quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
domingo, 5 de janeiro de 2014
sábado, 4 de janeiro de 2014
O psiquiatra - Um breve conto
Luís era psiquiatra.
Desde muito novo gostava de se meter na vida dos outros, no bom sentido, é
claro.
Dava opiniões e bons conselhos aos amigos na escola, era ponderado e
observador e foi crescendo e inclinando-se para ser médico.
Ainda não sabia que
especialidade escolher até que quando teve que optar, decidiu-se por psiquiatria sem hesitação, por uma história que vou contar.
Tinha boa figura, alto,
magro, com mãos finas e dedos compridos, cabelo preto e um sorriso acolhedor,
uns olhos vivos e uma permanente actividade cerebral, fazendo e desfazendo
cenários.
Era de espírito aberto e
liberal, desempoeirado de ideias, sem preconceitos e um pouco desarrumado
quanto à sua pessoa, isto é, aparência e vestimenta. Eram detalhes secundários.
Um dia, ainda estudante,
e na Universidade, foi-lhe pedido pelo Professor da cadeira que simulasse um diagnóstico
psiquiátrico de uma suposta paciente.
Era de fóra e ninguém a
conhecia, por isso não havia hipóteses de truques. Este era o primeiro encontro com a turma aonde iria ser entrevistada por um aluno, que ainda não sabia quem seria.
Chamava-se Sandra, tinha uns
olhos verdes impressionantes, mas sobretudo uma boca de fazer parar o trânsito.
Beiços carnudos, corpo sensual e insinuante, um sorriso estudado, umas pernas bem
feitas que traçava com matreirice deixando ver as coxas até ao nível do
permitido pela decência, umas mãos bem tratadas e com unhas de côr-de-carne,
com um belo vestido que se colava ao busto e ao traseiro, fazendo ressaltá-los
convidativamente.
Luis tinha a ficha dela
com uns dados mínimos: insatisfação sexual com o companheiro, ansiedade,
descontrolo de comportamento, sentimento de culpa por infidelidades cometidas.
Os seus colegas-homens da
turma, diziam-lhe graças e animavam-no a tornar picante a sessão mas as colegas
femininas, esperavam com interesse que Luís se comportasse como um futuro
médico e profissional, pois era isso que lhe tinha sido pedido pelo professor.
(continua)
Mas tu interessas-te por mim?
Hospital da Luz, sala de
espera das consultas.
Senhora idosa que às
tantas declinou a idade como sendo de 89 anos, numa cadeira de rodas,
acompanhada pelo marido, também idoso, mas mexido.
- Desde que aqui cheguei
não me fizeram nada – disse a custo com dificuldades respiratórias.
- Anda, tens que almoçar,
vamos para casa – disse o marido com uma voz carinhosa.
Todos, deixámos de fazer
o que nos ocupava (eu no iPhone a mandar mensagens) e focámo-nos no casal, que
conversava como se nós ali não estivéssemos.
- Tu já sabes, é o teu
coração que está fraquinho. Por isso em casa estás melhor e não podes deixar de
almoçar…uma sopinha, uma frutinha, uma carninha, tens que te alimentar.
- Mas tu interessas-te
por mim? – disse ela com voz dôce, como se tivéssemos todos recuado uns 75 anos
na vida deste casal, perplexos e encantados.
- Como? – disse ele surdo.
Ela repetiu.
- Se estou a empurrar-te?
Ela repetiu em voz mais
alta e ele respondeu:
- Oh filha, então isso é
pergunta que se faça? Tu achas que não? Preferias ficar cá? Se calhar
tratavam-te melhor…
Aí, uma senhora
levanta-se e avança com uma banana.
- Tome lá, minha Senhora,
que é o que eu tenho.
- Não, muito obrigado.
Não gosto muito de bananas, mas desejo-lhe muita saúde.
E lá partiram os dois…
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
No ano passado
(Faz sonhos maravilhosos e amanhã de manhã, leva-os contigo)
Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:
"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".
Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...
Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.
Mário Quintana
sábado, 28 de dezembro de 2013
O tempo de um ano que passou
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
As vantagens e o veneno de perdoar
Todos temos razões para estar lixados com alguém.
Quer tenha sido alguma crítica, discussão, mentira ou traição, o mais provável é que todos tenhamos um portfolio de pessoas que nos magoaram e nos causaram dor. Ficamos ressentidos e sinceramente não nos apetece particularmente perdoar quem nos fez sofrer. Mas o que será que torna tão difícil perdoar quem nos magoou?
Muitas vezes achamos que ao perdoar estamos a deixar passar em branco uma injustiça. Estamos a deixar a outra pessoa sair incólume, mesmo quando nos causou tanto sofrimento. Contudo… que justiça é manter-nos agarrados à dor? Que espécie de castigo queremos infligir ao outro com a nossa intransigência?
Outras vezes, achamos que é preciso acontecer alguma coisa extraordinária para perdoar outra pessoa. É preciso alguma inspiração ou intuição caridosa para avançar. Mas mais vale puxar uma cadeirinha para nos sentarmos, porque tais impulsos altruístas demoram a chegar.
Temos ainda um gosto especial em desempenhar o papel de vítima. Tendo sido magoados, por vezes retiramos alguma espécie de gozo da autocomiseração e do sentimento de impotência. Preferimos o conforto de ter razão ao desconforto da reconciliação.
Mas olhando objectivamente…a irritação, a dor e o ressentimento não alcançam nada. Só nos impedem de viver melhor. Ficar agarrado ao ressentimento é como comer um prato de veneno e esperar que faça mal à outra pessoa. Quem sofre não são as pessoas que nos magoaram, somos nós.
A forma de nos libertarmos desse ressentimento é simplesmente – e difícilmente – perdoarmos quem nos magoou. Largar a dor, largar a culpa, largar o ressentimento, e perdoar. Para começar um ressentimento são precisas duas partes, para terminá-lo basta apenas uma.
Ao perdoar outra pessoa, libertamo-nos. Ficamos livres do passado – do que nos magoou e fez sofrer – e ficamos abertos ao presente, a tudo o que pode acontecer de surpreendente e fascinante. É uma espécie de dieta imediata: perdemos quilos e quilos de sofrimento que trazíamos a mais.
Perdoar também liberta a outra pessoa. Não só a outra pessoa pode sentir-se melhor ao estar connosco, como ela ganha capacidade de perdoar outros. Quem faz a experiência de ser perdoado tem mais facilidade em perdoar outras pessoas.
Contudo perdoar não implica esquecer a dor que os outros nos provocaram, nem que seja porque o que esquecemos ou não, depende pouco da nossa vontade. O que depende de nós é deixar de lado as culpas e ressentimentos, e perdoar.
Há quem ache que o perdão é uma coisa utópica ou infantil, mas não podia estar mais longe disto. O perdão não é para meninos nem para quem vive em mundos de fantasia. É para pessoas com maturidade e com coração magnânimo. É para quem quer uma vida melhor.
É altura de largar o peso desnecessário que andamos a carregar. É altura de perdoar.
Um Feliz Natal para todos!
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Quem passou pela vida em branca nuvem
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu:
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
Francisco Otaviano de Almeida Rosa
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Tu não és especial
Apesar dos miminhos que recebeste dos teus pais, apesar de teres amigos que se riem das tuas piadas e apesar de já teres passado por muita coisa… não caias em ilusões: tu não és especial.
Não és especial porque andaste naquela universidade ou tens aquele trabalho. Não és especial porque tens boa aparência ou porque há alguém que gosta de ti.
És apenas mais um em 7 biliões, por isso escusas de andar por aí como se o mundo te devesse alguma coisa. Essa cara de vinagre fica-te mal, e esse ar só estraga o ânimo à malta. A sociedade não te deve um trabalho, a família não te deve uma casa e os teus amigos não te devem atenção. Nada disso: o mundo não te deve nada, és tu que deves muito ao mundo.
Deves ao mundo o teu tempo, energia e inteligência. A tua melhor intenção e o teu melhor empenho.
Trabalhar porque acreditas que o teu trabalho é importante, não porque tens um estatuto a manter. Estudar pelo entusiasmo de aprender e não apenas para passar nos exames. Namorar porque adoras a pessoa que está contigo, não porque não aguentas estar sozinho. Viajar porque queres viajar, não para teres fotografias para mostrar. Cuidar bem dos outros porque queres o bem deles, não para provares que és bonzinho.
Podes tentar fugir disto, claro. Podes ficar escondido atrás das cortinas e lamentar-te de todas as dificuldades que tens pela frente. Podes ficar à espera que alguma coisa te venha salvar…mas no fim tens apenas que decidir uma coisa: o que vais fazer com cada hora do teu dia?
O que raio vais fazer da tua vida?
O mundo precisa de ti. E tu precisas de viver o melhor que tens.
A tua vida é demasiado importante para depender de te sentires especial.
O caminho vai ser longo e difícil. Vais ser criticado e vais falhar… mas se apesar de cada falhanço, cada crítica e cada sofrimento continuares a dar o teu melhor… então é porque te tornaste em alguém especial.
In INESPERADO
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Resposta do meu primo Luis Bernardo - Rainha Dona Carlota Joaquina
Meu Caro Manuel,
Como me pediste na tua
anterior carta, o primeiro dos encontros que tive foi com a Rainha Dona Carlota Joaquina
que comigo esteve a conversar e cujos pormenores te repasso.
Algumas das observações
são fruto da consulta de documentos aqui na Biblioteca do Mundo que contém um
manancial digno de informação completo sobre a vida de cada pessoa.
Assim, D. Carlota
Joaquina era a filha primogénita do Rei Dom Carlos IV de Espanha e de D. Maria
Luísa de Parma, Rainha de Espanha e sua Mulher. No dia em que partiria para Portugal, D. Carlota
Joaquina pediu à Mãe para que lhe fizessem uma pintura sua com um vestido encarnado
para ser pendurado na parede, em
substituição do quadro da infanta D. Margarida, sua irmã (à qual D. Carlota dizia superar
em beleza). (Ver fontes: Wilkipédia)
Teve o seu casamento
arranjado, em 8 de Maio de 1785 (com apenas dez anos de idade), com o Infante Português, D. João Maria de Bragança (futuro Dom João VI), naquele momento,
Senhor do Infantado e Duque de Beja, sendo o segundo filho de D. Maria I,
Rainha de Portugal (que mais tarde enlouqueceria).
Para realizar o projeto
chamado de “Florida blanca” pelo qual se conseguiria uma aliança duradoura
entre a Espanha e Portugal foi assinado um tratado no qual se estabelecia dois
casamentos entre Infantes Espanhóis e Portugueses: a Espanha daria ao Príncipe
Dom João a princesa D.Carlota Joaquina; e Portugal daria ao Príncipe Dom Gabriel, filho
do Rei Carlos III, Dona Mariana Vitória irmã de Dom João; na época destes
acordos Dona Carlota tinha apenas 8 anos de idade e Dona Mariana tinha 15; estes
casamentos levaram dois anos para se consumarem e só ocorreram após a assinatura
do "tratado" entre a Rainha D.Mariana Vitória de Portugal e o Rei Carlos
III de Espanha.
Em 17 de Março de 1785, o Conde de Louriçal que era o Ministro Português
na corte de Madrid pediu a mão de Dona Carlota em casamento em nome do Infante Dom
João; e o Conde de Fernán Nuñes, Embaixador Espanhol em Lisboa, pediu a mão da Infanta
Portuguesa, Dona Mariana Vitória em nome do Príncipe Dom Gabriel.
D.Carlota
teve que submeter-se aos chamados "exames públicos" para o acordo
matrimonial, quando respondeu durante 4 dias, cerca de uma hora por dia, a
perguntas sobre religião, geografia, história, gramática, língua portuguesa, espanhol
e francês e as apresentações dos dois casais aconteceram no dia 8 de Maio de
1785 em Vila Viçosa, na fronteira com a Espanha.
No dia seguinte, o casamento foi
aceite pela Igreja através da benção dada por um Cardeal. Os festejos duraram
quatro dias: durante o dia realizavam-se torneios e touradas, e à noite havia saraus
musicais que na época se chamavam "serenins", bailes e representações
líricas.
Durante estes festejos, numa das noites de núpcias, a Princesa D.Carlota
agrediu o marido, mordendo-lhe fortemente a orelha e atirou um castiçal à sua
cara. Depois deste episódio, foi feito uma acta adicional ao contrato de
casamento, permitindo que Dona Carlota pudesse ter a sua primeira relação
sexual com o marido aos 14 anos, podendo antecipar caso assim ela quisesse ou
seja: se ela desejasse fazer sexo antes dos 14 anos, poderia.
O Padre José
Agostinho de Macedo, imprimiu uns folhetos contando este caso da noite de
núpcias de forma brincalhona e sarcástica com o titulo "O gato que cheirou
e não comeu" (…); a Princesa, indignada com o escrito mandou dar uma tareia
de chicote nas nádegas do padre, despi-lo na praça pública e aplicar uma
"seringada" de pimenta do Reino no seu clérigo traseiro e depois
soltá-lo nu no Bairro das Marafonas.
O Padre José Agostinho foi socorrido por
uma actriz cómica do Teatro da Rua dos Condes, Maria da Luz que depois veio a
ser amante do vigário humilhado.
O matrimónio, é claro, foi um fracasso. A vida
sexual do casal só começou realmente cinco anos depois, quando D.Carlota teve a
menstruação pela primeira vez.
Em 1788, com a morte do
herdeiro da Coroa portuguesa, o primogénito D. José, Príncipe da Beira, D. João
tornou-se o Príncipe herdeiro. Por loucura da sua Mãe, tornou-se Regente de
Portugal de facto em 1792, e de jure em 1798, e, por conseguinte, D.Carlota
tornou-se Princesa-Regente consorte de Portugal.
Esta mudança de
acontecimentos conveio perfeitamente ao carácter ambicioso e até violento de D.Carlota.
Desde cedo procurou intrometer-se nos assuntos de Estado, procurando
influenciar as decisões do marido, muitas das vezes não se lhes submetendo;
começou a desprezá-lo, recorrendo até à chantagem, à intriga e à pressão conjugal
sempre que não conseguia os seus intentos.
“A mulher era quase
horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns
olhos miúdos, a pele grossa que as marcas de bexiga ainda faziam mais áspera, o
nariz avermelhado. E pequena quase anã, claudicante (…) uma alma ardente,
ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do
sexo alvoroçados.” Como refere, Octávio Tarquínio de Sousa, na sua História dos
Fundadores do Império do Brasil.
Por ser afastada das
decisões muitas vezes, D.Carlota Joaquina organizou à sua volta um partido com
o objectivo de tirar as rédeas do poder ao Príncipe Regente, prendendo-o e
declarando-o incapaz de cuidar dos assuntos do Estado, tal como a sua Mãe.
Contudo, em 1805 esse
partido foi descoberto: o Conde de Vila Verde propôs a abertura de um inquérito
e a prisão dos implicados, e a Princesa só não pagou mais caro porque D. João,
desejando evitar um escândalo público, opôs-se à sua prisão, preferindo
confinar os movimentos da Mulher ao Palácio de Queluz, enquanto ele ia morar
para o Palácio de Mafra, separando-se dela. Os seus inimigos afirmavam que
somente cinco dos seus nove filhos (incluindo D. Miguel I) eram filhos de Dom
João VI, já que Carlota Joaquina era uma notória ninfomaníaca.
Descrevendo a sua
fealdade, os seus cabelos sujos e revoltos, os seus beiços muito finos e
arroxeados adornados por um buço espesso, os seus dentes desiguais, a mulher do
Embaixador Francês, a Duquesa de Abrantes, Laura Junot, afirma: "Não podia
convencer-me de que ela era uma mulher e, entretanto, sabia de factos, que
provavam fartamente o contrário".
Diz outro historiador que
"passava por ser de ânimo perspicaz e de dotes elevados de espírito,
porém, as suas qualidades morais não mereceram igual apreço. Ambiciosa,
violenta, pretendeu logo dominar a vontade de seu marido, e dirigi-lo nos negócios
internos e nos do Estado".
Não se submetendo o Regente, começou a olhá-lo com
desprezo e desdém, convertendo o lar doméstico em contínua luta, cujos menores
incidentes eram discutidos e comentados na praça pública. A desgraçada situação
a que chegou Portugal, em 1807, fez com que o casal se reunisse por algum
tempo, e a esquadra, que em Novembro conduziu o Príncipe Regente e D. Maria I
ao Brasil, levava também a bordo a astuciosa Princesa.
No Rio continuaram a
viver separados, cada um no seu palácio, reunindo-se apenas quando eram
obrigados a comparecer nalguma solenidade pública. Numa carta, Dom
João escreve à sua irmã contando que D.
Carlota Joaquina teria rapado os cabelos devido a uma infestação de piolhos.
D. Carlota Joaquina não
se resignava à inação política a que se via condenada, decidida, como estava, a
dominar como Soberana; e começando a lavrar no Rio da Prata os primeiros
sintomas de independência, concebeu o projecto de erigir para si própria um
trono nas províncias espanholas da América, ou pelo menos, de governar como Regente
em nome do seu irmão Fernando VII.
Auxiliada pelo vice-almirante inglês Sydney
Smith, e não encontrando oposição do marido, foram enviados agentes ao Rio da
Prata, onde se formou um grande partido. As intrigas principiaram então a
desenvolver-se mais cruéis e perturbadoras. O ministro inglês, Lord Stanford,
insinuou a D. João que o Vice-Almirante lhe desonrava o leito conjugal.
D. João pediu a Londres a
transferência do vice-almirante. Satisfeito o pedido, Sydney Smith retirou-se,
vindo a substitui-lo o almirante de Courcy. No entretanto, as divergências eram
enormes. No próprio governo havia correntes muito opostas. D. João, cada vez
mais abatido e com medo da mulher, pedia que não a contrariassem sempre que
suas exigências não fossem impossíveis de satisfazer.
Anulados afinal os planos
da Rainha, nem assim ela esmoreceu. Procurou ser agradável aos castelhanos, e
conseguir, na falta de seu pai Carlos IV e de seu irmão, prisioneiros em
França, ser nomeada regente de Espanha, e vir talvez a ser a herdeira de Carlos
IV, abolindo-se a lei sálica. Para realizar o projeto, teve de sustentar acesa
luta com o Embaixador inglês, tendo tido a astúcia de conseguir que o governo
da regência lhe permitisse enviar secretamente ao General Elio, que estava em
Montevidéu, víveres e dinheiro, para o que não hesitou em vender as jóias. No final,
o sonho dissipou-se.
Dona Leopoldina, uma das
suas noras, que casou com Dom Pedro I, Imperador do Brasil, quando a viu pela
primeira vez, achou-a tão feia que "baixou os olhos como não querendo
voltar a vê-la; as marcas da varíola, o corte de cabelo, cordões e mais cordões
de pérolas e pedras preciosas enroladas nos seus cabelos, pendendo de cachos
gordurosos, como cobras".
Foi durante a estadia no
Rio de Janeiro, entre os anos de 1808 e 1821, em que D. João VI pôde realmente
governar, pessoalmente, o Império Português, que D.Carlota Joaquina demonstrou
muitas das facetas da sua personalidade.
É um facto sabido que tinha
um fetichismo confessado em relação a sapatos: Assim como alguns contam
carneirinhos para dormir, há quem diga que D.Carlota contava sapatos.
D.Carlota tinha, sem exagero, dezenas de
pares de sapatos! A sua Mãe, como presente de casamento, dera-lhe um par de
sapatos para cada dia do ano. O noivo Real não deixou por menos, presenteou-a
com uma quantidade inesquecível de sapatos, onde se destacavam os encarnados e
os de salto alto. Homem sábio o Rei, porque, os estudiosos do assunto juram que
a côr encarnada é a côr da sedução.
Mas, certamente não levou isto tão a sério,
já que os mesmos estudiosos ainda nos lembram que o encarnado é também a côr do
poder e da dominação. D.Carlota com o seu instinto aguçado aprendeu desde
menina que os sapatos de salto alto e ainda por cima encarnados, eram muito
poderosos. Como a côr possui uma intensa força de comunicação, a vaidosa D.Carlota
usava-os - altos - impedindo que alguém esquecesse quem ela era. Como se fosse
possível.
Viajantes, surpreendiam-se com a quantidade de sapatarias existentes
no Rio de Janeiro, cheias de trabalhadores aonde, em cada seis habitantes,
cinco andavam descalços. Mais ainda se espantavam, ao observarem que as
senhoras brasileiras, usavam sapatos de seda para andar nas calçadas de pedras
desniveladas e mal cuidadas, esgarçando em pouco tempo o tecido dos sapatos.
D. Carlota viveu alguns
anos afastada da política, sempre separada do seu marido, que então já havia
sido aclamado Rei, por ter morrido D. Maria I em 1816, até que a revolução do
Porto em 1820, que trouxe para a Europa a Família Real, pôs novamente em
evidência a Rainha, reunindo por algum tempo o casal.
Aliada aos frades, aos
nobres, aos que se mostravam pouco simpáticos para com o novo regime, D.
Carlota urdiu uma conspiração chamada “da rua Formosa”, destinada a obrigar o Rei
a abdicar e a extinguir a Constituição. Tendo este plano falhado, as Cortes de
15 de Maio de 1822 decidiram deportar a Rainha para o palácio do Ramalhão, por
ela se recusar a jurar a Constituição, alvitre que ela aceitou com júbilo, pois
lhe permitia continuar a sua obra perturbadora.
Opondo-se abertamente à
Revolução liberal do Porto, de 24 de Agosto de 1820, foi a figura mais notável
do País a recusar-se a jurar a Constituição de 1822, juntamente com o
cardeal-patriarca de Lisboa, D. Carlos da Cunha e Menezes.
Neste retiro do Ramalhão
tramou ainda a queda da Constituição e servindo-se de D. Miguel, que ela
educara, e com quem vivia com grande cumplicidade, conseguiu realizar o
movimento conhecido por Vila-Francada em 26 de Maio. Extinta a Constituição e
dissolvidas as Cortes, foi levantado o desterro da Rainha, e D. João VI foi buscá-la
ao Ramalhão, conduzindo-a ao Paço da Bemposta.
Pouco tempo, porém, durou
a harmonia entre o casal, porque a Rainha mudou a sua residência para Queluz, e
tornou-se a cabeça visível do partido absolutista que promoveu a Abrilada em 30 de Abril
de 1824.
Tendo a Rainha tomado parte manifesta no movimento, quando D. João VI,
apoiado pelos Embaixadores Francês e Inglês, se decidiu a exilar D. Miguel,
ordenou que a sua Mulher se recolhesse ao paço de Queluz, e nunca mais
aparecesse na Corte.
Sentindo a morte próxima
(talvez porque fosse lentamente envenenado), D. João VI nomeou um Conselho de Regência
para lhe suceder depois da sua morte, o qual deveria escolher o herdeiro do
trono português e ao qual presidia a sua filha D.Isabel Maria de Bragança —
retirando desta forma à sua Mulher uma prerrogativa que desde sempre na
história portuguesa tinha cabido à Rainha-viúva: o exercício da Regência do Reino
durante a menoridade ou ausência de herdeiro, no país.
O documento que constituiu
o Conselho de Regência tem sua autenticidade posta em causa, pois o Rei —
segundo afirmam os médicos e estudiosos que analisaram as suas vísceras,
enterradas num jarro de porcelana chinesa debaixo de uma lage, na capela dos
Meninos da Palhavã, no Mosteiro de São Vicente de Fora, e a grafologia da sua
assinatura — já se encontrava, alegam, morto nessa data.
A 10 de março de 1826 morreu
D. João VI, tendo o Conselho de Regência sido presidido pela sua filha, a Infanta
D. Isabel Maria, e composto pelos seguintes Membros: o Cardeal Patriarca, o Duque
de Cadaval, o Marquês de Valada, o Conde dos Arcos e os seus Ministros de
Estado.
D. Carlota Joaquina, instituiu uma Ordem
exclusivamente destinada às Damas, com a autorização do Príncipe Regente, seu
marido, por decreto de 4 de novembro de 1801, com a designação de Ordem das
Damas Nobres de Santa Isabel, cujos estatutos foram confirmados pelo Alvará de
25 de abril de 1804.
Durante o governo de D.
Miguel, que ascendeu ao trono em 1828, não viria a ter papel relevante na
governação daquele que fora, para muitos, o seu filho predilecto, pois morreu
(ou suicidou-se) em 1830, em Queluz.
De resto, o próprio Príncipe não a mandou
chamar do desterro logo que subiu ao trono, pelo que morreu sózinha, esquecida,
triste e amargurada. Segundo alguns historiadores, este facto é um dos vários
indicadores de que teria existido um afastamento gradual entre a Mãe e filho
nos últimos anos da sua vida.
E aqui tens, meu Caro
Manuel, uma vida triste de uma Rainha que poderia ter tido tudo e gozado da
excelência de dois grandes países, à época: Portugal e o Brasil.
Um afectuoso abraço muito
amigo do teu primo
Luis Bernardo
sábado, 14 de dezembro de 2013
Era uma vez uma formiguinha chamada Faniquita
Era uma vez uma
formiguinha chamada Faniquita.
Era bonita, inteligente e
laboriosa. Tinha predicados invulgares e no formigueiro estava encarregue de
escrever poesia, contos e era como se fosse uma ministra da cultura.
Deliciava-se com estas funções e era muito respeitada e amada.
Bondosa, a nossa
Faniquita, também socorria as irmãs de formigueiro que estavam doentes, pois
era enfermeira. Casara-se com o formigo Mingau, tiveram filhos e formavam uma
família feliz.
O formigueiro, mal
dirigido, começara a derrapar e a qualidade de vida a piorar. Todos se
queixavam e empobreciam a olhos vistos e sobretudo os mais velhos passavam
muito mal.
A nossa Faniquita cada
vez trabalhava mais e o tempo para ela ia escasseando e sobretudo o espírito
não estava lá com tantas preocupações a ter que gerir e por isso a parte
cultural do formigueiro, notava essa lacuna e lamentava-se. Mas, como ela dizia,
havia outras prioridades.
Um dia, caiu doente de
exaustão, nada de grave, mas obrigou-a a ficar confinada ao seu quarto e a ter
algum isolamento para descansar. Aproveitou para reflectir, para olhar para
cada área importante da sua vida com tranquilidade e pragmatismo e foi tirando
algumas conclusões:
- existe a dor e o
sofrimento;
- existe a alegria e a
bonança;
- existe o inevitável, mesmo
que gostemos ou não mas também as forças para o irmos ultrapassando;
- existe um caminhar paulatino
para a velhice, para os incómodos de saúde, de menos lucidez e paciência, de
algum abandono para uns ou de solidão interior;
- existe este tic-tac
enervante dos segundos, dos minutos e das horas…imparáveis, cinzentas,
repetitivas..ainda não se encontrou o elixir da longa vida, mas há grandes
progressos para se morrer, um dia, em paz;
- existe o ódio, a
intolerância, a perseguição, a prática voluntária do mal que se causa a
terceiros;
- existe a bondade,
generosidade, entrega e altruísmo e o esquecimento de si mesmo para nos
dedicarmos aos outros na prática do bem;
- existe o amor, quer na sua
expressão física, mas também na sublime sensação de sentirmos um “calor
interior” que nos conforta e alegra e nos faz felizes.
Em tudo isto a Faniquita
pensou e decidiu duas coisas:
- Deixar-se levar ao sabor do que vier e aconteça, sem esta actividade trepidante e cega, que esfalfa e cujos resultados são tantas vezes discutíveis e até ineficazes, ainda que bem intencionados. Claro, com a atenção suficiente para evitar o imponderável que fere e magoa e pode causar prejuízos irreparáveis;
- Passar a ter
mais frequência no desempenho do seu múnus de formiguinha com o pelouro da
cultura e premiar o formigueiro com a sua escrita e ideias que através dela,
enriqueçam a comunidade.
Assim sendo, Faniquita
apressou-se a tudo isto comunicar a Mingau que enlaçando-a lhe deu um beijo,
pois para ele e para os filhos estas eram decisões promissoras de felicidade.
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