terça-feira, 25 de novembro de 2014
entre os muros de uma prisão
Este caso da prisão preventiva do ex-Primeiro Ministro, fez-me reflectir para além da circunstância de ser quem é. Muito se tem dito nos últimos dias e o tempo provará da justeza ou não, das medidas adoptadas e das culpas imputadas.
Não é isso que me interessa agora, apesar de ter a minha opinião, o que é irrelevante, pois o que tiver que acontecer, acontecerá.
Hoje na minha aula a prisioneiros estrangeiros na prisão de Alta Segurança, preferi ouvir os comentários dos “meus” reclusos e fui tomando umas notas:
Primeiro: nunca nenhum prisioneiro se alegra pela entrada de mais um;
Segundo: há desde logo uma solidariedade que é manifestada, independentemente das causas presumidas ou conhecidas, salvo no caso de crimes especialíssimos;
Terceiro: a privação da liberdade torna os que já lá estão melancólicos e sonhadores e hoje, como que se fez um prolongado silêncio. Não disseram muitas mais palavras!
Dei-lhes um exercício escrito para fazerem em português sobre a música e qual o tipo de que mais gostavam. Entretanto, na biblioteca ao lado da sala de aulas, ouviam-se os sons do Concerto de Piano de Shostakovitch, nº2 em F, Opus 102, 2 andante, que eu escolhera. Seguir-se-ia Mahler, depois Lizt, Ravel e Debussy.
E os lápis, porque não podem escrever com canetas – um mistério – escrevinhavam rápido. Via-se que estavam deliciados por poderem, excepcionalmente, ouvirem um pouco de música.
Eu fechei os olhos e fiquei absorto num espaço fechado a sete chaves, com guardas armados até aos dentes a passarem no corredor, com uma câmara a vigiar todos os actos.
E pensei que lá fora, há tanto ruído, tantas certezas e julgamentos precipitados, apaixonados e pouca vontade de perdoar, mesmo nas faltas e nas falhas.
Nem me passa pela cabeça não concordar com sanções para quem tenha prevaricado, e sendo os indícios ou culpas relativas a prejuízos causados à sociedade civil pelo enriquecimento ilícito próprio ou de outro tipo de crime grave, mais obrigação tem a Justiça de actuar, julgar e punir, estando os factos provados.
Mas, a maioria das pessoas não sabe que no momento em que se dá entrada numa prisão, cai um silêncio aterrador sobre cada recluso, uma solidão e mesmo em regimes mais abertos, tudo muda.
E curiosamente, começa ou pode começar para cada recluso, a regeneração com vista à reinserção, no dia em que voltem à liberdade.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
passeio a pé por Lisboa
Tive esta manhã uma reunião próxima da Av. Almirante Reis. Como estava um
fim de manhã esplendoroso, vim a pé desde o Intendente até ao Rossio.
Nunca tinha ido à zona renovada das antigas prestitutes..ahaha..e achei
limpa, clara e com bom aspecto. É claro que era meio-dia!
Depois fui perdendo tempo, parando a cada montra a ver que lojas eram
aquelas…muito engraçado andar a pé por Lisboa, o que faço muito, e sobretudo
por zonas aonde eventualmente passo de carro e de fugida, a não ser que vá
jantar ao Ramiro!
Fiquei pasmado pela profusão de lojas chinesas com bom aspecto e
oferecendo, tal como em qualquer outra capital mundial, todos os produtos
necessários à cozinha oriental, tais como panelas, tachos, recipientes próprios
para os diversos alimentos, e uma enorme variedade de legumes e outras iguarias…achei
formidável e divertido.
No Martim Moniz, entrei na Capelinha da venerada Senhora da Saúde e fui
meter o nariz no Centro Comercial, cheio, igualmente de espaços com produtos
orientais (chineses, indianos, paquistaneses, etc).
Se se quiser verdadeiramente comer como na China há uns quantos restaurantes
caseiros, modestos e pouco apetitosos aonde se reserva uma mesa e refeição por
encomenda, mas aonde a qualidade é excelente. O preço, como dizem os nuestros
hermanos, é tirado!
Segui depois para a Praça da Figueira e fui constatando a existência de toda uma série de
comércios tradicionais que já não existem em nenhuma cidade senão em zonas
localizadas.
Acabei no Rossio aonde me sentei na esplanada da pastelaria Suíça, desfrutando um belo sol. Do outro lado o café Nicola, está sempre muito tapado e
hoje apetecia luz e o astro-rei.
Fui buscar o carro ao parque dos Restauradores sem, no entanto, ter deixado de passar
em frente do Gambrinus no lado da Rua das Portas de Santo Antão, aonde uns lagostins,
gambas e lagostas bem vivas aguçavam a boca e o bolso dos passantes.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Be careful
Povos poderosos e longínquos suscitam muitas vezes suspeitas quanto à seriedade, capacidade e experiência nas negociações internacionais de grandes contratos. Há como que uma espécie de snobeira dos principais países europeus quando enfrentam a China, a Rússia, a Coreia do Sul, a Indonésia, naturalmente havendo sempre honrosas excepções.
Tenho anos de viagens e contactos com estes países, nomeadamente os dois primeiros e concordando que a China tem uma cultura negocial muito própria bem como a Rússia tem a arrogância do segundo país mais poderoso do mundo, é no entanto indiscutível que dispõem de meios financeiros incomparáveis para investir um pouco por todo o mundo.
Tornam-se por isso parceiros apetecíveis e tenho visto muito bom empresário tradicional transformar-se em fogoso, ambicioso e cúmplice interlocutor, perdendo a habitual compostura ética perante os procedimentos usuais nestes países.
Quero com isto dizer que a prática de corrupção seja ela activa ou passiva, tem a ver com limites, que são ou não ultrapassados consoante muitas e variegadas circunstâncias.
Na base está sempre o dinheiro e o poder. Vem isto a propósito destes recentes incidentes que despoletaram esta purga na concessão dos vistos gold, bem como no caso BES/GES.
Uma vez, estando eu em Banguecoque em trabalho e conhecendo um diplomata jovem da Embaixada dos Estados Unidos aí sediado, foi-me por ele contado um caso “fresquinho” acabado de acontecer:
- O número 2 da Embaixada, responsável entre outros domínios pela aprovação de verbas para a aquisição de material sensível de segurança, recebeu uma proposta para o fornecimento de um determinado equipamento. Como lhe competia, preparou um “file” e enviou, com o consentimento do seu superior hierárquico, o Embaixador, para o Departamento de Estado, em Washington, para aprovação de uma verba significativa. Acrescentava, que havia uma comissão de 5% e perguntava o que deveria fazer.
Passou-se um mês e não veio nenhuma resposta dos USA e o fornecedor submeteu nova proposta, agora com uma comissão de 10%.
O referido diplomata comunicou a pressão recebida e novamente inquiriu sobre o destino a dar à referida comissão.
Passaram mais 3 meses e o silêncio persistia. Nova proposta, desta vez com uma comissão de 20% a ser depositada na conta do diplomata.
Concluiu o meu amigo e colega do outro: acabou por sair da Embaixada pois pediu, “estranhamente” uma licença sem vencimento e dedicou-se a negócios privados.
O material foi adquirido pelo preço apresentado que tinha cabimento orçamental e a comissão foi parar às mãos de um zeloso funcionário que a dado momento foi superado pelos seus próprios limites de resistência à corrupção.
Conclusão: escolha trabalhar em empresas pobres, mal pagas e sem perigo de serem tentadas por gulosos corruptores….ahahaah
Ainda hoje, depois de ela já ter morrido há anos, tenho uma vaga suspeita que a Emília, cozinheira de casa dos meus Pais durante 50 anos, teria tido as suas fraquezas corrupcionais na praça, na peixaria e no talho e quiçá no merceeiro…mas sendo tão excelente “cordon bleu” está certamente perdoada e até ao que tudo indica ao serviço do Altíssimo, no Céu…ahahaah
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
ter prazer em fazer negócios
Estive toda a manhã numa reunião de quadros de uma instituição estrangeira,
a fechar algumas transacções.Negociações difíceis, em inglês e alemão, mas gente competente e
transparente à volta da mesa.
Pergunto-me sempre, de que vale a pena tentar enganar os outros, na
esperança de que sejam tolos sabendo desde o princípio que nada se concluirá?
Em países em crise como o nosso, tudo vale e contam-se pelos dedos quem
tenha realismo e sobretudo o critério de deixar que os outros também beneficiem
dos ganhos num negócio mútuo.
É muito retemperador encontrar pessoas decentes, prudentes e ponderadas,
com limites na ambição desenfreada e excelentes profissionais.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
como umas aulas numa cadeia de alta segurança me podem fazer tão bem
Hoje foi mais um dia de aulas na cadeia aonde ensino Português a estrangeiros. Estavam sequiosos por conversa.
Tinha preparado um teste gramatical para 4 deles e uma composição para um outro que tinha faltado à última aula. O tema proposto foi o do que quereriam fazer, quando um dia estivessem em liberdade.
Mal arranjaram um pretexto para interromperem, foi galhofa, conversa solta entre eles, pois não se vêem entre si. Cada um tem a sua cela aonde passa os dias fechado, só com 2 horas de pátio murado e nunca com mais de 3 reclusos, que variam a cada dia.
Eu assisto, participando também, intervindo quando me pedem.
Quando saí, disse para as orientadoras já longe das celas: cada dia que venho, sinto-me melhor pessoa.
E não desvendo eu, o que lá dentro se passa em termos das nossas conversas, as suas angústias, solidão, os seus planos de futuro, as suas tristezas, desespero. Mas também, com o meu optimismo e boa disposição, rimos e contamos histórias divertidas e sinto que tanto para eles como para mim, é um novo mundo que se vai construindo.
Pode parecer ridículo e obsessivo esta minha dedicação a esta causa, e aceito que se torne maçador para os meus leitores, só que não desistirei de trazer um pouco mais de humanidade, de compreensão e de ternura a quem se sente incompreendido.
Bem sei que me contra-argumentarão que estando presos numa cadeia de alta segurança, alguma coisa terão feito e aparentemente de grave. Sim e não.
Há crimes e crimes, e há agentes desses crimes que são distintos uns dos outros e com graus de culpa e com consequências causadas que variam muito em importância e gravidade.
Por isso, antes de mais é necessária uma atitude expressa de perdão, de escuta, de ajuda no recomeçar.
Estou sempre a repetir-lhes que a vida cá fora, não é um mar de rosas e que é dura e difícil, e cruel e injusta e dolorosa para tanta gente que oficialmente está livre, mas tantas vezes presa à sua infelicidade.
Eles olham com um ar sonhador…rapazes novos, com já 4 a 5 anos de reclusão total sem nunca terem saído para um campo verde, sequer, da própria cadeia, com a possibilidade de tocarem fisicamente num abraço, num afago, a quem mais gostem, UMA VEZ POR ANO! há qualquer coisa na lei, que é feita por monstros legisladores, que nunca puseram os pés numa cela de uma prisão de alta segurança…
E esta é a minha luta diária pela melhoria das condições, com vista ao que o mundo da doutrina nesta matéria apregoa cinicamente de reinserção na sociedade civil…nestes termos é indignante, inoperativa e contraproducente.
Oxalá possa ir encontrando almas gémeas que comigo possam ir dando apoio e encorajamento para a mudança.
Quando saí, disse para as orientadoras já longe das celas: cada dia que venho, sinto-me melhor pessoa.
E não desvendo eu, o que lá dentro se passa em termos das nossas conversas, as suas angústias, solidão, os seus planos de futuro, as suas tristezas, desespero. Mas também, com o meu optimismo e boa disposição, rimos e contamos histórias divertidas e sinto que tanto para eles como para mim, é um novo mundo que se vai construindo.
Pode parecer ridículo e obsessivo esta minha dedicação a esta causa, e aceito que se torne maçador para os meus leitores, só que não desistirei de trazer um pouco mais de humanidade, de compreensão e de ternura a quem se sente incompreendido.
Bem sei que me contra-argumentarão que estando presos numa cadeia de alta segurança, alguma coisa terão feito e aparentemente de grave. Sim e não.
Há crimes e crimes, e há agentes desses crimes que são distintos uns dos outros e com graus de culpa e com consequências causadas que variam muito em importância e gravidade.
Por isso, antes de mais é necessária uma atitude expressa de perdão, de escuta, de ajuda no recomeçar.
Estou sempre a repetir-lhes que a vida cá fora, não é um mar de rosas e que é dura e difícil, e cruel e injusta e dolorosa para tanta gente que oficialmente está livre, mas tantas vezes presa à sua infelicidade.
Eles olham com um ar sonhador…rapazes novos, com já 4 a 5 anos de reclusão total sem nunca terem saído para um campo verde, sequer, da própria cadeia, com a possibilidade de tocarem fisicamente num abraço, num afago, a quem mais gostem, UMA VEZ POR ANO! há qualquer coisa na lei, que é feita por monstros legisladores, que nunca puseram os pés numa cela de uma prisão de alta segurança…
E esta é a minha luta diária pela melhoria das condições, com vista ao que o mundo da doutrina nesta matéria apregoa cinicamente de reinserção na sociedade civil…nestes termos é indignante, inoperativa e contraproducente.
Oxalá possa ir encontrando almas gémeas que comigo possam ir dando apoio e encorajamento para a mudança.
Trisavô que disse em ar de nada que ia ali comprar uns biscoitos e que voltava.....!
Estive
a arrumar uns papéis antigos do arquivo familiar que estão aqui em
Lisboa e encontrei uma carta de uma Trisavó materna para a Mãe dela,
queixando-se do marido.
E que queixa era essa? Toda a vida ouvi na minha família a narração deste Trisavô que disse em ar de nada que ia ali comprar uns biscoitos e que voltava, nunca mais tendo regressado até hoje! Suspeitamos que qual Dom Sebastião, ainda possa aparecer montado a cavalo no meio do nevoeiro…
Naturalmente que esta carta à minha Tetravó é triste, pois o safado deixou a mulher e três graciosas filhas donzelas abandonadas, e não fora o apoio dado pela família, tenho dúvidas que este vosso criado, pudesse estar a escrever estas saudosas linhas sobre tão estuporado avoengo…
E que queixa era essa? Toda a vida ouvi na minha família a narração deste Trisavô que disse em ar de nada que ia ali comprar uns biscoitos e que voltava, nunca mais tendo regressado até hoje! Suspeitamos que qual Dom Sebastião, ainda possa aparecer montado a cavalo no meio do nevoeiro…
Naturalmente que esta carta à minha Tetravó é triste, pois o safado deixou a mulher e três graciosas filhas donzelas abandonadas, e não fora o apoio dado pela família, tenho dúvidas que este vosso criado, pudesse estar a escrever estas saudosas linhas sobre tão estuporado avoengo…
Com esta carta, reli uma muito posterior dirigida por ela à mesma Mãe,
narrando-lhe como estava feliz, rica e com uma excelente vida, tendo as
filhas educadas nos melhores colégios.
Acontece que este súbito desaparecimento redundou na sorte grande, pois o Avô que o substituiu tinha vastas roças e minas em S.Tomé e Angola, era um fidalgo muito bem aparentado e proporcionou à descendência não só um estadão de vida internacional, pois adorava fazer viagens por todo o mundo, como deixou vasto património cultural – livros preciosos, pinturas de autores excelentes e conhecidos, baixelas de prata e móveis de grande beleza e qualidade, colecções de moedas de ouro, as ditas minas, não de Salomão, mas parecidas, casas, quintas que vinham do seu lado, e deu aos meus Avós e Tios Avós uma esmeradíssima educação.
Eram uns verdadeiros “sportsmen”, nomeadamente na esgrima e na paródia, frequentando a melhor sociedade.
Fiquei a cogitar o que motivaria uma tão escandalosa partida, deixando tudo para trás. Fica-se a saber que já naqueles tempos, quando a convivência se tornava insuportável, intolerável e massacrante, o melhor remédio era a libertação total e o corte definitivo. Cada um sabe de si e Deus Nosso Senhor de todos...
Ele era “galante uomo”, muito letrado e dado à escrita e à poesia, e tanto quanto sei, pouco dado à gestão da fortuna familiar. Gostando mais de salões literários e de fados e guitarradas sendo pouco atreito a uma vida severa familiar, com uma estrita educação religiosa.
Usava esta frase nos seus escritos que copiei para mote do meu blogue: …”J'agace mon millieu, et alors! C'est le cadet de mes soucis” !
Quem sai aos seus, não é de Genebra…
Acontece que este súbito desaparecimento redundou na sorte grande, pois o Avô que o substituiu tinha vastas roças e minas em S.Tomé e Angola, era um fidalgo muito bem aparentado e proporcionou à descendência não só um estadão de vida internacional, pois adorava fazer viagens por todo o mundo, como deixou vasto património cultural – livros preciosos, pinturas de autores excelentes e conhecidos, baixelas de prata e móveis de grande beleza e qualidade, colecções de moedas de ouro, as ditas minas, não de Salomão, mas parecidas, casas, quintas que vinham do seu lado, e deu aos meus Avós e Tios Avós uma esmeradíssima educação.
Eram uns verdadeiros “sportsmen”, nomeadamente na esgrima e na paródia, frequentando a melhor sociedade.
Fiquei a cogitar o que motivaria uma tão escandalosa partida, deixando tudo para trás. Fica-se a saber que já naqueles tempos, quando a convivência se tornava insuportável, intolerável e massacrante, o melhor remédio era a libertação total e o corte definitivo. Cada um sabe de si e Deus Nosso Senhor de todos...
Ele era “galante uomo”, muito letrado e dado à escrita e à poesia, e tanto quanto sei, pouco dado à gestão da fortuna familiar. Gostando mais de salões literários e de fados e guitarradas sendo pouco atreito a uma vida severa familiar, com uma estrita educação religiosa.
Usava esta frase nos seus escritos que copiei para mote do meu blogue: …”J'agace mon millieu, et alors! C'est le cadet de mes soucis” !
Quem sai aos seus, não é de Genebra…
domingo, 16 de novembro de 2014
a atenção aos pequenos detalhes
Das coisas mais importantes para uma convivência bem sucedida entre dois seres humanos, é a atenção aos pequenos detalhes.
Parece que Napoleão ditava 10 cartas ao mesmo tempo ou pelo menos a dez assistentes e consta que Marcelo Rebelo de Sousa tem também um bom score.
Desespero quando alguém que está com um iPhone nas mãos, não consegue ao mesmo tempo prestar atenção a uma frase, a uma saudação, a um comentário sobre o que passa no ecrã da televisão ou na janela….e pergunta 5 ou 10 minutos depois, ahn?
Esta falta de atenção “panorâmica simultânea” para falar em termos de
odontologia por referência às ditas radiografias, pode trazer omissões
sem retorno do visionamento de um lapso de segundo vital num programa de
televisão ou musical, de um comentário de voz, de uma decisão urgente a
tomar que não se padece com o decorrer do tempo…
E o que mais irrita é que essas pessoas ainda se sentem insultadas se fazemos um reparo.
O mesmo se diga, de comprar, por exemplo, bananas por ser do que se gosta em vez de outra fruta de maior agrado da outra parte, eu sei lá…tanta coisa que torna a solidão um apetecido remédio.
Alguém citava um grande egoísta conhecido, que dizia que o mais importante era o gostarmos de nós próprios, e esta hein?
E o que mais irrita é que essas pessoas ainda se sentem insultadas se fazemos um reparo.
O mesmo se diga, de comprar, por exemplo, bananas por ser do que se gosta em vez de outra fruta de maior agrado da outra parte, eu sei lá…tanta coisa que torna a solidão um apetecido remédio.
Alguém citava um grande egoísta conhecido, que dizia que o mais importante era o gostarmos de nós próprios, e esta hein?
sábado, 15 de novembro de 2014
Sumido de Luís Fernando Veríssimo
Me disseram "Você anda sumido" e me dei conta de que era verdade. Eu também, fazia tempo que não me via. O que teria acontecido comigo? Não me encontrava nos lugares em que costumava ir. Perguntava por mim e as pessoas diziam "É verdade, você anda sumido". E "Que fim levou você?" Eu não tinha a menor ideia que fim tinha me levado. A última vez em que me vira fora, deixa ver... Eu não me lembrava!
Eu teria morrido? Impossível, na última vez em que me vira eu estava bem. Não tinha, que eu soubesse, nenhum problema grave de saúde. E, mesmo, eu teria visto o convite para o meu enterro no jornal. O nome fatalmente me chamaria a atenção.
Eu podia ter mudado de cidade. Era isso. Podia ter ido para outro lugar, podia estar em outro lugar naquele momento. Mas por que iria embora assim, sem dizer nada para ninguém, sem me despedir nem de mim? Sempre fomos tão ligados.
No outro dia fui a um lugar que eu costumava frequentar muito e perguntei se tinham me visto. Não era gente conhecida, precisei me descrever. Não foi difícil porque me usei como modelo. "Eu sou um cara, assim, como eu. Mesma altura, tudo". Não tinham me visto. Que coisa. Pensei: como é que alguém pode simplesmente desaparecer desse jeito?
Foi então que comecei, confesso, a pensar nas vantagens de estar sumido. Não me encontrar em lugar algum me dava uma espécie de liberdade. Podia fazer o que bem entendesse, sem o risco de dar comigo e eu dizer "Você, hein?". Mudei por completo de comportamento. Me tornei - outro! Que maravilha. Agora, mesmo que me encontrasse, eu não me reconheceria.
Comecei a fazer coisas que até eu duvidaria, se fosse eu. O que mais gostava de ouvir das pessoas espantadas com a minha mudança era: "Nem parece você". Claro que não parecia eu. Eu não era eu. Eu era outro!
Passei a me exceder, embriagado pela minha nova liberdade. A verdade é que estar longe dos meus olhos me deixou fora de mim. Ou fora do outro. E um dia ouvi uma mulher indignada com o meu assédio gritar "Você não se enxerga, não?" E então, tive a revelação.
Claro, era isso. Eu não estava sumido. Eu simplesmente não me enxergava. Como podia me encontrar nos lugares onde me procurava se não me enxergava? Todo aquele tempo eu estivera lá, presente, embaixo, por assim dizer, do meu nariz, e não me vira.
Por um lado, fiquei aliviado. Eu estava vivo e bem, não precisava me preocupar. Por outro lado, foi uma decepção. Concluí que não tem jeito, estamos sempre, irremediavelmente, conosco, mesmo quando pensamos ter nos livrado de nós.
A gente não desaparece. A gente às vezes só não se enxerga.
Luís Fernando Veríssimo
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Teus olhos entristecem
Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa
Collette
Collette levantara-se nessa manhã de sábado que se anunciava de sol de verão e quente, com vontade de descer de Saint Germain en Laye aonde morava, até Paris e de lá passar o fim-de-semana.
Tinha sido uma noite de enfadonha actividade sexual com o actual pseudo namorado e a bem dizer, queria novidade. Não que ele não fizesse bem o amor, mas a rotina instalara-se e Collette procurava novas emoções e talvez até um Monsieur, naturalmente mais velho do que ela que lhe desse estabilidade, um pequeno apartamento moderno e cosy, dali podendo fazer planos de futuro, quem sabe se uma carreira no teatro ou na moda, ou até ter um filho ou filha para a ampararem na velhice.
Nos seus esplendorosos 25 anos, não fazia muito sentido pensar na velhice, mas o conforto que o Monsieur lhe proporcionasse, já era um investimento antecipado.
Pôs-se nua, olhou-se no espelho e começou a mover-se sensualmente, ora valorizando os seios grandes e bem proporcionados com uns bicos salientes e rosados, ora mostrando as ancas e as nádegas, tudo roliço, sem gorduras nem celulite, roçando as mãos lenta e voluptuosamente pela pele suave e descendo-as até à zona púbica.
Sabia bem como o seu corpo excitava os homens com quem estava e as pernas bem feitas terminando nuns pés perfeitos com unhas bem cuidadas, lembraram-lhe que teria que ir vestida com roupa leve e provocadora, no fundo como as grandes coquettes da belle-époque, deixando vislumbrar o necessário para despertar os sentidos com o fruto escondido.
O problema era sempre o mesmo: falta de dinheiro! Quem vive do corpo, não tem avanços por conta e o fim do mês estava a chegar e com o namorado era free love!
Por isso teria que ficar mais uma vez num hotel de segunda, o Hotel Berkeley em Montparnasse. Aí fiavam e no fim da estadia logo compunha as contas, até muitas vezes nem era ela a pagar, pelo menos as despesas do hotel, pois dependendo da satisfação do cliente, era generosamente compensada.
Sabia que num hotel de 2ª, dificilmente encontraria um Monsieur, como ela sonhava, mas dali partia para jantar ou cear ou beber um copo em restaurantes mais sofisticados ou numa discoteca e tudo era possível.
Meteu num nécessaire, umas calcinhas minúsculas e hiper-sensuais, as pinturas e um soutien que lhe valorizasse os bicos do peito, que ela constatava porem a maioria dos homens em fogo sendo sempre o prenúncio de grandes desenvolvimentos.
Ela era pragmática, quase nunca tinha prazer com clientes, havia-os tão loucos e depravados, que hoje em dia até era perigoso. Tudo quanto metesse dor e sofrimento, sadomasoquismo, e fantasias excessivas, era firme e recusava, mas para não perder o cliente tinha uma prodigiosa imaginação de chatte provocadora e irresistível.
Nunca se esquecia de meter na carteira uma pequena medalhinha da Notre Dame du Bac, cujo santuário era na rue du bac no centro de Paris, de muita devoção das putas pois, dizia-se que ao ter aparecido a Santa Catarina Labouré, as Monjas dedicando-se à protecção dos pobres e das prostitutas, ali as recebiam em acolhimento e protecção na velhice.
Não era nada religiosa, era um pouco supersticiosa e era devota do prazer carnal, vivo e sensual, e rebolava-se na cama de muitos homens.
Parecia um contra senso, mas a sensação que transmitia aos homens que com ela dormiam era a de perfeitos orgasmos, de um prazer infinito que pretendia sentir com as performances masculinas e por isso o porteiro da noite do Hotel Berkeley, a troco de uns cobres, procurava-lhe sempre o melhor produto que o hotel pudesse oferecer como clientes endinheirados.
Havia a técnica de a introduzir no quarto de algum cliente que, estando ausente durante o dia, ao regressar encontrasse a sua cama recheada com um bombom daqueles.
Claro, já tinha havido protestos de clientes indignados que ou por princípios, ou por cansaço de dias de trabalho intensos, queriam pura e simplesmente dormir sozinhos!
Chegada ao Hotel Berkeley por volta das 17h, o concierge meteu dois dedos de conversa com ela sobre tudo e nada, e referiu-lhe que tinham chegado nessa manhã dois estrangeiros que vinham ao engano, pois tinham aspecto de frequentadores de hotéis de luxo e um deles até, o mais alto, teria dito que só regressava ao fim da noite e que queria um quarto decente e confortável, senão mudaria de albergue!
Dera-lhe o número 10, o habitual do canto, discreto, no primeiro andar, com uma cama grande de casal e tinha verificado que seria homem de dinheiro, pois a mala de fim de semana era de pele e tinha a assinatura de Lancel. Ousara abri-la na sua ausência e encontrara o normal de um saco de homem, mas o set de toilette era cuidado e com óptimos produtos de beleza e água-de-colónia de marca. Acresce que deixara como garantia do pagamento de extras, um cartão de crédito gold do American Express.
Enquanto passavam as horas, Collette tinha ido comer algo a um bistrot em frente e ao beberricar um copo de bom vinho tinto, pusera-se a pensar que naquela noite, apetecia-lhe uma fantasia e deixar-se apaixonar pelo cliente ou pelo menos assim demonstrar e gozar sexualmente como se não fosse uma puta. Já há meses que precisava de se entregar e a descrição do concierge era de molde a poder encontrar uma aliança promissora entre uma aventura e talvez uma companhia para outras viagens.
Tarde na noite, por volta das 22h quando se introduziu no quarto, escolheu criteriosamente como o deveria receber quando com espanto, ele realizasse que tinha companhia.
Se saísse completamente nua e pretensamente estremunhada da cama quando a porta se abrisse, parecia-lhe vulgar e sem classe.
Poria as calcinhas minúsculas que deixavam à mostra as curvas perfeitas das nádegas e uma sombra na parte da frente, e hesitou se deveria por o soutien que lhe valorizava os seios, ou os devia expor com descaramento, ainda que com encenação.
Nessa noite, sentia o desejo de não ter que representar e seria com naturalidade que agiria adaptando-se às circunstâncias.
Chegados ao Hotel Berkeley, Manuel e António deram-se as boas noites e conversaram mais uma vez sobre a reunião do dia e às tantas António foi subindo para o 3º andar, pois tinha a chave do quarto.
Manuel tinha deixado a chave na portaria e ficou muito irritado quando o concierge lhe disse que não a tinha e que a devia ter levado consigo na pasta.
- Não levei – disse furioso – e lembro-me bem de a ter deixado à sua colega dizendo-lhe que não precisava dela durante o dia, pois estaria fora em reuniões só regressando à noite – acrescentei, com crescente impaciência.
- E agora, como vamos fazer? Quero ir deitar-me já! – disse com uma total falta de pachorra.
- Vou eu lá a cima com Monsieur, abrir a porta com a chave-mestra.
Metemo-nos no elevador e como era no 1º andar, foi rápido e chegámos à porta. Ele abriu-a e eu acendi a luz no interruptor do quarto junto à porta, pela parte de dentro.
Olho para o quarto numa vista rápida e constato duas coisas absolutamente inesperadas: um nécessaire aberto ao lado do meu saco de fim-de-semana e um vulto feminino, que se levanta da cama, de entre as roupas, estremunhada.
Fiquei uns segundos sem palavras, estupefacto, e virei-me para o concierge que me olhava cautelosamente embaraçado, à espera da minha reacção.
Perguntei-lhe o que era aquilo e ele disse-me que devia ter havido engano, que ia lá abaixo verificar e logo voltaria para tudo se esclarecer.
Respirando fundo, olho com algum pudor para uma criatura deliciosa e pergunto-lhe o que faz ali.
Disse-me que morava fora de Paris e que devia ter havido uma troca de quartos, mas como o hotel estava cheio, e aparentemente a chave estava na portaria, o concierge inadvertidamente teria considerado o quarto livre.
Fechei a porta pois já chegava de falta de reserva.
O concierge voltou uma meia hora depois, entreabriu sem barulho a porta do quarto e disse em voz baixa: bonne nuit Mlle Collette!
In "Contos Breves" de Vicente Mais ou Menos de Souza
o segredo da Quinta da Esteva - Contos breves
Desde que a Mãe morrera, Luís vivia sozinho na Quinta da Esteva, perto de
Anadia. A entrada era através de um portão senhorial, com um arco de pedra
sustentado em duas colunas com as armas dos Canedos.
Estes Canedos, provinham de uma antiga família de Castela que tinha servido
os diversos monarcas e viera para Portugal numa das múltiplas incursões ao
longo dos séculos.
Na sala principal, com tectos de caixotão e uma lareira antiga com uma
bordadura de pedra aonde Luís expusera uma série de fotografias da sua Mãe,
estava por cima pendurado um retrato
pintado de Don Pablo de Orilla y Valdesqués, antepassado da família nos princípios
do século XIX, solteiro, muito bem-parecido, de olhos azúis e tez clara e de
cabelos aloirados.
Luís sempre se perguntara sobre a história deste parente, e tanto do Pai
como da Mãe só conseguiu arrancar que era considerado na família como um
excêntrico.
Sentia uma enorme atracção pela figura do retratado e quando de noite, com
insónias, vinha para a sala, olhava-o na penumbra e tentava adivinhar o seu
passado.
Quando terminou os seus estudos em Coimbra – uma licenciatura em História –
regressou a Anadia e trouxe a memória de poucos amigos da vida académica.
Sempre se dera com os filhos dos caseiros, e a amizade que tinha pelo Leandro,
era a de um verdadeiro irmão, como se de sangue se tratasse.
A família Serro, já servia como feitores dos Canedo desde há cinco gerações
e eram tratados com toda a confiança e consideração, sempre tendo sido muito
respeitados.
Tinha, aliás, havido no passado, um episódio que estreitou ainda mais os
laços de mútua admiração, pois um Serro tinha salvado um Canedo de ser morto
durante as invasões francesas e evitado que a Casa fosse pilhada.
Luís passava os dias consultando o arquivo da família, no secreto desejo de
encontrar algum traço sobre a vida e existência de Don Pablo de Orilla.
Leandro era um rapaz bem encorpado, com olhos azuis e cabelo aloirado e
parecia tudo menos um moço do campo. Tinha um garbo e uma presença que era
muito falada por toda a gente.
Os seus pais, tinham nele muito orgulho e destinavam-lhe um futuro distinto
do de ser filho de caseiros. O Pai de Luís tinha-o mandado educar no liceu de Anadia pelo que ele tinha
umas letras e uma sólida formação. Era desportista e jogava à malha como
ninguém nas cercanias, corria, caçava, pescava e atirava ao arco.
Pelo seu lado, Luís era também alto e delgado de corpo, olhos castanhos
pestanudos, mãos de pele muito branca e dedos fininhos, pouco mexido, apesar de
fazer algum exercício diariamente pois gostava de passear, embrenhando-se pelas
matas da Quinta, durante boa parte do dia. O seu passeio preferido era ir até à “fonte dos amores”, aonde se dizia ter o poço, uma água que enfeitiçava
quem a bebesse. Passava horas melancólicas, em silêncio total e em contacto com
a Natureza.
Um dia, Leandro andando à caça por aquelas paragens, encontrou Luís junto à
fonte. Abraçaram-se e começaram a conversar. Já não se viam há uns meses, pois
este último tinha ido fazer uma viagem pela Espanha e tinha estado em Castela.
Descreveu-lhe como tinha gostado, e a conversa fluiu sobre outras frivolidades.
Às tantas, Luís falou-lhe no quadro grande por cima do fogão da sala e do
intrigado que andava em tentar saber mais sobre o seu antepassado, e olhando
para Leandro que o escutava de perfil com um raio de sol iluminando o seu
rosto, estremeceu, pois achou parecenças entre os dois. A cor dos cabelos e dos
olhos, o porte: mas disfarçou a emoção pois concluiu que se tornara numa
obsessão.
Regressando a casa, pôs-se de novo a pesquisar os documentos da época e
encontrou um testamento de um antepassado, que deixava os seus bens e a quinta ao seu
descendente Don Pablo e a uma filha, tida fora do casamento, um legado em
dinheiro e um anel de ouro com uma safira, em homenagem à cor azul dos seus
olhos. E mais não dizia, nem indicava o nome da legatária.
Luís ficou a cismar e decidiu que havia de conversar com
Leandro sobre o anel e o legado, pois achava uma descoberta fascinante e um
progresso nas suas pesquisas.
Continuando a folhear papéis, encontrou um envelope fechado e lacrado com as
armas dos Canedo e com uma inscrição: Abrir só em caso de necessidade.
Datava do princípio do século XIX e a tinta e letra mantinham-se em bom
estado de conservação.
Luís, excitado, partiu o lacre e desdobrou o documento que continha um
texto que o surpreendeu, pois acabara de encontrar a resposta às suas dúvidas.
Mandou recado a Leandro para se encontrarem a seguir ao jantar na Casa da
Quinta e esperou ansioso que as horas passassem.
Assim que Leandro entrou na sala, de camisa branca impecável aberta no
peito, com umas calças justas de algodão e o cabelo loiro descaído sobre a
testa, de repente parecia que o retratado tinha saído do quadro e que Don Pablo
de Orilla estava vivo e ali presente.
Abraçaram-se e Luís disse-lhe de chofre:
- Já viste que és igual ao do quadro?
Leandro, olhou devagar e ficou calado uns momentos.
- Talvez, mas como seria possível tal coisa? – concluiu.
Luís falou-lhe da carta lacrada, e começou a contar-lhe sobre o que
descobrira:
- o meu Trisavô, deixou escrito no testamento que entregassem dinheiro e um
anel de ouro com uma safira a uma filha bastarda, cujos olhos azúis, eram assim
lembrados na pedra preciosa.
Leandro, com uma enorme estupefacção, confirmou a Luís haver em sua casa um
anel que correspondia a esta descrição.
E Luís continuou: a carta descrevia que o seu filho segundo, de nome Pablo,
não gostava de mulheres, pondo em risco a sucessão no vínculo o que muito o entristecia. Narrava ainda que andava perdido de amores por
um dos filhos dos caseiros, o que o fazia ter que guardar este segredo, pois a
filha fóra do matrimónio que tivera, era da mulher do feitor e por isso mãe, do
dito amante do seu filho.
Ficaram ambos em silêncio, e após uns bons minutos, caíram nos braços um
dos outro, tratando-se por primos e Luís mandou abrir uma garrafa de xerez para
comemorarem a nova descoberta.
Dizem as crónicas que os pássaros que poisavam na árvore em frente do
quarto de Luís viram, através da janela entreaberta, os dois primos, pelo
nascer do sol, muito abraçados na cama e com os lençóis em desalinho.
In "Contos breves" de Vicente Mais ou Menos de Souza
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