sábado, 18 de janeiro de 2014

O psiquiatra - Um breve conto (continuação)





Ruby Kamara, um africano da Costa do Marfim, fora colega de Luís na Universidade e também se licenciara em medicina, nomeadamente em psiquiatria. 

Chegara sem conhecer ninguém e Luís vendo-o um pouco perdido, deu-lhe apoio e tornaram-se os melhores amigos. Passado algum tempo aprendeu com esperteza a falar português e começou a dar-se com todos os colegas.

Era um tipo catita, bem-parecido e foi-se adaptando com facilidade ao meio universitário português.

Estudavam juntos e no sótão da casa de Luís, ouviam música, falavam de arte e de história durante horas, e à medida que crescia a amizade entre eles, Ruby foi-se abrindo e dizendo a Luís que gostava que um dia ele experimentasse umas ervas típicas da sua terra que faziam sonhar e davam mais pica para o estudo.

Luís perguntou-lhe de caras se ele achava que era ingénuo e não sabia do que se tratava. Com grande espanto seu, Ruby respondeu-lhe que se utilizavam nas sessões de espiritismo africano na terra dele e que eram ervas que os feiticeiros davam aos presentes para falarem com os ausentes.

Nada convencido Luís foi disfarçando até que um dia, tendo pela frente milhares de páginas para estudarem pela noite fora, Ruby propôs-lhe que tomassem uma porção de “khat” para estimular a concentração.

Assim fizeram e no dia seguinte apesar de a prova ter corrido às mil maravilhas aos dois, estavam como se lhes tivesse passado por cima uma retroescavadora.

Ruby contou-lhe que quando morria alguém na sua aldeia natal, se reuniam numa clareira no meio da floresta, num local secreto com o corpo do morto jazendo num toro de árvore liso e muito bem polido, envolto num pano branco tecido com raízes de plantas que formavam como um lençol fino.

Começavam as danças e o feiticeiro distribuía porções de “khat” pelos presentes e passadas algumas horas o corpo levitava e voltava à vida ou se tinha que morrer definitivamente eram chamados os espíritos para o virem buscar.

Luís achava a descrição curiosa mas dizia-lhe que tudo quanto Ruby contava que via (a levitação e a ressurreição) eram fruto dos efeitos do “khat”. O africano negava e jurava que era tudo verdade.

Foram progredindo no curso e Luís cada vez mais se habituara a tomar “khat” a pretexto de tudo e de nada.

O “khat”, como Luís bem sabia, contém o alcalóide chamado catinona, um estimulante similar à anfetamina, que causa excitação e euforia e que produz uma dependência psicológica.

Luís nas aulas estava algumas vezes de ressaca de “khat” e reparara que os efeitos se prolongavam durante parte do dia, nomeadamente no momento em que tinha que falar em público, distorcendo-lhe os sentidos e confundindo o cérebro e afectando os pensamentos e a comunicação.

Luís estudara que as drogas alucinogénias, no plano das interpretações psicológicas ou psicanalíticas se situam entre os fenómenos de modificação das emoções e personalidade, superficialmente descritas como uma relação entre o ego e o mundo exterior/interior, análogo às interpretações que se dá aos efeitos do transe das religiões de “possessão” africanas.

Começou a ter medo desta habituação e via que Ruby era muito mais moderado e que até já o tinha avisado dos prejuízos que lhe poderia causar tal dependência.

Luís, no entanto, decidiu que na pretensa “consulta” com Sandra, uma vez que era perante todos os seus colegas e que desejava obter uma boa nota e impressionar o professor com a sua argúcia, tomaria uma dose de “khat” de manhã antes de ir para a Faculdade.

(continua)


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Promoção no Sporting para comprar novos jogadores...carpélio verde!

Por necessidade de fundos, o Sporting está a promover este magnífico carpélio verde! E não é que é jeitoso...

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...

Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 11 de janeiro de 2014

o vinho é bom companheiro


O vinho melhora com o tempo e eu melhoro com o vinho...

A Coroação de Napoleão, por David...o logro


Estou aqui no meu escritório sozinho, a trabalhar. 

Estamos no princípio da tarde do último dia do ano de 2013. Estou a ouvir música, que vai desde os “Band of Horses”, “The XX”, “LCD Soundsystem”, “The Cure”, “Radiohead”, “Kings of Convenience”, “Fascinação” de Ellis Regina, Caetano Veloso, Tom Jobim, “Sevillanas de Oro”, Amalia, Pavarotti, duas das minhas divas – a Callas e a Kiri Te Kanawa – e a Rádio Marginal e um bom calorífero aceso.

Fiz um rápido périplo pelo ano que passou e a conclusão não foi positiva. Não vale a pena enganar-nos: mais impostos, menos oportunidades, país pior, mais gente burlona vivendo à nossa custa, para apagar da memória.

Também o que entra não me aparece risonho, mas estou farto de cenários e comentadores e previsões. 

Na caixa do supermercado o que conta é o dinheiro na mão! É aí que tenho que apostar: trazer no final de cada mês o suficiente para uma vida digna e tão equilibrada quanto possível.

Os negócios fóra de Portugal, o trabalho árduo e difícil ainda a realizar é o sonho bom, no que vale a pena apostar e o que dá o conforto para acreditar que enquanto tivermos capacidade para nos reinventar e labutarmos, a vida tem sentido.

Sinto uma espécie de vazio – não sei se me consigo exprimir – a neura do inexistente que me invade e que decerto deve estar bem presente em tantas e tantos que logo celebrarão enganosamente e com atordoamento a chegada do novo ano.

Por isso, portuguesas e portugueses…ridícula forma com que os nossos políticos nos brindam nos seus discursos, apanhem uma grande bebedeira, esqueçam que existem problemas por uns momentos e atinjam o nirvana mesmo à meia-noite, pois a ressaca será danada e não é só na manhã do dia seguinte.

Join me in the clouds…há lá lugares ainda livres no hospício para loucos. Encontrar-me-ão fazendo de Ícaro com asas de cêra, caindo de nuvem em nuvem ou como Napoleão, comandando tropas.

Confesso que há na personagem de Bonaparte alguns pormenores que me fazem ter a percepção de como homens geniais perdem essa característica quando se sentem cheios do sucesso: no célebre quadro da coroação, por David, há um balcão imperial em que aparece destacada “Madame Mére” ou seja Letícia Ramolino Bonaparte, em trajes de gala e sabem que não esteve lá nem presenciou a cerimónia? 

Por onde andará o Dias Loureiro? Ou o Miguel Relvas? Li, que no renovado Copacabana Palace no Rio, a US$ 600 por noite. Estive lá a tomar no bar, um sumo de tomate recentemente, custou-me uns quaisquer reais.

Bandidos!

Mau ano para eles todos e que ou devolvam o dinheiro que roubaram e o que nos roubam ou acabem com os ossos na enxovia.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O psiquiatra - Um breve conto (continuação)



Luís, preparara-se para o debate na aula e tinha feito algumas reflexões sobre como abordar as premissas genéricas que lhe tinham sido fornecidas.

Quanto à insatisfação sexual pela não eventual fogosidade do companheiro, e uma vez que o dito não estaria presente, as perguntas seriam mais no sentido de apurar o que a paciente considerava como patamares aceitáveis de desempenho. Escarafunchar ao detalhe, fazendo-a confessar prazeres ocultos e desejos lúbricos. 

Muitas vezes há falta de diálogo neste campo, e a parte negligenciada nem sonha como agradar verdadeiramente, porque ou há um certo pudor da outra em desvendar o seu interior profundo, ou porque pura e simplesmente se cumpre um ritual sem mais e se dá como dado adquirido que se fez a escolha errada e sem esperança de conserto. Outras razões haverá, mas que Luís não considerava aplicáveis à primeira vista, neste caso.

Normalmente este tipo de rotina conduz à infidelidade, ou seja tomar-se garboso cavaleiro que monte a garupa sem freio!

De acordo com as notas providenciadas, existia aparentemente uma ansiedade e sensação de desconforto pelas traições. Luís considerava que as causas teriam que ser investigadas para apurar-se se seriam reais. 

Tudo dependeria das respostas a um escrutínio mais alargado sobre os seus princípios morais, sobre a formulação e definição de culpa, de uma maior ou menor aceitação de liberalidade nos padrões de conduta sexual. 

Haveria que escrutinar o passado familiar, a vivência antes da relação, alguns pormenores ou historietas mais salientes que neste campo se tivessem passado. No fundo caberia analisar qual o grau de desconformidade que a paciente demonstrava em relação ao que considerasse o padrão base de referência moral para si própria.

Luís tinha alguma curiosidade em “fazer falar” a pretensa paciente, não só por ser uma prova pública dos seus méritos profissionais pelo convencimento da sua argumentação o que lhe valeria uma boa classificação, mas também porque sinceramente lhe interessava o estudo dos “outros”

Havia quem fosse “bird watcher” ou encantador de serpentes, outros ou outras cuscos e gostando de falar sobre a vida fútil de terceiros, ainda uns quantos misóginos ou exuberantes.

Mas para Luís, cada vez se consolidava mais na sua mente, o desejo de escolher a especialidade de psiquiatria.

Para além da sua personalidade que revelava uma certa dose de bondade e altruísmo, possuía o dom de uma intuição rara, que pretendia apurar e desenvolver. 

O contacto com os outros era uma fonte inesgotável de prazer para si, e o facto de poder mergulhar no âmago das suas naturezas e perscrutar os comportamentos, as emoções, o rationale de atitudes tantas vezes inesperadas e imprevistas, em suma a verdadeira “condição humana” na acepção de Voltaire, tornava-se um deleite inultrapassável em termos profissionais.

Por isso, sendo alegre e divertido e fazendo muito sucesso nos ambientes em que se movimentava, era um constante observador das atitudes que presenciava de mil e uma pessoas com diversos comportamentos. 

E este acumular de experiências ia constituindo um valioso capital que presumia, o tornaria num psiquiatra de sucesso e confiável.

Tinha um ponto fraco, porém, que temia lhe pudesse estragar a estabilidade emocional que lhe era requerida.

(continua)

Se não há nada para dizer

Se não há nada para dizer,
Onde se acumulam as palavras
Que não foram ditas?

Casimiro de Brito

é proibida a entrada


É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir.

José Gomes Ferreira

sábado, 4 de janeiro de 2014

O psiquiatra - Um breve conto



Luís era psiquiatra. Desde muito novo gostava de se meter na vida dos outros, no bom sentido, é claro. 

Dava opiniões e bons conselhos aos amigos na escola, era ponderado e observador e foi crescendo e inclinando-se para ser médico. 

Ainda não sabia que especialidade escolher até que quando teve que optar, decidiu-se por psiquiatria sem hesitação, por uma história que vou contar.

Tinha boa figura, alto, magro, com mãos finas e dedos compridos, cabelo preto e um sorriso acolhedor, uns olhos vivos e uma permanente actividade cerebral, fazendo e desfazendo cenários.

Era de espírito aberto e liberal, desempoeirado de ideias, sem preconceitos e um pouco desarrumado quanto à sua pessoa, isto é, aparência e vestimenta. Eram detalhes secundários. 

Um dia, ainda estudante, e na Universidade, foi-lhe pedido pelo Professor da cadeira que simulasse um diagnóstico psiquiátrico de uma suposta paciente.

Era de fóra e ninguém a conhecia, por isso não havia hipóteses de truques. Este era o primeiro encontro com a turma aonde iria ser entrevistada por um aluno, que ainda não sabia quem seria.

Chamava-se Sandra, tinha uns olhos verdes impressionantes, mas sobretudo uma boca de fazer parar o trânsito. Beiços carnudos, corpo sensual e insinuante, um sorriso estudado, umas pernas bem feitas que traçava com matreirice deixando ver as coxas até ao nível do permitido pela decência, umas mãos bem tratadas e com unhas de côr-de-carne, com um belo vestido que se colava ao busto e ao traseiro, fazendo ressaltá-los convidativamente.

Luis tinha a ficha dela com uns dados mínimos: insatisfação sexual com o companheiro, ansiedade, descontrolo de comportamento, sentimento de culpa por infidelidades cometidas.  

Os seus colegas-homens da turma, diziam-lhe graças e animavam-no a tornar picante a sessão mas as colegas femininas, esperavam com interesse que Luís se comportasse como um futuro médico e profissional, pois era isso que lhe tinha sido pedido pelo professor.

(continua)

Mas tu interessas-te por mim?


Hospital da Luz, sala de espera das consultas.

Senhora idosa que às tantas declinou a idade como sendo de 89 anos, numa cadeira de rodas, acompanhada pelo marido, também idoso, mas mexido.

- Desde que aqui cheguei não me fizeram nada – disse a custo com dificuldades respiratórias.

- Anda, tens que almoçar, vamos para casa – disse o marido com uma voz carinhosa.

Todos, deixámos de fazer o que nos ocupava (eu no iPhone a mandar mensagens) e focámo-nos no casal, que conversava como se nós ali não estivéssemos.

- Tu já sabes, é o teu coração que está fraquinho. Por isso em casa estás melhor e não podes deixar de almoçar…uma sopinha, uma frutinha, uma carninha, tens que te alimentar.

- Mas tu interessas-te por mim? – disse ela com voz dôce, como se tivéssemos todos recuado uns 75 anos na vida deste casal, perplexos e encantados.

- Como? – disse ele surdo. Ela repetiu. 

- Se estou a empurrar-te? 

Ela repetiu em voz mais alta e ele respondeu:

- Oh filha, então isso é pergunta que se faça? Tu achas que não? Preferias ficar cá? Se calhar tratavam-te melhor…

Aí, uma senhora levanta-se e avança com uma banana. 

- Tome lá, minha Senhora, que é o que eu tenho.

- Não, muito obrigado. Não gosto muito de bananas, mas desejo-lhe muita saúde.

E lá partiram os dois…