sábado, 12 de abril de 2014

Primeira viagem a Angola - Encontro com Savimbi - Parte II



Quando saí de Genève e no regresso a Lisboa, cogitei sobre a responsabilidade de tal compromisso. Passou depressa o temor, pois nestas idades a ambição e uma certa temeridade rapidamente insuflam o espírito de aventura e desafio que há em nós.

Dividi o trabalho em três partes: a vertente angolana, a portuguesa, e a americana.

Reflecti sobre quem poderia contactar para me introduzir junto do Presidente José Eduardo dos Santos e ocorreu-me de imediato o meu sócio principal do escritório de Advogados, o António. Tínhamos uma rede europeia em parceria com a Stanbrook & Partners de Bruxelas, e o António desde há muito era consultado como jurista pela nomenclatura angolana. Tinha por isso excelentes contactos.
 
Fez-se uns telefonemas, mandaram-se uns faxes confidenciais e após um pedido para eu enviar um memorando sobre o que se pretendia, veio a luz verde, dizendo o Presidente dos Santos que aguardava a nossa visita, quando o trabalho estivesse pronto. Foram diligências imprescindíveis e só foram coroadas de êxito devido ao respeito e consideração que nutriam pelo valor, competência e rigor do António.

Esta notícia alegrou muito os USA, o Príncipe, bem como o Avi e a sua gente. 

Comecei a trabalhar na segunda vertente, ou seja, conhecer quem seria o Embaixador americano que nos acompanharia a Luanda, quais as propostas que a sua agência de lobbying tinha negociado no Capitólio como metas, prioridades, programa a apresentar e quais as instruções que o Presidente Bush tinha dado ao referido Embaixador, como seu representante qualificado, para negociar uma mudança do apoio americano às eleições em Angola, com vista a uma alternância do suporte até ali prestado ao Presidente Savimbi. 

O prazo para a data das eleições corria apressado, por isso teríamos que nos sentar todos em conjunto uns meses antes, estudar previamente os relatórios elaborados por cada parte, comentá-los e adaptá-los à realidade local, sem fantasias nem ingenuidades, tão típicas tantas vezes da política externa americana.

Fiz uma primeira viagem a Luanda e fiquei hospedado na Embaixada de Portugal, a convite do meu amigo João, que nessa altura era o diplomata acreditado junto do Governo de Angola. Recebeu-me com uma amizade e amabilidade inexcedíveis e senti-me completamente protegido numa Luanda a ferro e fogo.

Havia outro, porém, o Embaixador António Monteiro, que era o Chefe da Missão Temporária de Portugal junto das Estruturas do Processo de Paz em Angola e representante junto da Comissão Conjunta Político-Militar, em Luanda.

De ambos tive preciosa ajuda pelas análises coerentes, fundamentadas e fidedignas que possuiam e que sem rebuço puseram à minha disposição.

Encontrei-me também com o meu amigo, Manuel Lamas de Mendonça que estava como Administrador da Fábrica da Tabaqueira em Angola, mas que tinha excelentes ligações locais que me apresentou e que me foram muito úteis.

Sem alarido e com a maior discrição, tive uma reunião com o Presidente Savimbi, a pretexto de apresentar-lhe um grupo de empresários americanos que queriam investir no imobiliário no centro de Luanda, em valores para cima de US$ 150 milhões. A justificação para a visita era a de sondar como encarava Savimbi a presença de americanos em Angola, e como estava de “humores” e expectativas em relação ao resultado das eleições.

Recebeu-me com arrogância tendo sido, inclusive, desagradável ao dizer-me em frente dos clientes americanos:

- Mas o Senhor julga que isto (Angola) ainda é vosso? 

Eu respondi-lhe friamente, mostrando-lhe o meu passaporte e dizendo-lhe que ao ter um visto de entrada, demonstrava bem o meu estatuto de estrangeiro.

Depois perguntou-me se eu já tinha ido à rua das “doleiras” (uma das avenidas no bairro de Miramar, aonde estavam sentadas num passeio de pernas abertas, mulheres angolanas tendo numa mão cuanzas e noutra dólares americanos que transacionavam no mercado paralelo, numa perfeita uniformidade de taxa de câmbio que variava por igual em todas e em simultâneo).

 Respondi a Savimbi que sim e ele sem hesitação disse-me que “os americanos vão-me dar 50 a 60 milhões de dólares para me apoiarem nas eleições, por isso veja só quantos cuanzas vai dar para comprar muitos votos”!

Nessa manhã tinha precisado de trocar US$100 e o João emprestou-me o carro da Embaixada com o chauffeur que me levou às ditas “doleiras”, tendo obtido uma generosa taxa de conversão. Confirmei por isso o que Savimbi me quis transmitir.

Não fiz comentários e passados uns minutos, troquei mais umas impressões sobre a segurança em Luanda e em Angola em geral (com assaltos, mortes e escaramuças diárias e sérias entre as duas forças e não só) mas Savimbi garantiu-me que tinha tudo sobre controlo!

Confirmei o que já tinha ouvido em Portugal, que era muito racista em relação aos Portugueses e um fanfarrão. Tendo sido formado na China terá porventura bebido do fino!

Voltei assim, com um acervo de informação muito importante e interessante que comecei a burilar e a desbravar pois competia-me passar estas informações para Washington e também iniciei a preparação de recomendações estratégicas quanto à abordagem a fazer ao Presidente dos Santos, pois o Embaixador C., contava com a minha sensibilidade lusófona para evitar erros de “casting!

(continua)

O amor é bué da nice



A lonjura é um bem, quando a alma dói.
A dor, porém, não pode ser eterna.
Causa um desequilíbrio no universo
Olhos tristes, falta de sorriso
Sombra no caminho, cerrar dos braços
Beijos omissos.
Que remédio então?
Tão fácil fazer perguntas.
Talvez…o ditado pelo coração.
Um calor que sobe de dentro.
Soltam-se os espinhos que o tolhem
Bate então, livremente.
Depois, começa por uma mão
Dedos que se tocam levemente
Se entrelaçam e se unem.
Silêncio. Pôr-do-sol ou luar
Tudo recomeça
É bom. O amor é bué da nice.

in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza

terça-feira, 8 de abril de 2014

Se às vezes digo que as flores sorriem

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos

domingo, 6 de abril de 2014

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço. 


(trecho de Álvaro de Campos)

Era uma vez um menino com a luz do sol nos olhos


Era uma vez um menino com a luz do sol nos olhos e um grande e rasgado sorriso.
Nem sempre, porém, acordava bem-disposto. Havia mesmo dias que eram bem cinzentos.
Apetecia-lhe pôr a cabeça debaixo de uma almofada, cobarde, sem querer olhar a realidade e enfrentar a crueza da vida.
Fazer o que tinha como deveres, cumprir as regras estipuladas era o pior dos sacrifícios. Os homens das cavernas que ele vira desenhados numas grutas, eram de certeza mais felizes.
Dormiam, comiam e procriavam ah… e puxavam pelos cabelos das mulheres. Não sabia se era um gesto de amor ou de posse ou uma pose familiar para o desenhador das cavernas.
Pensava, que maçada deve ser não ter vontade para nada fazer  e passar as horas de olhar vago no horizonte, com a boca a saber a papel de música.
Sempre se perguntara qual é a beleza de um deserto, quente, tempestades de areia, silêncio…os profetas comiam gafanhotos e rezavam…como conseguiam? Sim, como apetece? A solidão ao extremo enlouquece e faz perder a noção da realidade…talvez tivessem alucinações…
O menino, aterrorizado com estes pensamentos, voltava a desejar por a cabeça debaixo, agora de um almofadão, macio e de penas de pato.
Vale a pena ter a luz do sol nos olhos e um bonito sorriso neste mundo tão enfadonho e pesado?
Um dia o menino passou a ter escuridão no olhar e um esgar de dor pois o sol foi-se da sua vida.
Foi, como não podia deixar de ser, o momento da sua morte.
Triste crónica de um D. Sebastião, tão igual a tantos de nós. 

In prosas bárbaras de Vicente Mais ou Menos de Souza

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Não temos filhos porque começamos a trabalhar a meio da manhã


Tenho à minha frente uma entrevista de Helena André de 2010. 

Nesta conversa com João Vieira Pereira, João Silvestre e Rosa Pedroso Lima, a ministra socialista contou uma história que ficou para sempre na minha pobre e vil cabeça: no primeiro dia, Helena André chegou ao ministério às oito da manhã pronta para começar a trabalhar mas só encontrou as empregadas da limpeza, que, coitadas, abriram a boca de espanto. 

Com o tempo, muita gente começou a seguir o exemplo da ministra e aquela casa conseguiu, pelo menos em parte, acabar com o pior hábito português: ficar a trabalhar até tarde. Fala-se muito do nosso ritmo de trabalho, supostamente mais lento do que o holandês ou alemão. Mas julgo que a questão não está no ritmo, mas sim no horário de trabalho, que é sem dúvida mais imbecil do que o alemão ou holandês. 

Uma amiga, há dias, começou a trabalhar numa empresa alemã aqui em Lisboa. Dando largas às manhas tugas, ela começou a bulir até tarde. O horário de saída é às cinco, mas ela ficava até às seis ou sete, até porque queria impressionar os chefes. No final da primeira semana, o chefe chamou-a e disse: "olha, herr fofa, és despedida se continuas a fazer isto, nós não te queremos se não consegues fazer o teu trabalho até às cinco". 

Eu senti esta crítica quando estive na Alemanha: tinha de começar a trabalhar às 8. Não podia chegar às 8, já tinha de estar sentado às 8. E repare-se que esta exigência não é apenas um freio produtivo que domestica as pausas, as conversas, as bicas, os cigarros, etc. 

A exigência foi pensada, acima de tudo, para a vida pós-laboral: se sai às quatro ou cinco da tarde, uma pessoa ainda tem muito tempo para estar com os filhos. Aquele horário de trabalho madrugador serve a família antes de servir a empresa. 

E nós? Nós começamos a trabalhar às 9 e tal, 10 horas, almoçamos entre as 13 e as 14.30 e, claro, saímos estupidamente tarde, cansados e sem tempo para crianças. É como se toda a gente estivesse debaixo do horário das redacções. Pior: é como se a sociedade estivesse organizada em redor do horário do solteirão.

Ai, mas o trânsito torna difícil chegar a horas! Ai, mas os transportes! Lamento, mas as empregadas da limpeza que a ministra conheceu às 8 da manhã também têm de enfrentar o trânsito ou os transportes. 

Como é que conseguem? Vão para a cama mais cedo. 

Mas, verdade seja dita, os principais culpados não são os funcionários mas sim as chefias que não seguem o exemplo de Helena André. 

O chefe português gosta do solteirão que fica até tarde, eh pá, sim senhor, ganda gajo, ganda entrega. 

Henrique Raposo

quinta-feira, 3 de abril de 2014

"Whatever you need, baby, you've got it from me" - Suzi Quatro - Stumblin' In


Amig@s? O nosso Capital Maior, e, mesmo que o investimento seja negativo, dá sempre lucro. Família herda-se (e viva a minha, que é a melhor do planeta), mas amig@s escolhem-se a dedo (ou ferida a ferida, buraco a buraco, necessidade a necessidade, crise a crise; Darwin explica isso tão bem noutro contexto), e isso é exactamente o que nos distingue dos macacos, não é? Essa tal centelha. Isso ou um detalhe genético que está por explicar, a não ser pela música: "Whatever you need, baby, you've got it from me"

Suzi Quatro - Stumblin' In (eu avisei, não se queixem; gozem a melodia)


Madalena Vidal

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A história do Rei, do burro e da chuva

A história do Rei, do burro e da chuva - contada por observadores da vida e gentilmente enviada por um Governante esclarecido...ahaahah

Era uma vez um rei que queria casar.
Mandou chamar o meteorologista e pediu-lhe a previsão do tempo para as horas seguintes.
Este assegurou-lhe que não iria chover.
A noiva do monarca vivia perto do castelo.
Vestiu a roupa mais elegante que tinha e pôs-se a caminho.
No caminho, encontrou um camponês montado no seu burro que viu o rei e disse:
"Majestade, é melhor regressar ao palácio porque vai chover muito".
O rei ficou pensativo e respondeu:
"Eu tenho um meteorologista, muito bem pago, que me disse o contrário. Vou seguir em frente".
E assim fez.
Choveu torrencialmente.
O rei ficou completamente encharcado e a noiva riu-se dele ao vê-lo naquele estado.
Furioso, o rei voltou para o palácio e despediu o meteorologista.
Em seguida, convocou o camponês e ofereceu-lhe emprego.
O camponês disse:
"Senhor, eu não entendo nada disso. Apenas verifico que, se as orelhas do meu burro ficam caídas, significa que vai chover".
Então, o rei contratou o burro.
E assim começou o costume de contratar burros para trabalhar junto do Poder...
Desde então, hordas de burros ocupam as posições mais bem pagas em qualquer governo. (E em algumas empresas também).

terça-feira, 1 de abril de 2014

A maioria das pessoas prefere confessar os pecados dos outros

A maioria das pessoas prefere confessar os pecados dos outros.

 Graham Greene

preto e branco

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, aprende-se mesmo antes de se entrar na escola. Se se fizer uma sondagem, ouvir-se-à também que o contrário do amor é o ódio. Estão erradas as pessoas. O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

domingo, 30 de março de 2014

The Smiths

Acabara de sair nas notícias da tarde que o Governo tinha aprovado nova legislação respeitante ao casamento dos homossexuais.

Richard Smith apressava o passo para chegar a casa antes do seu companheiro. Era um apartamento na Costa do Castelo, com um terraço e uma soberba vista sobre o Terreiro do Paço e o rio.

Ia rememorando, enquanto subia a calçada íngreme, o seu primeiro encontro em Banguecoque há anos com João André.

Eram ambos diplomatas, jovens terceiros secretários de países diferentes, e num cocktail na residência do Embaixador de Portugal, alguém os apresentou e foi um coup-de-foudre!

Que invulgar que passados uns meses, numa praia idílica do norte da Tailândia, lhe tivesse passado pela cabeça oferecer como prova de amor para com João André, uma tatuagem nas costas dele dizendo “ The Smiths”!

Era uma responsabilidade no fundo dar-lhe o apelido e depois pensara se um dia se separassem como seria?

Ainda há dias, em casa de amigos quando os apresentaram, o anfitrião disse:

- The Smiths!

MNA

sábado, 29 de março de 2014

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso

paraíso na terra

Piscina do Hotel Caruso na bela Costa Amalfitana (Itália)


domingo, 23 de março de 2014

Amigos


Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,  dos tantos risos e momentos que partilhámos.   

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.   

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.  Hoje já não tenho tanta certeza disso.  Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida.   Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas cartas  que trocaremos. Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto  se tornar cada vez mais raro. 

Vamo-nos perder no tempo...    Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas?  Diremos... que eram nossos amigos e... isso vai doer tanto!  

 - Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons  anos da minha vida!  A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...    

Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.  E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos. Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes daquele dia em diante.    

Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a  sua vida isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo...   

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida  passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de  grandes tempestades...    

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem  todos os meus amigos!
                                                        
Fernando Pessoa
 

sábado, 22 de março de 2014

O dentista suíço do Príncipe de Sabóia, eu e as primeiras eleições em Angola - Parte I



O dentista suíço do Príncipe Victor Emanuel de Sabóia, foi convidado para jantar no mesmo dia do que eu naquela fantástica casa no Lac Léman, em Genève, que um arquitecto famoso desenhou para os Príncipes. Duas piscinas, uma interior de água quente, e uma outra para o lago, partindo do meio da sala com janelas amplas e com uma vista deslumbrante.

O recheio riquíssimo, com o acervo patrimonial dos Sabóias herdado do Rei Umberto (quadros, joias, pratas, serviços de loiça, móveis) e com presentes únicos e propositadamente feitos para a Casa Real por manufacturas italianas famosas, tais como um armário precioso de vidro de Murano, algumas peças em mármore de Carrara, etc.

Tudo disposto harmoniosamente e numa mistura de estilos, tornando as salas muito confortáveis e criando diversos espaços a vários níveis para se estar, sempre com vista para o jardim, para o pequeno ancoradouro e para o Lac Léman.

Uma carreira de tiro privada e uma colecção de armas priceless, uma garagem cheia de carros antigos (um Bugatti precioso dos primórdios) e várias motas.

Sempre lá fui acolhido com enorme grandeza mas também com a simplicidade da rotina raffiné do dia-a-dia. O staff compunha-se de um casal de portugueses emigrantes por mim indicado, um mordomo italiano, um “chauffeur” suíço e uma comida italiana sã, despretensiosa e uma delícia. Vinhos de grandes marcas e servidos com uma abundância preocupante para a coerência e lucidez das conversas….  

Avi era judeu e um afamado dentista frequentado por toda a boa e riquíssima sociedade local. Conheci-o numa aflição de umas dores de dentes danada quando estava com os Príncipes em Genève. Foi de uma enorme utilidade e amabilidade e tornámo-nos amigos. Todas as vezes que ia ter com os Príncipes, ou jantávamos todos fóra, sempre em excelentes bistrots, ou em casa dos Sabóias, ou de amigos; mas o que eu mais gostava era quando me convidava para comermos “perches” fritas, que eu adorava, junto ao Lac Léman, num restaurante famoso desta especialidade.

Antes do referido jantar, que sendo em “petit comité” ( O Príncipe, Avi e eu) convivemos com a Princesa Marina e com o Príncipe Emanuel Filiberto, jovem imberbe e loiro (aplica-se aqui a expressão que nem uma luva), simpático mas asneirento como seria de esperar de um filho único, rico e descendente de uma das maiores Famílias Reais da Europa. 

Ficámos finalmente os 3 à mesa e a conversa iniciou-se dizendo o Príncipe que o Avi (que naturalmente tinha ligações à Mossad) teria recebido instruções dos americanos para se sondar o Presidente angolano José Eduardo dos Santos, líder do MPLA, quanto a um eventual apoio dos EUA para candidato presidencial às primeiras eleições livres e democráticas que se realizariam em Angola, após a guerra civil. 

Tomando a palavra, Avi salientou que este assunto deveria ser tratado com a maior discrição, por todas as razões e sobretudo porque os americanos tinham sempre dado apoio a Jonas Savimbi e à UNITA.

A pergunta que me faziam era se eu conseguiria através dos meus contactos, proporcionar um encontro entre um grupo exclusivo e restrito (um embaixador americano nomeado pelo Presidente Bush – embaixador político – e mais umas quantas pessoas a posteriormente indicar) e o Presidente José Eduardo dos Santos.

Os EUA não tinham embaixada em Angola, por isso a missão tinha que ser super-confidencial e sem poder falhar, dado que na comitiva iria pela primeira vez um diplomata americano e com a situação explosiva em Luanda, apesar das tréguas, teriam que ser asseguradas medidas de protecção inequívocas. 

Foi ainda acrescentado pelo Avi que o Capitólio tinha autorizado uma firma de lobby, para financiar e preparar o apoio à campanha eleitoral angolana de dos Santos, se ele concordasse, e que me tinham escolhido como elemento de ligação pois sendo português e conhecendo Angola, pessoa da confiança do Príncipe e de Avi e com provas dadas de outras missões bem sucedidas, aportaria o “grano salis”, quando porventura se quisesse americanizar demais atitudes ou decisões que não se adaptassem à cultura angolana.

(continua)

sexta-feira, 21 de março de 2014

O Luar Através dos Altos Ramos


O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.

Alberto Caeiro

Lyrica


Liberte-se sem medo, não ligue a uma sociedade de privações, faça o que o seu coração manda: afinal as mentes são literalmentes complicadas.

sábado, 15 de março de 2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

gulosa



Você é o seu sexo. Todo o seu corpo é um órgão sexual, com exceção talvez das clavículas.
 
Luis Fernando Veríssimo

terça-feira, 11 de março de 2014

Dreams


Gosto daquele que sonha o impossível.

Goethe

sala de prazeres imorais


O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertold Brecht


As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem


As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física.

Friedrich Nietzsche

Cântico Negro de José Régio


 "Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio
Cântico Negro

sábado, 8 de março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

le vrai bonheur


Tout le monde veut vivre au sommet de la montagne, sans soupçonner que le vrai bonheur est dans la manière de gravir la pente.

Gabriel Garcia Marquez


só de passagem


Parem o mundo que eu quero descer. Só um pouquinho!

"Parem o mundo que eu quero descer. Só um pouquinho. Não vai atrapalhar ninguém. Deixa eu descer do mundo, que tá duro demais. Ou pelo menos descer do Brasil, que, se o mundo está duro assim, este país então está insuportável... Senhores comandantes desta coisa pobre, louca, doente e suja que nem sei mais se posso chamar ‘Brasil’. Vossas excelências sabem o que está acontecendo nesta terra? Parece que não. Os senhores nunca andam nas ruas? Não veem a cara das pessoas? Estou cobrando meus direitos; porque não está dando nem para comer, nem para vestir, nem para morar, e muito menos para sonhar. Aí fica mais grave, porque os senhores não têm o direito de matar sonhos. E não venham nos pedir mais paciência. Estamos muito machucados, explorados e enganados para ter essa coisa mansa chamada paciência."

A profecia de Caio Fernando Abreu (em 1986)

imbecis


A classe política dominante trata-nos como imbecis. Se calhar, somos mesmo.

José Adelino Maltez

ora toma disto ó Evaristo!


sábado, 1 de março de 2014

I like to have a martini


I like to have a martini, two at the very most.
After three I’m under the table,
After four I’m under my host…

Dorothy Parker


Por que é que havia de me sentir sozinho?


Por que é que havia de me sentir sozinho? Raras vezes na minha vida, desde que me lembro de mim, tive um sentimento de solidão. E não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. Não me aborreço.

António Lobo Antunes