domingo, 25 de janeiro de 2015

Alexis von Rosenberg, Baron de Redé

"I dislike fervour and enthusiasm. I do not like noise. Very often, I remain silent, for silence has it's own dignity. I listen for the nuances that stir behind the Babylon of general conversation. I relish comfort, style and luxury. I dislike men whose socks are so short that when they cross their legs, they expose flesh. I dislike men who do not wear white shirts in the evening. Many such things I dislike.
I do not mind being distanced from the world. You could say that I prefer it. I am protected from the outside world, and this will not change. My senses are acutely tuned to the objects d'art that I have collected and with which I live. My great pleasure is to see such objects in the great museums and the houses of other collectors."


Alexis von Rosenberg, Baron de Redé

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

seu porco

“SOBE”, grita o homem correndo para o elevador lotado, prestes a iniciar sua viagem rumo ao topo do prédio comercial de 20 andares. A essa hora da manhã, perder o elevador significa chegar atrasado ao trabalho, então ele corre mais rápido. Nenhuma das tantas pessoas já embarcadas faz qualquer esforço para ajudá-lo em sua empreitada. Ninguém segura a porta de aço, ninguém aperta o botão que retarda a partida da nave, ninguém sequer lhe dirige um olhar de solidariedade e torcida, “corre, pobre diabo, você vai conseguir, eu acredito em você”. Nada. Ninguém.
Agora é ele e somente ele contra o tempo e as próprias forças. O elevador começa a fechar as portas, o homem corre ainda mais veloz e os passageiros do lado de dentro o assistem indiferentes, imóveis. Ele já prevê a si mesmo sozinho, do lado de fora, maldito excluído, marginal fracassado, enquanto seus colegas desconhecidos seguem impolutos rumo ao topo. Ferido no orgulho, ele tenta uma vez mais. Não, ele não será abatido assim tão fácil. Não sem luta. E num último impulso ele estica o braço e alcança a porta do elevador com as pontas dos dedos, no instante exato em que suas duas metades se encontrariam. Ele conseguiu! Parabéns, bravo homem! Você é um feliz passageiro do cubículo de aço e lâmpadas e botões que ganhará as alturas.
Seus colegas de viagem não conseguem esconder a frustração de vê-lo ali, vitorioso, impávido, prova viva e inconteste de que o esforço ainda é capaz de superar a indiferença e a idiotia. Ele diz “bom dia”. Ninguém responde. Uma por uma, ele examina as caras dos cretinos cabisbaixos, macambúzios à sua frente. Repara suas expressões de pressa e autoimportância. Observa o jeito apático e previsível como transferem os olhos do chão para o teto, do teto para o chão.
Ele enxerga esses homens de terno e gravata insistindo em encontrar sinal no celular! Olha essa velha com expressão de bruxa má e rugas de quem apanhou da vida muito mais do que bateu. Olha essas moças de cabeleira escovada emanando perfume melado, o jeito cabreiro de presa e os gestos forçadamente defensivos de quem espera que todos ali estejam prestes a avançar sobre elas, rasgar suas roupinhas de grife compradas em vinte prestações no cartão e violar suas carcaças depiladas e acima do peso. Na ótica perversa e estrábica das donzelas, todos ali são tarados potenciais, inclusive a velha bruxa, esperando a hora de atacá-las. Coitadas, as moças mal sabem o quanto são tão pouco atraentes. Nem desconfiam de que para o mundo elas sequer existem.
Como também inexistem esses dois sujeitos fortões, apertados em suas camisetas de algodão, enamorados de si mesmos, paquerando seus próprios contornos no espelho ao fundo do elevador. Então ele repousa a vista sobre a grávida de ar amargurado, triste, sozinha, entrando decerto nos últimos dias de gestação. Ele espia de frente todas aquelas pessoas ali. Tão diferentes, tão iguais. Tão incapazes de mirá-lo de volta e dizer “oi” ou “bom dia” ou “tá olhando o quê?”. Nem um olhar sequer.
Resignado, ele desiste e respira fundo. Mas que cheiro é esse? Que cheio horrível é esse surgido no momento exato em que ele inspira o ar com toda a vontade? Sim, é isso. Não bastassem o combustível tão caro, o aluguel que subiu de novo, o chefe que o espera irascível, a violência urbana e a estupidez coletiva, alguém ali tivera o desplante de piorar o desastre. Alguém acaba de liberar seus gases intestinais em pleno elevador. Quem foi o porco?
Teria sido a velha bruxa? Sim, foi ela, frouxa, as pregas sucumbidas ao massacre de existir. Ou foi um dos fortões? Decerto, entupiram o organismo de esteroides e vitaminas de cavalo até ventarolar a névoa do inferno. Desgraçados. E os executivos cínicos? Claro! Só pode ter sido um deles! Escondidos na pretensa polidez de suas gravatas, saem por aí com ar superior exalando seus fedores por baixo. Perversos. Mas e as moças de escova? Sim! Ele pensa em como se deixou enganar por elas. Foram elas! Tão dissimuladas ao ponto de orvalhar gotículas invisíveis de estrume no ar enquanto encaram as próprias unhas decoradas com esmaltes de nomes excêntricos.
O fedor sobe, recende, piora. Espalha-se por todo o cubículo prateado como uma praga das trevas. Um bodum intenso, torpe, saído das tripas de um lagarto gigante em estado terminal. Uma das moças leva a mão ao rosto e fecha as narinas com os dedos. Mas que bela mula, ele pensa. Na minguada cabeça dessa estúpida não entra o óbvio: ao fechar o nariz, ela se põe a inspirar a nuvem intestinal pela boca.
Aos poucos o ar se torna pesado, a caatinga persiste, perdura. E finalmente as pessoas se olham, se percebem. Inquisitórios, os desconhecidos se encaram em silêncio de tumba, enquanto se dirigem olhares de acusação recíproca. Quem foi? Quem foi o sujo? O culpado precisa aparecer. Então, traída pela sensibilidade de sua própria situação, a grávida sucumbe ao clima opressivo e se entrega sem dizer palavra. Em seu rosto redondo de gestante, a fraqueza se faz evidente e a autoria do flato, inegável. Foi ela!
Mas esperem. A infeliz não tem culpa! A essa altura da gravidez, segurar os próprios gases é uma tortura. Se pudesse, ele gritaria tal argumento para todos ali. Mas não. Ele pondera, repensa e, finalmente, compadecido da situação de sua colega gestante, é tocado por uma revelação. De súbito, ele se vê em meio ao instante que vai determinar o rumo de sua existência, a chance que poucas vezes na vida se dá a um sujeito banal e sem graça como ele. A oportunidade que não se pode jogar fora.
E num sensacional gesto de grandeza, o homem se coloca na linha de tiro entre a indefesa mulher prenhe e os olhares acusatórios que a fuzilam impiedosos: “FUI EU!”.
A porta do elevador se abre, os passageiros fogem apressados, aliviados, para fora da câmara de gás. Todos de uma vez, como o estouro de uma boiada, escapam para longe do ambiente repulsivo. Todos para fora, menos ele. Ele permanece ali, no interior da máquina. Sozinho, parado, satisfeito por ter sido capaz de uma coisa grandiosa em sua vidinha ridícula de pagador de contas.
Do lado de fora, a mulher grávida olha para trás, segura a barriga, encara tímida o seu defensor e desabafa sincera: “SEU PORCO!”.

André J. Gomes

Once upon a time


NO is a complete sentence


Waterloo


piece of cake


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Syriza e a nova Grécia


Se há coisa inevitável é o decurso da História. Dificilmente se poderá influenciar o seu desfecho com a segurança de que algum poder possa até ao limite, concretizar com rigor um seu qualquer projecto.

Vem isto a propósito das eleições na Grécia: o que tiver que acontecer, se produzirá.

Nem o Syriza sabe tudo nem pode prever quais os efeitos concretos da sua eventual subida ao poder nem a União Europeia pode antecipar sanções e retaliações, sem que primeiro as águas passem por debaixo das pontes!

Vai levar tempo, causar desilusões a uns e a outros, surpresas de traições pela sede do poder, incompreensões e impossibilidades de cumprir modelos pré-concebidos, pela elementar razão de que a natureza humana é incontrolável por uma simples e pragmática consequência: o desejo poderoso e irresistível da liberdade.

O povo grego está faminto, exangue e sem qualquer esperança num futuro aceitável. Pode-se discutir se não estará a pagar por tudo quanto os diferentes governos, que como sempre sem muita reflexão, elegeram, fizeram para chegar a esta situação: é verdade!

No entanto a memória dos homens é curta e o institinto de salvação “move montanhas” e o Syriza propõe um plano de vida menos sobrecarregado, mais livre de grilhetas e promete uma luta sem tréguas com os credores para que, sem deixarem de honrar as suas obrigações, possam, no entanto, suavizar o jugo da austeridade. É compreensível e colhe o aplauso e a concordância de grande parte do eleitorado. Não há argumentos académicos que consigam contrariar um sentimento de desespero que se sente na pele: o frio, a fome, o desemprego e o desânimo.

Por isso, creio que na Grécia o Syriza vai ganhar “tout simplement” de uma forma irreversível e serão os credores e a União Europeia que se terão de adaptar às novas circunstâncias, como aliás acontece nos países e na vida de cada um.

Há uma miríade de teorias políticas e económicas a favor e contra as diversas partes, mas quando se assiste nas notícias à distribuição de duas refeições diárias, a milhares de pessoas, na praça principal de Atenas, não há disfarce possível. A mudança é imparável.

Deveria ser motivo de reflexão para a Europa e para os nossos governantes: afinal para que são eleitos? Para servir, verbo que tem vindo ao longo dos anos a ser esquecido por muitos políticos.

MNA

You can't change the past



Volto hoje de novo a este tema que vai sendo valorizado por mim a cada dia: o da liberdade.

Recomecei as minhas aulas de português na prisão e devo confessar que este mês de ausência de convívio bissemanal, já me fazia falta.

Fomos entretanto trocando cartas que servirão um dia mais tarde, talvez, para um livro e até sem ser sobre o estatuto do recluso, pois o conteúdo versou uma série de temas da vida, vistos por diferentes prismas.

Foi por isso, uma primeira aula de “reposição” ou seja mais eu a contar o que tinha feito na época natalícia e eles a falarem-me da rotina de celas individuais aonde passam 90% do dia, sem contacto com ninguém.

Começámos a aula e fui fazendo exercícios de gramática e passando a vez de uns para os outros na solução de frases e preenchimento de textos: o costume.

Sempre todos com interesse em aprenderem, esforçados e inteligentes. São todos estrangeiros e de diferentes e variados países, mas com um rendimento impecável. Há lá um que me apanha sempre 20 valores nas provas, formidável! Já conseguiu formar-se no IST com 19 valores e está a terminar o mestrado com a mesma classificação.

Num dos exercícios, fácil aliás, quando disse o nome de um para continuar, olhei para ele pois parecia-me desatento e reparei que estava a olhar para o infinito. 

Perguntei-lhe o que se passava e com um ar triste respondeu-me que estava a pensar na sua vida…

Eu sou por um lado um visitante do exterior que a cada semana, por duas vezes e durante 4 horas, traz ventos de liberdade…e por outro um certo amparo e consolo pois tento alegrá-los e ocupá-los.

Por isso este tema inesgotável da liberdade, pode, em sociedades ditas livres, ser menosprezado e até negligenciado. 

Avanço com um projecto de uma Academia que estou a montar com uma equipa esforçada e empreendedora com dois objectivos: formação para quem de fóra tenha vocação e generosidade para se entregar ao voluntariado prisional em todo o país e por outro, o treinamento e preparação dos reclusos para uma variada gama de profissões, que já desde a prisão, possam ir desempenhando com uma justa remuneração, para poderem continuar a exercê-la quando saírem em liberdade.

Trata-se de um trabalho ciclópico com Universidades, empresas e autoridades bem como tentando aproveitar fundos europeus e nacionais disponíveis.

Mas voltando ao cerne desta minha crónica: fiquei com o coração apertado quando percebi que a cabeça e o pensamento deste meu recluso estava fóra, sonhando com a família, talvez com a simples possibilidade de poder entrar numa loja, comprar um cd de música, um livro, ir beber um café com os amigos, trabalhar e poder voltar a casa no fim do dia. 

E fica sempre no ar a minha dificuldade em contraditar quem nunca visitou uma prisão, quando me contestam que alguma coisa de incorrecto terão feito para estar detidos.

E enquanto a sociedade civil não praticar e entender a extensão do conceito de perdão, de vontade em colaborar na reinserção e de criar condições para a não reincidência, vai gerando novos culpados e encarecendo ao Estado e aos contribuintes a sua eventual recuperação.

Claro que este é um tema plurifacetado e tem contornos que não são de ciência exacta: mas o princípio do conhecimento da realidade é um passo relevantíssimo.

A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.” (Mahatma Gandhi)

lies and actions


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

size matters

Decididamente hoje é o dia mais triste do ano. Porque o dizem os calendários do facebook, porque tal como o costume vai criando o direito consuetudinário, quer nos textos como nas fotografias que as pessoas publicam assim o tratam, e porque sim e coisa…

Se há lá razão especial para se estar triste num dia certo? A não ser que se tenha tido uma pena…perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha..

Fez uma grande obra o Azeredo Perdigão ao criar o museu Calouste Gulbenkian. Estava por lá uma exposição temporária em que se via o homo erectus, numa versão pobre porque de tamanho pequeno, refiro-me ao dito do homem…size matters, dizem as artistas de cinema bem como a Irina, pois consta que muito garanhão afamado, é como as iludências… que aparudem..

Acho o Cavaco o ideal para o estereótipo do homem triste, nunca se ri francamente, com um ar natural, às gargalhadas e aquela de que a sua mulher o tratava por “meu caro”, rapidamente emendado para “ é claro, ela não me trata assim..”. Bem, assim como assim, o Hollande ficou bem na fotografia com a Merkel a encostar a cabecinha no seu ombro e a perguntar-lhe com um ar terno se ainda tem a scooter..é de loucos, pois há quem no Júlio de Mattos, se ache Napoleão, o que agora com o frio que está, dá um jeitão ao se esconder a mão na jaqueta, pelo menos sempre se apanha menos resfriado..


Fui hoje ao Comando Metropolitano da PSP, e pensei que talvez tivesse achado graça de ser um “menino de Moscavide”, terra mai linda…passei pela loja dos tecidos, com carpélios maravilhosos..deixam a milhas os do Senhor Roubado, que são muito mais ásperos para pôr nas traseiras do carro, coladinhos ao vidro a dizer que sim com a cabeça…tenho já visto tigres e leões como os da MetroGold, só que não rugem…


A propósito de rugir, vai por aí um protesto contra novos cortes e aumentos de impostos: temo que um dia ao chegarem ao Parlamento ainda haja algum dos leões de pedra que comam de qualquer um deputado, as partes baixas, como vingança…


Size matters, don’t forget!


In "Divagações Várias" de Vicente Mais ou Menos de Souza

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Mmmm tu vois ? Ou pas .... ?


Fui ontem a Évora ao estabelecimento prisional


Fui ontem a Évora ao estabelecimento prisional.

Porém não encontrei o eng. Sócrates, apesar de a prisão ser muito pequena e horrível, como são todas.

Os jornalistas também não me ligaram bóia.

Ora ainda bem, nada como não se ter exposição desnecessária. Já bem basta quando, por alguma causa, temos que dar a cara em público.

O trabalho laborioso e profícuo faz-se no silêncio e longe das vaidades do poder.

“Revenons sur nos moutons”: fui convidado pela voluntária local da CV para fazer um workshop para os reclusos da prisão de Évora sobre dois temas: como criar, manter e actualizar um blogue – abordando os aspectos literários, de ocupação de tempo e de dinamismo. O segundo tema foi sobre a minha experiência como voluntário e Professor na prisão de Alta Segurança de Monsanto.

Estava uma casão…ahahaah…e a sala era pequena. Correu muito bem, foi muito participada e deixaram-se sementes para um concurso literário intramuros, trocas de ideias para programas de formação profissional com vista a empregos futuros, um diálogo aberto e franco sobre tantas coisas que tornam o contacto entre quem está dentro e fora, uma oportunidade para sair da rotina.

Os reclusos são todos do fóro militar e das forças de segurança e por isso foi uma outra experiência na senda de um trabalho mais estruturado que estou a preparar em equipe e de que vos darei, atempadamente, conhecimento.

Não é excitante, though, to be inside a prison. Be aware of that!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Divagações junto ao Tejo


Hoje fugi de casa. Estava sozinho, todos tinham partido.
Amanhecera mais um dia esplendoroso, daqueles de céu azul sem uma nuvem.
Banalidade, pode parecer, mas lindo. Adoro. Corre-me logo melhor a manhã.
Eram prá aí sete e picos, oito e coisa nove e tal…no baile da dona Ester
Musiquinha do meu tempo de muito sucesso.
Não, fugi mais tarde! Já o sol se levantara.
O meu destino preferido: o rio. O Tejo da minha cidade.
Esplendoroso. Cheio de barcos à vela.
Quem quer ver a barca bela que se vai deitar ao mar, Nossa Senhora vai nela e os anjos vão a remar”…e continuava, dando uma "promoção de general" a Jesus Cristo…é perguntar ao Papa Francisco
Não poderia estar-se mais borrifando para os postos do exército, ou de qualquer outra arma.
Parei o carro, como costumo, junto ao passeio grande como se fora a Croisette, em Nice.
Saí e de olhos e narinas bem abertas, respirei o ar puro e abarquei o meu mundo com deleite.
Gente passeava-se para trás e para a frente. Vi a dona Cremilde e o esposo gordo,
Merceeiro reformado. Os dois muito achacados. O médico dissera ou cura em termas,
Ou passeio junto ao rio. Não estavam muito abonados, optaram por Lisboa em vez de Vichy.
Isso eram os meus Avós e Bisavós: um mês em Karlsbad e outro em Vichy.
Toda a fina sociedade e a não fina. Havia sempre uma Madame de grandes peitos
Que merecia uma copiosa referência do meu Bisavô a um menino como eu de 6 anos.
Fazia-me espécie o riso entre os dentes meio chocarreiro, de luxúria de velho.
Mas eu perguntava-me porque seria mal ter umas mamas grandes
Mais espaço havia para encostar a cabeça e catar cafuné, como a Nêga Fulô. Essa Nêga Fulô!
Estremeço ao ouvir este poema imemorial de Jorge de Lima, recitado pelo Villaret.
É de rebentar de gozo por dentro, ele rebola-se nas palavras e nas toadas de um poema único.
O meu querido Brasil que já não revejo há um ano. A Dilma, lixou todos os meus planos.
Era o segundo grito do Ipiranga. Qual Machetes nem qual carapuça. Coelhos e Portas ficariam cheios de Saudades de mim por NÃO me verem no burgo, mas o café e o açúcar de um Engenho imaginário que Teria, propiciar-me-iam visitas à Metrópole, amiúde. Chegou hoje a Lisboa no paquete Baía de Guanabara, o distinto compatriota, gente do nosso melhor high-life…Sua Senhoria ficará Hospedado Numa suite do Hotel Majestic….
De encontro a mim apressa-se em corrida e vestido com um fato-de-treino comprado nos USA, o Ministro Souza Lima que me acena e diz: - lá o espero logo para o salmão e um bom Champagne. Faço Um sorriso amarelo, que nanja de comer e beber de corrupções. Não vá ir parar a Évora e fica-me mal  ao meu pé o nº 45 ou 46. Tipo falua ou galochas que desfeiam o andar com um tamanho desmedido!
Na cidade do Templo de Diana, para além do Cromeleque dos Almendres, só me lembro do Fialho. Comiam-se uns cromeleques deliciosos e no fim uma sobremesa de almendre e ovos divinal. Dei por mim Junto ao rio, com fome depois destas divagações. Vejo um pescador, todo risonho, sacar do mar uma Taínha. Que festa houve no Céu! ahahaah....tal como por entrar um rico pois parece que é mais difícil que um camelo passar pelo buraco de uma agulha.
Leio sempre no regresso do rio, com gáudio et spes - bela encíclica de Paulo VI – esta frase lapidar prantada nuns graffiti, premonitória dos casos BPN e BPP e de outros que hão de vir: 
"Soldados, marinheiros, operários e trabalhadores, SEMPRE, SEMPRE ao lado do Povo! Irritante aquela Duplicação do sempre, I wonder why?
Quando vêm ao Parlamento prestar declarações, ou em actos sociais ou de doutoramentos Honoris causa, Sempre que por ali passam, estremecem com a possibilidade de não saírem da prisão.

In “Divagações habituais junto ao rio Tejo” de Vicente Mais ou Menos de Souza

A minha velha por António Lobo Antunes


A minha velha tinha sido bailarina de segunda fila, em nova, num teatro de variedades, e as plumas que ela usava na cabeça ainda estão lá em casa numa jarra, um bocado enegrecidas pelo tempo, já não cor de rosa, cinzentas a atirar para o escuro, depenadas, a cheirarem a mofo, testemunhando
- O sucesso que eu tinha
uma glória artística não especialmente brilhante mas digna
(mesmo a segunda fila não é para todos)
e uma genuína vocação para a dança de que ainda hoje me orgulho. Nunca casou por, na sua opinião e na opinião das pessoas mais informadas, a dança não ser compatível com o matrimónio. Em todo o caso teve-me, de um senhor que não conheci, um admirador com dinheiro, mais idoso que o pai dela, que lhe comprou este apartamentozito e o mobilou com gosto, espelho de moldura de talha, cadeiras prateadas, uma imagem de São Sebastião à cabeceira, cheio de setas de lata pelo corpo todo e um pano a tapar as vergonhas, destinado a lembrar à minha mãe o respeito pela santidade e, implicitamente, o que lhe poderia acontecer no caso do seu comportamento se desviar um milímetro dos estreitos limites da virtude. Aliás havia uma outra seta de pau, encostada ao cortinado, que o senhor devia utilizar
(a minha mãe para mim
- Como dizia o teu pai é preciso pôr ordem nesta desordem)
a fim de corrigir atitudes menos consentâneas
(a minha mãe muito gostava ele da palavra consentânea)
da parte da artista, tais como encontrar um electricista do teatro a fazer-lhe companhia quando ele chegava sem aviso. O senhor com dinheiro faleceu aqui em casa, parece que com mais de oitenta anos, na sequência da frase
E se a gente repetisse só mais uma vez
que a minha mãe sempre me aconselhou a não pronunciar a partir dos setenta e sete. Oxalá me lembre disso quando chegar esse número. Pouco depois da sua morte a minha mãe largou o bailado, segundo ela porque queria sossego, segundo o dono do teatro porque já mal erguia o tornozelo
( Precisas de umas muletas, tu)
e instalou-se definitivamente no sofá da sala, a fumar por uma boquilha interminável e a receber a visita das antigas colegas que a acompanhavam num chazinho, a conversarem de mestres de obras defuntos e outros beneméritos, de mistura com aprendizes de electricista adolescentes que lhes exigiam dinheiro em troca de favores misteriosos resumidos na frase
- Nem descansava, aquele
acerca de cujo significado não me atrevo a exprimir-me por respeito filial, além de uma possibilidade de engano da minha parte, remota, é certo, remotíssima, pronto, mas quem pode afirmar seja o que for com absoluta certeza apesar da minha velha me piscar um olho subitamente jovem, no qual cintilavam alegrias remotas.
Normalmente visitava-a aos domingos, ao fim da tarde, depois da sua sesta, quando ela já na poltrona, com o gato ao colo, enfiada num roupão cheio de transparências e rosas de tule, a fumar a boquilha interminável
- Beija-me ao de leve por causa da maquilhagem
normalmente à espera de um amigo. Tinha-os de duas espécies: cavalheiros trémulos, que se deslocavam como os andores das procissões, todos delicadezas e prendas, para além de um envelope deixado por acaso na mesa da entrada, e sujeitos de tatuagem no braço, que trabalhavam de estivadores, e à saída emagreciam o envelope
- Dás licença não dás?
sem me ligarem peva ou deixando cair
- Esse caramelo é o teu filho?
no profundo desprezo que aqueles que pesam noventa quilos dedicam aos magrizelas de sessenta. Só com nós dois em casa a minha velha ordenava
- Senta-te aqui ao pé de mim
e, vista de perto, notava-lhe as rugas sob a pintura, as perninhas magras, a memória que ia faltando, o cabecear de sono do qual despertava de repente
- Não penses que adormeci
num bocejo a que faltavam dentes e sobrava cuspo nos ângulos da boca.
Nessas alturas apetecia-me pegar-lhe na garrazita de pássaro da mão, chamar-lhe
- Mãe
abraçá-la, mas permanecia quieto antes que um
- Deixa-te de mariquices
me pregasse ao tamborete onde me sentava. Era então que as suas feições começavam a alterar-se pouco a pouco, tirava um lenço da manga para secar o nariz esclarecendo
- Não são lágrimas isto
às vezes beliscava-me o queixo e, uma ocasião ou duas, chegou a tratar-me por
- Filho
num murmúrio inseguro que corrigia de imediato
- Às vezes fico parva, não ligues
sem me perguntar fosse o que fosse, sem conversar comigo, desatenta de mim e, no entanto, numa espécie de sobressalto se por acaso eu me movia
- Não te vais embora já, pois não?
perdida numa espécie de angústia que o lenço da manga não conseguia apagar. Proibia-me de acender as luzes que dão sempre uma imagem horrível de nós, cavando-nos o rosto, murmurava baixinho
- Pensando melhor segura-me na mão
e ficávamos assim , a minha velha e eu, a olharmos, pela janela, as árvores escuras da rua e as primeiras lâmpadas dos prédios, onde os vizinhos começavam a jantar. Pedia então
(pedir, sim)
- Segura-me com muita força
e às vezes, palavra, encostava a cabeça
- Quero lá saber do penteado
ao meu ombro, até se afastar, de súbito, num movimento de orgulho de bailarina de segunda fila, de meias remendadas que não se viam bem e plumas decrépitas na cabeça. Ordenava-me então
- Vai-te embora
num gesto de princesa, sem olhar para mim à medida que me afastava. Já com a mão na maçaneta escutava-a gritar
- Rapaz
e, quando eu no limiar da sala, perguntava, numa voz de menina onde vibravam desgostos e medos
- Fui uma grande artista, sabias?

sábado, 10 de janeiro de 2015

É urgente o amor, é urgente permanecer.


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugenio de Andrade

Depuis six mille ans la guerre ...


Depuis six mille ans la guerre
Plait aux peuples querelleurs,
Et Dieu perd son temps à faire
Les étoiles et les fleurs.

V. Hugo

Vem isto a propósito de me sentir esta noite particularmente....


Hoje apetece-me partilhar convosco uma reflexão sobre um tema de que todos, somos especialistas: o do sofrimento.

Uns mais do que outros, com maior ou menor frequência, às vezes até em permanência, enfim há de tudo.

As situações também são diversas: doenças, torturas, perseguições, distância, sofrimento moral e intelectual, abandono, isolamento, remorso.

Nem todo o sofrimento é reparador, na minha opinião, ou pelo menos para o próprio. Tomemos um exemplo: se me torturam, não sendo eu masoquista, não tenho nenhuma vantagem em que o façam.

A única forma que entrevejo como verdadeiramente a única compensadora do sofrimento é quando o mesmo serve para nos esquecermos da dor que nos causa e projetarmos nos outros algum consolo e ajuda.

Neste caso, há uma doação que funciona sempre em benefício mútuo.

Vem isto a propósito de me sentir hoje particularmente triste e preocupado com alguém e depois de ter sentido na pele o sofrimento, ter decido escrever uma carta a um dos meus reclusos.

Lembrei-me que no meio da minha noite que previa ser dolorosa, talvez o prazer de ir ao encontro de alguém que sozinho e no frio de uma cela - sim, porque não têm aquecimento - pudesse, numa manhã seguinte, receber algum conforto de companhia e de ânimo.

E assim fiz e não fui sobrecarregá-lo na minha escrita com as minhas penas, mas manifestar-lhe que lhe tinha dado um lugar especial de primazia na lista das pessoas de quem de imediato me lembrei para repartir um ombro amigo, ainda que neste caso, teórico.

E fiquei mais tranquilo!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Se te incomodo, compreendo.

Se te incomodo, compreendo.
Se nao tenho ja importância para ti, compreendo.
Se nao tens tempo para mim, entendo.
Se me ignoras, entendo.
Se te afastas, entendo.
Se tens medo, entendo.
Mas quando me perderes é a tua vez de entenderes.


Ana e outros

sábado, 3 de janeiro de 2015

Extractos do diálogo entre Tutor e pupilo in “Reviver os Clássicos”


Tantas vezes te tenho dito que a vida é um sopro e tu no fundo não acreditas! Não acreditas até ao momento em que vês que tudo é tão frágil, que se pode quebrar de um momento para o outro!

Agarras-me a mão e perguntas-me: o que fazer?

Tantas vezes te tenho dito que o remédio é amar os outros perdidamente, os próximos e os desconhecidos que ou se cruzam na tua vida ou tu buscas com desassossego.

Mas nem sempre os vejo, dizes-me arrependido do tempo perdido. Como saber a quem amar?

É fácil: aos que mais sofrem, aos abandonados à sua sorte, aos que te fazem esquecer de ti próprio e com isso mais te dedicares a eles e às suas dores e misérias.

E agora? Como posso fazer para ganhar tempo de vida? Posso ainda trocá-la por dias de amor aos outros?

Acho que podes, sobretudo, usar com alegria o tempo que te resta se estiveres permanentemente a pensar menos em ti do que em quem te encontre disponível, atento, sereno e tão agradecido pela tua entrega.

Mas como poderei ter forças, se for morrendo aos poucos?

Nem darás por isso, será suave o teu jugo e leve a tua morte como diz o salmo. Pensa na ideia de seres transportado no teu dia por uma corte de anjos que entoarão cantos de alegria por te levarem para o Céu.

E com os meus a quem tanto amo? Vou sentir a falta!

Esta será a prova da tua afeição para com eles, ao amares os mais necessitados e ao partires, serão mais eles que sentirão a tua falta. Deixarás um rasto luminoso de uma memória de exemplo, e essa será a tua glória.

Extractos do diálogo entre Tutor e pupilo in “Reviver os Clássicos” de Vicente Mais ou Menos de Souza