sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eusébio e o Panteão

Vai-se confundindo tudo hoje em dia. Os nossos governantes, com honrosas mas poucas excepções, não sabem NADA da História passada de Portugal, dos seus heróis, dos seus valores, das suas fraquezas com que se aprende a não voltar a cair e sobretudo não têm esta ligação visceral à ideia de patriotismo no sentido de serviço ao País e ao povo que representam, com todas as suas forças e se preciso com a vida.

Vão destruindo tudo, a eito, sem sequer pararem para pensar e porque não até tentarem interpretar o que será melhor para a imagem de Portugal e não para os seus interesses pessoais ou partidários.

Gente comezinha, sem ilustração, não lêm poesia, nem os autores de sempre nacionais e estrangeiros, têm a cultura das telenovelas e dos filmes de guerra e de violência, não sabem apreciar o belo, o sublime, uma flor, uma cor, umas gentes sãs e simples que sempre estiveram lá.

Sabem, isso sim, fazer promessas vãs e não cumprirem: TODOS sem excepção. Uma cáfila não recomendável de gente que não queremos NUNCA nas nossas casas. Os Relvas, os Sócrates, nem vou perder tempo em enumerá-los pois vão da esquerda, ao centro e à direita.

Gentuza, como dizem os espanhóis que fazem negociatas...expressão que não existe em outra língua, vendem o País a retalho a estrangeiros mal-afamados.

A cultura portuguesa de séculos e a tradição sem cor política ou partidária, a valorização de princípios arreigados e enraízados na nossa terra, de honorabilidade, de bonomia, de humildade e galhardia ao mesmo tempo, o sol, o mar, as terras, a variedade de gentes e de paisagens tudo o que vale realmente em Portugal, está completamente baralhado, abandonado, empobrecido e não exaltado.

A juventude que parte em vez de ficar e lutar por um Portugal melhor é a vítima de miscambilhas e de compadrios transversais a todas as forças políticas.

Tudo isto para comentar a ida do Eusébio para o Panteão. Foi alarvemente com um sorriso imbecil aprovado por todos os partidos.

Eu, apesar de ser Sportinguista, gostava do Eusébio e não tenho nada contra em que ele se vá juntar a outros erros de casting que já lá estão.

Haveria de ser pensado um outro local digno e apropriado para uma Amália e um Eusébio e outros como eles já mortos ou a virem a ser celebrados.

Mas o Panteão em todos os países iluminados, civilizados, Senhores meus, não tem lá futebolistas nem cantadeiras de fado, ou o equivalente em cada uma dessas GRANDES capitais!

Muitos te julgam, poucos te conhecem.


Muitos te julgam, poucos te conhecem.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O BES e o GES revisitados


Volto hoje ao assunto depois de uns meses de silêncio.

Havendo todos os dias motivos para preocupações de vária natureza, tanto nacionais como internacionais, dá ideia que a memória dos homens é curta, mais uma vez.

É bem verdade que o tempo vai apagando a consciência da verdade e da realidade.

Tratou-se de uma enorme patifaria, abuso de confiança, intoleràvel comportamento de uns quantos que pertencem a uma Família respeitada e com largas tradições de seriedade, que a continua a ser.

Não vejo como possa ser tolerante e não criticar essas pessoas agora incriminadas, que conheço, em cujo Grupo trabalhei e que me fizeram acreditar nas suas capacidades de competência e honestidade.

Lamento profundamente, mas não encontro justificação.

Por outro lado, o Banco de Portugal e uma série de outras camarilhas abandalharam ainda mais este escândalo, tomando decisões precipitadas, quiçá ilegais, defendendo interesses altamente suspeitos e nada visíveis ou compreensíveis.

Tudo isto, ao arrepio dos interesses dos prejudicados e são muitos milhares individualmente, sem falar no impacto nas famílias e nas empresas.

A Comissão Parlamentar de Inquérito tem feito um trabalho sistematizado e isento e alguns dos seus membros demonstram competência e um "trabalho de casa" bem feito e preparado.

Só que o polvo tem tentáculos gigantescos, ocultos e desconhecidos desta gente que não tendo nunca privado com o "mais fino" vêm o mal pela rama, e nunca serão capazes de penetrar na teia de interesses que é maquiavélica, o que por definição significa a luta pelo poder a qualquer preço.

Tudo quanto digo, é conhecido e não estou a descobrir a pólvora. Só que, para quem se sentiu esbulhado e com largos prejuízos no seu património e poupanças, as minhas considerações são um remexer na ferida, pois fica-se a remoer a vingança.

Não sei qual, mas deve haver alguma coisa para se fazer para além dos "papéis" em tribunal....ele deve haver muitos biliões de euros por aí...

Our endeavours


I take normally a few minutes every night to try to briefly analyse my day.

It serves to plan for the following day, to assess the virtues and mistakes committed, to look a bit around me, to thank God to be alive.

The world is in a growing turmoil and a lot of uncertainties are ahead of us: difficult times, wars, killings, violence, starving and economic crisis in every country.

One has to be very prudent and careful in choosing every single step of each day!

We have to use our best judgement and efforts to pass these ideas to those who decide.

This is a unique opportunity...we might be in the brink of a new world conflict, so let us be humble and generous and get only the necessary, avoiding to compromise the success by being greedy.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A negra sorriu


A negra sorriu:
- Tá vendo?
- Tou. A gente liberta o negro.
A negra ia apanhando o tabuleiro. Henrique ajudou-a a botar as latas vazias em cima. Ela perguntou:
- Você sabe qual é a coisa mais melhor do mundo?
- Qual é, minha tia?
- Adivinhe.
- Mulher...
- Não.
- Cachaça...
- Não.
- Feijoada...
- Não sabe o que é? É cavalo. Se não fosse cavalo, branco montava em negro...

Jorge Amado

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...

Álvaro de Campos, in "Poemas"

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Conversa entre gatos


Gata: Hoje gostava de conversar um pouco contigo de como escolhermos um humano. Achas que precisamos dos humanos?

Gato: Então hoje estás decidida em ir em busca de um humano! Ao fazê-lo, juntas-te a milhares de outros gatos e gatas que escolheram essas estranhas e frustrantes criaturas. Haverá inúmeras vezes no decurso da tua “associação” com humanos, em que te perguntarás porque te deste ao luxo de os bafejar com a tua graciosa presença.
O que lhes vês assim de muito fantástico? Porque não andas com outros gatos? Os nossos grandes filósofos nunca souberam responder a esta pergunta, mas a resposta é, no entanto, muito simples:

ELES TÊM DEDOS POLEGARES OPOSTOS

que se tornam nas ferramentas perfeitas para tarefas tais como abrir portas, tampas de latas de comida de gato, aparelhos de televisão e outras actividades que nós, apesar de outras vantagens óbvias, achamos difícil de fazer. Chimpanzés e orangotangos também têm dedos polegares opostos, mas não têm com quem treinar, pois andam na selva.

Gata: Diz-me então como atrair a atenção dos humanos?

Gato: Os humanos acham, na sua maioria, que há outras actividades mais importantes do que satisfazerem as suas necessidades imediatas, nomeadamente fazerem negócios, passarem tempo com a família ou mesmo dormirem.

Embora o que te sugiro seja bastante atrevido, podes fazê-lo sempre em tua vantagem, importunando o humano no momento em que esteja mais ocupado. Normalmente ficará tão exasperado que fará tudo que quiseres, desde que saias de cima dele. Não é em vão que esta é uma técnica usada pelos adolescentes humanos!

Toma bem nota destes truques que, sendo de sempre, resultam:

- deitares-te em cima da folha aonde o humano está a escrever: um clássico, mas resulta! Se um humano tiver um papel em frente dele, há boas hipóteses de que o considere mais importante que tu. Tentará subornar-te com um “petisco” para te atrair para fora. Esta manha também funciona bem com teclados de computador, controles remotos, chaves de carro e com crianças pequenas.

- acordares o teu humano a horas estranhas: o tempo mágico de um gato é entre as 3h30m e as 4h30m da manhã. Se te roçares contra a cara do teu humano caso esteja a dormir voltado para cima, acordará estremunhado no meio de uma neblina incoerente e fará exactamente o que quiseres. Poderás ter que arranhar os dorminhocos mais profundos para lhes chamar a atenção mas não te esqueças de variar o sítio dos arranhões para evitar que ache suspeito.

Gata: Mas estás com ciúmes dos humanos?

Gato: Não, estou a ser realista! Agora vou ensinar-te como por os humanos de castigo.

Às vezes, apesar das tuas melhores técnicas, o teu humano resiste teimosamente aos teus desejos. Nestes casos extremos, terás que o punir. Castigos óbvios são os de arranhares os móveis ou comeres as plantas de estimação, mas têm más consequências: os humanos olharão para estes actos com fúria e tentarão pôr-te na ordem. Por isso, sugiro-te estas duas alternativas não menos eficazes, mas mais subtis:

- irrompe pela casa de jantar com a lata da tua comida, num jantar de cerimónia;

- mantém-te impassível olhando fixamente para o teu humano quando te queira tentar com carícias e festas;

O mundo dos gatos está dividido quanto à etiqueta mais adequada para presentear os humanos com animais desventrados. Alguns de nós cremos que preferem estes presentes já mortos, enquanto outros insistem que os humanos apreciam um grilo moribundo, pela forma saltitante e ruidosa como pegam as criaturas depois de os presentearmos!

Depois de muita reflexão sobre a natureza humana, recomendo-te o seguinte: os grandes insectos, rãs e sapos, víboras e vermes devem ser presenteados mortos enquanto que os pássaros, ratazanas e outros roedores devem ser-lhes oferecidos ainda com vida.

Quando olhares para as expressões da cara dos humanos, terás a certeza se valeu a pena.

Gata: Estás a tentar que eu me afaste deles…mas quanto tempo devemos manter o nosso humano?

Gato: Deves ter um compromisso de o manteres só numa das tuas vidas. As outras oito dependem de ti, fazes o que te apetecer. Recomendo-te um misto, ainda que a maior parte dos humanos são todos muito do mesmo!

Mas de que estás à espera?

Afinal são humanos!

MNA

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Lisboa está em constante inovação.

Lisboa está em constante inovação.

Todos os dias há uma nova exposição, um novo restaurante, um novo bar, ou uma nova loja.

Em cada canto da cidade um novo conceito floresce com uma decoração nunca antes vista. Lisboa está cada vez mais focada no design e na modernização. Os restaurantes são um exemplo. Cada vez mais experimentalista, original e criativa, a gastronomia ainda é fiel aos sabores dos ingredientes da mais alta qualidade. Estes espaços são mais do que interessantes, são irrepetíveis.

E o que faz com que um restaurante seja trendy?

É um conjunto de vários factores: a decoração, a cozinha, as pessoas que os representam e as que os frequentam.

São trendy porque nunca nos sentimos igual noutro restaurante, e no fim do jantar não nos apetece levantar da mesa. Acima de tudo porque o espaço é moderno e original e a cozinha satisfaz os paladares contemporâneos.

Mas também, porque é um sitio onde vamos para ver quem está, e gostamos de ser lá vistos.

Apresentamos hoje aqui um prato de um dos restaurantes mais trendy de Lisboa: sereia à lagareiro!

Tenho uma data de amigos(as), familiares e concidadãos completamente radicais e intolerantes!

Tenho uma data de amigos(as), familiares e concidadãos completamente radicais e intolerantes!

Hoje apeteceu-me reflectir no que é para mim a tolerância.

A tolerância é a capacidade de saber aceitar a diferença. Não confundir com a divergência.

Intolerância é não suportar a pluralidade de opiniões e de posições, crenças e ideias, como se a verdade fosse um exclusivo de alguém.

Um pregador manchu reuniu milhares de chineses para lhes pregar a verdade. No final da pregação, em vez de aplausos houve um grande silêncio.

De repente uma voz ouviu-se ao fundo: "O que acabou de dizer não é a verdade". O pregador indignou-se: "Como se atreve a dizer que não é a verdade? "

O interlocutor respondeu: "Existem três verdades. A sua, a minha e a verdade verdadeira. Nós os dois, em conjunto, devemos procurar a verdade verdadeira".

Só os intolerantes se julgam donos da verdade. Todos os intolerantes são inseguros. Por isso, agarram-se aos seus caprichos, "certezas", ideias pré-concebidas, como um náufrago se segura à tábua que o mantém à tona da água.

Não são capazes de ver o outro como outro. A seus olhos, o outro é um concorrente, um inimigo ou um mero discípulo que deve acatar docilmente as suas opiniões.

Quem é tolerante evita “colonizar” a consciência alheia. Admite que, da verdade, ele apreende apenas alguns fragmentos, e que ela só pode ser alcançada por um esforço comum.

Ser tolerante não significa ser-se estulto. Tolerância não é sinónimo de tolice.

O tolerante não causa tempestades em copos de água, nem gasta saliva com quem não vale, sequer, uma cuspidela.

No entanto nunca cede quando se trata de defender a justiça, a dignidade e a honra, bem como o direito de cada um de ter os seus princípios e actuar de acordo com a sua consciência, desde que não resulte em opressão ou exclusão, humilhação ou morte.

Só o amor torna um coração verdadeiramente tolerante.

Porque quem ama não contabiliza as acções nem as reacções do ser amado e faz da sua vida, um gesto de doação.

Tenho razão de sentir saudades

Tenho razão de sentir saudades,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo, sem consulta, sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo as nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudades de ti,
da nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A história do menino mudo


Era uma vez um menino mudo que gostava de falar.
Desde pequeno que emitia uns sons, mais do tipo grunhidos.
Fazia caretas ou um ar feliz conforme o que queria dizer.
Ninguém fazia caso do que ele queria exprimir.

Um dia cresceu e manteve-se mudo.
Foi continuando a fazer as suas momices.
Até que uma vez, começou a escrever
O que queria dizer.

Com grande espanto, se leram
Nobres pensamentos, frases maravilhosas
E todos ficaram surpreendidos
Com quantidade de escrita que produzia.

Continuaram a não ligar
Rigorosamente nada, ao conteúdo do que escrevia.
E se alguma gente apreciava o que lia
Tinham, porém, a sua vida que em frente seguia.

E o menino/homem mudo
Cada vez dizia coisas mais importantes
Como: preciso de ajuda, estou sozinho!
E quem isto lia, dizia-lhe: segue o teu caminho!

E um dia o menino mudo
Que tinha um par de pistolas herdadas, num cofre
Foi encontrado morto no chão, sangrando
Com um tiro no céu-da-boca.

No enterro, toda a gente dizia
Havia alternativas, tantas
Bastava ter, connosco falado!
Mas o menino/homem mudo fartou-se de falar/escrever.

In " Prosas bárbaras" de Vicente Mais ou Menos de Souza



Ando preocupado com o Euro....

Ando preocupado com o euro…tenho ainda muitos escudos antigos, com que forrei paredes dos meus velhos palácios…salas e salinhas, dependendo dos montantes, claro.

É que já tenho uns largos milhões de notas de Euro que creio, não juro, não colam a este papel de parede de escudos…

Eventualmente, comprarei mais palácios que deverão estar à venda por poucos Euros.

O dilema de ter dinheiro…mas o errado.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

os meus leitores

Eu acho que os leitores das minhas prosas ou versos, nunca interpretarão o seu conteúdo da mesma maneira como eu as escrevi ou senti. E têm razão, pois o tempo, o espaço, as minhas motivações, os meus humores são indecifráveis, sobretudo quando o percurso temporal entre a escrita, o envio e a publicação leva uns quantos dias!

Abrem-se assim duas opções (i) escrever o que me apetece, dentro de limites razoáveis (ii) antecipar as possíveis críticas, de agrado ou de censura e moldar a minha escrita a um destinatário/a politicamente correcto mas sempre imprevisível.

Vivi alguns anos fora de Portugal em paragens longínquas em que as saudades apertavam, o cheiro das ruas e a tranquilidade da paisagem me faltavam, e os familiares e os amigos eram visitados só esporadicamente. Desatei a escrever e o resultado foram umas largas centenas de cartas, as quais foram honradamente reciprocadas. E juro que não eram repetidas a papel químico e cada uma era escrita com emoção e intensidade.

Escrevia-as à noite, na tranquilidade do silêncio, normalmente acompanhado por música.

Tenho para mim, ao contrário do correntemente aceite, que a noite não é tão boa conselheira assim, pois exarceba os sentimentos. De manhã, relia-as e muitas vezes deitava-as fora ou rescrevia-as, pois imaginava o carteiro em Portugal, numa “triste, cinzenta e leda” manhã, deitar na caixa do correio do destinatário/a uma missiva desenquadrada, causando-lhe a maior perplexidade!

Como escrevo da forma que realmente sinto e me sai, tratando-se de um prazer livre e independente de grilhetas, o mais que pode acontecer é ir ficando a escrever para mim próprio!

No dia em que morrer, se alguém vasculhar os meus pertences, encontrará o que fui escrevendo, e logo dirá : “louco, insano, destemido!”

Mas não é tão mais importante um grão de loucura do que ir direito para o Olimpo, sem mácula de ódios ou invejas!

MNA

Todas as famílias felizes são mais ou menos diferentes


Todas as famílias felizes são mais ou menos diferentes; todas as famílias desgraçadas são mais ou menos iguais.

Vladimir Nabokov

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O cientista Mark Kelly da estação espacial na estratosfera garante que viu anjos no espaço


O cientista Mark Kelly da estação espacial na estratosfera garante que viu anjos no espaço enquanto trabalhava do lado de fora na manutenção de um satélite da NASA.

"Foi nítido e claro, eles passaram perto de mim a 50 metros, fiquei apavorado, pensei que estava a ter alucinações, eles iam em direcção da terra".

 Já recebi um cá em casa, pois não sabem que têm que pagar nas pensões e sempre se fica com conhecimentos no céu...e cunhas haverá sempre em toda a parte...

sábado, 31 de janeiro de 2015

Há quem tenha sorte na vida e quem não a tenha.


Há quem tenha sorte na vida e quem não a tenha.

Eu tenho, graças a Deus e a muitos factores que a tornam variada, com altos e baixos, luzes e sombras, com gente boa e má, pontuada de actos irreflectidos causadores de consequências negativas como de acções generosas e espontâneas geradoras de satisfações nos outros.

Nem sempre se constata em profundidade como os "terceiros", englobando família directa, parentes, amigos e até desconhecidos nos podem influenciar e fazer sentir enormes sensações de prazer.

O gozo interior é nosso e só nós o sentimos e o conseguimos apreciar: pode este ser muito mais duradouro do que um simples clímax sexual, que é como dizia o poeta “ uma nuvem passageira…”, quand-même boa e que se pode repetir as vezes que se quiser.

Mas referia-me à sensação da alma, o calor que se sente cá dentro, que permanece e nos aquece e protege do infortúnio.

Quando digo que tenho sorte na vida, não quero com isto dizer que tudo me corre sempre bem e até estatisticamente nem sei se interessa quantificar os períodos de duração dessa felicidade, seja ela o que for.

Tem-se sorte quando num determinado momento se encontra o equilíbrio, a maturidade para ver claro e saber escolher, e mudar o curso das estrelas.

Ao ter-se uma vida mais longa, podemos descobrir um novo rumo numa fase mais adiantada, mas quando se morre de repente ou muito novo, raramente se teve esta oportunidade de corrigir a rota, excepto quando se é excepcional "ab initio", e há muita gente que o é.

Vem isto a propósito de me ter envolvido desde há um ano, em actividades de carácter social, o que já tinha ocorrido em novo, por isso tenho experiência, ainda que diferente.

E encontram-se pessoas impecáveis e desprovidas de vaidade ou sentimentos de ganância de poder, genuinamente interessadas em servir.

É um sector a que me quero dedicar para o resto da minha vida, sem embargo de poder ter uma vida profissional nos sectores que me interessam e só. Nem pensar em fazer fretes e trabalhar contrariado.

Imaginem como os meus sonhos, (se me sair o “el gordo”) são os de passar os dias a escrever no remanso de uma boa casa, confortável, de preferência com vista para o rio ou para o mar, ou também para o campo, ler muito, ouvir música, passear e ajudar os outros. Invejável, mas nada que se não possa obter se lutar para isso.

Tanto a dizer sobre a riqueza dos outros e tudo quanto nos podem dar e fazer-nos retribuir. O ruído exterior do mundo incomoda e castiga mas não podemos deixar de nos envolver no conhecimento da realidade para ajudarmos a recomeçar uma nova vida nas sociedades.

Não tenho nenhumas ambições políticas, pois o que já fiz no passado neste domínio, foi suficiente para saber de como o poder é fátuo. Mais importante, muito mais, é transformar a sociedade por dentro, alertando as consciências das pessoas para o que precisa de mudar e efectivamente lá chegar.

Depois, é entregar o poder a quem nos oferece condições de seriedade, competência e patriotismo para por os interesses da sua Pátria acima dos próprios.

Mas voltando ao sector da cidadania e inovação bem como de uma nova ordem/economia social, há muito para fazer e revolucionar e há tanta gente desmotivada que poderá encontrar neste sector uma nova esperança e oportunidade para prestar bons e necessários serviços à comunidade.

IO NON HO BISOGNO DI DENARO


Io non ho bisogno di denaro
ho bisogno di sentimenti
di parole
di parole scelte sapientemente
di fiori detti pensieri
di rose dette presenze
di sogni che abitino gli alberi
di canzoni che facciano danzare le statue
di stelle che mormorino
all'orecchio degli amanti.
Ho bisogno di poesia
questa magia che brucia
la pesantezza delle parole
che risveglia le emozioni e dà colori nuovi.

Alda Merini

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A vitória do Syriza


Tenho acompanhado durante o dia o que a imprensa estrangeira e portuguesa diz sobre a vitória do Syriza, bem como algumas declarações de políticos também estrangeiros e nacionais.

Estou num seminário de banca que tem pausas e também intervenções chatérrimas, por isso a minha disponibilidade...

Só me parece, aliás de acordo com o que escrevi há dias a este propósito, que esquecendo-me da ideologia do Syriza que creio já estará temperada pelo bom-senso, realismo e a aliança com os Independentes de direita, trata-se sobretudo de um respirar fundo do povo Grego.

Como que a um doente que estando enfermo e entubado, lhe dão, nos cuidados intensivos, a possibilidade de passar para um quarto por uns dias aonde pode respirar sem a violência das máquinas de sobrevivência sempre ligadas.

O médico do hospital e os restantes sábios vão fazer uma Junta médica para proporem à família que opções existem.

Poderá passar pela eutanásia num cenário mais dramático ou por modificação de medicamentação que torne mais suportável a recuperação.

No entanto desta vez, não só o doente terá a última palavra a dizer como a família será consultada e apoiará o doente no que decidir.

Há uns professores da Junta médica que têm bigodes fartos, outros sobrancelhas grossas, outros andam de cadeiras de roda e têm inveja dos doentes com coragem para sobreviver, há enfermeiras-chefes gordas e frias e un quantos médicos imbecis, corruptos e sem preparação para fazerem a Junta e poderem ter um papael construtivo na salvação do doente.

Interessante ver como acaba a história, mas mesmo não sendo gregos tudo o que lá se passar nos afectará, quanto mais não seja no coração de todos quantos são solidários com povos com grande austeridade.
A família queixa-se que o doente fartou-se de fazer asneiras, gastou o dinheiro em mulheres, jogo e dolce far niente (não sei dizer em grego, mas deve haver, ó se há...ahahah) e por isso está a pagá-las.

Mas a diferença entre os bigodudos da Junta médica e a família é que o amor que sentem pelo doente tudo perdoa, esquece e espera um recomeço.

I wish them a happy end

domingo, 25 de janeiro de 2015

Desistam, sabotadores. Amar torna-nos profundos

Desistam, sabotadores. Larguem o osso, entreguem o jogo, deixem de coisa. Retrógrados de mau caráter, canalhas, prepotentes, autoritários, pernósticos de toda sorte, desuni-vos! Não há o que fazer. Resignem-se! No mundo há muito mais pessoas boas que cretinos. Melhor é trocarem logo de lado.

Para cada existência sórdida odiando além da conta, aborrecendo pelos cantos, malquerendo a vida, um batalhão de almas amorosas afia bons sentimentos e os dispara por aí.

Enquanto os decrépitos disseminam sua raiva gratuita lá e cá, cientistas loucos de amor sonham lançar na rede pública de água um vírus que nos torne compreensivos irremediáveis, tolerantes e gentis. Cães e gatos se atrevem a desmentir a lógica perversa de seu antagonismo e se adoram sob a guarda amorosa de seus donos escolhidos. Velhos inimigos sucumbem e se dão as mãos e se abraçam comovidos. Casais se encontram e se amam sem volta, rompendo a noite em conversas profundas, leves e simples.

A todas essas, crianças assistem transparentes, sorrindo pureza, à bagunça dos cachorros no jornal do xixi. Velhos sem herdeiros doam suas fortunas, sabidos adversários se perdoam e se libertam de suas faltas, o mundo ensaia seu jeito de estar em paz.

Repensem, espíritos de porco! A esperança exercita sua musculatura carinhosa em cada olhar de afeto, abraça inflamada de sinceridade os de nós que ainda resistem destroçados por tanto ódio não declarado, tanta amargura não resolvida, tanto peso morto nas costas que carregam a vida. Entreguem-se! Viver há de ser mais que as pelejas fúteis e as disputas sem fim nem sentido.

Acreditem! A sanha de morte a que lançamos os “culpados” é a mesma que castiga o inocente. As balas disparadas contra quem odiamos se perdem e atingem em cheio aqueles que amamos. Odiar é ofício duro, perigoso, rabugento e viciado nas mesmas vítimas: nós e sempre nós.

Larguem mão, criaturas torpes. Reconsiderem sem medo. Quando a consciência dói generosa, a vida nos abre os braços para um forte e eterno abraço de festa. Larguemos as armas!

Ainda é tempo. Ainda há espaço. Ainda temos tantas chances de mudar quanto os dias e os anos que nos restam. E o que nos cabe é fazê-los acontecer e perdurar como nossas cidades da infância e seus casarões sobreviventes, suas ruas sombreadas de velhas árvores e a dignidade de seus paralelepípedos. Porque ainda há ruas de paralelepípedos, jardins antigos, professoras amorosas, pessoas que acreditam. Ainda há esperança na vida.

Em comum, de antemão, temos nada além de um sonho em cores e um futuro em branco, incerto e irresistível.

Repensemos. Ainda há tempo. Ainda estamos aqui.

André J. Gomes.

Alexis von Rosenberg, Baron de Redé

"I dislike fervour and enthusiasm. I do not like noise. Very often, I remain silent, for silence has it's own dignity. I listen for the nuances that stir behind the Babylon of general conversation. I relish comfort, style and luxury. I dislike men whose socks are so short that when they cross their legs, they expose flesh. I dislike men who do not wear white shirts in the evening. Many such things I dislike.
I do not mind being distanced from the world. You could say that I prefer it. I am protected from the outside world, and this will not change. My senses are acutely tuned to the objects d'art that I have collected and with which I live. My great pleasure is to see such objects in the great museums and the houses of other collectors."


Alexis von Rosenberg, Baron de Redé

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

seu porco

“SOBE”, grita o homem correndo para o elevador lotado, prestes a iniciar sua viagem rumo ao topo do prédio comercial de 20 andares. A essa hora da manhã, perder o elevador significa chegar atrasado ao trabalho, então ele corre mais rápido. Nenhuma das tantas pessoas já embarcadas faz qualquer esforço para ajudá-lo em sua empreitada. Ninguém segura a porta de aço, ninguém aperta o botão que retarda a partida da nave, ninguém sequer lhe dirige um olhar de solidariedade e torcida, “corre, pobre diabo, você vai conseguir, eu acredito em você”. Nada. Ninguém.
Agora é ele e somente ele contra o tempo e as próprias forças. O elevador começa a fechar as portas, o homem corre ainda mais veloz e os passageiros do lado de dentro o assistem indiferentes, imóveis. Ele já prevê a si mesmo sozinho, do lado de fora, maldito excluído, marginal fracassado, enquanto seus colegas desconhecidos seguem impolutos rumo ao topo. Ferido no orgulho, ele tenta uma vez mais. Não, ele não será abatido assim tão fácil. Não sem luta. E num último impulso ele estica o braço e alcança a porta do elevador com as pontas dos dedos, no instante exato em que suas duas metades se encontrariam. Ele conseguiu! Parabéns, bravo homem! Você é um feliz passageiro do cubículo de aço e lâmpadas e botões que ganhará as alturas.
Seus colegas de viagem não conseguem esconder a frustração de vê-lo ali, vitorioso, impávido, prova viva e inconteste de que o esforço ainda é capaz de superar a indiferença e a idiotia. Ele diz “bom dia”. Ninguém responde. Uma por uma, ele examina as caras dos cretinos cabisbaixos, macambúzios à sua frente. Repara suas expressões de pressa e autoimportância. Observa o jeito apático e previsível como transferem os olhos do chão para o teto, do teto para o chão.
Ele enxerga esses homens de terno e gravata insistindo em encontrar sinal no celular! Olha essa velha com expressão de bruxa má e rugas de quem apanhou da vida muito mais do que bateu. Olha essas moças de cabeleira escovada emanando perfume melado, o jeito cabreiro de presa e os gestos forçadamente defensivos de quem espera que todos ali estejam prestes a avançar sobre elas, rasgar suas roupinhas de grife compradas em vinte prestações no cartão e violar suas carcaças depiladas e acima do peso. Na ótica perversa e estrábica das donzelas, todos ali são tarados potenciais, inclusive a velha bruxa, esperando a hora de atacá-las. Coitadas, as moças mal sabem o quanto são tão pouco atraentes. Nem desconfiam de que para o mundo elas sequer existem.
Como também inexistem esses dois sujeitos fortões, apertados em suas camisetas de algodão, enamorados de si mesmos, paquerando seus próprios contornos no espelho ao fundo do elevador. Então ele repousa a vista sobre a grávida de ar amargurado, triste, sozinha, entrando decerto nos últimos dias de gestação. Ele espia de frente todas aquelas pessoas ali. Tão diferentes, tão iguais. Tão incapazes de mirá-lo de volta e dizer “oi” ou “bom dia” ou “tá olhando o quê?”. Nem um olhar sequer.
Resignado, ele desiste e respira fundo. Mas que cheiro é esse? Que cheio horrível é esse surgido no momento exato em que ele inspira o ar com toda a vontade? Sim, é isso. Não bastassem o combustível tão caro, o aluguel que subiu de novo, o chefe que o espera irascível, a violência urbana e a estupidez coletiva, alguém ali tivera o desplante de piorar o desastre. Alguém acaba de liberar seus gases intestinais em pleno elevador. Quem foi o porco?
Teria sido a velha bruxa? Sim, foi ela, frouxa, as pregas sucumbidas ao massacre de existir. Ou foi um dos fortões? Decerto, entupiram o organismo de esteroides e vitaminas de cavalo até ventarolar a névoa do inferno. Desgraçados. E os executivos cínicos? Claro! Só pode ter sido um deles! Escondidos na pretensa polidez de suas gravatas, saem por aí com ar superior exalando seus fedores por baixo. Perversos. Mas e as moças de escova? Sim! Ele pensa em como se deixou enganar por elas. Foram elas! Tão dissimuladas ao ponto de orvalhar gotículas invisíveis de estrume no ar enquanto encaram as próprias unhas decoradas com esmaltes de nomes excêntricos.
O fedor sobe, recende, piora. Espalha-se por todo o cubículo prateado como uma praga das trevas. Um bodum intenso, torpe, saído das tripas de um lagarto gigante em estado terminal. Uma das moças leva a mão ao rosto e fecha as narinas com os dedos. Mas que bela mula, ele pensa. Na minguada cabeça dessa estúpida não entra o óbvio: ao fechar o nariz, ela se põe a inspirar a nuvem intestinal pela boca.
Aos poucos o ar se torna pesado, a caatinga persiste, perdura. E finalmente as pessoas se olham, se percebem. Inquisitórios, os desconhecidos se encaram em silêncio de tumba, enquanto se dirigem olhares de acusação recíproca. Quem foi? Quem foi o sujo? O culpado precisa aparecer. Então, traída pela sensibilidade de sua própria situação, a grávida sucumbe ao clima opressivo e se entrega sem dizer palavra. Em seu rosto redondo de gestante, a fraqueza se faz evidente e a autoria do flato, inegável. Foi ela!
Mas esperem. A infeliz não tem culpa! A essa altura da gravidez, segurar os próprios gases é uma tortura. Se pudesse, ele gritaria tal argumento para todos ali. Mas não. Ele pondera, repensa e, finalmente, compadecido da situação de sua colega gestante, é tocado por uma revelação. De súbito, ele se vê em meio ao instante que vai determinar o rumo de sua existência, a chance que poucas vezes na vida se dá a um sujeito banal e sem graça como ele. A oportunidade que não se pode jogar fora.
E num sensacional gesto de grandeza, o homem se coloca na linha de tiro entre a indefesa mulher prenhe e os olhares acusatórios que a fuzilam impiedosos: “FUI EU!”.
A porta do elevador se abre, os passageiros fogem apressados, aliviados, para fora da câmara de gás. Todos de uma vez, como o estouro de uma boiada, escapam para longe do ambiente repulsivo. Todos para fora, menos ele. Ele permanece ali, no interior da máquina. Sozinho, parado, satisfeito por ter sido capaz de uma coisa grandiosa em sua vidinha ridícula de pagador de contas.
Do lado de fora, a mulher grávida olha para trás, segura a barriga, encara tímida o seu defensor e desabafa sincera: “SEU PORCO!”.

André J. Gomes

Once upon a time


NO is a complete sentence


Waterloo


piece of cake


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Syriza e a nova Grécia


Se há coisa inevitável é o decurso da História. Dificilmente se poderá influenciar o seu desfecho com a segurança de que algum poder possa até ao limite, concretizar com rigor um seu qualquer projecto.

Vem isto a propósito das eleições na Grécia: o que tiver que acontecer, se produzirá.

Nem o Syriza sabe tudo nem pode prever quais os efeitos concretos da sua eventual subida ao poder nem a União Europeia pode antecipar sanções e retaliações, sem que primeiro as águas passem por debaixo das pontes!

Vai levar tempo, causar desilusões a uns e a outros, surpresas de traições pela sede do poder, incompreensões e impossibilidades de cumprir modelos pré-concebidos, pela elementar razão de que a natureza humana é incontrolável por uma simples e pragmática consequência: o desejo poderoso e irresistível da liberdade.

O povo grego está faminto, exangue e sem qualquer esperança num futuro aceitável. Pode-se discutir se não estará a pagar por tudo quanto os diferentes governos, que como sempre sem muita reflexão, elegeram, fizeram para chegar a esta situação: é verdade!

No entanto a memória dos homens é curta e o institinto de salvação “move montanhas” e o Syriza propõe um plano de vida menos sobrecarregado, mais livre de grilhetas e promete uma luta sem tréguas com os credores para que, sem deixarem de honrar as suas obrigações, possam, no entanto, suavizar o jugo da austeridade. É compreensível e colhe o aplauso e a concordância de grande parte do eleitorado. Não há argumentos académicos que consigam contrariar um sentimento de desespero que se sente na pele: o frio, a fome, o desemprego e o desânimo.

Por isso, creio que na Grécia o Syriza vai ganhar “tout simplement” de uma forma irreversível e serão os credores e a União Europeia que se terão de adaptar às novas circunstâncias, como aliás acontece nos países e na vida de cada um.

Há uma miríade de teorias políticas e económicas a favor e contra as diversas partes, mas quando se assiste nas notícias à distribuição de duas refeições diárias, a milhares de pessoas, na praça principal de Atenas, não há disfarce possível. A mudança é imparável.

Deveria ser motivo de reflexão para a Europa e para os nossos governantes: afinal para que são eleitos? Para servir, verbo que tem vindo ao longo dos anos a ser esquecido por muitos políticos.

MNA

You can't change the past



Volto hoje de novo a este tema que vai sendo valorizado por mim a cada dia: o da liberdade.

Recomecei as minhas aulas de português na prisão e devo confessar que este mês de ausência de convívio bissemanal, já me fazia falta.

Fomos entretanto trocando cartas que servirão um dia mais tarde, talvez, para um livro e até sem ser sobre o estatuto do recluso, pois o conteúdo versou uma série de temas da vida, vistos por diferentes prismas.

Foi por isso, uma primeira aula de “reposição” ou seja mais eu a contar o que tinha feito na época natalícia e eles a falarem-me da rotina de celas individuais aonde passam 90% do dia, sem contacto com ninguém.

Começámos a aula e fui fazendo exercícios de gramática e passando a vez de uns para os outros na solução de frases e preenchimento de textos: o costume.

Sempre todos com interesse em aprenderem, esforçados e inteligentes. São todos estrangeiros e de diferentes e variados países, mas com um rendimento impecável. Há lá um que me apanha sempre 20 valores nas provas, formidável! Já conseguiu formar-se no IST com 19 valores e está a terminar o mestrado com a mesma classificação.

Num dos exercícios, fácil aliás, quando disse o nome de um para continuar, olhei para ele pois parecia-me desatento e reparei que estava a olhar para o infinito. 

Perguntei-lhe o que se passava e com um ar triste respondeu-me que estava a pensar na sua vida…

Eu sou por um lado um visitante do exterior que a cada semana, por duas vezes e durante 4 horas, traz ventos de liberdade…e por outro um certo amparo e consolo pois tento alegrá-los e ocupá-los.

Por isso este tema inesgotável da liberdade, pode, em sociedades ditas livres, ser menosprezado e até negligenciado. 

Avanço com um projecto de uma Academia que estou a montar com uma equipa esforçada e empreendedora com dois objectivos: formação para quem de fóra tenha vocação e generosidade para se entregar ao voluntariado prisional em todo o país e por outro, o treinamento e preparação dos reclusos para uma variada gama de profissões, que já desde a prisão, possam ir desempenhando com uma justa remuneração, para poderem continuar a exercê-la quando saírem em liberdade.

Trata-se de um trabalho ciclópico com Universidades, empresas e autoridades bem como tentando aproveitar fundos europeus e nacionais disponíveis.

Mas voltando ao cerne desta minha crónica: fiquei com o coração apertado quando percebi que a cabeça e o pensamento deste meu recluso estava fóra, sonhando com a família, talvez com a simples possibilidade de poder entrar numa loja, comprar um cd de música, um livro, ir beber um café com os amigos, trabalhar e poder voltar a casa no fim do dia. 

E fica sempre no ar a minha dificuldade em contraditar quem nunca visitou uma prisão, quando me contestam que alguma coisa de incorrecto terão feito para estar detidos.

E enquanto a sociedade civil não praticar e entender a extensão do conceito de perdão, de vontade em colaborar na reinserção e de criar condições para a não reincidência, vai gerando novos culpados e encarecendo ao Estado e aos contribuintes a sua eventual recuperação.

Claro que este é um tema plurifacetado e tem contornos que não são de ciência exacta: mas o princípio do conhecimento da realidade é um passo relevantíssimo.

A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.” (Mahatma Gandhi)

lies and actions


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

size matters

Decididamente hoje é o dia mais triste do ano. Porque o dizem os calendários do facebook, porque tal como o costume vai criando o direito consuetudinário, quer nos textos como nas fotografias que as pessoas publicam assim o tratam, e porque sim e coisa…

Se há lá razão especial para se estar triste num dia certo? A não ser que se tenha tido uma pena…perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha..

Fez uma grande obra o Azeredo Perdigão ao criar o museu Calouste Gulbenkian. Estava por lá uma exposição temporária em que se via o homo erectus, numa versão pobre porque de tamanho pequeno, refiro-me ao dito do homem…size matters, dizem as artistas de cinema bem como a Irina, pois consta que muito garanhão afamado, é como as iludências… que aparudem..

Acho o Cavaco o ideal para o estereótipo do homem triste, nunca se ri francamente, com um ar natural, às gargalhadas e aquela de que a sua mulher o tratava por “meu caro”, rapidamente emendado para “ é claro, ela não me trata assim..”. Bem, assim como assim, o Hollande ficou bem na fotografia com a Merkel a encostar a cabecinha no seu ombro e a perguntar-lhe com um ar terno se ainda tem a scooter..é de loucos, pois há quem no Júlio de Mattos, se ache Napoleão, o que agora com o frio que está, dá um jeitão ao se esconder a mão na jaqueta, pelo menos sempre se apanha menos resfriado..


Fui hoje ao Comando Metropolitano da PSP, e pensei que talvez tivesse achado graça de ser um “menino de Moscavide”, terra mai linda…passei pela loja dos tecidos, com carpélios maravilhosos..deixam a milhas os do Senhor Roubado, que são muito mais ásperos para pôr nas traseiras do carro, coladinhos ao vidro a dizer que sim com a cabeça…tenho já visto tigres e leões como os da MetroGold, só que não rugem…


A propósito de rugir, vai por aí um protesto contra novos cortes e aumentos de impostos: temo que um dia ao chegarem ao Parlamento ainda haja algum dos leões de pedra que comam de qualquer um deputado, as partes baixas, como vingança…


Size matters, don’t forget!


In "Divagações Várias" de Vicente Mais ou Menos de Souza

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Mmmm tu vois ? Ou pas .... ?


Fui ontem a Évora ao estabelecimento prisional


Fui ontem a Évora ao estabelecimento prisional.

Porém não encontrei o eng. Sócrates, apesar de a prisão ser muito pequena e horrível, como são todas.

Os jornalistas também não me ligaram bóia.

Ora ainda bem, nada como não se ter exposição desnecessária. Já bem basta quando, por alguma causa, temos que dar a cara em público.

O trabalho laborioso e profícuo faz-se no silêncio e longe das vaidades do poder.

“Revenons sur nos moutons”: fui convidado pela voluntária local da CV para fazer um workshop para os reclusos da prisão de Évora sobre dois temas: como criar, manter e actualizar um blogue – abordando os aspectos literários, de ocupação de tempo e de dinamismo. O segundo tema foi sobre a minha experiência como voluntário e Professor na prisão de Alta Segurança de Monsanto.

Estava uma casão…ahahaah…e a sala era pequena. Correu muito bem, foi muito participada e deixaram-se sementes para um concurso literário intramuros, trocas de ideias para programas de formação profissional com vista a empregos futuros, um diálogo aberto e franco sobre tantas coisas que tornam o contacto entre quem está dentro e fora, uma oportunidade para sair da rotina.

Os reclusos são todos do fóro militar e das forças de segurança e por isso foi uma outra experiência na senda de um trabalho mais estruturado que estou a preparar em equipe e de que vos darei, atempadamente, conhecimento.

Não é excitante, though, to be inside a prison. Be aware of that!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Divagações junto ao Tejo


Hoje fugi de casa. Estava sozinho, todos tinham partido.
Amanhecera mais um dia esplendoroso, daqueles de céu azul sem uma nuvem.
Banalidade, pode parecer, mas lindo. Adoro. Corre-me logo melhor a manhã.
Eram prá aí sete e picos, oito e coisa nove e tal…no baile da dona Ester
Musiquinha do meu tempo de muito sucesso.
Não, fugi mais tarde! Já o sol se levantara.
O meu destino preferido: o rio. O Tejo da minha cidade.
Esplendoroso. Cheio de barcos à vela.
Quem quer ver a barca bela que se vai deitar ao mar, Nossa Senhora vai nela e os anjos vão a remar”…e continuava, dando uma "promoção de general" a Jesus Cristo…é perguntar ao Papa Francisco
Não poderia estar-se mais borrifando para os postos do exército, ou de qualquer outra arma.
Parei o carro, como costumo, junto ao passeio grande como se fora a Croisette, em Nice.
Saí e de olhos e narinas bem abertas, respirei o ar puro e abarquei o meu mundo com deleite.
Gente passeava-se para trás e para a frente. Vi a dona Cremilde e o esposo gordo,
Merceeiro reformado. Os dois muito achacados. O médico dissera ou cura em termas,
Ou passeio junto ao rio. Não estavam muito abonados, optaram por Lisboa em vez de Vichy.
Isso eram os meus Avós e Bisavós: um mês em Karlsbad e outro em Vichy.
Toda a fina sociedade e a não fina. Havia sempre uma Madame de grandes peitos
Que merecia uma copiosa referência do meu Bisavô a um menino como eu de 6 anos.
Fazia-me espécie o riso entre os dentes meio chocarreiro, de luxúria de velho.
Mas eu perguntava-me porque seria mal ter umas mamas grandes
Mais espaço havia para encostar a cabeça e catar cafuné, como a Nêga Fulô. Essa Nêga Fulô!
Estremeço ao ouvir este poema imemorial de Jorge de Lima, recitado pelo Villaret.
É de rebentar de gozo por dentro, ele rebola-se nas palavras e nas toadas de um poema único.
O meu querido Brasil que já não revejo há um ano. A Dilma, lixou todos os meus planos.
Era o segundo grito do Ipiranga. Qual Machetes nem qual carapuça. Coelhos e Portas ficariam cheios de Saudades de mim por NÃO me verem no burgo, mas o café e o açúcar de um Engenho imaginário que Teria, propiciar-me-iam visitas à Metrópole, amiúde. Chegou hoje a Lisboa no paquete Baía de Guanabara, o distinto compatriota, gente do nosso melhor high-life…Sua Senhoria ficará Hospedado Numa suite do Hotel Majestic….
De encontro a mim apressa-se em corrida e vestido com um fato-de-treino comprado nos USA, o Ministro Souza Lima que me acena e diz: - lá o espero logo para o salmão e um bom Champagne. Faço Um sorriso amarelo, que nanja de comer e beber de corrupções. Não vá ir parar a Évora e fica-me mal  ao meu pé o nº 45 ou 46. Tipo falua ou galochas que desfeiam o andar com um tamanho desmedido!
Na cidade do Templo de Diana, para além do Cromeleque dos Almendres, só me lembro do Fialho. Comiam-se uns cromeleques deliciosos e no fim uma sobremesa de almendre e ovos divinal. Dei por mim Junto ao rio, com fome depois destas divagações. Vejo um pescador, todo risonho, sacar do mar uma Taínha. Que festa houve no Céu! ahahaah....tal como por entrar um rico pois parece que é mais difícil que um camelo passar pelo buraco de uma agulha.
Leio sempre no regresso do rio, com gáudio et spes - bela encíclica de Paulo VI – esta frase lapidar prantada nuns graffiti, premonitória dos casos BPN e BPP e de outros que hão de vir: 
"Soldados, marinheiros, operários e trabalhadores, SEMPRE, SEMPRE ao lado do Povo! Irritante aquela Duplicação do sempre, I wonder why?
Quando vêm ao Parlamento prestar declarações, ou em actos sociais ou de doutoramentos Honoris causa, Sempre que por ali passam, estremecem com a possibilidade de não saírem da prisão.

In “Divagações habituais junto ao rio Tejo” de Vicente Mais ou Menos de Souza