domingo, 23 de fevereiro de 2014
A elegância em dizer as coisas
Que civilizada maneira de falar sobre sementes!
Assim fosse também sobre sentimentos, emoções, apreciações e juízos de valor sobre os outros!
Num blogue, é evidente que quem dá, leva…o que dentro das regras da tal civilidade é divertido!
Por isso, se eu quiser deixar um "manifesto editorial" diria que o faço com humor, naturalidade e sem intenções de ofender!
Divirtam-se!
sábado, 22 de fevereiro de 2014
ovelha negra precisa de atenção
"...Prometti, caro, a te stesso di parlare di bontà, bellezza, amore a ogni persona che incontri... di far sentire a tutti i tuoi amici che c'è qualcosa di grande in loro... di guardare al lato bello di ogni cosa e di lottare perché il tuo ottimismo diventi realtà..."
Madre Teresa di Calcutta
da una carta a un amico
O Brito e o aviário
O Brito trabalhava no aviário da cooperativa do Freixo e cada manhã, por uma questão de rotina, partia um ou dois ovos, não fosse o diabo tecê-las e haver algum pinto que fosse parar à mesa de um cliente.
Nessa manhã, qual não foi o seu espanto, ao reconhecer em cada ovo que ia sucessivamente partindo, pedaços do seu cérebro.
Imediatamente telefonou para o patrão e ao contar-lhe o sucedido, ouviu-o dizer-lhe nada preocupado:
- Sempre desconfiei que tinhas cérebro de galinha!
MNA
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
revelation
"If you reveal your secrets to the wind you should not blame the wind for revealing them to the trees"
Kahil Gibran
Eu, je, moi, I , Ich
Não me prendo a nada que me defina, sou companhia mas posso ser solidão.
Tranquilidade e turbilhão, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, bom humor, preguiça e sono.
Música alta e silêncio. Não me limito, nem sou cruel. Serei sempre a favor do que vale a pena.
Suponho que para me entender não é uma questão de inteligência, mas sim de sentir, de entrar em contacto.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
A cedência
O pardal esvoaçava todos os dias em frente da janela dela.
Via-a espreguiçar-se,
quase nua, seios redondos, novos e cheios de seiva de juventude, com bicos rosáceos.
E pensava, que bom seria debicar as pontas. Para isso servia o bico.
Com sofreguidão dava a
volta no ar e fazia em voo lento e em círculos, miradas para dentro e ela já
estirada, mostrava as costas de onde a pouco e pouco escorregava o lençol de
linho deixando entrever um traseiro sensual, roliço e bem feito, com uma leve penugem
clara.
E pensava, que bom seria
pousar docemente e roçar a sua penugem na dela. Afinal ambos a tinham.
O pardal tinha esta sina
diária e perguntava-se a que levaria isto?
Um dia ela abriu a janela
e viu-o e olharam-se a direito, ela nua a querer apanhá-lo e ele a bater as
asas, a bater.
E tudo ali acabou, pois o
pardal cedeu.
in poemas raros de Vicente Mais ou Menos de Souza
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Não penses
Não
penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar.
Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é
não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de
noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora.
Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha,
escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe»
com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes
dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não
penses, que é sacrilégio.
Vergílio Ferreira
pôr-do-sol no Guincho...que tranquilo
No meio das tormentas todas que nos esperam, de repente este fim de tarde no Guincho pareceu-me tão tranquilo!
domingo, 16 de fevereiro de 2014
absurdo
Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses, defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
(...)
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia.
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.
Alexandre O’Neill
De costas voltadas
Envelheces tanto de cada vez que o dia termina
e olhas para trás. Tens medo do começo do fim,
das tardes de domingo; um dia, distraído, tens medo
do sexo, da amabilidade e da noite, e dos rostos
que foram belos – e não são mais. Envelheces muito
quando o mundo contraria as pequenas coisas,
sentes esse cansaço, nada a fazer.
Francisco José Viegas
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
O psiquiatra - Um breve conto (continuação)
O paciente começou a
debitar diante de Luís o que o tinha feito recorrer a uma consulta. Contava as
amarguras, coisas íntimas, como num desejo de encontrar um
porto de abrigo, uma alma gémea que o consolasse das mazelas que se causara e a
outros.
Fazia-o com valentia, sem
temor porque confiava na confidencialidade das quatro paredes do gabinete.
Luís, talvez sem muita
paciência, ouvia distraído e tomava umas vagas notas.
Quando o paciente acabou,
meio atordoado pelo esforço de fazer vir ao de cima a sua história, ouviu de
Luís uma frase assassina e impiedosa:
- Você é especial!
O paciente surpreendido
com esta afirmação, não fez comentários e cismou dorido, porque raio é que
tinha sido este o único comentário.
Luís ainda fez perguntas, daquelas
que os padres costumam fazer com um ar severo nos confessionários a
adolescentes imberbes que confessam faltas à castidade: quantas vezes, diga lá,
foram muitas? E os meninos córados, respondem que não. Aí começa a mentira,
jurando que nunca mais confessam ao sr.padre pecados desta natureza!
Pois o paciente respondeu
que estava a contar tudo isto para que Luís melhor o conhecesse e pudesse estimar
mais acertadamente a terapia.
No final, Luís
perguntou-lhe:
- Nas funções no Governo,
também foi especial?
O paciente respondeu que
estava ali para falar da vida pessoal e que no Governo desempenhara as suas
funções com garbo, excepto num particular: aldrabara na formação académica e
omitira ao País que tinha feito uma disciplina ao Domingo!
Luís, reconhecendo-o,
levanta-se pressuroso e com um ar humilde e servil, curva-se despedindo-se:
- Oh Senhor
ex-Primeiro-Ministro, olhe que não o reconheci! Desculpará a minha distracção.
O paciente com
benevolência e já com um sorriso, respondeu:
- Ce n’est pas important!
E acrescentou: - Quando
regressei de França, habituei-me a falar francês!
E saiu com um ar
especial.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Porque escrevo?
« Je n'écris pas pour passer le temps ni pour donner des leçons. Je
n'écris pas pour faire le malin ni pour ouvrir, comme ils disent, des
voies nouvelles à la littérature. Pouah ! Je n'écris pas pour faire joli
ni pour défendre quoi que ce soit. J'écris pour y voir un peu plus
clair et pour ne pas mourir de honte sous les sables de l'oubli »
Jean d'O dans Qu'ai-je donc fait.
Jean d'O dans Qu'ai-je donc fait.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Porque as mulheres gostam de homens efeminados?
Não compreendo vocês.
Tipo 98% das mulheres que eu conheço gostam de homens mais franzinos. com pele de neném, com a cara lisinha, com cabelinho arrumadinho, depiladinho, enfim gayzinho, aí eu te pergunto, dá pra entender vcs mulheres ? tipo cientificamente falando vcs deveriam gostar de homens, peludos, barbudos, com a cara surrada, com queixo largo, e com muito pelo por toda parte do corpo, pois isso significa testosterona, que é o que todos os seres desse planeta terra procuram em um macho pra se reproduzir, pois isso significa que as crias serão fortes e poderão se virar sozinhas, e tb terão um macho forte para cuidar delas,
mas não, daí vcs começam a gostar de homens depilados, com traços femininos
vai entender...
Van
Oi cara,
Você ia querer fazer amor com uma mulher peluda, desarrumada e fedida? Do mesmo jeito das mulheres.
Elas querem um homem cheiroso, que depila e que se cuida. E só porque homem se cuida ela não é efeminado, ele é homem arrumado. Mulher não gosta de homem porco.
Reginaldo
Oi aí galera,
Sou homem e vou te ajudar nessa.
Elas veem em homens delicados, a atenção, compreensão, carinho, tato, que não percebem nos ditos machões/predadores. Mas não são todas as mulheres que são assim, na verdade é mais fácil elas se apaixonarem por ti, se você for assim, quando estivem em período de ovulação sentimental (lê-se carência. Rsrs eu que criei essa expressão). Você pode usar o conhecimento a respeito das mulheres a seu favor, mas vê se não extrapola muito que nem eu que já cheguei a me passar por gay, só para transar com uma minina pra lá de gostosa que disse que sonhava em transar um dia com um gay.
Rodolfo
Oi machões,
Eu detesto homens efeminados.Gosto de homem forte,com mãos asperas, voz grossa,barba bem cuidada.Eu fico admirando meu marido,uma das coisas que mais me atrai nele é a masculinidade dele.
Aquela força que ele tem de me erguer com os dois braços ou me pegar no colo. Os pelos da barriga dele que eu adoro quando abraço ele. Pra mim o homem tem que ter um rosto bonito,mas nao precisa ser efeminado. Um rosto harmonioso apenas.
Antes de conhecer meu marido,eu tive um paquera,ele gostava de mim,só que tinha outro que tambem estava na disputa por mim.Esse outro disse q se visse eu e o carinha juntos ele matava o cara.Contei isso pro cara,ai ele ficou: Ai,eu vou embora,eu tenho medo,não quero apanhar e tal. Isso acabou com o mínimo de vontade de estar perto dele.Eu falei: Seja homem. Pior coisa é homem que tem medo de brigar.
Angélica
o reverso
Num livro de páginas em branco
Fragmentos fixados na memória
histórias...
Lembro-me de mar e cinzas
e de abismos...
E de pássaros, canções, azuis...
flores perfumes, jasmins...
E de novo o mar e cinzas...
chuva fina, tempestades
e um rio vermelho
E os pássaros, as canções e os azuis...
e portas se fechando
e bocas se calando
e uma página negra
E os azuis, as canções, os pássaros, os jasmins, as flores...
...a tempestade, a chuva fina...
o cinza se clareando
as janelas se abrindo
E os pássaros, as canções os azuis....
e o livro se fechando
Uma história com final feliz...
regina ragazzi
Fragmentos fixados na memória
histórias...
Lembro-me de mar e cinzas
e de abismos...
E de pássaros, canções, azuis...
flores perfumes, jasmins...
E de novo o mar e cinzas...
chuva fina, tempestades
e um rio vermelho
E os pássaros, as canções e os azuis...
e portas se fechando
e bocas se calando
e uma página negra
E os azuis, as canções, os pássaros, os jasmins, as flores...
...a tempestade, a chuva fina...
o cinza se clareando
as janelas se abrindo
E os pássaros, as canções os azuis....
e o livro se fechando
Uma história com final feliz...
regina ragazzi
domingo, 9 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Happiness starts with you
Happiness starts with you.
Not with your relationships, not with your job, not with your money, but with you.
Not with your relationships, not with your job, not with your money, but with you.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Não. Não tenho limites.
Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.
Miguel Torga
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
O psiquiatra - Um breve conto (continuação)
Luís acordou estremunhado
e olhou para o relógio, preocupado pelo decorrer das horas.
Tinha consultas no
Hospital, pois já era psiquiatra de facto há vários anos e tudo isto não passou
de um sonho que teria que interpretar quando tivesse tempo.
A sua vida era muito bem
preenchida com tudo aquilo que gostava de fazer e por isso um certo travo
amargo ficara-lhe na boca…porque raio havia de lhe ter ocorrido todo este
enredo?
Saiu apressado para
apanhar o carro e quando entrou, verificou que tinha um pequeno bilhete dobrado
no para-brisas.
- Que maçada, uma multa!
E pegou no papel e verificou que era branco e que dentro teria alguma coisa
escrita.
- Leio mais tarde, pois
estou cheio de pressa! E meteu o papel no bolso.
No intervalo das
consultas e enquanto o paciente seguinte não entrava, foi buscar o papel ao
casaco e ao abri-lo teve a maior das surpresas.
Tinha escrito, em letra firme de tinta preta uma pequena mensagem que dizia assim:
“ Espero-te logo para
jantar. Liga para o 919445673 que é o número do porteiro do prédio para te abrir a porta.
S.”
Seria o Seixas, seu amigo
e colega de Hospital que andava com uns problemas e que lhe tinha dito que
gostava de desabafar?
Seria possível que fosse
a Sandra do sonho?
Mais tarde ligaria, pois
a enfermeira acabava de lhe abrir a porta para dar entrada no seu gabinete a um
novo paciente.
Os braços eram somente feitos de nuvens
Um dia compreendeu como os seus braços eram somente feitos de nuvens.
Impossível com nuvens abraçar até ao fundo um corpo, uma sorte.
A sorte é redonda e conta lentamente as estrelas do estio.
Fazem falta uns braços seguros como o vento,
E como o mar um beijo.
Mas ele com os seus lábios, com os seus lábios não sabe dizer senão palavras, palavras até ao tecto, palavras até ao solo.
E os seus braços são nuvens que transformam
a vida em ar navegável.
Luis Cernuda
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Pensamentos
Did you know the people that are
the strongest are usually the most sensitive?
Did you know the people who
exhibit the most kindness are the first to get mistreated? Did you know the one
who takes care of others all the time are usually the ones who need it the
most?
Did you know the 3 hardest things
to say are I love you, I'm sorry, and Help me.
Sometimes just because a person
looks happy, you have to look past their smile and see how much pain they may
be in.
From life
From life
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
O psiquiatra - Um breve conto (continuação)
Sandra reparara em Luís
quando lhe anunciaram que ia ser ele, o seu interlocutor.
Achara-o giro e sensual e
de imediato decidira que o havia de encantar e deslumbrar, e para isso
preparava cuidadosamente a sua “história”, ou seja o papel que incarnava e o
perfil de “paciente” virtual.
O seu objectivo era
claro: queria-o na cama e depressa nem que para isso tivesse que usar de todo o
seu charme e persuasão.
Escolhera com critério a
roupa que ia usar: uma tee-shirt de fina popelina branca entreaberta deixando
ver duas “maçãs” roliças e com bicos pontiagudos, pois iria sem soutien, o que
normalmente atraía a atenção de toda a gente.
Levaria por cima um pullover
em v, de cachemira beije, de toque impressionantemente macio e umas calças apertadas e
justas ao corpo, de pelica castanha, moldando um traseiro bem torneado.
Calçaria uns sapatos de salto alto deixando ver um pé bem feito e harmonioso.
Se pudesse, em algum
momento, apetecia-lhe beijá-lo loucamente com a sua boca fogosa e enlaçá-lo
atraindo-o para os seus braços, inebriando-o com o seu perfume fresco e
irresistível.
Tentaria revelar-se uma
vadia e insaciável “valquíria” pois o “papel” de esposa insatisfeita assim o
sugeria.
Tinha, porém, algum receio de que
Luís pudesse achá-la uma desavergonhada e atrevida, mas começaria por anunciar
em voz alta que tudo quanto ali fizesse ou dissesse, não correspondia ao seu
verdadeiro eu.
No fundo, por prudência,
preferia salvaguardar-se e até desempenhar a função de uma excelente “actriz” representando o
seu papel, de acordo com o “guião”.
Luís, por seu lado,
cogitava em como poderia aprofundar mais a verdadeira personalidade da “paciente”
e gostaria que depois do seu “espectáculo” pudesse guardar alguma cumplicidade
com a “modelo” da sua experiência.
Luís era muito atreito às
tentações e resistia-lhes pouco e quando provocado com sensualidade e subtileza,
gozava muito mais do que com vulgaridades.
Sucumbia à sedução mais pela mente combinada com o físico, do que só pelo instinto sexual. Era importante
para ele ter alguém que fosse capaz de lhe fazer despertar os sentidos e aí,
sim, mergulhava irresistivelmente no desfrute completo do prazer e tornava-se o
parceiro ideal.
(continua)
Vem por aqui
Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio, Cântico Negro
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio, Cântico Negro
domingo, 19 de janeiro de 2014
o Motel
Mirtes não se agüentou e contou para a Lurdes:
- Viram teu marido entrando num motel.
A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos..
Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio.
Depois pediu detalhes.
- Quando? Onde? Com quem?
- Ontem. No Discretíssimu's.
- Com quem? Com quem?
- Isso eu não sei.
- Mas como? Era alta? Magra? Loira?
Puxava de uma perna?
- Não sei, Lu.
- Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.
Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo e contou por quê.
- Mas que história é essa, Lurdes?
Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel.
Era você!
- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir.
Discretíssimu's! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.
- Pois então?
- Pois então, que eu tenho que deixar você. Não vê?
É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.
- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!
- Mas elas não sabem disso!
- Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?
- Vou!
Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou.
Estava sombrio: Acabo de receber um telefonema - disse.. Era o Dico.
- O que ele queria?
- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.
- O quê?
- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu's ontem, com um homem.
- Mas o homem era você!
- Eu sei, mas eu não fui identificado.
- Você não disse que era você?
- O quê? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?
- E então?
- Desculpe, Lurdes, mas...
- Mas o quê?
- Vou ter que te dar uma surra...
Luiz Fernando Veríssimo
MORAL DA HISTÓRIA:
DEVEMOS CUIDAR APENAS DA NOSSA SAÚDE, POIS DA NOSSA VIDA, TODO MUNDO CUIDA...
- Viram teu marido entrando num motel.
A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos..
Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio.
Depois pediu detalhes.
- Quando? Onde? Com quem?
- Ontem. No Discretíssimu's.
- Com quem? Com quem?
- Isso eu não sei.
- Mas como? Era alta? Magra? Loira?
Puxava de uma perna?
- Não sei, Lu.
- Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.
Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo e contou por quê.
- Mas que história é essa, Lurdes?
Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel.
Era você!
- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir.
Discretíssimu's! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.
- Pois então?
- Pois então, que eu tenho que deixar você. Não vê?
É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.
- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!
- Mas elas não sabem disso!
- Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?
- Vou!
Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou.
Estava sombrio: Acabo de receber um telefonema - disse.. Era o Dico.
- O que ele queria?
- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.
- O quê?
- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu's ontem, com um homem.
- Mas o homem era você!
- Eu sei, mas eu não fui identificado.
- Você não disse que era você?
- O quê? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?
- E então?
- Desculpe, Lurdes, mas...
- Mas o quê?
- Vou ter que te dar uma surra...
Luiz Fernando Veríssimo
MORAL DA HISTÓRIA:
DEVEMOS CUIDAR APENAS DA NOSSA SAÚDE, POIS DA NOSSA VIDA, TODO MUNDO CUIDA...
sábado, 18 de janeiro de 2014
O psiquiatra - Um breve conto (continuação)
Ruby Kamara, um africano
da Costa do Marfim, fora colega de Luís na Universidade e também se licenciara
em medicina, nomeadamente em psiquiatria.
Chegara sem conhecer
ninguém e Luís vendo-o um pouco perdido, deu-lhe apoio e tornaram-se os
melhores amigos. Passado algum tempo aprendeu com esperteza a falar português e
começou a dar-se com todos os colegas.
Era um tipo catita, bem-parecido
e foi-se adaptando com facilidade ao meio universitário português.
Estudavam juntos e no
sótão da casa de Luís, ouviam música, falavam de arte e de história durante
horas, e à medida que crescia a amizade entre eles, Ruby foi-se abrindo e
dizendo a Luís que gostava que um dia ele experimentasse umas ervas típicas da
sua terra que faziam sonhar e davam mais pica para o estudo.
Luís perguntou-lhe de
caras se ele achava que era ingénuo e não sabia do que se tratava. Com grande
espanto seu, Ruby respondeu-lhe que se utilizavam nas sessões de espiritismo africano
na terra dele e que eram ervas que os feiticeiros davam aos presentes para
falarem com os ausentes.
Nada convencido Luís foi
disfarçando até que um dia, tendo pela frente milhares de páginas para estudarem
pela noite fora, Ruby propôs-lhe que tomassem uma porção de “khat” para
estimular a concentração.
Assim fizeram e no dia
seguinte apesar de a prova ter corrido às mil maravilhas aos dois, estavam como
se lhes tivesse passado por cima uma retroescavadora.
Ruby contou-lhe que quando
morria alguém na sua aldeia natal, se reuniam numa clareira no meio da
floresta, num local secreto com o corpo do morto jazendo num toro de árvore
liso e muito bem polido, envolto num pano branco tecido com raízes de plantas
que formavam como um lençol fino.
Começavam as danças e o
feiticeiro distribuía porções de “khat” pelos presentes e passadas algumas
horas o corpo levitava e voltava à vida ou se tinha que morrer definitivamente
eram chamados os espíritos para o virem buscar.
Luís achava a descrição
curiosa mas dizia-lhe que tudo quanto Ruby contava que via (a levitação e a ressurreição)
eram fruto dos efeitos do “khat”. O africano negava e jurava que era tudo verdade.
Foram progredindo no curso
e Luís cada vez mais se habituara a tomar “khat” a pretexto de tudo e de nada.
O “khat”, como Luís bem sabia, contém o
alcalóide chamado catinona, um estimulante similar à anfetamina, que causa
excitação e euforia e que produz uma dependência psicológica.
Luís nas aulas estava algumas
vezes de ressaca de “khat” e reparara que os efeitos se prolongavam durante
parte do dia, nomeadamente no momento em que tinha que falar em público, distorcendo-lhe
os sentidos e confundindo o cérebro e afectando os pensamentos e a comunicação.
Luís estudara que as
drogas alucinogénias, no plano das interpretações psicológicas ou
psicanalíticas se situam entre os fenómenos de modificação das emoções e
personalidade, superficialmente descritas como uma relação entre o ego e o
mundo exterior/interior, análogo às interpretações que se dá aos efeitos do transe
das religiões de “possessão” africanas.
Começou a ter medo desta
habituação e via que Ruby era muito mais moderado e que até já o tinha avisado
dos prejuízos que lhe poderia causar tal dependência.
Luís, no entanto, decidiu
que na pretensa “consulta” com Sandra, uma vez que era perante todos os seus
colegas e que desejava obter uma boa nota e impressionar o professor com a sua
argúcia, tomaria uma dose de “khat” de manhã antes de ir para a Faculdade.
(continua)
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