e pode durar para sempre


Um livro intitulado “Biocentrism: How Life and Consciousness Are the Keys to Understanding the Nature of the Universe“ (Biocentrismo: Como a Vida e a Consciência São as Chaves para a Compreensão da Natureza do Universo – [tradução livre do título – n3m3]) mexeu com a Internet, porque ele contém a noção de que a vida não acaba quando o corpo morre, e pode durar para sempre.  O autor desta publicação, o cientista Dr. Robert Lanza, que foi votado pelo NY Times como sendo o 3º cientista mais importante ainda vivo, não tem dúvida de que isto seja possível.

Além do tempo e do espaço

Lanza é um especialista em medicina regenerativa e diretor científico da Companhia de Tecnologia Avançada da Célula.  Ele é conhecido também por sua extensa pesquisa com células tronco, e é conhecido por vários experimentos de sucesso na clonagem de espécies de animais em extinção.
Mas há pouco tempo, o cientistas se envolveu com a física, a mecânica quântica e a astrofísica.  Esta mistura explosiva deu o nascimento à nova teoria do biocentrismo, a qual o professor tem pregado desde então.  O biocentrismo ensina que a vida e a consciência são fundamentais para o Universo.  É a consciência que cria o universo material, e não o contrário.
Lanza aponta para a própria estrutura do Universo, e que as leis, forças e constantes do Universo parecem ser afinadas com a vida, implicando no fato da consciência existir antes da matéria.  Ele também alega que o espaço e tempo não sejam objetos ou coisas, mas sim ferramentas de nossa compreensão animal.  Lanza diz que carregamos o espaço e o tempo conosco “como tartarugas com cascos“, o que significa que quando o casco é deixado de lado (tempo e espaço), ainda existiremos.
A teoria implica que a morte da consciência simplesmente não existe.  Ela somente existe como pensamento, porque as pessoas se identificam com seus corpos.  Elas acreditam que o corpo irá perecer, mais cedo ou mais tarde, achando que assim sua consciência irá desaparecer também.  Se o corpo gera a consciência, então a consciência morre quando o corpo morre.  Mas se o corpo recebe a consciência da mesma forma que um receptor de TV a cabo recebe sinais, então o curso da consciência não acaba na hora da more do veículo físico.  Na verdade, a consciência existe fora da limitação do tempo e do espaço.  Ela é capaz de estar em qualquer lugar: no corpo humano e fora dele.  Em outras palavras, ela não tem local, no mesmo sentido que objetos quânticos não possuem local.
Lanza também acredita que universos múltiplos possam existir simultaneamente.  Em um universo, o corpo pode estar morto.  E no outro ele continua a existir, absorvendo a consciência que migrou para esse universo.  Isto significa que uma pessoa morta, enquanto viajando através do mesmo túnel, não vai para o inferno ou céu, mas para um mundo similar àquele que ela uma vez habitou, contudo desta vez viva.  E assim por diante, indefinidamente.  É quase como um efeito pós-vida do tipo Matriosca (boneca russa) cósmica.

Mundos múltiplos

A teoria de Lanza, que infunde esperança, mas é extremamente controversa, possui muitos defensores, não somente meros mortais que querem viver para sempre, mas também alguns cientistas bem conhecidos.  Estes são físicos e astrofísicos que tendem a concordar com a existência de mundos paralelos e que sugerem a possibilidade de universos múltiplos.  O multiverso é um, assim chamado, conceito científico, o qual eles defendem.  Eles acreditam que não exista nenhuma lei física que proibiria a existência de mundos paralelos.
H.G. Well, o escritor de ficção científica, proclamou isto em 1895, na sua obra “The Door in the Wall” (A Porta na Parede).  E após 62 anos, esta ideia foi desenvolvida pelo Dr. Hugh Everett, em sua tese de graduação na Universidade Princeton.  Ela basicamente apresenta que, em qualquer dado momento, o Universo se divide em inúmeras ocorrência similares.  E no momento seguinte, estes universos ‘recém-nascidos’ se dividem de forma similar.  Em alguns destes mundos você pode estar presente: lendo este artigo em um universo, ou assistindo TV em outro.
Os fatores que disparam estes mundos que se multiplicam são as nossas ações, explicou Everett.  Se fizermos algumas escolhas, instantaneamente um universo se divide em dois, com diferentes versões de resultados.
Na década de 1980, Andrei Linde, um cientista do Instituto de física de Lebedev, desenvolveu a teoria dos universos múltiplos.  Ele agora leciona na Universidade Stanford.  Linde explicou: “O espaço consiste em muitas esferas que se inflam, as quais geram esferas similares, e essas, por sua vez, produzem esferas em números ainda maiores, e assim por diante até o infinito.  No Universo, elas são espaçadas umas das outras, Elas não estão cientes da existência das outras.  Mas elas representam partes do mesmo universo físico.
O fato do nosso Universo não estar só é apoiado pelos dados recebidos do telescópio espacial Planck.  Usando estes dados, os cientistas criaram o mais preciso mapa do fundo de microondas, a assim chamada ‘radiação de fundo da relíquia cósmica’, que permanece deste o início do Universo.  Eles também descobriram que o Universo possui muitos recessos escuros, representados por alguns buracos e extensas brechas.
A física teórica Laura Mersini-Houghton, da Universidade da Carolina do Norte, com seus colegas, argumentam: “As anomalias do fundo de microondas existem devido ao fato de que o nosso Universo é influenciado por outros universos que existem nas proximidades.  E os buracos e brechas são um resultado direto dos ataques dos universos vizinhos sobre nós.

Alma

Assim,há uma abundância de lugares, ou outros universos, para onde nossa alma poderia migrar após a morte, de acordo com a teoria do neo-biocentrismo.  Mas a alma existe?  Há uma teoria científica da consciência que poderia acomodar tal alegação?  De acordo com o Dr. Stuart Hameroff, uma experiência de ‘quase-morte’ acontece quando a informação quântica que habita o sistema nervoso deixa o corpo e dissipa no Universo.  Ao contrário das explicações materialistas sobre a consciência, o Dr. Hameroff oferece uma explicação alternativa da consciência, que pode talvez ser atraente, tanto para a mente científica racional, quanto para as intuições pessoais.
De acordo com Stuart e Sir Roger Penrose, um físico britânico, a consciência reside em microtúbulos de células cerebrais, os quais são locais primários de processamento quântico.  Na morte, esta informação é liberada pelo seu corpo, o que significa que a nossa consciência vai com ela.  Eles argumentam que a nossa experiência de consciência seja o resultado de efeitos quânticos da gravidade nestes microtúbulos; uma teoria que eles batizaram de ‘redução objetiva orquestrada’ (sigla em inglês: Orch-OR).
A consciência, ou pelo menos a proto-consciência, é teorizada por eles como sendo uma propriedade fundamental do Universo, presente até mesmo no primeiro momento do Universo durante o Big Bang.  “Em tal plano, a experiência proto-consciente é uma propriedade básica da realidade física, acessível a um processo quântico associado à atividade cerebral.
Nossa almas, na verdade, são construídas do mesmo tecido do Universo – e podem ter existido desde o começo do tempo.  Nossos cérebros são somente receptores e amplificadores para a proto-consciência, a qual é intrínseca ao tecido espaço-tempo.  Assim, há realmente uma parte de nossa consciência que não seja material e que sobreviverá a morte de nosso corpo físico?
O Dr. Hameroff falou no documentário ‘Através do Buraco de Minhoca’, do Science Channel: “Digamos que o coração pare de bater, o corpo pare de fluir, os microtúbulos percam seu estado quântico.  A informação quântica dentro dos microtúbulos não é destruída, ela não pode ser destruída, ela somente se distribui e dissipa à solta no Universo.”  Robert Lança adicionaria aqui que, não somente ela existe no Universo, mas que talvez também ela exista em outro universo.
Se o paciente for ressuscitado, reanimado, esta informação quântica pode voltar para dentro dos microtúbulos e o paciente dizer, “eu tive uma experiência de quase morte“.
Hameroff ainda diz: “Se o paciente não for reanimado e morrer, é possível que esta informação quântica possa existir fora do corpo, talvez indefinidamente como uma alma.
Esta afirmação sobre a consciência quântica explica coisas como as experiências de quase-morte, projeções astrais, experiência fora do corpo, e até mesmo a reincarnação, sem a necessidade de apelar para ideologias religiosas.  Em algum ponto, a energia de nossa consciência potencialmente se recicla para dentro de um corpo diferente, e enquanto isso ela existe fora do corpo físico em algum outro nível de realidade, e possivelmente em outro universo.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Será que quando morrermos fazemos realmente falta?


A propósito de alguém que morreu - vai-nos fazer cá muita falta - lido há pouco.

Será que quando morrermos fazemos realmente falta?

Sabemos que não...que o tempo é leal conselheiro do olvídio, apaga as memórias e só nos lembramos mais vivídamente quando estamos em provação e nos apetece ter perto de nós esse ente querido.

Pode parecer frio, insensível da minha parte, mas é bom que nos vamos habituando...é a pura das realidades.

Só pessoas mentalmente desiquilibradas, vão mantendo com o bolor dos anos, quartos imutáveis, gavetas abertas de onde saem peças de roupa do defunto mas hélas...o defunto não está lá.

Com nada disto quero dizer que não tenha saudades imateriais de todos quanto passaram na minha vida e que amei ou por quem fui amado, mas dizer que vou fazer cá muita falta...duvido!

A vida continua para os que ficam e também não sei bem como, para os que partem...I hope!

Por isso o ideal mesmo é enquanto estamos vivos dar-nos aos outros intensamente e deles receber retorno, o resto são hipocrisias...ainda que bem intencionadas.

sábado, 28 de março de 2015

Amar, cura


Devo confessar que fiquei estomagado com este acidente de aviação: uma sensação de arrepio e de mal-estar e eu que sempre viajei muito e em longo-curso – 56 vezes de Lisboa para Hong Kong e volta – Brasil, Africa e muitos outros países na Europa. Não acho que tenha ficado com medo mas a ideia de nada se poder fazer é tremenda.

Isto faz-me pensar que estes são chamamentos de atenção para a realidade de que a morte pode sobrevir para cada um de nós, a qualquer momento, não importando a idade nem a origem.

Mudando de tema, tento olhar à volta e encontrar uma boa notícia. Difícil, e as que há não são perceptíveis no turbilhão das más.

Bons livros, boa música, boa gente que se põe ao serviço dos outros, lugares aonde brilha o sol, aonde há campos verdejantes, flores, pássaros, mar e rios e à noite brilham as estrelas e a dona lua, bem como animais fiéis que nos fazem companhia, tudo isto são boas notícias.

Homens e mulheres são quem mais complicado se torna equilibrar!

Na minha última aula na prisão de alta segurança em Monsanto, mesmo sem os reclusos meus alunos darem por isso, caí em mim e dei conta que estava numa sala pequena, fechado a sete chaves e sem luz para o exterior. Já ultrapassei a minha claustrofobia e sinceramente pensei neles: um deles tinha tido uma promoção de bem-estar – poder passar duas horas por dia na biblioteca – sala igual à minha sem janelas sem ser para o corredor das celas.

Todos estes prisioneiros passam 90% de cada dia na sua respectiva cela, sózinhos e com limitações obsoletas fruto de uma legislação que não é feita com o conhecimento da realidade, em função da reinserção.

Já tenho dito em sede própria, que deveria haver uma triagem, obviamente com responsabilidade e por um conjunto de pessoas – psicólogos, guardas, assistentes de reinserção, sobre a supervisão do Director – por forma a separar os reclusos por alas consoante o seu grau de segurança exigido. Trata-se de uma maioria de cidadãos estrangeiros.

Duches frios, comida fria, proibição de falar ao telefone numa cabina vigiada por um guarda com os familiares mais do que uma vez por semana e por um prazo de tempo limitado (a custo de cada um), visitas uma vez por mês no parlatório, cantina mal fornecida, interdição de poderem receber mais do que 10 livros no total (naturalmente que mediante triagem dos títulos e assuntos pelos responsáveis, não deveria haver limite), 4 canais de televisão portugueses – estrangeiros não falam a nossa língua – estando as famílias dos reclusos dispostas a custear a mensalidade de uma antena colectiva de netcabo com filmes, música e desporto internacionais, e sobretudo uma proibição imoral: só uma vez por ano e durante duas horas podem estar em contacto físico com os familiares!

Pense-se em filhos pequenos e mães idosas, irmãos. Uma vez por ano, acho que nem no tempo da Inquisição. A visita íntima com as mulheres ou companheiras pode ser autorizada uma vez por mês e durante duas horas, com detalhes sórdidos que me escuso a relatar.

Dirá quem nunca visitou uma prisão nem com reclusos contactou, que sendo condenados por crimes (a maioria não são de sangue) merecem impiedosamente uma vida ainda mais difícil em enxovias de palha e uma bilha de barro com água e uma côdea de pão.

Saio de cada aula de duas horas, em que parte dedico ao convívio e troca de impressões, com o sentimento que lhes soube a pouco.

Como já tenho dito anteriormente, este meu trabalho de voluntariado tem um efeito duplo: prestar com humildade, empenho e o melhor que sei, um serviço aos reclusos e por outro lado receber testemunhos que me ajudam a ter tolerância e a não julgar os outros impunemente, desenvolvendo sentimentos de ajuda, de perdão e de um novo olhar para aonde reside o sofrimento, a solidão e como posso consolar e contribuir para uma progressiva recuperação de auto-confiança, de resignação e de preparação para a liberdade.

Pareço que me repito em tudo quanto escrevo sobre este tema, mas nunca é demais salientar que não deve haver limites nem restrições para lutar por melhores condições, sem temor de ir contra seja quem for.

Proponho que se promova em Portugal o que o Presidente da EUROPRI (organismo europeu que congrega todos os sistemas prisionais europeus) e simultaneamente responsável máximo do serviço prisional da Bélgica, conseguiu – 2 Juízes de Execução das Penas, 2 Magistrados do Ministério Público, dos Advogados(as), 2 Psicólogos, 2 Guardas Prisionais, 2 Jornalistas, e finalmente ele próprio e um outro Sub-Director de outra prisão, em reclusão igual às dos presos de alta segurança durante 48 horas!

Houve mudanças significativas no sistema prisional belga!

terça-feira, 24 de março de 2015

IN MEMORIAM Herberto Hélder (1930-2015)


A Paixão Grega

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Sê paciente

Sê paciente

espera que a palavra amadureça e se desprenda como um fruto ao passar o vento que a mereça.
  
Eugénio de Andrade.

«AU PLAISIR DE DIEU» de Jean d'Ormesson


«AU PLAISIR DE DIEU» de Jean d'Ormesson

«C’est le banal qu’il faut montrer, parce que c’est ce qu’on ne voit plus, à force d’habitude et de familiarité». Jean d’Ormesson, como Waugh, faz uma viagem à história centrada na relação entre uma família e a sua propriedade rural, detida ancestralmente. O berço da tribo era o Castelo de Plessis-lez-Vaudreuil, que resumia uma longa história desde as cruzadas até aos nossos dias. Os acontecimentos do século XX precipitam a mutação e a decadência – a modernização, a indústria, a emergência da burguesia, a guerra, a resistência, o amor, o dinheiro, os debates dilacerantes, Pétain e De Gaulle, a tradição, as mudanças políticas, Maurras e Karl Marx… 

Tudo se mistura num torvelinho de contradições. A vida quotidiana penetra nas grandes questões. As transformações profundas geram o drama e a ameaça da decadência. Ressalvadas as distâncias, são os mesmos temas que encontramos em Brideshead – com um maior distanciamento aqui relativamente às tradições.

Daí que Jean d’Ormesson dedique o seu livro a seu pai, apresentado como liberal, jansenista e republicano – atributos correspondentes a camadas diferenciadas da história e da vida. Malraux disse, aliás, um dia: «que livros valem a pena ser escritos, para além das Memórias?». E aqui sente-se isso exatamente. Sostène reporta-se à noite dos tempos, a Éléazar nascido no século XI.

Séculos e séculos de serviço «au plaisir de Dieu».

É o esteio da família, o ponto de encontro das diversas lembranças e recordações, a partir de um tempo em que a cultura dos campos domina, como um relógio regularíssimo. «Nasci num mundo que olhava para trás. O passado contava mais que o futuro. O meu avô era um velho bom muito direito que vivia da recordação. A sua mãe tinha dançado nas Tulherias com o duque de Nemours, com o príncipe de Joinville, com o duque de Aumale, e a minha avó em Compiègne com o príncipe imperial».

O tempo foi-se acelerando e as pessoas deixaram de ter tempo. O silêncio foi sendo ocupado pelo ruído, os ritmos tradicionais pela marcação forte dos compassos… E foi-se tomando consciência de que seria necessário restaurar as ardósias dos telhados, certos de que a alma das casas é afetada pela doença que leva à sua destruição física. É preciso preservá-la, ligando pedras vivas e pedras mortas, enquanto lugar de acolhimento e de ternura, de força e de consistência!

Falar de património, não é falar de castelos no ar, mas de amores e desamores, de vontades e caminhos – de pessoas!

Guilherme de Oliveira Martins.

domingo, 22 de março de 2015

porte-monnaie

Uma Senhora minha parente acabou namoro com um pretendente porque ele dizia 'porte-boné' em vez de 'porte-monnaie'.

Há cerca de oitenta anos, no Porto.

Ana Margarida De Carvalho.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue a jorrar nas próprias fontes.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 20 de março de 2015

Farewell Dearest John


I received, this morning, unexpected bad news that saddened me deeply. One of the daughters of my Chinese partner phoned me to say that he had passed away.

He started as my boss, in one of the largest Chinese companies in Hong Kong and Macao, where I lived and worked for more than 7 years.

He became a partner and a friend and our relationship has always been based on a solid friendship, mutual respect and complicity.

I admired in him his loyalty, joy and good humor, intelligence and wit and a special creativity to see further.

I was with him in China a few months ago and nothing would predict this sad outcome.

I'm really very sad and it's like a part of my past life that departs and that makes me more lonely.

May he rest in Peace and his family.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Silent Strong Dad = my Father


He never looks for praises
He's never one to boast
He just goes on quietly working
For those he loves the most
His dreams are seldom spoken
His wants are very few
And most of the time his worries
Will go unspoken too
He's there.... A firm foundation
Through all our storms of life
A sturdy hand to hold to
In times of stress and strife
A true friend we can turn to
When times are good or bad
One of our greatest blessings,
The man that we call Dad.


Karen K. Boyer


terça-feira, 17 de março de 2015

Fui hoje a mais uma das minhas aulas de Português na cadeia de alta segurança de Monsanto


Fui hoje a mais uma das minhas aulas de Português na cadeia de alta segurança de Monsanto, para presos estrangeiros. Aliás, faço-o duas vezes por semana, durante duas horas cada.

Dia chuvoso e cinzento, como se constata.

A sala de aulas é interior e fechada a sete chaves.

Gramática e respectivos exercícios. Bons progressos.

A cada frase – os livros actuais são apelativos e tornam menos difícil a compreensão da gramática – dá para conversarmos sobre o sentido de palavras e de situações.

São todos adultos ainda que novos excepto um, mais velho. Dedicam-se a aprender com afinco e eu sinto-me como se estivesse a estimular meninos pequeninos – a alegria de acertarem e o contentamento pelos meus elogios e ânimo.

Fiz um ditado, inventado no momento e apropriado à matéria dada, mas não resisti a introduzir umas frases sobre uma brincadeira de um deles, o que deu azo a gargalhadas gerais pele leveza que intento dar a estes momentos de convívio.

As pessoas que cá fora, são castigadoras e definitivas sobre o julgamento precipitado e cruel dos reclusos, nunca experimentaram o sentimento bom que se sente ao ver o que pequenos gestos de solidariedade podem aliviar a dor, a solidão de uma reclusão tão especial em que 90% do dia estão sozinhos nas celas.

Canso-me de apregoar o bem que me tem feito e o que seria vantajoso para quem se sente disponível e com vocação de dar paz e conceder o perdão, poder experimentar o contacto com reclusos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Diplôme: signe de science. Ne prouve rien.



Diplôme: signe de science. Ne prouve rien.

Flaubert

o leão e o rato

 
E para os que não conseguem ver vantagem em ser educados para com todos, mas apenas para os que lhe trazem benefícios, recordo a fábula “O leão e o rato” de La Fontaine, em que o leão não comeu o rato, que por sua vez veio a salvar a vida do leão. Não devemos ter a arrogância de subestimar os outros. Somos frequentemente ajudados pelos “mais pequenos”.
 
Il faut autant qu’on peut obliger tout le monde : on a souvent besoin d’un plus petit que soi.

daqui a 25 anos



Daqui a 25 anos

espero viver numa sociedade diferente, evoluída e refrescante, mudada pelas novas gerações, moderna e civilizada, em que as coisas funcionam e as pessoas são honestas e trabalhadoras, com o sentido de conjunto e de pátria que em tempos tivemos.
No entanto, mesmo que haja grandes mudanças, há coisas que nunca vão mudar, e assim vou sempre saber que estou em Portugal, assim como:
 . o famoso"pá" no final de qualquer frase sem sentido absolutamente nenhum;
 . a mania de marcar encontros "lá pás 10" o que significa mais perto das 11;
 . o "no meu tempo isto não era assim";
 . o "chico esperto no trânsito";
 . o café obrigatório assim que começa o horário de trabalho;
 . a bica a seguir ao almoço;
 . a ginja a seguir ao jantar;
 . o café com "cheirinho";
 . o nascer-do-sol sobre a marginal a caminho de Lisboa;
 . o pôr-do-sol do cabo da roca;
 . o fim de tarde do guincho;
 . o aterrar em Lisboa e sobrevoar a cidade a "rasar" os prédios;
 . assim que se aterra toda a gente bate palmas para agradecer ao piloto a gentileza de não nos ter morto;
 . o estacionar em cima do passeio para não pagar parquímetro;
 .os pasteis de Belém e os travesseiros da Piriquita;
 . o fado;
 . a lamúria e a saudade;
 . o relembrar a toda a gente que já fomos donos do mundo;
 . as férias no Algarve;
 . a praia assim que abre um raio de sol;
 . o surf, o pôr-do-sol, os bikinis, o bronzeado;
 . o azeite, o queijo, o chouriço, o vinho, a azeitona, o tremoço...
 . os mercados;
 . as tascas;
 . e o tricô.

Ryan Melo