terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Rubém e a Adèlinha - Noivas de Santo António


A Adèlinha confiou ao Rubém que se queria casar nas noivas de Santo António, pois havia uma bonita festa, davam o vestido de noiva branco, um almoço e muitos presentes úteis para a casa.

- Ó filha de branco? Isso até parece mal, mas se queres muito, seja – disse o Rubém meio indignado.

- O D.Plínio disse que tratava de tudo, pois como é da embaixada mete lá uma cunha na Câmbara. Em troca pediu-me que eu não o largasse e eu disse-lhe que vinha perguntar-te.

- Ó filha dá sempre jeito mais dinheiro para a casa, o que eu acho é que lhe devias pedir um aumento por causa do IVA, está tudo tão caro…minha malandra, tu gostas de brincar – disse o Rúbem já a pensar na Cátinha Alexandra. Assim ficava tudo na mesma e ainda se ganhava com o quiosque!

Acontece que a Adèlinha precisou que o Rubém assinasse um papel para o sr. Prior por causa das Noivas de Santo António e lembrou-se de apanhar o autocarro e ir ter com ele à oficina.

Nesse dia a Cátia Alexandra escolhera uma roupa janota. Tinha levado para a pastelaria um saco de plástico do Lidel com o traje que poria para ir ter com o Rúbem.

Ele contara-lhe das Noivas de Santo António, sossegara-a quanto a manter-se tudo na mesma e até lhe prometera nas férias uma ida ao Senhor Roubado, pois tinha aberto recentemente um grande armazém chinês cheio de coisas baratas mas muito jeitosas e ela ficara toda excitada.

Tinha comprado na capelista da esquina que vendia de tudo, um verniz côr-de-laranja que estava na moda das madamas da alta, e na loja do sr. Li de nome “Pérola do Oriente” uns brincos a imitar as arrecadas do Minho mas só que em vez de douradas eram com luzes fluorescentes, brilhavam muito, muito, o Rúbem havia de gostar! Ia estrear uma blusa de fios brilhantes entre o verde e o amarelo canário e uns shorts que quase deixavam ver as partes da vergonha quando se dobrava! 

Uns sapatos destes com uns saltos muita altos, que ela via no cabeleireiro nas revistas do coração e um perfume muito leve de uma marca que comprara na farmácia, chamado “Bien-être” que até tinha sido barato. Perguntara se era dos melhores e ela que sim, a framacêutica sabe destas coisas! 

Sem soutien, de peitaça a transbordar da blusa de malha como ele gostava…e sem calcinhas pois já era tudo tão apertado que já nem dava espaço…

A única coisa que lhe começava a chatear era ela ir assim de arrasar e toda lavadinha e ele estar sempre suado, cheio de óleo e com as unhas e mãos sujas. Fazia-lhe nojo quando ele a agarrava e tocava mas ele era tão quente…havia de lhe dizer que alugassem um quarto ali ao pé, com duche e tudo.

A Adèlinha estava encantada com o casamento e toda a cerimónia. O D. Plínio tinha sido muito amigo e ela sentia-se assim como uma dona, menos puta, sim porque estas coisas da igreja sempre davam respeitabilidade e ela havia de ser muito feliz com o seu Rubém.

Viu a porta da oficina entreaberta e disse para si mesma: horas extraordinárias! Coitado, trabalha sempre até tão tarde que só pode estar comigo nos fins-de-semana.

Entrou e pensou; vou devagarzinho para lhe fazer uma surpresa e até já vou começando a me desapertar. Hoje apetecia-lhe festa e havia de compensá-lo de tantos dias sem ela.

Luz meia mortiça no interior da oficina, um barulho como se fossem gritos que ora eram altos ora baixinhos, uns gemidos e uma chusma de palavrões “ meu cabrão, anda leão, mete-me essa mudança, puseste-lhe freios novos, arranca-lhe as pastilhas”!

- Mas querem ver co meu Rúbem está com uma gaja?

- Ah desavergonhada, ah desgraça da minha vida, hás-me de mas pagar. Ah que me lixas as minhas ricas Noivas de Santo António!

O Rúbem desprevenido fugiu para o canto e a Adélinha de sacola em riste vá de bater sem descanso na Cátia Alexandra.

Desfez-se o casório, a Adèlinha ficou com o D. Plínio e quiçá até bem melhor, e o Rubém acabou por enjoar o “Bien-être” e mudou de oficina.

domingo, 24 de agosto de 2014

O Rúbem e a Adèlinha - o Opel


A Adélinha foi o caminho todo até à praia, a chagar o Rúbem: porque queria mais dinheiro dele, que estivesse mais tempo com ela, que a acompanhasse às festas e romarias na Reboleira.

O Rúbem sabia que a Adélinha tinha um senhor mais velho do que ela que a visitava regularmente. Ele não se importava pois no fundo arredondava o mês da sua amigueta.

O dito cavalheiro chamava-se D.Plínio de Rodriguez y Muñoz e era da embaixada da Colômbia, homem baixo, de farto bigode, muito escurito mas com muita guita.

Trazia-lhe presentes: cópias de perfumes bons que comprava na rua dos Fanqueiros, bijuteria barata mas ostensiva que a Adélinha chamava de brilhantes, não passando mais do que vidro lapidado, tops dos chineses e até uma sacola falsa do Louis Vutton.

Na redondeza tudo elogiava o D. Plínio por tratar bem da Adèlinha.

Esta por sua vez, proporcionava-lhe carinhos e ternuras de que ele se babava: beijos profundos e longos, rebolanços no chão com gritinhos, e grandes solavancos na cama com a barriga do colombiano para baixo e para cima.

Tudo parecia correr no melhor dos mundos até que o Rubém arranjou uma garina lá para os lados da oficina, de sua graça Cátia Alexandra.

Trabalhava na pastelaria e arranjava à socapa sopas e rissóis que roubava ao patrão para levar ao Rúbem, de fugida, durante o almoço.

Começaram a andar durante os dias da semana enquanto a Adélinha estava servida. A Cátia, de raça cigana, saía às 20h da pastelaria e ia directa para a oficina.

O Rúbem tinha comprado a um cliente um modelo de Opel Rekord já antigo mas grande, tinha-o arranjado todo e estava um brinco.

Tudo se passava entre os dois, a Cátinha e o Rúbem, entre o tablier e os bancos estofados de veludo, macios e largos, quase como se fossem uma cama de casal.

sábado, 23 de agosto de 2014

O Rubém e a Adélinha


A Adélinha e o Rubém esperavam pelo Sábado para ele ir buscá-la à Reboleira e poderem estar juntos. Ele era mecânico numa oficina, e ela excitava-se com a ideia do fato-de-macaco sujo de óleo com três botões desapertados deixando ver um peito farto em pelos.

Ela trabalhava no turno da noite de uma clínica, e não havia vez em que o Rubém não desse parte de doente para ser admitido nas urgências, para poder estar com a Adélinha na barbuda na enfermaria.

Ela usava uma bata branca nada apropriada para ajudante de criada, mas tinha-a comprado no “Rei das Fardas” e pedira uma assim ousada para excitar os patrões. De modo que era transparente e deixava ver a lingerie castanha côr da carne que adquirira na loja dos chineses.

Estava um dia de calor e preparavam-se para ir para a praia ali para os lados de Alfarim , pois ambos praticavam o nudismo.

Se estiverem interessados em saber como continua é pedirem aqui, senão atirem-me com ovos pôdres e tomates…chuuu…fora…cretino…indecoroso story teller…

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

que estranho é o amor



Que estranho é o amor

Um misto de emoções
de alegria, um bem estar que se sente de dentro para fora
Um consolo pelos maus momentos
Até o azul do céu parece diferente
Olha-se à volta e os detalhes parecem mais vivos, falantes
O verde dos campos, o barulho de uma fonte num tanque.

Acordei.

Adormeço de novo. Os teus cabelos que cheiram bem. As mãos que afagam e vão descendo para os olhos até os fecharem devagarinho, com toques ao de leve. Os dedos roçam a boca e os beiços entreabertos, e continuam na sua caminhada para o pescoço que torneiam e com leveza encostam aos meus ombros.

Mas as mãos continuam sôfregas pelo teu peito que apertam delicadamente e roçam com firmeza nos bicos que endurecem.

As pernas macias enroscadas no meu colo deixam que as festas se prolonguem docemente até aos pés que massajam e retornam pela avenida do prazer até que te sinto dormida nos meus braços.

Ajeito a cabeça e pouso-a na cama com ternura.

Que estranho é o amor.


in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

quando tu não estás


Quando tu não estás, sinto-te
em tudo quanto faço, digo, penso
pois é como se fizesses parte de mim,
não por abuso de te possuir obsessivamente,
mas porque és o meu sossego, o meu enlevo,
o prazer que não sendo só carnal,
me dá uma razão de existir no tempo e no espaço,
agora e aqui.

Quando tu não estás, sou e não sou diferente perante o mundo,
pois se a alma espelha mais este sentir profundo
que vem cá de dentro, e reflecte certezas de amor,
não muda de brilho o meu olhar para os outros,
a minha entrega é segura, precisa
e não cede aos apelos dos sentidos,
porque te tenho e me bastas.

Quando tu não estás, apago-me e faço-te o meu ídolo,
és tu que brilhas, que incendeias e acalentas sonhos
com quanta intensidade sou capaz de te fazer passar por mim,
e nas sensações que provocas pelo meu agir,
há esta pureza de saber que o faço por amor,
sem retorno e sem traição.

Quando tu não estás, qual amante velando pelo ser amado,
cuido no meu íntimo que o teu amor por mim é honrado e limpo
e que na lonjura da cidade onde mergulhas,
a saudade te fortalece a alma das sombras, dos medos e dos cansaços
e te esconjura da tibieza com que te seduzam,
pois o amor é frágil e mutável.

Quando tu não estás, tenho saudades das tuas mãos,
do meu olhar para ti que é o teu para mim,
do teu corpo em descanso no meu, lânguido e entregue,
dos teus beijos e jogos de amor, do teu eu tão intenso
e ao mesmo tempo tão inseguro do teu querer,
mas não estando estás, pois eu estou.

in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza


as tuas mãos seduzem-me



As tuas mãos seduzem-me! Deixaste-me estirar ao teu lado
e amacias as palmas das minhas e no silêncio dos corpos nus,
entregamo-nos mútuamente, cedendo meigamente aos sentidos.

As tuas mãos seduzem-me! Quando as fechas nas minhas
sinto o bater do teu coração, que te pede a minha boca
e ao encontrar-nos nesse oráculo de prazer imenso,
saboreamo-nos lascivamente e em jogos de amor
de intensidade infinda, como que um bocadinho de nós passa para o outro deixando uma presença perene,
reserva de afecto que preenche as nossas solidões.

As tuas mãos seduzem-me! Quando me acaricias o corpo
e perpassas as pontas dos dedos sobre lugares ocultos de prazer,
é como que uma partilha de paixão e intensidade insana,
despudorada e escandalosa do encanto de sabermos
que somos um do outro.

As tuas mãos seduzem-me! Quando as nossas bocas em uníssono
buscam sofregamente os dedos ágeis um do outro,
que intrusos acariciam o santuário do desejo,
em gestos ao mesmo tempo sensuais
e de procura de um prazer simultâneo, então sim,
os nossos corpos encontram-se em toda a sua complementaridade, confundindo-se num só.

As tuas mãos seduzem-me e enchem-me não já os sonhos, mas são o bater real do teu coração no meu.


 in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza


o meu olhar para ti


O MEU OLHAR PARA TI

Quando nos olhamos nos olhos,
em silêncio e no meio da multidão indiferente que nos rodeia,
parece que um anjo perpassa e leva de um ao outro intensidades
e emoções que a palavra ou a escrita não conseguem traduzir.
E devolves-me o teu olhar, meio sorridente e entregue,
nesse despique para ver quem cede primeiro,
entre rendida e resistente.

Faço subtis meneios de cabeça, num vaivém leve e sensual
como que se desejasse dominar o movimento dos teus olhos,
e provoco-te,
nesse mesmo crescendo como o dos nossos jogos de boca
e de beijos fugazes e leves nos nossos olhos cerrados,
fuga e prisão dos teus beiços.

Tanto por dizer que fica dito num cruzar de olhos!
Nem precisamos mais de sussurrar palavras,
porque o meu olhar para ti leva sonhos de promessas,
de ternura, de entrega e tu com um ar doce já não resistes
e retribuis com o teu olhar que já não é só teu
mas o reflexo de um único que se funde nos nossos dois seres.

O meu olhar para ti, é o teu olhar para mim.


 in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza


Odeio quem me rouba a solidão sem verdadeiramente me oferecer companhia


Odeio quem me rouba a solidão sem verdadeiramente me oferecer companhia

Nietzsche

domingo, 17 de agosto de 2014

sábado, 16 de agosto de 2014

Reflecti e ide - Conselho intemporal


Quando na vida não sou­ber­des o que haveis de fazer, quando uma sen­sa­ção de impo­tên­cia se impu­ser — não façais nada! Des­can­sai! A alma repou­sada e o cére­bro em stand-by têm muito mais cri­a­ti­vi­dade e genica do que qual­quer impulso de ade­rir a uma fação política.

Podeis pen­sar que ao escre­ver isto faço mal. Mas em ver­dade vos digo que é um enorme con­se­lho intem­po­ral. Já os anti­gos o davam — deu-o Jesus que era bom; deu-o Buda que era des­po­jado; deu-o o livro dos Mór­mons, que foi um achado; deu-o a Pito­nisa no seu con­fuso tom.

Nada, niente, ras­pas, népia. Qui­e­tos, iner­tes, amor­fos e pau­sa­dos. A coisa é de ciên­cia certa, de expe­ri­ên­cia feita e modos escar­men­ta­dos. Basta estar qui­eto e em silên­cio de feliz bea­ti­tude.

Por­que muito acerta quem nada diz e muito ganha quem não toma uma atitude.

Reflecti e ide.

Publicado em Agosto 16, 2014 por Henrique Monteiro

A liberdade perdida - Crónicas - Apresentação



Nunca pensei que a visita a prisões me pudesse provocar profundas transformações na minha maneira de encarar a noção de culpa.

Estas duas aulas semanais de duas horas cada, que dou a reclusos estrangeiros de alta segurança, puseram-me em contacto com pessoas de várias nacionalidades. Assim sendo as aulas são faladas simultaneamente em inglês, francês, espanhol e esporadicamente em italiano. Sem referir claro que também falo em português, pois o objectivo é o ensino da nossa língua para adultos estrangeiros.

O primeiro embate foi tremendo, pois apesar de já ter no passado feito este tipo de voluntariado em outras prisões e ir começar a partir de Setembro um projecto piloto para as reclusas de Tires, nunca tinha entrado numa prisão de Alta Segurança do Estado.

Tenho um pouco de claustrofobia, mas nada de perder o domínio, mas detesto uma série de coisas que não vou mencionar aqui pois não é de mim que quero falar, por isso quando na primeira aula me encontrei fechado a sete chaves numa sala não muito grande, com guardas do lado de fora, com uma câmara permanente de vigilância, tive um certo baque interior.

Não me preocupava a segurança com os reclusos que iria conhecer, pois o Director dissera-me que tinham sido escolhidos a dedo. Eram inteligentes e tinham penas elevadas e complicadas.

Tinha dado aulas de Direito na Universidade e no Liceu de Macau, quando lá vivi e trabalhei em Hong Kong. Nunca, porém, a principiantes. Mas gosto de desafios e não me tenho saído mal, pois eles progridem e já vou falando mais em português, sinal de que estão a absorver os ensinamentos.

Na última meia hora de cada aula, deixo tempo para conversarmos sobre tudo sem restrições.

Como me apetece tratar este tema para poder captar um maior interesse de potenciais interessados/as em me ajudarem num projecto de que vos falarei mais adiante e tentar consciencializar a sociedade civil para a reinserção social após o termo do cativeiro, terei que usar da minha criatividade e imaginação para relatar o que vou presenciando, sentindo e o que proponho para melhor ser bem sucedido nesta minha tarefa tão reparadora, sem contudo por em causa a confidencialidade de tal actividade.

Tenciono publicar uns contos sobre o testemunho do que for observando, mas reconheço que este é um tema que incomoda, provoca sensações contraditórias e tende a que as pessoas, tal como em relação à morte, sintam uma certa repulsa e tentem afastá-lo da mente. 

Pois eu sinto-me impelido a extravasar sem temor o que me tem feito bem, me tem limpo a alma e a cabeça, me expele preconceitos, me impõe maior tolerância e rigor na análise das motivações dos actos dos outros e enfim me ajuda a aperfeiçoar os meus sentimentos.

Garanto-vos que a cada vez que lá vou, consigo desligar-me das minhas preocupações, problemas, estados de alma, angústias e tão só pela simples razão de que me esqueço de mim próprio.

É um bom exercício de humildade, entrega e despojamento o que é importante pois não há tentações do ego para me vangloriar. Não há tempo e o que se observa é tão vasto e complexo, que quando se sai e se volta a respirar o ar livre, é como se trouxesse um aviso para olhar para a minha vida e triar o essencial do acidental.

Os/as minhas benevolentes leitoras do blogue e facebook impelem-me a escrever e por isso encaro este desafio como mais um motivo de ocupação dos meus escassos tempos livres.

Ler e escrever sobre o que se observa é um meio-caminho para um fim de vida mais tranquilo, quase como que um abandono leve e suave á inesperada vinda da morte. Quase nada fica para fazer que não tivesse passado por um crivo de maior rigor e serenidade na análise. O resto são minudências…

Por isso, em guisa de apresentação, deixo aqui o habitual (continua) quem sabe com que cadência, mas na certeza de me apetecer mergulhar nesta apaixonante crónica da liberdade, que tão difícil e dolorosa parece ser de alcançar para quem está em reclusão.

(continua)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

re-publicação de Torralta (fim) Mário Soares e eu ou "The King and I"


A justificação da ida do Presidente Soares à Torralta, era a de entregar o prémio da Associação Portuguesa dos Escritores (Comunistas), que se desenrolaria no auditório em Tróia. 

Devo confessar com toda a sinceridade que não só não sabia desse evento, como fui confrontado pelo Director Financeiro com a informação de que o cheque do prémio que o Presidente iria entregar, era “careca”, ou seja não teria provisão!

Passei esta informação ao meu primo General Carlos Azeredo dizendo-lhe que seria uma vergonha para o Presidente da República entregar um prémio cujo cheque não teria cobertura, e o Chefe da Casa Militar pediu-me para esperar enquanto iria consultar Mário Soares, tentando dissuadi-lo.

Entretanto, tudo se passava na frente dos sindicatos a quem eu paulatinamente explicava que a vinda do Presidente da República à Torralta era uma provocação ao Primeiro-ministro Cavaco Silva, que era quem tinha a tutela da Torralta, através do Governo. Viria com toda a imprensa escrita, rádios e televisões para entrevistar os trabalhadores e ouvir as suas queixas e angústias e na prática, nada adiantar, pelo contrário publicitando ainda mais a situação da Torralta que precisava de continuar a receber turistas e passantes, enquanto a situação não se resolvesse.

Sendo primos e tendo intimidade suficiente, não hesitei em dizer-lhe ao telefone tudo isto em voz alta para todos ouvirem. Estavam calados, sem nada dizer.

Veio de lá uma voz desolada do General Carlos Azeredo, dizendo-me que o Presidente confirmou-lhe que vinha e que quanto ao cheque sem provisão, o problema era da Administração da Torralta. Ele entregaria o prémio e quando o destinatário o fosse depositar, já não seria mais da sua responsabilidade. Foi ipsis verbis o que eu transmiti aos trabalhadores, perguntando-lhes o que fariam no dia da visita e eles nada responderam!

Mais uma vez fiquei tranquilo e pensei que tudo tinha feito para evitar o pior. Lembrei-me de um filme antigo com o Yul Brynner chamado “The King and I” e pensei que se poderia aplicar ao meu caso!

No dia aprazado, o Presidente Soares aterrou de helicóptero no campo de futebol trazendo atrás de si toda a imprensa, nomeadamente as televisões. O percurso até ao auditório ainda era longo e eu tinha providenciado para que o meu carro e motorista estivessem prontos para nos levar.

Estava uma manhã linda de sol e os trabalhadores, os tais 700 e tal, alinhavam-se de cada lado, fazendo alas.

Cumprimentei o Dr. Mários Soares que se me dirigiu afavelmente e bem disposto e me tratou: - Como está o Senhor Presidente? Ao que lhe respondi que quem era Presidente era ele. Respondeu-me então, que éramos dois Presidentes: ele da República e eu da Torralta!

Pedi-lhe para tomar lugar no meu carro e ele respondeu-me que estava um dia soberbo e que iríamos os dois a pé, à conversa. Entretanto, não deixou de reparar naquela mole humana de gente com um ar triste e silencioso.

Percorremos lentamente o caminho, passando entre os trabalhadores que se mantiveram num silêncio total e absoluto e quando chegámos à porta do auditório, disse-me de caras:

- Dou-lhe os meus parabéns, eu vinha preparado com a imprensa, rádio e televisões para ouvir as queixas dos trabalhadores contra o Governo e o Senhor Presidente, por milagre, conseguiu que estivessem calados. Como fez?

- Saiba V.Exª que lhes disse a verdade, a qual é tudo quanto acabou de dizer, acrescido de que ficariam ainda mais prejudicados se contribuíssem para mais quezílias institucionais, uma vez que V.Exª nada tem a ver com qualquer solução que se venha a encontrar para a Torralta.

Ficámos entendidos e devo dizer que Mário Soares que tem um charme indiscutível, dali para a frente fez com que tudo corresse com dignidade e sobriedade, e o dito cheque foi entregue nas condições que se lhe tinham comunicado, tendo o Presidente, em voz baixa, dito que sabia o problema que me estava a causar, mas que esperava que entretanto entrasse dinheiro. O montante, nesse momento, era relevante para a Torralta pois não tínhamos sequer, em caixa, os referidos Euros 2,000,00! Imagine-se a penúria! 

Convidei o Presidente para almoçar no terraço do restaurante do Golfe. É uma maravilha de localização, de traçado conhecido e muito apreciado, de soberbas vistas para o mar e o ambiente não podia agradar mais ao Dr. Mário Soares e à sua comitiva.

Faço aqui um pequeno aparte, aliás doloroso pois hoje em dia estamos quase na mesma situação: era tudo fiado, ou seja não se pagava aos fornecedores que tinham proporcionado o almoço, o que para mim era um horror!

A conversa entre o Presidente, jornalistas, escritores, políticos e deputados fluía com facilidade, ajudada por generoso vinho que se servia amiúde, e eu, muito mais novo e não tendo conspirado contra ninguém nem nenhum regime, nem sequer ter estado no exílio, pois nem nascido era, estava calado polidamente, como dono da casa.

A um comentário infeliz e provocador do Presidente que aqui não reproduzo, intervim finalmente e respondi respeitosamente, mas na mesma moeda!

Mudou de assunto com galhardia e resolveu contar duas divertidas histórias que tinha vivido recentemente na sua visita de Estado, ao Reino Unido.

Afirmou que desde que era Presidente, o Protocolo de Estado tinha recuperado o seu devido prestígio, com apresentações de credenciais dos Embaixadores, de fardas e condecorações, fraque e luvas cinzentas, que as recepções em Queluz eram de gala com casaca e insígnias, enfim gabava-se de ser um entendido, eis senão quando o Protocolo do Foreign Office inglês, exige, sem transigir, que levasse luvas cinzentas e chapéu alto, quando descesse do combóio em Victoria Station e fosse ao encontro da Rainha, que aí o esperava. Confessou com simplicidade que se atrapalhou, pois nunca o tinha usado, mas levava-o na mão e assim cumprimentou Sua Graciosa Majestade.

O Dr. Mário Soares, acrescentou com bonomia que continuava a não saber falar inglês, mas que a Rainha e a Família Real, eram impecáveis no domínio da língua francesa, pelo que antes de tomar a carruagem aberta em direcção a Buckingham, perguntou à monarca o que devia fazer com o chapéu alto!

A Rainha Isabel, conta o Presidente, disse-lhe: - Em primeiro lugar ponha-o na cabeça e depois quando nos aplaudirem, tire-o e acene com ele. Dei uma forte gargalhada e naquele momento, esqueci-me do que aquela vinda poderia ter causado e apreciei o Homem, pois tinha tido muita graça.

Não contente com este episódio, narrou que estando num banquete oferecido pelo Mayor de Londres, tinha de cada lado a Rainha-Mãe e a Rainha Isabel. 

Acrescentou que já tinham dito tudo uns aos outros tendo-se, por isso, criado um certo silêncio entre eles. A Rainha-Mãe era pequenina de estatura, por isso veio um criado trazer-lhe um banquinho para os pés e uma almofada para ficar ao nível de todos.

De repente a Rainha-Mãe, vira-se para o Presidente e pergunta-lhe: - O Senhor é religioso? O Dr. Mário Soares, respondeu: Eu não, minha Senhora! - Ora ainda bem, retorquiu a Rainha-Mãe, pois assim podemos conversar sobre outros temas, pois tenho ao meu lado o Arcebispo de Cantuária que só me fala de assuntos maçadores de religião!

E assim termina o meu filme “The King and I”. Acompanhei-o ao helicóptero, despedi-me e voltei a encontrar-me muito mais vezes com ele fruto da minha vida profissional guardando sempre, entre nós, uma boa recordação destas histórias tão picarescas.

Pena, que as pessoas não saibam sair a tempo!

O resto da minha experiência na Torralta, não é preciso contar pois é conhecido.

Pertence hoje em dia aos Grupos de Belmiro de Azevedo e de Américo Amorim, que estiveram mais de 8 anos para poderem começar as obras e agora, que estão acabadas, dá gosto visitar, ficar por lá e gozar o esplendoroso cenário e tudo quanto lá se desfruta.

re-publicação de Torralta (3ª parte) a solidão do poder


Mencionei atrás a solidão do poder. 

Havia um acordo entre mim e os trabalhadores: para o mercado e para os clientes tudo tinha que continuar a funcionar, desde a limpeza e qualidade do alojamento nas torres e apartamentos, manutenção impecável do golf, piscinas, restaurantes, até ao ambiente que devia pairar em Tróia e em todo o complexo da Torralta.

Eles sabiam que o parco “cash-flow” que pudesse entrar seria devido à continuação de “business as usual”!
As caldeiras avariaram-se e nas torres, sem aquecimento bem como água quente, significava o encerramento da actividade. Até ali ninguém tinha sido despedido. 

Recebeu-se uns dinheiros de receitas antigas que davam ou para pagar o arranjo das caldeiras ou um mês de salário para todos!

Nas reuniões comigo a pressão maioritária dos trabalhadores e dos sindicatos era a de pagar, pelo menos, um ordenado: havia famílias estranguladas de dívidas aos bancos, aos vizinhos, sem dinheiro para comer, um sem número de razões atendíveis.

Por outro lado sem caldeiras, os meus planos de recuperação que estava a discutir com o Governo iam “por água abaixo”! Kaput, finito não haveria investidores interessados se tudo se degradasse e deixasse de estar ocupado, mesmo com níveis baixos. Entretinha as “gentes”, dava-lhes uma razão para continuarem.

Ouvi os meus colegas da Administração, consultei alguns “sábios” que sempre me aconselharam nos momentos difíceis e por último os trabalhadores e sindicatos. 

Ninguém tinha uma opinião segura, certa e maioritária.

Decidi jantar no meu apartamento, que era uma penthouse com uma vista soberba sobre o mar. Um fim de tarde em silêncio e deixando a cabeça descansar. Desliguei-me do “mundo” e realizei como estava só, e como a decisão dependia a partir dali, exclusivamente de mim. A tal solidão do poder. Decidi interiormente da forma como tinha estado a reflectir durante o dia, pesei os prós e os contras e fui dormir. Sono reparador.

Levantei-me cedo, fui correr pela praia, tomei um banho e vesti-me e sentia-me perfeito e tranquilo.

Convoquei os trabalhadores e a imprensa que me esperava e anunciei que o dinheiro disponível iria para o arranjo das caldeiras. Com doçura e emoção lamentei o desapontamento que esta decisão iria criar nas expectativas de todos, mas um mês, de facto, nem resolvia os problemas financeiros de cada um e pelo contrário agravava qualquer solução de resgate que estivesse a negociar.

Não vos maço com o que se seguiu de protestos, greves, incompreensão….tive a satisfação de encontrar apoio nos que mais precisavam, pois uma vez explicadas as razões, sentiram a eventual justeza da minha decisão. Senti-me só, muito só e para que serve o poder quando nos sentimos cães lazarentos a lamber as feridas, sem festas? 

Estranho que passados estes anos todos, ao escrever isto ainda sinta uma sensação de incómodo e desconforto!

Um primo meu, o General Carlos Azeredo, era o Chefe da Casa Militar do Presidente Soares, que mantinha péssimas e intratáveis relações com o Prof. Cavaco Silva, Primeiro-Ministro. 

Estava, mais uma vez, numa interminável reunião com o plenário dos sindicatos, quando a secretária me trouxe o telefone dizendo-me que era uma chamada urgente de Belém.

O meu primo anunciava-me que o Presidente Mário Soares queria visitar a Torralta com a imprensa e televisões e falar com os trabalhadores com atrasos nos salários.

(continua)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

re-publicação de Torralta (2ª parte) a luta sindical e uma história singela


Descobri rapidamente que tinha famílias de trabalhadores sem receberem salários há meses e uma forte presença sindical : despachava semanalmente com cerca de 70 sindicatos, ou da UDP ou comunistas, capitaneados por um sindicalista membro do Comité Central do PC. 

Devo dizer que foi para mim um grande desafio e os trabalhadores sabiam que eu estava ali para os ajudar. 

O meu “patrão” era o Prof. Cavaco Silva, na altura Primeiro-Ministro. Falava com ele e com o Dr. Alexandre Relvas e procurava-se uma solução para um passivo gigantesco de milhões, com suspeitas de grandes trafulhices ao longo dos anos. 

O tal sindicalista “chefe”, inteligente, bom negociador, provocador e duro obrigava-me a discussões de um homem só contra 70 na sala grande de reuniões da Administração à volta de uma mesa, raivosos, impacientes e sem ordenados, sem futuro à vista e com toda a razão para estarem contra o que eu representava. As sessões demoravam horas e eu saía de lá de rastos, cansado, sem soluções rápidas como a situação exigia. Eram no entanto, humanos e respeitavam-me, mas os tempos eram de luta sindical e eu estava do outro lado.

Tinha um telefone directo e com um número confidencial a que o dito líder sindical tinha acesso. No fim das reuniões, telefonava-me a consolar, a louvar e a dar-me o seu apoio e quando eu lhe perguntava furioso, porque não tinha feito isso em público e na reunião em frente dos outros representantes sindicais, respondia-me que era assim que tinha que ser

Foram tempos de aprendizagem, de conversas políticas profundas e de discussões dialéticas mas infelizmente, sozinho, pois o Conselho de Administração entregara-me o “bébé” nos braços e não aparecia em Tróia. Só na sede e mensalmente para as reuniões do Conselho. Portaram-se todos como uns canalhas!

Obviamente que como Presidente, apesar de ter negociado com os accionistas o meu salário, estive dez meses sem o receber. O exemplo tinha que vir de cima e por isso eram solidários comigo. 

Não elaboro mais sobre esta fase, pois são recordações de tempos muito difíceis, penosos, em que tinha a cada momento que usar de bom senso e de fortaleza para não cair em situações de proporções temíveis. 

Mas é a vida, apesar de não ser para tudo aquilo que fui contratado, por isso é bem verdade, “aprender, até morrer”!

Conto-vos hoje dois episódios, um de muita graça e ingenuidade e o outro em que desejo provar que o poder gera a solidão.

Existe desde há dezenas de anos, uma Instituição de grande mérito chamada “As Irmãzinhas dos Pobres” com um trabalho altamente meritório a favor dos pobres, na sua sede em Campolide.

Fosse em que sítio fosse em que eu estivesse a trabalhar, entravam pelas empresas adentro e pelos meus gabinetes, duas Irmãs da Caridade de hábito, a pedirem-me uma contribuição anual, que eu honradamente dava. Foi-se criando da minha parte uma grande amizade e admiração pela simplicidade em como encaravam este serviço aos outros e sempre que podia ajudava-as directa e indirectamente.

Lembro-me de me contarem que uma noite a Madre Superiora constatou que não havia pão para o dia seguinte, para os 400 velhinhos, nem muito menos, dinheiro para pagar. Pelas 22h 30m, já noite escura e com toda a gente recolhida, tocaram à porta e a Irmã Porteira foi, admirada, ver quem seria. Sem temor, como ela me dizia depois, porque quem serve os outros de maneira desprendida e generosa, nada tem a temer. Abriu a porta e era uma pessoa que não se identificou e que deixou um envelope, sem mais. 

Entregou-o á Madre Superiora e verificaram que era dinheiro num montante mais do que suficiente para pagar o pão do dia seguinte. O mesmo aconteceu com o arranjo das caldeiras….uma sucessão de gente generosa que justifica que acreditemos no bem e o tentemos praticar assim, sem alarde!

Vem tudo isto a propósito de no dia em que tomei posse de Presidente da Torralta, tendo sido profusamente anunciado na imprensa e televisão, o meu telemóvel não parou de tocar NUNCA mais, com pedidos de “cunhas” para o reembolso dos títulos de investimento que “meio Portugal” tinha adquirido de boa-fé e que serviam só para “forrar paredes”! Gente graúda e muitas famílias do tempo dos meus Avós, que aplicaram grande parte das suas poupanças, na empresa dos "manos" Agostinho e José Silva.

Ora uma tarde, a minha secretária passa-me uma chamada da Madre Superiora, das Irmãzinhas dos Pobres que, com uma voz alegre e prazenteira e depois de me dar os parabéns, me diz com o sotaque espanholado:
- Senhor Presidente estou tão contente por sabê-lo nesse lugar. (entretanto, já tinham começado os problemas todos que acima refiro, pelo que não entendi a alegada satisfação).

- Finalmente vamos ter desafogo, pois uma benfeitora deixou-nos um legado de 600 títulos que devem valer uma fortuna! Disse isto com tanta candura que suavemente lhe expliquei que a empresa tinha um passivo de 27 milhões de contos e não pagava salários há meses, mas prometi-lhe estudar o assunto. Não entendeu o alcance da minha mensagem e disse que me ia mandar entregar as acções e que esperava que eu lhe enviasse um cheque, depois. Fiquei sem palavras!

Claro que não valiam nada, tanto como as outras e mandei entregar um cheque meu de 600 contos. Recebo um telefonema da Madre Superiora a agradecer-me mas dizendo-me:

- Só!? 600 contos, é muito pouco para o que contávamos.
 
Espero ter expiado parcialmente, sem ordenado e com despesas grandes na altura, alguns pecados que possa ter cometido!

(continua)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Lauren Bacall e eu, re-publicação de crónica na data da sua morte

Fui o último Presidente da Torralta antes de passar para as mãos de Belmiro de Azevedo e de Américo Amorim.

Os accionistas privados da holding maioritária, gente muito rica do Norte e donos de indústrias de nomeada, pediram-me para pôr a casa na ordem e tentar recuperar a maior empresa turística de Portugal.

Era um desafio irrecusável, excelentes condições pecuniárias prometidas, apoio irrestrito dos accionistas, a liberdade de levar uma equipe da minha confiança, um património invejável e com uma tradição grande em Portugal, pois quase todas as famílias tinham títulos de férias dos manos Agostinho e José da Silva.

Tróia encantou-me desde o primeiro momento, pois as praias, a vista, o cenário eram belíssimos e a Torralta tinha um património equivalente no Algarve. em termos de hotelaria e terrenos excelentemente localizados.

Tomei solenemente posse e nesse dia saíram notícias sobre o meu perfil profissional, o que se esperava de mim, tudo posto pelos accionistas nos jornais económicos e diários e tudo prometia ser um sonho.

Nessa noite, fui entretanto avisado, que teria que jantar já na minha qualidade de Presidente com a celebérrima actriz Lauren Bacall, convidada do Festróia, uma tradição de festival da empresa e com bastante projecção nacional e internacional.

Luís Filipe Menezes, Mário Ventura, o Director do Festival, e inúmeras personalidades de relevo e de vários quadrantes políticos, olhavam para mim com curiosidade e vim a saber depois, com apetite de me comerem vivo, pois era um penetra desconhecido que iria meter o nariz nas “malvadezas” que despudoradamente cometiam numa empresa que não lhes pertencia e ao arrepio dos interesses dos milhares de pequenos accionistas que eram directamente prejudicados.

Sentei Lauren Bacall à minha direita e a conversa fluiu com o maior interesse sobre música, filmes, american way of life, amor e tristeza pela morte do seu marido e grande amor Humphrey Bogart (tinha estudado à tarde e à pressa, o seu percurso artístico, os filmes, as paixões e romances e cada traço da personalidade) e foi com espanto e lisonja que a ouvi perguntar-me o que eu fazia nessa noite depois da festa. Brejeira e provocadora, sabendo eu que ela gostava de homens novos, considerei o convite como uma proposta para um encontro.

No dia seguinte, o meu primeiro acto foi chamar o Director Financeiro e perguntar-lhe quanto tínhamos em caixa, pois sabia que havia cerca de 700 ou mais funcionários e notícias veladas, falavam de problemas salariais.

A resposta do Director Financeiro foi a de que o saldo de caixa era de Euros 3,000,00! Julguei ter percebido mal e perguntei-lhe como iríamos fazer face ao pagamento dos salários no fim do mês e ele respondeu-me que não iríamos pagar, como aliás desde há dois meses para trás!

Pedi-lhe para preparar-me um orçamento de Tesouraria e informou-me que o montante dos salários a pagar mensalmente era de cerca de Euros 400,000,00!

Os meus accionistas, tinham traçado um cenário totalmente viciado e não me passaram as informações relevantes, pois escamoteavam-na dos bancos e dos credores e pensavam que ao me ocultarem no início do meu mandato a realidade, poderiam assim continuar a controlar a empresa.

Pedi para falar com o meu antecessor, Albino Moutinho, mas como foi corrido pelos accionistas, recusou-se terminantemente. Requisitei o Livro de Actas da Administração e disseram-me que tinha desaparecido.
Convidei um amigo íntimo, competente e de toda a confiança para o Conselho de Administração para ocupar o pelouro financeiro e um Advogado, também impecável e meu amigo de longa data, para Secretário-Geral.

Começava bem, com tudo minado! E isto era só o princípio, pois as peripécias foram de alto coturno, se o leitor tiver a paciência de me continuar a ler.

(continua)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A vida é uma coisa imensa

Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.

A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.

Miguel Torga, in "Diário (1941)"

sábado, 9 de agosto de 2014

ce qu'est le charme


Vous savez ce qu'est le charme: une manière de s'entendre répondre oui sans avoir posé aucune question claire.

A. Camus

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

constatação de que andar de metrô pode ser um esfriamento...ahaahah

Toda a gente publica no facebook fotografias esplendorosas dos sítios aonde estão a passar as férias...praias com mar azul, ilhas parasidíacas, campos bucólicos e verdejantes, por isso resolvi publicar uma fotografia do Senhor Rouvado (ou Roubado) que é o meu sítio de eleição...ahahah

Para quem não se lembra desta minha obsessão, eu expenico:

- os meus Bisavós maternos, lá para os idos do final do século XIX, casaram-se. O meu Trisavô, pai da noiva, era o presidente da Carris da altura, ou seja da Real Companhia das Carruagens de Lisboa. 

- Havia uma bonita quinta familiar no Senhor Roubado, muito aprazível com um bonito palácio e jardins frondosos, propícios ao amor...digo eu...

- foram passar lá a lua-de-mel, e o transporte foi de carruagem. Calculo que os amigos tenham atrelado às rodas da carruagem, latas de Coca-Cola e rendinhas brancas do véu...ahahaah

- levaram 2 dias, tendo pernoitado em Benfica numa estalagem, já fóra-de-portas.

Digam lá se não é um esfriamento ir-se de metrô em 20 minutos....

silly season


be yourself in all you do