terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Olvido do BES/GES


Que sean muy felices mientras yo busco olvido!

à procura de uma sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo:uma vogal,
uma consoante,quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro,da estiagem
do verão.Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação. 


Eugénio de Andrade.

Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?


Foi em 63 a. C., que Cícero proclamou: "O tempora, o mores... “Até quando, ó Catilina, abusarás de nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos haverá de precipitar a tua audácia sem freio?” (Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? quam diu etiam furor iste tuus nos eludet? quem ad finem sese effrenata iactabit audacia?)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pequeno poema


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...

Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, in 'Antologia Poética'

domingo, 7 de dezembro de 2014

Memórias sobre a Minha Mãe


Hoje fez sete anos que a minha Mãe morreu. Uma amiga minha pediu-me para escrever sobre a sua memória.

Quem a conheceu lembra-se bem das suas características, por isso não vou maçá-los com o que sinto de saudades, da sua falta e do seu apoio.

Foram reflexões que me acompanharam durante o dia, mas sem dramas.

Prefiro partilhar convosco como é importante numa Família, os Pais darem-se bem e deixarem como herança para os Filhos, um acervo de boas recordações, uma estabilidade interior e um equilíbrio emocional que permite arrostar os altos e baixos da vida, com coragem, resignação e tranquilidade, ainda que com sofrimento, por vezes.

No meu caso e sendo sete irmãos, dos quais 4 rapazes e 3 raparigas, posso certificar e atestar como se diz no direito, que somos fruto de um amor grande entre os nossos Pais. Uma grande cumplicidade, um respeito mútuo e um companheirismo durante a vida toda fizeram com que para nós surgisse como natural que a felicidade estava ali ao virar da esquina ao nosso alcance.

Mais alguns ingredientes essenciais para que tudo isto tivesse bem funcionado: uma sólida fortuna familiar, educação e cultura, viagens por todo o mundo implicando abertura a outras culturas e civilizações, e com imensa sorte para nós os netos, serem ambos filhos únicos.

Conhecemos todos os Avós, 70% dos Bisavós que de excelente saúde duraram todos até muito tarde.
Originários de várias partidas, desde a Europa até às Índias, com distintos tipos de formação académica, com diversos bons níveis de inteligência e interesse, diria que todos bastante completos e ricos de personalidades, formaram um caldo de cultura e uma carapaça de grande qualidade de que beneficiámos, nós, os sete infantes…

Habituámo-nos a ver como gostavam de nós, como conseguiam superar as suas diferenças e desencontros em nosso benefício e cuidando que pudéssemos ir construindo uma vida polifacetada, equilibrada, estando sempre por trás quando era preciso, mas deixando-nos respirar…com algumas imposições irritantes….
E este aspecto, tão singular e direi mesmo raro, de renunciarem com generosidade e equidade às suas personalidades a favor de quem gostavam, produziu frutos incomensuráveis.

Fui desde cedo vendo a fragilidade de um mundo tão “perfeito” e apreciando com algum gozo a discrepância entre o que nos ensinavam e o que praticavam: o meu Avô materno, muito próximo de nós, por exemplo, só dava um beijinho à sogra, ou seja a minha Bisavó na missa do dia de anos a que todos assistiam. Eu mauzinho, em várias ocasiões, perguntava porque não o fazia mais vezes e já nem me lembro da resposta, mas devia ser convincente.

Tenho imensas histórias íntimas que não calha aqui contar e que fazem parte do património familiar entre mim e os meus irmãos, mas que são muito engraçadas, umas, outras tristes ou iguais às de toda a gente, demonstrando à saciedade que eram seres deste mundo e não etéreos.

E esta mescla de normalidade por um lado e da construção de um edifício sólido com boas fundações por outro, permitiu-nos como filhos, netos, bisnetos e irmãos sermos uma família muito feliz, mesmo.

O meu Pai e a minha Mãe foram impecáveis, apesar das nossas resistências, discussões e até revolta por termos começado a realizar que noutras famílias havia mais rédea solta para os filhos, nossos amigos.

Esta persistência em manter, até quando foi possível, uma linha de conduta rigorosa mas amorosa, não teve preço para nós.

Por isso, hoje é sobretudo com uma enorme gratidão como Filho que pensei na minha Mãe e para além das saudades e da sua falta, fica este sentimento de enorme amor filial e de respeito.

O tempo é um bom conselheiro quanto ao que de essencial é importante reter e do que esquecer, por irrelevante…petty things.

Resta a esperança, somewhere, somehow de um dia podermos estar juntos de novo…

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A certidão de nascimento de Portugal

A certidão de nascimento de Portugal foi a Batalha de S. Mamede, naquele dia em que, diz o povo, o filho deu uma tareia na mãe.

A piada histórica predileta dos portugueses é aquela com barbas: como é que o País havia de ter corrido bem, se começou com um filho a bater na mãe? Mas há aqui dois equívocos. O primeiro é que Portugal correu bem durante muito tempo (e esperemos que volte a correr um dia destes); o segundo é que não houve nenhum filho a bater na mãe.

O filho a que a graçola se refere é, como toda a gente sabe, D. Afonso Henriques, fundador da nacionalidade e primeiro rei de Portugal; a mãe é D. Teresa, filha ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela. Falta recordar a identidade do pai: tratava-se do conde francês Henrique de Borgonha, aparentado com a família real dos Capetos, que tinha vindo anos antes para a Península Ibérica fazer cruzada contra os mouros, colocando-se ao serviço de Afonso VI. Este, que era irmão de uma tia por afinidade do jovem Henrique, engraçou com ele e ofereceu-lhe a administração de uma parte do seu reino - o Condado Portucalense, região que abrangia o Minho, o Douro Litoral e parte de Trás-os-Montes. E como se não bastasse, deu-lhe ainda a mão da filha bastarda.

Quando Henrique, o borgonhês, morreu, deixando nos braços da viúva o pequenito Afonso Henriques, Teresa confiou o rebento à família do fidalgo duriense Egas Moniz, para que o educasse, e assumiu ela o governo do condado. Mas não a consideremos por isso uma mãe desnaturada... Naquele tempo era normal os fidalgotes serem educados por um aio.

D. Teresa ligou-se em seguida aos barões da Galiza no combate contra as ambições hegemónicas de Castela. O mais destacado desses barões era Fernão Peres de Trava, com quem ela se envolveu sentimentalmente. Mas a aliança foi também política, chegando o galego a governar os Condados de Portugal e de Coimbra.

É natural que os barões de Entre-Douro-e-Minho - entre eles Egas Moniz - não tenham estado pelos ajustes. Pegaram então em armas (a bem dizer, naquele tempo nunca as largavam), transformaram o jovem Afonso Henriques em seu estandarte de carne e osso e desafiaram para a luta Fernão Peres e Teresa, que tinham o apoio do arcebispo de Santiago de Compostela, D. Diego Gelmírez.

E, como não poderia deixar de ser, travou-se uma batalha.

O pintor Acácio Lino concebeu em 1922 um mural que intitulou A Primeira Tarde Portuguesa e que representa os dois bandos de guerreiros enfrentando-se de lanças na mão, não muito longe da silhueta de um castelo. A pintura representa a batalha de S. Mamede, que opôs as tais duas fações na tarde de 24 de junho de 1128, a norte do castelo de Guimarães, pertinho da cidade.

Mas porque se chamou a essa batalha "a primeira tarde portuguesa"? Porque a vitória dos partidários de Afonso Henriques - a maioria dos barões de Entre-Douro-e-Minho e o arcebispo de Braga, D. Paio Mendes, cioso da sua independência face ao prelado compostelano - abriu caminho à futura independência do País.

Derrotados, Teresa e Fernão Peres deixaram o governo do condado nas mãos do jovem Afonso Henriques e dos barões portucalenses. Reza a tradição, embora não existam provas documentais, que Afonso mandou encerrar a mãe no castelo de Lanhoso, perto de Braga. Esta lenda veio reforçar, se não mesmo construir, a ideia de que ele "batia na mãe". Mas não se tratava de bater como as pessoas normalmente julgam, mas antes de fazer realpolitik, como agora é aliás moda...

Se Teresa e Fernão Peres tivessem vencido em S. Mamede, o núcleo do Estado português continuaria a ser governado pelo casal de amantes, ligados à Galiza. Portugal não se autonomizaria, portanto.

Na lógica das comemorações nacionais, faz algum sentido que o dia 24 de junho nunca tenha sido feriado? É a data da independência portuguesa - se não oficial, pelo menos de facto.

Luís Almeida Martins

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

os meus votos de Natal aos meus reclusos na prisão de alta segurança



Não sei como falar-lhes do Natal quando para todos vocês é mais um dia na prisão em Monsanto sem as vossas famílias nem gozando da liberdade. Seria hipócrita desejar-lhes um Bom Natal no sentido estrito de uma festividade.

Mas sim, desejo-vos nesta quadra em que toda a gente parece ter-se aparentemente esquecido da maldade e mergulha no consumismo, e apregoa aos sete ventos votos de felicidade, repito, desejo-vos do coração um pouco mais de paz interior e também, se possível com o mundo que aqui vos rodeia.

Tinha proposto vir-vos visitar à cadeia na véspera de Natal e encher-vos de presentes, consolo, abraços e sorrisos, mas dizem-me que não posso. Mas queria que soubessem que pensarei em todos vocês, especialmente, na véspera e no próprio dia e que vos prometo que continuarei a fazer tudo ao meu alcance para vos tornar a vida mais suportável.

Tenho conversado com muita gente sobre esta minha experiência convosco e estou cada vez mais convencido que só ganhamos em serenidade, em realização de vida e felicidade se conseguirmos esquecer-nos de nós próprios e nos entregarmos ao bem dos outros, sem sentimentalismos nem pretensões, mas com verdade e exprimindo o que vai realmente no coração.

Vocês também são responsáveis pelo meu bem, por isso lhes peço que me ajudem a encontrar em vocês um estímulo para poder acreditar que estamos em conjunto num desafio de recomeçarmos uma nova etapa das vossas vidas. Cada um com as suas luzes e sombras, com o seu passado, mas sobretudo com o desejo firme de voltar a acreditar que têm um futuro à vossa frente e que o êxito para que seja o melhor, passa e depende muito de cada um.

Já nos compreendemos bem nestes meses de convívio e ensino do português e sabem que não sou de vos pregar lições de moral. Respeito-os e aceito-os como me foram colocados na minha vida e tento com simplicidade e amizade transmitir-lhes que há outras hipóteses e opções para o vosso percurso. Sei que estão atentos e que me vão escutando e sobre tudo vamos conversando com liberdade de opinião.

O vosso sofrimento e restrições a uma vida normal no exterior, com as vossas famílias e amigos, são um bom meio para a reflexão e para a mudança.

Irão sair com mais sabedoria, com mais capacidade de ponderar cada uma das vossas futuras atitudes, para o bem e para o mal. Assim, saibamos todos, estender-vos as mãos e proporcionar-lhes a ajuda e um pequeno empurrão para vos lançardes ao caminho.

Com este meu abraço a cada um, mesmo que seja na frente dos guardas, que fiquem na certeza que podem contar comigo, como eu tenho a certeza de que não me deixarão mal.


música


Embora nem todos tenham a mesma sensibilidade para a música ou sequer a consciência da importância que a música pode ter, por exemplo, na educação, é certo que ouvir uma boa música é um conforto, uma forma de Bem-Estar…

Claro que há sempre quem tenha especial vocação para “dar” música mas essa, na verdade, não interessa nada.

A música estimula os sentidos, desenvolve a capacidade de atenção, a memória, a criatividade e para alem disso interfere no equilíbrio das emoções.

domingo, 30 de novembro de 2014

Valores


Às vezes, a companhia das outras pessoas não parece ser muito compatível com a companhia dos nossos ideais, com a companhia dos nossos valores.

Nessa altura, uma tentação sobrevém. Para termos a companhia das pessoas, abdicamos da companhia dos valores, das convicções.

É triste, mas, como refere Pedro Mexia, «ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções».

É claro que não devia ser necessário fazer esta escolha cruel: entre a popularidade sem convicções e convicções sem popularidade. Mas se tiver de ser, que seja.

Afinal, os maiores solidários acabaram por ser os grandes solitários.

A vida é mesmo paradoxal!

João Teixeira

(fotografia: pendentes com máscaras venezianas de esmalte e brilhantes - da colecção da minha Família)

Somos feitos de carne. Mas temos de viver como se fôssemos de ferro

O primeiro soco ninguém esquece. Soco no coração, quando a mãe nos abandona sem ao menos terminar uma frase. Cadê o leite, o afago, o mimo. O colo pra se encostar a cabeça. Não há ninguém na casa. Um som surdo de obra na pedreira adiante estupra o vazio dos quatro ambientes ligados à varanda. A lenha está murcha e desalentada no fogão. Você gostaria de aquecer seus sonhos com um mingau de aveia, mas a despensa morre de frio e abandono nas prateleiras. Porém, para sua surpresa, alguma sorte no universo assovia revelando a presença de uma cabra esperando pra ser ordenhada. Você corre e se agarra nas tetas da bichana. Ainda há leite. Depois também descobre alguns ovos mirrados no poleiro quase desabitado. Dá pra cozinhar e comer com o leite. É a glória.

Entretanto, precisamos suportar neste cenário a ausência de ruídos, exceto os da pedreira escrava das escavadeiras e britadeiras que a esfacelam sem dó. Faltam vozes, mexericos, lavadeiras e faxineiras nesta casa. Risadas bestas ecoando à toa. Alguém palitando os dentes e depois roubando um beijo de outro alguém. A campainha tocando, anunciando o pão fresco trazido pelo padeiro da cidadela vizinha. Mas nada acontece. Só na cabeça, nos voos solitários dos neurônios, nas tristezas úmidas e ofegantes. Nosso coração que era de carne vai enrijecendo devagar e discretamente. Parece que fibrosou, é o que se comenta na clinica da região.

Talvez ele pare de bater. Ou de chorar baixinho. Pode até necrosar, mas antes vai lembrar que já foi afagado por mãos suaves e perfumadas, quando o tempo girava sem pressa. Esse coração de pedra agora deve se virar sozinho. Olhar apenas para os sapos e lagartas que podem visitá-lo. Porque as artérias de que dispunha viraram raízes atreladas à próxima planta ainda por nascer. Sabe-se de antemão, todavia, que será uma planta vermelha, imponente, sanguínea, cuja origem todos irão ignorar.

Neste momento, algumas agonias despencam de sonhos nublados e tombam no chão desajeitadas, como minhocas sem rumo. Antes o coração era macio. O meu e o seu. De seda, filó. Às vezes se enfeitava de tule, tafetá e rendas. Em meio aos beijos a rodo estalando no ar das festas, trocados durante valsas, suspiros e rodopios. Nestes eventos, o licor de jabuticaba era servido ao final às mães, aos tios e primos.
A nós, a mim e a você, restava lambermos furtivamente os cálices, antes enchidos sem decoro. Era bom. Ouvia-se música, vida pulsante, longas tragadas de charuto, belos trajes dos convivas, comida farta, meneios previsíveis e intenções nítidas entre pretendentes e moças faceiras.

Nosso coração exultava possibilidades e encantos. Mas de repente sentimos medo. Viramos homens de lata, Iguaizinhos ao personagem do filme “O Mágico de Oz”. O coração desabou sarjeta abaixo, sem que ninguém desse conta. O amor sumira em pele e osso, maltrapilho como poetas mendigos.

Outros socos se sucederam ao primeiro. O ciúme arroxeado dos irmãos. As pequenas e efetivas maldades dos colegas de escola. A injustiça do professor de ciências. Os castigos absurdos. Respirar fundo era preciso, eu e você sabíamos para não perdermos de vista o beija flor cintilando fora da sala de aula. Além dos grandes caracóis do Carlinhos, muito bem cuidados com folhas de alface e couve, numa caixa de sapatos mantida debaixo do seu braço, na hora do recreio.

Meu coração já andava por cima das pedras, gemendo esfolado ao se entrechocar com as mais pontiagudas. Depois vieram novos desalentos. Puxadas de tapete, pregos espetados no colchão quase convidativo. Aprontaram com você também, foi? A essa altura, sentimentos como bondade, delicadeza, doçura foram trancados a sete chaves no baú de nossa avó.

Por fora restavam raiva, despeito e rancor, andando a esmo pelo sótão repleto de histórias amassadas. As emoções, reprimidas na ocasião, apresentavam-se pintadas de um negro fosco. Por outro lado a ficção, sem que se esperasse, atingia as telas do cinema. Eis que ele finalmente assomou poderoso. O “Iron Man”. Invencível. Herói de imensas lutas. Guerreiro imortal.

Nosso coração andava assustado embora entretido com as fantasias dos filmes avantajados por efeitos especiais. Afinal, era preciso manter-se atento e precavido. Nossos corpos então deveriam despojar-se da carne, dos tendões e músculos. Vestir-se de alumínio ou aço, entretanto, não surtiria efeito nem grandezas aos nossos gestos.

Necessitávamos de outras roupagens. Apossarmo-nos de uma coragem de ferro para prosseguir acreditando na fertilidade do amor em meio às cruéis batalhas da rotina. Apostarmos na tenacidade dos guerreiros da luz. Na fecundidade de ideais coloridos e emoções ensolaradas.

Somos feitos de carne. É fato. Mas percebemos nos dias atuais termos que viver como se fôssemos de ferro. Hoje, porém, fazemos isso de um modo diferente. Somos mais experientes, sofridos e prudentes. Por isso mesmo, passeamos por certas ousadias, mantendo os braços firmes e estendidos para as pequenas e irretocáveis ternuras da vida.

Graça Taguti

Alfinetes


Definham as palavras e as expressões com o andar do tempo, nos actos nada muda. Ao entregar à esposa, bem contado o dinheiro para a despesa doméstica, o marido doutras eras  acrescentava uns tostões, explicando que era "para os alfinetes".
"Para os alfinetes" era também o gracioso eufemismo para dinheiros de corrupção, num tempo em que o verbo locupletar dava à ladroagem uma aura de dignidade.
Refiro estas expressões antigas porque de momento me ocupam demasiadas coisas que não compreendo, e de certeza teria dificuldade em compreender, mesmo se mas trocassem em miúdos.
Será que li bem que o banqueiro Salgado recebeu uma prenda de catorze milhões de euros? Uma prenda? Há prendas desse montante? Terá sido para os alfinetes da madame?
O ex-primeiro ministro parece que manipulou uns vinte milhões,  deu nas vistas pela ostentação, vai preso para que evitar que rasgue papelada comprometedora. O banqueiro desviou uns quanto mil milhões, deposita três, e fica confortavelmente em casa, com a possibilidade de rasgar o que lhe apetecer. Quem compreende?
Claro que haverá explicação para a discrepância, e eu, cidadão, bem gostava que me pusessem ao corrente. Como também gostaria que os que jubilam com o infortúnio dum e doutro, porque infortúnio é, e a ninguém se deseja semelhante opróbio nem queda de tão alto, conhecessem e pensassem no que John Bradford (1510-1555) disse, ao ver passar um grupo de presos a caminho da forca: "There, but for the grace o God, go I" (Não fosse a graça de Deus, ia eu ali).

J. Rentes de Carvalho

sábado, 29 de novembro de 2014

O paraíso de Miguel Torga


“… o herói é só um: o bicho homem a afirmar a sua liberdade e a perdê-la a seguir, na tentação de solicitações confessionais, ideológicas ou outras. E a sorte que espera todos os figurantes é também sempre a mesma: a perdição total e sem remédio. A danação perpétua a que são condenados os que se deixam envolver no jogo viciado das ficções, a cuidar, pobres coitados, que assumem o seu pessoalíssimo destino. Títeres que a paixão obnubila, e só numa tardia hora de clarividência descobrem que, afinal, mais não fizeram do que viver a vida por procuração."

In " O Paraíso" de Miguel Torga


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Recomeço

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

in dubio pro reo

  1. José Sócrates foi detido, e encontra-se em prisão preventiva. Tal resultou de uma investigação promovida pelo DCIAP, organismo judiciário competente, com a ajuda das polícias de investigação. Da averiguação resultaram uma série de elementos que levaram a que um Juiz de Instrução Criminal considerasse que havia indícios suficientes para convocar o ex-primeiro-ministro e pessoas suas próximas para um Interrogatório. O Juiz entendeu ainda haver razões para manter Sócrates sob prisão preventiva, com base em elementos que, nos seus contornos completos, nos são desconhecidos.
  2. José Sócrates é, para o processo penal e para a ordem jurídica, inocente, até que seja condenado pelo respectivo Tribunal. Esta presunção da inocência – do latim, in dubio pro reo (latinismo que tem andado na boca de muita gente) – não é, em qualquer caso, inilidível, ficando aliás ferida ao longo do processo, desde logo, quando sobre o indiciado recaem suspeitas. A presunção da inocência, sendo um elemento central do funcionamento processual penal, não pode – nem deve – impedir que haja juízos de apreciação, face ao conteúdo e relevância das suspeitas. A suspeita é o ponto de partida para uma clarificação, essencial, que afaste ou confirme os factos e/ou elementos que lhe servem de base. Assim, as suspeitas, ou são afastadas – levando a um arquivamento do processo – ou são reforçadas, devendo o Juiz de Instrução optar pela Acusação e consequente Julgamento.
  3. Até à Acusação ou Arquivamento, o processo encontra-se em “Segredo de Justiça”. O Segredo de Justiça, note-se, existe, não para salvaguarda do indiciado/réu, mas para garantir o sucesso da investigação. O Segredo de Justiça não é na nossa ordem jurídica um princípio absoluto, cabendo a quem dirige o procedimento/processo decidir que elementos devem ou não ser do conhecimento geral. O Segredo de Justiça é assim instrumental da investigação, e não um valor em si, não fazendo qualquer sentido a forma como tanta gente rasga as vestes em sua defesa.
  4. Tal não significa que as sucessivas iniciativas judiciais não devam estar devidamente fundamentadas; acontece é que, nem sempre, esses fundamentos devem ser do conhecimento público, porque se receia que isso possa prejudicar a investigação e a necessária clarificação.
  5. Em processo penal, como em tantas coisas da vida, muitas vezes tudo se perde por se “colocar a carroça à frente dos bois”. Num caso como aquele com que nos deparamos, há que ter a noção reforçada que as decisões não são seguramente fáceis, e que a escolha dos diversos timings é matéria profundamente sensível. Será que há fundamentos suficientes para que Sócrates tenha sido chamado para interrogatório? Será desproporcionada a sua detenção na manga, à saída do avião? E excessiva a detenção por três dias, acompanhada da medida mais dura de coação? Não sei, e porventura até quem dirige a investigação, teve de decidir sobre isto e muito mais com base em elementos contraditórios, e visitado várias vezes pela dúvida.
  6. O que seguramente não parece razoável é a excessiva dramatização que se tem feito em redor daquilo que está a ocorrer. O caso é grave, sensível, e sujeito às imperfeições humanas. Mas não compreendo que se faça de um simples caso, por mais importante que seja para o próprio e para muitos, o barómetro decisivo da saúde do Regime, numa lógica binária, de “tudo-ou-nada”.
  7. Mais. Sejamos claros: José Sócrates há mais de três anos que é um simples cidadão, não exercendo quaisquer funções de soberania. A sua detenção não perturba objectivamente o normal funcionamento das nossas instituições. Há um lado simbólico, para lá do Homem, neste processo? É motivo de descrédito termos um antigo primeiro-ministro sob tão graves suspeitas? Sim, mas nada, que não interesses particulares, convida a precipitações, pressas fáceis, ou tiradas mediáticas implacáveis, numa fase tão inicial de uma caminhada que pode até vir a ser tortuosa e demorada.
  8. A prisão de Sócrates coloca constrangimentos ao Partido Socialista? Sim, mas cabe a António Costa saber libertar-se de uma herança política – o socratismo – que até lhe fazia sombra, fazendo da dificuldade uma oportunidade para criar um espaço político-partidário verdadeiramente seu.
  9. Há uma longa agonia que podemos evitar se soubermos ter a serenidade de darmos a importância às coisas que elas nos merecem, e claramente ninguém morre se José Sócrates for condenado, ou ilibado das suspeitas que sobre ele recaem – isto, obviamente, sem prejuízo dos direitos que o próprio tem como cidadão, e que os deve legitimamente exercer.
  10. Tudo o resto a que temos assistido não são mais do que pânicos e sentimentos apocalípticos de fiéis seguidores que olhavam para Sócrates religiosamente, como se de um líder de uma seita protestante se tratasse, querendo fazer das suas dores as dores do País e dos portugueses. Também não me agrada o clima de “circo romano” que muitos montaram, exigindo a cabeça imediata de alguém que, sejamos rigorosos, está longe de estar condenado. Sinceramente, acho que a excitação vai passar rápido. O Regime está em crise, por causa do endividamento, das dificuldades diárias que os portugueses enfrentam, por causa do excessivo peso do Estado traduzido em impostos, pela incerteza quanto ao futuro que tantos hoje sentem, pelo desalento e falta de oportunidades, pela falta de qualidade e de respostas do sistema político. A prisão de Sócrates não vai causar tumultos nas ruas, nem invasões ao Parlamento. Nem, em sentido inverso, regenerar a Nação.
  11. A dramatização em nada favorece, aliás, José Sócrates. Havendo suspeitas, elas têm de ser clarificadas. Da sua clarificação poderá resultar até um arquivamento, ou uma absolvição em Julgamento, e não necessariamente uma condenação. Todos aqueles que hoje defendem que se não houver uma condenação a Justiça falhou, estão a colocar uma pressão prejudicial em instituições que têm de ser imparciais, na procura da Verdade, e não de condenações. O que é relevante nesta fase não é se no futuro José Sócrates vai ser ou não condenado, mas se os indícios recolhidos, na presente data, são suficientemente fortes para gerar uma suspeita susceptível de dar corpo a uma investigação. E daquilo que nos tem sido dado a conhecer, o que seria grave é que, perante os factos alegados, a Justiça não procedesse a uma investigação e aclaração.
  12. Há coisas que no nosso sistema penal não me agradam. Preferia viver num país onde fosse absolutamente proibida a divulgação de imagens à porta de tribunais, ou de diligências judiciais diversas, como as que assistimos aquando da sua detenção, buscas domiciliárias, ou visitas na cadeia. Gostava que o Ministério Público atuasse num ambiente onde não sentisse ser necessário legitimar a sua ação junto do público fornecendo elementos à comunicação social, como forma de poder prosseguir eficazmente a sua missão. E se estes aspectos – que não são tão secundários como muitos nos querem fazer crer – merecem a nossa atenção, não são eles que estão verdadeiramente em causa na investigação. Não me agrada o espetáculo, mas tão pouco vi nada de tão grave que justifique a imolação pública do Regime, à conta de uma detenção.
  13. Da minha parte, espero serenamente pelas incidências e clarificações, no devido tempo – o da Justiça – necessariamente mais lento do que a avidez das massas e a histeria coletiva que tantas vezes nos visita nos momentos polémicos e sensíveis. Para o bem e para o mal, somos latinos. E isso nunca ninguém vai domar.
         Rodrigo Adão da Fonseca

pressões

A declaração de Sócrates faz parte da sua técnica de intimidação, que tão bons resultados lhe deu enquanto PM.

Nota-se claramente que está a ser feita uma tentativa de pressionar os magistrados e o sistema judicial português, como foi possível ver nas declarações de ontem de Mário Soares.

Esperemos que a justiça continue o seu caminho e seja capaz de punir algumas situações lamentáveis que se verificam em Portugal e trazer de novo a correcção para a vida pública.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

entre os muros de uma prisão


Este caso da prisão preventiva do ex-Primeiro Ministro, fez-me reflectir para além da circunstância de ser quem é. Muito se tem dito nos últimos dias e o tempo provará da justeza ou não, das medidas adoptadas e das culpas imputadas.

Não é isso que me interessa agora, apesar de ter a minha opinião, o que é irrelevante, pois o que tiver que acontecer, acontecerá.

Hoje na minha aula a prisioneiros estrangeiros na prisão de Alta Segurança, preferi ouvir os comentários dos “meus” reclusos e fui tomando umas notas:

Primeiro: nunca nenhum prisioneiro se alegra pela entrada de mais um;


Segundo: há desde logo uma solidariedade que é manifestada, independentemente das causas presumidas ou conhecidas, salvo no caso de crimes especialíssimos;


Terceiro: a privação da liberdade torna os que já lá estão melancólicos e sonhadores e hoje, como que se fez um prolongado silêncio. Não disseram muitas mais palavras!


Dei-lhes um exercício escrito para fazerem em português sobre a música e qual o tipo de que mais gostavam. Entretanto, na biblioteca ao lado da sala de aulas, ouviam-se os sons do Concerto de Piano de Shostakovitch, nº2 em F, Opus 102, 2 andante, que eu escolhera. Seguir-se-ia Mahler, depois Lizt, Ravel e Debussy.


E os lápis, porque não podem escrever com canetas – um mistério – escrevinhavam rápido. Via-se que estavam deliciados por poderem, excepcionalmente, ouvirem um pouco de música.


Eu fechei os olhos e fiquei absorto num espaço fechado a sete chaves, com guardas armados até aos dentes a passarem no corredor, com uma câmara a vigiar todos os actos. 


E pensei que lá fora, há tanto ruído, tantas certezas e julgamentos precipitados, apaixonados e pouca vontade de perdoar, mesmo nas faltas e nas falhas.


Nem me passa pela cabeça não concordar com sanções para quem tenha prevaricado, e sendo os indícios ou culpas relativas a prejuízos causados à sociedade civil pelo enriquecimento ilícito próprio ou de outro tipo de crime grave, mais obrigação tem a Justiça de actuar, julgar e punir, estando os factos provados.


Mas, a maioria das pessoas não sabe que no momento em que se dá entrada numa prisão, cai um silêncio aterrador sobre cada recluso, uma solidão e mesmo em regimes mais abertos, tudo muda. 


E curiosamente, começa ou pode começar para cada recluso, a regeneração com vista à reinserção, no dia em que voltem à liberdade.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

passeio a pé por Lisboa



Tive esta manhã uma reunião próxima da Av. Almirante Reis. Como estava um fim de manhã esplendoroso, vim a pé desde o Intendente até ao Rossio.

Nunca tinha ido à zona renovada das antigas prestitutes..ahaha..e achei limpa, clara e com bom aspecto. É claro que era meio-dia!

Depois fui perdendo tempo, parando a cada montra a ver que lojas eram aquelas…muito engraçado andar a pé por Lisboa, o que faço muito, e sobretudo por zonas aonde eventualmente passo de carro e de fugida, a não ser que vá jantar ao Ramiro!

Fiquei pasmado pela profusão de lojas chinesas com bom aspecto e oferecendo, tal como em qualquer outra capital mundial, todos os produtos necessários à cozinha oriental, tais como panelas, tachos, recipientes próprios para os diversos alimentos, e uma enorme variedade de legumes e outras iguarias…achei formidável e divertido.

No Martim Moniz, entrei na Capelinha da venerada Senhora da Saúde e fui meter o nariz no Centro Comercial, cheio, igualmente de espaços com produtos orientais (chineses, indianos, paquistaneses, etc).

Se se quiser verdadeiramente comer como na China há uns quantos restaurantes caseiros, modestos e pouco apetitosos aonde se reserva uma mesa e refeição por encomenda, mas aonde a qualidade é excelente. O preço, como dizem os nuestros hermanos, é tirado!

Segui depois para a Praça da Figueira e fui constatando a existência de toda uma série de comércios tradicionais que já não existem em nenhuma cidade senão em zonas localizadas.

Acabei no Rossio aonde me sentei na esplanada da pastelaria Suíça, desfrutando um belo sol. Do outro lado o café Nicola, está sempre muito tapado e hoje apetecia luz e o astro-rei. 

Fui buscar o carro ao parque dos Restauradores sem, no entanto, ter deixado de passar em frente do Gambrinus no lado da Rua das Portas de Santo Antão, aonde uns lagostins, gambas e lagostas bem vivas aguçavam a boca e o bolso dos passantes.

Do you know what is sexy?


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Be careful


Povos poderosos e longínquos suscitam muitas vezes suspeitas quanto à seriedade, capacidade e experiência nas negociações internacionais de grandes contratos. Há como que uma espécie de snobeira dos principais países europeus quando enfrentam a China, a Rússia, a Coreia do Sul, a Indonésia, naturalmente havendo sempre honrosas excepções.

Tenho anos de viagens e contactos com estes países, nomeadamente os dois primeiros e concordando que a China tem uma cultura negocial muito própria bem como a Rússia tem a arrogância do segundo país mais poderoso do mundo, é no entanto indiscutível que dispõem de meios financeiros incomparáveis para investir um pouco por todo o mundo.

Tornam-se por isso parceiros apetecíveis e tenho visto muito bom empresário tradicional transformar-se em fogoso, ambicioso e cúmplice interlocutor, perdendo a habitual compostura ética perante os procedimentos usuais nestes países.

Quero com isto dizer que a prática de corrupção seja ela activa ou passiva, tem a ver com limites, que são ou não ultrapassados consoante muitas e variegadas circunstâncias.

Na base está sempre o dinheiro e o poder. Vem isto a propósito destes recentes incidentes que despoletaram esta purga na concessão dos vistos gold, bem como no caso BES/GES.

Uma vez, estando eu em Banguecoque em trabalho e conhecendo um diplomata jovem da Embaixada dos Estados Unidos aí sediado, foi-me por ele contado um caso “fresquinho” acabado de acontecer:

- O número 2 da Embaixada, responsável entre outros domínios pela aprovação de verbas para a aquisição de material sensível de segurança, recebeu uma proposta para o fornecimento de um determinado equipamento. Como lhe competia, preparou um “file” e enviou, com o consentimento do seu superior hierárquico, o Embaixador, para o Departamento de Estado, em Washington, para aprovação de uma verba significativa. Acrescentava, que havia uma comissão de 5% e perguntava o que deveria fazer.

Passou-se um mês e não veio nenhuma resposta dos USA e o fornecedor submeteu nova proposta, agora com uma comissão de 10%.

O referido diplomata comunicou a pressão recebida e novamente inquiriu sobre o destino a dar à referida comissão.

Passaram mais 3 meses e o silêncio persistia. Nova proposta, desta vez com uma comissão de 20% a ser depositada na conta do diplomata.

Concluiu o meu amigo e colega do outro: acabou por sair da Embaixada pois pediu, “estranhamente” uma licença sem vencimento e dedicou-se a negócios privados.

O material foi adquirido pelo preço apresentado que tinha cabimento orçamental e a comissão foi parar às mãos de um zeloso funcionário que a dado momento foi superado pelos seus próprios limites de resistência à corrupção.

Conclusão: escolha trabalhar em empresas pobres, mal pagas e sem perigo de serem tentadas por gulosos corruptores….ahahaah

Ainda hoje, depois de ela já ter morrido há anos, tenho uma vaga suspeita que a Emília, cozinheira de casa dos meus Pais durante 50 anos, teria tido as suas fraquezas corrupcionais na praça, na peixaria e no talho e quiçá no merceeiro…mas sendo tão excelente “cordon bleu” está certamente perdoada e até ao que tudo indica ao serviço do Altíssimo, no Céu…ahahaah

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ter prazer em fazer negócios



Estive toda a manhã numa reunião de quadros de uma instituição estrangeira, a fechar algumas transacções.Negociações difíceis, em inglês e alemão, mas gente competente e transparente à volta da mesa.

Pergunto-me sempre, de que vale a pena tentar enganar os outros, na esperança de que sejam tolos sabendo desde o princípio que nada se concluirá? 

Em países em crise como o nosso, tudo vale e contam-se pelos dedos quem tenha realismo e sobretudo o critério de deixar que os outros também beneficiem dos ganhos num negócio mútuo.

É muito retemperador encontrar pessoas decentes, prudentes e ponderadas, com limites na ambição desenfreada e excelentes profissionais.