Para a Bi
Saudades do Mário
Escrever sobre a morte é sempre meio assustador e um risco, pois trata-se de algo que desconhecemos, realmente.
Quando o queremos fazer para honrar a memória de alguém a quem admirámos
em vida, respeitámos ou até discordámos, podemos cair em banalidades ou
exagerarmos nas qualidades e virtudes, que é o costumeiro, pois só
sendo-se um malvado se vai elencar os defeitos.
Hoje quero falar sobre o Mário Quartin Graça: homem inteligente, culto,
atento e engraçado, com um humor fino e por vezes mordaz.
Mas apetece-me ressaltar esta qualidade previamente mencionada: ser
atento. Ao que o rodeava, ao que tinha na mente para descobrir e
conhecer, em ouvir quem lhe suscitava interesse para aprender, e talvez
uma faceta menos conhecida desta "atenciosidade" - uma enorme humanidade em relação ao
sofrimento do outro, um desvelo tímido em proporcionar ajuda, consolo e
ir ao encontro.
Muita gente lhe estará grata por tantas coisas e isso é bom. Nunca se
deve fazer uma contabilidade "oficial" do amor e da amizade dada com
generosidade, mas pode e deve- se fazer batota quando o destinatário da
informação não é o Ministério das Finanças, mas sim Nosso Senhor.
O Mário vai dar imenso jeito no Céu: organizar bibliotecas, actualizar a
compra de livros que anda desleixada, divertir meio mundo mas sobretudo
contamos com ele, para junto de Deus Nosso Senhor interceder por nós e
pelas nossas fraquezas.
Saudades tuas, mas vemo-nos quando o Altíssimo entender. Até lá e obrigado por te teres cruzado na minha vida.
domingo, 20 de abril de 2014
sábado, 19 de abril de 2014
The King is dead, long live the King!
Dia a dia os minutos vão passando. De facto nada tem muita importância.
Morre gente que conhecemos ou não a cada momento, sem estarem à espera ou até com morte anunciada.
Tudo acaba e por mais que haja quem queira o contrário, em pouco tempo não passaremos de memória que se vai atenuando cada vez mais no tempo.
Tantas bulhas, zangas, disputas por motivos muitas vezes fúteis ou por coisas mesquinhas, para acabarmos em cinza, pó e nada!
Mesmo em coisas mais sérias, o que ganhamos em arrecadar ódios ou rancores?
Olha-se para a cor cinzenta do morto e logo concluimos tudo...gone!
The King is dead, long live the King!
quarta-feira, 16 de abril de 2014
O bébé de Barry e de Wilma
Barry era um jovem americano, natural do Wisconsin que sempre vivera com a família num rancho, habituado a uma vida sã mas sem grande novidade.
Nunca viajara para fora do Estado e os seus conhecimentos eram um pouco limitados em relação ao mundo exterior ao da América. Via televisão, gostava de sair com os amigos e ir até ao bar do costume aonde bebia umas cervejas, conversava sobre “gajas”, “basketball” de que era fã, não antevendo grandes horizontes profissionais para além de uma hipótese de continuar a explorar o rancho com o pai ou trabalhar num comércio ali próximo.
Frequentava esporadicamente os bailes da escola, sabia usar o laço com perícia nos “rodeos”, namorara várias raparigas da cidade aonde estudara e acabou finalmente por dar o nó com Wilma, uma loira engraçada e roliça, também ela natural da região.
O casamento decorria sem sobressaltos e ambos aceitavam a vida pacata do interior de uma pequena cidade americana, com um quotidiano rotineiro e equilibrado.
Barry empregara-se como vendedor de um supermercado com bastante movimento, era cumpridor dos horários e das tarefas que lhe incumbiam e quando chegava a casa pelas cinco da tarde, metia-se no “jeep” e ia até ao rancho do pai aonde ainda lhe dava uma mão ou no corte da lenha ou na rega do pomar ou no podar das árvores, conforme a época do ano. Trocava uns dedos de conversa com a família e regressava depois a casa. Muitas vezes preparava o jantar, pois Wilma chegava sempre mais tarde.
Quando casaram e começaram a fazer planos de vida para o futuro, Wilma dissera-lhe que gostava de ter filhos e que para tal teriam que trabalhar os dois.
Tinha arranjado um emprego como bibliotecária da Universidade local e por isso o seu horário era até tarde pois tinha que estar disponível para as consultas que os alunos quisessem fazer a publicações ou livros, ou até mesmo ficarem a estudar em recato no silêncio de uma biblioteca, só podendo, portanto, sair depois de todos.
Quando chegava a casa, encontrava quase tudo já organizado por Barry e após jantarem ficavam no sofá a conversar ou a ver televisão e muitas vezes deixavam-se dormitar depois de um dia fatigante para ambos, acabando por se deitarem pelas 11h da noite.
A vida de uma pequena cidade na América é sem grandes programas por isso os habitantes deitam-se e levantam-se cedo e Barry e Wilma não fugiam à regra.
Fora ao médico sem dizer nada a Barry pois começara a sentir uns enjoos frequentes que a faziam ter mais sono, menos concentração no trabalho e notara que apesar de ter cuidado no que comia para se manter “fit”, o seu corpo começara a tomar umas formas mais pronunciadas.
O médico mandara-a fazer um teste de gravidez e o resultado foi peremptório: estava grávida de 3 meses.
Barry ficou radiante e anunciaram aos amigos e família o futuro nascimento e a gravidez foi-se passando com normalidade e sem problemas.
Perto já do fim, compraram o enxoval para um bebé do sexo masculino, pois o médico na ecografia que lhe fizera uns meses antes anunciara-lhes que seria um rapaz e por isso aguardavam com expectativa e tranquilidade o feliz acontecimento.
Wilma já se mexia com dificuldade e Barry acompanhou-a à consulta do último exame de rotina, até porque queria rever as instruções com o médico antes de assistir ao parto.
Barry seguia com atenção num pequeno écran o explorar da barriga de Wilma com o scanner e tanto ele como o médico repararam que a posição do bebé tinha já dado a volta e estava de frente para ambos. No entanto, observaram uma mancha nítida, como se fosse um símbolo no peito da criança, o que surpreendeu muito o clínico e deixou os pais algo preocupados. Parecia que eram umas letras gravadas.
Quando saíram do hospital e após terem sido tranquilizados pelo médico, não voltaram a pensar mais no assunto até porque lhes tinha sido dito que às vezes com as voltas dentro do útero e aparentando o rapaz ser de bom porte, ficavam agarrados aos bébés vestígios de impurezas do corpo da mãe pela exiguidade do espaço. Uma vez cá fora saía tudo!
Barry estava muito compenetrado no seu traje asséptico de marido assistente com uma máscara na boca para não conspurcar a higiene da sala de partos e dava a mão a Wilma que já tinha começado com contracções e já levava algum tempo de trabalho de parto.
O médico dissera-lhes que como o bebé estava bem posicionado poderia nascer de parto natural sem ser preciso nenhum recurso a anestesias epidurais.
Todos animavam a parturiente e Wilma respirava com força e empurrava para fora a cabeça do bebé que a partir de certa altura começou, como de costume, a sair com mais desenvoltura puxado pelas mãos do clínico que ajudava à expulsão.
Os olhos de Barry não descolavam desta tão espinhosa mas ao mesmo tempo única experiência e quando num esforço final Wilma dá um grito maior e respira mais fundo, o bébé, é expelido e retirado pelo médico para fora do corpo da mãe.
Depois de cortado o cordão umbilical e de aspirado das impurezas, ouvido o primeiro choro em consequência da respiração extra-uterina, a enfermeira pôs o bebé nú em cima do corpo de Wilma de cabeça para baixo para que ela o sentisse e o anichasse entre os seus braços cansados.
Na sala de parto, olhavam todos com desvelo para esse momento habitual do rito dos nascimentos – o encontro do filho com a mãe – e após alguns momentos a azáfama própria de desembaraçar Wilma do após parto começou a ser efectuada pelo pessoal de enfermagem de serviço.
O médico pegou então no bébé e ao aproximar-se de Barry para o mostrar de perto, virou-o para a frente e de súbito e com a maior surpresa dos circunstantes, notaram que tinha um símbolo marcado no peito: o tal da ecografia de meses antes a que não tinham prestado mais importância!
Era só e mais nada que o Super- Homem!
MNA
terça-feira, 15 de abril de 2014
banco da Avenida da Liberdade
banco da avenida da
liberdade. vou a uma reunião dentro de meia-hora. giro, ver passar gente, quase
todos da estranja. com o sol e o bom tempo saíram todas as lambisgoias à rua.
pecados dos sentidos. neste caso olhos e mente. semana santa. comprar vendas
santas nos chineses para pôr nos olhos. será que no paraíso desfilam suecas e
norueguesas, espanholas e portuguesas, africanas e asiáticas por uma avenida de
nuvens? essa é a grande questão: o que fazer quando nos reformarmos “là-bas”?
enfim, ao lado do Partido Comunista no edifício Vitória, está a loja do Gucci!
está tudo doido! vou mas é para a reunião!
reunião quase a começar.
não me apetece enfiar-me numa sala. bom escritório. vendedores de sonhos. anda
meio-mundo a enganar o outro. cada vez vou sendo mais pragmático. o que é
preciso é fazer acontecer e ao invés, todos ou quase todos, se preocupam
com comissões, luvas e ganhos pessoais e corporativos, em vez de terem o prazer
intelectual e profissional de "realizarem". mundo cão. passou aqui
um, bem feio, lazarento e com aspecto de ter feito sempre besteira, por acaso!
se for verdade a reincarnação talvez pudesse ser o Oliveira e Costa do BPN a
expiar o buraco que NOS causou a todos nos bolsos nacionais. estupor, não o
cão, mas se tivesse a certeza que era ele levava um pontapé no
saco....ahahah....ala que já é tarde e os Consultores chatos esperam-me!
sala de reuniões
apainelada. imensos relatórios com gráficos densos e ínvios de resultados que
os accionistas, normalmente não sentem entrar nos bolsos a cada ano. as despesas
de representação e os custos do funcionamento, santo Deus, dá cada latada nos
lucros! o que não dariam os portugueses agora nas férias da Páscoa para poderem
sair, viajar (mesmo os que tonta e cegamente o fazem para destinos para os
quais se endividam) deixando para trás a sensação que a rectaguarda estava
segura, que apetece voltar e continuar a trabalhar para o país e ter um futuro?
assim é uma espécie de entontecimento e atordoamento: beber, comer, bronzear
sem poderem no fundo desligar e descansar!
- boa tarde dr. noronha andrade, posso servir-lhe uma água ou um café?
quem me dera poder responder, traga-me um bom e apetecível sonho!
já sinto passos...tchau
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Mais fotografias da Família da Ìndia
São por ordem de aparecimento:
1. Um Tio-Bisavô, irmão da minha Bisavó Maria do Carmo
2. Outra do mesmo
3. Os Tios-Bisavós (irmão e irmã) a dançar numa representação, em casa de primos
4. Algumas das casas deste Tio-Bisavô em Pangim (Nova Goa)
5. Outro Tio-Bisavô e irmão da minha Bisavó Maria do Carmo
6. Os Tios-Bisavós no Congo Belga (ela era Belga)
7. Visita dos Bisavós ao irmão e cunhada a Bruxelas, acompanhados pelos meus Avós e um Tio-Avô.
Deve chamar-se tristeza, isto que não sei que seja
Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
Fernando Pessoa
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
Fernando Pessoa
Tu tens um medo: Acabar
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todos os dias.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todos os dias.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Cecília Meireles
sábado, 12 de abril de 2014
Primeira viagem a Angola - Encontro com Savimbi - Parte II
Quando saí de Genève e no
regresso a Lisboa, cogitei sobre a responsabilidade de tal compromisso. Passou
depressa o temor, pois nestas idades a ambição e uma certa temeridade rapidamente
insuflam o espírito de aventura e desafio que há em nós.
Dividi o trabalho em três
partes: a vertente angolana, a portuguesa, e a americana.
Reflecti sobre quem
poderia contactar para me introduzir junto do Presidente José Eduardo dos
Santos e ocorreu-me de imediato o meu sócio principal do escritório de Advogados, o
António. Tínhamos uma rede europeia em parceria com a Stanbrook & Partners
de Bruxelas, e o António desde há muito era consultado como jurista pela
nomenclatura angolana. Tinha por isso excelentes contactos.
Fez-se uns telefonemas,
mandaram-se uns faxes confidenciais e após um pedido para eu enviar um
memorando sobre o que se pretendia, veio a luz verde, dizendo o Presidente dos Santos que
aguardava a nossa visita, quando o trabalho estivesse pronto. Foram diligências imprescindíveis e só foram coroadas de êxito devido ao respeito e consideração que nutriam pelo valor, competência e rigor do António.
Esta notícia alegrou
muito os USA, o Príncipe, bem como o Avi e a sua gente.
Comecei a trabalhar na
segunda vertente, ou seja, conhecer quem seria o Embaixador americano que nos
acompanharia a Luanda, quais as propostas que a sua agência de lobbying tinha negociado
no Capitólio como metas, prioridades, programa a apresentar e quais as
instruções que o Presidente Bush tinha dado ao referido Embaixador, como seu
representante qualificado, para negociar uma mudança do apoio americano às eleições em
Angola, com vista a uma alternância do suporte até ali prestado ao Presidente Savimbi.
O prazo para a data das
eleições corria apressado, por isso teríamos que nos sentar todos em conjunto uns meses antes, estudar
previamente os relatórios elaborados por cada parte, comentá-los e adaptá-los à
realidade local, sem fantasias nem ingenuidades, tão típicas tantas vezes da
política externa americana.
Fiz uma primeira viagem a
Luanda e fiquei hospedado na Embaixada de Portugal, a convite do meu amigo
João, que nessa altura era o diplomata acreditado junto do Governo de Angola. Recebeu-me com uma amizade e amabilidade inexcedíveis e senti-me completamente protegido numa Luanda a ferro e fogo.
Havia outro, porém, o Embaixador António Monteiro, que era o Chefe da Missão Temporária de
Portugal junto das Estruturas do Processo de Paz em Angola e representante
junto da Comissão Conjunta Político-Militar, em Luanda.
De ambos tive preciosa ajuda pelas análises coerentes, fundamentadas e fidedignas que possuiam e que sem rebuço puseram à minha disposição.
Encontrei-me também com o meu amigo, Manuel Lamas de Mendonça que
estava como Administrador da Fábrica da Tabaqueira em Angola, mas que tinha
excelentes ligações locais que me apresentou e que me foram muito úteis.
Sem alarido e com a maior
discrição, tive uma reunião com o Presidente Savimbi, a pretexto de
apresentar-lhe um grupo de empresários americanos que queriam investir no imobiliário
no centro de Luanda, em valores para cima de US$ 150 milhões. A justificação
para a visita era a de sondar como encarava Savimbi a presença de americanos em
Angola, e como estava de “humores” e expectativas em relação ao resultado das
eleições.
Recebeu-me com arrogância
tendo sido, inclusive, desagradável ao dizer-me em frente dos clientes
americanos:
- Mas o Senhor julga que
isto (Angola) ainda é vosso?
Eu respondi-lhe
friamente, mostrando-lhe o meu passaporte e dizendo-lhe que ao ter um visto de
entrada, demonstrava bem o meu estatuto de estrangeiro.
Depois perguntou-me se eu
já tinha ido à rua das “doleiras” (uma das avenidas no bairro de Miramar, aonde
estavam sentadas num passeio de pernas abertas, mulheres angolanas tendo numa
mão cuanzas e noutra dólares americanos que transacionavam no mercado paralelo,
numa perfeita uniformidade de taxa de câmbio que variava por igual em todas e em simultâneo).
Respondi a Savimbi que
sim e ele sem hesitação disse-me que “os americanos vão-me dar 50 a 60 milhões
de dólares para me apoiarem nas eleições, por isso veja só quantos cuanzas vai
dar para comprar muitos votos”!
Nessa manhã tinha precisado de
trocar US$100 e o João emprestou-me o carro da Embaixada com o chauffeur que me levou às ditas “doleiras”, tendo obtido uma generosa taxa de conversão. Confirmei por isso o que Savimbi me quis transmitir.
Não fiz comentários e
passados uns minutos, troquei mais umas impressões sobre a segurança em Luanda
e em Angola em geral (com assaltos, mortes e escaramuças diárias e sérias entre as
duas forças e não só) mas Savimbi garantiu-me que tinha tudo sobre controlo!
Confirmei o que já tinha
ouvido em Portugal, que era muito racista em relação aos Portugueses e um fanfarrão. Tendo sido formado na China terá porventura bebido do fino!
Voltei assim, com um
acervo de informação muito importante e interessante que comecei a burilar e a
desbravar pois competia-me passar estas informações para Washington e também iniciei
a preparação de recomendações estratégicas quanto à abordagem a fazer ao Presidente dos
Santos, pois o Embaixador C., contava com a minha sensibilidade lusófona para
evitar erros de “casting!
(continua)
O amor é bué da nice
A lonjura é um bem, quando a alma dói.
A dor, porém, não pode ser eterna.
Causa um desequilíbrio no universo
Olhos tristes, falta
de sorriso
Sombra no caminho, cerrar dos
braços
Beijos omissos.
Que remédio então?
Tão fácil fazer perguntas.
Talvez…o ditado pelo coração.
Um calor que sobe de dentro.
Soltam-se os espinhos que o tolhem
Bate então, livremente.
Depois, começa por uma mão
Dedos que se tocam levemente
Se entrelaçam e se unem.
Silêncio. Pôr-do-sol ou luar
Tudo recomeça
É bom. O amor é bué da nice.
in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza
terça-feira, 8 de abril de 2014
Se às vezes digo que as flores sorriem
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos
domingo, 6 de abril de 2014
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
(trecho de Álvaro de Campos)
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
(trecho de Álvaro de Campos)
Era uma vez um menino com a luz do sol nos olhos
Era uma vez um menino com
a luz do sol nos olhos e um grande e rasgado sorriso.
Nem sempre, porém,
acordava bem-disposto. Havia mesmo dias que eram bem cinzentos.
Apetecia-lhe pôr a cabeça
debaixo de uma almofada, cobarde, sem querer olhar a realidade e enfrentar a
crueza da vida.
Fazer o que tinha como
deveres, cumprir as regras estipuladas era o pior dos sacrifícios. Os homens
das cavernas que ele vira desenhados numas grutas, eram de certeza mais
felizes.
Dormiam, comiam e
procriavam ah… e puxavam pelos cabelos das mulheres. Não sabia se era um gesto
de amor ou de posse ou uma pose familiar para o desenhador das cavernas.
Pensava, que maçada deve
ser não ter vontade para nada fazer e
passar as horas de olhar vago no horizonte, com a boca a saber a papel de
música.
Sempre se perguntara qual
é a beleza de um deserto, quente, tempestades de areia, silêncio…os profetas
comiam gafanhotos e rezavam…como conseguiam? Sim, como apetece? A solidão ao
extremo enlouquece e faz perder a noção da realidade…talvez tivessem
alucinações…
O menino, aterrorizado
com estes pensamentos, voltava a desejar por a cabeça debaixo, agora de um
almofadão, macio e de penas de pato.
Vale a pena ter a luz do
sol nos olhos e um bonito sorriso neste mundo tão enfadonho e pesado?
Um dia o menino passou a
ter escuridão no olhar e um esgar de dor pois o sol foi-se da sua vida.
Foi, como não podia
deixar de ser, o momento da sua morte.
Triste crónica de um D.
Sebastião, tão igual a tantos de nós.
In prosas bárbaras de Vicente Mais ou Menos de Souza
sábado, 5 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Não temos filhos porque começamos a trabalhar a meio da manhã
Tenho à minha frente uma
entrevista de Helena André de 2010.
Nesta conversa com João Vieira
Pereira, João Silvestre e Rosa Pedroso Lima, a ministra socialista
contou uma história que ficou para sempre na minha pobre e vil cabeça:
no primeiro dia, Helena André chegou ao ministério às oito da manhã
pronta para começar a trabalhar mas só encontrou as empregadas da
limpeza, que, coitadas, abriram a boca de espanto.
Com o tempo, muita
gente começou a seguir o exemplo da ministra e aquela casa conseguiu,
pelo menos em parte, acabar com o pior hábito português: ficar a
trabalhar até tarde. Fala-se muito do nosso ritmo de trabalho,
supostamente mais lento do que o holandês ou alemão. Mas julgo que a
questão não está no ritmo, mas sim no horário de trabalho, que é sem
dúvida mais imbecil do que o alemão ou holandês.
Uma amiga, há dias, começou a trabalhar numa empresa
alemã aqui em Lisboa. Dando largas às manhas tugas, ela começou a bulir
até tarde. O horário de saída é às cinco, mas ela ficava até às seis ou
sete, até porque queria impressionar os chefes. No final da primeira
semana, o chefe chamou-a e disse: "olha, herr fofa, és despedida
se continuas a fazer isto, nós não te queremos se não consegues fazer o
teu trabalho até às cinco".
Eu senti esta crítica quando estive na
Alemanha: tinha de começar a trabalhar às 8. Não podia chegar às 8, já
tinha de estar sentado às 8. E repare-se que esta exigência não é apenas
um freio produtivo que domestica as pausas, as conversas, as bicas, os
cigarros, etc.
A exigência foi pensada, acima de tudo, para a vida
pós-laboral: se sai às quatro ou cinco da tarde, uma pessoa ainda tem
muito tempo para estar com os filhos. Aquele horário de trabalho
madrugador serve a família antes de servir a empresa.
E nós? Nós começamos a trabalhar às 9 e tal, 10
horas, almoçamos entre as 13 e as 14.30 e, claro, saímos estupidamente
tarde, cansados e sem tempo para crianças. É como se toda a gente
estivesse debaixo do horário das redacções. Pior: é como se a sociedade
estivesse organizada em redor do horário do solteirão.
Ai, mas o
trânsito torna difícil chegar a horas! Ai, mas os transportes! Lamento,
mas as empregadas da limpeza que a ministra conheceu às 8 da manhã
também têm de enfrentar o trânsito ou os transportes.
Como é que
conseguem? Vão para a cama mais cedo.
Mas, verdade seja dita, os
principais culpados não são os funcionários mas sim as chefias que não
seguem o exemplo de Helena André.
O chefe português gosta do solteirão
que fica até tarde, eh pá, sim senhor, ganda gajo, ganda entrega.
Henrique Raposo
quinta-feira, 3 de abril de 2014
"Whatever you need, baby, you've got it from me" - Suzi Quatro - Stumblin' In
Amig@s? O nosso Capital Maior, e, mesmo que o investimento seja negativo, dá sempre lucro. Família herda-se (e viva a minha, que é a melhor do planeta), mas amig@s escolhem-se a dedo (ou ferida a ferida, buraco a buraco, necessidade a necessidade, crise a crise; Darwin explica isso tão bem noutro contexto), e isso é exactamente o que nos distingue dos macacos, não é? Essa tal centelha. Isso ou um detalhe genético que está por explicar, a não ser pela música: "Whatever you need, baby, you've got it from me"
Suzi Quatro - Stumblin' In (eu avisei, não se queixem; gozem a melodia)
Madalena Vidal
quarta-feira, 2 de abril de 2014
A história do Rei, do burro e da chuva
A
história do Rei, do burro e da chuva - contada por observadores da vida
e gentilmente enviada por um Governante esclarecido...ahaahah
Era uma vez um rei que queria casar.
Mandou chamar o meteorologista e pediu-lhe a previsão do tempo para as horas seguintes.
Este assegurou-lhe que não iria chover.
A noiva do monarca vivia perto do castelo.
Vestiu a roupa mais elegante que tinha e pôs-se a caminho.
No caminho, encontrou um camponês montado no seu burro que viu o rei e disse:
"Majestade, é melhor regressar ao palácio porque vai chover muito".
O rei ficou pensativo e respondeu:
"Eu tenho um meteorologista, muito bem pago, que me disse o contrário. Vou seguir em frente".
E assim fez.
Choveu torrencialmente.
O rei ficou completamente encharcado e a noiva riu-se dele ao vê-lo naquele estado.
Furioso, o rei voltou para o palácio e despediu o meteorologista.
Em seguida, convocou o camponês e ofereceu-lhe emprego.
O camponês disse:
"Senhor, eu não entendo nada disso. Apenas verifico que, se as orelhas do meu burro ficam caídas, significa que vai chover".
Então, o rei contratou o burro.
E assim começou o costume de contratar burros para trabalhar junto do Poder...
Desde então, hordas de burros ocupam as posições mais bem pagas em qualquer governo. (E em algumas empresas também).
Era uma vez um rei que queria casar.
Mandou chamar o meteorologista e pediu-lhe a previsão do tempo para as horas seguintes.
Este assegurou-lhe que não iria chover.
A noiva do monarca vivia perto do castelo.
Vestiu a roupa mais elegante que tinha e pôs-se a caminho.
No caminho, encontrou um camponês montado no seu burro que viu o rei e disse:
"Majestade, é melhor regressar ao palácio porque vai chover muito".
O rei ficou pensativo e respondeu:
"Eu tenho um meteorologista, muito bem pago, que me disse o contrário. Vou seguir em frente".
E assim fez.
Choveu torrencialmente.
O rei ficou completamente encharcado e a noiva riu-se dele ao vê-lo naquele estado.
Furioso, o rei voltou para o palácio e despediu o meteorologista.
Em seguida, convocou o camponês e ofereceu-lhe emprego.
O camponês disse:
"Senhor, eu não entendo nada disso. Apenas verifico que, se as orelhas do meu burro ficam caídas, significa que vai chover".
Então, o rei contratou o burro.
E assim começou o costume de contratar burros para trabalhar junto do Poder...
Desde então, hordas de burros ocupam as posições mais bem pagas em qualquer governo. (E em algumas empresas também).
terça-feira, 1 de abril de 2014
preto e branco
O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, aprende-se mesmo antes de se entrar na escola. Se se fizer uma sondagem, ouvir-se-à também que o contrário do amor é o ódio. Estão
erradas as pessoas. O
contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
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