domingo, 9 de novembro de 2014

Dói e canta cá dentro


O amor é um poema. Dói e canta cá dentro. Tem a filosofia das árvores, a lição do mar, os ensinamentos que as aves recolhem quando migram para lá dos desertos, de onde hão-de regressar mais sábias e seguras.

O amor é uma causa. Uma luta excessiva com a divindade dos dias e a sua fogueira obscura. Mas também contra o mistério de si mesmo, uma paz que nos dá o cansaço e a loucura infeliz da felicidade, esse primitivo terror dos sinos que tocam como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar. 
 
O amor é uma casa. Erguida com os beijos, com os versos da noite e o gemido das estrelas. Casa cujas paredes vestem o nosso júbilo, a nossa intuição, a nossa vontade, sobretudo o nosso instinto e a nossa sabedoria. Onde se acende e brilha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes. 


O amor é um gigantesco pequeno mistério, uma estranha generosidade que faz com que, quanto mais damos, com mais ficamos para dar. 

Só o amor é o elixir da juventude. Não esse que sempre se procurou nas indecifráveis fórmulas dos antigos livros de magia e de alquimia, mas aquele que está tão perto de nós que, por vezes, o pisamos sem reparar.


Joaquim Pessoa, em “Guardar o Fogo”

A Visita do Príncipe


Não sei nunca o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender. Hoje ao levantar da névoa trouxeram-me a casa sobre o rio, o terraço escassamente iluminado por um lampeão que balançava ao vento, o pequeno sapo que todas as noites, rente ao muro, se ia aproximando, depositário de tudo o que nesse tempo em mim se confundia com a ternura.

Pequeno príncipe da vadiagem, por ali se quedava sem outro ofício que não fosse o de receber alguma carícia, só depois regressando por entre a humidade das pedras aos pântanos da sombra, a noite inteira nos olhos desmedidos.

Eugénio de Andrade

INTERSTELLAR o filme que se deve ir ver


Fui ver o filme Interstellar com Christopher Nolan. Gostei bastante e fica-se com a sensação de impotência perante tantos flagelos que começam a ser frequentes no nosso mundo, para não falar do respeito e medo com o gigantismo do Universo, seja ele como está retratado no filme ou de outra qualquer forma.

Tudo isto nos deve causar cada vez mais perplexidade e menos certezas sobre as visões simplistas de tudo quanto tem a ver com a Humanidade e vem tratado em manuais.

Nem está sequer implícita  nas minhas palavras uma crítica em relação à religião, embora as versões que nos chegam do passado sejam brincadeiras de criança face à realidade e por isso há uma de duas opções: ou aceitar pura e simplesmente o que nos diz a doutrina da Igreja Católica, do Budismo, do Islamismo, do Judaísmo ou pôr as barbas de molho e deixar ver o que se passa depois da nossa morte...agora até já começam a surgir antecipações do descontrolo sobre a Natureza: epidemias, destabilização climática, ameaças de novas guerras...

Este é um mundo muito complicado e apesar de ser mais um filme com mais um qualquer argumento, não se pode ficar indiferente.

Aconselho vivamente a ida ao cinema e a seguir tomar um generoso copo com várias doses de chá da Escócia...pois se adormece melhor e sem veleidades de grandes considerações...ahaahah

sábado, 8 de novembro de 2014

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

would you believe it?



I'm leaving for a destination I still don't know, somewhere nobody must have duties or obligations.

If you like this, come with me.

aimez-moi


O Mozart com cinco anos tocou para a Maria Antonieta e acabou o concerto com toda a gente a aplaudir. 

Ele correu, sentou-se ao colo dela e disse: aimez-moi.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

As boas maneiras à mesa e a arte de poder fechar negócios


Telegraficamente duas histórias que me aconteceram: 

primeira – com o arquitecto das Amoreiras, à data ainda nos primórdios do conhecimento da etiqueta. Jantar no antigo Banana Power, a Alcântara, convidado por ele - peço espargos, uma pescada cozida e uvas. Começo a comer os espargos à mão: - ´Manel, isso é muito ordinário, diz ele que batalhava com o garfo e faca para os comer inteiros. Digo eu – pois sempre os comi assim. Peço o galheteiro ao criado para o peixe cozido: - trazer para mesa o galheteiro? Nunca sai da cozinha! – Digo eu: - ele há de prata, de Companhia das Índias e lindos. Como se tempera então com azeite o peixe? – Resposta dele: Porra, não percebo nada de protocóis! Não vieram as uvas! 

Segunda: em Hong Kong aonde trabalhei durante uns 7 anos numa grande empresa chinesa. Acabadinho de chegar com os meus 27 anos. Patrão chinês diz-me que vou jantar sozinho com o homem mais rico do mundo, à época, o dono dos tankers, Sir Yak Pao, para lhe arrancar um contrato difícil. Perguntei ao meu patrão, com tristeza, se era um gesto de despedida, tendo eu acabado de aportar e sendo um tenro cordeiro sacrificial. Disse-me que não. Fiquei com muitas dúvidas. 

Podia ser meu Pai, o interlocutor, e miroscava-me com curiosidade. Escolha do menu. Olho para as entradas e vejo caviar – três espécies – tinha vagamente comido em Portugal uma ou duas vezes, mas não sabia sequer os nomes. Escolho o do meio, beluga e oiço o bilionário dizer: - muito bem, esse é o melhor. Game, pensei eu. 1-0. 

Achei graça e resolvi entrar na jogada. 

Digo eu: mas sabe, este não é o melhor sítio para o comer. – Ai não, diz ele espantado mas com curiosidade. Estávamos no roof do melhor e mais caro hotel de HK. Eu tinha ido com um tio Ministro de uma futura cunhada casada com um meu irmão, do tempo da outra Senhora, teria uns 18 anos, ao Maxime, que tinha adorado e catado todos os pormenores. Digo-lhe eu: é no Maxime, em Paris. Olha encantado e diz que sim, com certeza. Score: 2-0. 

Com atrevimento, acrescento: - mas não é em qualquer mesa! Aí ele olha-me pasmado. – como assim? Digo eu: na mesa do canto, para ver quem entra. Era aonde eu tinha ficado e vi chegar, os e as conhecidas deste mundo. 

No dia seguinte, pergunta-me muito admirado, o meu patrão chinês: - Como conseguiste o contrato? 

Minha resposta: se te contasse e dissesse que foi à conta do beluga, do Maxime e da mesa do canto, you wouldn’t believe!

domingo, 2 de novembro de 2014

Definição de "Poesia" por Mário Quintana


Impossível qualquer explicação: ou a gente aceita à primeira vista, ou não aceitará nunca: a poesia é o mistério evidente. Ela é óbvia, mas não é chata como um axioma. E, embora evidente, traz sempre um imprevisível, uma surpresa, um descobrimento.

Mário Quintana

A Morte Absoluta



Morrer.
Morrer de corpo e de alma. Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte. 

 
Morrer sem deixar porventura uma alma errante...A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer o teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração,
em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira

Onde não puderes amar não te demores


Sai, corre logo. Afasta-te das ventanias cruéis que ameaçam revirar-te a vida e os sonhos pelo avesso. Aqueles pedaços de histórias rotas e cerzidas, atiradas no cesto de roupas de sorrir — e que já usaste tantas vezes em festas enxovalhadas. Foge das tempestades. Das estradas sem rumo. Das folhas ressequidas, espalhadas em terrenos áridos e desconexos.

Rejeita os lábios que não beijam mais e dos quais escorre apenas amargura, fel e impropérios. Sim. Tranca a porta, os ouvidos, a sensatez e vira as costas sem remorsos para tudo o que te causa mal e tristezas. Teus dias pinta-os com aquarelas leves e doces, mescladas a tons pastel.

As horas não devem ser transformadas inexoravelmente em cinzas, quem te disse? Embora saibamos que se trata de horas mortas, inertes em relógios de parede enferrujados pelo cansaço. Relógios, cujos ponteiros foram derretidos pelos vastos incêndios que se apossaram silentes da tua alma atônita.

Sai! Despede-te rapidamente das águas turvas, habitadas apenas por sinuosas enguias. Não enxergas peixes dourados, nem vermelhos? O lodo não te serve, então. Tampouco a escuridão de um dia sem sóis nem estrelas. As árvores morreram alguns tocos ainda repousam no jardim abandonado. Raízes secas gemem por água. Mas o jardineiro se foi, levando junto com as despedidas os antigos cuidados dispensados ao verde que aí vicejava.

Há esconderijos disponíveis para cultivar a paz. Um sentimento que parece ter escorrido pelas vielas de tempos imorredouros. Olha e te surpreende. Pois há linhas de seda para tricotar novas promessas de amores leves, já nascidos com asas. Amores azuis que flertam com a presença suprema da liberdade.
Se porventura entrares num bar escuro e sujo e perceberes que os frequentadores flertam somente com o álcool mantendo o rosto duro, impassível e macilento. Os olhos de pedra fosca cravados no fundo do copo, no qual mágoas flutuam sobre escassas pedras de gelo, não te aproximes. Abandona o recinto. Pois aí não há amor. Somente amarguras e nostalgias graves e empoeiradas.

Foge também de quem tiver o aperto de mão indiferente e áspero, os sorrisos ausentes no rosto exausto de mentiras, o nariz empinado de arrogâncias vãs.

Despreza indivíduos sem ouvidos, concentrados em lamber unicamente a própria fala. Àqueles aficionados em solilóquios, em discursos sem eco, voltados regiamente para o próprio espelho das vaidades, adornado pelo gigantismo do ego.

Alheia-te também de quem perdeu os braços de abraçar. Esqueceu-se de abrir as janelas para as visitas das alvoradas e lacrou os sentidos para os cantos felizes dos pássaros matutinos.

Os que não regam plantas. Pais que esquecem crianças trancadas no carro, enquanto se deleitam em levianas compras nos shoppings. Não entres jamais em casas onde não se escuta música, aonde o fogão chore de desusos, sem o cheiro vivo do feijão fumegando delícias.

Não te acomodes nunca em mesas sem toalhas, copos, nem talheres, antes destinados a servir convidados sempre ausentes. Ninguém aparecerá para o almoço inexistente. Pois faltam amor e acolhimentos.

Não te esqueças de cerrar em seguida as cortinas do coração para os que desprezam a luz, as cirandas e as crianças. Os que chutam por tédio pequeninos animais órfãos, perdidos a esmo nas ruas. Refuta com veemência as trepadas mornas e maquínicas exigidas pelo marido ou namorado, cujas ardorosas amantes tu intuis, certamente.

O bom sexo demanda uivos gloriosos, saudáveis e selvagens desatinos. Assim, aguarda paciente pela entrega plena e desarmada. Ela virá sem avisos prévios e te surpreenderá com danças e valsas. Recusa de imediato o namoro insípido, porque não há sal que dê jeito em afetos falidos.

Outro alerta: desanda a correr da inveja, do escárnio, do ódio fantasiado de gentilezas em oferta. Todas elas por R$9,99. Este pacote de desmazelos se acumula no enfado e no desamor de lojas vazias. A maldade ronda a vizinhança, se intromete em eclipses, passeia com os pés descalços em imensos desertos brancos.
Mas lá tu não irás, temos certeza, pois falta amor — teu coração já anunciou. Além disso, felizmente também contas com os afáveis sussurros da natureza, que entremeiam tuas histórias e caminhos, sempre rodeados de ideais e de esperanças.

 Graça Taguti

Detesto os Domingos


Detesto os domingos: tanta gente que enche as ruas, sob o pretexto de descansarem.

sábado, 1 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Mensagem aos meus reclusos no dia dos meus anos na prisão de Alta Segurança

Caros amigos,

No primeiro dia de anos que passo convosco na qualidade de Voluntário da Cruz Vermelha e Professor de Português, gostaria de vos agradecer a companhia, a boa disposição e o interesse em participarem nas minhas aulas.

Tenho vindo a aprender muito com todos vocês, e isso é para mim um vosso presente de anos pelo que me têm ensinado, compartilhado e mostrado como compreender melhor o difícil e doloroso que é estar recluso numa prisão, especificamente nesta.

Já conversámos brevemente sobre o vosso passado recente e as razões da vossa reclusão.

Para mim, a grande lição é tentar traçar uma linha nas vossas vidas, entre o passado e o futuro, e poder estar no presente convosco para ajudá-los na preparação da vossa liberdade e poder com alegria recebê-los com os braços abertos nesse dia tão importante para vocês.

Tenho aprendido a não julgar à primeira vista, a respeitar cada um de vocês com as vossas características próprias, certamente influenciadas pela vossa estadia na prisão.

Tenho que confessar que a minha vida lá fora, não é também fácil.

Eu gosto muito de paz, de silêncio, para ter a calma suficiente para pensar sobre a minha vida e as mudanças que possam ser necessárias para me sentir melhor preparado para enfrentar os desafios do futuro.

Gostaria de dedicar algumas linhas a cada um de vocês e dizer-vos qual é a imagem que guardo de cada um.

Vou começar pelo G: É uma pessoa respeitável, tentando o seu melhor para aprender rapidamente o português e ter sucesso. Pelo que eu sei, a sua dor é profunda e, devido à sua idade, torna-se muito difícil estar na prisão. Estou certo de que quando estiver em liberdade, vai ser um exemplo para o seu povo e para a sua família. Espero que possamos continuar a estar em contacto.

P: és uma pessoa muito agradável e amável, com muito humor, inteligente e culta e totalmente capaz de entabulares uma conversa sobre diferentes temas. Um bom companheiro de classe e com muito bom progresso na aprendizagem da língua Portuguesa. Estou certo de que, uma vez em liberdade, te tornarás uma pessoa muito confiável, desejando recuperar o tempo e preparado para aproveitar a vida, calmamente e com qualidade. Gostaria de poder ajudar-te a encontrares um emprego adequado e continuar a ser teu amigo.

E: És uma pessoa muito sorridente, e estou certo de que os guardas se perguntarão como é que numa prisão de alta segurança, pode um prisioneiro rir tão alto e sobre o quê? Este é o E., inteligente e com um excelente desempenho na aprendizagem do português. Atento ao que diz o professor e interessado em pôr em prática. Em termos pessoais, estou certo de que não irás encontrar nenhuma dificuldade para procurar teres uma vida melhor e te tornares um cidadão exemplar. Estou pronto para te ajudar, se necessário, e também gostaria de continuar a ser teu amigo.

B: apesar do meu conhecimento sobre ti ser muito recente por teres chegado às aulas há cerca de um mês e meio, és uma pessoa muito simpática e mostrando muito interesse em aprender o idioma Português. Em termos pessoais, parece-me seres muito equilibrado e mereces voltar à liberdade o mais rápido possível para gozares a tua vida com competência e felicidade. Gostaria de continuar a saber de ti uma vez que estejas no teu país.

A: És uma pessoa muito inteligente, muito avançado no conhecimento da língua portuguesa. Em termos pessoais, és muito reservado, com humor e bem educado, com sensibilidade e a percepção do comportamento humano, uma pessoa bastante intransigente no que respeita aos teus próprios sentimentos, talvez tímido, muito sincero, direto e honesto . Detecta-se  orgulho nas tuas convicções e uma certa recusa em mudá-las facilmente. Não por causa da falta de inteligência, mas porque olhas para a vida à tua maneira e acreditas no que pensas. A partir das conversas na sala de aula e as ideias expressas, acredito que tenhas encontrado alguma paz e desejes sinceramente ser feliz fora da prisão e passares a fazer uma vida familiar simples e construtiva. Em termos profissionais, pareces ser muito ambicioso, e tens a capacidade de desenvolver muito mais em busca da excelência. Gostaria de continuar a ser teu amigo se aceitares a minha maneira de ser.

Para finalizar, todos nós somos seres humanos e, talvez, porque eu sou um pouco mais velho ... hahaha ... do que vocês, posso-lhes dizer francamente que o que importa é ser prudente nas escolhas que fazemos e nos planos que escolhemos para nossas vidas, uma vez que é muito mais viável  e agradável fazer coisas simples, do que sonhar com o impossível.

Muito obrigado por me permitirem passar parte do meu dia de aniversário convosco.

Nota: tinha proposto levar um bolo, pastéis de nata e Coca-Colas e disseram que não era autorizado..Não desisto de lutar por mais humanidade e a revisão de paradigmas que tornem a reinserção na sociedade uma realidade.



beijo à francesa


tem umas mãos feias, com as unhas mal tratadas! Detesto...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Cortar o tempo


Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para a frente vai ser diferente

Era uma vez um Pai e uma Mãe que faziam falta aos filhos.


Era uma vez um Pai e uma Mãe que faziam falta aos filhos. Tinham partido e deixado um grande vazio, quase uma trintena de netos e uns quantos bisnetos.

A vida familiar, no tempo deles, era muito unida, ternurenta, mas vieram as doenças, o sofrimento e o tempo foi-se escoando e foram assim tristemente embora.

Nas missas dos enterros respectivos, com grande afluência de parentes e muitos amigos, transversais a todas as gerações, o coro, lindo, era composto por filhos e netos e a letra de uma das músicas composta pela Mãe.

Mas a vida continua e chegou a vez dos filhos serem Pais e de novo alargarem a Família.

Porém, os tempos são outros, tudo mudou.

Era uma vez um Pai e uma Mãe que faziam falta aos filhos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

numa das minhas idas à China


Numa das minhas idas à China, encontrei um chinês sábio que me vendeu uma poção, a que ele chamou de "elixir do bem viver" e que me permite comer de tudo: feijoadas, mãozinhas de vitela, entrecosto, pézinhos de porco de coentrada, bacalhau à lagareiro, cabrito, enfim tudo especialidades chinesas, sem limites.

Também se pode beber vinho tinto do bom e do branco desde que de boa marca. 

Exercício, estranhamente, disse-me que faz mal, mas deixa-me comer chouriços, farinheiras, morcelas, alheiras. 

Por uma questão de preço na China, nunca tinha experimentado, mas caviar sveluga, salmão fumado, foie-gras e espadarte são recomendados desde que bem acompanhados por champagne. Lagostins, lagostas, carabineros, e de uma maneira geral marisco e peixe fresco são bons para serem comidos com molhos de maionese, bearnais, de limão e manteiga. Não falaram de azeite nem vinagre. 

Pão e manteiga desde que de qualidade superior. 

No frasco do elixir vinha um rótulo desenhado com uma citação do Buda (daí o ventre proeminente): 

"Nascemos para morrer, conhecemos pessoas para as deixar e ganhamos coisas para as perder."

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Acredito em sonhos, não em utopia


Tenho cabeça, coração e me respeito. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje, amanhã já me reinventei. Sou complexa, sou mistura. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar. Não me doo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meio termos. 

Clarice Lispector

sábado, 25 de outubro de 2014

nariz entupido

Muita gente morre de silêncio. Não deita para fora as fecundas mensagens do coração. Morre de ódio, de inveja. E finge que estes sentimentos, tão incivilizados e deselegantes, pertencem somente aos outros. De soberba, arrogância e ameaças também se morre. E ainda quem deixa a paixão morrer no sexo e faz amor sem prazer. Como quem come uma sobremesa de nariz entupido.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

a gente aceita

Que venha. Seja lá o que for, venha. A gente aceita. Encara, luta, cai, levanta, vai em frente. Aceita o que foi, o que é e o que vem. Não, nós não somos permissivos, acomodados, medrosos, trouxas. Nós somos gente. E a gente aceita.

Aceita até mesmo quando rejeita, recusa, esperneia, grita. A gente aceita o inaceitável em conclusão íntima. O teto desaba, o assoalho rompe, as paredes apertam. E a gente aceita.

Aceita pagar por serviços odiosos, aceita esperar de pé em filas enormes por um atendimento de cara feia. Aceita circular de bandeja em mãos por praças de alimentação lotadas até encontrar uma mesa vazia, engordurada, ao lado da lixeira entupida, transbordando sujeira dos outros. A gente aceita o que tem.

Amores capengas e amantes ausentes a gente também aceita. Aceita pela mera ilusão de não estarmos sós.
A gente aceita passar a semana inteira esperando a “sexta-feira, sua linda”, analgésico e antídoto para os venenos de todo dia. A gente aceita. Aceita tudo que não traz nada. Aceita as críticas e pouco reflete sobre elas, senão para nos convencer de que “errado” é quem as fez e não nós mesmos, nós e nossa perfeição religiosa e autoenganada, fundamentada em versículos bíblicos descaradamente adulterados.

Para amansar antigas feras, a gente aceita raciocínios impostos por terapeutas e analistas desinteressados, iludidos de que chegaremos à nossa subjetividade por discernimento próprio.

A gente aceita pagar mais caro por aquilo a que naturalmente tem direito pela simples lógica da civilidade e do princípio da vida em sociedade. Um espaço dois centímetros maior na poltrona do avião, médicos que nos examinem com o mínimo de cuidado, calma para dormir à noite sem esperar que alguém invada nossa casa na madrugada, um atendimento decente em qualquer canto.

Que nos culpem pelo que não cometemos só para fugir de discussões cansativas, a gente aceita de bom grado. E daí? Que mal há em não querer gastar tempo discutindo balela? A gente aceita, aceita que é mais fácil.

Aceita porque, afinal, por mais que nos defendamos, aqueles que nos culpam de qualquer coisa não vão mesmo acreditar. Se o fizessem, assinariam para si mesmos um vergonhoso atestado de covardia. Então aceitam o cargo autoimposto de suprassumos das ciências, reis da cocada colorida, generais da banda.
A gente aceita e se acostuma a viver com medo, aceita a morte lenta e o tempo breve, aceita sentimentos burocráticos e cobranças descabidas. Aceita meia hora de amor e duas paçoquinhas.

A gente aceita tudo. Aceita o que deu pra fazer, aceita o mínimo e acha o máximo. Aceita o mais provável e o menos pior. A gente aceita. A gente aceita.

André J. Gomes

terça-feira, 21 de outubro de 2014

dor de dentes por Portugal e pelo estrangeiro

Se olharmos para as notícias que se referem a Portugal e somarmos às internacionais, não podemos deixar de sentir um mal-estar, uma sensação de enjoo, de dor de dentes latente e de preocupação crescente quanto ao nosso futuro.

Tudo à bulha, quer física quer verbalmente, mortes, sofrimento, miséria, raptos, infelicidade às colheres!

E num dia como o de hoje, em que volta a bonomia do Outono, calor, sol e esta luz única o que apetece fazer é fugir para a praia ou para o campo e ouvir o mar, ou o balir de ovelhas, ver o verde acastanhado das árvores, evitar toda e qualquer polémica e até procurar o silêncio de umas longas horas.

Eu não sei o que sentem e pensam, mas este esforço quotidiano de assegurar a subsistência nossa e dos outros, sem horizonte à vista, com pesados encargos fiscais, desincentivadores do investimento, de inovação e da solvência das empresas e das famílias, é um verdadeiro desconsolo e muito desanimador.

Poucos são os que têm paciência para tolerar a política dos tachos e do poder, agora ou no futuro, pois sente-se falta de espírito de verdadeiro serviço…mas isto são banalidades que se escrevem pois a dor está cá dentro, insidiosa, massacrante e crescente.

Lá fora não está melhor, uma violência nunca vista, cada vez há mais focos de guerra favorecendo novos ciclos de vendas de armas de e para todos os países, sem excepção. É um negócio de grandes e fabulosas margens e comissões que fazem até esquecer as rivalidades e disputas geoestratégicas.

Desorientação no rumo a seguir na Europa, em Portugal, cinismo e hipocrisia…não posso traçar um quadro pior, mas é verdadeiramente o que sinto.

O que fazer? Várias soluções:

a) Beber irrestritamente ou whiskey do bom, ou gins da moda, ou vodka genuíno, quiçá um bom vinho português e adormecer debaixo de uma acolhedora latada, numa quinta dos arredores;

b) Desatar à tapona, na política, na economia, esfalfar-nos, berrarmos, gastar a nossa imagem à exaustão e até nos oferecermos como mercenários para qualquer insurreição…há para todos os gostos e credos, sem qualquer hipótese de êxito!

c) Exilarmo-nos para a terra dos esquimós e viver sabiamente ou talvez para a Jamaica, passando as tardes a beberricar rum;

d) Ler um bom livro ao som de uma óptima música.

Sobretudo, enquanto estiver bom tempo não trabalhar de todo em todo e esquecermo-nos dos malvados, dos traiçoeiros, dos desonestos, dos inimigos, dos patifes e bandidos e por aqui me fico pois a lista é vasta…

Bem-hajam. Pois!