quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Festa da rija - Carta de férias do meu primo Luis Bernardo


Resumo: Imaginem vocês que recebi uma carta de um primo que já morreu há vários anos e que me chegou à caixa do correio. No meu blogue está tudo explicado e as cartas anteriores trocadas foram abundantes. Creio ser o primeiro ser humano a ter verdadeiramente notícias reais, de além-túmulo. Deixei passar algum tempo para cair bem em mim, mas finalmente aparece alguém a explicar como tudo se passa. Aliás, nunca percebi porquê tantos mistérios!

Meu Caro Manuel,

Vou de férias por umas semanas e calculo que tu também. Fiz uma ronda de visitas pela tua Família, mas acabei por encontrá-los a todos numa festa que os teus Pais deram à parentela.

Vou-ta descrever, porque sei que gostarás de saber como a vida é prazenteira por aqui.

A casa dos teus Pais, da qual já te falei algumas vezes, estava esplendorosa. O convite era para um cocktail/high-tea (um misto de lanche “rico” e jantar ligeiro volante).

Uma tarde gloriosa, o relvado em frente do terraço largo e espaçoso, muito bem tratado e com canteiros de flores garridas, com árvores seculares dando sombras aqui e ali e uma miríade de mesas e cadeiras de jardim muito cómodas.

À entrada os teus Pais aguardavam os convidados, com grandes sorrisos e muita familiaridade tratando a todos pelos nomes…foram convocados de ambos os lados até aos quartos Avós e afins, incluindo primos e respectivos filhos. Uns cerca de 200!

Um pouco atrás do teu Pai, o Mordomo sugeria-lhe de vez em quando e discretamente o nome de um parente menos íntimo, o qual não se apercebendo de tal gesto, era recebido da mesma maneira afável que os demais.

Um "smoking" branco e um lenço de bolso em seda de bolas pretas e brancas “assorties” com o laço preto, pequeno toque de elegância - quem diria que aqui, o teu Pai se tornaria um pouco mais dandy – e a tua Mãe com um vestido leve, de cores variadas – ton sur ton - fazendo ressaltar um broche, daquele conjunto que herdaste, o das máscaras venezianas de esmalte envoltas em pequenos brilhantes, rodeados de brilhantes grandes e lindos. Sempre muito admirado pela invulgaridade do desenho e qualidade das pedras.

Criados de libré com bandejas de prata, servindo à entrada “flûtes” de champagne e pequenas tapas de caviar sveluga, foie-gras, e demais aperitivos de escolha requintada. Foi a velha Cacilda, cozinheira estrelada de nem sei quantos guias Michelin caseiros, que as fez e que as sabia tão bem preparar nos vossos jantares, daí.

Entrava-se para as salas amplas e que abrem para o terraço e jardim através de grandes portas de vidro, e todos se congregavam em pequenos grupos.

Uma mesa de mármore boleado, enorme, no meio do terraço, oferecia um buffet de esmeradas iguarias, e mais criados serviam todas as bebidas por entre as mesas espalhadas pelo jardim.

Os teus avoengos de Celorico da Beira e Fornos, muito encantados pela delicadeza do teu Pai de ter mandado servir “Licor Beirão”

Very thoughtful!

A dada altura o teu Pai, proferiu um belo discurso de boas-vindas nestes termos:

“Minha querida Família,

Gostamos de os receber em nossa casa, sobretudo tantos e de tantas gerações para trás.

Umas breves reflexões sobre o nosso estatuto presente: 

O homem do tempo ou o tempo do homem. Duas coisas bem distintas.

Uma inevitável, o tempo que tivémos na Terra.

Há quem lá queira comprar tempo, dias, às vezes horas que se podem tornar em anos: se alguém tiver umas horas a mais talvez se salve do enfarte e chegue a tempo ao hospital.

Há quem queira comprar tempo ainda mais refinado: anos de beleza, anos de saúde e a maioria, anos de felicidade. “Quem quer anos, quem quer ser feliz? “ Não me consta que houvesse em Lisboa de outros tempos pregoeiros de sonhos. Seria um sucesso, estariam ricos em pouco tempo.

O homem do tempo ou o tempo do homem.

Eu sempre preferi o tempo do homem, pude administra-lo, tanto quanto possível dentro de uma certa segurança, uma espécie de período de garantia.

Porém, quando foi o homem do tempo que se aproximou, foi o prenúncio do fim do meu tempo de homem.

Mas estamos aqui todos para nos encontrarmos e celebrarmos e por isso, como anfitriões, tentaremos estar hoje com cada um o tempo que nos for possível para revivermos só o bom passado familiar comum.

Bem-hajam!”

Os teus 4 Avós, fizeram-me muitas perguntas e mandam-te muitas recomendações. 

Têm saudades tuas e eu disse-lhes que tu também e que no teu blogue escreves frequentemente sobre eles e sobre as tuas amorosas recordações de todos esses tempos da tua infância. 

Decorreu a tarde e pela noitinha, acenderam-se tochas à volta da pelouse e um jantar leve foi servido. Do jardim dos teus Pais a vista sobre o mundo é um deslumbramento, e a tua Mãe aproximando-se de mim, travou-me o braço e disse-me em sotto voce:

- Querido Luís Bernardo, às vezes ao olhar para a minha frente, vislumbro luzes na Terra e imagino-me entre os meus de quem tanto gosto e de quem tantas saudades tenho. Diz ao Manel que zelo por ele e por todos!
E por aqui me fico, por hoje. Que te sirva de consolo saberes como és amado e que tens um lugar no coração de todos os que por aqui, comigo, estão. 

Teu muito afeiçoado primo

Luis Bernardo

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

condenação pesada

- O Sr. Desembargador achou a condenação pesada?
- Olhe Silva, para esses pulhas nada é pouco para os aniquilar.
- Mas Sua Majestade ficou apreensiva quanto ao recurso. Disse-me o secretário da Câmara que ouvira este comentário ao almoço no Paço.
- Eu falei com o Conselheiro Acácio que se batia com uma perdiz de cebolada e bebia-lhe do fino com Sua Majestade nesse almoço e que teve o ensejo de sossegar o Real Senhor, dizendo-lhe sem pudor:
- Pois fique sabendo o meu Senhor que na Relação e no Supremo nós temos boa memória.
E parece que entretanto serviram um moscatel de Setúbal para acompanhar um toicinho do céu, vieram depois os charutos e acabou tudo a comentar uma toirada em Salvaterra.

morrer de amor

Encontrei o Ludgero. Achei-o estranho. Perguntei-lhe o que tinha.
- Estou apaixonado!
- Ó diabo, isso ainda te faz ir para o desemprego. Tu vê lá!
- Pois olha que só penso nela, o que estará a fazer, se me corresponde, rondo-lhe a casa à espera que saia. Até já tenho preparado o que lhe vou dizer. Mas repito, e o raio é que gaguejo e parece-me pouco natural. Pensei assim numa metáfora, o que achas?
- Eu acho uma asneira que vai provocar-lhe uma gargalhada de troça ou a indiferença.
- Então o que sugeres, Leandro? Sempre foste meu amigo.
- Eu se fosse a ti, matava-me de amor. Já não há disso e ainda vinha a notícia no Correio da Manhã. Ela leria e sentiria, seguramente, uma comoçãozinha.

o sr. visconde de Itapurati

- Então viste que do Brasil chegou hoje um janota no paquete que vem do Rio?
- Diz a gazeta, que desembarcou hoje em Lisboa o sr. visconde de Itapurati, gente do nosso melhor high-life, depois de uma ausência de seis meses em terras de Vera Cruz.
- Sua Senhoria vai frequentar o S.Carlos e o Tavares e começa o rodopio das coristas.
- Parece que não, disse-me o Mendes da retrosaria, a criada grave que lá vai muito, a Silvina, disse-lhe que tem casamento aprazado com a filha de um Conde.
- Pois junta-se a fome à vontade de comer.
- Olha vou-me chegando pois a Ludovina tem lá hoje um capão com um Collares que aviei ali na rua do Arsenal e está-me a fazer fome.
- Vai com Deus e avisa-me de novidades pois isto é tudo uma choldra.

sábado, 6 de setembro de 2014

escrever é ....uma opinião bem esgalhada, mas há outras

(...) escrever é exumar o que ficou por viver; possuir o que nos escapou; ressuscitar o que nunca existiu; dar vida ao que morreu antes de tempo; descobrir quem não chegámos a ser; inventar quem poderíamos ter sido. Sim, a fonte do que escrevemos nasce do que não fomos.

Marcello Duarte Mathias

sexto sentido de um escritor

Nenhum escritor pode criar do nada. Mesmo quando ele não sabe, utiliza experiências vividas, lidas ou ouvidas, e até mesmo pressentidas por uma espécie de sexto sentido.”

Érico Veríssimo

your smile alone can make my day


a desigualdade social no nascimento e a igualdade na morte

La naissance est le lieu de l'inégalité. L'égalité prend sa revanche avec l'approche de la mort.

Jean d'Ormesson

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Dr.Luis Barbosa e o Taj Mahal


Numa reunião esta manhã na Cruz Vermelha, encontrei o Presidente e meu querido Amigo, Dr. Luís Barbosa de quem guardo gratíssimas memórias pois em pleno PREC, sendo eu um jovem imberbe e loiro (que nunca fui, pois sou moreno) e por ter um grau de parentesco muito próximo por afinidade com o Tio Jorge de Mello, fui saneado do meu primeiro emprego, ever, na Império.

Mas quinze dias depois tinha uma nova oportunidade de trabalho, muito melhor e com um salário bastante confortável para os tempos difíceis da época, tudo devido ao eficaz e bondoso Dr. Luís Barbosa. Fiquei-lhe eternamente grato. 

Este triste momento teve episódios rocambolescos e miseráveis de pessoas iguais a nós que se venderam ao outro lado e que foram a causa do meu despedimento, mas acho que contei para trás no blogue a propósito de outras aventuras.

Ora ficando a conversar comigo na reunião, o Dr. Luis Barbosa contou-me com a sua graça habitual que tendo feito a sua 86 viagem ao estrangeiro, ou seja conhecendo praticamente o mundo inteiro, resolveu esgotar o que ainda lhe faltava e foi ao Azerbaijão, Geórgia e Cazaquistão. Isto com oitenta e picos de anos de vida!

Contou-me que numa visita a um museu de papiros locais, que fazia parte do tour, ficou para trás e de fora do grupo excursionista tendo esperado algum tempo até que os restantes companheiros regressassem ao autocarro…

A propósito de tempos de espera em filas para visitar museus, narrou-me esta divertida historieta: 

1.       Foi à Índia e foi visitar o Taj Mahal. Chegou,viu, entrou, apreciou e foi-se embora. Tudo isto sem demorar mais do que uns 15 minutos.

2.       Foi desafiado pela família para ir a Óbidos à Feira do Chocolate, e esperou em pé mais do que 45 minutos para uma réplica do Taj Mahal em chocolate…..

Nunca mais, jurou a si mesmo, voltaria à feira do chocolate…para demorar 45m a ver uma réplica pequenina de um monumento que ao vivo, chegou, viu e venceu!

os meus olhos nos teus olhos


Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte no teu campo o que eu semeei.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Romeiro, Romeiro! quem és tu? - Ninguém.

Romeiro, Romeiro! quem és tu? 

- Ninguém.


Cristalina lucidez

… como no Inferno quando se entra pela porta maldita e se deixa a dita esperança à entrada. Agosto é um bom mês para percebermos tudo.

Milhares e milhares de jovens que não lêem um livro, passam o mês em festivais no meio do lixo, do pó, da cerveja e dos charros.

Milhares e milhares de adultos vão meter o corpo na água e na areia, sem verdadeira alegria nem descanso.

Outros muitos milhares de jovens e adultos nem isto podem fazer porque não tem dinheiro.

No interior, já que não há correios, nem centros médicos, nem tribunais, proliferam as capitais, da chanfana, do caracol, do marisco, do bacalhau, dos enchidos, da açorda, as “feiras medievais” de chave na mão, as feiras de tudo e mais alguma coisa desde que não sejam muito sofisticadas. Não é uma Feira da Ciência, nem Silicon Valley.

As televisões, RTP, SIC e TVI “descentralizam-se” e fazem arraiais com umas estrelas pimba aos saltos no palco, mais umas “bailarinas”, nem sequer para um grande público. 

 Incêndios este ano há pouco, pelo que não há imagens fortes, ficamos pelo balde de água. 

Crimes violentos “aterrorizam” umas aldeias de nomes entre o ridículo e o muito antigo, que os jornalistas que apresentam telejornais com tudo isto gostam de repetir mil vezes. 

Felizmente que já começa outra vez a haver futebol, cada vez mais cedo. 

O governo, com excepção das finanças e dos cortes contra os do costume, não governa, mas isso é o habitual.

A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social. No tempo de Salazar falava-se do embrutecimento dos três f: futebol, Fátima e fado. Se houvesse Internet acrescentar-se-ia o Facebook como o quarto f. Agora não se pode falar disso porque parece elitismo. Áreas decisivas do nosso quotidiano hoje não são sujeitas à crítica, porque se convencionou que em democracia não se critica o “povo”.

Agosto é um grande revelador e um balde de água fria em cima da cabeça para aparecer na televisão ou no You Tube. 

Participar num rebanho, mesmo que por uma boa causa, podia pelo menos despertar alguma coisa. 

Nem isso, passará a moda e esquecer-se-á a doença. Pode ser que para o ano a moda seja meter a cabeça numa fossa séptica, a favor da cura do Ebola.

Assim não vamos a lado nenhum. Como muito bem sabem os que não querem que vamos a qualquer lado.
 
Abrupto – José Pacheco Pereira 

Na China e em Portugal acabam sempre no mesmo...

Um colaborador meu chinês, o Lu Yang, mas que fala português como eu, vivia cá em Portugal e, como tantos outros, por falta de oportunidades partiu para a China, nomeadamente para Shanghai aonde lhe arranjei um emprego na Cimpor.

Durante os primeiros 6 meses acabámos por não nos contactar, apesar de eu ter ido a Pequim umas três vezes ( não é bem ali ao lado...) e quando finalmente lhe telefonei a saber se estava tudo a correr bem, entre outras coisas, disse-me que se ia casar.

O Yang Lu, tem cerca de 28 anos e até ali nunca me tinha dito que estava a pontos de dar o nó.

Por isso, perante o meu espanto, disse-me: - Sabe como é, aqui na China são as famílias que arranjam os casamentos e a minha, apanhando-me aqui, achou que já estava em idade de formar família!

Mas, perguntei-lhe, já a conhecias? - Eu, não! - E gostas dela, achas que é o teu tipo, etc.. Resposta dele : - Já sabe como é, aqui na China, os homens têm que cumprir o seu dever de se casar senão parece mal, e eu nem penso no amor!

Entretanto nasceu uma filha e tenho falado com ele.

Parece que a Madame gosta de fazer compras caras nos grandes shoppings, e tanto quanto me diz, a vida corre sem sobressaltos, tipo bocejo!

Comentei-lhe que tendo ele vivido em Portugal, andado no liceu, falando bem português, tendo conhecido moças galantes locais, e convivido num ambiente moderno, livre e sem estas obrigações familiares, como se tinha submetido e não dar o grito do Ipiranga???

Resposta dele: - Sabe, por aí as pessoas acabam todas da mesma maneira como aqui na China...fazem sexo por obrigação, têm filhos, trabalham em ambientes cinzentos e de crise até que chegam a mais tarde e morrem de velhos.

E esta hein?

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A liberdade perdida - Crónicas - Giovanni o siciliano - o primeiro recluso




(foto de Giovanni (1) Giovanni no liceu (2) Don Emilio De Rosa, o Avô, e Giovanni (3) Don Emilio, a Mãe de Giovanni, Donna Emilia De Rosa e o pai, Giacomo ou Giaco Cominelli)


Giovanni tinha nascido na Sicília, de uma família remediada e fora cedo para a escola local. A casa tipicamente da região era composta de uma sala comum com um grande forno de pão e uma chaminé aonde se cozinhava e durante o inverno toda a família se sentava para se aquecer. Havia mais dois quartos de dormir, um o dos pais e o outro de Giovanni e dos irmãos. Uma casade-banho única com uma tina de chumbo e um chuveiro de água fria serviam a família.

O pai, Giacomo - o nome transforma-se em Como e dá origem ao apelido Cominelli -  era conhecido por Giaco, e era um homem austero, comerciante local, com uma taberna limpa e asseada aonde a comunidade dos homens se reunia antes da missa, a que só iam vagamente alguns, acompanhando a maioria da mulheres que compareciam com as crianças. 

A mãe, Emilia De Rosa era filha de um capo da Máfia (Cosa Nostra)

Comia-se bem e farto, pois o negócio de Giaco dava bom lucro e o Avô era generoso e ia dando dinheiro à filha para educar Giovanni, com quem tinha muita cumplicidade.

A Cosa Nostra (também conhecida apenas como Máfia) é uma sociedade criminosa secreta que se desenvolveu na primeira metade do século XIX na Sicília, em Itália. A Máfia é um tipo de crime organizado não apenas activo em vários domínios ilegais, mas também com tendências a exercer funções soberanas - normalmente pertencentes a autoridades públicas - sobre um território específico...

Muitos sicilianos não consideram esses homens como criminosos, mas como modelos ou protectores, uma vez que o Estado foi incapaz de oferecer proteção aos fracos e pobres. 

Por volta da década de 1950, a inscrição fúnebre do lendário chefe de Villalba, Calogero Vizzini dizia que "a sua máfia não foi criminosa, mas manteve o respeito à lei, à defesa de todos os direitos e à grandiosidade de caráter. Era amor." 

Aqui, "máfia" significa algo como orgulho, honra, ou até mesmo responsabilidade social: uma atitude, não uma organização. 

Em 1925, o ex-primeiro-ministro italiano Vittorio Emanuele Orlando reportou ao Senado italiano que se sentia orgulhoso de ser um mafioso, uma vez que essa palavra significava honorável, nobre, generoso.

De acordo com alguns mafiosos, o verdadeiro nome da Máfia é Cosa Nostra (literalmente, "Coisa nossa") que pode ser traduzido como: "Assunto nosso" ou "Nosso assunto". Muitos alegaram que a palavra "mafia" foi uma criação literária. Para os homens de honra pertencentes à organização, não há necessidade de um nome. Os Mafiosos apresentam membros conhecidos a outros membros conhecidos como pertencentes à "cosa nostra" (nossa coisa) ou la stessa cosa (a mesma coisa). 

Apenas as pessoas de fora da máfia precisam de um nome para descrevê-la, daí a forma em letras maiúsculas "Cosa Nostra".

O ritual de iniciação na maioria das famílias acontece quando um homem torna-se membro e depois soldado. O novato é trazido à presença de, pelo menos, três "homens de honra" da família e o membro mais velho presente adverte-o que "esta Casa" tem como função proteger o fraco do abuso do poderoso; e então, fura o dedo do iniciado e pinga umas gotas do seu sangue sobre uma imagem sagrada, geralmente de uma santa. 

A imagem é colocada na mão do iniciado e é acesa com fogo. O novato deve aguentar a dor, passando a imagem de uma mão para a outra, até a imagem ser consumida por completo, enquanto promete manter a fé aos princípios da "Cosa Nostra", jurando solenemente "que a minha carne arda como este santo se eu falhar em manter meu juramento". 

Os sicilianos também têm uma lei de silêncio, chamada omertà. Proíbe a homens e mulheres cooperar de qualquer maneira com a polícia ou com o governo, sob pena de morte.

Na sua forma inicial a Cosa Nostra siciliana, denomina cada grupo como famiglia ou Cosca. Cada "família" é organizada da seguinte forma:

No topo da hierarquia está o Capo, conhecido como Don. Por ele passam todas as decisões acerca da família, e recebe uma percentagem dos lucros de todas as operações dos seus membros.

Logo abaixo do Don, está o Sottocapo (Subchefe). Serve como substituto temporário no caso da ausência do chefe e também como intermediário entre este e os outros membros abaixo na hierarquia.
 
O Consigliere actua como conselheiro do Don, e é o único que de facto pode ponderar e aconselhar as acções a serem empreendidas pelo chefe, servindo como uma segunda opinião. Normalmente é um posto ocupado por alguém de muita experiência e perícia para intermediar conflitos e negociações.
 
Subordinados directamente ao Subchefe estão os Caporegimes, conhecidos também como Capitães. Cada um destes, comanda um regime ou uma equipe, que são compostas por soldados e associados. Uma percentagem de todo o lucro obtido por esta equipe é entregue directamente ao chefe da família como forma de tributo.
 
Os Soldati ou Soldados, são o posto básico da hierarquia. São os membros efectivos da organização. São eles os responsáveis por conduzir as operações nas ruas e executar os serviços de maior importância. O requisito básico para se tornar um membro efectivo da família é possuir ascendência italiana completa no caso da Cosa Nostra siciliana.

Os Associados são os membros externos da organização. Embora não façam oficialmente parte da família, actuam como colaboradores dos seus membros efectivos. Dependendo da sua influência e poder, o associado pode actuar inclusivé junto dos postos mais altos da hierarquia de uma família.

Ora o avô materno de Giovanni, de nome Don Emilio de Rosa, tinha sido um importante Capo na região de Palermo pelo que a sua família era intocável.

Don Emilio tinha modernizado os dez mandamentos da Cosa Nostra, resumindo-os aos seguintes princípios:

1. Ninguém se pode candidatar directamente através de algum membro. Deve sempre ser proposto por intermédio de um terceiro.
2. Nunca podem olhar/envolver-se com as mulheres dos seus companheiros.
3. Nunca podem ser vistos com a polícia.
4. Não podem ir a bares nem a discotecas.
5. Estar sempre à disposição da Cosa Nostra é um dever - mesmo quando as mulheres estiverem a dar à luz.
6. Os compromissos devem sempre ser honrados.
7. As esposas devem ser tratadas com respeito.
8. Quando for solicitada uma informação, a resposta deve ser sempre a verdade.
9. Não podem apropriar-se de dinheiro pertencente a outras famílias ou outros mafiosos.
10. Diversos tipos de pessoas que não podem fazer parte da Cosa Nostra: qualquer indivíduo que tenha um parente próximo na polícia; qualquer um que tenha um parente infiel na família; qualquer um que se comporte mal ou que não tenha valores morais.

E assim, Giovanni foi educado secretamente para se tornar, quando fosse um homem, num activo membro da Cosa Nostra para honrar o nome do avô.

(continua)

Ai flores, ai flores do verde pino



Acordei às cinco e meia da manhã e apesar do ar condicionado, deixei de ter sono.

Levantei-me e fui para a sala e sentei-me no meu lugar habitual e deixei-me embalar por esta cantiga de amigo de el-Rei D. Diniz, que estudei nos meus tempos de literatura, e a qual estranhamente me veio em sonhos durante a noite:

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado!
ai Deus, e u é?

Na lírica medieval galaico-portuguesa uma cantiga de amigo é uma composição breve e singela posta na voz de uma mulher apaixonada. Devem o seu nome ao facto de que na maior parte delas aparece a palavra amigo, com o sentido de pretendente, amante, esposo.

Ainda que todos os poetas medievais fossem homens, utilizavam o ponto de vista feminino nas cantigas de amigo, que têm como tema o erotismo feminino e os conflitos resultantes da ausência do 'amigo'. Caracterizam-se formalmente pela repetição.

Tem sido um Verão bem dramático de mortes de mais novos e mais velhos e no meu sonho de hoje, a minha aflição era a de saber aonde estão todos estes a quem tanto quisémos.

Mal sabia el-Rei Diniz que o seu cantar de amor poderia servir para exprimir este clamor no silêncio eterno do desconhecido que pergunta sem cessar:

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?

Aonde estão?

Respondei!

nose-picking