segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

size matters

Decididamente hoje é o dia mais triste do ano. Porque o dizem os calendários do facebook, porque tal como o costume vai criando o direito consuetudinário, quer nos textos como nas fotografias que as pessoas publicam assim o tratam, e porque sim e coisa…

Se há lá razão especial para se estar triste num dia certo? A não ser que se tenha tido uma pena…perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha..

Fez uma grande obra o Azeredo Perdigão ao criar o museu Calouste Gulbenkian. Estava por lá uma exposição temporária em que se via o homo erectus, numa versão pobre porque de tamanho pequeno, refiro-me ao dito do homem…size matters, dizem as artistas de cinema bem como a Irina, pois consta que muito garanhão afamado, é como as iludências… que aparudem..

Acho o Cavaco o ideal para o estereótipo do homem triste, nunca se ri francamente, com um ar natural, às gargalhadas e aquela de que a sua mulher o tratava por “meu caro”, rapidamente emendado para “ é claro, ela não me trata assim..”. Bem, assim como assim, o Hollande ficou bem na fotografia com a Merkel a encostar a cabecinha no seu ombro e a perguntar-lhe com um ar terno se ainda tem a scooter..é de loucos, pois há quem no Júlio de Mattos, se ache Napoleão, o que agora com o frio que está, dá um jeitão ao se esconder a mão na jaqueta, pelo menos sempre se apanha menos resfriado..


Fui hoje ao Comando Metropolitano da PSP, e pensei que talvez tivesse achado graça de ser um “menino de Moscavide”, terra mai linda…passei pela loja dos tecidos, com carpélios maravilhosos..deixam a milhas os do Senhor Roubado, que são muito mais ásperos para pôr nas traseiras do carro, coladinhos ao vidro a dizer que sim com a cabeça…tenho já visto tigres e leões como os da MetroGold, só que não rugem…


A propósito de rugir, vai por aí um protesto contra novos cortes e aumentos de impostos: temo que um dia ao chegarem ao Parlamento ainda haja algum dos leões de pedra que comam de qualquer um deputado, as partes baixas, como vingança…


Size matters, don’t forget!


In "Divagações Várias" de Vicente Mais ou Menos de Souza

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Mmmm tu vois ? Ou pas .... ?


Fui ontem a Évora ao estabelecimento prisional


Fui ontem a Évora ao estabelecimento prisional.

Porém não encontrei o eng. Sócrates, apesar de a prisão ser muito pequena e horrível, como são todas.

Os jornalistas também não me ligaram bóia.

Ora ainda bem, nada como não se ter exposição desnecessária. Já bem basta quando, por alguma causa, temos que dar a cara em público.

O trabalho laborioso e profícuo faz-se no silêncio e longe das vaidades do poder.

“Revenons sur nos moutons”: fui convidado pela voluntária local da CV para fazer um workshop para os reclusos da prisão de Évora sobre dois temas: como criar, manter e actualizar um blogue – abordando os aspectos literários, de ocupação de tempo e de dinamismo. O segundo tema foi sobre a minha experiência como voluntário e Professor na prisão de Alta Segurança de Monsanto.

Estava uma casão…ahahaah…e a sala era pequena. Correu muito bem, foi muito participada e deixaram-se sementes para um concurso literário intramuros, trocas de ideias para programas de formação profissional com vista a empregos futuros, um diálogo aberto e franco sobre tantas coisas que tornam o contacto entre quem está dentro e fora, uma oportunidade para sair da rotina.

Os reclusos são todos do fóro militar e das forças de segurança e por isso foi uma outra experiência na senda de um trabalho mais estruturado que estou a preparar em equipe e de que vos darei, atempadamente, conhecimento.

Não é excitante, though, to be inside a prison. Be aware of that!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Divagações junto ao Tejo


Hoje fugi de casa. Estava sozinho, todos tinham partido.
Amanhecera mais um dia esplendoroso, daqueles de céu azul sem uma nuvem.
Banalidade, pode parecer, mas lindo. Adoro. Corre-me logo melhor a manhã.
Eram prá aí sete e picos, oito e coisa nove e tal…no baile da dona Ester
Musiquinha do meu tempo de muito sucesso.
Não, fugi mais tarde! Já o sol se levantara.
O meu destino preferido: o rio. O Tejo da minha cidade.
Esplendoroso. Cheio de barcos à vela.
Quem quer ver a barca bela que se vai deitar ao mar, Nossa Senhora vai nela e os anjos vão a remar”…e continuava, dando uma "promoção de general" a Jesus Cristo…é perguntar ao Papa Francisco
Não poderia estar-se mais borrifando para os postos do exército, ou de qualquer outra arma.
Parei o carro, como costumo, junto ao passeio grande como se fora a Croisette, em Nice.
Saí e de olhos e narinas bem abertas, respirei o ar puro e abarquei o meu mundo com deleite.
Gente passeava-se para trás e para a frente. Vi a dona Cremilde e o esposo gordo,
Merceeiro reformado. Os dois muito achacados. O médico dissera ou cura em termas,
Ou passeio junto ao rio. Não estavam muito abonados, optaram por Lisboa em vez de Vichy.
Isso eram os meus Avós e Bisavós: um mês em Karlsbad e outro em Vichy.
Toda a fina sociedade e a não fina. Havia sempre uma Madame de grandes peitos
Que merecia uma copiosa referência do meu Bisavô a um menino como eu de 6 anos.
Fazia-me espécie o riso entre os dentes meio chocarreiro, de luxúria de velho.
Mas eu perguntava-me porque seria mal ter umas mamas grandes
Mais espaço havia para encostar a cabeça e catar cafuné, como a Nêga Fulô. Essa Nêga Fulô!
Estremeço ao ouvir este poema imemorial de Jorge de Lima, recitado pelo Villaret.
É de rebentar de gozo por dentro, ele rebola-se nas palavras e nas toadas de um poema único.
O meu querido Brasil que já não revejo há um ano. A Dilma, lixou todos os meus planos.
Era o segundo grito do Ipiranga. Qual Machetes nem qual carapuça. Coelhos e Portas ficariam cheios de Saudades de mim por NÃO me verem no burgo, mas o café e o açúcar de um Engenho imaginário que Teria, propiciar-me-iam visitas à Metrópole, amiúde. Chegou hoje a Lisboa no paquete Baía de Guanabara, o distinto compatriota, gente do nosso melhor high-life…Sua Senhoria ficará Hospedado Numa suite do Hotel Majestic….
De encontro a mim apressa-se em corrida e vestido com um fato-de-treino comprado nos USA, o Ministro Souza Lima que me acena e diz: - lá o espero logo para o salmão e um bom Champagne. Faço Um sorriso amarelo, que nanja de comer e beber de corrupções. Não vá ir parar a Évora e fica-me mal  ao meu pé o nº 45 ou 46. Tipo falua ou galochas que desfeiam o andar com um tamanho desmedido!
Na cidade do Templo de Diana, para além do Cromeleque dos Almendres, só me lembro do Fialho. Comiam-se uns cromeleques deliciosos e no fim uma sobremesa de almendre e ovos divinal. Dei por mim Junto ao rio, com fome depois destas divagações. Vejo um pescador, todo risonho, sacar do mar uma Taínha. Que festa houve no Céu! ahahaah....tal como por entrar um rico pois parece que é mais difícil que um camelo passar pelo buraco de uma agulha.
Leio sempre no regresso do rio, com gáudio et spes - bela encíclica de Paulo VI – esta frase lapidar prantada nuns graffiti, premonitória dos casos BPN e BPP e de outros que hão de vir: 
"Soldados, marinheiros, operários e trabalhadores, SEMPRE, SEMPRE ao lado do Povo! Irritante aquela Duplicação do sempre, I wonder why?
Quando vêm ao Parlamento prestar declarações, ou em actos sociais ou de doutoramentos Honoris causa, Sempre que por ali passam, estremecem com a possibilidade de não saírem da prisão.

In “Divagações habituais junto ao rio Tejo” de Vicente Mais ou Menos de Souza

A minha velha por António Lobo Antunes


A minha velha tinha sido bailarina de segunda fila, em nova, num teatro de variedades, e as plumas que ela usava na cabeça ainda estão lá em casa numa jarra, um bocado enegrecidas pelo tempo, já não cor de rosa, cinzentas a atirar para o escuro, depenadas, a cheirarem a mofo, testemunhando
- O sucesso que eu tinha
uma glória artística não especialmente brilhante mas digna
(mesmo a segunda fila não é para todos)
e uma genuína vocação para a dança de que ainda hoje me orgulho. Nunca casou por, na sua opinião e na opinião das pessoas mais informadas, a dança não ser compatível com o matrimónio. Em todo o caso teve-me, de um senhor que não conheci, um admirador com dinheiro, mais idoso que o pai dela, que lhe comprou este apartamentozito e o mobilou com gosto, espelho de moldura de talha, cadeiras prateadas, uma imagem de São Sebastião à cabeceira, cheio de setas de lata pelo corpo todo e um pano a tapar as vergonhas, destinado a lembrar à minha mãe o respeito pela santidade e, implicitamente, o que lhe poderia acontecer no caso do seu comportamento se desviar um milímetro dos estreitos limites da virtude. Aliás havia uma outra seta de pau, encostada ao cortinado, que o senhor devia utilizar
(a minha mãe para mim
- Como dizia o teu pai é preciso pôr ordem nesta desordem)
a fim de corrigir atitudes menos consentâneas
(a minha mãe muito gostava ele da palavra consentânea)
da parte da artista, tais como encontrar um electricista do teatro a fazer-lhe companhia quando ele chegava sem aviso. O senhor com dinheiro faleceu aqui em casa, parece que com mais de oitenta anos, na sequência da frase
E se a gente repetisse só mais uma vez
que a minha mãe sempre me aconselhou a não pronunciar a partir dos setenta e sete. Oxalá me lembre disso quando chegar esse número. Pouco depois da sua morte a minha mãe largou o bailado, segundo ela porque queria sossego, segundo o dono do teatro porque já mal erguia o tornozelo
( Precisas de umas muletas, tu)
e instalou-se definitivamente no sofá da sala, a fumar por uma boquilha interminável e a receber a visita das antigas colegas que a acompanhavam num chazinho, a conversarem de mestres de obras defuntos e outros beneméritos, de mistura com aprendizes de electricista adolescentes que lhes exigiam dinheiro em troca de favores misteriosos resumidos na frase
- Nem descansava, aquele
acerca de cujo significado não me atrevo a exprimir-me por respeito filial, além de uma possibilidade de engano da minha parte, remota, é certo, remotíssima, pronto, mas quem pode afirmar seja o que for com absoluta certeza apesar da minha velha me piscar um olho subitamente jovem, no qual cintilavam alegrias remotas.
Normalmente visitava-a aos domingos, ao fim da tarde, depois da sua sesta, quando ela já na poltrona, com o gato ao colo, enfiada num roupão cheio de transparências e rosas de tule, a fumar a boquilha interminável
- Beija-me ao de leve por causa da maquilhagem
normalmente à espera de um amigo. Tinha-os de duas espécies: cavalheiros trémulos, que se deslocavam como os andores das procissões, todos delicadezas e prendas, para além de um envelope deixado por acaso na mesa da entrada, e sujeitos de tatuagem no braço, que trabalhavam de estivadores, e à saída emagreciam o envelope
- Dás licença não dás?
sem me ligarem peva ou deixando cair
- Esse caramelo é o teu filho?
no profundo desprezo que aqueles que pesam noventa quilos dedicam aos magrizelas de sessenta. Só com nós dois em casa a minha velha ordenava
- Senta-te aqui ao pé de mim
e, vista de perto, notava-lhe as rugas sob a pintura, as perninhas magras, a memória que ia faltando, o cabecear de sono do qual despertava de repente
- Não penses que adormeci
num bocejo a que faltavam dentes e sobrava cuspo nos ângulos da boca.
Nessas alturas apetecia-me pegar-lhe na garrazita de pássaro da mão, chamar-lhe
- Mãe
abraçá-la, mas permanecia quieto antes que um
- Deixa-te de mariquices
me pregasse ao tamborete onde me sentava. Era então que as suas feições começavam a alterar-se pouco a pouco, tirava um lenço da manga para secar o nariz esclarecendo
- Não são lágrimas isto
às vezes beliscava-me o queixo e, uma ocasião ou duas, chegou a tratar-me por
- Filho
num murmúrio inseguro que corrigia de imediato
- Às vezes fico parva, não ligues
sem me perguntar fosse o que fosse, sem conversar comigo, desatenta de mim e, no entanto, numa espécie de sobressalto se por acaso eu me movia
- Não te vais embora já, pois não?
perdida numa espécie de angústia que o lenço da manga não conseguia apagar. Proibia-me de acender as luzes que dão sempre uma imagem horrível de nós, cavando-nos o rosto, murmurava baixinho
- Pensando melhor segura-me na mão
e ficávamos assim , a minha velha e eu, a olharmos, pela janela, as árvores escuras da rua e as primeiras lâmpadas dos prédios, onde os vizinhos começavam a jantar. Pedia então
(pedir, sim)
- Segura-me com muita força
e às vezes, palavra, encostava a cabeça
- Quero lá saber do penteado
ao meu ombro, até se afastar, de súbito, num movimento de orgulho de bailarina de segunda fila, de meias remendadas que não se viam bem e plumas decrépitas na cabeça. Ordenava-me então
- Vai-te embora
num gesto de princesa, sem olhar para mim à medida que me afastava. Já com a mão na maçaneta escutava-a gritar
- Rapaz
e, quando eu no limiar da sala, perguntava, numa voz de menina onde vibravam desgostos e medos
- Fui uma grande artista, sabias?

sábado, 10 de janeiro de 2015

É urgente o amor, é urgente permanecer.


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugenio de Andrade

Depuis six mille ans la guerre ...


Depuis six mille ans la guerre
Plait aux peuples querelleurs,
Et Dieu perd son temps à faire
Les étoiles et les fleurs.

V. Hugo

Vem isto a propósito de me sentir esta noite particularmente....


Hoje apetece-me partilhar convosco uma reflexão sobre um tema de que todos, somos especialistas: o do sofrimento.

Uns mais do que outros, com maior ou menor frequência, às vezes até em permanência, enfim há de tudo.

As situações também são diversas: doenças, torturas, perseguições, distância, sofrimento moral e intelectual, abandono, isolamento, remorso.

Nem todo o sofrimento é reparador, na minha opinião, ou pelo menos para o próprio. Tomemos um exemplo: se me torturam, não sendo eu masoquista, não tenho nenhuma vantagem em que o façam.

A única forma que entrevejo como verdadeiramente a única compensadora do sofrimento é quando o mesmo serve para nos esquecermos da dor que nos causa e projetarmos nos outros algum consolo e ajuda.

Neste caso, há uma doação que funciona sempre em benefício mútuo.

Vem isto a propósito de me sentir hoje particularmente triste e preocupado com alguém e depois de ter sentido na pele o sofrimento, ter decido escrever uma carta a um dos meus reclusos.

Lembrei-me que no meio da minha noite que previa ser dolorosa, talvez o prazer de ir ao encontro de alguém que sozinho e no frio de uma cela - sim, porque não têm aquecimento - pudesse, numa manhã seguinte, receber algum conforto de companhia e de ânimo.

E assim fiz e não fui sobrecarregá-lo na minha escrita com as minhas penas, mas manifestar-lhe que lhe tinha dado um lugar especial de primazia na lista das pessoas de quem de imediato me lembrei para repartir um ombro amigo, ainda que neste caso, teórico.

E fiquei mais tranquilo!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Se te incomodo, compreendo.

Se te incomodo, compreendo.
Se nao tenho ja importância para ti, compreendo.
Se nao tens tempo para mim, entendo.
Se me ignoras, entendo.
Se te afastas, entendo.
Se tens medo, entendo.
Mas quando me perderes é a tua vez de entenderes.


Ana e outros

sábado, 3 de janeiro de 2015

Extractos do diálogo entre Tutor e pupilo in “Reviver os Clássicos”


Tantas vezes te tenho dito que a vida é um sopro e tu no fundo não acreditas! Não acreditas até ao momento em que vês que tudo é tão frágil, que se pode quebrar de um momento para o outro!

Agarras-me a mão e perguntas-me: o que fazer?

Tantas vezes te tenho dito que o remédio é amar os outros perdidamente, os próximos e os desconhecidos que ou se cruzam na tua vida ou tu buscas com desassossego.

Mas nem sempre os vejo, dizes-me arrependido do tempo perdido. Como saber a quem amar?

É fácil: aos que mais sofrem, aos abandonados à sua sorte, aos que te fazem esquecer de ti próprio e com isso mais te dedicares a eles e às suas dores e misérias.

E agora? Como posso fazer para ganhar tempo de vida? Posso ainda trocá-la por dias de amor aos outros?

Acho que podes, sobretudo, usar com alegria o tempo que te resta se estiveres permanentemente a pensar menos em ti do que em quem te encontre disponível, atento, sereno e tão agradecido pela tua entrega.

Mas como poderei ter forças, se for morrendo aos poucos?

Nem darás por isso, será suave o teu jugo e leve a tua morte como diz o salmo. Pensa na ideia de seres transportado no teu dia por uma corte de anjos que entoarão cantos de alegria por te levarem para o Céu.

E com os meus a quem tanto amo? Vou sentir a falta!

Esta será a prova da tua afeição para com eles, ao amares os mais necessitados e ao partires, serão mais eles que sentirão a tua falta. Deixarás um rasto luminoso de uma memória de exemplo, e essa será a tua glória.

Extractos do diálogo entre Tutor e pupilo in “Reviver os Clássicos” de Vicente Mais ou Menos de Souza

Escuta, escuta


Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A vida não tem livro de instruções

Viver é uma auto-estrada com estações de serviço capazes de nos virar do avesso. Na maior parte do tempo estamos na estrada, vivemos de rotina em rotina, cansamo-nos, esperamos, festejamos, choramos.

Mas de vez em quando temos de parar, esticar as pernas, refrescar a cara, alimentarmo-nos de outras coisas que não as que nos alimentam. Nas estações de serviço da vida encontramos, como num jogo de enigmas, cartas que nos transportam para outras estações, pretextos que nos levam a entrar noutros carros, noutro tempo, noutra realidade. Na vida, as auto-estradas são o que temos e as estações de serviço a oportunidade de mudar o que temos. Infelizmente, nas estações de serviço as pessoas e oportunidades que encontramos não trazem livro de instruções, são jogos de cartas não marcadas em que só depois de embarcarmos poderemos entender o destino da viagem.
Dá-me para isto nos dias em que a minha árvore de Natal pisca e faz sombras nas paredes da sala.

Penso em estações de serviço e nos que trazem mundos desconhecidos às rotinas de sempre. A genialidade, pois. Em todas as épocas existem génios por reconhecer. Porque o mundo ainda não estava preparado, porque os donos do gosto e da crítica antipatizaram e os colocaram de lado, porque preferiram o silêncio da sua enfermidade criativa à notoriedade dos seus pares, porque sei lá mais… Repare, os Beatles foram recusados pela Decca e aproveitados pela EMI que, com 'Love Me Do', se forraram a ouro e diamantes.

Poderia ter-lhes acontecido o mesmo que a outros, gente que marcou os batimentos do mundo, só depois de os seus próprios terem parado. Van Gogh vendeu um único quadro. Fernando Pessoa publicou apenas um livro em português. Nietzsche morreu enlouquecido, sozinho, anónimo. E Shakespeare era apenas o bardo, um tipo vagamente talentoso com quem se podia ir para os copos. Pelo sim pelo não, nunca desvalorizo loucos que se julgam génios incompreendidos porque podem ter razão.

Por mim, comum mortal, limito-me à angústia de uma página branca, como esta há uns trinta minutos. Devo preveni-lo para este lugar-comum; é que o mais difícil para quem escreve não é a tortura da página antes de ser escrita - essa é a consequência da procura do que, por vezes, não se acha. Complicado é, nessa viagem sem destino, esbarrar com o encontro do que já foi encontrado, com as palavras velhas quando tanto ansiámos pela descoberta de novas, com a repetição de nós próprios. Para quem escreve, o plágio que fere não é a cópia dos outros, essa é uma delinquência moral feita pelos que não contam. O que realmente fere é a constatação de que nos plagiamos a nós próprios.

Uma mentira que nos tira do que é sério e nos faz perder o pé. Neste Natal, em todos eles, julgo importante dizer estas coisas. É abominável o gosto pela mentira, pelo faz-de-conta, pela ilusão - pronto, já o disse.

Faz-nos reféns, obriga-nos a uma prisão de que não nos damos conta e nos enfraquece. A vida passa a ser um palco onde representamos um papel, uma ficção da realidade. Mas não pense que defendo a Verdade.

É ridículo escrever cartas de amor a uma palavra de que sei pouco - nessa enorme montanha, escarpada e rugosa, a única coisa que entendo é a necessidade de a procurar, de nunca parar de a procurar. Se a descobrir diga-me, escreva-me uma carta, envie-me um e-mail. E entretanto não minta, dá jeito, agora ou depois.

Falar destas coisas não é uma regra de três simples. Porque as palavras escritas parecem sempre demasiado impositivas e carregadas de certezas, algo que tenho pouco. Ainda em torno da mentira e da verdade, conheci verdadeiras bestas com razão e delicodoces sem razão nenhuma. Também houve alturas em que, com défice de mimo, preferi os segundos aos primeiros; antes um arrazoado de disparates na boca de alguém amável do que um chorrilho de verdades dos que nos interpelam de uma maneira extemporânea.

Tenho as minhas fragilidades, ainda há quem me encante com a mansidão e me continue a dizer o que sei à partida que não está certo, mas entre as duas espécies prefiro os elefantes que partem tudo à volta com o que me faz pensar, me interpela e às vezes destrói.

A verdade é que vivemos várias vidas numa que parece única. Vemo-lo pelas fotografias; o rapaz que me dizem ter sido eu há trinta, vinte ou dez anos é parecido com o que sou hoje, reconheço-lhe traços e carácter, mas é um outro impossível de reconhecer sem luta ou dúvidas.

Como as cartas de amor, as que escrevi e me escreveram; ao lê-las é como se voltasse a um livro de juventude. Nessas cartas absolutas apenas o último amor interessa. Porque palavras assim são escritas sempre no pressuposto de que apenas aquele ou aquela existiram - para trás é uma cidade arqueológica, uma memória literária, quando muito a recordação de alguém que, sendo semelhante a nós, não é o mesmo que somos.

Tudo isto é bom, faz-nos ser gente em pleno. Passar os anos e ter lastro na viagem. As passas sabem-nos melhor se de cada vida, de cada estação de serviço, levarmos o melhor que conseguirmos. Aquele que eu fui aos 18 anos adorava comer barquinhos de doce de ovos e esperava envergonhado pela meia-noite para saber quantas prendas teria de desembrulhar, as saudades que tive desse rapaz. As saudades que tenho. 

Luis Osório

Poema a um amigo sem liberdade



Poema a um amigo sem liberdade

Quisera que por uns momentos vestisses a minha pele,
Meu irmão e meu amigo.
Quisera dar-te tragos da minha liberdade
Para voares para fora dessas paredes.

Tenho a certeza que saberias melhor do que eu
Vivê-la e aproveitá-la, minuto a minuto
Nós que a temos tão desperdiçada,
Para ti seria um novo começar.

Quisera que por uns momentos vestisses a minha pele,
Meu irmão e meu amigo.
Quisera poder trocar contigo
O teu sofrer, a tua solidão
A tua falta de liberdade.

Quisera que em breve não vestisses mais a minha pele,
Meu irmão e meu amigo.
Quisera que num abraço e em liberdade
Nos voltássemos a encontrar.

MNA

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O final do ano é dado a emotivos testemunhos sobre o que se passou durante 365 dias

O final do ano é dado a emotivos testemunhos sobre o que se passou durante 365 dias e manifestações de esperança para o seguinte, que apenas vai começar.

Acho que a introspeção deve ser feita não no final do ano mas antes com frequência e ao longo do mesmo, para evitar a acumulação de arrependimentos sobre atitudes e actuações negativas  que se tenham praticado e por outro lado sentirmo-nos encorajados pelo bem, que a cada momento, tentamos partilhar com os outros.

Mas, se conseguirmos focar a nossa atenção nos que nos rodeiam, esquecendo-nos de nós próprios, a satisfação encontrada supera de longe a recriminação que queiramos infligir-nos.

Há tanta gente para quem um novo ano não traz esperança de melhoria: refiro-me aos presos, aos doentes em estado terminal ou muito grave, aos sós, aos desempregados, aos pobres, aos soldados em guerras sem fim, às famílias que perderam nesses conflitos pessoas queridas, aos perseguidos politicamente e por crenças religiosas e a tantas outras pessoas que sofrem e assim continuarão no próximo ano.

Tenho por isso para mim, que devemos para 2015, fixar-nos em pequenos objectivos a cumprir para essas pessoas com quem interagimos, ao nosso nível, sem vontade desmedida de abarcar lunaticamente o mundo todo.

O que se nos pede é que continuemos ou que iniciemos qualquer coisa de palpável, concreto e realizável para que a transição de um para outro ano seja realmente uma realidade no que se refere ao nosso compromisso para com terceiros.

As nossas causas e as nossas lutas e cruzadas, têm que ser prosseguidas com bom senso, realismo, com sensibilidade e estratégia, com o desejo último de conseguir resultados, numa palavra: vencer!

Para isso é importante termos a noção exacta das nossas “forças” e capacidades, a necessidade de trabalhar em equipa e a coragem de não desistir nunca de “speak up” a verdade e entregar-nos sem medo à defesa daquilo por que lutamos.

Não me refiro a quixotismos, nem a moinhos de vento! 

Talvez até as nossas vitórias pessoais e com terceiros, comecem a princípio por nos deixarmos descobrir pelos outros e com surpresa e encantamento recebermos um retorno caloroso, agradecido e potencialmente desmedido em esperança.

Por isso, apelo a que nos entreajudemos como cidadãos a mudar o curso do nosso país, da nossa vida colectiva e pessoal e a de tanta gente que precisa de nós.